Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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domingo, 28 de março de 2010
Acerca das lacunas e explicações "ad-hoc"
sexta-feira, 12 de março de 2010
O argumento do "Fine Tuning" desmistificado
Se as leis fossem apenas ligeiramente diferentes, e as constantes conhecidas apenas ligeiramente alteradas, uma qualquer, o universo teria uma aparência absolutamente diferente. Podia ser tudo só protões por exemplo. E no entanto é de tal forma que parece desenhado especificamente para a existência humana - é o chamado principio antrópico.
O facto de este universo ser como é e não de outra maneira, dizem os crentes, é a prova que ele foi criado com um intenção. O céptico responde que se o universo fosse de outra maneira, nenhum de nós estava aqui para fazer a pergunta, pelo que não deveria ser motivo de espanto o universo ser de modo que permita a existência de vida inteligente.
E eu naturalmente, estou de acordo com o céptico. Chama-se a isto o princípio antrópico fraco. E se assim não fosse teríamos de concluir que o universo foi desenhado não para existir o homem mas sim para existirem parasitas. De facto, um ténia poderia gabar-se que o intestino humano parece especialmente concebido para que ela exista e o universo concebido especialmente para que existam intestinos humanos. Isto se levar-mos a sério a questão da intencionalidade.
Por outro lado, a situação é um bocado análoga a perguntar porque é que pi tem o valor que tem. É porque não podia ter outro. Se não, não era uma esfera. O crente argumentará que existem outras constantes que parecem ter uma origem mais arbitrária e portanto poderiam ser de outra forma. Para além de eu não saber se podiam ou não ter outra forma, uma vez que tenho de dizer que em alguns casos não posso provar que podiam, apenas posso dizer que é tão legitimo dizer que podiam como não podiam.
Mas nem é este o meu argumento principal. O meu argumento principal é que essa intencionalidade tem origem na mesma tendência humana de atribuir intenção a outros fenómenos naturais, e que não há nada de racional acerca disso. E que sendo esta a explicação mais simples e plausível, não devemos partir para outra sem provas.
A atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais esta bem documentada. Para além do "fine tuning" que é dos últimos redutos, podemos ver como o vento, os trovões, a chuva, a vida, a sorte, a doença, etc, foram todos em dada altura explicados por vontades de deuses, duendes ou demónios. Conforme fomos compreendendo melhor estes fenómenos e os fomos capazes de explicar de uma forma mais precisa, fomos empurrando a intencionalidade para outras coisas que ainda não podíamos explicar.
Provavelmente a atribuição de intencionalidade à natureza foi muito útil. Durante milénios foi a melhor explicação possível, o que terá proporcionado alguma sensação de controle. Por outro lado, identificar intenção num fenómeno desconhecido, deverá ter salvo muitas vidas. Porque mais valia elevar o nível de alerta para um fenómeno natural, estar enganado mas sobreviver, do que considerar que determinado fenómeno era devido ao acaso e perecer nas garras de um predador com intenções homicidas (1). Ter medo do escuro, ver formas nas sombras ao luar, atribuir intenção a sons e barulhos, terá salvo muitas vidas e terá sido por esta razão seleccionado positivamente ao longo da evolução. E terá sido o inicio da crença no sobrenatural, que não é mais do que ver intenção onde ela não existe. Isso provavelmente nasce connosco (2).
Resta-me agora terminar, depois de ter adiantado uma explicação simples, verificável na história e ciência para o argumento da intenção ou do desenho inteligente concluir que fazê-lo não é sequer lógico.
Pois se consideramos o "Fine Tuning" como argumento directo para intencionalidade, ao postularmos um criador para que seja a origem dessa intencionalidade passamos a ter de explicar em deus essa mesma intencionalidade. Porque tudo em deus parece ser ainda mais perfeitamente organizado para que possa criar um universo.
Na realidade, o argumento do "Fine Tuning" é só uma variante do argumento de S. Agostinho que diz que o universo é tão organizado que só pode ter tido um criador mais organizado que ele próprio. E que da origem sempre a termos de ter criadores para o criador até ao infinito.
A questão está em que explicar complexidade de uma entidade postulando uma entidade acima só "empurra para cima" a solução do problema. Se o universo é tão complexo que "aparenta Fine Tuning", como é que postular algo ainda mais complexo e inexplicável resolve o problema da origem da complexidade e "Fine Tuning"? Se o universo é tão complexo e afinado que parece ter sido concebido inteligentemente para um fim, como é que postular uma entidade ainda mais complexa e afinada resolve o problema?
Afinal o que é mais provável que surja do acaso, a entidade mais complexa ou a menos complexa? É que se é a primeira, não implica que deus existe, porque a complexidade não é um problema para explicar por si, teríamos de provar primeiro que deus existe então para presumindo que deus é mais complexo, explicar a segunda. Se é a segunda voltamos a não precisar de deuses porque aceitamos que o mais provável é o universo ter aparecido primeiro.
