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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Uma asneira não justifica outra asneira.

Frequentemente nas discussões sobre as medicinas alternativas, os seus proponentes recorrem para o ataque à pratica da medicina convencional. Não atacam os métodos de investigação, os resultados dos ensaios, a ciência básica, mas sim a alegada má pratica de quem a exerce, normalmente recorrendo a evidência anedótica.

Mas a questão é esta: Mesmo se os médicos que procuram a medicina baseada na ciência cometem erros, isso não diz nada acerca da validade das outras alegadas medicinas. Mais vale errar a fazer a coisa certa do que ser prefeito a fazer a coisa errada. É que errar não é apenas algo que vá acontecer aos médicos que praticam a medicina baseada na ciência. Infelizmente acontece a todos.

Devíamos pelo menos tentar fazer aquilo que sabemos que funciona. E que sabemos que funciona e não apenas acreditamos que funciona, estando a diferença na justificação que temos para a nossa crença.

E só porque errar acontece a todos, passar aceitar como bom qualquer medicina alternativa, é um disparate.

Tem de ter sustentação cientifica, alguma justificação que funciona. Se não tem, não são os erros dos outros que lhe dão essa justificação. Sobretudo quando a medicina baseada na ciência, com todas as suas falhas, dá tantos resultados, que não se conseguem de outro modo.

Claro que também é mais fácil apontar o erro quando os procedimentos são tão claros e objectivos, bem descritos, bem registados e tão expostos.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Pensar, Depressa e Devagar

Daniel Kahneman, psicologo e Nobel da economia (não, não me enganei, mais sobre isto no fim), apresenta-nos aqui o seu trabalho sobre os erros sistemáticos da nossa intuição.

E o trabalho que ele tem para apresentar é extenso e cientificamente correcto. Portanto, é preciso o leitor preparar-se para uma leitura longa, mas recompensadora.

De facto, este é um livro que deve ser de leitura obrigatória para todo o pensador critico, ainda que como o próprio autor avisa, conhecer muitos dos erros aqui descritos possa não ser o suficiente para os evitar. Mas ajuda a reconhecer nos outros quando os  virmos. Pode ser que isso seja bom. Eu espero que sim.

Para sumarizar rápidamente o conteudo, começarei por dizer que Kahneman postula dois sistemas congnitivos concorrrentes para modelar o processo como geramos crenças e tomamos decisões. São, segundo a sua nomenculatura, o sistema 1 e o sistema 2.

O sistema 1 corresponde ao que se chama vulgarmente por intuição. Tem como caracteristicas: o facto de ser rápido - chega a decisões e conclusões muito depressa; confiante ao ponto de considerar que não há mais nada que aquilo que "está à vista"; leve, porque não requer muito esforço para ser usado; é tendencioso, inconsistente e manipulável.

O sistema 2 é o sistema que é usado no pensamento critico ou na ciencia e desenvolvimento de tecnologia. É pesado pois requer um esforço que se traduz mesmo em um maior gasto de energia pelo cerebro; é "preguiçoso", pois não se mete se não for activamente invocado; é leeeeennntooo, demora uma data de tempo a processar e a gerar informação útil para tirar uma conclusão; é menos susceptivel a "bias" e manipulação. Procura ser consistente com tudo o que existe na sua posse e descarta hipoteses ad-hoc. Segue o "estado da arte" a que pode aceder. Lida com alternativas.

O livro está cheio de exemplos de como funciona um e outro e das experiencias que foram feitas para se chegar às conclusões a que se chegaram. Alguns dos erros e processos disfuncionais que o livro relata são:

