Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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quinta-feira, 30 de abril de 2015
Islão será a religião com maior crescimento até 2050, no mundo e na Europa.
Isto será verdade inclusivé na Europa, onde o cristianismo continuará a ser a religião predominante mas em declinio. Enquanto que a religião muçulmana praticamente será o dobro da actual a religião cristã terá um crescimento negativo de cerca de 17%.
Em todo o mundo um dos fatores mais importantes do crecimento do Islão são os níveis de fertilidade com uma média de 3,1 filhos por casal. Na Europa, esse é também um dos factores principais do seu crescimento, com 2,1 filhos por casal contra 1,6 na religião cristã. De notar que o valor de reposição para manutenção de uma população é de 2,1 filhos por casal. A baixa fertilidade é de resto a causa para a totalidade da população europeia ter uma previsão de crescimento negativa.
Em relação aos que não se identificam com qulquer religião, que podem ser ou não ateus, o estudo prevê que a sua participação na composição das sociedades da Europa e da América do Norte aumente, até 23 e 26% respectivamente, apesar de uma taxa de fertilidade baixa. O seu crescimento acima da média deverá ser explicado devido ao "switching" ou a mudança de crença ou abandono da crença. Enquanto que a religião muçulmana terá uma taxa de fertilidade confortávelmente acima da média, a religião cristã terá apenas o suficiente para manter os seus numeros, com os não religiosos a alcançarem apenas 2,1%. Mas o switching na Europa deverá ocorrer sobretudo a partir da religião Cristão. Nos paises de maioria muçulama o switching não deverá ter impacto.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
A maioria dos estudos mostra haver uma correlação entre longevidade e religiosidade.
Aparentemente há um "bias" tremendo acerca do que pode ser um resultado cientifico face à imagem que dá à religião, e isso é mau sinal. Mas adiante.
Tal como o outro, estes estudos importam. Todos queremos viver bem e mais tempo (acho eu) e o melhor é tentar perceber o que há aqui. Os estudos são vários e sólidos na maioria dos casos. Não há grande razão para suspeitas, e censurar factos é um disparate.
A questão é se a religiosidade é ou não causa de maior longevidade.
E a resposta parece ser sim. Mas só em determinados contextos.
Na realidade, a maior parte dos estudos que chegam a esta conclusão são feitos nos E.U.A. Isso é normal, já que uma grande fatia da ciência é lá produzida, mas neste caso pode ser uma boa razão para que o resultado não possa ser generalizado para outras sociedades, mesmo ocidentais.
Porque os E.U.A. são uma excepção no que toca à religiosidade e aceitação popular da ciência entre os países ocidentais de desenvolvimento sócio-económico semelhante. A maioria das pessoas são religiosas (excepto entre os cientistas de topo que são notoriamente ateus), os ateus são muito mal vistos na sociedade em geral e o criacionismo (uma crença notoriamente anti-cientifica e ligada à religião) é aceite por 40% da população. Isto são razões que levam a suspeitar que provavelmente haverá uma serie de factores que levam a vidas melhores e mais longas nos E.U.A. para quem for religioso mas que não se verificam obrigatoriamente noutros países.
De facto, parece que o que leva a religiosidade a proporcionar vidas mais longas, não é nenhuma espécie de intervenção divina, mas sim a actividade social associada. E não há evidência de que a actividade social promovida pela religião seja especial para isso. A actividade social é importante para a longevidade só por si. Existem outras razões apontadas mas esta parece-me importante e capaz de clarificar as coisas.
Porque pode ter outras formas, sobretudo em países menos religiosos.
E podemos suspeitar pelos índices de longevidade e bem estar em países pouco religiosos como os do norte da Europa que isso deve acontecer. De facto, como esperado, estudos que envolvem esses países não mostram esta correlação como nos E.U.A.
Adicionalmente e já que não é um efeito directo e intrínseco da religião, fora dos E.U.A., se os estudos feitos eliminarem factores sócio económicos (normalmente procuram-se isolar as variáveis em estudo), podem bem estar a tirar aos ateus e agnósticos todos os factores que lhes dão a eles maior longevidade (e os podem levar inclusivamente a ser menos religiosos) - estamos a propor que haja outro modo de ter um paralelo dos benefícios trazidos pela religião ou ir além deles.
