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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Earth Overshoot Day - 20 Agosto

Feitas as contas ao ano, o planta terra só tem capacidade de nos sustentar nos primeiros 8 meses. Depois disso estamos a consumir mais recursos que aqueles que o planeta pode renovar.

A nível global, ultrapassamos a capacidade de "regeneração" do planeta nos anos 70. A nível local a variação ainda é grande mesmo nos dias de hoje. Há países que não têm ainda saldo negativo.

Há quem pense que vivemos num mundo de recursos infinitos e que o homem não tem a capacidade de alterar o planeta. Mas tudo o que sabemos aponta noutra direcção.

Ver mais aqui.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um erro numa formula de EXCEL levou a uma visão demasiado positiva sobre a austeridade.

Um trabalho de economistas de Harvard que tem sido usado para justificar as medidas de austeridade foi recentemente criticado pela descoberta de erros ao nivel das formulas usadas ( e também por alguns outros aspectos menos transparentes).

Ao que parece a origem dos erros nas formulas é o programa Excel da Microsoft. Mas isso não devia desculpar a situação.

Porque um aspecto a salientar aqui, e algo que é de extrema importancia é:

- Este trabalho não passou por peer-review!!!!

Nao sendo um trabalho de divulgação baseado em outros e sendo sobre algo tão importante, é dificilmente desculpável.

A revisão por pares faz parte do método cientifico. E quando é feita pré-publicação, por revisores da area sob anonimato, é quando funciona melhor. Assim tivemos de esperar mais até o erro ser descoberto. E quem sabe levar com mais austeridade. Afinal isto enfraquece bastante os argumentos dos austerófilos.

Corrigido o problema (esse e outros), os dados obtidos da gravidade do endividamento ( e que supostamente justificam a austeridade, outro ponto criticável), não são nem de perto tão graves como os obtidos com a formula errada, pelo menos nas dividas acima de 90% do GDP. Por exemplo, a divida nunca leva a valores negativos de crescimento.

São estas as diferenças:

Divida: 30%  crescimento (corrigido) 4,2%    (não corrigido) 4,1%
           30 a 60%                               3,1%                          2,8%
           60 a 90%                               3,2%                          2,8%
       mais de 90%                              2,2%                         -0,1%
       mais de 120 %                            1,6%                          ND

Em resposta a estas criticas os autores do estudo original notam que os valores são muito parecidos. E são. Excepto nos pontos criticos, que é o que nos importa.

Via Ars Technica,

"clickar" nos "links" acima fornecidos em hipertexto para ter acesso ao artigo original e reposta dos autores.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A austeridade do ponto de vista de um ceptico.

A austeridade é a politica económica que diz que devem ser os pobres a pagar a incapacidade dos ricos de aplicar efectivamente a sua riqueza (nem investir nem emprestar querem, muito menos pagar impostos) para que haja crescimento.

Em vez de ir buscar o dinheiro onde ele está, a ideia da austeridade é tão burra como ir tentar  buscar dinheiro a quem menos tem. E para dar a quem? A quem menos tem também? Para isso começavam por não o ir lá buscar.

Normalmente com o argumento que as empresas e os ricos criam postos de trabalho, e como se o verdadeiro objectivo das empresas não fosse apenas ter lucro, em vez de taxar o capital proveniente desse lucro, procura-se taxar o trabalho. É uma assimetria enorme nos esforços pedidos.

E uma data de gente sem capital, na esperança eventual de um dia ficar cheio de capital, talvez porque acredite que se vive numa meritocracia ( e cada um de nós tem tendencia para achar que é melhor que os outros), ou que vá ganhar a lotaria, defende que de facto os ricos merecem todo o dinheiro que têm. Ou talvez acreditem que todos podem abrir empresas e ficar com os lucros das suas próprias empresas como se houvessem recursos infinitos e espaços para infinitas empresas. Ou então ainda se calhar é para se armarem em fortes, tal qual o miudo que se espalha no chão e se levanta todo direitinho, a tentar não coxear e a dizer que não doeu nada.

Defendem portanto que 0,001% das pessoas merecem ter practicamente 20% da riqueza. E por aí fora a desporporção continua.  6 biliões de pessoas, ou seja 99,9%  partilham apenas 19% da riqueza que sobra. Que moral é esta? Que discrepancia de mérito pode justificar isto?

Nesta sociedade todos parecem fazer falta para que tudo funcione. Se não igualmente, pelo menos nada que justifique uma diferença tão grande. Apenas há uns que se puseram na posição de fazer as regras e garantem que as regras dizem que os outros não valem grande coisa. Uns acumulam capital enquanto outros acumulam dividas a quem tem capital. E faz as regras. É que ter riqueza dá poder e poder dá riqueza.

Lutar por riqueza, recursos e ideias é em grande parte uma lotaria. Mandar o povo tornar-se empreendedor é como dizer: "amanhem-se!" mesmo sabendo que não dá nem para 1/3 destes.

Parece-me mesmo, tal como a austeridade é imposta, que estamos a pedir o maior esforço a quem mais as coisas custam. Com impacto na qualidade de vida, na saude, na própria e nos seus filhos e provavelmente por muitas gerações. Por isso não me falem em espantalhos de premiar quem mais merece. Nada justifica estas desigualdades e esta má distribuição dos esforços. Afinal o esforço devia ser premiado.

A solução, na minha maneira de ver, é substituir a austeridade por um estimulo economico com origem na redistribuição da riqueza. É preciso ir buscar o dinheiro onde ele está. Não onde ele não está.

