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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Islão será a religião com maior crescimento até 2050, no mundo e na Europa.

Segundo um estudo do Pew Research Center a religião que mais vai crescer no mundo até 2050 é o Islão. Por essa altura, globalmente, deverá haver um numero quase igual de cristãos e muçulmanos.

Isto será verdade inclusivé na Europa, onde o cristianismo continuará a ser a religião predominante mas em declinio. Enquanto que a religião muçulmana praticamente será o dobro da actual a religião cristã terá um crescimento negativo de cerca de 17%.

Em todo o mundo um dos fatores mais importantes do crecimento do Islão são os níveis de fertilidade com uma média de 3,1 filhos por casal. Na Europa, esse é também um dos factores principais do seu crescimento, com 2,1 filhos por casal contra 1,6 na religião cristã. De notar que o valor de reposição para manutenção de uma população é de 2,1 filhos por casal. A baixa fertilidade é de resto a causa para a totalidade da população europeia ter uma previsão de crescimento negativa.

Em relação aos que não se identificam com qulquer religião, que podem ser ou não ateus, o estudo prevê que a sua participação na composição das sociedades da Europa e da América do Norte aumente, até 23 e 26% respectivamente, apesar de uma taxa de fertilidade baixa. O seu crescimento acima da média deverá ser explicado devido ao "switching" ou a mudança de crença ou abandono da crença. Enquanto que a religião muçulmana terá uma taxa de fertilidade confortávelmente acima da média, a religião cristã terá apenas o suficiente para manter os seus numeros, com os não religiosos a alcançarem apenas 2,1%. Mas o switching na Europa deverá ocorrer sobretudo a partir da religião Cristão. Nos paises de maioria muçulama o switching não deverá ter impacto.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

A maioria dos estudos mostra haver uma correlação entre longevidade e religiosidade.

Ao contrário da correlação negativa entre inteligência e religiosidade, que atraiu a ira sobre quem a confirmou, a correlação entre longevidade e religiosidade não parece ter alguma vez causado grande incomodo nos meios de comunicação sociais. Ou em redes sociais. 

Aparentemente há um "bias" tremendo acerca do que pode ser um resultado cientifico face à imagem que dá à religião, e isso é mau sinal. Mas adiante.

Tal como o outro, estes estudos importam. Todos queremos viver bem e mais tempo (acho eu) e o melhor é tentar perceber o que há aqui. Os estudos são vários e sólidos na maioria dos casos. Não há grande razão para suspeitas, e censurar factos é um disparate.

A questão é se a religiosidade é ou não causa de maior longevidade. 

E a resposta parece ser sim. Mas só em determinados contextos. 

Na realidade, a maior parte dos estudos que chegam a esta conclusão são feitos nos E.U.A. Isso é normal, já que uma grande fatia da ciência é lá produzida, mas neste caso pode ser uma boa razão para que o resultado não possa ser generalizado para outras sociedades, mesmo ocidentais. 

Porque os E.U.A. são uma excepção no que toca à religiosidade e aceitação popular da ciência entre os países ocidentais de desenvolvimento sócio-económico semelhante. A maioria das pessoas são religiosas (excepto entre os cientistas de topo que são notoriamente ateus), os ateus são muito mal vistos na sociedade em geral  e o criacionismo (uma crença notoriamente anti-cientifica e ligada à religião)  é aceite por 40% da população. Isto são razões que levam a suspeitar que provavelmente haverá uma serie de factores que levam a vidas melhores e mais longas nos E.U.A. para quem for religioso mas que não se verificam obrigatoriamente  noutros países.

De facto, parece que o que leva a religiosidade a proporcionar vidas mais longas, não é nenhuma espécie de intervenção divina, mas sim a actividade social associada. E não há evidência de que a actividade social promovida pela religião seja especial para isso. A actividade social é importante para a longevidade só por si. Existem outras razões apontadas mas esta parece-me importante e capaz de clarificar as coisas. 

Porque pode ter outras formas, sobretudo em países menos religiosos. 

E podemos suspeitar pelos índices de longevidade e bem estar em países pouco religiosos como os do norte da Europa que isso deve acontecer. De facto, como esperado, estudos que envolvem esses países não mostram esta correlação como nos E.U.A. 

Adicionalmente e já que não é um efeito directo e intrínseco da religião, fora dos E.U.A., se os estudos feitos eliminarem factores sócio económicos (normalmente procuram-se isolar as variáveis em estudo), podem bem estar a tirar aos ateus e agnósticos todos os factores que lhes dão a eles maior longevidade (e os podem levar inclusivamente a ser menos religiosos) - estamos a propor que haja outro modo de ter um paralelo dos benefícios trazidos pela religião ou ir além deles.

Esta questão é provavelmente completamente diferente em países onde a longevidade e o bem estar são em média altos, e onde as pessoas não precisem tanto da religião por pressão ou desamparo social. Ou por terem um estado social e sistema de saúde mais eficaz.

