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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Energias sem energia


Energia é a capacidade de realizar trabalho físico. E o trabalho físico é o resultado do produto da força usada pelo deslocamento realizado. Força é a capacidade de alterar a velocidade de algo.
Existem várias formas de energia, mas são interconvertíveis entre si. Adicionalmente, a energia total é conservada num sistema, portanto o total não muda só por as transformarmos umas noutras.
É assim que a ciência define o que é energia. E é assim que faz sentido referirmo-nos a ela. Nós conhecemos a energia porque ela se traduz em forças capazes de puxarem e empurrarem coisas, e isso é algo que penso que se pode compreender intuitivamente.
http://www.wakeupenergetics.com/siteimages/MysticalAnatomyHands.jpg
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Por isso acho sempre estranho quando por vezes se se refere a energias que a ciência não pode encontrar. Não pode porquê?
A questão é, se a ciência não pode encontrar é porque não causam efeitos mensuráveis. Se tivessem, não haveria problema. Poderiam ser medidos, descritos, etc…
E se não têm efeitos mensuráveis, como podemos saber que estão lá? (Já nem pergunto para que servem!)  E se esses efeitos não se traduzem por forças e movimentos, nem em nada que possa ser nestes convertido, como podemos dizer que é energia? Que razões temos para o fazer?
Em boa verdade, nenhuma. Nunca vi sequer uma justificação para isso minimamente desenvolvida, apenas o afirmar e re-afirmar deste tipo de coisas. Que existem tais e tais energias, que a ciência não as pode “ver” etc. Mas, de um modo geral, alegam efeitos. Efeitos que se passam no nosso mundo “natural”.
É caso para dizer – Decidam-se: ou essas energias dão origem a fenómenos e fenómenos são coisas que a ciência identifica e descreve, ou essas energias não chegam sequer a existir – nem virtualmente (já que as partículas virtuais causam efeitos mensuráveis).
Querer ter energias não detectáveis pela ciência, mas continuar a ter efeitos no nosso mundo físico, é querer demais. Sejam curas no organismo, mensagens do além, etc. estas alegações são referentes a efeitos medíveis e testáveis.
Resta dizer que não só não se conhecem mais de 4 tipos de forças fundamentais, por mais que se gastem biliões à procura de uma quinta força, como nunca se encontrou nenhum efeito que não pudesse ser explicado, pelo menos em princípio, por estes 4 tipos de forças.
Parece-me que devemos abordar alegações de outras energias com cepticismo. Para já, não têm fundamento que as justifique.
Ler mais:

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"O livro da Consciência"

"Todo o tecido da mente consciente é criado a partir dos mesmos fios: imagens criadas pela capacidade de mapeamento do cérebro" .
  António Damásio in "O Livro da Consciência"


António Damásio consegue em poucas páginas, dado a profundidade do tema, expor uma hipótese cientifica, testável e acessível, sobre o que forma a consciência. E porque existe uma consciência.

De facto, o livro tem uma longa introdução sob a perspectiva da evolução do que significa  possuir uma consciência. Resumidamente, plausivelmente argumenta como a consciência pode ter evoluído de comportamentos mais simples, e como de facto ainda hoje essas estruturas são os alicerces do nosso Eu. A vantagem para os seres possuidores de consciência será a capacidade de tomar melhores decisões.  

Daqui passa para o desmontar do processo consciente, sempre justificando as suas afirmações em conhecimentos concretos de neurologia, e constroi gradualmente a sua tese. O suporte neuroanatómico e neurofisiológico para tudo o que diz é de facto o ponto forte deste livro.




 SPOILERS

 O livro apresenta a consciência dividida em 3 componentes principais. A vigília, a mente e o eu. É a "Santíssima Trindade" da consciência. Segundo ele, o mais simples componente e o primeira a ser cientificamente abordado (talvez por essa razão) foi a vigília. O segundo é a mente. A mente é o processamento matemático de informação, informação essa que pode circular a nível consciente ou não. O terceiro é o Eu. E o livro explica como o Eu ao ser acrescentado nesta mistura forma a consciência. 

