"The God Letter", integralmente aqui.
Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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- O que é o cepticismo?
sexta-feira, 19 de abril de 2013
quinta-feira, 18 de abril de 2013
O problema do mal
Claro que depois vem gente como o William Lane Craig que diz que deus pode ter uma razão suficiente para não acabar com o mal. Como deus pode ter tudo, parece ao William Lane Craig que isto é uma boa desculpa para Deus não fazer melhor.
Ou seja, Deus pode ter uma boa desculpa para ser pior que os humanos (a maior parte de nós esforça-se por evitar atrocidades e essas coisas)
No entanto, com desculpas ou não, isso apenas confirma que Deus pode não fazer melhor - precisa de umas desculpazitas para uns genocidios aqui e ali. Ou que não é lá muito bonzinho. Ou que é tudo imaginação. Por isso, escolham o que vos parece melhor acerca de um conceito referente a um Deus que obviamente não faz melhor. É que só sobra dizer que isto é o melhor mundo possível. Mas isso nem o William Lane Craig parece querer dizer.
Em suma, Harris tem razão em face das evidências e dos cenários racionalmente plausíveis. Não se pode ser muito mais cientifico que isto.
sábado, 16 de março de 2013
Sam Harris a por o dedo em (quase) todas as feridas.
Mas existe ainda este cristianismo e as sua razões e as razões que permitiam aquele antigo catolicismo existir (o inferno já não é arder para sempre) são as mesmas que são referidas por Harris. Se moral é o que se põe na boca de Deus, então temos uma moralidade irracional e obscena. Ainda que venhamos a dizer "há e tal afinal Deus não dizia bem isso..."
Provavelmente Harris refere-se a maior parte do tempo ao cristianismo protestante americano já que é onde ele vive e é a religião do William Lane Craig com quem está a debater.
Aparte este pequeno comentário, o video vale por si próprio.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Os menos humanos.
Mas pelos vistos os ateus são também menos humanos... E isso talvez seja a origem do problema acima, já que põe em causa a dignidade e humanidade de quem não segue os seus preceitos:
«A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. […] O homem é, por natureza e vocação, um ser religioso. Vindo de Deus e caminhando para Deus, o homem não vive uma vida plenamente humana senão na medida em que livremente viver a sua relação com Deus.»
- Catecismo da Igreja Católica (1)
Isto é o que andam a ensinar a crianças demasiado novas saber melhor, e que mais tarde tenderão a não olhar tão criticamente para estes ensinamentos. Talvez até seja uma das origens de tanta desconfiança face aos ateus. Mas há mais:
«Para se reencontrar a si mesmo e reassumir a própria identidade verdadeiramente, para viver à altura do próprio ser, o homem deve voltar a reconhecer-se criatura, dependente de Deus. Ao reconhecimento desta dependência — que no fundo é a descoberta jubilosa de ser filho de Deus — está ligada a possibilidade de uma vida deveras livre e plena.»
- Bento XVI (2)
Eu acho que isto é caso para dizer que as noticias da nossa diminuição existencial foram largamente sobrestimadas.
Os ateus e agnósticos são pessoas que têm dado muito a este mundo, de facto quase tudo o que sabemos, ao olhar para trás para a história, mais tarde ou mais cedo passa pelo cérebro de um deles:
Francis Krick (DNA), Svante Arrhenius (efeito de estufa), Albert Einstein (teoria atómica, teoria da relatividade, mecanica quantica), Darwin (teoria da evolução), Paul Dirac (mecânica quantica), Thomas Edison (inumeras aplicações tecnológicas), Paul Erdos (mais prolifico matemático de sempre), Richard Feyman (interpretação da mecanica quântica), Sigmund Freud (psicologia), Linus Pauling (mecância quântica), Edwin Shrodinger (mecanica quântica), Steven Weinberg (unificação de força fraca com electromagnetismo), Alan Turing (inventor do computador), Tim Berners Lee (inventor da internet), etc.
Bill Gates e Warren Buffet são ateus e são dos humanos que mais caridade fazem no mundo.
Talvez a verdade seja que esta estórinha do "não crês em Deus, és menos humano", seja é uma grande treta. Ok, "talvez" não. É uma grande treta. São firmações demasiado graves (de caracter) e pomposas para tão pouca justificação. Estava na altura de acabar com isso, não?
Via Que Treta.
(*) Eu tenho consciência que elevada religiosidade (praticante) está correlacionada com menos crime, mas a descrença pura e simples não está relacionada com criminalidade.
1 - Catecismo da Igreja Católica, Primeira Parte.
