Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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- Propriedades emergentes e a mente.
- Leitura a frio vs mediunismo/etc.
- O que é o cepticismo?
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Pensar, Depressa e Devagar
E o trabalho que ele tem para apresentar é extenso e cientificamente correcto. Portanto, é preciso o leitor preparar-se para uma leitura longa, mas recompensadora.
De facto, este é um livro que deve ser de leitura obrigatória para todo o pensador critico, ainda que como o próprio autor avisa, conhecer muitos dos erros aqui descritos possa não ser o suficiente para os evitar. Mas ajuda a reconhecer nos outros quando os virmos. Pode ser que isso seja bom. Eu espero que sim.
Para sumarizar rápidamente o conteudo, começarei por dizer que Kahneman postula dois sistemas congnitivos concorrrentes para modelar o processo como geramos crenças e tomamos decisões. São, segundo a sua nomenculatura, o sistema 1 e o sistema 2.
O sistema 1 corresponde ao que se chama vulgarmente por intuição. Tem como caracteristicas: o facto de ser rápido - chega a decisões e conclusões muito depressa; confiante ao ponto de considerar que não há mais nada que aquilo que "está à vista"; leve, porque não requer muito esforço para ser usado; é tendencioso, inconsistente e manipulável.
O sistema 2 é o sistema que é usado no pensamento critico ou na ciencia e desenvolvimento de tecnologia. É pesado pois requer um esforço que se traduz mesmo em um maior gasto de energia pelo cerebro; é "preguiçoso", pois não se mete se não for activamente invocado; é leeeeennntooo, demora uma data de tempo a processar e a gerar informação útil para tirar uma conclusão; é menos susceptivel a "bias" e manipulação. Procura ser consistente com tudo o que existe na sua posse e descarta hipoteses ad-hoc. Segue o "estado da arte" a que pode aceder. Lida com alternativas.
O livro está cheio de exemplos de como funciona um e outro e das experiencias que foram feitas para se chegar às conclusões a que se chegaram. Alguns dos erros e processos disfuncionais que o livro relata são:
- Aversão à perda - É a tendencia para escolher uma opção pior por se dar mais valor ao que se perde do que ao que se ganha.
- Enquadramento - É a têndencia gerada pela forma como as coisas são apresentadas e pode fazer uso de outros problemas como a aversão à perda.
- Priming - É a tendencia (em qualquer sentido) criada apenas pelo contacto com uma ideia, mesmo sem que tenhamos consciencia disso. Por exemplo pessoas que foram postas em contacto com a palavra dinheiro sentaram-se mais longe umas das outras numa sala de espera que as do grupo controle. Por outro lado, esforçaram-se mais na entrevista seguinte. Isto só por ver no fundo a palavra "money" escrita.
- Ancoramento - É a tendencia de usar como referencia o primeiro valor proposto.
- Confundir a facilidade com que nos lembramos de uma coisa com a frequencia com que ela acontece.
- Não nos preocuparmos com as probabilidades base de um acontecimento, que possam já ser conhecidas, quando procuramos determinar a sua probabilidade (ver estatistica Bayesiana acerca de probabilidades à priori).
- Ignorar ou exagerar probabilidades pequenas.
- Falácia narrativa - A tendencia para aceitar uma narrativa plausivel como um conjunto de regras de causalidade que explicam deterministicamente um resultado. Depois das coisas acontecerem elas parecem sempre obvias, ainda que fossem (em muitos casos) impossíveis de prever.
Por descrever e demonstrar tão bem todos estes erros na tomada de decisões, Daniel Kahneman mostra como um dos axiomas basicos da economia está errado. O ser humano não é sempre racional.
Donde a importancia do trabalho de Daniel Kahneman para a economia. Não é possível pura e simplesmente ignorar os resultados das suas investigações e as suas implicações para as teorias economicas.
Ter recebido o prémio Nobel da Economia parece-me um bom sinal da abertura às suas descobertas.
Para outra critica ao livro feita do ponto de vista da economia proponho ir aqui.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Outra vez más noticias sobre a influencia das teorias da conspiração.
-Procura explicações simples,
-Capaz de fazer previsões testáveis por pessoas competentes,
-Requer confirmação independente,
-Tem de ser consistente com os dados existentes.
-Funciona.
Teoria da conspiração:
-Procura explicações elaboradas, acrescenta entidades extraordinárias (cuja existencia não é demonstrável e não são necessárias para explicar nada), "a gosto", e alega processos complexos ignorando o peso que isso acresce ao onus da prova.
- Não faz previsões testáveis.
- Requer mesmo que se possa apelar para o facto de não ser possível confirmação independente, senão não era conspiração, certo?
- Opõe-se frequentemente a explicações mais simples baseados nos dados existentes. Requer a existência de dados ocultos, fantasiados.
- Funciona tão bem como a lotaria para acabar com a pobreza. Proporciona - no tipo de raciocinio que propõe - que tudo possa ter uma ou várias histórias alternativas, vagas e intestáveis (histórias alternativas consistentes, testáveis e concisas é bom) das quais se escolhe a preferida por intuição. Em boa verdade, todas as teorias podem ser adornadas com entidades e processos extraordinarios e por esse caminho tudo pode ser uma conspiração cujo objectivo é o que se quizer.
Então como são possiveis os numeros que esta noticia do Público avança para os crentes em conspirações variadas? Será uma conspiração para nos fazer crer que o povo de um dos paises mais influentes no mundo está pejado de conspiracionistas?
É possivel porque as teorias da conspiração são intuitivamente apelativas. Estamos programados para ser mais sensiveis a perigos que aquilo que é real e temos a tendencia de aumentar a probabilidade desses perigos. Gostamos de nos sentir numa posição de superioridade intelectual, de controlo e acreditamos que isso é bom pelo conforto imediato que trás - e logo acreditamos! Gostamos de sentir que estamos na posse de informação previligiada. Depois é deixar a odisseia do "confirmation bias" entrar em acção, um pouco de apelo à ignorancia e como somos cegos à própria cegueira, voilá.
Em resumo: Explora uma data de erros sistemáticos em que somos capazes de cair se não procurarmos activa e conscientemente evitá-los.
No entanto, se envolvermos processos racionais mais lentos e precisos, se usarmos pensamento critico e cientifico - mais cansativos também - podemos compreender que a maioria dos apelos à conspiração populares são ocos.
Por mim tenho sérias dúvidas que haja repteis inteligentes entre nós mascarados de humanos, não existe o anti-cristo e muito menos se chama Obama, e o aquecimento global é verdade. Mas mais importante que a minha crença relativa nas coisas é a sua adequação às evidencias e ao resto que sabemos. E o processo cientifico proporciona uma melhor explicação. Recomendo que se volte a atentar na diferença entre os dois acima enunciada.
De todas as teorias da conspiração populares nos dias de hoje, uma das que considero mais perversa, é a negação do efeito dos gases de origem artificial no aquencimento global. Por isso deixo aqui o meu F.A.Q.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Mais uma confirmação de que o aquecimento global é antropogénico.
- traduzido do abstract de "Human induced global ocean warming on multidecadal timescales" publicado na Nature Climate Change.
Neste artigo encontramos os resultados obtidos através de correr uma boa quantidade de modelos climáticos, com e sem "forcing" antropogénico, para compreender os resultados das medições observadas da temperatura dos oceanos.
São usadas novas medições e estimativas da temperatura nestes modelos, em resposta de trabalhos anteriores que mostravam haver "bias instrumental" nos conjuntos de dados.
O facto do resultado deste novo trabalho apontar no mesmo sentido que trabalhos anteiores, é tal como diz no abstract, de extrema importancia, pois mostra a convergência de resultados e corrobora previsões teoricas. Ainda mais quando usa um aparato generoso de modelos.
Parece que ainda há muita gente que acha que pode simplesmente olhar para os dados e decidir se o aquencimento existe ou não. Pior, parecem existir muitas pessoas que pelo mesmo processo defendem que se lhes parece que o homem não tem capacidade para alterar as propriedades do nosso planeta é porque isso deve ser verdade e que isso é suficiente para estabelecer a crença de que os modelos matemáticos são treta.