- Aversão à perda - É a tendencia para escolher uma opção pior por se dar mais valor ao que se perde do que ao que se ganha.
- Enquadramento - É a têndencia gerada pela forma como as coisas são apresentadas e pode fazer uso de outros problemas como a aversão à perda.
- Priming - É a tendencia (em qualquer sentido)  criada apenas pelo contacto com uma ideia, mesmo sem que tenhamos consciencia disso. Por exemplo pessoas que foram postas em contacto com a palavra dinheiro sentaram-se mais longe umas das outras numa sala de espera que as do grupo controle. Por outro lado, esforçaram-se mais na entrevista seguinte. Isto só por ver no fundo a palavra "money" escrita.
- Ancoramento - É a tendencia de usar como referencia o primeiro valor proposto.
- Confundir a facilidade com que nos lembramos de uma coisa com a frequencia com que ela acontece.
- Não nos preocuparmos com as probabilidades base de um acontecimento, que possam já ser conhecidas, quando procuramos determinar a sua probabilidade  (ver estatistica Bayesiana acerca de probabilidades à priori).
- Ignorar ou exagerar probabilidades pequenas.
- Falácia narrativa - A tendencia para aceitar uma narrativa plausivel como um conjunto de regras de causalidade que explicam deterministicamente um resultado. Depois das coisas acontecerem elas parecem sempre obvias, ainda que fossem (em muitos casos) impossíveis de prever.

Por descrever e demonstrar tão bem todos estes erros na tomada de decisões, Daniel Kahneman mostra como um dos axiomas basicos da economia está errado. O ser humano não é sempre racional.

Donde a importancia do trabalho de Daniel Kahneman para a economia. Não é possível pura e simplesmente ignorar os resultados das suas investigações e as suas implicações para as teorias economicas.

Ter recebido o prémio Nobel da Economia parece-me um bom sinal da abertura às suas descobertas.

Para outra critica ao livro feita do ponto de vista da economia proponho ir aqui.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Porque a evidência anedótica é anedótica?

De um modo geral, as razões mais frequentes pelas quais a evidência anedótica é anedótica são:

■Generalização falaciosa - porque normalmente apresenta poucos casos para depois generalizar para todos os outros, assumindo que o que temos é uma amostra válida. É uma tentação em que todos podemos cair para valorizar a nossa experiência pessoal ou falta de conhecimento. Houve uma altura em que não podíamos contar com muito mais do que amostras pequenas e isso terá ficado marcado no nosso cérebro ao longo da evolução. É extremamente tentador generalizar a partir de poucos dados, mas não tem desculpa quando há melhor. Quando não há é preciso prudência na mesma.

■"Cherry picking" - conscientemente ou não há uma tendência para "escolher as cerejas", ou seja, escolher e apresentar apenas aqueles casos que satisfazem aquilo que queremos defender. Se não apresentarmos os casos todos e com um sistema de observação que possa garantir que estamos a apresentar os casos todos nem podemos saber se há cherry picking ou não.

■Tendência para a confirmação e de relembrar apenas os positivos (confirmation bias) - é a tendência universal para encontrar o que se procura e de negligenciar o que não concorre para o foco da procura por não parecer relevante. Por outro lado, se já temos uma ideia pré-formada é sempre mais fácil ver os erros em raciocínios que não concluem o que nós acreditamos do que naqueles que concluem aquilo em que estamos de acordo. A tendência para a confirmação engloba também aquelas observações que mostram que nos lembramos mais facilmente de resultados verdadeiros do que dos errados. Por exemplo é o que sucede quando os pretendentes a médiuns lançam várias hipóteses para o ar a ver se alguma pega e as pessoas no fim só se lembram dos "hits". É parecido com "cherry picking" mas mais do que estar a escolher os casos é estar a ver casos positivos onde eles não estão.

■Falhas de atenção / percepção - a atenção tem um foco muito pequeno que não permite registar tudo o que se passa. No entanto o cérebro não é "avisado" de tudo o que não estava a ser processado e tende a considerar que o que não observou se mantém como esperado. Por outro lado o cérebro tem uma tendência para preencher o que não sabe ou o que não percebe com o que acha que deve ser. Tende a repetir padrões e até a identifica-los onde eles não estão (pareidolia, aparência de desígnio, ilusões de contornos - ver referencia (a) e (b) para exemplos).