2- Mensagem do papa bento XVI aos participantes no XXXIII meeting para a amizade entre os povos.
domingo, 29 de abril de 2012
Laurence Krauss, "A Universe From Nothing" comentário final.
Não é de todo verdade que, para além do titulo, o livro prometa termos verdades absolutas e respostas finais. O que promete, e entrega, é uma explicação plausível de que podemos não precisar da vontade de ninguém para criar o universo. E de que tal como vimos na evolução biológica, algumas coisas mais complexas, provém de outras mais simples. Pelo menos em espécie.
E o "overstatement" no titulo eu penso que se justifica. Apesar de tudo é apenas um titulo e é sobre este tema que o livro se debruça. E é essa a possibilidade que, embora não sendo publicada pela primeira vez, aparece aqui explicita de um modo que pode ser acessível a todos.
A inteligencia de Krauss e o seu empenho no procura de conhecimento são contagiosas. A prosa (no original) é clara e o livro peca apenas por alguma redundância que eu penso dever-se a um excesso de zêlo pela divulgação.
Quem quiser continuar a acreditar em criação divina depois de o ler, poderá continuar como sempre agarrado às suas convicções. Mas ficará a saber que é possível que tenha sido de outra maneira. E que é para lá que as evidencias empíricas apontam, mesmo se falta muito para "saber tudo"...
domingo, 20 de março de 2011
O que pensam os filósofos.
A lei acercas das medicinas alternativas existe porque o Jorge Sampaio quando era Presidente da República decidiu que tínhamos de deixar a porta aberta a outras "filosofias" para explicar a doença.
Os crentes em deus falam em provas metafísicas e insistem que a ciência não pode testar deus, sem com isto perceberem que estão a dizer que deus não existe para todos os efeitos.
Os relativistas mais extremos - felizmente raros - insistem que tudo depende do observador e da sua filosofia, portanto afirmando que não haverá uma realidade extra cognitiva.
Por outro lado, sabendo que em qualquer actividade (desde a ciência à moral, à politica, etc) há sempre uma minoria que defende franjas rídiculas de pensamento, é importante saber o que é mais provável que seja a melhor conclusão.
Ou seja, é importante conhecer os consensos para saber o que pensa a maioria dos experts de uma determinada área, pois de outro modo ficamos com uma data de teorias contraditórias defendidas por vezes por lunáticos. Não estando por dentro do grupo de especialistas, a nossa melhor aposta é tentar saber o que a maioria pensa.
Então o que pensam os filósofos? Na maioria das coisas estão em desacordo - tal como eles próprios já tinham previsto. O que revela que há coisas que ainda não sabemos minimamente sequer como abordar.
Mas há outras que são consensuais.
Que a realidade existe. Que deus não existe. Por exemplo.
Mesmo o Naturalismo tem 49% de "votos a favor". Contra 25% de Não-naturalismo ou 25% de Outro.
O Relativismo só é defendido por 2,9%.
Por isso, definitivamente dizer que a filosofia serve para provar tudo o que passa pela cabeça de alguém é treta. Isso é filosofia de franjas. É escolher as cerejas. É má argumentação. É uma falácia de apelo à autoridade, já que pretende em inúmeros casos valer por si só.
A maioria dos filósofos reconhece que há coisas que são treta. E que há coisas para as quais não temos resposta. Mas o que não se sabe não prova nada.
Ver mais aqui:
(notícia) http://www.gmilburn.ca/2009/12/11/reality-morality-controversy-and-consensus-in-philosophy/
E aqui a página do estudo:
http://philpapers.org/surveys/results.pl
Via Facebook, Pedro Amaral Couto.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Deus e o ónus da prova. Onde anda ele? Um ensaio diferente.
Não é um problema
Mas eu não tenho problemas com isso. Eu acredito que a afirmação “deus não existe” é mais plausível, muito mais plausível, que a afirmação “deus existe e é um ser omnipotente, omnipresente, omnisciente, bom e justo”, porque é o que os factos permitem concluir.
E que além disso afirmo que mesmo que deus existisse, não está descrita uma maneira inequívoca de saber o que ele quer e pensa, por isso não se pode sustentar nenhuma afirmação como sendo a sua vontade.
Tomar a alternativa "todas as entidades são reais até prova em contrário" é a loucura cognitiva. É algo que dará uma quantidade infinita e intestável de erros e hipóteses.
Por isso, a hipótese nula ser aquela com a qual todas são comparáveis é a única maneira não só sã mas possível de ganhar conhecimento. Disso depende a capacidade de isolar variáveis e compreender como e porquê acontecem as coisas. É uma necessidade epistemológia. A não ser que queiramos defender entidades cuja existência ou inexistência é equivalente! - que são de esperar estarem omissas no corpo de conhecimentos actual
O deus-das-lacunas não é um problema se deus é suposto estar em todo o lado e só está nas lacunas.