Bibliografia e notas:





"The studies on organic religion overwhelmingly indicate that greater involvement in religious practices is associated with reduced hypertension, longevity, reduced depression, lower levels of alcohol and drug consumption, less engagement in risky sexual behavior, reduced risk of suicide, reduced delinquency, and reduced criminal activity. In the next section, 669 studies are reviewed concerning the relationship between religion and well-being. Taken together, the findings indicate that higher levels of religious involvement provide protective factors that generally reduce deleterious social outcomes. Greater involvement in religious practices conveys the sense of well-being, purpose, meaning, and educational attainment.":
https://www.ncjrs.gov/App/abstractdb/AbstractDBDetails.aspx?id=202135 



Mecanismos do efeito do casamento semelhante ao da religiosidade:http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1728-4457.2003.00255.x/abstract

É explicado por um efeito da personalidade, hábitos, etc.:

http://psycnet.apa.org/journals/psp/97/5/866/

Prevê a longevidade de idosos pobres:
http://aje.oxfordjournals.org/content/119/3/410.short

Redes sociais são importantes para ambos mas a participação em organisações formais (como a religião) só tem valor preditivo para os americanos, comparando com os Suecos para quem o contacto com crianças era o factor relevante.
http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0167494398001356

Os efeitos são apenas resultado da participação em actividades sociais, sem que a religião seja uma actividade social melhor para o efeito:
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jssr.12006/full

Aumento da longevidade diminui a participação religiosa:
http://www.emeraldinsight.com/journals.htm?articleid=1917339

Correlação de governos seculares e saúde, ou seja, países mais religiosos têm sociedades com mais problemas de saúde. A grande excepção são os EUA:
http://moses.creighton.edu/jrs/2005/2005-11.pdf

Correlação entre longevidade, bem estar e ateísmo, por países: http://epiphenom.fieldofscience.com/2009/11/live-long-and-be-atheist.html

Correlação entre felicidade e religiosidade apenas nos estados unidos. Na Hollanda e na Dinamarca não era significativa:
http://cms.springerprofessional.de/journals/JOU=10902/VOL=2008.9/ISU=2/ART=9045/BodyRef/PDF/10902_2007_Article_9045.pdf


quinta-feira, 18 de abril de 2013

O problema do mal



Claro que depois vem gente como o William Lane Craig que diz que deus pode ter uma razão suficiente para não acabar com o mal. Como deus pode ter tudo, parece ao William Lane Craig que isto é uma boa desculpa para Deus não fazer melhor.

Ou seja, Deus pode ter uma boa desculpa para ser pior que os humanos (a maior parte de nós esforça-se por evitar atrocidades e essas coisas)

No entanto, com desculpas ou não, isso apenas confirma que Deus pode não fazer melhor - precisa de umas desculpazitas para uns genocidios aqui e ali. Ou que não é lá muito bonzinho. Ou que é tudo imaginação. Por isso, escolham o que vos parece melhor acerca de um conceito referente a um Deus que obviamente não faz melhor. É que só sobra dizer que isto é o melhor mundo possível. Mas isso nem o William Lane Craig parece querer dizer.

Em suma, Harris tem razão em face das evidências e dos cenários racionalmente plausíveis. Não se pode ser muito mais cientifico que isto.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Confiança nos ateus.

De um modo geral os crentes desconfiam dos ateus.

Uma das hipóteses que explica tal desconfiança é a convicção que os ateus agem como se não houvesse ninguém a supervisionar os seus atos.

De acordo com esta hipótese verificou-se que a desconfiança em relação aos ateus diminuía após serem expostos a um documentário sobre a eficácia da policia. Naturalmente, a desconfiança face a Gays ou Islâmicos não diminuía. Afinal o medo destes virá por outras razões.

Via Epiphenom.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pensamento analítico compete com crença religiosa.

Quando se obriga as pessoas a serem mais analíticas, sugere um novo estudo, a crença religiosa sofre. Não talvez no longo prazo, mas no momento em que esse esforço está a ser dirigido.

Isto vem em linha paralela com outra coisa que já sabíamos, de que se pode ser cientista e ter fé. O que não se pode fazer é as duas coisas ao mesmo tempo. Elas não jogam uma com a outra. São pensamentos diferentes, guiados por princípios diferentes.

Esta semana ouve um outro estudo que sugere que o pensamento analítico é aumentado ao pensar em outra lingua que não a materna.

Gostava agora de saber se pensar numa língua que não a materna pelo processo de aumentar o raciocínio analítico reduz a propensão para acreditar pela fé. A coisa devia funcionar.

Via Publico, aqui


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Stephen Hawking's and Leonard Mlodinow "The Grand Design" book review.

Que não haja duvidas. Este livro é sobre o ateísmo. Vem reforçar o que muitos já  andam a dizer há muito tempo que é:

Deus não tem lugar no universo.


Em poucas páginas e começando com a história do pensamento cientifico, Hawking  e Mlodinow argumentam que a aparente organização do universo é a esperada para qualquer observador inteligente com vida baseada em carbono. Não ser de esperar outra coisa, é também o argumento teísta, que vê nisso sinais de intencionalidade na criação. A diferença é subtil mas com consequencias drásticas.

Para além de desmistificar a aparente organização do universo, apresentando argumentos como eu já fiz (1) de que ver intencionalidade na organização é uma tendência humana, os autores explicam como é que sabemos que interpretar essa organização é um erro que contraria a própria ciência que permitiu chegar aos valores que sugerem afinação. Afinação das constantes e das leis naturais para que possa haver vida. Aquilo que é conhecido como argumento do "fine tuning".