As coisas não são assim tão simples e existem teorias e formulas derivadas dessas teorias que é preciso usar para saber para onde apontam as evidências. E é preciso avaliar os dados e resultados desses dados com método para extrair conclusões racionais, não chega olhar e atirar se é significativo ou não. Também para isso existem formulas. E depois é preciso juntar tudo e interligar as formulas todas e ver o que dá. Isso são os modelos. Mas são tão complicados que requerem bons computadores para os correr. Achar que se consegue chegar a um melhor resultado olhando e palpitando é ridiculo e anti-cientifico.
Quem o faz devia no minimo mostrar que é capaz de fazer esses calculos mentalmente, mas naturalmente que sabemos que o que fizeram foi mandar as formulas às urtigas e dizer o que intuitivamente lhes parece ser verdade. Mas se intuitivamente nós soubessemos o mesmo que a ciencia nos pode dar, não tinhamos andado a viver ao relento na savana durante 200000 anos. Parece que há quem ainda não tenha percebido a diferença.
A negação da intervenção do homem no clima terrestre é uma pseudociencia. E, como as outras, ao que tudo indica, uma que não augura nada de bom a vir de lá.
Não está nas mãos de pessoas individuais alterar o curso dos acontecimentos que estão a dar origem às alterações climáticas. São precisas mudanças de politica a nível mundial. Mas para isso precismos que as pessoas, individualmente, compreendam o que se está a passar. Só assim podem formar massas que sejam capazes de pressionar quem lidera o mundo.
Infelizmente, este é um tema altamente politizado, um em que está demonstrado que as pessoas seguem a cor politica do grupo onde estão inseridas para evitar conflitos ( mais uma vez... é preciso separar a discussão de ideias de discussão pessoal...).
Os ciêntistas estão, em grande maioria (ver aqui nos EUA por exemplo) , de acordo que o aquecimento é antropogénico - o que sugere que não estando os cientistas livres de tendencias, a ciência continua a ser um mundo onde se conseguem gerar consensos. No entanto o publico divide-se, e parece polarizar-se cada vez mais com o aumento da literacia cientifica, algo que foi uma surpresa, já que se esperava que o aumento da literacia cientifica aumentasse a capacidade de escolher correctamente.
Não basta que os negacionistas se apoiem em teorias da conspiração, em critica cega dos modelos climáticos (sem mostrar onde modelos bem concebidos podem resultar num aquecimento como o que estamos a ter sem recorrer a "forcing" com CO2). Não basta que se apoiem em credos tão ingénuos como "o homem não consegue mudar o planeta". Aparentemente, a envolvente social é mais forte e é capaz de tornar este tipo de argumentação (que não aceitariam em qualquer outra circunstância) como sendo suficiente.
Não havendo maneira de fugir ao "bias" completamente, eu defendo que o melhor método encontrado para o evitar foi o cientifico. E este requer a confirmação independente, a formação de programas de investigação, e o estabelecimento de teorias pela convergencia de resultados. Requer consensos. Isto tudo temos na ciência que estuda o clima. Na realidade o aquecimento global é a confirmação de uma previsão cientifica feita ainda no tempo de Napoleão. E fazer previsões é uma das marcas caracteristicas da ciência.
É preciso que olhemos, não para o que o publico pensa, seja este um publico atento ou não, mas para o que os cientistas pensam. É preciso largar os argumentos fracos e tentar perceber porque os cientistas dizem o que dizem. E a comunicação social e divulgadores de ciencia deviam antes de mais ter a preocupação de fazer isso, em vez de pretender fazer ciência climática em seus sites e blogues.
Acabar com esta tragédia da percepção do risco pelos leigos devia ser um objectivo da divulgação cientifica. E a cada um de nós pede-se que seja capaz de pensar por si (isto é, não aceitar uma ideia só para ser mais aceite socialmente) e que por favor o faça. E que tenha a mente aberta. Não essa, a outra.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Energias sem energia
sábado, 12 de maio de 2012
O Empiricismo Lógico está morto?
E os filósofos?
Bem, isto é o que diz a Stanford Enciclopédia of Philosophy:
Even in its heyday many philosophers who on either doctrinal or sociological grounds can be grouped with the logical empiricists did not see themselves that way. We should not expect philosophers today to identify with the movement either. Each generation finds its place by emphasizing its differences from what has gone before. But the spirit of the movement still has its adherents. There are many who value clarity and who want to understand the methodology of science, its structure, and its prospects. There are many who want to find a natural home within a broad conception of science for conceptual innovation, for logic and mathematics, and for their own study of methodology. And importantly there are those who see in science a prospect for intellectual and social reform and who see in their own study of science some hope for freeing us all from the merely habitual ways of thinking “by which we are now possessed” (Kuhn 1962, 1). These are the motives that define the movement called logical empiricism. As Twain might have said, the reports of its death are greatly exaggerated.
http://plato.stanford.edu/entries/logical-empiricism/#Imp
sábado, 16 de julho de 2011
Pensamento, apresento-te o teu pensamento.
Pensamento crítico não é simplesmente criticar isto ou aquilo,
Pensamento crítico é antes de mais tornar o processo de pensamento acerca de algo um processo consciente. É um processo metacognitivo – é pensar sobre o pensamento. Conscientemente fazer as perguntas certas em cada passo do processo do raciocínio, dissecando um argumento nas suas pequenas partes.
Tornar o processo consciente é a maneira de conseguir uma abordagem sistemática e metódica de qualquer argumento.
Ao fim e ao cabo é por isso que temos consciencia (ver António Damásio, O Livro da Consciencia). Porque nos permite tomar melhores decisões. E é tirar o máximo partido do processo consciente do raciocínio que se pretende numa abordagem critica. Embora com mais esforço, é verdade, do que se aceitarmos a primeira coisa que nos vem à cabeça. Usar técnicas de pensamento crítico requer maior esforço do que não usar e naturalmente leva mais tempo. Mas chega a melhores conclusões. De facto implica perder tempo, entre outras coisas, a pesquisar mais informação.
Outra das competências que se espera treinar no pensamento critico é a capacidade de gerar mais hipóteses. Fazer um “brainstorm” como se diz em Inglês, e só depois de uma lista de alternativas possíveis elaborada, é que se passa para a avaliação sistemática de cada uma. Por isso alguns autores falam em pensamento critico-criativo.
No estudo do pensamento crítico procuramos adquirir as técnicas e ferramentas que nos permitam chegar às melhores conclusões possiveis, qualquer que seja a área que abordemos. E a aprendizagem prática do pensamento crítico, fazendo exercícios, é tão importante como o conhecimento simplesmente teórico destas ferramentas de raciocínio. É preciso criar hábitos de pensamento critico. Como na matemática ou no desporto é preciso praticar para se saber efetivamente usar essas técnicas.
Tal como em muitas outras coisas, sugere-se que a própria aprendizagem do pensamento crítico seja sistemática. Isto é, após aprender cada conceito novo devemos praticar a sua aplicação antes de passar para o seguinte. Embora talvez se possa aprender algum pensamento crítico enquanto se aprendem outras coisas, como história, matemática, lógica, etc, é provável que a aprendizagem directa e a prática especifica seja a maneira mais eficaz, já que nos dirigimos às questões diretamente e podemos pensar sobre elas. Tornamos a aprendizagem consciente, e ficamos conscientes da universalidade das técnicas de pensamento crítico.
Em conclusão, o pensamento critico é um processo consciente, sistemático e metódico que é aplicável a todo o pensamento e que visa chegar a melhores conclusões através da análise do próprio raciocínio.
Leitura adicional sugerida e bibliografia:
1 – Fisher, “Critical Thinking, an Introduction”. (Este livro é um verdadeiro achado, tem os fundamentais, imensos exercícios e é baratíssimo na amazon).
2 –Manual do Pensamento Crítico do Prof. Ludwig Krippahl da U.N.L – no site da disciplina (inclui aulas gravadas, aconselho especialmente a aula de pensamento científico), aqui: http://ssdi.di.fct.unl.pt/pc/teoricas.html
quarta-feira, 13 de julho de 2011
"Paranormality" do Professor Richard Wiseman.
Como cereja no topo do bolo, o autor ainda ensina (foi ilusionista profissional antes de estudar psicologia) a fazer uma série de truques que poderão fazer sensação numa festa.
Ao misturar de uma foram tão consistente ciência e entretenimento o livro "Paranormality" proporciona uma leitura agradável e edificante.