■Falácia post hoc ergo propter hoc - é a tendência para julgar haver uma relação causa efeito entre dois fenómenos consecutivos no tempo. Por exemplo, o caso em que A antecede B e se considera que A causou B. Por exemplo os chineses acreditavam que o eclipse do sol se devia ao facto de este estar a ser engolido por um dragão. Por isso era preciso fazer barulho para assustar o dragão de modo a que ele devolvesse o Sol - funcionava sempre. Para os mais curiosos, o problema filosófico de saber quando é que podemos dizer que há causa-efeito é chamado de problema de indução de Hume e é resolvido com graus de certeza e não com certezas absolutas. No entanto precisa de avaliação sistemática e justificação teórica.

■Interesse pessoal / conflito de interesses - bias / fraude (esta claro que não é válida na primeira pessoa...)


Alguns destes problemas são pertinentes em todo o tipo de investigação. Vários investigadores têm mostrado que a tendenciosidade é um problema na ciência também . A questão é que sem metodologia e sistematização nem sequer conseguimos avaliar independentemente se há uma "confirmation bias" ou "cherry picking", para além de que a amostra pequena o sugere fortemente. Conseguir uma amostra significativa com um ou dois casos é virtualmente impossível para muita coisa.

Estas são também questões que afectam a maneira como interpretamos as nossas próprias observações. Mesmo que a sejamos nós a testemunhar, na primeira pessoa, temos de ter cuidado para não cair em nenhum destes erros. Se a nossa observação pessoal vai contra a observação sistemática e teorias cientificas, o melhor é começarmos a tentar perceber onde é que nos enganamos.

Não obstante tudo o que foi escrito, toda a evidencia e observação deve ser avaliada e julgada no contexto teórico em que se insere. Uma evidencia que não seja forte o suficiente para estabelecer uma teoria ou facto pode ser forte o suficiente para justificar uma observação compatível com uma teoria.

Em todo o caso a observação sistemática estará sempre acima de observação não sistemática, e há vários níveis de qualidade mesmo para a observação sistemática. No topo temos a observação repetida sistemáticamente com numeros grandes e verificada independentemente por vários observadores - senão nunca poderíamos derrubar teorias - ao fim e ao cabo a autoridade máxima na ciência é a evidencia empírica e não a teoria. Tem é de ser bem colhida e de modo a minimizar os problemas acima.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A mente fechada.

O ultimo "post" foi sobre a "mente aberta" e como eu vejo a utilização desse termo, por isso agora fazia sentido fazer um sobre a mente fechada. Aqui vem ele:

Tal como a "mente aberta" não é para mim uma mente que aceita toda a carga de ideias, a "mente fechada" não é simplesmente a mente que não aceita ideias novas.

Isso é a "mente bafienta" (fica para outro dia). Não conheço casos em que se aplique, felizmente. Mas mentes fechadas, sim. É frequente vê-las fecharem-se frente às ideias mais bem fundamentadas e por isso penso que é preciso distinguir entre não aceitar ideias novas, (ou poucas) e aceitar apenas as ideias novas de que gostamos.

Este ultimo caso, é o caso da mente fechada de Linaeus. Tem à priori uma expectativa que tem de ser observada e sem investigação especifica sobre o tema em causa, faz uma opinião. Não aceita o que não gosta e fundamenta-se no que quer acreditar.

Considera que o que lhe parece deve ser e que a sua opinião tem o mesmo valor que um argumento cientifico ou filosófico. Provavelmente vou ser queimado vivo por isto... Mas a verdade é que *opinando* não é uma forma segura de construir conhecimento. É verdade que cada um tem direito a ter a sua opinião, mas mesmo este facto, de que cada um tem direito a ter a sua, devia chamar a atenção para que o conhecimento opinativo, do senso comum, não tem valor enquanto conhecimento rigoroso. A não ser que cada um tenha direito à sua própria realidade.

Toda a gente tem direito às suas próprias opiniões, mas não aos seus próprios factos, leis e teorias. Ou funcionam ou não funcionam. Ou funcionam mal. Mas seja como for, opinar não é a ultima palavra no mundo da epistemologia. É a primeira. É a que se tem quando não se sabe melhor que isso. Pode fazer falta, mas quando há melhor é preciso ter a mente aberta. Durante milénios não houve melhor. Durante 200.000 anos o homem não teve mais que senso comum e a sua opinião para o  guiar. A escrita tem menos de 7000 anos e o conhecimento transmitido oralmente é uma lotaria.