Em poucas palavras, ainda menos do que no livro, vou tentar explicar:

Sabemos que algures na história do universo, este teve um tamanho em que a mecânica quântica é que o regia, já que era mais pequeno que um átomo. Sabemos também que nessas condições, não precisamos de um criador (2). Na realidade é de esperar que a auto-criação esteja sempre a acontecer a nível quântico. Mas se se aplica a mecânica quântica, e as previsões feitas por esta teoria estão surpreendente bem confirmadas, então temos de explicar o funcionamento actual do universo de acordo com o que diz a mecânica quântica. A maneira matemática de explorar isso é através da reformulação de Feynman. É o que se chama "soma das histórias". Isto é, para cada entidade quântica, temos de contar como reais todas as histórias possíveis para essa entidade, e em que essas histórias possiveis interferem umas com as outras produzindo um resultado final que é a soma dessas histórias. Ou seja, os vários acontecimentos provaveis interferem uns com os outros porque têm de ser tomados como sendo todos reais, como se para uma entidade tudo o que pode acontecer com ela acontecesse ao mesmo tempo.  Por outro lado quando se faz uma observação, em qualquer momento do percurso de uma entidade quantica, estamos logo a eliminar uma data de históras possiveis que passam a não ter acontecido. O tempo comporta-se como se fosse espaço e a direcção da causalidade dá para os dois lados. O presente afecta o passado. E isto está demosntrado em mecanica quântica. E o universo neste caso é uma entidade quântica.

Por isso a teoria prevê que uma data de universos com leis diferentes tenham de ser assumidos como reais enquanto ele estiver em dimensões quanticas. E tal como a teoria prevê, se estamos cá como observadores desse universo, é natural que só vão contar para a soma das histórias do nosso universo aquelas em que é permitido que nós apareçamos. Isto é a prova cientifica do princípio antrópico fraco (1). O universo em que estamos é como é porque se não fosse não era o nosso universo. Era outro qualquer. Que é igualmente possível e real. Mas não é este em que o leitor lê estas palavras. Pelo simples facto de cá estarmos para fazer essa observação. Para quem isto estiver a fazer confusão deixem-me então explicar outra vez (3) que em mecânica quântica o presente altera o passado. Literalmente. Quando se faz uma observação, tudo o que aconteceu até esse momento é limitado por essa observação. Todas as histórias possiveis são reais mas são eliminadas aquelas que não contribuiem para o resultado obtido com a observação. De tal modo que é como se essas historias possiveis nunca tivessem acontecido. No entanto à partida sabemos que são possiveis. Algures deve haver outros universos a "pular" com histórias diferentes.

Ajudou? Se não ajudou proponho ler não só este livro como "O universo elegante" de Brian Green.

Outra parte importante do livro é a explicação de porque é que podemos usar a mecânica quântica e a relatividade ao mesmo tempo para chegar a esta conclusão mista - a parte de um universo que se contrai conforme andamos para o passado vem da teoria da relatividade. E esta parte da soma das histórias é da mecanica quantica. E sabemos que se as tentarmos conjugar uma com a outra o resultado é infinito. Não dá. Então como fazemos isso?

É porque existe uma Teoria-M que é na realidade um aglomerado de teorias, que unifica consistentemente os resultados destas teorias. Esta unificação é resultado da abordagem matemática conhecida como teorias das cordas, onde das cordas já passamos para membranas e outras coisas mais complicadas. A Teoria-M deixa que usemos modelos diferentes para problemas diferentes porque os modelos sobrepõem-se e nessa zona de sobreposição são completamente concordantes. O que não acontece com a mecânica quântica e a relatividade que sem esta integração o resultado da sua combinação e infinito. A Teoria-M ainda não está cientificamente provada, apesar de ter já o nome de teoria. Porque o grau de certeza que temos nela é tão elevado como em outras teorias. Para aqueles que considerem que a filosofia tem o mesmo grau de certeza que a ciência nas afirmações, então devem ficar satisfeitos com ela porque a lógica e a matemática que a suportam são de alto nível. Para outros como eu, que precisamos de ver as confirmações cientificas ou saber das demonstrações matemáticas completas, falta ainda só um bocadinho. Mas é claro para mim, mesma que ache que ainda falta um pequeno passo para poder escrever o meu post intitulado "O fine tuning refutado", que esta explicação está a anos-luz da qualidade de qualquer outra. É a melhor explicação que há para tudo o que conhecemos. Disso não tenho duvidas.

Para o Stephen Hawking não falta nada. ( E eu fico um bocado atrapalhado por ser ainda mais céptico que o Stephen Hawking, mas é assim a vida). Para ele, esta é a teoria de tudo. E afirma-o categoricamente. Explicitamente, para que não restem duvidas. E também diz explicitamente que a ciência diz que Deus não existe. Continuar a insistir no oposto no contexto actual do conhecimento humano só se deve à vontade dos crentes. Só se deve a uma crença apaixonada em algo que não tem justificação racional  e é até contra o conhecimento cientifico. Só se deve a Fé. Mas Fés há muitas (não faltam aí e o livro aponta umas quantas), o que é dificil mesmo é descrever a realidade sem deixar que a nossa vontade atrapalhe a visão (4).