Já houve, talvez quando achar que a chuva e o vento eram deuses fosse de facto a melhor explicação.
Como disse num parágrafo anterior, as coisas não passam a existir só porque pensamos nelas. E não é preciso que existam para que as possamos postular. Isso é fácil. Postulo agora uma Mifroteca Manfarrona que criou o Javé para testemunhar a meu favor. Vive no interior do polo norte de Vénus apesar de ser omnipresente (Mistério da Fé) e tem pior génio que Javé mas adora a bondade. Tem outros Deuses por si criados que vivem noutros universos, mas este é o seu preferido. A Mifroteca Mafarrona auto-revela-se para mim e todos devem ler as minhas palavras. E venerá-las através dos séculos. A Mifroteca ao contrário de Javé pode mesmo fazer o impossível. Ela pode mover o objecto inamovível que se movendo por ela continua sem se mexer. Ela é o bem e o mal, o amor e o ódio, ela é a dor e o prazer. Ela não tem limites. Assim se torna necessário que, Ela é e não é simultaneamente. E como eu sou apenas humano e não poderia conceber nunca uma coisa que é e não é ao mesmo tempo provo que só poderia referir tal coisa se ela já existisse antes de mim. Viva a Mifroteca.
Ok, já chega de Mifroteca. Mas posso só postular um ratinho pequenino verde que come baleias e só fala com Esquimós?
Para além disso, essas demonstrações encontram-se em artigos que podem ser lidos por quem quiser. Estão por sua vez compilados em tratados técnicos por tema, destinados a quem quiser iniciar-se numa especialidade. Por vezes até a discussão que suscitaram esses artigos é descrita. Para quem não quiser saber tanto, existe ainda uma excelente divulgação cientifica para leigos que inclui sempre material suficiente para se poder ir confirmar como determinada afirmação foi sustentada. Qualquer pessoa pode aceder a esta informação e o caminho para lá é simples (mas árduo, sem duvida, é preciso muito estudo).
Também não é preciso saber tudo o que é possível saber. Muito poucos homens têm sido apontados como compreendendo toda a vastidão da ciência. Eu nem acredito que esses tenham existido, pelo menos nos últimos 50 anos. Mas é possível conhecer-se bem uma grande parte da realidade e ver as grandes fatias de realidade que ficaram despojadas de intervenção divina.
De resto, não podendo apresentar esses temas num único post, (tal nem é possível num único tratado) tenho feito neste blogue a tentativa de criar uma porta de entrada, um vislumbre do que se pode saber se quiseremos seguir o conhecimento cientifico.
O argumento de que não trouxe para aqui todo o conhecimento que disse haver é tolo. Pois é uma afirmação que pode ser verificada e deve ser verificado no terreno, onde a ciência é produzida e não aqui. Aqui eu procuro divulgar, não fazer ciência. E há limites logísticos.
Em resumo, a questão é se esse conhecimento existe ou não. O resto é circunstâncial. E é importante verificar isso, sem duvida. Por isso aceito discutir casos a caso e ponto a ponto, porque é loucura trazer tudo para cima mesa de uma vez. Não se consegue discutir nada.
Posso sempre sugerir ir ler a wikipédia em Inglês - os 8 Gigas - ou pôr aqui uma cópia para me desembaraçar da questão. Depois diria que sem lerem tudo, de uma ponta à outra é que podiam ter conhecimento do que se sabe para continuar a discutir. Mas sinceramente isso era fazer o mesmo disparate de negar que o conhcimento cientifico exista porque não pode ser trazido para aqui.
E sim, a wikipédia em Inglês é bastante boa. Para quem for alérgico a coisas grátis sugiro a Brittanica. É uma compilação bastante razoável e acessível. Com bastantes ligações e referências.
Seja como for, estou sempre aberto para uma boa discussão sobre o que é ou não matéria de facto. Mas eu não sou deus e até digo que eles não existem, por isso não me peçam para ser um e discutir e demonstrar tudo de uma vez.
Também não me parece suficiente argumentar que o universo é deus, e tudo é deus, resolvendo assim uma série de problemas, porque isso não diz nada acerca desse universo ter intencionaldade, ou ser omnipotente e são precisamente essas as características que estão em causa.
