Mostrar mensagens com a etiqueta ciência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ciência. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não é cientificismo. Precisamos mesmo da ciência.

Quando paramos no semáforo e vemos os carros de outras vias a passarem-nos à frente, sabemos que se arracarmos para a frente deles é bem provavel que haja uma colisão. E havendo uma colisão é bem provavel que haja estragos, alguns no material outros enventualmente biologicos. Por isso tomamos a decisão de não ignorar o semaforo e por isso existem semaforos.

Mas nem tudo é tão simples. Há fenomenos do mundo fisico que são muito mais complicados de prever e que ultrapassam em larga medida a nossa intuição e experiencia pessoal. E mais que para entretenimento intelectual é para isso que serve a ciência. Para, de acordo com escolhas iniciais simples, como escolher o bem estar, escolher viver e reconhecer os outros como iguais, conseguirmos ter opções - através do conhecimento cientifico e da tecnologia - que levem a uma optimização dos resultados das nossas acções no sentido dessas escolhas.

Por exemplo:

O que acontece se lançarmos CO2 para o ar como se não houvesse amanhã ,  e como podemos resolver isso? Que consequências há de inocular uma população com uma forma atenuada/morta/modificada de um agente patogênico, ou de não o fazer? Qual o significado da democracia na estabilidade mundial? E as desigualdades? Como aproveitar a unica fonte quase inesgotável de energia que dispomos (o Sol, já que o vento pára se enchermos tudo de moinhos)? Que escolhas teremos de fazer para continuarmos todos os 7 biliões, vivos e boa saude, num mundo de recursos limitados, durante muito tempo?

São estas algumas das questões que a ciência ajuda a responder. Em face delas, a escolha de querer viver com paz, saude e liberdade até é o pedaço mais simples. É no como que está o grosso do problema. E é no como, através da capacidade de prever os acontecimentos no mundo fisico, que a ciencia pode ajudar - e ajuda. Sem a ciência nem sequer tinhamos chegado onde estamos. Continuavamos a achar que as doenças eram causadas por maus humores (fluidos) e que a vida era um sopro como o do vapor. Que dançar podia fazer chover e que sacrificios humanos traziam boas coisas para todos. Não havia medicina, agricultura moderna, meios informáticos, nem Dr. House para ver na TV.

Achar que amplificar os factos cientificos é a nossa obrigação, ou melhor, que do que "é" podemos verbatim dizer o que "deve" ser, é uma falácia, a lógica não segue. Asneiras dessas tivemos com o Darwinismo Social, por exemplo. Mas isso não é lógico e se não é lógico não é ciencia.

De facto, a ciência não nos diz que devemos escolher viver. Diz apenas algo do que devemos fazer se queremos viver. Esse é o valor humano da ciência. E é cada vez maior conforme os problemas de um mundo superpovoado a ser chupadinho se revelam. É preciso escolher com muito cuidado as nossas acções, gerir muito bem os recursos se queremos continuar a ter outras liberdades. Como viver. Todos.

Podem dizer que não foi só a ciência que nos trouxe até aqui ou que a ciência ainda precisa muito de outro tipo de especulação e discussão, moral e ética, como a escolha dos tais principios que propus. Tudo bem/ Fair enough. Mas a ciencia não deixa de ser imprescindivel por causa disso. Quando damos as nossas escolhas como factos, isto é, quando passamos a dizer que é um facto que fazemos determinadas escolhas, logo aí entra a necessidade da ciência. E não pára.

Depois de saber que acções conduzem a um mundo melhor, melhor com os critérios de uma maioria, porque permanecer calado? Porque não se pode tentar mostrar que há coisas que sabemos que vão dar buraco e porque sabemos que vão dar buraco? Porque precisa de vir logo o fantasma do cientificismo como refutação universal do cetico cientifico? É apenas um espantalho, um moinho de Cervantes, no meio intelectual  ceptico do mundo moderno ligado à internet. E se há quem queira ir contra a ciência, normalmente é porque acha que a ciência está errada acerca de questões factuais empiricas. Não porque admita (embora por vezes hajam como se assim fosse) que podemos fingir que o mundo é de qualquer maneira ou que tem a sua realidade de bolso, feita à medida. E isto, que fique o desafio para pensar, diz muito. Pelo menos mostra a importância que tem para todos o que podemos saber sobre o mundo empirico e do que dele podemos prever. E isso é tarefa da ciência.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ainda há uns tempos a ciência dizia isto, agora diz aquilo...


Pois é. A ciência evolui. Vive de discussões cerradas de especialistas (1) que se preocupam com os mais infimos pormenores mas que regularmente chegam a consensos. Às vezes até consensos de que teorias que competem em determinados aspectos têm de ser provisóriamente aceites como o melhor que há. 

E a ciência é realmente isso. A procura do melhor que há para explicar as coisas. Não é o conjunto de certezas absolutas, nem a verdade ultima, a que aspiram os religiosos. Para a ciência, a verdade é apenas uma atribuição de valor a uma afirmação conforme o que ela se adequa à realidade ou não. E a realidade é aquilo que está lá para além daquilo que nós acreditamos ou não. Certezas é algo que quase de certeza sabemos que nunca teremos. 



Por duas razões. Primeiro pelo problema da indução que não tem solução racional completa e provavelmente nunca terá. David Hume apontou que o conhecimento por indução, ou seja, partir da observação de grandes numeros e fazer uma generalização teorica, tem sempre o problema de não termos acesso a todo o universo observavel. Deu como exemplo o facto de todos os naturalistas aceitarem que os cisnes eram brancos e nem sequer pensar duas vezes nisso, mas quando chegamos à austrália encontramos lá cisnes negros. Se dizemos que a gravidade é uma força atractiva é por indução e as formulas que criamos para a descrever são baseadas no que observamos por indução. Mas será que será sempre assim e em todo o lado? Por acaso até parece que não, pois há dados novos que sugerem isso e muito mais.

Este problema estende-se a todo o conhecimento empirico. Afinal tudo o que valida a indução é a própria indução. E isto é mau sinal, normalmente quando chegamos a regressões infinitas é porque é um beco sem saída. 

A outra razão que nos leva a ter uma confiança razoavel de que nunca vamos saber tudo, é o Teorema de Godel. Este senhor provou matemáticamente que nenhum sistema matemático pode ser completo e consistente ao mesmo tempo. Ou há coisas que o sistema matemático não abrange ou há contradições dentro dele próprio. E como a nossa ciência se baseia na matemática para descrever a realidade, sabemos que vão haver limitações. O mapa nunca passará a ser o território...

O que nada disto nos diz, é que não podemos saber nada. Alguma coisa parece que que podemos saber. E a primeira resposta bem sucedida (bem sucedida mas não definitiva, isso não temos) ao probelam da indução de Hume veio de Karl Popper, muito inspirado nas ideias de Einstein sobre a ciência. Popper disse que podiamos ter conhecimento ciêntifico se as nossas teorias fossem capazes de fazer previsões acertadas sobre coisas relacionadas. Se falhassem essas previsões não seria ciência. Se acertassem, embora não ultrapassasse completamente o problema de Hume, teriamos uma justificação forte para confiarmos nessa teoria. Porque isso mostra (ou no minimo sugere fortemente) que mais que conhecer a regra, temos algum conhecimento sobre o porquê dela existir. 

Mas havia ainda alguns problemas acerca da filosofia da ciência de Popper e ele passou os ultimos dias da sua vida a tentar resolvê-los. A questão é que o tipo de previsões que as teorias teriam de fazer não estava tão bem defenido como ele queria, uma vez que outro filsofo notou o que o que se testava muitas vezes eram realmente condições acessórias. Por outro lado, uma previsão que desse mau resultado poderia levar a  uma melhor teoria, depois de corrigida, e seria ingénuo deita-la fora ao primeiro revés. O falsificacionismo, o nome desta abordagem de Popper, não foi completamente abandonado e ainda é uma caracteristica da ciência mas agora sabemos mais sobre ele. Hoje além disso procuramos a consistencia na ciência através do tipo de consequencias que uma teoria tem. Se faz muitas previsões testáveis - novas hipoteses - que levem até à descoberta de novos dados, e por ultimo a novas teorias que se articulam com a origienal, formando um plano progressivo de investigação ou se por outro lado, leva a um programa degenerativo de investigação em que é preciso estar sempre a fazer alterações ad-hoc à teoria para ela funcionar. Lakatos foi quem pegou nas ideias de Popper e nos deu a filosofia da ciência moderna. Filosofia da ciência é o que tenta explicar o que é e como funciona a ciência e porque ela é tão bem sucedida. 


Por curiosidade, nem todos os grandes cientistas eram filosofos da ciência. Newton era, descreveu o que andava a fazer e apresentou o seu método. Einstein idem, aliás está na base das ideias que levam a Popper. Feynmein dizia que a filosofia da ciência era tão importante para os cientistas como a ornitologia era para os pássaros. Mas para nós, que estamos a tentar perceber porque devemos confiar na ciência, a filosofia da ciência é tão importante como a própria ciencia com que se confunde.



Em suma uma teoria ciêntifica tem de estar em conformidade com tudo o resto que se sabe, explicar a parte que lhe compete e fazer previsões impensaveis antes dessa teoria aparecer  - e ainda fazê-lo sistematicamente. Este é o elevado nível de exigencia que tem de ter uma teoria cientifica para ser aceite como tal. É a nossa garantia que estamos a fazer o melhor que podemos para ter conhecimento. 

Resolve todos os problemas epistémicos? Não, mas é o melhor que conseguimos. São tantas as exigências a favor de consistência em detrimento de um conhecimento mais completo que podemos confiar que o que sabemos, não sendo garantidamente para sempre, é o melhor que se pode fazer em cada momento.