Esta questão é provavelmente completamente diferente em países onde a longevidade e o bem estar são em média altos, e onde as pessoas não precisem tanto da religião por pressão ou desamparo social. Ou por terem um estado social e sistema de saúde mais eficaz.
Bibliografia e notas:
É explicado por um efeito da personalidade, hábitos, etc.:
http://psycnet.apa.org/journals/psp/97/5/866/
Prevê a longevidade de idosos pobres:
http://aje.oxfordjournals.org/content/119/3/410.short
Redes sociais são importantes para ambos mas a participação em organisações formais (como a religião) só tem valor preditivo para os americanos, comparando com os Suecos para quem o contacto com crianças era o factor relevante.
http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0167494398001356
Os efeitos são apenas resultado da participação em actividades sociais, sem que a religião seja uma actividade social melhor para o efeito:
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jssr.12006/full
Aumento da longevidade diminui a participação religiosa:
http://www.emeraldinsight.com/journals.htm?articleid=1917339
Correlação de governos seculares e saúde, ou seja, países mais religiosos têm sociedades com mais problemas de saúde. A grande excepção são os EUA:
http://moses.creighton.edu/jrs/2005/2005-11.pdf
Correlação entre longevidade, bem estar e ateísmo, por países: http://epiphenom.fieldofscience.com/2009/11/live-long-and-be-atheist.html
Correlação entre felicidade e religiosidade apenas nos estados unidos. Na Hollanda e na Dinamarca não era significativa:
http://cms.springerprofessional.de/journals/JOU=10902/VOL=2008.9/ISU=2/ART=9045/BodyRef/PDF/10902_2007_Article_9045.pdf
quinta-feira, 18 de abril de 2013
O problema do mal
Claro que depois vem gente como o William Lane Craig que diz que deus pode ter uma razão suficiente para não acabar com o mal. Como deus pode ter tudo, parece ao William Lane Craig que isto é uma boa desculpa para Deus não fazer melhor.
Ou seja, Deus pode ter uma boa desculpa para ser pior que os humanos (a maior parte de nós esforça-se por evitar atrocidades e essas coisas)
No entanto, com desculpas ou não, isso apenas confirma que Deus pode não fazer melhor - precisa de umas desculpazitas para uns genocidios aqui e ali. Ou que não é lá muito bonzinho. Ou que é tudo imaginação. Por isso, escolham o que vos parece melhor acerca de um conceito referente a um Deus que obviamente não faz melhor. É que só sobra dizer que isto é o melhor mundo possível. Mas isso nem o William Lane Craig parece querer dizer.
Em suma, Harris tem razão em face das evidências e dos cenários racionalmente plausíveis. Não se pode ser muito mais cientifico que isto.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Confiança nos ateus.
Uma das hipóteses que explica tal desconfiança é a convicção que os ateus agem como se não houvesse ninguém a supervisionar os seus atos.
De acordo com esta hipótese verificou-se que a desconfiança em relação aos ateus diminuía após serem expostos a um documentário sobre a eficácia da policia. Naturalmente, a desconfiança face a Gays ou Islâmicos não diminuía. Afinal o medo destes virá por outras razões.
Via Epiphenom.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Pensamento analítico compete com crença religiosa.
Isto vem em linha paralela com outra coisa que já sabíamos, de que se pode ser cientista e ter fé. O que não se pode fazer é as duas coisas ao mesmo tempo. Elas não jogam uma com a outra. São pensamentos diferentes, guiados por princípios diferentes.
Esta semana ouve um outro estudo que sugere que o pensamento analítico é aumentado ao pensar em outra lingua que não a materna.
Gostava agora de saber se pensar numa língua que não a materna pelo processo de aumentar o raciocínio analítico reduz a propensão para acreditar pela fé. A coisa devia funcionar.
Via Publico, aqui
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Stephen Hawking's and Leonard Mlodinow "The Grand Design" book review.
Deus não tem lugar no universo.