E agora a explicação do titulo, para quem não tiver ficado convencido. Eu não disse que era a refutação do argumento do "fine tuning". Essa só o conhecimento profundo do universo trará, conforme for mostrando porque é que as constantes têm o valor que têm, se o universo só pode ser este ou não, etc.
Isto é mostrar que o argumento do "Fine Tuning" é fraco e que há outras abordagens não só muito plausíveis, como mais consistentes com o que se sabe e pode saber. É desmistificar. Tornar mais claro e não tornar mais confuso.
Se o universo podia ser de outra maneira que não albergasse vida, é óbvio que não teria ninguém a questionar-se sobre esse problema. Se não podia então o problema nem se põe.
E para aqueles que estão a pensar na sorte deste universo ter aparecido pensem na sorte que foi entre milhares de espermatozóides e de óvolos que existem no universo se terem juntado logo os que davam origem a si. Fantastico, não? Há, e parabéns. Mas não esqueça que o universo não foi criado para a ténia e pela mesma razão, nem para si. Podia ter sido outro espermatozóide, ou outra constante...
(1) ler mais aqui e na bibliografia deste post:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/porque-e-que-os-liberais-e-ateus-sao.html
(2) : Neste post refiro um estudo pertinente para o assunto onde se sugere que a capacidade de reconhecer vida seja inata e possa por vezes dar falsos positivos:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/09/reconhecer-vida-e-inato.html
Nota: Há de facto evidencia cientifica que mostra que estruturas organizadas não precisam de ter origem numa mais organizada ainda. A entropia pode, raramente, andar para trás:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/02/consumo-de-entropia.html
Update: desde que escrevi este post foram publicados estes dois livros com interesse para o tema:
1 - Do Stephen Hawking, "O grande Designio", minha "review" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/02/stephen-hawkings-and-leonard-mlodinow.html
2 - Do Victor Stenger, "A Falácia Do Fine-Tuning" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/07/fallacy-of-fine-tuning-por-victor.html
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Para todos os efeitos
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
A partícula de Higgs e Deus.
Quem se questiona ainda para que serve o colisionador de hadrões (LHC) ou porque chamaram "a partícula de Deus" à particula de Higgs, convido-o para continuar a ler. Pois este post é sobre isso.
Quem ja sabe porque o LHC é importante, convido na mesma a ler e a comentar. Este é um post mais pessoal que a maior parte do que tenho escrito, na medida em que é mais opinião que factos.
O colisionador de hadrões, certamente serve para mais que "apenas" procurar a particula de Higgs. Vai procurar tambem sinais de dimensões extra e também... Qualquer outra coisa que apareça. Mas a particula de Higgs é das mais importantes e por si só justificava aquele investimento todo. Porque?
A particula de Higgs é a particula portadora do campo de Higgs. E o campo de Higgs é explicação para grande parte daquilo que nós observamos neste universo se comportar como se comporta. Explica a inércia dos corpos, explica a expansão rápida do Big Bang e explica porque a Luz não tem massa. Esta envolvido na existencia da gravidade e portanto na curvatura do espaço e do tempo.
Porque segundo a teoria, o campo de Higgs está em todo o lado, mesmo no vácuo, e é este campo que dá origem à massa dos corpos.
Mas esta particula nunca foi verificada experimentalmente. A entidade explicadora de uma boa porção da fisica nunca foi observada, é uma entidade puramente teórica. Sabemos que muito provavelmente existe porque matemáticamente as peças encaixam todas com uma grande perfeição, desde o princípio dos tempos até agora.
Estas características e propriedades da particula de Higgs ja são o suficiente para lhe chamar a partícula de Deus. E eu tenho-me lembrado muito da particula de Higgs quando abordo a questão da existencia de Deus - uma vez que eu sou daqueles que acham que se Deus existe, então não há razão postular que isso não seja do ambito da ciencia.
São semelhantes, porque hipoteticamente, explicam muita coisa de uma só vez e nunca foram observadas. Até que ponto é que podemos dizer que uma destas entidades é mais real que a outra?
Os criacionistas consideram que não é possivel explicar a macro evolução sem recorrer a Deus, outros, como muitos católicos, que não podemos explicar a consciência sem recorrer a Deus, outros - quase todos os religiosos - que não podemos explicar porque "existe algo em vez de nada" sem recorrer a Deus.
Todas as alegações são mais ou menos faceis de refutar excepto uma. Porque existe algo em vez de nada? Porque existe algo que não precisou de criador? Será que só é possivel explicar isso recorrendo a Deus?
Agnósticos muito convictos como eu, não consideram util repescar a hipotese Deus sempre que um problema não parece ter solução. Porque ao fazermos isso, estamos constantemente a introduzir mais problemas que os que resolvemos - Deus é insondavel... E a por uma pedra no assunto sem ter acrescentado conhecimento sobre ele.
Ficamos com explicações ad-hoc para cada caso particular, mas que não nos permitem conhecer um problema ou um processo ao ponto de ser capaz de fazer previsões sobre ele. Se chove porque Deus quer, não há maneira de saber se amanha vai chover. É o seja o que Deus quiser.
