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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Para tirar Deus de uma teoria, penso que ele lá tem de estar primeiro...

De um texto de Alvim Platingra, traduzido pelo Desidério  e postado no "Crítica na rede", retirei esta frase para comentar:


"Quem defende que a evolução mostra que a humanidade e as outras coisas vivas não foram concebidas, defendem os seus oponentes, confundem uma interpretação naturalista da teoria científica com a própria teoria."


Ou seja, mesmo sem estarmos a pôr a teoria da evolução em causa se consideramos não estar lá Deus, é porque estamos a trabalhar num quadro naturalista que não é imposto pela teoria. 


Isto não é correcto.


Deus está tanto na teoria da evolução como na pedra que rebola montanha abaixo. É sempre possível dizer que ele está lá. Mas não adianta nada, não explica nada, em suma, não faz parte da teoria.


Quem interpreta a teoria como não tendo deus não está a ser mais racional que ao interpretá-la sem ter estraterrestres, duendes, fadas, tachos de cozinha, etc. 




A teoria da evolução explica exactamente como a evolução se pode dar sem intervenção de deus ou outro ser consciente qualquer (não é nada pessoal contra deus, a não ser que deus seja acaso e seleção - e se bem que haja quem queira que deus seja a segunda, normalmente regeita a primeira). 


A teoria da evolução, não só propõe um mecanismo sólido para compreender porque as espécies evoluem como o faz sem introduzir forças com capacidade de planear o futuro. Não é uma interpretação naturalista da teoria. É como ela é. Dizer que Deus está lá de qualquer maneira é injectar entidades desnecessárias que nada acrescentam à explicação. 


E se Deus está lá, segundo a teoria e de acordo com os factos, é cego. Vejamos mais obkectivamente ainda o abuso que Platingra propõe:


Se a teoria da evoluçao (TE), tal como está, sem referir Deus ou atribuir-lhe soluções explica a evolução registada factualmente é comparada a uma teoria da evolução com Deus (TE + D) que explica exactamente a mesma coisa mas injectando uma entidade extra (D) , então (D) não pertence à explicação. Ou seja, se TE = TE + D, então D está a mais. 




Para mais, D não é uma entidade qualquer. 


É uma entidade que não passa da uma hipótese, dado a inexistencia de evidências  de qualquer espécie, que sejam capazes de discernir satisfatóriamente D da crença em D. Daqui proponho que é uma afirmação extraórdinária injectar D em qualquer solução ou explicação. E aqui sim, está o naturalismo. É por isso que procuramos explicações sem entidades capazes de por si só serem capazes de explicar tudo. Por isso e porque no fim não ficamos a saber mais, apenas ficamos com a ilusão de ter uma explicação que nada diz sobre a questão em causa.


Mas se a teoria da evolução foi desenvolvida num quadro naturalista, ela está longe de poder ter deus incluido para se dizer que quem a usa para dizer que deus não está lá esteja a ser confundido pelo seu próprio naturalismo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mutações que duplicam a informação aumentam a variedade.


Estudos recentes sugerem fortemente que uma grande parte da diversidade nas plantes se deve a uma mutação simples que duplica todo o DNA de uma só vez. Basta não o dividir como deve ser em determinadas alturas chave da reprodução.

Se nos animais isto é invariavelmente letal, nas plantas já sabíamos que podia acontecer sem grandes problemas. Aliás é uma das manipulações genéticas mais antigas que fazemos é criar póliploides.

Isto é mais um pontapé na teoria criacionista de que as mutações não podem aumentar a informação.

De facto, ao procurar plantas com determinados génes duplicados em diferentes ramos das suas famílias, podemos concluir que a duplicação se deu antes da divisão em ramos diferentes.

Por este processo chegou-se à conclusão que grandes explosões de variedade coincidem com pontos de duplicação do DNA.

Como temos um mecanismo que explica bem uma relação de causa e efeito podemos atribuir a essa mutação, a origem da biodiversidade.

Saber mais aqui:


http://news.sciencemag.org/sciencenow/2011/04/double-the-genes-double-the-flor.html

domingo, 2 de janeiro de 2011

A confusão dentária antropológica está na divulgação e percepção.

Os dentes encontrados recentemente nas escavações Israelitas têm ressonado nos média – e sobretudo nos comentários que originam (1) - como uma anomalia à teoria “out of africa” e mesmo à teoria da evolução. Bastou procurar o ”abstract” para perceber melhor que estes dentes não são exactamente iguais aos dentes que temos hoje, mas sim correspodendentes a uma forma mais antiga e provavelmente entre nós e os Neanderthais (com quem trocámos genes).