Em poucas páginas e começando com a história do pensamento cientifico, Hawking e Mlodinow argumentam que a aparente organização do universo é a esperada para qualquer observador inteligente com vida baseada em carbono. Não ser de esperar outra coisa, é também o argumento teísta, que vê nisso sinais de intencionalidade na criação. A diferença é subtil mas com consequencias drásticas.
Para além de desmistificar a aparente organização do universo, apresentando argumentos como eu já fiz (1) de que ver intencionalidade na organização é uma tendência humana, os autores explicam como é que sabemos que interpretar essa organização é um erro que contraria a própria ciência que permitiu chegar aos valores que sugerem afinação. Afinação das constantes e das leis naturais para que possa haver vida. Aquilo que é conhecido como argumento do "fine tuning".
Em poucas palavras, ainda menos do que no livro, vou tentar explicar:
Sabemos que algures na história do universo, este teve um tamanho em que a mecânica quântica é que o regia, já que era mais pequeno que um átomo. Sabemos também que nessas condições, não precisamos de um criador (2). Na realidade é de esperar que a auto-criação esteja sempre a acontecer a nível quântico. Mas se se aplica a mecânica quântica, e as previsões feitas por esta teoria estão surpreendente bem confirmadas, então temos de explicar o funcionamento actual do universo de acordo com o que diz a mecânica quântica. A maneira matemática de explorar isso é através da reformulação de Feynman. É o que se chama "soma das histórias". Isto é, para cada entidade quântica, temos de contar como reais todas as histórias possíveis para essa entidade, e em que essas histórias possiveis interferem umas com as outras produzindo um resultado final que é a soma dessas histórias. Ou seja, os vários acontecimentos provaveis interferem uns com os outros porque têm de ser tomados como sendo todos reais, como se para uma entidade tudo o que pode acontecer com ela acontecesse ao mesmo tempo. Por outro lado quando se faz uma observação, em qualquer momento do percurso de uma entidade quantica, estamos logo a eliminar uma data de históras possiveis que passam a não ter acontecido. O tempo comporta-se como se fosse espaço e a direcção da causalidade dá para os dois lados. O presente afecta o passado. E isto está demosntrado em mecanica quântica. E o universo neste caso é uma entidade quântica.
Por isso a teoria prevê que uma data de universos com leis diferentes tenham de ser assumidos como reais enquanto ele estiver em dimensões quanticas. E tal como a teoria prevê, se estamos cá como observadores desse universo, é natural que só vão contar para a soma das histórias do nosso universo aquelas em que é permitido que nós apareçamos. Isto é a prova cientifica do princípio antrópico fraco (1). O universo em que estamos é como é porque se não fosse não era o nosso universo. Era outro qualquer. Que é igualmente possível e real. Mas não é este em que o leitor lê estas palavras. Pelo simples facto de cá estarmos para fazer essa observação. Para quem isto estiver a fazer confusão deixem-me então explicar outra vez (3) que em mecânica quântica o presente altera o passado. Literalmente. Quando se faz uma observação, tudo o que aconteceu até esse momento é limitado por essa observação. Todas as histórias possiveis são reais mas são eliminadas aquelas que não contribuiem para o resultado obtido com a observação. De tal modo que é como se essas historias possiveis nunca tivessem acontecido. No entanto à partida sabemos que são possiveis. Algures deve haver outros universos a "pular" com histórias diferentes.
Ajudou? Se não ajudou proponho ler não só este livro como "O universo elegante" de Brian Green.
Outra parte importante do livro é a explicação de porque é que podemos usar a mecânica quântica e a relatividade ao mesmo tempo para chegar a esta conclusão mista - a parte de um universo que se contrai conforme andamos para o passado vem da teoria da relatividade. E esta parte da soma das histórias é da mecanica quantica. E sabemos que se as tentarmos conjugar uma com a outra o resultado é infinito. Não dá. Então como fazemos isso?