Mas agora tem mais. Tem a filosofia desde a Grécia Antiga e a ciência desde Galileu.

Por isso, penso que o problema está em parte  em achar que ninguém deve saber melhor que isso, que a opinião própria, sobretudo quando se trata da nossa opinião. Uma crença que em si deve ter dado segurança e determinação a milhares de homens durante milhares de anos.

É uma coisa relativamente nova poder dispor de tanto conhecimento que é melhor que o opinativo. Há quem considere que a inteligencia é precisamente a capacidade de adaptação a situações novas do ponto de vista evolutivo. Passar a pesquisar o que dizem os especialistas, o que está provado com rigor, como se pode saber o que se sabe, pode muito bem ser em si um sinal (mas não o unico!) de inteligência nessa prespectiva. Se não, pelo menos de "mente aberta".


A "mente fechada" caracteriza-se não só por não estar aberta a avaliar imparcialmente as evidências como a não estar sequer estar aberta à sua pesquisa. Prefere fazer julgamentos rápidos menos informados a lentos e mais informados (dantes não era uma opção) e não obstante isso insiste que o seu, por ser seu, é o melhor.

A mente fechada recusa-se a ir mais longe que a opinião. Por preguiça, ignorância, teimosia ou impotência, escolhe defender uma opinião qualquer, que pareça simpática, e não está aberta a estudos sistemáticos, argumentos difíceis de perceber (sobretudo se envolverem matemática), ou que pura e simplesmente requeiram muita aprendizagem nova.

Frequentemente recorre a raciocínios falaciosos sem dar conta disso e considera um exotismo grotesco que se apontem  falácias, não gosta que se critiquem as suas ideias - considera-as uma coisa pessoal - e até acha que a ciência ou a filosofia são uma questão de opinião. Aceita testemunho individual como evidencia forte, confunde carisma com autoridade, e vê facilmente relações de causalidade em coisas que tenham uma sequência temporal.


No entanto se lhes perguntarem, às mentes fechadas, se a realidade é uma questão de opinião, a maioria dirá que não. Mas isto não os fará enveredar por uma sede de investigação, procura de conhecimento ou coisa do género. Como se o conhecimento fosse a coisa mais bem distribuida deste mundo, e algo que nunca falta, estão sempre satisfeita com o que têm e com a qualidade dos seus argumentos. Argumentos esses que lhes parecem bons desde que sejam a defender a ideia que já tinham antes. Coisa que devia ser ao contrário, é ter uma ideia porque é suportada por bons argumentos.

Mesmo quando proferem o seu mais potente argumento: "Porque eu acredito" ou "porque eu sei", não se dão conta da inversão lógica. E este é o sinal patognomónico  da "mente fechada". É o considerar a sua opinião um argumento em si. Que acreditar é o ponto de partida para formar conhecimento - numa confusão desastrosa entre mapa e território. Está errado. Depois é enveredar numa odisseia de confirmation bias" e temos a mente fechada feita de ideias... Fechadas? Sim, é o termo correcto. Fechadas a serem testadas.

As coisas não são como são só porque nós gostávamos que fosse assim, fosse bom que fosse assim, acreditamos que é assim ou até que devia ser assim.

Dá trabalho, e às vezes não está ao nosso alcance perceber tudo. Mas sinceramente. Vale a pena.

Agora um nota importante: A "mente fechada", caracterizada por todos estes pontos o tempo todo, é uma abstracção. Não corresponde a ninguém. É um exagero para tentar caricaturizar um estereótipo de comportamento e um estado mental, não tanto de carácter  -  felizmente a mente fechada é algo que não ocorre o tempo todo mesmo nas mentes mais susceptíveis. Pelo menos que eu tenha presenciado. Espero não ofender ninguém, não é o meu desejo, mas como alguém a quem esse rotulo já foi colado muitas vezes sinto-me no direito de dizer o que penso sobre isso. Estou aberto a refutação. Como sempre.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Porque precisamos de testes duplamente cegos, controlados com placebo, com muitos casos e aleatórios.