Mas se bem que a observação que fazemos no universo condicione as leis com que ele teve de evoluir desde o Big Bang, a Fé só por si não faz aparecer as coisas que nós queremos como diz aquele livro idiota chamado "O desejo".

Que recomendação dar deste livro? Para quem quiser saber em vez de palpitar ou escolher postulados é de leitura obrigatória. Para quem já sabe tudo o que lá está escrito, é também uma história excelente. Uma que já sabemos o fim, mas que não deixa de ser uma das histórias mais fantásticas que há. A do nosso próprio conhecimento. Para mim o livro foi o que os anglófonos chamam "a page turner". Só parei de ler quando acabou, mesmo se as pestanas já pesavam.



Notas e referencias:



(1) O argumento do "fine-tuning desmistificado":
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/o-argumento-do-fine-tuning.html

(2) De uma flutuação quântica nasceu o universo:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/criacao-partir-do-nada-e-radiacao-de.html

(3)Sobre a mecânica quantica:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html

(4) O mais cego é aquele que não quer ver: (ainda não escrevi neste universo).

Nota: Eu ainda considero que a teoria da evolução ao mostrar como coisas mais complexas podem emergir de outras mais simples desde que haja energia suficiente, tal como comprovado por Prigogine, justifica satisfatóriamente qualquer organisação em qualquer aspecto do universo.

Nota 2: Os autores consideram, tal com eu tenho vindo a argumentar neste blogue, que mesmo na ausencia deste conhecimento actual, que recorrer a um deus para explicar a criação não leva a lado nenhum. É só substituir um mistério por outro. Se temos de aceitar que algures há algo que  não precisa de criação é uma explicação muito mais simples dizer que o universo se auto-formou.

Nota 3: Provavelmente vai haver uma data de gente que não vai perceber nada disto e vai continuar a acreditar em deus. É a vida. Mas a tese de que a ciência repudia a existencia de deus está mais que bem fundamentada. Este livro sucede-se a outros de uma série de autores que arriscaram o seu "conforto"  quer académico quer pessoal para denúnciar que o rei vai nú.

Nota 4:  Para nós não há deus. Nem grande. nem pequeno. É contra tudo o que se sabe. Mas se a possibilidade de se formarem universos é infinita e as hipóteses são infinitas então temos de assumir que pode haver um universo que é uma sucessão ainda maior de acontecimetos ainda mais extraordinários!  Extranhamente, e porque parece-me que não há nada que o impeça, na auto-criação pode emergir expontaneamente uma entidade "tipo-deus", poderosa até ao limite da lógica e autoconsciente. Uma que no seu universo poderia por e dispor. Sabemos no entanto que isso não aconteceu neste. A não ser que essa entidade faça tudo para que tudo se passe como se não existisse, e mais do que isto não pudesse ser imaginado sequer.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

E o problema é o ateísmo?

Stephen Hawking, o conhecido físico inglês disse que:

"Existe uma diferença fundamental entre a religião, que é baseada na autoridade, e a ciência que é baseada na observação e raciocínio - a ciência ganhará porque funciona" (1)

O presidente da Catholic League (2) , Bill Donohue respondeu que algumas religiões ignoram a ciência mas a religião católica não. Que até a privilegiava. (1) Deve estar a esquecer-se de 1000 anos de Idade Média, mas seja. A questão mais importante é outra. Nem a afirmação que faz acerca da importância pivotal que o homem tem no universo é o ponto mais crucial que vale a pena contestar veementemente.

É apresentar países como a China, a Alemanha (Nazi), o Cambodja e a antiga união soviética como prova de que "a ciência sem fé leva ao desastre"(1). Quanto muito poderia dizer que isto mostra que nações sem religião têm problemas, uma vez que isto não se refere a ciência mas a politicas. E depois, o problema nestes países não é a falta de religião. É a falta de liberdade e livre circulação de informação. É a prepotência dos seus regimes.

Existem várias linhas de evidência para justificar a minha critica:

1- A China tem (pelo menos) 30% de crentes religiosos (3), Hitler justificou o ataque aos judeus como um serviço a Cristo (4) e ele próprio se considerava Cristão. Existem religiões no Cambodja como seria de esperar. Sobra a União Soviética.
2- Dos países mais Ateístas do mundo, com menos de 35% de pessoas a responder que acreditam em Deus, estão a França, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, a Holanda, a Estónia e a República Checa. São todos  países do primeiro mundo.(5)
3- Imensos países com mais de 60% de crentes têm dificuldades económicas severas com pobreza e doenças difíceis de controlar. Na realidade parece que quanto mais crentes mais problemas têm. Até dentro de cada país as populações com mais criminalidade e miséria são as mais religiosas em regra. (6)
4- Inúmeras guerras ao longo da história foram cometidas em nome de um Deus. Mesmo hoje na China existem problemas violentos envolvendo Muçulmanos (propagar a fé com a espada?).(7), (8)
5- Existem inúmeros institutos científicos sem religião. E são os melhores em termos de resultados. "Funcionam" perfeitamente como diz o Stephen Hawking.
6- Os dois maiores dadores para caridade são os ateus Bill Gates e Warren Buffet.