Eu penso que aqui o autor dá um verdadeiro passo em frente. Outro ponto forte da obra: É apresentar uma explicação plausível, de como esse fluxo principal da mente pode ser também o pensamento consciente. Um pensamento em que nós sabemos que somos nós que o pensamos. 

Para isso ele divide o Eu em outras 3 fases. É a escalada de complexidade nessas fases que forma o Eu que depois chega à mente (Self comes to mind, no original)  para formar a consciência no estado de vígilia.

E são: O proto-Eu, o Eu nuclear e o Eu-autobiográfico.

O proto-Eu é o mapa das disposições corporais. Mapeia o corpo, as emoções, e processa os sentimentos primordiais dessas emoções.

O Eu nuclear é o resultado da interacção do proto-eu com objectos. Qualquer coisa exterior ao cérebro que  resulte num outro objecto (que é uma representação interna) e que interaja e se integre nos mapas do proto-eu. Ambos objecto mental e proto-eu sofrem alterações no decorrer dessas interações, formando um padrão coerente.

O Eu-autobiográfico é a relação dessa interacção objecto/proto-eu registada no cenário maior da experiência vivida ou até antecipada.

Damásio rejeita ainda formalmente a noção de espaço de trabalho global avançada por Baars, Dehaene e Changeaux. Propõe antes a divisão de tarefas entre um espaço imagetico e um espaço disposicional, e prevê a base neuronal de tais processos. Como Dennet, insiste que não há um sitio que forme a consciência. Ela é um processo global embora fortemente suportado por determinadas estruturas. O tronco cerebral, o tálamo e o córtex.

END SPOILERS

O cuidado da tradução e da escrita é notório, mas por uma razão qualquer não me parece ao nível dos anteriores. O conteúdo sim, é de primeira categoria. Tenho no entanto a certeza que mesmo os apreciadores de boa fraseologia irão ficar satisfeitos mais que não seja pelas pequenas pérolas salpicadas pelo livro fora.

De facto, não me impressionou tanto este livro como o "sentimento de Si", talvez por muitas ideias virem já dessa altura, mas a actualização e polimento dos conceitos desta nova obra é razão suficiente para uma leitura. Quem não tem lido nada de nada sobre a consciência, então até posso dizer que o invejo. Tem pela frente uma excelente montanha russa de revelações sobre a mente, o cérebro e a consciência.


Está como disse escrito de um modo ainda acessível, mas num nível de dificuldade acima da média dentro dos padrões da divulgação cientifica. Penso que esta obra representa mesmo uma unificação original dos pensamentos do autor, destinada a vários meios diferentes simultâneamente.

Embora o autor admita que a consciência continue um mistério (1) , muita coisa na consciência já não o é. Temos uma ideia muito boa de como ela se forma e de porque a temos.

Aconselho fortemente a todos os seres conscientes.

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(1) O que é um mistério? Se as hipoteses aqui espostas forem provadas ficam ainda coisas por explicar, por exemplo porque sentimos como sentimos - o problema dos qualia. Mas deixará de ser um mistério.  Se o termo mistério significa algo como "não fazemos sequer uma ideia por onde lhe pegar", então acho que já não é mistério há algum tempo - pelo menos desde o "Consciousness Explained" de Daniel Dennet.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A dor dos tolos de Kripke.

A "dor dos tolos" é um argumento a favor do dualismo mente-cerebro do filósofo Saul Kipke. Ele diz que se reconhecemos o ouro dos tolos por parecer ouro mas não ser, é a pirite, também deviamos conhecer a "dor dos tolos".  Mas ele diz que quando temos dores, temos mesmo dores, não se dá o caso de ser só parecer.

Segundo ele, se a dor fosse um estado neurológico, conseguiriamos conceber uma dor dos tolos tal que se a pessoa achasse que estava com dor ela poderia estar enganada porque não estava no estado mental da dor. Seria a dor dos tolos.

A questão é que o estado mental da dor é um padrão neuronal complexo. E não é tão simples como ter ou não ter.