A versão curta.

Os defensores das medicinas alternativas parecem não compreender porque esse tipo de testes é imprescindível para avaliar eficácia. A apresentação de testemunhos individuais, sem diagnósticos ou descrição rigorosa dos casos juntamente com definições que apareçam num ou noutro manual justificam escrever sobre este tema mais uma vez.

Vou tentar ser o mais sucinto possível. É preciso abordar o problema em 2 fases. Uma referente às características das doenças e pessoas e a outra a explicar onde isso encaixa na metodologia.

1 – A maioria das doenças que sofremos durante a vida são auto limitantes. Isto é, passam sozinhas a maioria das vezes. Faça-se o que se fizer, elas acabam por desaparecer.
Por isso a experiência pessoal não conta. Mesmo que seja verdadeira e acreditemos nela. Pode não ter sido efeito do tratamento mas sim da natureza. A nossa tendência para partir logo para uma relação causa efeito é uma falácia. E por isso são precisos muitos casos e comparação com placebo. Para ver se houve diferença para os que não fizeram nada. É como o provérbio de “um mês a chá de limão cura a constipação”. Claro que cura. Mesmo que se não tomar vai passar na mesma.
2- A maioria das doenças que não passam sozinhas, as doenças crónicas, têm oscilações na gravidade dos sintomas. Num mesmo individuo vão variar de uma maneira pouco previsível ao longo do tempo.
Temos então de saber que as melhoras no período relatado são de facto devidas ao tratamento e não ao acaso. Precisamos de inúmeros casos em estudo e precisamos que sejam controlados com placebo. Precisamos também que tenham sido separados ao acaso entre os dois grupos em estudo. (tratamento e controle). O placebo tem também uma importância enorme em casos crónicos pois influi no modo como as pessoas se sentem e relatam o progresso da doença. Também a tendência para a confirmação de melhoras e de guardar as melhores experiências na memória é importante neste aspecto. Há de facto uma tendência neste tipo de doenças para relatar melhoras e não perceber que é apenas o ciclo normal da doença.
3- Existe uma grande variabilidade individual na apresentação das doenças. Quer em gravidade quer em tipo de sintomatologia. Por isso os diagnósticos tem de ser rigorosos e os parametros estudados bem descritos. Deve ser o mais objectivo possivel. São precisos muitos casos, até fazer uma amostra significativa e o resultado deve vir em linguagem matemática, após análise estatistica. Raramente toda a gente melhora muito mais que o placebo. Esta é a unica maneira de saber que não é por acaso. E se for só um caso caímos na falácia da generalização apressada.
4- Existe uma tendência natural das pessoas para se recordarem dos resultados positivos ou de os procurarem sem reparar em negativos para um dado assunto.  É a “confirmation bias” já antes referida.
Por mais esta razão testemunhos individuais não servem. As pessoas que vão aparecer foram escolhidas por relatarem resultados positivos e ficamos sem saber quantos eram os negativos. Mesmo que o “cherry picking” não seja propositado ele é inevitável se a coisa não for feita objectivamente, com todos os casos anotados logo no inicio para depois podermos fazer uma estatística de qual a diferença entre os positivos e negativos e se esta pode ser atribuída ao acaso.
5 – Fraude.
Penso que não vale a pena justificar porque devemos tentar fazer as coisas de um modo que evitem a manipulação dos resultados. Nem que isso é uma tendencia natural de muita gente. É a primeira razão pela qual os testes têm de ser duplamente cegos. Nem o médico nem o paciente podem saber se estão a placebo ou a tratamento. E é a segunda razão porque devem ser randomizados. Para não escolher os que convém mais.
6-Efeito placebo.
Esta cientificamente bem estudado o efeito que a crença tem na percepção da doença e da sua evolução. O efeito em termos fisiológicos é pequeno, mas é importante no modo como o paciente se sente e vê o evoluir da doença. E pode diminuir o stress que é um parametro que diminui a eficacia do sistema imunológico quer em pessoas quer em animais. É a segunda razão pela qual os testes tem de ser duplamente cegos. O placebo é mais forte quanto mais a pessoa acreditar que está a ser tratada. Por isso ela não pode saber. E o médico, para evitar a tendência para encontrar positivos também não. É preciso distinguir o efeito do medicamento em si do efeito placebo. Tudo tem efeito placebo. O que é dificil é encontrar tratamentos que vão além do placebo. É casos para dizer que placebos há muitos, tratamentos é que não. O efeito placebo não é um efeito do medicamento diretamente. É muito mais um efeito da crença no tratamento. Por isso o teste tem de comparar a eficacia do medicamento  com o efito placebo. Se o medicamento não é mais eficaz é porque tudo o que estamos a assistir é efeito placebo.