Será que deixei o caso claro?

(4)Várias vezes o disse. A primeira registada é no Mein Kampf
(5)http://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_atheism. Sei que o Japão também está cheio de ateus mas não encontro um link para mostrar. Para quem duvida da Wikipédia ver os mesmos números no eurostat 2005
(6) Existem muitos estudos. Deixo um dos primeiros que encontrei de um fenómeno bastante conhecido: http://i.imgur.com/kpb5A.png

Encontrei isto através do Fossa Céptica do comentador Skynet

PS: não consegui encontrar números de religiosos no Cambodja. Mas no CIA factbook registam a existência de religiões. 

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Rezar é tão eficaz como a acupunctura. Talvez menos.

Como tratamento ou cura, rezar ou não rezar pela saúde dos outros, é igual ao litro.

Se os pacientes souberem que estão a rezar por eles, há uma ligeira melhoria do seu estado de espírito. Mas se não souberem, qualquer vantagem de ter alguém a rezar pela sua saúde é igual à de vantagem tantas outras medicinas alternativas que não se baseiam em "pressupostos naturalistas". Nada.

A esta conclusão chegou uma Cochrane review (1)  depois de analizar uma série de estudos em que crentes tentavam interferir no processo mórbido através da prece.

As Cochrane reviews são dos mais prestigiados meta-estudos que existem  e praticamente por si lançaram a medicina baseada na evidencia - que é o mesmo que dizer que as coisas têm de acontecer para dizermos se são verdade.  Um pouco fundamentalista, pois às vezes estes estudos ainda não estão feitos para coisas que têm bom fundamento cientifico e muito provavelmente funcionarão. Mas seja como for, é uma tendência boa na medicina em que substitui a autoridade de pessoas pela autoridade dos factos brutos.

Gastam-se recursos a fazer estudos mas depois podemos saber com o que se pode contar ou não.  Receitar uma série de coisas porque é tradicional ou porque a sumidade tal faz deixou de ser uma justificação capaz.

Na conclusão pode ler-se:
"Não estamos convencidos que mais estudos sobre esta intervenção devam ser realizados e preferiríamos ver quaisquer recursos disponíveis para este tipo de ensaios usados para investigar outros assuntos da área da saúde"

terça-feira, 20 de julho de 2010

Porque é que os cepticos não têm gurus e porque é que os crentes são crentes.

Bem, na realidade a resposta a esta pergunta ainda não está muito mais que esboçada. Mas o André Luís (1) deixou-me de presente este link na caixa de comentários:

http://scan.oxfordjournals.org/content/early/2010/03/12/scan.nsq023

Que leva a um abstract de um estudo que sugere que seguir figuras de culto e acreditar em milagres pode de facto ter a mesma origem. Em presença de figuras carismáticas, crentes cristãos mostraram uma tendência para desactivar redes neuronais no córtex frontal, em contraste com os cépticos, onde isto não acontece. Os crentes também aceitaram mais facilmente a capacidade destas pessoas carismáticas terem poderes curativos.

Afinal, quer-me parecer que quando os cépticos dizem que não seguem gurus, provavelmente estão apenas a dizer que não desligam a "máquina de duvidar" perante ninguém. E isto é neurologicamente suportado por esta pesquisa. E acrescento que na realidade nós seguimos muito mais raciocínios e ideias que pessoas, coisa que aparentemente não precisa de desactivar nenhuma area do cerebro.

(1) André Luís, http://www.blogger.com/profile/09702334332550490793 - comentário em "Porque é que os ateus e liberais são tendencialmente mais inteligentes"