É porque existe uma Teoria-M que é na realidade um aglomerado de teorias, que unifica consistentemente os resultados destas teorias. Esta unificação é resultado da abordagem matemática conhecida como teorias das cordas, onde das cordas já passamos para membranas e outras coisas mais complicadas. A Teoria-M deixa que usemos modelos diferentes para problemas diferentes porque os modelos sobrepõem-se e nessa zona de sobreposição são completamente concordantes. O que não acontece com a mecânica quântica e a relatividade que sem esta integração o resultado da sua combinação e infinito. A Teoria-M ainda não está cientificamente provada, apesar de ter já o nome de teoria. Porque o grau de certeza que temos nela é tão elevado como em outras teorias. Para aqueles que considerem que a filosofia tem o mesmo grau de certeza que a ciência nas afirmações, então devem ficar satisfeitos com ela porque a lógica e a matemática que a suportam são de alto nível. Para outros como eu, que precisamos de ver as confirmações cientificas ou saber das demonstrações matemáticas completas, falta ainda só um bocadinho. Mas é claro para mim, mesma que ache que ainda falta um pequeno passo para poder escrever o meu post intitulado "O fine tuning refutado", que esta explicação está a anos-luz da qualidade de qualquer outra. É a melhor explicação que há para tudo o que conhecemos. Disso não tenho duvidas.
Para o Stephen Hawking não falta nada. ( E eu fico um bocado atrapalhado por ser ainda mais céptico que o Stephen Hawking, mas é assim a vida). Para ele, esta é a teoria de tudo. E afirma-o categoricamente. Explicitamente, para que não restem duvidas. E também diz explicitamente que a ciência diz que Deus não existe. Continuar a insistir no oposto no contexto actual do conhecimento humano só se deve à vontade dos crentes. Só se deve a uma crença apaixonada em algo que não tem justificação racional e é até contra o conhecimento cientifico. Só se deve a Fé. Mas Fés há muitas (não faltam aí e o livro aponta umas quantas), o que é dificil mesmo é descrever a realidade sem deixar que a nossa vontade atrapalhe a visão (4).
Mas se bem que a observação que fazemos no universo condicione as leis com que ele teve de evoluir desde o Big Bang, a Fé só por si não faz aparecer as coisas que nós queremos como diz aquele livro idiota chamado "O desejo".
Que recomendação dar deste livro? Para quem quiser saber em vez de palpitar ou escolher postulados é de leitura obrigatória. Para quem já sabe tudo o que lá está escrito, é também uma história excelente. Uma que já sabemos o fim, mas que não deixa de ser uma das histórias mais fantásticas que há. A do nosso próprio conhecimento. Para mim o livro foi o que os anglófonos chamam "a page turner". Só parei de ler quando acabou, mesmo se as pestanas já pesavam.
Notas e referencias:
(1) O argumento do "fine-tuning desmistificado":
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/o-argumento-do-fine-tuning.html
(2) De uma flutuação quântica nasceu o universo:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/criacao-partir-do-nada-e-radiacao-de.html
(3)Sobre a mecânica quantica:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html
(4) O mais cego é aquele que não quer ver: (ainda não escrevi neste universo).
Nota: Eu ainda considero que a teoria da evolução ao mostrar como coisas mais complexas podem emergir de outras mais simples desde que haja energia suficiente, tal como comprovado por Prigogine, justifica satisfatóriamente qualquer organisação em qualquer aspecto do universo.
Nota 2: Os autores consideram, tal com eu tenho vindo a argumentar neste blogue, que mesmo na ausencia deste conhecimento actual, que recorrer a um deus para explicar a criação não leva a lado nenhum. É só substituir um mistério por outro. Se temos de aceitar que algures há algo que não precisa de criação é uma explicação muito mais simples dizer que o universo se auto-formou.
Nota 3: Provavelmente vai haver uma data de gente que não vai perceber nada disto e vai continuar a acreditar em deus. É a vida. Mas a tese de que a ciência repudia a existencia de deus está mais que bem fundamentada. Este livro sucede-se a outros de uma série de autores que arriscaram o seu "conforto" quer académico quer pessoal para denúnciar que o rei vai nú.