Os seres humanos são notávelmente semelhantes entre si. De facto parece que descendemos todos de uma população ancestral de cerca de 10.000 individuos. Qualquer argumento que procure racionalizar a discrepancia de riqueza de um modo tão implacavel está condenada a falhar na justiça, na moralidade e na biologia. E não resta muito mais. Há!... resta na estabilidade mundial. Sim, está a falhar também. A crise é mundial - deixar alguns acumular riqueza sem limites e reger a seu belo prazer deu nisto - e agora é a teoria de que espremer os pobres que resolve o problema. E as desigualdades e o desemprego são causas de guerras. Já chega não?

Dizem também que são ciclos. Suavizem esses ciclos com melhor distribuição dos esforços e da riqueza, num estado mais social e menos selvagem.

Não é preciso acabar com os ricos. Eles podem andar aí na sua vida de ricos que a mim tanto me faz. Mas não podem ser tão ricos. Têm de ajudar a acabar com a pobreza, a miséria e outras coisas que não têm nada de existir.  É que num mundo de recursos limitados o que se acrescenta num lado tem de vir de outro. Só se houvesse recursos livres e ilimitados é que fazia sentido dizer que cada um tem o que se esforça por ter. Assim, o que uns têm é tirado a outros. E se razão pode haver para alguma, moderada e simbolica  desigualdade, nada justifica a actual.

Exemplos empiricos: Eu sugiro o modelo nórdico para começar. E nunca, mas nunca por a democracia em causa.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Pensar, Depressa e Devagar

Daniel Kahneman, psicologo e Nobel da economia (não, não me enganei, mais sobre isto no fim), apresenta-nos aqui o seu trabalho sobre os erros sistemáticos da nossa intuição.

E o trabalho que ele tem para apresentar é extenso e cientificamente correcto. Portanto, é preciso o leitor preparar-se para uma leitura longa, mas recompensadora.

De facto, este é um livro que deve ser de leitura obrigatória para todo o pensador critico, ainda que como o próprio autor avisa, conhecer muitos dos erros aqui descritos possa não ser o suficiente para os evitar. Mas ajuda a reconhecer nos outros quando os  virmos. Pode ser que isso seja bom. Eu espero que sim.

Para sumarizar rápidamente o conteudo, começarei por dizer que Kahneman postula dois sistemas congnitivos concorrrentes para modelar o processo como geramos crenças e tomamos decisões. São, segundo a sua nomenculatura, o sistema 1 e o sistema 2.

O sistema 1 corresponde ao que se chama vulgarmente por intuição. Tem como caracteristicas: o facto de ser rápido - chega a decisões e conclusões muito depressa; confiante ao ponto de considerar que não há mais nada que aquilo que "está à vista"; leve, porque não requer muito esforço para ser usado; é tendencioso, inconsistente e manipulável.

O sistema 2 é o sistema que é usado no pensamento critico ou na ciencia e desenvolvimento de tecnologia. É pesado pois requer um esforço que se traduz mesmo em um maior gasto de energia pelo cerebro; é "preguiçoso", pois não se mete se não for activamente invocado; é leeeeennntooo, demora uma data de tempo a processar e a gerar informação útil para tirar uma conclusão; é menos susceptivel a "bias" e manipulação. Procura ser consistente com tudo o que existe na sua posse e descarta hipoteses ad-hoc. Segue o "estado da arte" a que pode aceder. Lida com alternativas.

O livro está cheio de exemplos de como funciona um e outro e das experiencias que foram feitas para se chegar às conclusões a que se chegaram. Alguns dos erros e processos disfuncionais que o livro relata são:

- Aversão à perda - É a tendencia para escolher uma opção pior por se dar mais valor ao que se perde do que ao que se ganha.
- Enquadramento - É a têndencia gerada pela forma como as coisas são apresentadas e pode fazer uso de outros problemas como a aversão à perda.
- Priming - É a tendencia (em qualquer sentido)  criada apenas pelo contacto com uma ideia, mesmo sem que tenhamos consciencia disso. Por exemplo pessoas que foram postas em contacto com a palavra dinheiro sentaram-se mais longe umas das outras numa sala de espera que as do grupo controle. Por outro lado, esforçaram-se mais na entrevista seguinte. Isto só por ver no fundo a palavra "money" escrita.
- Ancoramento - É a tendencia de usar como referencia o primeiro valor proposto.
- Confundir a facilidade com que nos lembramos de uma coisa com a frequencia com que ela acontece.
- Não nos preocuparmos com as probabilidades base de um acontecimento, que possam já ser conhecidas, quando procuramos determinar a sua probabilidade  (ver estatistica Bayesiana acerca de probabilidades à priori).
- Ignorar ou exagerar probabilidades pequenas.
- Falácia narrativa - A tendencia para aceitar uma narrativa plausivel como um conjunto de regras de causalidade que explicam deterministicamente um resultado. Depois das coisas acontecerem elas parecem sempre obvias, ainda que fossem (em muitos casos) impossíveis de prever.

Por descrever e demonstrar tão bem todos estes erros na tomada de decisões, Daniel Kahneman mostra como um dos axiomas basicos da economia está errado. O ser humano não é sempre racional.

Donde a importancia do trabalho de Daniel Kahneman para a economia. Não é possível pura e simplesmente ignorar os resultados das suas investigações e as suas implicações para as teorias economicas.

Ter recebido o prémio Nobel da Economia parece-me um bom sinal da abertura às suas descobertas.

Para outra critica ao livro feita do ponto de vista da economia proponho ir aqui.