Uma pessoal que ouve uma história de tortura não sente um pouco a dor imposta? Sim. É o "como se" a dor fosse real. Não é isto um candidato a dor dos tolos? Estará neste caso o estado neural igual a se a dor fosse real? Não. A sensação é a mesma? Também não. Poderia ser a mesma? Não creio, mas serve para ilustrar como a questão é enganadora.

E os "membros fantasma" que dão dores horriveis? A dor está apenas no estado mental, e a configuração é completa: a dor é real embora o membro não. Não é esta a questão que o autor pôe mas é um caso importante para avaliar a questão.

A questão é sentir dor sem ter o quadro completo de dor. Penso que não, que não será possivel ter uma sensação de dor complexa e completa sem ter todos os neuronios do padrão verdadeirso a disparar na intensidade certa. Penso que o padrão é tão complexo e envolverá tantos circuitos (como a integração com informação do género onde doi, porque doi, etc), que  só um desarranjo grande nos neuronios (loucura total com synpses inadequadas em muitos sitios) poderia dar origem a uma situação de dor relatada a nivel consciente (verbalizada ou não) sem haver todo o padrão neuronal no cerebro.  O que eu penso é que isso não objecta a posição materialista de que estados mentais são estados neurais.

Ou seja, sentir dor sem o quadro completo de dor a nivel neuronal seria antes um suporte do dualismo. Isso não acontecer num cerebro normal em condições normais - já que o como se numa pessoa lucida não tem a mesma intensidade e complexidade da dor real - só vai no sentido da equivalência mente matéria.

Eu acho que além disso, o que Kripke quer saber é se a gente pode sentir dor sem realmente a sentir.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Deus das lacunas.

O naturalismo metódico é aquilo que os criacionistas e defensores do ID (que é realmente criacionismo com outra roupagem), querem eliminar da ciência. A abordagem naturalista, que é sumariamente, procurar causas naturais para os fenomenos naturais, exclui necessáriamente a intervenção sobrenatural. 

Não podemos mais atribuir os trovões a um Deus, a chuva a  outro, etc. Nem tudo ao mesmo. A não ser que possamos trazer evidências ou provas que mostrem isso. Se não indica que essa é inequivocamente a solução, temos de procurar outra. Não é por não a termos que podemos atribui-la ao que mais nos convém. Dá trabalho. Não agrada a muita gente.

Mas o que a ciência sugere fortemente, é que esse é o caminho a seguir. O do naturalismo. Ao longo de seculos, foi a unica abordagem que criou conhecimento tão consistente, tão completo e em tão pouco tempo.

Porque ao procurar uma explicação natural para as coisas, começámos a encontrá-las. De facto, encontrámos explicação para tanta coisa, que o espaço deixado para intervenção sobrenatural, ficou muito reduzido. Ficou reduzido a pequenas lacunas do conhecimento cientifico.

De notar que isto não é o mesmo que dizer que a ciencia regeita "à priori" que existam Deuses , fantasmas ou duendes, por exemplo. Apenas que se eles existem, então vamos ter que encontrar observações que só possam ser explicadas pela sua existência. Tal como por exemplo a observação directa de tais seres - mas de um modo credivel, não por histórias de diz que disse ou evidencia anedótica. 

Se o sobrenatural existe, e coisas com causa sobernatural acontecem, só temos de as encontrar. E cá por mim, passam a ser tão naturais como tudo o resto. Se há fantasmas, que se mostrem evidencias. E eles passam a ser matéria da ciencia. Tal como Duendes ou magia. Se aparecer um Duende em frente ao mosteiro dos Gerónimos, ele passa a ser tão objecto da ciência como o macaco ou o cão.

O problema, é que coisas que não tenhamos a ideia como aconteceram, que estejam de tal modo mal compreendidas que se possa apontar uma origem sobrenatural são cada vez menos. E destas as que poderão sugerir diretamente uma intervenção sobrenatural ainda menos. Talvez o unico exemplo seja a criaçao do universo. O que deixa a inquietante pergunta de que é que andou o Criador a fazer depois disso. E ainda mais, quem o criou a Ele.