7-Sistemas complexos.
O nosso organismo é um sistema de complexidade elevada, sujeito a influência de um meio externo quase igualmente tão complexo. É por isso necessário reduzir o numero de variáveis que estão em estudo, quer intrínsecas ao paciente quer extrínsecas. Para isso é preciso um diagnóstico rigoroso dos casos, bem documentado e feito por clínicos experientes. É feita a tentativa de todas as pessoas do estudo estarem sujeitas às mesmas condições, e tem de haver um tipo de controle – o placebo – que deve mimetizar o processo ou principio activo estudado em tudo menos no que está em causa. Isto é, a administração tem de ser imitada, a forma, a interacção com os pacientes, etc. E é por isto que o desenho do estudo é tão importante. Tem de ser desenhado para estudar a variável em causa e deve ter-se previsto qual a melhor maneira de o fazer. Tudo deve ser rigorosamente descrito para que possa ser reproduzido, e verificado independentemente. Se não for assim, nem é possível discutir o assunto pois a informação não presta

Saber mais (sugestões):

Pesquisar "confirmation bias", "anedotical evidence" na internet.
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Apelo à tradição

E para juntar à minha colecção de falácias cá vai uma bem portuguesa.

Apelo à tradição ou "argumentum ad antiquitatem".

É mesmo o que parece, não precisa de grandes explicações. Ser uma tradição, só por si, é insuficiente para validar seja o que for. Por exemplo: A tourada não passa a ser boa por ser uma tradição.

Podem ler mais aqui:

http://en.wikipedia.org/wiki/Appeal_to_tradition

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os 7 sinais de alerta.

1 - Evidencia anedótica (1), ou falácia dos numeros pequenos, normalemente vem sobre a forma de histórinhas  do tipo em que a vizinha da dona Maria perdeu 10 kg num dia só de olhar para o produto. Depois é só repetir e mudar o nome e morada.
2- Apelo à credulidade, tipo "abra a sua mente" ou "é preciso ter um espirito aberto". Sim, porque se se pensar muito no assunto somos uns caretas de espirto fechado que ninguem gosta. Ou o que é bom é acreditar nas coisas porque nos pedem para acreditar e não porque fazem sentido ou estão provadas.
3- Promessas milagrosas, do género panaceia universal ou solução instantanea, com promessa de cura da artrite e da taquicardia de uma só vez. Além de perder os tais kilos extra. Parente da famosa BANHA DA COBRA tm. Se é bom demais para ser verdade... Se calhar não é mesmo verdade...
4- Promessas misteriosas, como se houvesse um segredo guardado que só alguns eleitos podem ter acesso, "mas agora por uns miseros trocos tambem pode ser seu". Ou ter acabado de ganhar um prémio num concurso em que misteriosamente nem tinha entrado.
5- Ter escrito: "provado cientificamente". Sim, é verdade, é um abuso oque se faz para aí. Agora tudo é provado cientificamente, pelo menos até se discutir um bocado o assunto e afinal a ciência já não poder provar tudo. Tenho visto essa alegação poucas vezes em medicamentos genuínos, etc.
6- Ter o garante de grandes gurus que não provam o que dizem - Apelo à autoridade.
7- Falácia Ad-hoc. Ou falácia da teoria feita à medida das nossas necessidades. Descreve apenas uma coisa e mais nada. Funciona sem fazer previsões e não tem encaixe racional  absolutamente nenhum a não ser no seu sistema de credos próprio. Ok, esta pode não ser obvia, mas quando dá nas vistas não engana. É tanga.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mais falácias.