A única reserva que senti ocasionalmente, foi que o livro ao ensinar a explorar as falhas de percepção e raciocínio, está a ensinar a enganar o próximo. Mas isso é um problema de toda a ciência. Pode ser sempre usada para o bem ou para o mal. E o antídoto, neste caso, é saber onde podemos ser enganados.
Como conseguimos convencer qualquer estranho que o conhecemos tão bem como qualquer amigo? Como convencer um incauto que estamos a falar com um ente querido falecido? Como tirar pequenas pistas acerca do que as pessoas estão a pensar? Como criar uma sessão espirita?
As respostas a estas perguntas vêm todas no livro. Vem também a resposta à tal pergunta que eu considero essencial "como é que sabemos isso?"
Adicionalmente, o James Randy lançou um pedido a todos os cépticos que comprem o livro. Por uma simples razão. Nos Estados Unidos o professor Wiseman não conseguiu encontrar quem o publicasse por ser demasiado realista e sugeriram mesmo que ele dissesse que havia fantasmas ou lá o que foi para lhe avançarem com a publicação. A ideia é comprar a uma loja americana a versão inglesa (a única que conheço) e dar um tabefe metafísico no establishmant pró-treta americano. Eu comprei na amazon assim que li o pedido do James Randy. Se me estivesse a pedir para matar uma galinha ou ir de joelhos a algum lado não tinha acedido. Mas para mostrar apreço por investigação cientifica? Sem suor!
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Anti-vacinação, o direito de escolher e o que isso exige. E porquê.
Tentar ver as coisas a preto e branco, optar pelo juízo rápido e depois não o largar, são tentações que todos temos. Mas são perigosas.
O caso do movimento anti-vacinação é um exemplo da pertinência das questões levantadas acima.
A evidência cientifica e histórica é sólida na justificação da vacinação.
A evidencia contra é anedótica no melhor dos casos. Anedótica e a alegar conspiração para justificar a falta de outra evidências necessárias. E essas são marcas típicas de ideias erradas - sem justificações razoáveis. E se a evidencia é anedótica, a argumentação é um saco de falácias. Mas já lá vamos.
Uma coisa não é verdade ou mentira só porque podemos imaginar uma conspiração à volta dela – podemos imaginar conspirações à volta de tudo e só uma pequena percentagem será real. A conspiração por si não justifica nada (neste caso, o diabo da Bigfarma e dos médicos – que escondem os efeitos adversos mais terríveis que só uns eleitos podem saber).
Por outro lado, uma coisa não é verdade só porque existem histórias de sucesso - mesmo que sejam verdade - a suportar essa ideia. Histórinhas, com quem conta uma anedota, vai haver acerca de qualquer coisa que nós imaginemos que alguém possa acreditar. E mesmo quando são verdadeiras não devem ser usadas como sendo uma amostra fiável de um universo maior. Normalmente são escolhidas por serem concordantes com o que se quer provar, aquilo a que se chama “cherry picking”, negligenciando todos os outros casos e são ainda demasiado poucas para serem significativas. Temos de saber todas as histórias, ver a proporção de casos de sucesso e de insucesso e só então concluir. Também é preciso avaliar o contexto e o fundo teórico (aquilo que está bem estabelecido e diz respeito ao caso), e então julgar. É preciso saber hierarquizar a evidência em graus de força de prova e avaliar a plausibilidade de acordo com a justificação que possa haver. Em alguns casos a evidência pode ser tão forte que derruba teorias, mas isso é outra história.
Sabemos que estão a aparecer surtos de doenças previamente controladas (na era antes anti-vacinação). No entanto ainda aparecem os defensores desta ideologia a argumentar que têm 3 ou 4 filhos não vacinados e que estão todos bem. Isto é claramente anedótico como evidência num contexto maior e como argumento contra a vacinação.
Outra falácia: Também sabemos que uma coisa não é boa só porque é natural. A doença e a morte são naturais. Tal como as aflotoxinas e o curare. O que é natural pode ser bom, mas para sabermos isso temos de encontrar outro argumento para além do facto de ser natural. Chama-se a este argumento – só apelando ao facto de ser natural - “falácia do naturalista” e é abusado por defensores da anti-vacinação.
Ironicamente, os casos bem sucedidos da anti-vacinação que poderão existir neste momento, (para além de poderem sempre deixar de ser bem sucedidos no dia seguinte), são com muita probabilidade bem sucedidos apenas porque os outros estão vacinados, fazendo como uma barreira de protecção à sua volta. Uma almofada de segurança que lhes permite dizer que não estão vacinados e não apanharam doenças nenhumas.
E é por isso que ao deixarem de se vacinar, a si e aos seus, estas pessoas estão a por a todos em risco. As vacinas não são 100% eficazes. São muito eficazes, mas 100% não há nada, nem sequer as vacinas. Existe assim, para cada vacina, valores de protecção de “rebanho”. Valores de taxas de vacinação de uma população, abaixo da qual, essa almofada de protecção deixa de existir. Para todos. Para os que agora abusam dela para dizer que não se vacinaram e estão bem, e para os que se vacinaram e para além da sua protecção de imunidade pessoal contam com a luta global contra a doença.
Outro argumento, para lá da evidência anedótica e da falácia do naturalista, é o de argumentar pelos perigos das vacinas. Isto começou com um artigo que associava a vacina tríplice ao autismo, gozou do apoio de “experts” em vacinas e paternidade como por exemplo a Britney Spears e mesmo antes de se ter conhecido a origem fraudulenta do artigo já se tinha reunido evidência cientifica suficiente para mostrar que não havia relação entre autismo e vacinação (algo que é sempre difícil que é provar uma negativa). Mas a coisa persistiu.
Dos perigos das vacinas, e aqui tenho de admitir que existem alguns efeitos secundários mas nada a que seja razoável por lado a lado com os efeitos das doenças, alguns concluem que não têm eficácia. Mas a lógica aqui não segue. Até podiam ter imensos e perigosos efeitos secundários e ter de qualquer maneira uma eficácia colossal contra os agentes mórbidos. Segurança e eficácia são propriedades diferentes que são aqui confundidas e sem que nenhuma delas seja um problema.
Numa linha igualmente carente de lógica e justificação cientifica estão os que negam a realidade da existencia de vírus e bactérias. Consideram a doença uma coisa que é apenas causada por energias esquisitas ou forças bizarras e portanto não vêm a vantagem em administrar formas mortas ou atenuadas de agentes patógenicos para induzir imunidade. Negam de uma assentada uma quantidade colossal de evidencia acumulada ao longo de décadas, e colhida através de varias linhas de investigação. A ultima das quais, e a propósito, está relacionada com a comprovação da eficácia das vacinas.
Enquanto existem países onde morrem crianças porque não se conseguem controlar as doenças recorrendo à vacinação, nos países civilizados e sob o slogan de que “cada um tem direito a ter a sua opinião”, começam a surgir novas ondas de doenças para as quais hà vacina, por uma questão ideológica.
Mas afinal cada um tem direito à sua própria opinião, mas não à sua própria realidade.
A internet – a forma pela qual estas coisas se têm disseminado, tal qual vírus patológico - é dificilmente a culpada, já que são as pessoas que têm de aprender a pensar criticamente sobre as questões. Os média já não vejo com tanta inocência. Ao colocarem lado a lado diferentes ideias de um modo neutro, e dando o mesmo espaço de justificação a cada uma, vão deixar quem não se debruçar mais sobre o tema com a ideia de que são ideias em pé de igualdade perante a realidade. Por várias razões que tenho explorado neste blogue, nomeadamente os “apelos à ignorância”, dizer que determinada coisa tem “justificação cientifica” já não é suficiente para dar autoridade a nada (ser jogador de futebol no entanto parece que é), a não ser que seja para vender produtos de emagrecimento.