Pedir para demonstrar todo o conhecimento que já existe de uma vez e tirar partido da impossibilidade prática de o fazer, é uma atitude palerma que só serve para distrair da verdadeira questão, pois para ser levada a sério significaria que quem a usa está a pôr aquilo que mais solidamente conseguimos provar em causa. Se não está não faz sentido pedir a demonstração em tempo real. Porque o facto de não poder fazer não quer dizer que esse conhecimento não exista e tal pode ser e é de facto demonstrado nos canais adequados.
O Deus das lacunas é o deus que escapa entre o que sabemos do conhecimento científico. E até do filosófico se quiserem, se bem que haja filósofos que considerem que só podemos pensar em coisas que existam, mas isso é problema deles.
Por último, referenciar a posição do céptico - todas as entidades aceites como reais têm de ter uma evidência forte da sua existência. Por defeito! Embora provar pela negativa seja possível, tal só deverá ser necessário se houver indícios fortes que justifiquem sequer o esforço. Neste caso justifica, nem que seja pela multidão que se rege pelo que Deus supostamente diz.
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Nota Importante: Eu sei que o onus da prova é atribuido por defeito a quem faz uma afirmação. Sei que essa é a norma. Peço desculpa se não deixei claro que isto representa uma posição original:
O que eu ponho em causa é precisamente o valor dessa norma. A unica justificação que eu vejo para essa norma é que quem quer acrescentar informação que não existe ao corpo de conhecimento humano, seja negando ou afirmando uma nova entidade tem de produzir prova. Mas se o corpo de conhecimento não diz nada acerca da sua existencia, a afirmação "essa entidade tem o valor lógico falso até prova em contrário" é de facto uma necessidade lógica, que não representa nova informação por si. É o que já sabemos. É o que fazemos quando estamos a tentar isolar variaveis e a dar valores de inexistencia a toda uma série delas que nem sequer sonhamos. Outra coisa é que dizer que "A é falso até prova em contrário" é uma necessidade lógica. É uma assumpção. Um pressuposto de trabalho que apesar de atirar o onus para outro campo não é igual a dizer "eu tenho prova de que A é falso." Embora, se a prova de que A é falso, não for a hipotese mais plausível dentro do conhecimento actual, dizer que "A é falso até prova em contrário" representa uma afirmação falsa. Mas se for o caso, quem faz a afirmação que A é verdade deve ter o trabalho do onus simplificado sem ter de precisar de nova investigação.
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Segunda nota: comecei a emendar algumas frases que não estavam a suportar a posição que queria deixar e acabei por optar escrever apenas esta segunda nota, a reforçar coisas que apesar de de tudo já disse antes. Emendei apenas duas frases no principio do texto. Reli a conclusão e está no espírito do que quero dizer
Considero que o maior argumento contra a minha apresentação é o facto de se poder tratar de uma falsa dicotomia. Mas esta discussão só se aplica a casos em que no corpo de conhecimentos total não há nada que sugira a plausibilidae de A (sendo A a entidade em discussão) e em que o corpo de conhecimentos é completo ou perto disso para questões relacionadas com A. Nesse caso ainda penso que a minha apresentação é válida. Há mais possiveis contra-argumentações que procurarei referir embaixo mas que não considero suficientes para refutar o texto:
1 - Não estou a dizer que a ausência de prova é prova de ausência, apenas. Estou a querer dizer que a ausência de prova (se o conhecimento é extenso sobre questões relacionadas com A) coloca o onús da prova em quem afirma a sua existência. Se isto coloca a discussão sobre se existe ou não existe prova no corpo de conhecimento ja existente, este ensaio não se aplica. Se se conclui que não existe prova apesar de haver um extenso desenvolvimento de questões diretamente ligadas, é correcto assumir que não existe - até prova em contrário - já que o conhecimento é um trabalho em contrução. Se queremos provar A com argumentos que podem vir no futuro, isso sim é um apelo à ignorancia.
2 - Também não estou a dizer que se não está provado que A não existe, então A não existe, apenas. Estou a dizer que a posição mais plausível para abordar esse problema é que se A não está provado que existe ou que nada aponta para a plausíbilidade da sua existencia, então o onús da prova tem de estar em quem diz que existe. Se temos um corpo de conhecimentos que é extenso a omissão total de A nesse corpo de conhecimentos é indicativo de baixa plausíbilidade. Coloca o onús da prova em terreno oposto.
Podemos acabar com a dicotomia assumindo nem que a entidade é falsa, nem que é verdadeira. Esta posição está sempre correcta. É independente do valor real para a entidade A. Ou sequer se é sobre a entidade A. Mas precisamos de um critério de verdade e de distinguir entre verdadeiro e falso. É nesse sentido que digo que não é lógico, no pressuposto de que queremos criar conhecimento, de não assumir nenhuma hipotese. Alguma hipotese tem de ser posta para se testar. E a que tem de ser provada é a que tras a nova entidade para o campo do conhecimento. Isto num contexto em que já temos muitas explicações para as coisas que observamos.