Na realidade, dizer que algo é sobernatural, não faz sentido nenhum. Ou existe ou não existe. Se existe, então deve haver alguma evidencia que exista. Se estamos a discutir a existencia de um ser omnipotente, omnisciente e omnipresente ainda menos sentido faz que não encontremos evidencias inequivocas da sua omnipresença, omnisciencia e omnipotencia. Pelo menos, se ainda argumentamos que Deus é interventivo. Se isto fosse verdade, eu diria que Deus era tão natural como qualquer outra coisa.

Porque senão temos que aquilo que entendemos por sobrenatural é caracterizado por ser aquilo que não se pode provar que existe nem identificar onde se manifesta a sua existencia. O que em teoria, é possivel, mas é pouco plausivel. Porque se não se pode provar nem identificar onde se manifesta a sua existencia, é uma maneira de dizer que não acontece. 

E isto não tem nada a ver com as coisas que nós não podemos saber por questões de medição pratica ou de numero de ponderáveis. Isto é, não é por não sabermos que numero vai sair na lotaria que podemos atribuir esse resultado a Deus. Porque sabemos minimamente o que se está a passar. E é tudo neste mundo. Ou não é por não sabermos o pensamento especifico de uma pessoa especifica num momento especico que temos uma falha no conhecimento cientifico. Porque temos uma ideia muito boa de como funciona o cerebro. E não é uma que sugira intervenção divina.

É por isso, que se chama Deus-das-lacunas ao deus que intervem no mundo natural. É porque só sobram umas pouquinhas de lacunas. E é isso que os criacionistas e dualistas querem fazer.

E é por isso que a ciência tem uma descrição do universo diferente da religião. Descrevem causas diferentes e apresentam justificações diferentes. Uma diz que as coisas que observamos têm causas naturais, todas ou quase, faltam umas lacunas, e a outra diz que há coisas que só Deus pode ter feito, mesmo quando se identificam causas e explicações naturais e precisas para esses fenomenos. 

Uma aceita a palavra irreprodutivel de uns poucos como portadores da verdade absoluta e a outra, a ciencia, poe em causa tudo o que é dito e feito, dentro e fora dela. Porque só pela palavra de um homem ou 10 ou 20, não se faz ciencia. Einstein não foi aceite cientificamente por ter uma figura simpática. Mas sim porque as suas teorias fizeram previsões que foram confirmadas, além de serem capazes de explicar tudo o que ja se conhecia. E de, claro, isto poder ter sido confirmado por todos os que estavam em posição de o fazer.

Senão tinhamos profetas também na ciência. E não temos. Temos pessoas que descobriram coisas que os outros puderam confirmar.

E que nos permitiram chegar a numeros populacionais impensaveis, e a esperanças médias de vida loucas e fazer coisas que qualquer homem de há 300 anos diria que eram magia.

Deus continua sem dar sinais de vida, mas a tecnologia atravessa a sociedade. E se bem que por vezes ela seja mal utilizada, também não é Deus que tenta proteger as vitimas do seu abuso.

Quem se questiona abertamente sobre o universo, e procura respostas, sabe que só a ciencia foi capaz de proporcionar algumas. E que outras entidades, que por definição conveniente, escapam à pesquisa cientifica, não passam senão de elaborados pressupostos que não explicam nada. 

A ciencia reduz deus todo-poderoso a um deus-das-lacunas.

E é por isso que os religiosos andam tão activos ora em redefinir ciência, ora em dizer que quem a pratica não sabe nada sobre ela, ou mesmo, tentar dizer que é tudo verdade ao mesmo tempo. Mas isso, tudo verdade ao mesmo tempo, só se for em universos separados. Neste em que vivemos, a melhor descrição que temos é a dada pela ciencia. 

É possivel conceber um deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e ainda por cima moral à luz do conhecimento cientifico? Sim, penso que como exercicio de pensamento é possivel. Mas não é plausível.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Religião e ciência.

Existe alguma contradição entre a religião e a ciência? Alguns cientistas acham que sim. Outros acham que não. Alguns religiosos também já não acham que haja. 