O apelo à ignorância é a ultima falácia com que termina o artigo do Publico que me levou a escrever este “post”. São, de um modo geral, a tentativa de se justificar algo com aquilo que não se sabe. Mas o que não se sabe não serve para justificar nada. Diz o referenciado defensor da anti-vacinação no mesmo jornal: “Há algo irrefutável: as certezas cientificas de hoje podem ser mentiras amanhã.” . Mas por muito que seja verdade que a ciência erra e evolui, isso não quer dizer que esteja errada neste aspecto especifico - ou que lhe vá dar razão neste ponto especifico. Para isso é preciso outra linha de argumentação e de evidencia, independente do facto da ciência ser perfeita ou não, nomeadamente uma que suporte por si só a anti-vacinação. Se a ciência vai contradizer-se neste aspecto não sabemos. Para já contradições tão gritantes não são de esperar quando há um volume de evidência tão sólido como há para a vacinação e depois isto é querer adivinhar o futuro sem apresentar razões. Não só esta argumentação é refutável como facilmente refutável. É um argumento pela ignorância – uma falácia bem conhecida. E no entanto o jornalista também não diz nada. Quem souber pensar que pense e quem saiba ver que veja – não me parece bem de todo quando se põem tantos testemunhos anedóticos e sabendo o poder que estes têm no conhecimento opinativo.
Mas é preciso alguém que chame a atenção de que as pessoas que defendem esta ideologia não estão só factualmente erradas como estão a argumentar mal. E é preciso chamar a atenção das pessoas que se querem continuar a poder fazer escolhas têm de saber mais e justificar melhor o que querem.
Porque assim, eu pelo menos, sou da opinião de ir para a solução de tornar a vacinação obrigatória.
Para não estarem uns a pagar pela teimosia de outros em não aprender os factos e não aprender a pensar.
Podemos não saber o que é a verdade. Mas devemos escolher aquelas coisas que têm a melhor justificação de lá andar perto a cada momento. Não escolher a dedo os exemplos, não tentar adivinhar de acordo com o que nós desejamos e não confundir o direito a ter uma opinião com conhecimento. Esse precisa de uma justificação melhor que um conjunto de factos arbitrários, inventados, o enconbrimento de outros e uma sarrafada de falácias.
O artigo do Publico é este:
http://www.publico.pt/Sociedade/ha-cada-vez-mais-pais-a-dizer-nao-as-vacinas-como-forma-de-prevenir-doencas_1501266
domingo, 3 de julho de 2011
Homeopatia: Afinal que critérios?
Desta vez foi que: "os critérios de evidência aos quais a Homeopatia tem sido submetida, estão totalmente errados" (1)
É difícil manter uma resposta séria a alegações destas. Os critérios com que avaliamos eficácia estão errados?
Como por exemplo querer saber se realmente cura e trata doenças?
Se calhar devíamos usar outros critérios. Quais?
Talvez o critério com que consegue vender agua ao preço de medicamento, não?
Porque é para aí que leva defender a "evidencia anedótica" como é da praxe nestas coisas.
(1)http://homeopatia-chl.blogspot.com/2011/02/mentes-fechadas.html
Via "Que treta" do Prof, Ludwig Krippahl de quem aconselho o respectivo post:
http://ktreta.blogspot.com/2011/07/treta-da-semana-mentes-fechadas.html
sábado, 26 de fevereiro de 2011
A mente fechada.
Tal como a "mente aberta" não é para mim uma mente que aceita toda a carga de ideias, a "mente fechada" não é simplesmente a mente que não aceita ideias novas.
Isso é a "mente bafienta" (fica para outro dia). Não conheço casos em que se aplique, felizmente. Mas mentes fechadas, sim. É frequente vê-las fecharem-se frente às ideias mais bem fundamentadas e por isso penso que é preciso distinguir entre não aceitar ideias novas, (ou poucas) e aceitar apenas as ideias novas de que gostamos.
Este ultimo caso, é o caso da mente fechada de Linaeus. Tem à priori uma expectativa que tem de ser observada e sem investigação especifica sobre o tema em causa, faz uma opinião. Não aceita o que não gosta e fundamenta-se no que quer acreditar.
Considera que o que lhe parece deve ser e que a sua opinião tem o mesmo valor que um argumento cientifico ou filosófico. Provavelmente vou ser queimado vivo por isto... Mas a verdade é que *opinando* não é uma forma segura de construir conhecimento. É verdade que cada um tem direito a ter a sua opinião, mas mesmo este facto, de que cada um tem direito a ter a sua, devia chamar a atenção para que o conhecimento opinativo, do senso comum, não tem valor enquanto conhecimento rigoroso. A não ser que cada um tenha direito à sua própria realidade.
Toda a gente tem direito às suas próprias opiniões, mas não aos seus próprios factos, leis e teorias. Ou funcionam ou não funcionam. Ou funcionam mal. Mas seja como for, opinar não é a ultima palavra no mundo da epistemologia. É a primeira. É a que se tem quando não se sabe melhor que isso. Pode fazer falta, mas quando há melhor é preciso ter a mente aberta. Durante milénios não houve melhor. Durante 200.000 anos o homem não teve mais que senso comum e a sua opinião para o guiar. A escrita tem menos de 7000 anos e o conhecimento transmitido oralmente é uma lotaria.
Mas agora tem mais. Tem a filosofia desde a Grécia Antiga e a ciência desde Galileu.
Por isso, penso que o problema está em parte em achar que ninguém deve saber melhor que isso, que a opinião própria, sobretudo quando se trata da nossa opinião. Uma crença que em si deve ter dado segurança e determinação a milhares de homens durante milhares de anos.
É uma coisa relativamente nova poder dispor de tanto conhecimento que é melhor que o opinativo. Há quem considere que a inteligencia é precisamente a capacidade de adaptação a situações novas do ponto de vista evolutivo. Passar a pesquisar o que dizem os especialistas, o que está provado com rigor, como se pode saber o que se sabe, pode muito bem ser em si um sinal (mas não o unico!) de inteligência nessa prespectiva. Se não, pelo menos de "mente aberta".
A "mente fechada" caracteriza-se não só por não estar aberta a avaliar imparcialmente as evidências como a não estar sequer estar aberta à sua pesquisa. Prefere fazer julgamentos rápidos menos informados a lentos e mais informados (dantes não era uma opção) e não obstante isso insiste que o seu, por ser seu, é o melhor.
A mente fechada recusa-se a ir mais longe que a opinião. Por preguiça, ignorância, teimosia ou impotência, escolhe defender uma opinião qualquer, que pareça simpática, e não está aberta a estudos sistemáticos, argumentos difíceis de perceber (sobretudo se envolverem matemática), ou que pura e simplesmente requeiram muita aprendizagem nova.
Frequentemente recorre a raciocínios falaciosos sem dar conta disso e considera um exotismo grotesco que se apontem falácias, não gosta que se critiquem as suas ideias - considera-as uma coisa pessoal - e até acha que a ciência ou a filosofia são uma questão de opinião. Aceita testemunho individual como evidencia forte, confunde carisma com autoridade, e vê facilmente relações de causalidade em coisas que tenham uma sequência temporal.
No entanto se lhes perguntarem, às mentes fechadas, se a realidade é uma questão de opinião, a maioria dirá que não. Mas isto não os fará enveredar por uma sede de investigação, procura de conhecimento ou coisa do género. Como se o conhecimento fosse a coisa mais bem distribuida deste mundo, e algo que nunca falta, estão sempre satisfeita com o que têm e com a qualidade dos seus argumentos. Argumentos esses que lhes parecem bons desde que sejam a defender a ideia que já tinham antes. Coisa que devia ser ao contrário, é ter uma ideia porque é suportada por bons argumentos.
Mesmo quando proferem o seu mais potente argumento: "Porque eu acredito" ou "porque eu sei", não se dão conta da inversão lógica. E este é o sinal patognomónico da "mente fechada". É o considerar a sua opinião um argumento em si. Que acreditar é o ponto de partida para formar conhecimento - numa confusão desastrosa entre mapa e território. Está errado. Depois é enveredar numa odisseia de confirmation bias" e temos a mente fechada feita de ideias... Fechadas? Sim, é o termo correcto. Fechadas a serem testadas.
As coisas não são como são só porque nós gostávamos que fosse assim, fosse bom que fosse assim, acreditamos que é assim ou até que devia ser assim.
Dá trabalho, e às vezes não está ao nosso alcance perceber tudo. Mas sinceramente. Vale a pena.
Agora um nota importante: A "mente fechada", caracterizada por todos estes pontos o tempo todo, é uma abstracção. Não corresponde a ninguém. É um exagero para tentar caricaturizar um estereótipo de comportamento e um estado mental, não tanto de carácter - felizmente a mente fechada é algo que não ocorre o tempo todo mesmo nas mentes mais susceptíveis. Pelo menos que eu tenha presenciado. Espero não ofender ninguém, não é o meu desejo, mas como alguém a quem esse rotulo já foi colado muitas vezes sinto-me no direito de dizer o que penso sobre isso. Estou aberto a refutação. Como sempre.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
A mente aberta!