Nota 4: Para nós não há deus. Nem grande. nem pequeno. É contra tudo o que se sabe. Mas se a possibilidade de se formarem universos é infinita e as hipóteses são infinitas então temos de assumir que pode haver um universo que é uma sucessão ainda maior de acontecimetos ainda mais extraordinários! Extranhamente, e porque parece-me que não há nada que o impeça, na auto-criação pode emergir expontaneamente uma entidade "tipo-deus", poderosa até ao limite da lógica e autoconsciente. Uma que no seu universo poderia por e dispor. Sabemos no entanto que isso não aconteceu neste. A não ser que essa entidade faça tudo para que tudo se passe como se não existisse, e mais do que isto não pudesse ser imaginado sequer.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
E o problema é o ateísmo?
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Rezar é tão eficaz como a acupunctura. Talvez menos.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Porque é que os cepticos não têm gurus e porque é que os crentes são crentes.
http://scan.oxfordjournals.org/content/early/2010/03/12/scan.nsq023
Que leva a um abstract de um estudo que sugere que seguir figuras de culto e acreditar em milagres pode de facto ter a mesma origem. Em presença de figuras carismáticas, crentes cristãos mostraram uma tendência para desactivar redes neuronais no córtex frontal, em contraste com os cépticos, onde isto não acontece. Os crentes também aceitaram mais facilmente a capacidade destas pessoas carismáticas terem poderes curativos.
Afinal, quer-me parecer que quando os cépticos dizem que não seguem gurus, provavelmente estão apenas a dizer que não desligam a "máquina de duvidar" perante ninguém. E isto é neurologicamente suportado por esta pesquisa. E acrescento que na realidade nós seguimos muito mais raciocínios e ideias que pessoas, coisa que aparentemente não precisa de desactivar nenhuma area do cerebro.
(1) André Luís, http://www.blogger.com/profile/09702334332550490793 - comentário em "Porque é que os ateus e liberais são tendencialmente mais inteligentes"
sexta-feira, 12 de março de 2010
O argumento do "Fine Tuning" desmistificado
Se as leis fossem apenas ligeiramente diferentes, e as constantes conhecidas apenas ligeiramente alteradas, uma qualquer, o universo teria uma aparência absolutamente diferente. Podia ser tudo só protões por exemplo. E no entanto é de tal forma que parece desenhado especificamente para a existência humana - é o chamado principio antrópico.
O facto de este universo ser como é e não de outra maneira, dizem os crentes, é a prova que ele foi criado com um intenção. O céptico responde que se o universo fosse de outra maneira, nenhum de nós estava aqui para fazer a pergunta, pelo que não deveria ser motivo de espanto o universo ser de modo que permita a existência de vida inteligente.
E eu naturalmente, estou de acordo com o céptico. Chama-se a isto o princípio antrópico fraco. E se assim não fosse teríamos de concluir que o universo foi desenhado não para existir o homem mas sim para existirem parasitas. De facto, um ténia poderia gabar-se que o intestino humano parece especialmente concebido para que ela exista e o universo concebido especialmente para que existam intestinos humanos. Isto se levar-mos a sério a questão da intencionalidade.
Por outro lado, a situação é um bocado análoga a perguntar porque é que pi tem o valor que tem. É porque não podia ter outro. Se não, não era uma esfera. O crente argumentará que existem outras constantes que parecem ter uma origem mais arbitrária e portanto poderiam ser de outra forma. Para além de eu não saber se podiam ou não ter outra forma, uma vez que tenho de dizer que em alguns casos não posso provar que podiam, apenas posso dizer que é tão legitimo dizer que podiam como não podiam.
Mas nem é este o meu argumento principal. O meu argumento principal é que essa intencionalidade tem origem na mesma tendência humana de atribuir intenção a outros fenómenos naturais, e que não há nada de racional acerca disso. E que sendo esta a explicação mais simples e plausível, não devemos partir para outra sem provas.
A atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais esta bem documentada. Para além do "fine tuning" que é dos últimos redutos, podemos ver como o vento, os trovões, a chuva, a vida, a sorte, a doença, etc, foram todos em dada altura explicados por vontades de deuses, duendes ou demónios. Conforme fomos compreendendo melhor estes fenómenos e os fomos capazes de explicar de uma forma mais precisa, fomos empurrando a intencionalidade para outras coisas que ainda não podíamos explicar.