É importante ver que isto não é sobre o que está provado à priori. Nada está provado à priori. É sobre quem tem o onus da prova à priori num contexto vasto de conhecimento, não sobre tudo, mas sobre alguma coisa que esteja relacionada com a entidade em causa.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Sobre o Neo-Ateísmo
Na realidade não existem neo-ateus. Existem ateus. A unica diferença que poderá ser encontrada entre um ateu e um neo-ateu, é o facto do neo-ateu dizer o que pensa e o ateu manter-se quieto e calado. Não existe nenhuma outra diferença filosófica, cientifica, artística, o que quiserem.
O neo-ateu, apenas diz abertamente que não existem deuses, que mesmo que existissem não tínhamos maneira de saber o que eles querem e que é um disparate justificar acções ou leis com base naquilo que Deus quer.
O ateu pensa o mesmo. Mas não abre a boca. Esses, dizem os crentes, são os verdadeiros, velhos e bons ateus. Existem mesmo crentes que não se importam de dizer que contra os ateus não têm nada. Apenas contra os neo-ateus. Mas não há nada que possam apontar ao dito neo-ateísmo para além de palavras contra crenças injustificadas.
Talvez tenham razão num ponto. Poder exprimir o que pensamos acerca de deuses é uma liberdade muito recente e em alguns países ainda nem sequer existe. O neo-atéismo nesse aspecto é realmente novo.
Os ateus já andavam aí há uns tempos. Mas foi preciso um disparate como o 11 de Setembro para transbordar o copo. As ideias religiosas tem de ser discutidas tal e qual como as outras. O postulado dogmático de que não se pode discutir religião tem de ter os dias contados. É preciso justificar as nossas acções e regras de acordo com o que elas representam na realidade e não na suposição do que diz ou quer um deus que, na melhor das hipóteses, não tem uma linha de comunicação livre de ambiguidades com a espécie humana.
Porque se tudo o que conhecemos pode ser explicado sem precisar de dizer que tem intencionalidade, isso quer dizer que deus, a existir só tem duas hipóteses e meia. Ou não tem vontade própria, e não será um deus no sentido religioso da palavra ou não quer ser encontrado. E se não quer ser encontrado quer dizer que não há nada que dele possamos saber.
A hipotese de que há pessoas que por auto conhecimento conseguem saber o que deus quer é ridicula, perigosa e amoral. É só meia hipotese de tão tola que é. É apelar para que consideremos que existem uns tipos iluminados que podem saber o que deus quer, enquanto que os outros que se preocupam como justificar as coisas, ficaram sem acesso a essa informação. Informação essa que costuma ser contraditória e mesmo incorrecta. É caracterizada pelo apelo à credulidade sem justificação. E isso tem de acabar. Até porque deus não quereria que acreditassemos em tudo o que alguem se lembra de dizer que Ele quer pois não? E com tantos a dizer que sabem o que Ele quer, como poderiamos escolher, se Ele opta por não dizer a todos que existe sequer?
Neo-ateísmo é isto? É colocar estas questões e exigir racionalidade nas nossas escolhas e crenças? É dizer isto publicamente?
Então que assim seja.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O livre arbitrio e a religião católica (já que não sei o que dizem as outras).
E à posteriori, na pratica? Como pode ser minimamente omnipotente e omnisciente e não ter efeitos no mundo fisico? Só se for a sua vontade que não seja detectado. Só se for a sua omnipotencia que é capaz de fazer que tudo seja como se deus não existisse.
Então se deus não quer ser encontrado como é que a religião diz tanto sobre ele? Só há duas respostas. Ou existem pessoas (umas e não outras) que deus escolhe para transmitir a sua mensagem ou a religião inventa.
Mas não dando deus a essas pessoas nenhuma ferramenta que permita darem a certeza às outras de que contactam com deus como é que é suposto escolhermos em quem acreditar?
Deus portanto espera que a nossa liberdade seja baseada no palpite? Eu acho que isso é contra o livre arbitrio. Se não temos informação para fazer uma boa escolha então vamos ver a nossa liberdade diminuida. Por falta de informação. Que deus decidiu não dar igual a todos. Isso não so não é justo como não faz sentido com o livre arbitrio que é suposto ser a razão pela qual nos acontecem acidentes.
Portanto a razão pela qual há coisas que limitam a nossa liberdade é para não nos limitar a liberdade? Isso não faz sentido. Liberdade é poder escolher a melhor opção de acordo com as nossas preferencias. Liberdade não são escolhas cegas.