Aqui vão mais duas falácias para juntar ao roll das que já falei. São extremamente importantes e vale a pena pensar um pouco sobre elas. Estão na defesa de quase todas as crenças não cientificas:

Falácia da irrefutabilidade: Como o nome indica, é a falácia de propor uma teoria que não pode ser refutada. Não porque esteja correcta, mas porque não é possivel criar as condições em que a sua veracidade seja testada. Ou seja, não é possivel por a teoria à prova e avaliar se é correcta ou não. Para ser testavel uma teoria deve fazer previsões específicas que deêm um resultado objectivo sobre a sua validade quando testados. Previsões que possam ocorrer independentemente da teoria ser verdadeira não contam. Por exemplo: "é milagre".

Falácia do ambito limitado (ad hoc) : Quando a teoria explica apenas um fenómeno e nada mais. Como se estivessemos a procurar teorias independentes para cada fenómeno, sem que se articulem entre si ou possam explicar outros fenomenos conhecidos que estejam relacionados. Por exemplo: "Não tem efeitos adversos porque é absolutamente natural" - é uma explicação à medida da ideia que se pretende vender e que não explica mais nada. Existem produtos de origem natural que têm efeitos adversos e existem produtos de origem laboratorial que não tem mais efeitos adversos que qualquer outro produto, natural ou não.

Fonte: Tradução do guia das falácias de Stephen Downes por Julio Sameiro, no blogue "Crítica"

http://criticanarede.com/welcome-1.htm

Além desse site, considero muito interessante a abordagem do Duvida Metódica, onde os autores usam exemplos do dia a dia para ilustrar o estudo das falácias, ao mesmo tempo que colocam desafios aos seus alunos. Vejam aqui:

http://duvida-metodica.blogspot.com/search/label/Falácias%20Informais

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Algumas falácias.

Falacias são erros de raciocínio que estão descritos e classificados. Saber identificar esses erros pode ajudar a desenvolver melhores argumentos e chegar mais rapidamente a conclusões, já que eles aparecem frequentemente em discussões.

Por exemplo:

Falácia "argumentum ad hitlerum" - Usar o Nazismo ou Hitler para argumentar que algo é errado, independente de que coisa seja essa. O facto de Hitler fazer isto ou aquilo não torna por si essa coisa errada. Tal como tomar o pequeno almoço.

Falácia do jogador: - Pensar que depois de sair muitas vezes o mesmo valor, tem de sair outro na jogada seguinte. Por exemplo, se sair muitas vezes seguidas vermelho na roleta, pode parecer que a probabilidade de a seguir sair preto aumenta. Mas não, são acontecimentos independentes

Falácia do "homem palha" - consiste em criar uma versão simplificada do assunto em defesa pelo opositor para ser mais fácil ataca-lo - uma versão parecida mas não igual. Homem palha vem precisamente da ideia do  espantalho ( homem feito de palha) que é mais fácil de atacar que um homem verdadeiro. Facilmente conseguido, por exemplo, exagerando determinada posição  e aproveitando para a ridicularizar.  

Falácia "argumentum ad populum" ou "apelo à autoridade das multidões" - só porque muita gente o está a fazer não quer dizer que esteja correcto. 

Falácia "Cum Hoc, Ergo Propter Hoc" - Se C e D aconteceram ao mesmo tempo, C causou D. O que está errado se não se provar de outro modo a relação de causa efeito. Correlação não é o mesmo que causa. Semelhante à falácia "Post Hoc, Ergo Propter Hocque é assim: Se C aconteceu imediatamente antes de D, então C causou D. Não, e pela mesma razão, além disso coicidências existêm.

Falácia "Dois errados dão um certo" ou "um erro não justifica outro erro". Como por exemplo defender o acto de fumar porque já existem muitas outras coisas em que se correm riscos desnecessários. Como se correr riscos justifica-se por si só correr ainda mais.