A questão específica aqui, é que a questão "porque existe algo em vez de nada", parece estar por si só num plano para além daquele que é a explicação do "como" as coisas se passam.
Não é tanto o problema de ter de postular uma entidade que não precisa de ser criada, porque essa tanto pode ser Deus como o Universo, e se Deus não precisa de ser criado, continuamos sem saber porque é que ele tem essa caracteristica. Idem para o universo claro. Caso o universo não precise de criador continuamos, à data, sem resposta para isso.
Mas eu proponho que a ciência actual resolve mais problemas se não tivermos de atribuir a criação a Deus, (que apenas "resolve" recorrendo a um postulado sobre a sua vontade: "Porque Ele assim quis") .
A ciencia explica mais coisas porque a partir daí, do momento original, a física desenrola as suas formulas como um reação em cadeia até aos nossos dias, sem precisar de Deuses. E a ciência tem até uma maneira muito especial de dizer que o universo existiu sempre: O proprio tempo surgiu quando surgiu o universo. O espaço idem. Antes não havia um nem outro. A pergunta: "o que havia antes do universo" não tem sentido de ser posta.
Fico com a sensação que Deus só é uma entidade nesseçária para explicar que algo existe, e não o contrário. Mas isso, é se for de facto preciso responder à pergunta, "porque é que existe algo em vez de nada". Talvez não tenha resposta. Porque se recorrermos ao que podemos saber com um grau de certeza elevado, Deus não está lá. Deus é que não existe. Na melhora das hipotese ficariamos com "porque é que existe Deus?". Mas como não sabemos se Seus existe, proponho que não precisemos de ir tão longe. Deus não é matéria de facto. E nada mais parece ser capaz de resolver a questão.
Podemos aceitar a existência de uma entidade que está em todo o lado, participa em tudo, dá origem às propriedades que verificamos no universo e não ter provas diretas dela? É esta a grande comparação entre Deus e a particula de Higgs que me intriga. (E que me admira ainda não me ter sido usada por defensores da hipotese Deus.)
Isto não é equivalente ao problema dos criacionistas de não se "ver" a evolução ou dos dualistas de não aceitar que a consciência seja emergente "apenas" do funcionamento do cerebro. Não é equivalente, por razões que não me interessa agora aprofundar mas que estão ligadas ao facto de a evidencia ser quase direta nestes casos - são as razões que permitem considerar a evolução matéria de facto e no meio da neurologia não se falar de alma. (tipo: não se preocupe que este AVC não lhe afectou a alma...)
A particula de Higgs, aos meus olhos, encaixa melhor nesta questão do que outras questões da ciência. Não é preciso pensar muito para perceber porquê. Porque acreditamos na particula de Higgs e não em Deus da mesma forma? Podemos acreditar que a particula de Higgs é real, se ainda não foi detetada diretamente, só porque, em ultima análise precisamos dela para explicar uma série de coisas?
Porque aceitamos, nós os ateus e agnósticos uma entidade e não a outra?
A minha resposta, é a plausibilidade. E a plausibilidade que é dada de acordo com a força do modelo racional que está por trás.
Se procuro respostas que me satisfaçam racionalemente, tenho de ter a capacidade de distinguir umas das outras por motivos racionais. E se foi um processo racional que me levou a comparar as duas, tenho de aceitar o que me diz a matemárica e a lógica se as aplicarmos ao que podemos saber de facto. E o que elas dizem é que a particula de Higgs existe. Para além da nossa necessidade de a postular para explicar a massa ou o Big Bang.
Se Deus tivesse uma base tão sólida de fundamentos teóricos a suportar a sua existencia, penso que teria de estar no mesmo grau de plausibilidade que a particula de Higgs. Assim penso que tem plausibilidade baixa. E por isso, apesar de considerar sempre a hipotese Deus e até, potencialmente, estar a criar aqui mais uma lacuna para servir de argumento aos crentes, continuo um agnóstico convicto. Convicto que a plausibilidade da hipotese Deus é demasiado baixa para que utilizemos como se fosse real.
Ainda estou a pensar sobre este tema. Talvez ainda volte a ele.
Mas voltando ao princípio, da nessecidade de encontrar experimentalmente a particula de Higgs - é um preceito da ciência. Talvez não seja possivel - o assunto é debatido - mas sem duvida que vale a pena fazer esforços para a encontrar. Porque se ela existe - e parece existir para além do que dá ou não geito - deve haver uma maneira de o verificar. Há e estasse a tentar. Não vamos dizer que é assim e acabou-se, está o assunto arrumado. Porque até prova em contrário, nunca está. E aqui a particula de Higgs e Deus são assuntos completamente diferentes no que proporcionam ao conhecimento humano do universo. Um não é um mistério - sabemos o que faz, como procura-lo, como actua, etc. O outro é o mistério do que "seja o que Deus quiser". Não é só implausivel, também não acrescenta nada.