E é isso que se pede. É que faça-mos a escolha cega de acreditar. Sem razão nenhuma para além de que " a ciência não explica tudo". Que neste contexto é o mesmo que dizer: "porque eu vejo a luz e tu não".
Mas isso é como todas as outras crenças. É apenas um apelo à credulidade. As medicinas alternativas, o espiritismo, a magia negra, etc. Essas coisas que só funcionam em quem acredita que o que está a acontecer é devido a elas e não ao funcionamento banal do universo.
O que não está na fisica e só está na metafisica é por definição fantasia.
Não é radical dizer que não acredito no que não se distingue de qualquer outra fantasia. Não é radical dizer que isso é um engano. É bastante plausivel. E é importante escrever sobre isso enquanto a verdade for importante e tivermos vontade de conhecer o universo que nos rodeia.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Deus, o mapa e o território.
Não percebo esta argumentação:
Não é radical defender a existência de uma entidade para a qual não há ponta de evidencia e ainda divulgar leis morais derivadas dela. Mas responder que isso é um apelo à credulidade sem sentido racional nenhum já é.
E dizer que a ciência não pode - como que por decreto - estudar a existência de Deus pelos vistos também não é radical. A ciência estuda a realidade, seja ela como for, e se Deus é real então está no âmbito da ciência. Só se não existir é que não pode estudar. Claro que há coisas que não conseguimos medir ou testar, umas porque envolvem muitas medições, outras porque são poucas mas praticamente impossíveis - como o que pensava Afonso Henriques sobre a sua mãe - mas nenhuma destas impossibilidades é essencialmente algo que transfira para o palpite ou a metafisica o que são dados científicos ainda que inacessíveis. Eu também não sei o que está a 5 metros debaixo do chão agora que escrevo isto, mas isso não deixa de ser, como as questões anteriores, um problema muito mais circunstancial e dependente do processo do que da natureza das coisas em si. Ainda não podemos ler pensamentos e não sei se vai um dia ser possível, mas tudo indica para que não haja nada que impeça a explicação de como se formam esses pensamentos.
A ciência não explica o que não existe. Explica o que existe de acordo com o que se pode saber. E cientificamente, em rigor, se nada há a que se possa atribuir a uma determinada entidade, então essa hipótese é descartada. É a hipótese nula. É a lamina de Occam. Começou por ser filosofia e Aristóteles colocou assim a questão: "As entidades não devem ser replicadas para além do necessário".
Mas Deus existe. Os crentes sabem e sentem. Deus é amor. Deus é metafisico. Deus pertence a outro nível, pertence ao mundo das ideias. Certo. É um facto.
Como uma poesia sobre o por-do-sol, Deus é algo que... Não é inerente à realidade. É inerente a quem vê esse por-do-sol e descreve uma mistura do que vê e do que o que esse por-do-sol faz sentir. Mas o que sente pertence a si. Não à realidade exterior. É realidade enquanto sentimento. E isso é tudo o que nós podemos saber de Deus. É que algumas pessoas o sentem em si. O amam. O vêem em todo o lado.
Mas tal como o por-do-sol é representado por um conjunto de padrões neuronais capazes de desencadear várias reacções no organismo, idem para o conceito de Deus. Deus é algo intrínseco ao ser humano. É interior. E nesse aspecto é real. Tão real como a cabeça. Apenas é mapa e não território. Tal como a sensação que o por-do-sol desencadeia no cérebro é um mapa de sensações e padrões, Deus também é mapa. Não está na realidade.
E a melhor ferramenta que a humanidade criou para descrever a realidade foi a ciência. É de tal modo boa que os crentes já nem querem argumentar que Deus esta nas coisas que a ciência não descreve ainda (embora estejam sempre a resvalar para lá). Insistem que Deus esta nestas mesmas coisas que a ciência descreve sem precisar de recorrer a deuses. Insistem que sabem que Deus esta lá apesar de os melhores esforços racionais mostrarem precisamente que não esta. E dizem que esta "metafisicamente"... Pois está. Está lá para quem o vê lá. Mas é propriedade de quem vê e sente e não da realidade. Essa continua indiferente à crença. E é por isso que sabemos que Deus é apenas mapa e não território. É porque a ciência mostra como tudo se passa como se Deus não existisse. E como é bem mais fácil de compreender se o considerarmos algo na mente.