Foi na manifestação da homeopatia, foi nos comentários de um dos posts acerca da homeopatia e foi por causa de uma crítica minha à Cabala no facebook.
Mas eu, como sei o que lá querem atirar para dentro, tenho muito cuidado com essa coisa da mente aberta. Isso é o equivalente cognitivo a deixar o carro parado no cais-do-sodré todas as noite, com as portas abertas e dinheiro no porta-luvas para a gasolina.
É que "mente aberta" para mim, significa ser capaz de aceitar as evidências; significa ter sede de procurar demonstrções solidas, vontade de conhecer resultados experimentais, e ser capaz de os aceitar mesmo que não fossem o que eu esperava.
"Mente aberta" definitivamente não é acreditar em tudo o que alguém propõe. Não é dar um bilhete de ida ao espirito crítico e mandar a lógica e os factos conhecidos verem se chove. Toda a gente, de um modo ou de outro, escolhe as coisas em que acredita. A minha proposta é que o critério, em vez de ser a sensação visceral que uma ideia nos causou ou o pedido de credúlidade do apresentador, seja a ponderação consciente e informada sobre a matéria em causa. Que seja a qualidade da justificação. Que seja a qualidade da resposta à pergunta: "como sabes isso?" Se a resposta é outro apelo à credulidade, ou porque era bom que assim fosse ou porque há muita coisa que ainda não se sabe (apelo à ignorancia) que é a norma nos auto-intitulados abertos de mente (pelo menos quando o termo vem à baila), estamos mal.
Eu até poderia dizer que se isso é a tal "mente aberta" não me faz falta uma mente aberta. Mas é o próprio uso do termo que está errado. Mente aberta sim, mas com espírito crítico.
Quem diz ter mente aberta com tanta prontidão, (normalmente para impingir as coisas que diz requererem mente aberta), está a regeitar outras ideias muito mais plausíveis sobre o mesmo assunto e que se refutam mutuamente. E quem achar que tudo o que passa pela cabeça de alguém é verdade e que é verdade tudo ao mesmo tempo, bem... Recomendo as melhoras.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O livre arbitrio e a religião católica (já que não sei o que dizem as outras).
E à posteriori, na pratica? Como pode ser minimamente omnipotente e omnisciente e não ter efeitos no mundo fisico? Só se for a sua vontade que não seja detectado. Só se for a sua omnipotencia que é capaz de fazer que tudo seja como se deus não existisse.
Então se deus não quer ser encontrado como é que a religião diz tanto sobre ele? Só há duas respostas. Ou existem pessoas (umas e não outras) que deus escolhe para transmitir a sua mensagem ou a religião inventa.
Mas não dando deus a essas pessoas nenhuma ferramenta que permita darem a certeza às outras de que contactam com deus como é que é suposto escolhermos em quem acreditar?
Deus portanto espera que a nossa liberdade seja baseada no palpite? Eu acho que isso é contra o livre arbitrio. Se não temos informação para fazer uma boa escolha então vamos ver a nossa liberdade diminuida. Por falta de informação. Que deus decidiu não dar igual a todos. Isso não so não é justo como não faz sentido com o livre arbitrio que é suposto ser a razão pela qual nos acontecem acidentes.
Portanto a razão pela qual há coisas que limitam a nossa liberdade é para não nos limitar a liberdade? Isso não faz sentido. Liberdade é poder escolher a melhor opção de acordo com as nossas preferencias. Liberdade não são escolhas cegas.
E é isso que se pede. É que faça-mos a escolha cega de acreditar. Sem razão nenhuma para além de que " a ciência não explica tudo". Que neste contexto é o mesmo que dizer: "porque eu vejo a luz e tu não".
Mas isso é como todas as outras crenças. É apenas um apelo à credulidade. As medicinas alternativas, o espiritismo, a magia negra, etc. Essas coisas que só funcionam em quem acredita que o que está a acontecer é devido a elas e não ao funcionamento banal do universo.
O que não está na fisica e só está na metafisica é por definição fantasia.
Não é radical dizer que não acredito no que não se distingue de qualquer outra fantasia. Não é radical dizer que isso é um engano. É bastante plausivel. E é importante escrever sobre isso enquanto a verdade for importante e tivermos vontade de conhecer o universo que nos rodeia.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Níveis de realidade e a transdisciplinariedade mística
Através do Miguel Oliveira Panão (1) vim a tomar conhecimento de um movimento intelectual auto-denominado Transdiciplinaridade (2) que se fundamenta na existência de níveis de realidade.
A Transdiciplinaridade refere-se no entanto a mais que a intersecção de areas de conhecimento. Isso é banal e frequente em ciência e entre a ciência e a filosofia.
Na minha opinião, a dita Transdisciplinaridade, procura mais encontrar uma maneira de tornar todas as áreas de conhecimento relevantes para um problema ( e chamar deus ao barulho) do que encontrar que áreas de conhecimento são de facto relevantes para um problema ou que soluções são pertinentes. Como eles dizem:
" A visão transdisciplinar está resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas por seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual." (2) ou
"A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta com respeito aos mitos, às religiões e àqueles que os respeitam em um espírito transdisciplinar" (2)
E tal como esta interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade não é um mero confluir de conhecimentos sobre o universo, tal como proporcionado por equipas académicas multidisciplinares - aqui vale tudo (menos reduzir a realidade a uma única teoria que explique tudo )(3) , até mitos - também os níveis de realidade de que eles falam são mais que níveis de realidade.
Enquanto que pode ser conveniente para o cientista explicar a realidade por níveis de complexidade ou quantidade, e dizer coisas como " ao nível microscópico" ou "ao nivel não do individuo mas sim da sociedade", por exemplo, para conseguir uma abordagem mais clara e explicar mais precisamente o assunto em questão, ele não sugere que estes niveis da realidade tenham realidade própria fora do seu cerebro. A realidade é toda a mesma. E os niveis são niveis apenas para nos podermos por as coisas em gavetas e pensar sobre elas. Nem para as separar serve porque o cientista sabe que não há uma linha limite entre os ditos níveis. Eles são mapa e não território. Servem para ajudar a compreender e não são eles próprios reais fora do nosso cérebro. Tal como a mitologia. Nem muito menos têm um Terceiro escondido como diz o Miguel Panão. (4)
A Transdiciplinaridade é felizmente clara acerca de a realidade ser apenas uma e de os diversos níveis serem níveis da mesma realidade - não de varias realidades. Não é aí que está o problema. O problema está em querer dividir a realidade em níveis (em numero infinito) e pensar que estes níveis estão mesmo lá. Isso é de um reducionismo para além do ingénuo. Nem o reducionismo da ciência vai tão longe.
Os níveis da realidade correspondem abordagens diferentes, a sistemas de conhecimento com poder explicativo diferente, isso tudo. Mas não são da realidade para além do nosso cérebro. São relativas a nós e não ao universo.
Tenho este trabalho todo a falar sobre estes níveis de realidade da transdisciplinaridade , porque eles encaixam noutro padrão que se tornou típico nos agressores do naturalismo. Que é a procura de lacunas no conhecimento cientifico para introduzir as suas ideologias.
E aqui nos níveis de realidade temos o principio do Terceiro escondido - que é a logica da passagem entre níveis - dizem eles - e que serve para... O melhor é fazer copy-paste:
" Por outras palavras, a acção da lógica do ‘meio incluído’ nos diferentes níveis da Realidade é capaz de explorar a estrutura aberta da unidade entre os níveis da Realidade."
Ou seja para enfiar tretas "ad-hoc", uma vez que:
"Esta simplicidade [que é a interdependência universal que por sua vez é a complexidade e que por sua vez é a união entre os niveis de realidade onde está o Terceiro escondido que é a lógica incluída no meio] (5) não pode ser apreendida pela lógica matemática, mas apenas pela linguagem simbólica."
Estes níveis de realidade, que são por estes senhores propostos, têm ainda a particularidade de servirem de prova que deus existe (6).
Mas em conclusão, sejam reais enquanto atributos do universo ou reais enquanto atributos do conhecimento, eles não têm nada na sua propriedade que justifique diminuir a resistência à intuição como fonte de conhecimento . Que é o que a abertura total que eles propõem explicitamente indica (4) .