Então que fundamentos pode ter esta questão?  Sugiro pensar sobre quatro princípios cientficos. Todos eles podem e devem ser "googlados" para saber mais:

1 - Lâmina de Occam - diz que as entidades não devem ser multiplicadas para alem do necessário

2- Falsificacionismo - Uma teoria deve ser capaz de fazer previsões testáveis que a possam falsificar

3- Verificacionismo - Uma teoria deve explicar tudo o que se conhece e pode ser observado.

4 - Naturalismo - As causas para os factos observados na natureza devem ser procuradas na natureza. 

Estes princípios não são rígidos é certo. Mas são pertinentes.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Wedge Document

O Wedge Document é o documento onde o Discovery Institute delinea a estratégia de acabar com o materialismo na ciência. E onde se vê que não há nada de cientifico acerca do Discovery Institute.

Descobri via wikipédia um PDF do original:

http://www.antievolution.org/features/wedge.pdf

Se a ciência não fosse Naturalista II

Fig 1: Einstein demorou 10 anos a concluir a Teoria da Relativida

de Geral. Foi um dos esforços mais incríveis protagonizados por um cérebro humano contra o desconhecido. Mas não, calma. A imagem ao lado é uma fraude. A teoria da relatividade tem um pouco mais de... capacidade preditiva

.

Materialismo e Naturalismo

O Materialismo explica-se melhor com uma reflexão sobre a seguinte questão:

Quando é que eu deixo de procurar uma causa natural para um fenómeno observável?

Quando não encontro a explicação?
Essa é a resposta que a humanidade deu até há umas centenas de anos atrás.

Depois disso, houve uma mudança de atitude. Talvez porque alguns homens demonstrassem ser possível explicar certas coisas através do mundo sensível, começou-se a tentar compreender esta mesma natureza sem recorrer a explicações sobrenaturais.

E as respostas começaram a vir. Alguém acabou por dizer que as entidades usadas numa explicação não devem ser multiplicadas para alem do nesseçário. Isto é, se podes explicar sem elas, porque as hás de introduzir na explicação?

Esta abordagem tem se mostrado extremamente prolifera. Embora os filósofos se debatam para tentar explicar os principios de simplicidade em termos lógicos, eles permitiram encontrar muitas explicações sobre como funciona o universo. Deu origem à tecnologia e ao corpo da ciência.

E isso, procurar as respostas para os fenómenos do mundo natural através de efeitos observáveis no mundo material é o materialismo.

E a ciência é materialista, ou naturalista, termo que eu prefiro pois a matéria não é tudo o que há no universo. E porque é que a ciência é materialista? Por causa da pergunta com que comecei este texto:

Quando é que deixamos de aceitar que a resposta está no mundo natural e aceitamos que só pode ter sido uma entidade sobrenatural?

Na pratica, esta resposta poderá vir, na melhor das hipoteses, quando se esgotar a ciência, quando se atingir a ultima gota de explicação dada pela ciência. Mas como não se sabe quando esse ponto chega ou se chegou, só resta continuar a tentar encontrar explicações materiais, que foi o que nos trouxe até aqui em termos de conhecimento cientifico.

Porque se formos pelo outro caminho, é possivel dizer que tudo é como é porque Deus quer. Chove porque Deus quer, a gravidade funciona como Deus quer, a doença é porque Deus quer. Isso até pode ser tudo verdade. Mas assim nunca vamos ter respostas que ajudem a compreender o clima, a física e a medicina. Tudo pode ser explicado como sendo milagre. Aliás isso foi a resposta aceite durante quase toda a existencia da humanidade. A ciência, sem excluir à partida a existencia de Deus, procura saber o máximo possivel sobre as coisas, funcionalmente. Mas isso só é possivel se não se recorrer à explicação sobrenatural.

Dizer que a ciência não é materialista, ou querer retirar o materialismo da ciência é errado. É uma tentativa de acabar com uma caracteristica intrinseca ao seu processo.

E é de facto uma estratégica que tem sido utilizada por defensores de pseudociencias como o desígnio inteligente ou o dualismo. Foi mesmo organizada uma estratégia para o fazer, formalizada no Wedge Document (1), proposto pelo Discovery Institute (2).