Se algo não é distinguível de um fantasia é porque provavelmente é uma fantasia. Para todos os efeitos (distintos da crença), Deus não existe. Tal como um medicamento que apenas tem efeito placebo - que é efeito da crença -se conclui que não funciona, se acerca de Deus tudo o que sobra é efeito da crença, então é porque é efeito da crença. Não que há um Deus para justificar a crença. Porque crenças há muitas. E é precisamente a ciência que tem sido melhor capaz de distinguir as que correpondem à realidade e quais estão apenas na mente.
O Prof. Alfredo Dinis cita a N.A.S. para defender a sua ideia de que a ciencia não pode dizer nada acerca de deus. É uma asneira. É uma afirmação politica. Foi originada não pelo conhecimento cientifico mas por uma escolha de se querer inserir e ser aceite na sociedade crente da America. Porque a verdade é que sabemos que a maioria dos seus membrossão ateus.
A verdade é que não falta nada para mostrar que deus não existe. A unica maneira é aceitar o palpite como sendo uma forma de conhecimento. E dizer que o mapa e a realidade são uma e a mesma coisa. Mas nem tudo o que vem à mente correspode ao que se passa na realidade ca fora. E para isso a ciencia é a melhor aposta. E a ciencia descreve outras entidades e processos que não um omnipotente, omnipresente, omniscienciente, bom e justo! Quem diz que tal coisa existe é que devia avançar com provas. E bem solidas. Andar para aí a dizer que isto e aquilo é verdade é facil. Mostrar que é mesmo verdade é que é dificil. E no entanto o radical sou eu.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
O ateu é ateu porque não quer acreditar?
Não. De todo.
O Prof. Miguel Panão diz o contrário:
"No Cristianismo, se Deus transcende o mundo, também está nele imanente, implicando isso que está presente, e se está presente podemos fazer uma experiência dessa presença.Quem não a faz é porque a recusa na negação da existência de Deus , limitando deliberadamente essa experiência, não porque lhe seja negada a possibilidade de a fazer."(1)
Como é que é "deliberadamente" se o raciocínio começa com uma afirmação injustificada e impossível de provar? Na qual assenta todo o resto?
Eu respondo antes que se Deus lá estivesse e se é possível senti-lo, eu então senti-lo ia. E mesmo que só possa sentir a Sua presença quem nele acredite, era preciso mostrar que não acreditar em Deus é uma escolha não condicionada pela evidência existente. Ou seja, que há tantas provas para acreditar como para não acreditar. Ora isto é falso. Se bem que a inexistência de provas não seja prova da ausência, de um modo geral, quando nós procuramos sistemática e metodicamente e não se encontram efeitos ou factos que sejam inequívocos dessa entidade temos de admitir que não existe. Se apesar disso insistimos que existe, então estamos a acreditar porque queremos, de facto. Mas para não acreditar basta aceitar a conclusão mais plausível de que as entidades não devem ser replicadas para alem do necessário.
É como dizer que as plantas têm consciência e só vê quem acredita. E que quem não vê é porque nega deliberadamente que essa experiência. Mesmo que não haja nada que sugira que as plantas têm consciência.
Ou ainda melhor, isto é análogo às roupas do rei. Mas o rei vai nu. Não me digam que eu não vejo as roupas porque decidi deliberadamente limitar essa experiência.
Agora imaginemos que Deus existe e eu não sinto isso. Que de facto podemos provar que Deus existe se sentirmos. Para já isto não tem confirmação independente, uma vez que por definição só sente quem acredita. Por outro lado, que culpa tenho eu de não sentir? É minha? Deus cegou o olho interior capaz de o ver, e a culpa é minha? É uma escolha deliberada? Acho que há aqui desonestidade intelectual ou muita distracção pela parte do Miguel.
(1)http://cienciareligiao.blogspot.com/2010/09/como-interagem-ciencia-e-fe.html?showComment=1284710481370
PS: Além do mais aquilo é completamente circular, pois era a reposta à pergunta de como é que sabe que ele existe. Logo está a dizer que existe porque sente. E justifica que sente porque existe. E que eu nego essa experiência "deliberadamente".
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
E o problema é o ateísmo?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
A teoria da evolução e o ateísmo.
A teoria da evolução parece-me ter sido o ponto de viragem. Na realidade a sua primeira vitima terá sido o próprio Darwin que conta que a sua crença em Deus se manteve durante quase todo o período em trabalhou na teoria da evolução. Segundo ele, foi gradualmente deixando de acreditar até ser completamente ateu na ultima fase da sua vida.
Os criacionistas costumam dizer que acreditar na evolução é consequencia de não se aceitarem acções de seres subrenaturais para explicar coisas naturais. Mas como se pode exemplificar com o próprio darwin, o problema(para os criacionistas) não é esse. Podia acrescentar que a maioria dos catolicos, que aceitam deus como o criador, aceitam também a teoria da evolução.