sexta-feira, 12 de março de 2010

O argumento do "Fine Tuning" desmistificado

O "Fine Tuning" é um argumento de intencionalidade baseado na aparente organização e "afinação precisa" do universo. Chamo argumento de intencionalidade porque é a atribuição de intenção ao facto de o universo ser regido por leis e constantes que se não fossem exactamente estas, o universo era muito diferente.
Se as leis fossem apenas ligeiramente diferentes, e as constantes conhecidas apenas ligeiramente alteradas, uma qualquer, o universo teria uma aparência absolutamente diferente. Podia ser tudo só protões por exemplo. E no entanto é de tal forma que parece desenhado especificamente para a existência humana - é o chamado principio antrópico.
O facto de este universo ser como é e não de outra maneira, dizem os crentes, é a prova que ele foi criado com um intenção. O céptico responde que se o universo fosse de outra maneira, nenhum de nós estava aqui para fazer a pergunta, pelo que não deveria ser motivo de espanto o universo ser de modo que permita a existência de vida inteligente.
E eu naturalmente, estou de acordo com o céptico. Chama-se a isto o princípio antrópico fraco. E se assim não fosse teríamos de concluir que o universo foi desenhado não para existir o homem mas sim para existirem parasitas. De facto, um ténia poderia gabar-se que o intestino humano parece especialmente concebido para que ela exista e o universo concebido especialmente para que existam intestinos humanos. Isto se levar-mos a sério a questão da intencionalidade.
Por outro lado, a situação é um bocado análoga a perguntar porque é que pi tem o valor que tem. É porque não podia ter outro. Se não, não era uma esfera. O crente argumentará que existem outras constantes que parecem ter uma origem mais arbitrária e portanto poderiam ser de outra forma. Para além de eu não saber se podiam ou não ter outra forma, uma vez que tenho de dizer que em alguns casos não posso provar que podiam, apenas posso dizer que é tão legitimo dizer que podiam como não podiam.
Mas nem é este o meu argumento principal. O meu argumento principal é que essa intencionalidade tem origem na mesma tendência humana de atribuir intenção a outros fenómenos naturais, e que não há nada de racional acerca disso. E que sendo esta a explicação mais simples e plausível, não devemos partir para outra sem provas.
A atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais esta bem documentada. Para além do "fine tuning" que é dos últimos redutos, podemos ver como o vento, os trovões, a chuva, a vida, a sorte, a doença, etc, foram todos em dada altura explicados por vontades de deuses, duendes ou demónios. Conforme fomos compreendendo melhor estes fenómenos e os fomos capazes de explicar de uma forma mais precisa, fomos empurrando a intencionalidade para outras coisas que ainda não podíamos explicar.
Provavelmente a atribuição de intencionalidade à natureza foi muito útil. Durante milénios foi a melhor explicação possível, o que terá proporcionado alguma sensação de controle. Por outro lado, identificar intenção num fenómeno desconhecido, deverá ter salvo muitas vidas. Porque mais valia elevar o nível de alerta para um fenómeno natural, estar enganado mas sobreviver, do que considerar que determinado fenómeno era devido ao acaso e perecer nas garras de um predador com intenções homicidas (1). Ter medo do escuro, ver formas nas sombras ao luar, atribuir intenção a sons e barulhos, terá salvo muitas vidas e terá sido por esta razão seleccionado positivamente ao longo da evolução. E terá sido o inicio da crença no sobrenatural, que não é mais do que ver intenção onde ela não existe. Isso provavelmente nasce connosco (2).
Resta-me agora terminar, depois de ter adiantado uma explicação simples, verificável na história e ciência para o argumento da intenção ou do desenho inteligente concluir que fazê-lo não é sequer lógico.
Pois se consideramos o "Fine Tuning" como argumento directo para intencionalidade, ao postularmos um criador para que seja a origem dessa intencionalidade passamos a ter de explicar em deus essa mesma intencionalidade. Porque tudo em deus parece ser ainda mais perfeitamente organizado para que possa criar um universo.
Na realidade, o argumento do "Fine Tuning" é só uma variante do argumento de S. Agostinho que diz que o universo é tão organizado que só pode ter tido um criador mais organizado que ele próprio. E que da origem sempre a termos de ter criadores para o criador até ao infinito.
A questão está em que explicar complexidade de uma entidade postulando uma entidade acima só "empurra para cima" a solução do problema. Se o universo é tão complexo que "aparenta Fine Tuning", como é que postular algo ainda mais complexo e inexplicável resolve o problema da origem da complexidade e "Fine Tuning"? Se o universo é tão complexo e afinado que parece ter sido concebido inteligentemente para um fim, como é que postular uma entidade ainda mais complexa e afinada resolve o problema?
Afinal o que é mais provável que surja do acaso, a entidade mais complexa ou a menos complexa? É que se é a primeira, não implica que deus existe, porque a complexidade não é um problema para explicar por si, teríamos de provar primeiro que deus existe então para presumindo que deus é mais complexo, explicar a segunda. Se é a segunda voltamos a não precisar de deuses porque aceitamos que o mais provável é o universo ter aparecido primeiro.
E agora a explicação do titulo, para quem não tiver ficado convencido. Eu não disse que era a refutação do argumento do "fine tuning". Essa só o conhecimento profundo do universo trará, conforme for mostrando porque é que as constantes têm o valor que têm, se o universo só pode ser este ou não, etc.
Isto é mostrar que o argumento do "Fine Tuning" é fraco e que há outras abordagens não só muito plausíveis, como mais consistentes com o que se sabe e pode saber. É desmistificar. Tornar mais claro e não tornar mais confuso.
Se o universo podia ser de outra maneira que não albergasse vida, é óbvio que não teria ninguém a questionar-se sobre esse problema. Se não podia então o problema nem se põe.
E para aqueles que estão a pensar na sorte deste universo ter aparecido pensem na sorte que foi entre milhares de espermatozóides e de óvolos que existem no universo se terem juntado logo os que davam origem a si. Fantastico, não? Há, e parabéns. Mas não esqueça que o universo não foi criado para a ténia e pela mesma razão, nem para si. Podia ter sido outro espermatozóide, ou outra constante...


(1) ler mais aqui e na bibliografia deste post:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/porque-e-que-os-liberais-e-ateus-sao.html


(2) : Neste post refiro um estudo pertinente para o assunto onde se sugere que a capacidade de reconhecer vida seja inata e possa por vezes dar falsos positivos:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/09/reconhecer-vida-e-inato.html


Nota: Há de facto evidencia cientifica que mostra que estruturas organizadas não precisam de ter origem numa mais organizada ainda. A entropia pode, raramente, andar para trás:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/02/consumo-de-entropia.html

Update: desde que escrevi este post foram publicados estes dois livros com interesse para o tema:

1 - Do Stephen Hawking, "O grande Designio", minha "review" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/02/stephen-hawkings-and-leonard-mlodinow.html

2 - Do Victor Stenger, "A Falácia Do Fine-Tuning" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/07/fallacy-of-fine-tuning-por-victor.html

segunda-feira, 8 de março de 2010

Porque é que os liberais e ateus são tendencialmente mais inteligêntes?