E essa é a história da ciência. É a história curta mas extraordinaria de homens obcecados com saber o máximo possivel acerca das coisas mais especificas e da sua incrivel capacidade de articular o que sabem uns com os outros (embora por vezes com muito esforço...). E as peças encaixam. Não em tudo, mas na esmagadora maioria das coisas. E conforme se vai sabendo mais, e mais dados temos, melhores vamos poder fazer as nossas teorias. Se isso não acontecesse, poderia revelar por exemplo falta de abertura a novos dados, ausencia de discussão aberta entre ciêntistas e incapacidade de formar os tais campos de investigação progressiva. Como aliás acontece em outras formas de conhecimento pseudocientifico e na religião - não evoluiem quase nada: as discussões são autoritativas, escolhem os dados e teorias que lhes interessam por conformidade a dogmas iniciais e fazem vista grossa aos outros, não procuram criar teorias testáveis e muito menos programas de investigação. Por isso acabam com sistemas cognitivos fossilizados, cheio de inconsistencias com tudo o resto que se sabe, e que vivem apenas de serem atraentes emocionalmente.


Para além disso, e também por isso, a história da ciência é a história das melhores ideias no seu tempo. Raramente uma ideia cientifica, desde que a ciência é ciência, foi menos do que o melhor que se podia dizer sobre algo na altura em que essa teoria era aceite - a história da ciência é a história das melhores ideias possíveis. Mesmo que erradas, ou incompletas, eram o melhor que se podia saber. Tinham, para o que se sabia na epoca, a melhor justificação e mesmo visto da perspectiva  actual, ainda podemos confirmar isso. Excepto raras excepções, como a teimosia em aceitar a deriva dos continentes por exemplo.


Hoje temos, graças ao trabalho conjunto de tantas pessoas, cumprindo critérios extremamente exigentes de método, uma longevidade e uma liberdade impensáveis. As coisas que podemos fazer e fazemos de facto, seriam consideradas magia por povos mais antigos. A velocidade com que podemos viajar e comunicar, as doenças que conseguimos tratar, as coisas que descobrimos que aconteceram antes de cá estarmos, as previsões que fazemos sobre o que pode acontecer... Foi um grande avanço no conhecimento - e é pena e desastroso não se prestar mais atenção a isso. Em 200000 de humanidade, quase tudo o que temos, desde carros a computadores, apareceu graças aos ultimos 600 anos de progresso ciêntifico. Nem tinhamos como alimentar tanta gente só com métodos tradicionais - o preço da comida seria altíssimo. É uma história curta, mas extremamente bem sucedida no contexto da história humana. 

E por tudo isto, é pouco provavel que não estejamos a saber nada de nada, ainda que não tenhamos certezas, de seja o que for. Afinal o conhecimento humano será sempre justificado por conhecimento humano. É quase de certeza impossível fugir às regressões infinitas da auto-justificação inicial e resolver o problema de Hume. E o Teorema de Godel continua tão matemáticamente provado como quando Kurt Godel era vivo. 


Não ter certezas não quer dizer que vale tudo como sendo uma afirmação verdadeira. Quer dizer que temos de distinguir entre a validade das afirmações através da justificação que têm e escolher as melhores. E a cientifica, esta que aqui exponho, foi o melhor que encontrámos. Com todas as suas falhas, ainda é o que realmente funciona melhor.




(1) Na discussão cientifica estou a incluir não apenas a troca pública e privada de argumentos, mas também no peer-review que é parte importante do método cientifico e é uma espécie de discussão, ainda que não seja muito directa.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Mais uma confirmação de que o aquecimento global é antropogénico.

"Quando as médias de variação globais são incluídas, nós obtemos consistentemente uma identificação positiva  (ao nível de significancia de 1%) de uma impressão antropogénica nas alterações de temperatura oceanica das camadas superiores, assim substancialmente fortalecendo a actual evidencia [nesse sentido])"

 - traduzido do abstract de "Human induced global ocean warming on multidecadal timescales" publicado na Nature Climate Change.

Neste artigo encontramos os resultados obtidos através de correr uma boa  quantidade de modelos climáticos, com e sem "forcing" antropogénico, para compreender os resultados das medições observadas da temperatura dos oceanos.

São usadas novas medições e estimativas da temperatura nestes modelos, em resposta de trabalhos anteriores que mostravam haver "bias instrumental" nos conjuntos de dados.

O facto do resultado deste novo trabalho apontar no mesmo sentido que trabalhos anteiores, é tal como diz no abstract, de extrema importancia, pois mostra a convergência de resultados e corrobora previsões teoricas. Ainda mais quando usa um aparato generoso de modelos.

Parece que ainda há muita gente que acha que pode simplesmente olhar para os dados e decidir se o aquencimento existe ou não. Pior, parecem existir muitas pessoas que pelo mesmo processo defendem que se lhes parece que o homem não tem capacidade para alterar as propriedades do nosso planeta é porque isso deve ser verdade e que isso é suficiente para estabelecer  a crença de que os modelos matemáticos são treta.

As coisas não são assim tão simples e existem teorias e formulas derivadas dessas teorias que é preciso usar para saber para onde apontam as evidências. E é preciso avaliar os dados e resultados desses dados com método para extrair conclusões racionais, não chega olhar e atirar se é significativo ou não. Também para isso existem formulas. E depois é preciso juntar tudo e interligar as formulas todas e ver o que dá. Isso são os modelos. Mas são tão complicados que requerem bons computadores para os correr. Achar que se consegue chegar a um melhor resultado olhando e palpitando é ridiculo e anti-cientifico.

Quem o faz devia no minimo mostrar que é capaz de fazer esses calculos mentalmente, mas naturalmente que sabemos que o que fizeram foi mandar as formulas às urtigas e dizer o que intuitivamente lhes parece ser verdade. Mas se intuitivamente nós soubessemos o mesmo que a ciencia nos pode dar, não tinhamos andado a viver ao relento na savana durante 200000 anos. Parece que há quem ainda não tenha percebido a diferença.

A negação da intervenção do homem no clima terrestre é uma pseudociencia. E, como as outras, ao que tudo indica, uma que não augura nada de bom a vir de lá.

Não está nas mãos de pessoas individuais alterar o curso dos acontecimentos que estão a dar origem às alterações climáticas. São precisas mudanças de politica a nível mundial. Mas para isso precismos que as pessoas, individualmente, compreendam o que se está a passar. Só assim podem formar massas que sejam capazes de pressionar quem lidera o mundo.

Infelizmente, este é um tema altamente politizado, um em que está demonstrado que as pessoas seguem a cor politica do grupo onde estão inseridas para evitar conflitos ( mais uma vez... é preciso separar a discussão de ideias de discussão pessoal...).

Os ciêntistas estão, em grande maioria (ver aqui  nos EUA por exemplo) , de acordo que o aquecimento é antropogénico - o que sugere que não estando os cientistas livres de tendencias, a ciência continua a ser um mundo onde se conseguem gerar consensos. No entanto o publico divide-se, e parece polarizar-se cada vez mais com o aumento da literacia cientifica, algo que foi uma surpresa, já que se esperava que o aumento da literacia cientifica aumentasse a capacidade de escolher correctamente.

Não basta que os negacionistas se apoiem em teorias da conspiração, em critica cega dos modelos climáticos (sem mostrar onde modelos bem concebidos podem resultar num aquecimento como o que estamos a ter sem recorrer a "forcing" com CO2). Não basta que se apoiem em credos tão ingénuos como "o homem não consegue mudar o planeta". Aparentemente, a envolvente social é mais forte e é capaz de tornar este tipo de argumentação (que não aceitariam em qualquer outra circunstância) como sendo suficiente.

Não havendo maneira de fugir ao "bias" completamente, eu defendo que o melhor método encontrado para o evitar foi o cientifico. E este requer a confirmação independente, a formação de programas de investigação, e o estabelecimento de teorias pela convergencia de resultados. Requer consensos.  Isto tudo temos na ciência que estuda o clima. Na realidade o aquecimento global é a confirmação de uma previsão cientifica feita ainda no tempo de Napoleão. E fazer previsões é uma das marcas caracteristicas da ciência.

É preciso que olhemos, não para o que o publico pensa, seja este um publico atento ou não, mas para o que os cientistas pensam. É preciso largar os argumentos fracos  e tentar perceber porque os cientistas dizem o que dizem. E a comunicação social e divulgadores de ciencia deviam antes de mais ter a preocupação de fazer isso, em vez de pretender fazer ciência climática em seus sites e blogues.

Acabar com esta tragédia da percepção do risco pelos leigos devia ser um objectivo da divulgação cientifica. E a cada um de nós pede-se que seja capaz de pensar por si (isto é, não aceitar uma ideia só para ser mais aceite socialmente) e que por favor o faça. E que tenha a mente aberta. Não essa, a outra.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Em ciência, uma teoria não é mais uma opinião.


Uma teoria cientifica é uma descrição capaz de explicar tudo (ou quase) o que se conhece e de fazer previsões testáveis. É ainda capaz de se integrar no contexto maior da ciência sem criar inconsistências. O rigor necessário que se tem para chamar a algo uma nova teoria proporciona a que possam haver consensos sobre a sua veracidade. Os consensos científicos permitem formar grupos alargados de cientistas capazes de estudar a mesma área e trocar informações. Quando aparece uma teoria melhor, uma discussão em torno dessa teoria, na maioria das vezes leva à queda justificada da anterior.

Uma teoria cientifica não é uma opinião. Não é algo que cada cientista tem a sua. Não é algo que possamos escolher a dedo de entre uma lista a que nos agrada. É algo que requer imenso esforço de muitas pessoas para conseguir. É algo que requer que grupos em competição por dinheiro, glória e poder aceitem estar de acordo sob pena de deixar de poder considerar-se racionais, pois são independentemente verificáveis.

Uma teoria cientifica, como explicação, é o que de mais perto se tem da verdade num determinado campo. Mesmo a veracidade dos factos e o que nós interpretamos nas medições, os dados, dependem em parte das teorias que temos para os interpretar.  Mas um facto difere de uma teoria por não ser uma explicação. O grau de verdade espera-se no entanto que seja praticamente o mesmo. Como disse, são interdependentes. Sem teorias não há factos. E que tudo isto encaixe como peças de um puzzle é o que nos permite dizer que a ciência funciona. Por isso, e porque podemos estar de acordo sobre isso.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

"Coisas que a ciência nem reconhece" e a velocidade da luz.