Para  simplificar apenas traduzo o “abstract”, que fala por si:

“Este estudo apresenta a descrição e análise comparativa de dentes deciduos e permanentes do Pleistoceno médio localizados em uma gruta em Qesem (Israel). Todos os fosseis humanos [conhecidos]foram identificados como pertencendo ao complexo cultural Acheulo-yabrudiano (AYCC) do Paleolítico inferior tardio. A idade (200 a 400 ka) dos dentes de Qesem do Pleistoceno médio, coloca-os cronologicamente antes que a maioria dos fosseis de de espécies de hominídeo previamente conhecidas do sudoeste da Ásia. Três dentes permanentes mandibulares(C1 – P4) foram encontrados em proximidade com a parte inferior da sequencia de estrados [geológicos]. As pequenas dimensões das coroas indicam um considerável grau de redução apesar das raízes serem longas e robustas. Em contraste, três dentes maxilares (I2,C1 e M3) e dois deciduos isolados que foram encontrados na parte de cima da sequencia [de estratos geológicos] são muito mais largos e mostram alguns traços de plesiomorfismo semelhantes aqueles de espécimes de  Skhul/Qafzeh. Apesar de nenhum dos dentes de Qesem mostrar uma conjunto de características de Neandertal, um pequenos conjunto de caracteres mostra afinidade com membros desta linhagem evolucionária. Contudo o balanço de evidencias sugere uma afinidade mais próxima com o material dentário de Skhul/Qafzeh, apesar de muitas destas semelhanças provavelmente representarem características de plesiomorfismo [partilha de características por via ancestral].”

A ligação para o abstract:
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajpa.21446/abstract

(1) http://www.publico.pt/Ciências/dentes-humanos-encontrados-em-gruta-de-israel-sao-mais-antigos-do-que-homem-moderno_1473109

PS: Hoje (3-Jan-2011) a Nature traz um artigo sobre o assunto onde também critica os média e faz menção a dois bloggers que denunciam a falta de rigor das noticias: " The discrepancy between the media coverage and the paper was seized upon by science bloggers Carl Zimmer and Brian Switek, who objected to the hype around the research." aqui: http://www.nature.com/news/2010/101231/full/news.2010.700.html

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução, de Richard Dawkins

Richard Dawkins volta ao seu melhor com este novo livro sobre a evolução. Desta vez o foco é na evolução enquanto facto e não como processo. A síntese evolutiva moderna explica como se deu a evolução, mas antes de mais a evolução é um facto que como qualquer outro requer explicação. Este livro é uma colecção de evidencias para a evolução enquanto facto. E a explicação dessas evidencias. E nisso é muito bom. Não creio que qualquer pessoa intelectualmente honesta possa dizer que não há evolução depois deste livro. Explicar como isso se deu é que não se encontra aqui.

A prosa de Dawkins para quem não conhece ainda, é despretensiosa e clara. Não usa jargão científico se o puder evitar, mas mantém uma grande simplicidade e clareza nas explicações. A aversão explícita que Dawkins tem pelas citações fora de contexto (de que é alvo frequente), tem provavelmente um papel na tentativa de fazer frases claras e objectivas, onde dificilmente se pode dar um segundo sentido (acidentalmente ou não).

Sobre os conhecimentos do autor acerca do tema não vale a pena puxar pelos galões. Basta ler. Dawkins está como peixe na água a falar da evolução e o entusiasmo com que o faz nota-se. Não só sabe muito sobre o tema como tem um enorme entusiasmo, quase juvenil, em mostrar como sabemos o que sabemos. Aliás, se o título tivesse sido traduzido à letra chamar-se-ia: "O maior espectáculo à face da terra: provas da evolução". Drama, competição, sucesso, beleza, alianças, traições. Tem tudo e Dawkins parece vibrar enquanto fala do assunto.

Como pontos negativos aponto a extensão do livro, mas sinceramente não sei onde cortaria para o encurtar. Só se fosse mesmo na parte de comentários pessoais, que estão salpicados por todo o lado, mas isso sem dúvida empobreceria o livro.

Recomendado a todos os que gostam de natureza e de saber como ela é.

Não é recomendado para quem queira saber como determinado aspecto da evolução é explicado. Para isso deve procurar outros livros, que até podem ser do mesmo autor, como por exemplo "O relojoeiro cego", onde se explica porque sabemos que a evolução não segue um plano (e que as coisas evoluem para altos níveis de complexidade pela importância que têm a cada passo e não por serem passos intermédios com um fim em vista), embora nesse livro seja dado já como facto que a vida evolui.

Penso ainda que é um livro com valor para professores de biologia que queiram fazer uma revisão ou tenham de gerir discussões sobre a evolução nas aulas.

Aqui ao lado, o autor do blogue "Biogeonorte" tem feito uma compilação de citações do "Espectáculo da Vida" que aconselho também:

http://biogeonorte.blogspot.com/

PS: Dawkins apesar de dizer que este livro não é uma critica à religião não se abstém de dar uma ou outra alfinetada. Não é de estranhar, uma vez que a evolução é apenas contrariada por aqueles que consideram que Deus nos disse o contrário.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A evolução e a cozinha.

De acordo com Richard Wrangham, de Harvard, cozinhar foi um dos factores mais importantes para o desenvolvimento do cérebro. Defende esta ideia já há algum tempo, sem que tenha gerado grande entusiasmo no meio académico, mas em boa verdade, as provas empíricas vão-se acumulando a seu favor.