A Hipotese QI-Savana, uma possivel teoria sobre a inteligência geral
"Porque os liberais e ateus são mais inteligentes" é o nome de um extenso artigo de Satoshi Kanazawa da London School of Economics and Political Science e publicado na revista da Associação Americana de Sociologia, a Social Psychology Quaterly.
O artigo é sobre o teste experimental de uma hipótese abrangente sobre a origem da inteligência, gostos e valores. Diz a hipótese que a inteligência geral é o produto evolutivo da exposição a novas situações. Novas, mas não do ponto de vista da experiencia particular pessoal mas sim relativa à experiencia evolutiva total como espécie.
Ou seja, será a capacidade adaptativa a condições tão novas que não poderá ser procurada a solução entre as coisas que como espécie já não são novidade.
Esta hipótese, denominada "Hipótese da Interacção QI-Savana" é uma implicação do Principio da Savana.
Que diz o seguinte: "O cérebro humano tem dificuldade em compreender e lidar com situações e entidades que não existiram no seu ambiente ancestral."
Então ele propõe o seguinte: "Se a inteligência geral evoluiu para lidar com problemas evolucionariamente novos, então a dificuldade do cérebro humano de lidar com entidades e situações que não existiram no seu ambiente ancestral [a savana] deve interactuar com a inteligência geral de modo que o principio da savana aparece mais forte entre indivíduos menos inteligentes que entre indivíduos mais inteligentes."
Ou seja: "Indivíduos mais inteligentes devem ser capazes de compreender e lidar com entidades e situações de novidade evolutiva (mas não evolutivamente familiar) do que os menos inteligentes."
O que já explica:
Como todas as boas hipóteses cientificas deve explicar o que já se sabe e o autor nomeia entre os factos conhecidos que suportam a sua hipótese quatro constatações estatísticas conhecidas:
1 - A tendência para responder a personagens de televisão fictícias como se fossem realmente amigos conhecidos está correlacionada mais fortemente com inteligências mais baixas. Que ver na televisão um mundo parecido com o real mas que não é real é novidade para a espécie humana não precisa justificações.
2- Pessoas menos inteligentes têm mais crianças que pessoas mais inteligentes, mesmo quando não o querem, explicado pela hipótese com a novidade que é a capacidade de planeamento familiar do ponto de vista evolutivo.
3 - Indivíduos mais inteligentes mantém-se mais saudáveis e vivem mais tempo. Provavelmente porque são capazes de reconhecer os novos perigos da sociedade moderna para a saúde e de lidar com eles. Consistente com esta hipótese é o facto de esta correlação não ser verdadeira em África onde a maioria das ameaças são evolutivamente familiares.
4 - Criminosos têm um QI abaixo da média, pois a intervenção de terceiros para impor justiça é algo relativamente novo para a humanidade. Antes a justiça era feita pelo próprio ou pelos aliados e familiares. Na melhor das hipóteses a interferência de terceiros seria uma punição informal como ostracismo, nada como os mecanismos complexos e mais eficazes dos dias de hoje como policia, detectives, tribunais, etc. Diz o autor que "muito do que chamamos crime interpessoal nos dias de hoje, como violação, assassinato, assalto e roubo foram provavelmente rotina no ambiente ancestral". (Pelo que sei nem é preciso ir até aos dias da Savana...)
As condições testáveis que suportam a hipótese. Capacidade de fazer previsões:
O autor estabeleceu então uma base e uma hipótese a partir da qual deve fazer previsões. Conclui neste aspecto que deve procurar mais variáveis que sejam novas do ponto de vista evolutivo e não pessoal para criar condições em que a teoria é posta à prova. Depois de uma investigação antropológica encontrou 3 parâmetros que serviam para o caso: O grau de liberalismo, ateísmo e monogamia. Porque são experiencias novas do ponto de vista da espécie humana, e é de prever que estejam fortemente correlacionadas com a inteligência. Se a hipótese QI-savana for verdadeira.
1 - Houve algum problema com a questão do liberalismo, pois este parece querer dizer várias coisas para várias pessoas e em vários contextos, mas o autor notou que as pessoas que se identificavam como mais liberais eram também aquelas que mais se preocupavam com o bem estar daqueles que estavam muito afastados da sua esfera de actividade, para lá dos laços de família amigos, aliados e conhecidos. O altruísmo geneticamente herdado é aquele que é relativo aos seres humanos mais próximos. A vida interactiva de grandes cidades numa comunidade global é algo de muito novo.
2 - O ateísmo. É aceite que a atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais terá levado a uma crença no sobrenatural. Muito resumidamente, o autor explica que mais vale acreditar que o barulho do vento nos vem comer que ignorar o dito barulho e acabar na boca de um predador porque afinal não era o vento. Ou seja, identificar positivamente intenção salvou mais vidas que considerar como devido ao acaso determinado fenómeno. O medo do escuro aposto que salvou milhares de vidas, digo eu.
3 - Monogamia. A monogamia como existe hoje também é algo de novo na espécie humana, apesar de haver espécies onde a monogamia existe evolutivamente falando há muito tempo. E é a ultima das caracteristicas testadas com sucesso para suportar a hipotese da interação QI-Savana. E curiosamente a única cujo resultado apareceu em varias revistas de divulgação geral. Os homens mais inteligentes, mas não as mulheres, tendem a ser mais monogamicos.
Conclusão:
Todas estas três características mostraram uma correlação forte com a inteligência, como era previsto na hipótese. A análise estatística foi feita em dois estudos de grandes amostras e durante vários anos. Apesar de ser também extremamente interessante, inclusive a discussão sobre o método de medir a inteligência, penso que a grande importância deste artigo não é a metodologia particular.
Ou sequer a constatação do facto de que os ateus e/ou liberais e/ou monogâmicos tendem a ser mais inteligentes.
O interesse do artigo é mesmo, como diz o titulo, propor uma explicação para o facto de os ateus, liberais e monogâmicos serem relativamente mais inteligentes que os crentes, conservadores e religiosos. E uma explicação que é abrangente e que abre terreno a mais investigação.
A minha modesta opinião é que se trata de um trabalho de extrema importância na sociologia e psicologia humana. E um profundamente cientifico. Prevejo um grande debate acerca destas questões - e um que interessaria a toda a sociedade - se formos seres humanos capazes de discutir isto abertos à novidade e longe de preconceitos. Com inteligência.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Competição sexual e religião