Ouço muitas vezes algo como "é explicado por coisas que a ciência nem reconhece". Mas existem tais coisas? Como sabemos que existem se não têm factos para as suportar? E se têm que razões há para dizer que a ciência não os reconhece? Alguma vez isso aconteceu significativamente?

Há uns dias atrás a comunidade científica foi confrontada com algo que não deveria acontecer segundo a sua crença.

A saber, o laboratório CERN anunciou que mediu neutrinos a moverem-se mais depressa que a luz.

No entanto, em vez de negar a existência desse novo facto, divulgou-o para o mundo inteiro ficar a saber que algures nas bases de uma das teorias mais importantes da física, muito provavelmente existe uma excepção fatal. Sim, este facto novo pode ser suficiente para falsificar a teoria da relatividade. Uma qualquer teoria que emerja da integração desta nova informação vai ter de ser fundamentalmente diferente da gravidade ainda que tenha de ter resultados quase idênticos para uma série de outras questões.

 O surgimento de uma nova anomalia é tanto temida como desejada pela comunidade científica e é importante notar como reage nestas situações. Neste caso, sabemos que os autores da experiencia, demoraram algum tempo para a divulgar (meses)  e só o fizeram depois de terem uma grande confiança nas medições. Tinha de ser. A certeza de uma medição com este género de resultado não pode ser considerada de confiança sem um grande rigor na medição e publicar resultados trapalhões não pode ser. Tem de se afastar a hipótese de erro, já que contraria os resultados de muito mais experiencias efectuadas antes e que levaram à confirmação da teoria da relatividade. Mas uma vez obtida essa confirmação, com um grau de certeza bastante razoável, esse resultado foi divulgado.
A comunidade científica em geral, reagiu da mesma forma, no momento logo após a publicação. Em vez de negarem a existência de coisas que não podem explicar começaram por passar a pente fino os procedimentos. De um modo geral lembro-me que as reacções eram de espanto perante o rigor da experiencia. Logo de seguida, levantaram-se as questões da replicação independente. Nada de novo também. Uma coisa que falta é que um grupo independente e concorrente possa por neutrinos a viajar mais depressa que luz e segundo consta existem várias experiencias a correr que podem ser modificadas para o efeito.

Mas seja como for ninguém está a fingir que não vê o que não pode explicar. Pelo contrário.

 A quantidade incrível de artigos que surgiram a tentar explicar estes resultados é ilustrativa. Ninguém está a dizer: “isso não aconteceu porque é impossível!”.  E se a ciência tivesse esse tipo de procedimento nas suas fundações, esta era a altura de a usar. Mas não tem. Não funciona assim. A ciência é acerca de factos e explicações para esses factos. Temos é de saber que não são apenas impressões e são mesmo factos.

Como disse a inundação de artigos é enorme e alguns nem esperam a confirmação independente para avançar com explicações: Desde a possibilidade dos neutrinos terem usado dimensões extra para chegar ao destino (a teoria das cordas assume várias dimensões), a outras em que se propõe que esta seja a velocidade máxima absoluta e não a dos fotões (luz)). Muitos artigos exploram minuciosamente que fragilidades podem haver e onde a experiência pode ter falhado – o que é muito importante para as repetições que se seguirem.
De resto, parece-me que se está a seguir os passos normais do processo cientifico, da dúvida metódica e a repetir o que é feito quando grandes anomalias são encontradas. O mesmo aconteceu quando se descobriu que a luz tinha a mesma velocidade independente da velocidade da fonte. Foi repetido até se ter a certeza que era um facto e quando se teve a certeza que era um facto tivemos de encontrar uma explicação. Foi muito difícil e precisámos de uma mente como a de Einstein. Mas que a luz tinha a mesma velocidade em qualquer direcção medida independente da velocidade da fonte já era aceite como um facto. Senão ninguém tinha aceitado a relatividade. Claro.

Existem cientistas que não acreditam nestes resultados e dizem-no abertamente. Mas dizem também que esperam que as próximas experiencias mostrem onde está o erro que deu origem a estas medições, o que pressupõe que se isso não acontecer que terão de rever a sua crença. Em todo o caso, estão a tentar adivinhar, era mais sensato esperar.

Mas o que é fundamental é que a comunidade científica está, como sempre esteve, preparada para seguir aonde levarem as evidências. E isso é o que podemos concluir até agora, ainda se não podemos ter uma certeza com rigor cientifico de que os neutrinos andem mais depressa que a luz. Está-se a fazer o que é preciso para clarificar essa questão, com abertura e racionalidade.

Aquelas acusações de haver coisas que a ciência não reconhece têm dois grandes problemas. Uma  é explicarem como é que sabem que essas coisas existem e não são apenas palpites mandados à toa. A outra é que justificações têm para dizer que a ciência não reconhece seja o que for que possa ser bem estabelecido como real. É porque não sabem como funciona a ciência e nem sequer querem saber. Dão sempre a ideia que a ciência tem uma lista de coisas que tem de esconder para continuar a ter sucesso. Se isso fosse verdade, nada mais importante para estar nessa lista que violações à velocidade da luz.

Quanto à minha opinião pessoal sobre este assunto, não tenho. Estou à espera. Não sinto necessidade de formar uma opinião acerca deste assunto com a informação que existe. O que sei é que existem razões para levar a questão a séria e agora precisamos de verificação independente para passar a ser conhecimento. Ter opinião sem ser conhecimento só serve se temos pressa. Eu não tenho. Espero.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Lakatos - O campo de investigação progressivo.

O filósofo da ciência Imre Lakatos sugeriu que o falsificacionismo ainda não era suficiente para definir o que é ou não ciência. De facto algumas previsões são apenas testadas indirectamente, outras não podem ser testadas, e ainda outras não têm significado só por serem previsões. Por outro lado uma previsão mal sucedida arruinaria uma boa teoria que poderia ser corrigida com pequenos e pontuais acertos.

Em relação às previsões como demarcação da ciencia e pseudociência, o esperado é que algumas pseudociências consigam fazer previsões isoladas que por si não as tornam ciencia mas que seriam um motivo de confusão. De entre milhares de previsões que são feitas, algumas têm de acertar. Para passar a ser ciência uma pseudociência apenas teria de tentar muito e propangadear os momentos bem sucedido. Por exemplo a Astrologia tem uma previsão bem sucedida e bem documentada no "efeito Marte".

Lakatos propôs então que era preciso definir ciência não só em relação à capacidade de fazer previsões, mas também em relação ao tipo de investigação que propõe. Se é um em que temos de estar sempre a arranjar desculpas diferentes para justificar as falhas, ao que ele chama um programa de investigação degenerativo, ou se é um em que as previsões vão acertando e a teoria vai propondo novas  abordagens que se vêm confirmadas por seu lado - um programa de investigação progressivo. Ou seja, uma teoria que falhe uma previsão deve poder ser corrigida se isso puder ser feito de maneira simples e pontual, mas não de maneira sistematica. Ou seja, a consistência está primeiro.

Nota: A página "ciência", em cima, foi  actualizada com as informações deste post. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O que é o conhecimento? O que é saber?

O conhecimento é a crença, verdadeira, justificada.

Basta pararmos um pouco a observar as pessoas para ver que crenças há muitas e portanto o conhecimento não pode ser apenas sinónimo de crença. Também podemos perceber que se uma coisa é verdade mas nós não acreditamos que seja, não faz sentido dizer que temos esse conhecimento. E assim avançamos para a segunda parte.

Para ser conhecimento, essa crença tem de ser verdadeira. Mas aqui temos um verdadeiro problema. Não temos uma maneira infalível para chegar à verdade. Já estamos de acordo (ou deviamos estar) de que não basta acreditarmos para que seja verdade, e aproveito para acrescentar que também não é apenas testando que garantimos a verdade. Já que isso implicaria também infalibilidade. Mas sabemos que não temos isso porque erramos nos testes e nas interpretações várias vezes. Como a verdade não entra por nós adentro por osmose, há quem tenha querido ver-se livre dela. Mas não é possível. Precisamos sempre de um critério para o que consideramos verdadeiro, para caracterizar a correspondencia entre conceitos e a realidade. Basta pensar na frase que o afirma: ”é verdade que a verdade não existe”. Leva a um beco sem saída, é de facto uma afirmação godeliana. É preciso aceitar a falta de absolutismo na aquisição da verdade mas não a descartar. Temos de ver de qualquer modo o que vamos considerar que se aproxima mais ou menos da verdade (já que esta continua em si um conceito absoluto). Por isso passamos para a terceira parte e a mais importante em termos práticos. A justificação.

Conhecimento é a crença, verdadeira e justificada, e já que com as caracteristicas anteriores não podemos contar, apesar de não as podermos descartar, temos de considerar então a justificação que uma crença tem como verdadeira, para que seja conhecimento.

Na realidade, o que distingue duas afirmações quaisquer uma da outra é a justificação que elas têm. Justificar por ser crença de alguém ou por afirmar repetidamente que “é a verdade” ou “eu sei”, são justificações sem sentido. É igual a dizer que “é porque é”. Mas não é conhecimento.

Existe um numero infinito de afirmações que se podem fazer acerca de qualquer coisa. Mas só uma pequena porção corresponderá a algo real (sim, a verdade está em grossa inferioridade numérica, seja ela o que for) . A única maneira que se encontrou até agora para distinguir uma afirmação de outra qualquer nesse conjunto infinito, foi dando importância à justificação. Não conseguimos distingui-las por serem crenças de alguém ou por serem verdade, já que a justificação é o melhor que temos dessa coisa que chamamos verdade.

E já agora, dentro de uma aproximação relativa da verdade, em que não temos certeza se é verdade ou não mas procuramos o melhor possível, é o teste empirico e metódico que faz (tem feito) a maior diferença. O teste empírico não garante por si a verdade absoluta mas até sermos todos deuses é o melhor que temos para justificar afirmações, já que raciocinando apenas tem sido impossivel (muitos, muitos erros) saber como as coisas são fora das nossas póprias mentes (e dentro delas também já que se fala nisso).