Porque a intuição é como o palpite. Há para todos os gostos. E como eles dizem, nisso estamos de acordo, a realidade é só uma. Algumas coisas têm de estar erradas.
(1)http://www.blogger.com/profile/13740664307917072565
(2)http://www.redebrasileiradetransdisciplinaridade.net/file.php/1/Documentos_da_Transdisciplinaridade/Carta_da_Transdisciplinaridade_1994_-_I_Congresso_Mundial_da_TransD.doc
(3) Na carta da Transdiciplinaridade referida em (2) pode ler-se no artigo 2º: " Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível regido por uma única lógica não se situa no campo da transdisciplinaridade."
(4)
(5) parece confuso? Não, esta tudo aqui na referencia (4) mas eu ajudo:
Ele diz que: " O axioma lógico: a passagem de um nível da Realidade para outro é assegurada pela lógica incluida no meio."
e depois diz:
"Todos os níveis da Realidade estão interconectados através da complexidade. De um ponto de vista transdisciplinar, a complexidade é a forma moderna do princípio antigo da interdependência universal. O princípio da interdependência universal encerra a máxima simplicidade possível que a mente humana pode imaginar, a simplicidade da interacção entre todos os níveis da realidade. Esta simplicidade não pode ser apreendida pela lógica matemática, mas apenas pela linguagem simbólica."
(6) http://cienciareligiao.blogspot.com/2009/03/como-pode-deus-agir-sem-intervir.html onde diz " Que sinais podemos então ver nos avanços mais recentes do conhecimento científico que possamos interpretar como marcas de Deus-Trindade na criação? Existem três: a complexidade e auto-organização; o conceito de informação; a teoria de níveis da Realidade."
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Cristopher Hitchens na casa Fernado Pessoa.
Antes de mais gostava de dar os parabéns à Inês Pedrosa por ter tido a coragem de trazer Christopher Hitchens a Portugal. Estamos num país com um povo bastante religioso e suponho que ter convencido a câmara de Lisboa para trazer cá um ateu fervoroso não tenha sido obra fácil.
A singularidade da iniciativa devia ser vista do ponto de vista cultural, da abertura a discussão e divulgação de ideias e não como favorecimento do ateísmo ou propaganda intelectual de alguma forma.
Mesmo que a iniciativa se repita, uma vez ou outra, penso que está longe de ferir a neutralidade do estado em relação a crenças (e mesmo que o ateísmo fosse apenas uma crença). Se neste ciclo de palestras fosse convidado um criacionista para falar sobre um livro acabado de escrever, também não me oporia ao facto. As minhas criticas seriam ao conteúdo e não à forma. Que é o que estaria errado.
Mas adiante.
O Cristopher Hitchens na introdução às suas ideias, começou por colocar a humanidade em perspectiva. Notou que a Terra está provavelmente a metade do seu tempo de vida. Terá tanto para existir como o que já passou. E que quando essa altura se aproximar, a humanidade já cá não estará. Será outra espécie, outros seres, nossos descendentes que se debaterão com esse problema. Isto se formos bem sucedidos. E que a nossa existência não passa de uma pequena parte da história da Terra e do universo.
Referiu a "certeza absoluta" como um perigo e como a razão que leva a religião a ser perigosa. "A religião é como a filosofia mas sem as perguntas". E antes de mais, o questionamento livre como a melhor posição intelectual. E que a nossa obrigação é fazer o melhor possível para criar conhecimento e com este conhecimento criar um mundo melhor.
Insistiu que a moral não vem de deus, pois não há nenhuma regra de moral aceite que não possa ser suportada por um ateu (neste caso, ele próprio). E a constatação de que vivemos como se deus não existisse só aumenta a nossa responsabilidade. E defendeu que é isso que o conhecimento que temos do universo sugere. Que é o que a ciência nos mostra. E que mesmo sendo a ciência defeituosa e incompleta é o melhor que nós temos.
Tudo sugere para que tenha sido o homem a criar deus e não o contrário. É isso que diz a ciência.
De resto falou mais de uma hora e ainda teve tempo de falar de politica, referir que era amigo do cientista cristão (um dos raros cientistas crentes) Francis Collins e de como o trabalho de Collins em descrever o DNA nos deu um dos melhores argumentos contra o racismo:
Nós como espécie temos uma variação genética muito pequena entre os indivíduos - quaisquer indivíduos - e não faz sentido falar em raças ou espécies. De facto pensa-se que descendemos todos de uma população original de cerca de 10000 indivíduos.
Falou da guerra como uma necessidade, e de que há coisas pelas quais vale a pena matar - e aqui não compartilho a mesma visão. O pacifismo é uma ideia difícil de defender na prática, mas um pacifismo não radical ainda é a minha posição.
Isto foram apenas algumas das coisas por ele ditas. Aqui descritas pelas minhas palavras.
No fim da conferência tive de comprar o livro - o primeiro que tenho dele.
Para finalizar queria só deixar a impressão que fiquei de que o Cristopher Hitchens é um tipo simpático, nada como a ideia de intelectual arrogante que às vezes parece em vídeos. Nunca se mostrou impaciente ou aborrecido, pelo contrário, apesar do abuso dos presentes querendo perguntar tudo e mais alguma coisa , enquanto pediam autógrafos, tanto que nem o deixaram descer para cocktail. Mais preocupada com isso estava a Inês Pedrosa a tentar lembrar que Hitchens tinha chegado de Washington nesse dia e não tinha tido tempo para descansar.
Uma mente brilhante como há poucas. Foi a impressão com que fiquei.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Afinal onde estão esses limites?
A ciência diz que os acontecimentos que estão em sincronia comigo variam com a distancia a que estão de mim e da velocidade a que eu vou. O tempo é relativo.
A ciência diz que as particulas sub-atomicas não têm velocidade e posição definidas. São, até ao momento em que algo as obrigue a definirem-se, uma onda de probabilidade. Não é apenas não podermos saber. São mesmo uma onda de probabilidade.
No mundo sub-atómico, a "localidade" não é como aquilo a que nós estamos habituados. Há certas coisas que não dependem da distancia a que estão uma da outra. Particulas emparelhadas portam-se como se estivesse ligadas mesmo quando afastadas de quilometros. Einstein chamava-lhe "acção fantasmagórica à distancia". Em artigos sensacionalistas chamam-lhe teleporting.
Existem teorias cientificas que sugerem que o universo tenha mais de 4 dimensões. Bastante mais, como na teoria das cordas.
Estão descritos microorganismos que vivem debaixo do solo e se alimentam da radioactividade natural do ambiente.
A afirmação que o stress diminui a eficácia do sistema imunitário é uma afirmação cientifica. E que pessoas deprimidas vivem menos também.
A ciência diz que o efeito placebo é real, apenas é muito mais dependente da pessoa do que de um efeito especifico do medicamento. Ou da percepção desta, uma vez que se sabe que placebos mais elaborados e mais caros são mais eficazes.
E ainda me vêm dizer que a ciência não pode explicar isto ou aquilo porque é naturalista? Eu chamo a isso aversão ao conhecimento. Cientofobia.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Evidência anedótica
Depois de ter explicado lógicamente há uns tempos atrás porque é que a evidencia anedótica tem de ser vista e manipulada com pinças e fato de astronauta, decidi fazer uma pequena lista de tudo o que passava a ser conhecimento se a evidencia anedótica fosse aceite como prova.
A evidência anedótica é o testemunho baseado em histórinha narradas por um grupo pequeno de pessoas que não são acompanhados de outras provas físicas, são quase sempre irreprodutíveis e frequentemente testemunham acontecimentos extraordinários. Como se fosse uma anedota.