Provavelmente a atribuição de intencionalidade à natureza foi muito útil. Durante milénios foi a melhor explicação possível, o que terá proporcionado alguma sensação de controle. Por outro lado, identificar intenção num fenómeno desconhecido, deverá ter salvo muitas vidas. Porque mais valia elevar o nível de alerta para um fenómeno natural, estar enganado mas sobreviver, do que considerar que determinado fenómeno era devido ao acaso e perecer nas garras de um predador com intenções homicidas (1). Ter medo do escuro, ver formas nas sombras ao luar, atribuir intenção a sons e barulhos, terá salvo muitas vidas e terá sido por esta razão seleccionado positivamente ao longo da evolução. E terá sido o inicio da crença no sobrenatural, que não é mais do que ver intenção onde ela não existe. Isso provavelmente nasce connosco (2).
Resta-me agora terminar, depois de ter adiantado uma explicação simples, verificável na história e ciência para o argumento da intenção ou do desenho inteligente concluir que fazê-lo não é sequer lógico.
Pois se consideramos o "Fine Tuning" como argumento directo para intencionalidade, ao postularmos um criador para que seja a origem dessa intencionalidade passamos a ter de explicar em deus essa mesma intencionalidade. Porque tudo em deus parece ser ainda mais perfeitamente organizado para que possa criar um universo.
Na realidade, o argumento do "Fine Tuning" é só uma variante do argumento de S. Agostinho que diz que o universo é tão organizado que só pode ter tido um criador mais organizado que ele próprio. E que da origem sempre a termos de ter criadores para o criador até ao infinito.
A questão está em que explicar complexidade de uma entidade postulando uma entidade acima só "empurra para cima" a solução do problema. Se o universo é tão complexo que "aparenta Fine Tuning", como é que postular algo ainda mais complexo e inexplicável resolve o problema da origem da complexidade e "Fine Tuning"? Se o universo é tão complexo e afinado que parece ter sido concebido inteligentemente para um fim, como é que postular uma entidade ainda mais complexa e afinada resolve o problema?
Afinal o que é mais provável que surja do acaso, a entidade mais complexa ou a menos complexa? É que se é a primeira, não implica que deus existe, porque a complexidade não é um problema para explicar por si, teríamos de provar primeiro que deus existe então para presumindo que deus é mais complexo, explicar a segunda. Se é a segunda voltamos a não precisar de deuses porque aceitamos que o mais provável é o universo ter aparecido primeiro.
E agora a explicação do titulo, para quem não tiver ficado convencido. Eu não disse que era a refutação do argumento do "fine tuning". Essa só o conhecimento profundo do universo trará, conforme for mostrando porque é que as constantes têm o valor que têm, se o universo só pode ser este ou não, etc.
Isto é mostrar que o argumento do "Fine Tuning" é fraco e que há outras abordagens não só muito plausíveis, como mais consistentes com o que se sabe e pode saber. É desmistificar. Tornar mais claro e não tornar mais confuso.
Se o universo podia ser de outra maneira que não albergasse vida, é óbvio que não teria ninguém a questionar-se sobre esse problema. Se não podia então o problema nem se põe.
E para aqueles que estão a pensar na sorte deste universo ter aparecido pensem na sorte que foi entre milhares de espermatozóides e de óvolos que existem no universo se terem juntado logo os que davam origem a si. Fantastico, não? Há, e parabéns. Mas não esqueça que o universo não foi criado para a ténia e pela mesma razão, nem para si. Podia ter sido outro espermatozóide, ou outra constante...