Falácia do "apelo emocional" - subtipos: "argumentum ad metum", "argumentum ad invidiam", "argumentum ad odium" , "argumentum ad misericordiam", "argumentum ad superbiam". São argumentos que se destinam a manipular as emoções e com isso criar uma distração que afaste da lógica. 

Ad HominemFalácia do ataque ao homem, que tal como as anterios se destinam a criar uma distração da verdadeira matéria em discussão e de modo a criar vulnerabilidade no atacado. Muitas vezes é mal identificada porque em alguns casos o caracter de um individuo pode mesmo ser o assunto em discução, ou estar em causa, como por exemplo um candidato a presidente não poder ter antecedentes de comportamento duvidosos. No entanto a relevancia deve ser provada, uma vez que nem tudo é pertinente. Questões de aparencia fisica certamente não o serão.

"wishfull Thinking" -Que se traduz em "Como B é bom, então B tem de ser verdade. 

Falácia do  "apelo à ignorancia", ou "Argumentum ad Ignorantiam". É o argumento de que se não há evidencias para mostrar que P é falso, então P deve ser verdade. Exclui assuntos que tenham sido exaustivamente estudados e que sejam possiveis de provar pela negativa tal como a existência de unicornios azuis. O apelo à ignorancia está em dizer que eles existem na ausencia de um prova que impossibilite a sua existencia.Esta falácia é semelhante ao argumento tipo "Deus das lacunas" - Tentar encaixar uma determinada teoria nas lacunas do conhecimento cientifico. Ou seja, tentar usar o que uma teoria não explica para sem outro argumento impor uma nova teoria. Por exemplo, só porque a ciencia não explica tudo não quer dizer que não explique nada e que se deva aceitar uma teoria não cientifica. O nome Deus-das-lacunas vem da pratica histórica de atribuir a Deus tudo o que ainda não se sabia explicar, como por exemplo a chuva, os relampagos, etc. Conforme o conhecimento cientifico foi avançando, cada vez ficou menos espaço para fenómenos apenas passíveis de serem explicados por intervenção sobrenatural.

Argumento circular, "begging the question" - qualquer argumentação em que a conclusão aparece como uma das permissas ou uma cadeia de argumentação em que a conclusão é a permissa de um dos argumentos iniciais.

Pergunta carregada "Loaded question". Por exemplo, "és parvo ou fazes-te"? Ou "Ainda assaltas casas?".  A resposta simples à questão não permite a negação total. A questão está carregada com um afirmação que não se pode negar de um modo simples de sim ou não e cuja veracidade pode ser controversa ou completamente falsa. (Não sendo parvo, nem fazendo-se - e nunca tendo assaltado casas.)  

Falácia da "prova anedótica" ou de amostras pequenas. Usar historietas escolhidas a dedo para provar algo que requer amostras maiores e aleatórias como base de estudo. Como por exemplo concluir que chá de figado de porco é bom para a dor de barriga porque a vizinha um dia tinha dores de barriga e bebeu e logo ficou boa. Frequentemente e tipicamente não é possivel verificar sequer a veracidade dessa história.

Falácia de citar fora de contexto, "Quote mining" - Citar determinado autor de forma a que se consiga criar a percepção que ele disse o oposto do que queria dizer no texto original. Colocar a citação num contexto tal que o sentido é pervertido, de modo a desacreditar determinada ideia.

Falácia do "apelo à autoridade", quando se usa uma autoridade não provada para justificar a nossa argumentação. Ou se invoca uma autoridade de outra especialidade. Ou se faz o seu usi indevido. Por exemplo "só usamos 10% do nosso cerebro, foi Einstein quem o disse." A falácia é que Einstein não era neurologista. (E só por curiosidade também não foi exactamente isso que ele disse. Acho que lhe perguntaram porque é que ele tinha compreendido tanta coisa que os outros não tinham conseguido. E ele respondeu que se calhar usava 90% do cerebro emquanto que os outros estavam a usar 10%. Mas é dificil saber realmente o que disse porque não foi gravado.)

Fonte:

http://www.fallacyfiles.org/taxonomy.html