Ora aqui está uma lista de coisas que seriam consideradas reais se a evidencia anedótica não fosse tão mal vista (sem qualquer ordem) :
Elvis Presleys (vários pelos estados unidos fora)
Extraterrestres que vêm fazer experiencias sexuais com humanos (também com preferencia pelos estados unidos,
naves espaciais vindas de outros planetas (neste momento com preferencia pelo México)
yeti, Sasquatch, big foot, abominável homem das neves (zonas frias e montanhosas com pouca visibilidade)
Pais de santo,
cirurgias feitas com as mãos e sem analgesia ou assépsia com cura total,
curandeiros,
monstro de Loch ness,
fadas,
sereias
vampiros,
lobisomens,
chupacabras,
aliens de várias cores (cinzento e verde mais frequentemente),
dragões,
bruxas,
demónios, diabos e diabretes
duendes,
unicornios,
chakras,
miasmas,
xis,
chis,
qis,
fleumas,
Terras planas,
fantasmas,
espiritos,
orbs,
monstros variados,
elfos,
deuses (milhares deles),
semi-deuses,
santos (muito mais que os da Igreja Católica),
anjos e arcanjos
milagres (idem),humanos com telecinesia, telepatia, mediunicos, profetas,
E muitas mais haverá. É só uma questão de acreditar em tudo o que se diz. Não faz sentido pois não?
sábado, 2 de janeiro de 2010
Sobre a ciência III - O Naturalismo.
O Naturalismo é tentar explicar a realidade através dos factos e fenómenos observaveis, isto é, sem postular entidades para explicar um fenómeno quando elas não são nesseçárias.
Sem Naturalismo não há Ciência, é uma consequência do rigor e só pode ser ultrapassado pela força e não pela razão. Mas essa é a vontade de várias religiões ainda nos dias que correm - e a razão pela qual este blogue tem falado tanto acerca de crenças e religiões.
Se não é preciso recorrer a espíritos, duendes, fadas, anjos ou demónios para explicar um fenómeno, então é errado postular a sua implicaçao no processo. Naturalismo é não se introduzirem factores ad-hoc na explicação de um processo.
Naturalismo não é uma lista pré-fabricada de coisas que a ciência "não pode aceitar". Tal lista não existe.
E postular que está para fora do alcançe da ciência também é engraçado. Até porque mesmo a fantasia tem a sua explicação... Mas não é real para lá daquilo que é representado no cérebro.
O que existe sim, é um amontoar cada vez maior de coisas que não precisam deste tipo de coisas "misteriosas" para serem compreendidas e isso esta a desagradar muita gente. Isto sim, é real. Talvez vislumbrem um mundo onde a ciência consegue explicar tudo e morram de medo perante essa hipótese.
Eu não tenho medo do que podemos compreender. Não acho que a magnificiência do universo e a natureza diminuam porque nós a conseguimos explicar.
E também não acho que a ciência possa vir a "dominar" o mundo mesmo só do ponto de vista do conhecimento. Por um lado temos o teorema de Godel, por outro os limites naturais do cientista e do homem... Mas isso é outra história.
PS: acabou por ficar um pouco mais comprido que o esperado... Bem, de facto considero-o um tema interessante e é um ponto de controversia (tola) actual.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Experiencia de quase-morte (NDE - Near Death Experience)
http://www.towardthelight.org/neardeathstudies/pimvanlommelarticles.html
O autor, passando por cima de uma data de explicações plausíveis, incluindo boas referencias de factos que podem explicar o fenómeno, sumariamente diz que "não estão provados" e avança para uma explicação mirabolante que assenta numa teoria da consciência baseada na mecânica quântica que, se fosse verdadeira, poderia explicar parte do fenómeno quase morte. Diz ele. Da não localidade quantica para "todos os fenómenos estão ligados" é um salto que dá sem pestanejar. E outras coisas assim.
Que o cérebro está a funcionar mal, que experiências extracorporais possam ser induzidas com drogas, por exemplo, parece que não é importante. Parece que explicações plausiveis e baseadas em coisas que sabemos, não quer ele aceitar.
Porque diz que existem relatos de pessoas que estavam com "linhas do E.E.G. planas" (ou seja virtualmente sem actividade cerebral) quando tiveram a experiência de quase-morte. E sustem esta afirmação extraordinária em duas narrativas (haverá mais talvez, mas ali só refere duas), uma de um médico e outra de uma enfermeira que dizem que tiveram pacientes capazes de descrever factos ocorridos durante o coma profundo. Num dos casos havia um EEG (electroencefalograma) ligado a mostrar inactividade cerebral.
Mas aqui, tirar conclusões tão revolucionarias com uma amostra tão pequena, tão impossível de reproduzir e tão baseada em testemunho individual, tão díficil de confirmar que levanta as minhas dúvidas (eufemismo) é insensato. Não é o mesmo testemunhar que se viu o sol nascer e que não chovia nesse momento, por exemplo, do que contar sobre um doente que foi capaz de narrar um episódio que não podia ter presenciado, nem que ninguém lhe tinha contado enquanto o E.E.G. fazia uma linha recta perfeitinha.
Assumindo que o E.E.G. estava bem colocado, é certo. E que não há actividade cerebral que escape ao E.E.G, e que foi nessa precisa altura e não antes, sem margem de dúvida, que a experiência se deu...
Realmente, uma série de questões poderiam ser colocadas, mas sendo tão poucos os casos, acho que não têm mais valor que os relatos de raptos por extraterrestres. Mesmo que sejam médicos a contar.
Estes episódios de experiência extracorporal que acontecem em alguns casos de NDE parecem absolutamente incríveis mas o sentido da investigação neurológica aponta para outra direcção. De facto a sensação de estarmos dentro do nosso corpo é que é algo que o cérebro têm activamente e especificamente de conseguir. Se algo falhar, essa noção pode-se perder.
Aparentemente é conseguida quando o cerebro "cruza" a informação proveniente de vários orgãos sensoriais. É a integração do que vêmos, ouvimos, sentimos no interior do corpo e no exterior (tacto, etc) que dá essa sensação (2). Em alguns casos podemos induzir experiencias extracorporais através de truques aplicados nos orgãos dos sentidos (3). Sem ter de recorrer à ketamina. Ou aos alucinogénicos que as tribos usavam nas suas experiencias misticas para por o cerebro a funcionar mal.
Porque a funcionar bem é que ele não está. E existe de facto investigação que sugere que o sangue que flui para o cerebro durante a ressuscitação cardio-pulmonar seja suficiente para permitir um pequeno funcionamento (4). Mas mau. Com pouco oxigénio não se pode pedir muito, e todo o tipo de memórias desse momento serão desculpáveis.
Só falta alguém tentar impingir que os sonhos são a nossa consciência a viver noutra dimensão e que a nossa memória deles tem de ser suficiente para suportar ser real.
(1)Sabom MB. Light and Death: One Doctor’s Fascinating Account of Near-Death Experiences: “The Case of Pam Reynolds.” In chapter 3: Death: The Final Frontier. Michigan: Zondervan Publishing House, 1998:37-52.
(2)http://www.theness.com/neurologicablog/?p=749
(3)http://www.newscientist.com/article/dn12531-outofbody-experiences-are-all-in-the-mind.html
(4)http://www.theness.com/neurologicablog/?s=neaR+DEATH
Espiritual e entropia.
O Miguel Oliveira Panão é um investigador cientifico formado em engenharia mecânica e fortemente teísta a quem foi pedido que esclarecesse o que queria dizer com "espiritual", dada a pluralidade de significados que a palavra pode ter.
Escreveu o post intitulado : "Sobre o espiritual" (1) que sendo tão longo e tendo tanto a criticar me deixou sem saber por onde lhe havia de pegar. É um exemplo claro do que é pseudociencia, e considero toda esta situação especialmente perversa.
No "Ktreta" o professor Ludwig Krippahl teve a paciencia de debater apenas e exaustivamente a adequação do uso dos conceitos de termodinâmica para definir espiritual, o que acabou com o Miguel a puxar dos seus galões dizendo que essa é a área da sua especialidade - embora em termos de argumentação não tenha conseguido explicar convenientemente a sua teoria.
Acho que o post do Miguel vale a pena ler, infelizmente não por ser elucidativo. É pseudo-ciência fresquinha e deixo aqui o Link:
http://cienciareligiao.blogspot.com/2009/12/sobre-o-termo-espiritual.html
A minha resposta está lá mas copio-a para aqui. Nas notas deixo os links para a resposta no blog do Ludwig.
"Miguel Oliveira Panão:
Depois de saber que fazes investigação na área da termodinâmica não resisti a vir aqui criticar o teu post. Não porque saiba mais termodinâmica do que tu, mas porque posso apontar os pontos que saltam à vista e que não é preciso saber de termodinâmica para perceber que não têm seguimento lógico.
Partes do pressuposto inicial que existe uma energia espiritual. E usas conceitos físico bem estabelecidos para aplicar a essa teoria para explicar o que é o espiritual.