(1) ler mais aqui e na bibliografia deste post:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/porque-e-que-os-liberais-e-ateus-sao.html
(2) : Neste post refiro um estudo pertinente para o assunto onde se sugere que a capacidade de reconhecer vida seja inata e possa por vezes dar falsos positivos:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/09/reconhecer-vida-e-inato.html
Nota: Há de facto evidencia cientifica que mostra que estruturas organizadas não precisam de ter origem numa mais organizada ainda. A entropia pode, raramente, andar para trás:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/02/consumo-de-entropia.html
Update: desde que escrevi este post foram publicados estes dois livros com interesse para o tema:
1 - Do Stephen Hawking, "O grande Designio", minha "review" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/02/stephen-hawkings-and-leonard-mlodinow.html
2 - Do Victor Stenger, "A Falácia Do Fine-Tuning" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/07/fallacy-of-fine-tuning-por-victor.html
segunda-feira, 8 de março de 2010
Porque é que os liberais e ateus são tendencialmente mais inteligêntes?
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Competição sexual e religião
De acordo com um artigo publicado na New Scientist, a imagem de uma pessoa atraente do sexo oposto aumenta o sentimento religioso dos individuos.
O estudo foi efectuado entre estudantes cristãos e teve um grupo controle. A hipotese avançada é a de que a escolha de um sistema de normas monogâmico seria fortalecida pela ameaça de competição sexual.
Eu penso que para testar essa hipotese devia-se repetir o estudo com solteiros de religiões que não recomendam a monogamia. Penso que existe a hipotese de que o sentimento expressado fosse o mesmo, ou seja, mais elevado a quem foram mostradas as pessoas muito atraentes do que àquelas que foi mostrada uma amostra vulgar do sexo oposto. Talvez também tenha o factor "Ha! Deus afinal sempre existe" envolvido. Seja como for, era boa ciência que essa hipotese fosse testada.
No mesmo artigo fala da procura de Deus para aliviar o stress. Mas isso dificilmente é noticia.
referencia:
http://www.newscientist.com/article/dn18388-anxious-or-sexually-competitive-try-god.html
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Criar Deus à nossa imagem.
Um artigo (1) da New Scientist fala de um estudo de Nicholas Epley (2) que mostra como as pessoas que acreditam em Deus atribuiem à Sua opinião aquilo que elas próprias pensam.
Foi pedido a crentes que dessem a sua opinião sobre diversos assuntos e que dissessem também que opinião pensavam que tinha diversas personalidades conhecidas e Deus, sobre esses assuntos. A correlação entre a opinião de cada individuo e Deus foi a mais forte. Tudo bem. Isto pode querer dizer que os crentes têm a opinião que pensam que Deus tem. Mas em seguida testou-se essa hipotese.
Foi então pedido aos crentes que elaborassem um discurso desenvolvendo uma opinião contrária à deles, de modo a suavizar a sua própria opinião. A opinião que atribuiam a Deus, muda em consonancia. Mas não aquela que atribuiam às outras personalidades!
É de facto frequente observar um religioso puxar a opinião ou vontade de Deus para uma discussão para provar o seu argumento. É tambem fácil ver como Deus parece não dar a mesma opinião a todos os crentes, ainda que cada um esteja convencido que aquilo que pensa é o que Deus pensa. Este estudo confirma isso.
Aquilo a que se poderia chamar de "falácia do religioso", que é passar da pressuposta existência de Deus para imediatamente concluir sobre a Sua vontade, (como se isso pudesse ser extraido lógicamente apenas do facto Dele existir), parece estar ainda mais ligado ao próprio crente que a um conceito independente de Deus.
Eles dizem assim: "Intuir acerca das crenças de Deus em assuntos importantes pode não produzir um guia independente mas pode, em vez disso, servir para uma camara de eco das nossas próprias crenças".
De facto. Talvez isso ajude a explicar a quantidade de coisas diferentes que se atribui a Deus dentro da mesma religião e entre religiões. Pelos vistos, faz parte do processo.
A mesma peça da New Scientist cita ainda um outro artigo em que é demontrado que rezar utiliza as mesmas areas cerebrais que falar com um amigo (3) e refere que tem vindo a ser sustentado por investigadores que todos estes achados são suportados pela teoria que a capacidade de imaginação tem um papel chave na religiosidade.
(1)http://www.newscientist.com/article/dn18216-dear-god-please-confirm-what-i-already-believe.html
(2)http://faculty.chicagobooth.edu/nicholas.epley/
(3)http://www.newscientist.com/article/mg20227033.600-praying-to-god-is-like-talking-to-a-friend.html