Mesmo este bocadinho de texto que os filósofos considerariam filosofia, é conseguido com recurso a experiencia empirica e metodica. Senão ainda acreditavamos que acreditar por si só significava alguma coisa. Ou que existe um modo de sermos “iluminados” e alcançar “a verdade” assim de repente - …e ainda há muita gente que acredita. Infelizmente apresentam más justificações para isso.

Conseguir afirmações que se distingam por serem eficazmente aplicadas à realidade dá muito trabalho. Mas pode-se ensinar como se faz.



Resumindo, a grande Pergunta é:

(Shakespear enganou-se, não é essa)

“Como é que se sabe isso?”

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ideias de Origem Portuguesa

A Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação Talento estão a promover um concurso de ideias destinado a portugueses com morada no estrangeiro.

Estão a votação as melhores ideias , para quem fizer login, e eu desafio a todos a ler e votar.

O meu apoio vai para o Carlos Oliveira do Astro.pt que propôs um site de divulgação de conteúdos científicos na net, usando como base o Astro.pt mas com horizontes mais alargados ... O ideal é ver o video da exposição da ideia aqui (e depois seguir o link para ir votar!) :

http://astropt.org/blog/2011/04/10/pedido-importante/

Declaração de interesses/parcialidade: Eu tenho interesse na divulgação cientifica. Eu sou colaborador do Astro.pt :)

quinta-feira, 10 de março de 2011

O que prova a ciência?

Ora aqui está uma pergunta que confunde muita gente. É muito difícil.


Mas a resposta é...

A adequação à realidade. Testada pela capacidade de prever resultados.

Quantos mais melhor. Provavelmente estamos no caminho certo se o mapa prevê correctamente o que nos aparece no território. Senão, há algo errado.
Isto é metafísica para alguns. Eu chamo-lhe ciência. E sei que esta maneira de provar coisas funciona porque permite por seu lado fazer uma série de novas previsões até chegar à tecnologia que entra pelas nossas casas. Para além de prever que se façam constantemente mais descobertas capazes de fazer previsões elas próprias. O que acontece com enorme regularidade.

Então, ou tudo é uma ilusão, ou o que prova (ou não) a ciência é a própria realidade.

Podemos adornar esta questão de muitas maneiras. Mas serão adornos supérfluos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Stephen Hawking's and Leonard Mlodinow "The Grand Design" book review.

Que não haja duvidas. Este livro é sobre o ateísmo. Vem reforçar o que muitos já  andam a dizer há muito tempo que é:

Deus não tem lugar no universo.


Em poucas páginas e começando com a história do pensamento cientifico, Hawking  e Mlodinow argumentam que a aparente organização do universo é a esperada para qualquer observador inteligente com vida baseada em carbono. Não ser de esperar outra coisa, é também o argumento teísta, que vê nisso sinais de intencionalidade na criação. A diferença é subtil mas com consequencias drásticas.

Para além de desmistificar a aparente organização do universo, apresentando argumentos como eu já fiz (1) de que ver intencionalidade na organização é uma tendência humana, os autores explicam como é que sabemos que interpretar essa organização é um erro que contraria a própria ciência que permitiu chegar aos valores que sugerem afinação. Afinação das constantes e das leis naturais para que possa haver vida. Aquilo que é conhecido como argumento do "fine tuning".

Em poucas palavras, ainda menos do que no livro, vou tentar explicar:

Sabemos que algures na história do universo, este teve um tamanho em que a mecânica quântica é que o regia, já que era mais pequeno que um átomo. Sabemos também que nessas condições, não precisamos de um criador (2). Na realidade é de esperar que a auto-criação esteja sempre a acontecer a nível quântico. Mas se se aplica a mecânica quântica, e as previsões feitas por esta teoria estão surpreendente bem confirmadas, então temos de explicar o funcionamento actual do universo de acordo com o que diz a mecânica quântica. A maneira matemática de explorar isso é através da reformulação de Feynman. É o que se chama "soma das histórias". Isto é, para cada entidade quântica, temos de contar como reais todas as histórias possíveis para essa entidade, e em que essas histórias possiveis interferem umas com as outras produzindo um resultado final que é a soma dessas histórias. Ou seja, os vários acontecimentos provaveis interferem uns com os outros porque têm de ser tomados como sendo todos reais, como se para uma entidade tudo o que pode acontecer com ela acontecesse ao mesmo tempo.  Por outro lado quando se faz uma observação, em qualquer momento do percurso de uma entidade quantica, estamos logo a eliminar uma data de históras possiveis que passam a não ter acontecido. O tempo comporta-se como se fosse espaço e a direcção da causalidade dá para os dois lados. O presente afecta o passado. E isto está demosntrado em mecanica quântica. E o universo neste caso é uma entidade quântica.

Por isso a teoria prevê que uma data de universos com leis diferentes tenham de ser assumidos como reais enquanto ele estiver em dimensões quanticas. E tal como a teoria prevê, se estamos cá como observadores desse universo, é natural que só vão contar para a soma das histórias do nosso universo aquelas em que é permitido que nós apareçamos. Isto é a prova cientifica do princípio antrópico fraco (1). O universo em que estamos é como é porque se não fosse não era o nosso universo. Era outro qualquer. Que é igualmente possível e real. Mas não é este em que o leitor lê estas palavras. Pelo simples facto de cá estarmos para fazer essa observação. Para quem isto estiver a fazer confusão deixem-me então explicar outra vez (3) que em mecânica quântica o presente altera o passado. Literalmente. Quando se faz uma observação, tudo o que aconteceu até esse momento é limitado por essa observação. Todas as histórias possiveis são reais mas são eliminadas aquelas que não contribuiem para o resultado obtido com a observação. De tal modo que é como se essas historias possiveis nunca tivessem acontecido. No entanto à partida sabemos que são possiveis. Algures deve haver outros universos a "pular" com histórias diferentes.

Ajudou? Se não ajudou proponho ler não só este livro como "O universo elegante" de Brian Green.

Outra parte importante do livro é a explicação de porque é que podemos usar a mecânica quântica e a relatividade ao mesmo tempo para chegar a esta conclusão mista - a parte de um universo que se contrai conforme andamos para o passado vem da teoria da relatividade. E esta parte da soma das histórias é da mecanica quantica. E sabemos que se as tentarmos conjugar uma com a outra o resultado é infinito. Não dá. Então como fazemos isso?

É porque existe uma Teoria-M que é na realidade um aglomerado de teorias, que unifica consistentemente os resultados destas teorias. Esta unificação é resultado da abordagem matemática conhecida como teorias das cordas, onde das cordas já passamos para membranas e outras coisas mais complicadas. A Teoria-M deixa que usemos modelos diferentes para problemas diferentes porque os modelos sobrepõem-se e nessa zona de sobreposição são completamente concordantes. O que não acontece com a mecânica quântica e a relatividade que sem esta integração o resultado da sua combinação e infinito. A Teoria-M ainda não está cientificamente provada, apesar de ter já o nome de teoria. Porque o grau de certeza que temos nela é tão elevado como em outras teorias. Para aqueles que considerem que a filosofia tem o mesmo grau de certeza que a ciência nas afirmações, então devem ficar satisfeitos com ela porque a lógica e a matemática que a suportam são de alto nível. Para outros como eu, que precisamos de ver as confirmações cientificas ou saber das demonstrações matemáticas completas, falta ainda só um bocadinho. Mas é claro para mim, mesma que ache que ainda falta um pequeno passo para poder escrever o meu post intitulado "O fine tuning refutado", que esta explicação está a anos-luz da qualidade de qualquer outra. É a melhor explicação que há para tudo o que conhecemos. Disso não tenho duvidas.

Para o Stephen Hawking não falta nada. ( E eu fico um bocado atrapalhado por ser ainda mais céptico que o Stephen Hawking, mas é assim a vida). Para ele, esta é a teoria de tudo. E afirma-o categoricamente. Explicitamente, para que não restem duvidas. E também diz explicitamente que a ciência diz que Deus não existe. Continuar a insistir no oposto no contexto actual do conhecimento humano só se deve à vontade dos crentes. Só se deve a uma crença apaixonada em algo que não tem justificação racional  e é até contra o conhecimento cientifico. Só se deve a Fé. Mas Fés há muitas (não faltam aí e o livro aponta umas quantas), o que é dificil mesmo é descrever a realidade sem deixar que a nossa vontade atrapalhe a visão (4).

Mas se bem que a observação que fazemos no universo condicione as leis com que ele teve de evoluir desde o Big Bang, a Fé só por si não faz aparecer as coisas que nós queremos como diz aquele livro idiota chamado "O desejo".

Que recomendação dar deste livro? Para quem quiser saber em vez de palpitar ou escolher postulados é de leitura obrigatória. Para quem já sabe tudo o que lá está escrito, é também uma história excelente. Uma que já sabemos o fim, mas que não deixa de ser uma das histórias mais fantásticas que há. A do nosso próprio conhecimento. Para mim o livro foi o que os anglófonos chamam "a page turner". Só parei de ler quando acabou, mesmo se as pestanas já pesavam.



Notas e referencias:



(1) O argumento do "fine-tuning desmistificado":
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/o-argumento-do-fine-tuning.html

(2) De uma flutuação quântica nasceu o universo:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/criacao-partir-do-nada-e-radiacao-de.html

(3)Sobre a mecânica quantica:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html

(4) O mais cego é aquele que não quer ver: (ainda não escrevi neste universo).

Nota: Eu ainda considero que a teoria da evolução ao mostrar como coisas mais complexas podem emergir de outras mais simples desde que haja energia suficiente, tal como comprovado por Prigogine, justifica satisfatóriamente qualquer organisação em qualquer aspecto do universo.

Nota 2: Os autores consideram, tal com eu tenho vindo a argumentar neste blogue, que mesmo na ausencia deste conhecimento actual, que recorrer a um deus para explicar a criação não leva a lado nenhum. É só substituir um mistério por outro. Se temos de aceitar que algures há algo que  não precisa de criação é uma explicação muito mais simples dizer que o universo se auto-formou.