Convinha por conseguinte explicar primeiro o que é a energia espiritual e de que modo pode ser observada e medida, uma vez que pretendes usar leis cientificas sobre ela.
E não é só aí que usas conceitos que necessitam explicação e evidencia experimental para que se possam tratar com o rigor que depois lhes tentas incutir:
“«as duas energias – da mente e da matéria, distribuídas respectivamente sobre as duas camadas do mundo (o interior e o exterior),(…)”
Objectivamente, o que é a energia da mente e o que é o mundo interior e exterior? Se o mundo interior é a mente, e a energia da mente é o processo mental normal, como é que fazes partes depois para dizer que é a entropia:
“a entropia possui como que um aspecto mental, que Teilhard se refere por vezes como energia espiritual”
Propões que seja porque “«é como se a energia livre de Gibbs pudesse ser dividida numa componente material e outra mental»? É que este tipo de coisas que começam com “é como se” são especulação que não podem passar para o “é”.
Ou que seja sequer a energia livre, ou o trabalho realizado quimicamente por combustão da glicose. Avançando que o Ludwig já esmiuçou bastante esse tema e como propus não vou abordar a termodinâmica em detalhe porque não é preciso.
E depois partes destas especulações mirabolantes para, sem justificação, aparte de uma argumento de autoridade, dizer que o homem TEM de ser diferente do animal e que essa diferença é o espírito:
“lugar único do homem na natureza vai para além da capacidade de escolher e da inteligência. A ele corresponde um novo princípio que transcende aquilo que chamamos “vida” no seu sentido mais geral, e que chama de “espírito”, «um termo que inclui o conceito de razão, mas que, juntamente com o pensamento conceptual, inclui também a intuição das essências e uma classe de actos voluntários e emocionais como a bondade, o amor, o remorso, a reverência, a maravilha, a felicidade, o desespero e o livre arbítrio “
Como é que isto surge? Como sabes que isto é real? Isto é uma afirmação não provada. Até porque se sabe que as emoções são fenómenos mentais. Que emergem do cérebro e da interacção deste com o corpo. Destroi o lobo frontal e ficas sem eles. Ainda que te possas mexer livremente e até ter esta discussão.
E depois ainda dizer que “ (…)ou seja [o espiritual é], aquilo que está para além do espaço e do tempo”. Mas como é que sabemos isso? Isto é apenas mais um postulado.
E continuas com mais um apelo `a autoridade: “[o espiritual] não está mais sujeito aos seus impulsos e ambiente (…) é “livre do ambiente” ou “aberto ao mundo”». Sinceramente, “livre do ambiente”???
E etc, etc, etc…
Não vale a pena sequer estar a falar de termodinâmica ou sequer estruturas dissipativas (o que até faria mais sentido), se queres definir uma coisa que nem existe porque tudo aponta em contrário. Não há nada no conceito de entropia que sugira daí poderes tirar entidades extra-temporais e alheias ao ambiente que apenas existem em humanos!
Não há nada na ciência que sugira isso!
E quem quis misturar ciência com estes conceitos escorregadios foste tu. E a isso se chama pseudociência.
Se queres dizer que isso é filosofia é outra história, mas se bem que eu não seja um filosofo não me parece que seja filosofia andar a colecionar apelos à autoridade, non sequitur, etc.
Se me disseres que é teologia está bem. Mas não mistures com a ciência."
Respostas no "Que treta" e discussão:
http://ktreta.blogspot.com/2009/12/espiritual.html
(1) Sobre o espiritual no blogue "... em direção a um novo paradigma...": http://cienciareligiao.blogspot.com/
Update: O Miguel respondeu a esta crítica diretamente. Claro que não estou de acordo mas fica a nota para quem tiver curiosidade.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Provar uma negativa.
Antes de mais nada covém fazer o reparo que "prova" num sentido muito estrito só existe em matemática. Se estamos a falar do tipo de prova que aceitamos quando fazemos uma comprovação empirica de uma preposição, então podemos provar que há coisas que não existem.
O que quero dizer é que em ciência se pode provar uma negativa. Como?
Mostrando que as coisas não estão onde deviam estar.
Por exemplo: Cavalos alados. Como provamos que não existem?
Temos de pensar. Se existirem cavalos alados, em que lugar do universo é que era suposto existirem? Acerca de que planetas sabemos que sequer têm seres vivos à sua superfície? E onde há pelo menos um da familia - o cavalo?
Na terra.
Cabe agora demonstrar que não existem cavalos alados na Terra. Como? Recolhendo relatos sistemáticos sobre o que se passa sobre a superfície do planeta (e da atmosfera não precisamos relatos do subterranêo - são alados) e verificando se qualquer relato positivo se é consistente e se se pode confirmar. Se passado um tempo razoavel em que isto é feito, ainda não tivermos relatos positivos de cavalos alados para além de um ou outro relato anedótico, podemos dizer que na Terra, não existem cavalos alados.
E que se não há na Terra, ainda mais improvavel é que haja algures no universo longe daqui. Tal como não espero que haja noutros planetas sequer cavalos como os nossos.
Claro que podem estar todos escondidos dentro de roupeiros, mas isso não é plausível.
Seria mais plausível argumentar que podiam ser pequeninos (apesar de ter a forma de cavalos), noturnos e ainda estarem por encontrar numa floresta densa. Mas isso continua a ser improvável. Porque tinham de ser mesmo muito pequenos dado o trabalho que tem havido para palmilhar todas as florestas e deixar estratégicamente posicionadas câmaras de infravermelhos ligadas a detetores de movimento para fotografar tudo o que mexe à noite. E então, se achassemos que apesar de tudo ainda era possivel, tinhamos de perguntar: E como surgiram esses cavalos alados? Dos quais não existem sequer fosseis que se lhes assemelhem, ou parentes vivos mais próximos que um cavalo? Se foi por magia, isso também não é plausível. Porque por mais que se tenha procurado, nunca se encontrou nada que acontecesse por magia.
E depois, é tudo acerca da plausíbilidade. Certezas absolutas não há. Em nada. E por isso fez sentido começar este texto com a nota que há quem considere que prova apenas existe em matemática. Se bem que em português se use "prova" como tradução de "evidência".
O que importa é que podemos ter como facto que algo não existe - com o mesmo tipo de certeza com que podemos ter com o facto que algo existe. Em ciência e em filosofia.
Por vezes basta mostrar que há algo no lugar daquilo que dizemos que existe e que não corresponde à descrição. Por exemplo os miasmas da homeopatia. Aparte nunca terem sido demosntrados, existe uma explicação da patologia e das doenças hoje tão completa e consistente que requer um desajeitado "apelo à ignorância" (1)para insistir que eles existem.
Tenho escrito sobre a particula de Higgs e da sua investigação.
Se ela não aparecer nas condições que se espera que apareça, mesmo após repetição exaustiva (isto é importante, a procura tem de ser sistemática) vão surgir duas consequencias. Uma é a análise da anomalia, ou seja, alguns cientistas vão tentar perceber porque é que se a particula existe não foi detectada. É sempre bom haver teimosos, é para isto que servem. Às vezes lá se mostra que não era uma anomalia e não foi detectado isto ou aquilo porque havia uma explicação obvia. Outra coisa é que outro grupo de cientistas vai abandonar a ideia e deixar cair uma parte variavel da teoria de onde emerge o campo de Higgs. E este é o caso que vai ser mais perseguido certamente. Vai mudar o sentido da investigação.
Ninguém está a pensar que não se pode provar que a particula não existe. Se não aparecer, essa vai ser uma das conclusões. Diria mesmo que daqui a uma geração, se continuar sem aparecer, a ideia vai cair no descrédito total e completo.
A minha abordagem foi brincalhona. Aqui deixo o link para o que o Desidério Murcho escreveu no "De Rerum Natura" quando alguém lhe disse numa discussão que não se podia provar uma negativa, (o que não o deixou nada brincalhão):
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/provar-uma-negativa.html
(1) apelo à ignorancia: Se não sabemos P não podemos concluir P. Isto é, a ignorancia acerca de um assunto não é justificação para uma afirmação qualquer que se faça sobre esse assunto. Tipo "se vi um ovni, é porque existem extraterrestres" ou "Se não sabemos como teve origem o universo então Deus deve existir".