De acordo com um artigo publicado na New Scientist, a imagem de uma pessoa atraente do sexo oposto aumenta o sentimento religioso dos individuos.

O estudo foi efectuado entre estudantes cristãos e teve um grupo controle. A hipotese avançada é a de que a escolha de um sistema de normas monogâmico seria fortalecida pela ameaça de competição sexual.

Eu penso que para testar essa hipotese devia-se repetir o estudo com solteiros de religiões que não recomendam a monogamia. Penso que existe a hipotese de que o sentimento expressado fosse o mesmo, ou seja, mais elevado a quem foram mostradas as pessoas muito atraentes do que àquelas que foi mostrada uma amostra vulgar do sexo oposto. Talvez também tenha o factor "Ha! Deus afinal sempre existe" envolvido. Seja como for, era boa ciência que essa hipotese fosse testada.

No mesmo artigo fala da procura de Deus para aliviar o stress. Mas isso dificilmente é noticia.

referencia:

http://www.newscientist.com/article/dn18388-anxious-or-sexually-competitive-try-god.html

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Criar Deus à nossa imagem.

Um artigo (1) da New Scientist fala de um estudo de Nicholas Epley (2) que mostra como as pessoas que acreditam em Deus atribuiem à Sua opinião aquilo que elas próprias pensam. 

Foi pedido a crentes que dessem a sua opinião sobre diversos assuntos e que dissessem também que opinião pensavam que tinha diversas personalidades conhecidas e Deus, sobre esses assuntos. A correlação entre a opinião de cada individuo e Deus foi a mais forte. Tudo bem. Isto pode querer dizer que os crentes têm a opinião que pensam que Deus tem. Mas em seguida testou-se essa hipotese.

Foi então pedido aos crentes que elaborassem um discurso desenvolvendo uma opinião contrária à deles, de modo a suavizar a sua própria opinião. A opinião que atribuiam a Deus, muda em consonancia. Mas não aquela que atribuiam às outras personalidades!

É de facto frequente observar um religioso puxar a opinião ou vontade de Deus para uma discussão para provar o seu argumento. É tambem fácil ver como Deus parece não dar a mesma opinião a todos os crentes, ainda que cada um esteja convencido que aquilo que pensa é o que Deus pensa. Este estudo confirma isso.

Aquilo a que se poderia chamar de "falácia do religioso", que é passar da pressuposta existência de Deus para imediatamente concluir sobre a Sua vontade, (como se isso pudesse ser extraido lógicamente apenas do facto Dele existir), parece estar ainda mais ligado ao próprio crente que a um conceito independente de Deus. 

Eles dizem assim: "Intuir acerca das crenças de Deus em assuntos importantes pode não produzir um guia independente mas pode, em vez disso, servir para uma camara de eco das nossas próprias crenças".

De facto. Talvez isso ajude a explicar a quantidade de coisas diferentes que se atribui a Deus dentro da mesma religião e entre religiões. Pelos vistos, faz parte do processo.

A mesma peça da New Scientist cita ainda um outro artigo em que é demontrado que rezar utiliza as mesmas areas cerebrais que falar com um amigo (3) e refere que  tem vindo a ser sustentado por investigadores que todos estes achados são suportados pela teoria que a capacidade de imaginação tem um papel chave na religiosidade. 

(1)http://www.newscientist.com/article/dn18216-dear-god-please-confirm-what-i-already-believe.html

(2)http://faculty.chicagobooth.edu/nicholas.epley/

(3)http://www.newscientist.com/article/mg20227033.600-praying-to-god-is-like-talking-to-a-friend.html