Não por terem encontrado uma resposta cientifica à questão referida. Mas, aparentemente, só porque não querem que a ciência possa encontrar soluções que não contenham Deus na equação - e porque isso é mau. Dizem eles. Para saber mais, ler o Wedge Document. Contado não é a mesma coisa...

(1)http://www.geocities.com/CapeCanaveral/hangar/2437/wedge.html Uma cópia do Wedge Document. Vale a pena ler.
(2)http://www.discovery.org/

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Se a ciência não fosse naturalista...


Fig 1- Novos desenvolvimentos teoricos para acabar com a fome no mundo.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Materialismo e a Fé.

Os criacionistas passam a vida a falar de Fé Naturalista. Naturalismo não é uma fé. Naturalismo é procurar na Natureza as respostas para o mundo Natural.

Sim, parte de alguns pressupostos. De que a realidade existe e de que esta é inteligivel para começar. Se assim não for, não vale sequer a pena avançar com explicações, sejam religiosas ou cientificas que a saída é a ausência de resposta.

Que nós existimos, Descarte resolveu bem com a sua máxima, "penso logo existo". Que a realidade é inteligível, pelo menos parcialmente, é francamente plausível, uma vez que é possível fazer previsões através do que se vai conhecendo. Excepto claro para a argumentação do solipsimo segundo a qual o meu caro leitor é produtos da minha imaginação ou algo projetado em mim, tipo matrix (o filme). Mas se assim for, então esforcemo-nos por conhecer o que em nós projetam. Adiante. Precisamos da lógica e do raciocínio para tirar conclusões.

Se a lógica não existe, então também não há inteligibilidade e voltamos à estaca zero.

Se a lógica existe e o universo é inteligível então há pelo menos alguma coisa que podemos saber sobre ele.

Se podemos tirar conclusões, (a partir das observações) que explicam tudo o que se conhece e fazem previsões acertadas acerca do que ainda não se sabe, então é plausível que essas conclusões estejam correctas.

É isso que é a ciência. Não é uma Fé. É a melhor explicação possivel que se poder encontrar, que para ser a melhor possivel tem de respeitar estes príncipios.

Enquanto houver progresso do conhecimento, não obstante haver cada vez mais perguntas sem resposta - se houver cada vez mais perguntas com resposta e cada vez maior capacidade predictiva - podemos aceitar que a ciência está no bom caminho. A tecnologia é prova pratica que o que se aprende em teoria faz previsões reais. Tão reais como qualquer outra coisa.

Mas alem de ter de explicar o que se conhece e de fazer previsões reais, a ciência, (ou o materialismo, ou o naturalismo, que no sentido que os criacionistas lhe dão são a mesma coisa), tem outra diferença enorme de ser uma fé.

Não é só ser a resposta que se encontra que melhor cumpre aqueles requisitos. É ser formulada, passo a passo conforme se recolhe mais informação da natureza e por isso evoluir.

Não está dogmáticamente fechada sem capacidade de ser alterada.

Por isso, até se pode dizer que a ciência é um pouco predadora. De onde vier a melhor solução, se é de facto melhor, é aceite na ciência.

Se houver alguma fé aqui pelo meio é a de que o universo é inteligível e a de que nós somos capazes de o compreender. Contra a argumentação de quem acha que já sabe tudo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Sobre o anti-materialismo actual

“O Discovery Institute’s Center for the Renewal of Science and Culture procura nada menos do que derrubar o materialismo e o seu legado cultural.” (1)
Esta frase foi retirada do chamado “Wedge document”, do Discovery Institute, que é o responsável pelo suporte à versão moderna do criacionismo que é o dito “Intelligent Design”(2).

Como se pode ver pela frase acima, o ataque ao modelo evolutivo, isto é, à Teoria da Evolução, é apenas um primeiro passo, da estratégia neste documento delineada. O objectivo é, explicitamente, derrubar o materialismo e o seu legado cultural.