Nota 3: Provavelmente vai haver uma data de gente que não vai perceber nada disto e vai continuar a acreditar em deus. É a vida. Mas a tese de que a ciência repudia a existencia de deus está mais que bem fundamentada. Este livro sucede-se a outros de uma série de autores que arriscaram o seu "conforto"  quer académico quer pessoal para denúnciar que o rei vai nú.

Nota 4:  Para nós não há deus. Nem grande. nem pequeno. É contra tudo o que se sabe. Mas se a possibilidade de se formarem universos é infinita e as hipóteses são infinitas então temos de assumir que pode haver um universo que é uma sucessão ainda maior de acontecimetos ainda mais extraordinários!  Extranhamente, e porque parece-me que não há nada que o impeça, na auto-criação pode emergir expontaneamente uma entidade "tipo-deus", poderosa até ao limite da lógica e autoconsciente. Uma que no seu universo poderia por e dispor. Sabemos no entanto que isso não aconteceu neste. A não ser que essa entidade faça tudo para que tudo se passe como se não existisse, e mais do que isto não pudesse ser imaginado sequer.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ciência e filosofia.

O que separa a ciência da filosofia é que a ciência é limitada pela realidade.  Tudo o que diz tem de ser de algum modo testado nessa realidade. Modelos têm de corresponder a medições.

Isto é uma garantia sobre o grau de confiança que se pode por numa afirmação cientifica. A não ser que tudo seja uma miragem. Mas sobre isto vemos mais à frente.

Ambas são raciocínio sério e especulativo sobre o que é ou pode ser. Mas as conclusões da ciência não se ficam só por aí. Têm de ser provadas. Se falam sobre a realidade então têm de ser provadas na arena da realidade.

A filosofia ainda se preocupa com o que deve ser, mas aí vai haver sempre uma escolha algures, o que torna dificil dizer qual a melhor resposta. Iden aspas para questões em que haja demasiadas variaveis a ter em conta.

O que está escrito acima não deve ser intrepertado como querendo dizer  que a filosofia não tem de provar ou demonstrar o que diz. Apenas que não tem a preocupação de o fazer para além do plano racional, do pensamento. Isso é importante, sobretudo para coisas que sejam dificeis de testar ou impossíveis, quer por falta de tempo, e com os engarrafamentos de hoje em dia isso é um problema pertinente, quer por ser impossível. Mas só por pensamento os erros são difíceis de encontrar. De facto a filosofia é mais famosa pelas perguntas que pelas respostas.

Na prática, a ciência e a  filosofia são separadas pela certeza com que algo sobre a realidade pode ser afirmado como verdadeiro. Não que a ciência produza afirmações sobre tudo mas porque sobre tudo o que produz afirmações requer um grau de rigor elevado. Porque ciência exige que as afirmações sobre a realidade sejam sustentadas por essa mesma realidade, do modo mais directo possível e além disso estuda o melhor método de o fazer.  A ciência exige ainda que a sua biblioteca não se refute mutuamente. Tem de ser consistente. Só deixando hipoteses em aberto é que se pode admitir que elas se refutem mutuamente. Mas a ciência procura fazer afirmações que se possam testar, ainda que esteja condenada a ter de ultrapassar esse obstaculo mais tarde ou mais cedo. Mas para já tem sido assim.

Isto não quer dizer, que tal como a filosofia, a ciência não se debruce sobre o como as coisas podem ser. A Teoria-M diz aliás que neste momento a ciência não tem outra alternativa. A Teoria-M obriga mesmo a explorar a realidade num contexto em que é preciso contabilizar também como as coisas poderiam ser de outro modo. Já que as probabilidades à escala quantica interferem umas com as outras e o nosso universo é apenas um de vários possiveis.

Mas voltando atrás, esta compulsão com a verificação empírica, é como disse, em termos funcionais o que difere mais fortemente entre as duas formas de conhecimento. Em filosofia, um raciocínio é aceite desde que seja racional desde uma ponta até à outra. Só que o raciocínio não pode sustentar o raciocínio e perante a constatação das limitações cognitivas humanas, o cientista vai procurar refugiar-se na pesquisa experimental.

A evolução da maneira de extrair dados da realidade para desenvolver hipóteses e testar afirmações, evoluiu tanto em tantas áreas nos últimos anos, que só consegue desenvolver o melhor método numa determinada área quem seja um especialista. A epistemologia cientifica, no momento actual, procura uma maneira de fazer observações que sejam evidencia da existência de um numero infinito de universos paralelos, com os quais não temos qualquer ligação. Apenas sabemos da existência deles por propriedades do nosso.

Se me disserem que no fundo de tudo alguns dos príncipios epistemológicos básicos ainda são os mesmos, eu aceito. Sem problemas. Se me disserem que nasceram na filosofia, idem. É um facto. Toda ou quase toda a ciência começou por ser um dia filosofia.

Aristoteles formulou aquilo que é conhecido como "a lâmina de Occam", Laplace formulou a famosa frase "afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias" e desde os tempos mais antigos do pensamento que aceitamos que mesmo que não saibamos tudo, há respostas que podemos considerar melhor que as outras. Toda a matemática, se baseia nisso. Na realidade, bastou a percepção que sem critério de verdade não se pode saber nada, mas se houver a aceitação que há afirmações que estão mais em concordancia com evidencias que outras, então temos um critério de verdade.

Os princípios referifos anteriormente são filosofia ou ciência? Eu acho que já foram filosofia, mas com os resultados em consonância com as previsões, passaram a ser ciência. Por como tenho insistido, é só isso que as distingue. A hipótese de construir conhecimento sobre a realidade a partir da sistematização e integração da informação que conseguíssemos extrair dela, deu  os frutos que deviam dar se esta fosse uma boa hipótese. E só não podemos admitir que temos mais respostas para mais perguntas hoje que há séculos actráz se negarmos que existe um critério de verdade ou seja se negarmos que não há respostas em que podemos ter mais confiança do que outras. Mas isso vai demolir ambos os sistemas, não só o cientifico.

O que prova a ciência não é a filosofia. É a própria ciência, ou melhor, o teste cientifico. Porque temos de admitir que gerar hipóteses e pensar na maneira de as testar é trabalho do cientista, se bem que seja algo que é practicamente indistinguivel em filosofia. Temos de admitir que quaisquer pressupostos em que acente a ciência, tais como que a realidade existe ou que a realidade é inteligivel, tem tanto de filosofico como de ciêntifico. Estes pressupostos estão muito mais próximos de ser caracteristicos da ciencia do que filosofia. Mais uma vez a questão  está... Na próximidade assumida com o mundo empirico.

Se me disserem que isso é um ciclo vicioso na mesma, eu respondo que por aí - com essa critica - não vamos a lado nenhum, que o pensamento humano se suportará sempre no pensamento humano, até que um de nós se transforme num sapo. E mesmo nessa altura não estou a ver que grande coisa isso possa dar. A verdade é que não há saída do balde, (na famosa alegoria do cérebro a boiar num balde, em que tudo o que experiênciamos nos é "injectado" por uma entidade super potente). Nem filosofia, nem ciência têm resposta absoluta para o solipsismo. Ambas têm respostas parciais. Mas isso é outra história.

Isto quer dizer que a filosofia morreu, como diz Stephen Hawking no seu ultimo livro? Ou como dizia Feyman, que a filosofia precisa tanto da ciência como os pássaros da ornitologia? Eu penso que não. Sinceramente. Nem que todas as respostas que temos vieram da ciência, como dizia Russel. Isso é porque Russel só admite como resposta algo que tenha o rigor da ciência. Se quer rigor cientifico tem de se socorrer da ciência. Mas ainda não sabemos repostas para tudo com rigor cientifico, e é preciso tomar decisões em tempo real e precisamos de fazer escolhas. Como conhecimento, essas respostas serão mais fracas,  mas poderão ser consideradas respostas na mesma, desde que sejam consistentes com tudo o resto que sabemos ser verdade. Não existe melhor caminho para avaliar isso que recorrer a ferramentas filosóficas. Que no fundo são também cientificas, provadas pela experiência sistemática e cepticismo coerente.

Há realmente toda uma extensa área de terreno misto entre a ciência e a filosofia. Pricipios básicos como os que referi anteriormente são actualmente exemplo disso. O pensamento crítico é uma parte substancial do pensamento cientifico e no entanto foi possível lá chegar apenas "pensando", ainda que seja de facto construído sobre questões empíricas, sistematicamente testáveis. E que, muito imporante, se pode demonstrar na pratica. Tal como a matemática. Só no dia em que 2 maças mais uma sejam 3 é que a coisa treme.

Na prática a filosofia permite construir raciocínios longos, encaminhados logicamente. Mas basta haver uma hipótese negligenciada, uma pequenina falha lógica num pequeno passo para um erro ser amplificado várias vezes nos seguintes. Como naquelas contas no ensino secundário em que um erro numa virgula a meio do exercício e depois o resultado já dava completamente diferente e andavos às turras para ver o que deu torto. Mas na filosofia não há um sistema de regras formal no qual possamos confirmar o resultado, ou sequer uma tabela de conclusões para verificar a nossa. Na prática, a filosofia está cheia de enganos geniais. De coisas que fazem tanto sentido que só por azar não são reais. Mas quando o que conta é a veracidade de uma afirmação, temos de ter mais ferramentas. E a melhor maneira de ter uma tabela com repostas é tentar ir busca-la à natureza.


O que o cientista faz na maioria das vezes não é diferente do que faz o filosofo. Enquanto anda ali às voltas a tentar criar uma hipotese a partir dos dados, uma que preveja dados futuros, está a fazer algo muito parecido com filosofar. Talvez seja um pouco mais livre nesta atividade (os filosofos dirão trapalhão?) porque sabe que pode sempre experimentar para saber se a hipotese era boa, em vez de ter de a repensar uma data de vezes à procura de falhas lógicas. Lamentavelmente, eu sei que na faculdade não ensinam aos futuros cientistas a pensar, pelo menos na maioria dos cursos, e por isso o trabalho da ciencia ainda é compensado com força bruta, ou seja, colocando muitas hipoteses para testar, e pelo génio ocasional. Mas em suma, ambos têm actividades parecidas,  excepto quando o cientista mete as mãos ao trabalho e vai tentar testar a teoria. Às vezes nem é preciso tanto. Para Einstein nunca foi preciso ir para o laboratório, bastou-lhe esperar um eclipse para poder fazer a primeira de muitas provas para a relatividade. Hoje qualquer GPS é uma prova em tempo real da teoria da relatividade.