O problema (para os criacionistas e crentes) não parece ser o alegado materialismo acabar com a crença em deus. Parece-me mais ser a teoria da evolução provar a legitimidade de uma abordagem materialista e com isso levar a uma perda da crença em deus.
Mas ainda não é este o mecanismo principal pelo qual a evolução leva a descrença. Ha algo muito mais fundamental no pensamento teísta típico que é abalado... Porque a teoria da evolução refuta convincentemente o argumento de que as coisas relativamente evoluídas têm de vir de uma ainda mais evoluída. (Santo Agostinho)
Num universo onde existe um processo capaz de explicar como pode haver um ganho de complexidade sem a intervenção de seres conscientes e inteligentes, a necessidade de recorrer a Deus para explicar tudo cai por terra. Mesmo se essa tendência se mantém, (de atribuir intencionalidade a coisas aparentemente complexas, como se vê nos argumentos de "fine tuning"(1) ), ela fica bastante debilitada com a demonstração de que o mais sofisticado pode vir do mais simples.
E se as crenças têm ao longo do tempo evoluído no sentido de permitir a perda de terreno para a ciência ao deixar de atribuir intencionalidade a trovões, ventos, chuvas, etc, aceitando que são fenómenos naturais devidos ao acaso, a verdade é que com a evolução o assunto é muito mais complexo.
Mesmo a religião católica (evolucionista) debate-se com o problema de ter dizer entre que dois seres pai e filho foi injectada a alma , um problema não só insolúvel teoricamente, como ridículo se não quiserem aceitar a hipotese de meias almas ou almas só mais ou menos imortais. E também perde o argumento de que as coisas complicadas têm de ter um criador consciente. Não têm. A evolução mostra isso.
Se o processo evolutivo é inteligente em si é outra questão. Mas para já falta-lhe a capacidade de criar cenários e testar hipóteses em memoria antes de as por em pratica. Não é sequer capaz de determinar um objectivo. Não tem consciência, nem consciência da consciência como um ser humano. É no entanto um processo de tentativa e erro (mutação/selecção) tal como a aprendizagem humana.A analogia é tão profunda que existe uma teoria neurológica que explica a inteligencia como um processo evolutivo ao nível da sinapse. O Darwinismo neural.
Mas isso fica para outro dia
(1)O "fine tuning " é o argumento mais moderno de atribuição de intencionalidade a observações e factos complexos. Mais actual mas a falacia é a mesma de quando chamavam Zéfiros ao vento e atribuiam a tempestade a Thor (ou a chuva a S Pedro). O universo e particularmente o nosso sistema solar parecem ter sido criados para ter vida inteligente. Parecem. Mas a verdade é que na quase infinidade de planetas da galáxia e na quase infinidade de galáxias do universo é de esperar que haja seres a interrogarem-se pela sua aparente afinação para a vida inteligente, precisamente nos planetas onde a vida inteligente pode surgir. E se é possível haver universos diferentes com outras constantes é de esperar que a vida inteligente surja a questionar a aparente afinação para a sua existência apenas nos universos onde pode existir. Dizer depois que existirem universos onde pode haver vida inteligente prova a existência de Deus explica tanto como dizer que uma pêra cai da árvore porque é a sua tendência natural.Tal como disse, desde a teoria da evolução temos um exemplo de que as coisas que parecem complexas não precisam de outras mais complicadas para as explicar. Pelo contrário. Se a complexidade requer explicação então postular a entidade mais complexa que é possível conceber para explicar essa complexidade é como lavar nódoas com agua ainda mais suja.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Omnipotência como condição impossível
Preposição: Omnipotência é um conceito inconsistente por essência.
Omnipotência é a propriedade tal que nada pode existir que constitua um limite à acção da entidade que a possuir.
Impossível é aquilo que por definição não pode ser tornado real.
Logo: Uma entidade omnipotente não pode fazer coisas impossíveis.
1 - Se a afirmação anterior é verdadeira, a entidade não é omnipotente pois é limitada ao possível
2 - Se a afirmação é falsa a entidade pode fazer coisas que afinal são possíveis, logo não estamos a falar da mesma condição.
Pelo que somos obrigados a concluir que uma entidade omnipotente é no mínimo limitada na capacidade de criar o impossível. O impossível não existe para ela, mas ela também não é capaz de o criar. E então não é omnipotente.
Nota: Reparei que se definirmos impossível como a única limitação para um entidade omnipotente, teríamos uma quebra da lógica. Porque teríamos de definir uma em relação à outra. Interessante.