O que é então o materialismo? O materialismo é um conceito dos primórdios da ciência, que exprimia a noção de que a matéria é tudo o que existe. Hoje nenhum cientista defende esta ideia, de que o universo é feito apenas de matéria, por isso tenho de introduzir uma explicação sobre o que é o materialismo, pelo menos que sirva para explicar de que é que estamos a falar e o que a estratégia do W.D. significa.

O Discovery Institute não deixa duvidas de que é que esta a falar. Podemos perceber por esta citação: “(…) pensadores como Charles Darwin, Karl Marx, e Sigmund Freud, representaram os seres humanos não como entidades morais e espirituais, mas como animais ou maquinas que habitam um universo regido apenas por forças impessoais e cujo comportamento e mesmo pensamentos são ditados pelas forças indobráveis da biologia, química e o ambiente.” (1). Independentemente das muitas objecções que poderiam aqui ser levantas, fica claro a que é que eles se referem como materialismo. É à ciência. Porque?

Na raiz da ciência está a metodologia que é usada para criar conhecimento. Essa metodologia implica uma versão moderna de materialismo e naturalismo. Como já disse, claramente que o universo não é só feito de matéria, por isso o materialismo terá de ter uma definição mais alargada. Só isso, por si, é um assunto de extenso debate entre os filósofos da ciência (3). Mas de um pondo de vista funcional, o materialismo é o que permite à ciência procurar respostas e criação de conhecimento através da experiência da realidade. Diz que as causas e as consequências podem ser encontradas no mundo físico. Diz que o objecto da ciência é testável, isto é, que podem ser postas em causa hipóteses que são ou não comprovadas pela experiência. Na realidade, o materialismo tem uma relação estreita com empirismo. Opõe-se conceptualmente ao dualismo (4), que é a crença que determinadas coisas, explicitamente a mente, estão para além do mundo físico, da natureza e que como tal não são testáveis. Um método (se existir) que assente no pressuposto que há determinadas coisas que não são testáveis, não é científico no sentido em que não permite fazer previsões, nem falsificar teorias. Porque não é passível de se submeter a uma experimentação sistemática.

Independentemente de que se o materialismo e a metodologia naturalista são “a verdade”, pura e simplesmente, não é possível incorporar o dualismo na ciência. E é isso que, nada ingenuamente, estes senhores se propõem a fazer. Acabar com a ciência. Não é possível aceitar o carácter empírico da ciência e simultaneamente incorporar conceitos não empíricos dizendo que isso é ciência. Que é o que o “Wedge document” defende (1).

Não é por isso de estranhar que os ataques mais recentes tenham sido feitos na área da Neurobiologia (5), uma vez que esta procura explicar a mente com base no estudo do cérebro. Sobre este assunto, considero muito interessantes os posts do neurologista Steve Novella, no seu blogueNeurological”, de que vou citar parte da conclusão:

“Confundem naturalismo metodológico, que na prática significa que “natural” é o que quer que seja susceptível de investigação cientifica, com uma lista à priori de fenómenos naturais aceites, tudo o resto sendo excluído – mas não existe tal lista. Os argumentos antimaterialistas são um elaborado engano (facilitado por confundir a terminologia filosófica) que tenciona quebrar as regras da ciência para permitir crenças ideológicas não testáveis. Esta luta teve lugar já há muito tempo e as regras actuais da ciência são o resultado. Os anti-materialistas simplesmente não gostam da visão do lado perdedor.”(6)



Saber mais; referencias:

(1) Wedge document :http://www.antievolution.org/features/wedge.pdf
(2) Wikipedia, “Wedge document” :(http://en.wikipedia.org/wiki/Wedge_document)
(3) Wikipedia, materialism: (http://en.wikipedia.org/wiki/Materialism)
(4) Wikipedia, dualismo, (http://en.wikipedia.org/wiki/Dualism_(philosophy_of_mind)
(5) New scientist, criacionistas declaram guerra ao cerebro, (http://www.newscientist.com/channel/being-human/brain/mg20026793.000-creationists-declare-war-over-the-brain.html)
(6) Neurological em : (http://www.theness.com/neurologicablog/?p=406#more-406)