A própria lógica e a matemática têm as suas conclusões baseadas na experiência empírica daquilo que é tido como facto. Teoremas matemáticos que demoram tempo a demonstrar que afinal continuam a ser apenas conjecturas não falta aí.

O cérebro humano falha. As ferramentas não são perfeitas. E mesmo depois de tudo confirmado, filósofos da ciência continuam a encontrar comportamentos arbitrários entre os cientistas. E teorias cientificas manhosas. Mas mesmo os filósofos da ciência parece que trabalham como cientistas. Formulam hipóteses e depois vão ver se encaixam no que sabem sobre a ciência. Apenas ainda não funcionam com a sofisticação com que a ciência já funciona, isto é, testando previsões. Ainda estão a tentar explicar apenas o que se conhece.

Mas a ciência não é um sujeito fácil, mesmo para ela própria. Na essência um cientista procura a melhor resposta possível e cada caso é avaliado pontualmente, comparado com as respostas alternativas e todo o processo é realmente um pouco ad-hoc, excepto na concordância que os cientistas têm de que uma teoria tem de ser justificada experimentalmente. No fim do dia o que conta é se explica tudo o que se sabe ou não e se pode ser testada em relação às afirmações novas que produz para a qual ainda não sabemos a resposta. Naturalmente que se entra em conflito com teorias existentes não está a cumprir estes requesitos. Em ciência, desde que se possa justificar que uma afirmação é melhor que outra para explicar os dados empíricos conhecidos, todos (com alguns só precisa de ser coerente claro) ela é aceite. A consistencia também é uma exigencia, mas é algo que emerge destes príncipios.

Não é demais repetir isto: A ciência é efectivamente a procura da melhor explicação possível. Tenha sido sonhada na noite anterior, descoberta acidentalmente na observação do monte de estrume do quintal ou conseguida após 10 anos de tentativa e erro com geometria de espaço curvo. E tudo o que é previsão um dia, vão ser dados passados no dia seguinte. É preciso é que a teoria os explique.

É este o grau de certeza que a ciência exige. Podemos ter mais respostas, podemos até ter respostas que estão certas mas que não estão provadas. O problema é que com a história desastrosa que temos de fazer afirmações racionais que depois se provam erradas como é que sabemos que a resposta está certa? Como é que sabemos que lhe podemos dar determinado grau de confiança? O cientista diz que é comparando a afirmação com a realidade, vendo se o mapa corresponde ao território.

Por exemplo, eu posso dizer que é tudo milagre. É uma resposta consistente e completa. E depois, por exemplo questionar porque é que os corpos caiem? E respoder outra vez milagre. Mas se eu responder que é porque há uma curvatura do espaço-tempo e que por causa disso esta é a observação esperada do que acontece a um corpo em repouso nesse espaço-tempo até que sofra uma aceleração em sentido oposto por causa do chão, não é uma explicação muito melhor? É. Sério que é!  Porque? Porque é especifica para a questão em causa e porque explica mais coisas comparando com a reposta do milagre. Por exemplo porque é que o dito milagre é sempre o mesmo, mecanimente. Com que força actua, etc. E este critério de ser melhor, como o descobrimos? Porque com outros critérios não consiguimos evoluir tanto. Então porque é que é melhor saber mais do que menos? Bem, aqui não sei responder. Mas estou a tentar escrever para os que concordam que saber responder a mais perguntas é melhor enquanto conhecimento.


Os filósofos poderão ficar incomodados com este texto. Não porque eu seja alguém no mundo intelectual, mas porque pessoas que se sentem atraídas pela verdade como alguns filósofos que eu conheci não conseguem deixar passar sem mais nem menos o que eles consideram que é um disparate. Mas antes disso eu quero que pensem no que eu estou a dizer. Que é simplesmente que a ciência é a melhor explicação que há da realidade. E que a filosofia e a ciência partilham muita coisa, tal qual mãe e filha. Mas o que é usado em ciência não faz sentido dizer que é filosofia ou apenas filosofia. E o que é apenas filosofia, se é uma afirmação sobre a realidade, está em desvantagem.

Talvez um dia, quando já se saiba tudo, todas as previsões teoricas possam ser feitas sem precisar de ser confirmadas, mas até lá, a ciência bate tudo

Se não é assim, venham lá as criticas.

Nota: Eu sei que a ciência não explica tudo. Mas nada explica tudo. Nem dizer que a respota é 42. Ou que é milagre, ja que é só passar de um mistério para outro ainda maior. Em vez de ser para um menor.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Esboço sobre a verdade em pinceladas grossas. Ensaio visual.

Isto são gráficos artisticos a representar o grau de certeza que temos nas coisas. Não representam conhecimento cientifico, mas são uma hipótese testável e passível de aprimorar. Estes gráficos têm por conseguinte um grau de fiabilidade muito abaixo do cientifico, talvez aí na zona logo acima do senso comum.

Então é assim:

No primeiro gráfico proponho que os sistemas cognitivos se avaliam em função da completude e consistencia relativamente às coisas que existem. Naturalmente a ciência é a campeão na consistencia e na soma de ambas, perdendo terreno para a filosofia conforme nos aproximamos de uma optimisação da completude. Naturalmente que a pseudociencia é a campeã da completude pois não se ralando com a consistencia e aceitando o milagre como explicação não deixa nada de fora. Podemos ver que o senso comun atinge bons valores em ambas as direcções mas não onde os dois critérios se exigem simultâneamente. Aí só a ciência e a filosofia reinam. A indistinção entre a ciência e a filosofia e entre a filosofia e o senso comum é propositada. É assim que as coisas são.

No segundo gráfico continuamos a encontrar essa dificuldade intrínseca do conhecimento de se separar em gavetas. A boa filosofia - a única para alguns filósofos (já que eu sou um cientista da filosofia, preocupado por saber que filosofia é que funciona e qual não), confunde-se fortemente com a ciência (a verde) e é marcada por aquele lindo azul-mar-das-caraíbas. Há, o mais importante. A linha horizontal, o eixo do X, tem ao longo os sistemas de conhecimento humano dispersos qualitativamente de acordo com o gráfico anterior.
O eixo dos Y é um valor que eu chamo de "conhecimento". É a abstracção matemática para aquilo que nós podemos dizer que é  o grau de confiança que podemos por nas afirmações. Naturalmente, certezas absolutas não existem e o conhecimento humano não toca o topo da escala de certezas, o conhecimento perfeito. Obviamente que a maneira de obter esse conhecimento é desconhecida da humanidade, e ou é uma evolução da ciência ou vai ser uma coisa nova. Não sei. Por isso deixei a branco.

Na pratica, aquilo a que chamamos respostas e a questão de o que é que dá respostas, tem tudo a ver com o grau de confiança que queremos ter nas respostas. A ciência não responde a tudo. Mas as respostas que dá são as melhores. De tal modo que qualquer resposta que seja melhor que uma cientifica que apareça, a ciência devora-a. Não tenham duvidas. O sistema cognitivo chamado ciência é um predador. A matemática está toda engolida (é o verde mais brilhante mesmo junto à faixa branca). Se aceitarmos graus de certeza cada vez mais baixos vamos poder aceitar o senso comum como conhecimento. Apesar de ser pouco completo e consistente. Naturalmente que se formos só um pouco menos exigentes podemos aceitar a filosofia como conhecimento. Mas a filosofia que se confunde com senso comum já tem um grau de incerteza de falta de rigor bastante marcado. É talvez a área da politica e da moral e da ética, onde os resultados do que é melhor demoram muito a ser avaliados e compreendidos. E onde ainda por cima o consenso é de uma importância enorme na estabilidade. As coisas que nós podemos ter a certeza mesmo nessas áreas, são as importadas da ciência. São aquelas em que podemos criar uma ponte empírica racional e lógica entre os dados observados e os desejados.O que nós desejamos é uma escolha. Mas quase sempre no sentido de ser a que nos beneficia mais como sociedade sem correr o risco de sacrificar indivíduos para lá de uma linha de tolerancia que tem vindo a subir com a evolução social.

Russel dizia que a ciência não tinha todas as respostas, mas as respostas que temos foram dadas pela ciência. Eu praticamente estou de acordo. Mas há coisas que são chamadas de filosofia, mas que sã realmente baseadas em empirismo sistemático, e que se confundem com ciência que também dão respostas. Determinados princípios científicos, ferramentas do pensamento crítico, a lógica, etc. Recuso entregar a epistemologia completamente à filosofia. É óbvio que parte da ciência é a abordagem epistemológica que resulta na evolução e diversicação do método cientifico. É mais uma zona azul-mar-das-caraíbas.

PS: se desenharmos um circulo e colorirmos com esta notação que eu dei, o amarelo vai seguir-se ao verde com uma linha difícil de discernir por ser tão fininha em determinadas zonas. A ciência e a pseudociencia em determinados casos são muito difíceis de demarcar como também ilustrado no gráfico completude/consistencia junto ao eixo dos Y. A psicologia de Freud é um exemplo dessa dificuldade - com uma quantidade anormal de postulados que não assentavam em conhecimento rigoroso, faltando portanto maneira de eliminar falsos positivos e sugerindo falta de consistencia.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Conhecer o que não é mensurável. Parte II



Depois de uma longa discussão(1) com o Arnaldo Vasconcelos na primeira parte deste tema (1), venho a admitir que o exemplo que dei não é de algo realmente e absolutamente incomunicável. É de facto o mais próximo disso que eu consigo conceber – uma entidade sem propriedades físicas definidas da qual sabemos existir porque sabemos tudo acerca de uma outra que a origina.

O Arnaldo argumenta correctamente que há uma ponte fenoménica algures ao demonstrar a teoria que prevê a existência da nossa entidade, ainda que ela não tenha qualquer efeito mensurável no mundo físico. Ela não é mensurável mas não corresponde à ideia de incomunicável que deu origem à discussão. Mas se é assim, então há outras divergências:

A discussão agora, e para aproveitar o ultimo post sobre a cabala (2), é se existe alguma maneira de conhecer que ultrapasse a ponte fenoménica. Ou melhor, se existe alguma maneira de produzir informação assertiva, com algum grau de confiança, sem que algures tenha de ter sido adquirida informação sobre algo que a suporte. Lembrar que qualquer ponte de informação será também uma ponte fenoménica é importante. Algures a informação vai causar algum efeito.

De acordo que dizer que algo é incomunicavel, é à priori dizer que tal conhecimento não é científico. Eles dizem que o conhecimento não vem do mundo dos sentidos, como o cientifico. Então vem de onde e como eles sabem que diz algo acerca da realidade? Isso não dizem. Postulam apenas que determinadas coisas dizem algo acerca de uma plano mistico do universo. Isso não é conhcimento. É postular à toa.

Mas voltando à questão em abstracto:

É que para além de uma posição de agnosticismo, de não ser capaz de formar conhecimento, não existe outra maneira alguma vez proposta de se saber seja o que for sem uma ponte fenoménica algures. O cérebro humano não tem outra maneira de produzir conhecimento. É sabido que uma criança que cresça em isolamento e sem aprender a reconhecer quantidades não vai saber contar. Eventualmente, nem falar, nem pensar. Na realidade existem tribos inteiras sem saber contar para lá de 2. A matemática é conhecimento com origem fenoménica. É uma abstracção da realidade.

Mas para além das questões praticas, mesmo no mundo do postulável, se queremos que o postulavel tenha um mínimo de plausibilidade, não me ocorre outra maneira de conhecer sem transferência de informação. Parece-me mesmo que sem transferência de informação não pode haver conhecimento. É uma questão lógica. ( E já que a lógica tem origem fenoménica - por isso é que nos faz confusão a mecânica quântica dizer que uma coisa está em vários estados opostos ao mesmo tempo, não estamos habituados a isso – é um sistema formal em que com um certo numero de axiomas conseguimos descrever abstrações de fenómenos reais, de tal modo preciso que se constroem maquinas de imitação lindas com tal coisa, os computadores).

Em conclusão, eu proponho que se se diz que pode haver uma maneira de conhecer um incomunicável, sendo que um incomunicável é algo onde não há uma ponte fenoménica algures, é uma impossibilidade não só do ser humano enquanto tal, mas uma impossibilidade lógica.

Teríamos sempre de colher essa informação ou o suporte de tal informação de algum modo. (percepção extra-sensorial estaria incluída em adquirir informação, mas seja como for parece que o numero de sentidos que temos não aumentou ultimamente).

E a partir do momento em que há informação, há fenómenos. E se há informação então há ciência possível.

Postular podemos sempre postular. Mas isso não nos diz nada acerca da realidade das coisas. Nem postular que poderia eventualmente haver uma maneira desconhecida de ultrapassar o incomunicável. Disso não sabemos nada. E o que não sabemos não gera conhecimento. Logo não podemos dizer que talvez haja. Quem diz que não há conhecimento sobre esta questão também não me pode contrariar a dizer que não há outra maneira.

(1) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/01/normal-0-21-false-false-false-pt-x-none.html
(2) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/02/e-agora-para-algo-completamente.html

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Conhecer o que não é mensurável. Um ensaio.

O Arnaldo Vasconcelos, autor do excelente blogue “Análise da Ciência”, defende que a ciência precisa de aceder a informação do mundo físico para especular sobre ele. E eu estou de acordo.

Considero mesmo que essa obsessão cientifica com a recolha de dados é a diferença prática entre a filosofia e a ciência. 

Mas depois diz que se existirem entidades que não tenham efeitos mensuráveis, direta ou indirectamente que mesmo que possam ser alvo de conhecimento por qualquer outro sistema cognitivo, a ciência não será esse sistema. Ele diz assim:

“Bem a minha noção teórica da ciência, exposta neste blog, deixa bem claro que não é do escopo da ciência analisar a existencia de um ser que é fenomenicamente inexistente, mas que ela deve-se calar (meio que “wittgensteinianamente”) a respeito deste assunto (visto que não é seu objetivo e nem tem meios para isso).
Agora repassar que para todos os meios “cognitivos” é impossível é uma derivação deveras exagerada.”(1)

E é exagerada. De facto parece-me que se pudermos conhecer uma entidade que seja igual a não existir para todos os efeitos, é com a participação da ciência. E parece-me que apenas com esta. E que tal é possivel.

Sempre me manifestei contra “mortes anunciadas” do conhecimento científico. Em cada altura defendi isso de acordo com o contexto da previsão. Por isso em vez de passar a pente fino os argumentos anteriores vamos à questão em causa:

Imaginemos uma teoria A que descreve a ocorrência de uma entidade x tal que essa entidade’ é capaz de produzir entidades a1, a2 e a3 quando em contacto com a entidade y. 

Imaginemos que as entidades a1 e a2, previstas pela teoria são encontradas com as características esperadas. No entanto a entidade a3, por questões teóricas não é passível de ser detectada por nenhum método. A razão porque tal coisa acontece é porque não causa neste universo nenhum efeito. E tal como previsto pela teoria, ela não é detectada, por mais tentativas que se façam. 

O que eu proponho, é que a consistência e falseabilidade da teoria A seja a prova científica de que a entidade a3 existe, embora não tenha propriedades físicas e seja a causa de qualquer efeito mensurável. Até que ponto uma entidade sem propriedades físicas existe realmente é algo que deixo para o futuro, mas se houver tal coisa, esta será provavelmente a única maneira de saber se ela existe.

Essa maneira é, resumidademente, se a sua existência for prevista a partir de algo que já tenhamos bem estabelecido. Enquanto houver uma seta do tempo em que os efeitos não precedem as causas, esta entidade b3 tem todos os requisitos para ser uma entidade intangível e incomunicável, passível de ser aferida como real pela ciência.

Existem analogias possíveis com entidades científicas já previstas? Não totalmente, mas sim para as linhas gerais, no sentido em que sugere que tal possas vir a acontecer.

Algumas interpretações de teorias levam a coisas como um numero de universos alternativos infinitos e infestáveis, a teoria das cordas prevê a existência de dimensões que talvez não possamos medir, (embora as cordas em si não possam ser medidas podemos medir efeitos da sua existência).

(1)http://arnaldo.networkcore.eti.br/1923-o-dragao-de-minha-garagem-e-o-conhecimento-de-contato.html/comment-page-1#comment-368

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Se prever o futuro não é possivel, como é que isso ficou provado estatisticamente?


...E porque é que afirmações  extraordinarias  requerem evidencias extraordinárias.

Entre alguma controvérsia, foi aprovado para publicação numa revista com peer-review, um artigo em que apresenta 9 estudos em que 8 corroboram a existência de pré-cognição.

Os editores decidiram aceitar o artigo para publicação mas publicaram antes um artigo a explicar porquê. E a explicar porque é que o artigo não serve como evidência a suportar a capacidade de pré-cognição. Mas que serve para iniciar o debate acerca dos “standards” estatísticos usados em psicologia -  e que terá sido essa a razão pela qual aceitaram o artigo. Isso, e porque os erros que eles apontam no artigo acontecem com alguma frequência.

O resultado é um trabalho excelente sobre como se deveriam fazer os estudos cientificos em psicologia e que é aplicavel a muitas outras coisas.

Eles começam por criticar o artigo de Bem, assim se chama o autor, focando-se em 3 pontos:


1 - Estudos exploratórios versus estudos confirmatórios. 
Isto é relativo à questão do desenho dos testes. Por exemplo, neste caso, Bem, testou a capacidade de pré-cognição com recurso a vários tipos de fotografia. Só quando as fotografias foram eróticas é que o resultado foi estatisticamente válido - 53% de positivos contra 50% se fosse devido ao acaso. Em relação a outro tipo de fotografias não surgiu esse padrão. E a estatística foi feita sem os resultados dos outros tipos de fotografia. Isto sugere que o estudo deveria ser considerado um estudo exploratório e não confirmatório.
E isso é importante porque uma coisa é desenhar um teste para uma determinada hipótese, outra é ter um conjunto de resultados e andar a fazer combinações até que surja um padrão algures. O vulgar andar à pesca... Se tentarmos muito é provável que em alguma combinação surja um padrão qualquer. E isso não é totalmente indesejável. Não pode é servir de confirmação, porque esse padrão não surge espontaneamente e é meio fabricado. É preciso depois desenhar um estudo confirmatório especifico para ver se esse padrão volta a aparecer em dados completamente novos. É o mesmo problema do artigo que critiquei ontem (1) sobre a capacidade da Auto-hemoterapia estimular o sistema imunitário em que os autores foram usar o aspecto da ferida em vez do tempo de cicatrização para chegar à conclusão que chegaram. Se não fosse o aspecto podiam ainda ir tentar ver se encontravam mais alguma diferença entre os dois grupos testados para chegar à mesma conclusão e eventualmente lá encontrariam uma. Os testes tem de concluir só sobre os parâmetros que foram decididos à priori. Senão é um estudo exploratório e nada confirmatório.



2 - Falácia da inversão da condicionalidade.
Isto é, se P implica Q não quer dizer que Q implique P. Por exemplo, se estiver a chover deve haver nuvens no céu. Mas se houver nuvens no céu não quer dizer que esteja a chover.



Se nós sabemos que não existe pré-cognição por uma data de outras razões, desde a existência de casinos lucrativos a uma série de evidências físicas que mostram que o futuro não influencia o passado (ver seta do tempo e entropia nas etiquetas) porque é que em vez de aceitar o teste como refutando todos os estudos anteriores não vamos antes exigir provas muito mais fortes? Esta é a lógica por detrás do principio de Laplace de que “Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias”



3 – O valor p substima a hipotese nula.
Aqui a discução torna-se matemática e é complexa, mas resume-se a defender que a estatística vulgarmente usada em psicologia, (que acrescento já é a mesma usada em medicina), leva a falsos positivos. Sendo assim valor p<0,01, (usualmente aceite como servindo para um estudo conclusivo para a hipótese testada), não é suficiente. E uma abordagem Bayesiana tem de ser sempre efectuada. Neste caso, a abordagem Bayesiana resulta em favor da hipótese nula (isto é, não há pré-cognição). Vários argumentos são avançados a favor da abordagem Bayesiana. Recomendam mesmo que os estudos de psicologia de hoje em diante apresentem diversas abordagens estatísticas e refiram explicitamente onde haja contradições. A minha opinião é que o standard p menor que 0,01 vai cair. Pelo menos para 0,005 já nos próximos anos. Sendo que p=0,01 quer dizer que probabilidade do resultado que obtivemos no teste é de 1% se a hipótese nula for verdadeira. Só que 1% das vezes, ainda é uma data de vezes para que algo possa acontecer por acaso, mesmo que  os dados não tenham sido escolhidos a dedo. São muitos falsos positivos embora não possamos saber por aqui a probabilidade deles acontecerem.
Isto tem muito mais significado para coisas implausiveis do que para questões bem comprovadas em várias linhas de pesquisa. Lá está, afirmaçoes extraordinarias requerem provas extraordinarias, não provas que possam acontecer por acaso com uma probabilidade tão elevada. (Atenção: notar que 1 em cada 100 de probabilidades para que tenhamos este resultado se a hipotese nula for verdadeira não significa que em cada 100 testes haja 100% de probabilidades de ter a hipotese nula como resultado). O valor p tem sempre de ser considerado num contesto de uma probabilidade à priori.

Depois, o artigo continua com uma interessante lista de pontos que os autores consideram que têm de ser seguidos em vista destas críticas.

Um dos pontos, muito interessante, é que o objectivo e o método do estudo, incluindo o tipo de análise estatística, deve ser publicado antes do teste ser efectuado no caso de estudos que pretendam ser confirmatório. Isto de facto evitaria a possibilidade de depois se alterarem as regras e dizer: “Afinal só vamos usar os dados referentes às fotos eróticas”.

Outro ponto curioso das suas recomendações é que os participantes em estudos de temas duvidosos ou que procurem provas contra teorias bem estabelecidas, devam estar em “colaboração adversária” constante com um céptico qualificado – se bem que eu ache que esta parte do “qualificado” vá dar problemas – para desenhar e efectuar o estudo com mais credibilidade.

Como disse antes, este artigo foi escrito no âmbito da psicologia, mas penso que é um artigo que devia ter um impacto enorme desde já tanto na psicologia como em muitas outras áreas.

Via Steven Novella :

Artigo original que é aqui apresentado: “Why Psychologists Must Change the Way They Analyze Their Data: The Case of Psi”, link no artigo do Steven Novella


sábado, 17 de julho de 2010

Cientísmo - uma apologia

Pessoas como eu são acusadas frequentemente de cientismo. 

Se considerarmos cientismo a propriedade de alguém considerar a ciência a maior obra da humanidade no que respeita a compreender o universo (incluindo-nos  a nós próprios), eu não vejo razões para negar esse titulo. O problema é que serve para mais coisas.  Mas adiante.

Enquanto que a ciencia é materialista ("é milagre!" não é uma explicação)  e é a melhor forma para adquirir conhecimento e a unica que consegue produzir previsões sobre o comportamento da realidade, existe um numero de coisas que a ciencia ainda não consegue explicar. 

E que provavelmente nunca vai conseguir explicar. De facto isso até esta provado matematicamente graças ao Kurt G.

Mas nenhuma outra forma de conhecimento se aproxima sequer da ciencia. O tipo de afirmações justificadas, consistentes num sistema abrangente, capaz de fazer previsões e de abrir novos campos de estudo que formam a ciencia, são inigualaveis no seu poder explicativo em todo o conhecimento humano.

As duvidas da ciencia são acima de certezas de outras formas de conhecimento, sobretudo as advinhatorias como as medicinas alternativas e a teologia. Porque estas nem sequer conseguem justificar para alem da crença as suas afirmações sobre a realidade.

E se há uma forma de conhecimento que tenta não se fechar em si propria e manter-se aberta é a ciencia. Não so pelo gancho que mantem na realidade, mas pela incormporação da matematica, da filosofia e da tecnica que transformou em tecnologia. 

Nenhum outro sistema de conhecimento é tão aberto e simulataneamente consistente (a filosofia é aparentemente mais aberto, mas com perda de consistencia e realmente fechado a qualquer criterio de consistencia - eles dizem que o importante são as perguntas...)

A ciencia é tão boa comparado com o resto que pode parecer quase perfeita e no entanto é apenas o melhor que temos. E quando a ciencia inclui explicações que dispensam vontade propria para o universo é um disparate postular essa vontade propria para o universo e dar-lhe um nome. 

Temos de tomar decisões no dia a dia quase sempre sem fundamento cientifico. Nos tribunais são elaboradas sentenças com base em testemunhos oculares. A moral envolve escolhas que podem ser corretas num país e tabus noutra cultura. Nada disto quer dizer que estas tomadas de decisão não têm por principio, o mesmo rigor que a ciência. Apenas que a ciência esta dependente de informação muitas vezes impossível de colher, de processos que ainda não conhecemos e que talvez haja coisas que são escolhas puras - ou seja, que são neutras do ponto de vista da ciência. 


Afinal o sacrificio humano praticado anos a fio por outras culturas, pode hoje ser considerado com pouca margem de erro uma asneira. Por outro lado se eu comer gelado de chocolate ou de morango, e a escolha em questão for apenas essa, isso não parece ser um problema de moral. Com bastante certeza. Ja que não deve ter efeitos perceptiveis no bem estar de ninguém.

Mas nós não escolhemos tudo acerca da realidade. Se eu não posso prever com rigor que cor a Maria vai querer pintar a casa, ainda posso ter uma ideia muito boa se a conhecer e conhecer que cor as pessoas que partilham escolhas com a Maria pintam as casas. Mas essa escolha da Maria, pode muito bem ser mais escolha, seja isso o que for, que algo que seja causa e por sua vez cause efeitos neste mundo. Porque se o fizer de forma inequivoca, se causar efeitos mediveis em si e nos outros, ainda que probabilistica, pode muito bem até tornar-se objecto cientifico. E... Se calhar até já é...

O que não faz sentido, é considerar que se a ciencia não pode determinar como devem ser coisas em afirmações abertas das quais não conhecemos todas as ponderaveis ou processos, que o modo como nos tomamos essas decisões (vulgarmente apelando para uma referencia cultural qualquer que cada grupo diz que a sua é que é a absoluta), então considerar que a ciencia é a melhor forma de conhecimento que há é mau. 

Porque apesar de ser possível sempre tomar uma decisão, não quer dizer que essa decisão esteja correcta. E se não é possível aplicar o rigor cientifico a algo é porque há coisas que não se sabem  ou podem nunca vir a saber-se.  E o que não se sabe, não se sabe, não é para fingir que se sabe. Ou então resta provar que existe outro modo de as saber realmente. E tal nunca foi feito. As unicas respostas que temos foi a ciencia que trouxe. O resto são palpites. 

Para mal dos cientófobos, se alguma resposta vier, de outra area qualquer, que se mostre justificável, com poder preditivo, consistente num sistema, etc... A ciÊncia vai assimila-la. Como fez no passado. E vai evoluir e continuar a estar na crista da onda. Porque é apenas esse o seu objectivo. É ter respostas. Mas não palpites. Respostas justificáveis. Para alguns, apenas as respostas com rigor cientifico são respostas. As outras são opiniões. 

O objectivo da ciencia não é provar que não existem deuses ou fadas ou que a homeopatia não funciona. Não ha uma lista de coisas que não podem acontecer ou existir. Ou de efeitos que temos de fingir que não se vêm. É tentar saber como as coisas são. E como vão ser. O problema é que o conhecimento cientifico diz precisamente que acreditar nestas coisas requer afirmações sobre a realidade que são implausiveis ou cientificamente refutadas.

Por natureza o homem (e a mulher) atribuiem intencionalidade aos fenómenos até os compreenderem. Sabemos isto pela história humana. E sabemos pela ciência que só encontramos na natureza biológica agentes com intencionalidade. E mesmo assim muito poucos.

Há quem queira postular ad-hoc efeitos destes seres com intencionalidade. Ou até de os postular mesmo dizendo que eles não causam efeitos!

Naturalmente que têm de acusar pessoas como eu de qualquer coisa. Cientismo? Desde que não pensem que isso quer dizer que acho que a ciência é um deus ou algo que já atingiu o ponto final do seu desenvolvimento. A ciência é como a democracia. É cheia de problemas, mas não há melhor. Como sabemos isso? É um facto histórico. Mas antes de mais, um facto. Que é a unidade básica do processo cientifico.

Por fim, dizem que a ciencia não pode justificar a ciencia. Que é auto-refutante. Mas o erro esta em que a ciencia tenta ter uma acora na realidade. E é isso que lhe permite ser tão aberta em tudo o resto. Enquanto a teologia se fundamente na teologia, e a filosofia na filosofia, a ciencia tenta ser a parte da filosofia que se comprova adequar-se à realidade. Mantendo assim uma entrada de informação vinda do exterior e evitar ao máximo a auto-referencia. Claro que vai ser sempre conhecimento humano e disso não passara. Mas nada mais se adequa tanto à realidade.

Se se adequar, é ciencia. 


Nota: Uso o termo afirmação aberta para afirmações que não concretizam um objectivo proposto, por exemplo: "É melhor ser-se magro" ou " comer açucar é bom". Fica a questão. É bom para quê? Porquê? Isso fica em aberto. Não é uma questão cientifica. Se por outro lado for "comer açucar é bom para emagrecer". Bem isso já é uma afirmação testável e cientifica. A questão é que o primeiro exemplo parece ser algo que é um problema por algo mais que ser cientifico ou não. Parece que enquanto bom não tiver um fim definido em si próprio, o que tornaria a afirmação fechada, não há muito que se possa dizer acerca dela. Em ciencia ou não.