Porque é que isto faz algum sentido? Porque a comida cozinhada aumenta a facilidade com que é mastigada e digerida, potencialmente permitindo passar mais tempo a pensar noutras coisas que a caçar e a comer. A comida é mastigada e digerida não só mais rapidamente mas também com maior eficácia, uma vez que as paredes das células estão já destruídas, sendo possível aproveitar mais daquilo que se come.


De facto, é visível a redução drástica do tamanho dos dentes em relação aos hominídeos anteriores quando se dá o aparecimento do Homo erectus e  do H.  neanthertalensis. O que não acontece no resto dos primatas actuais também. Por esta altura da evolução dos hominideos dá-se também um aumento notável do volume da caixa craniana, como seria de esperar se a teoria estivesse correcta.

O que falta demonstrar ainda é que os hominídeos em causa seriam capaz de controlar o fogo. Não existem evidencias que tal fosse possível há mais de 750 000 anos.

A noticia veio daqui :

http://www.newscientist.com/article/mg20727694.500-chew-on-this-thank-cooking-for-your-big-brain.html

E agora um aparte meu:

Uma vida inteira sem lavar os dentes devia dar bocas muito disfuncionais nos mais velhos e contribuir primeiro para a sua má nutrição, e depois para a diminuição da esperança de vida. Provavelmente estes anciãos terão tido um papel importante também no desenvolvimento da cultura e técnicas primitivas, pois poderiam potencialmente saber mais que os seus contemporâneos. Não só por terem mais tempo para acumular experiência e aprender com outros, mas porque nesta fase da evolução chegar a velho seria em si  um sinal de boas capacidades individuais. E que certamente integrado no seu meio social seria uma mais valia para a tribo onde vivesse:  poderiam gerir melhor os problemas da tribo, ensinar, etc, e  fazê-lo durante mais tempo. Penso que a longevidade humana é um factor importante para o que a nossa sociedade conseguiu fazer. Embora certamente do ponto de vista pessoal pareça pouco tempo, comparando com o resto dos animais é difícil encontrar longevidades maiores em animais com vidas aparentemente tão activas. A tendência é para ou viverem menos ou serem menos activos, havendo naturalmente excepções.

Aqui esta uma tabela de longevidade de animais:

 http://www.newton.dep.anl.gov/natbltn/400-499/nb486.htm (em animais de Zoologico porque na natureza não se encontram animais velhos ou apenas muito raramente... Talvez se começarem a cozer os alimentos...)

Outra nota: A taxa metabolica por kg aumenta inversamente ao peso: isto é, animais mais pequenos queimam mais calorias em relação ao seu peso vivo. E de facto parece que a tendencia destes queimadores rápidos de glicose vivem pouco tempo, talvez seja preciso ser-se um pouco maior para aproveitar melhor a energia e viver mais devagar. Mas animais maiores queimam mais calorias de um modo absoluto pelo que animais muito grandes precisam de grandes doses de energia para se sustentarem. De acordo com os cálculos divulgado na New Scientist um animal relativamente grande como o homem  precisaria de passar 48% do seu tempo a comer. Mas só passa 10%, graças provavelmente à comida estar cozida ou assada.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Porque é que os liberais e ateus são tendencialmente mais inteligêntes?


A Hipotese QI-Savana, uma possivel teoria sobre a inteligência geral
"Porque os liberais e ateus são mais inteligentes" é o nome de um extenso artigo de Satoshi Kanazawa da London School of Economics and Political Science e publicado na revista da Associação Americana de Sociologia, a Social Psychology Quaterly.
O artigo é sobre o teste experimental de uma hipótese abrangente sobre a origem da inteligência, gostos e valores. Diz a hipótese que a inteligência geral é o produto evolutivo da exposição a novas situações. Novas, mas não do ponto de vista da experiencia particular pessoal mas sim relativa à experiencia evolutiva total como espécie.
Ou seja, será a capacidade adaptativa a condições tão novas que não poderá ser procurada a solução entre as coisas que como espécie já não são novidade.
Esta hipótese, denominada "Hipótese da Interacção QI-Savana" é uma implicação do Principio da Savana.
Que diz o seguinte: "O cérebro humano tem dificuldade em compreender e lidar com situações e entidades que não existiram no seu ambiente ancestral."
Então ele propõe o seguinte: "Se a inteligência geral evoluiu para lidar com problemas evolucionariamente novos, então a dificuldade do cérebro humano de lidar com entidades e situações que não existiram no seu ambiente ancestral [a savana] deve interactuar com a inteligência geral de modo que o principio da savana aparece mais forte entre indivíduos menos inteligentes que entre indivíduos mais inteligentes."
Ou seja: "Indivíduos mais inteligentes devem ser capazes de compreender e lidar com entidades e situações de novidade evolutiva (mas não evolutivamente familiar) do que os menos inteligentes."
O que já explica:
Como todas as boas hipóteses cientificas deve explicar o que já se sabe e o autor nomeia entre os factos conhecidos que suportam a sua hipótese quatro constatações estatísticas conhecidas:
1 - A tendência para responder a personagens de televisão fictícias como se fossem realmente amigos conhecidos está correlacionada mais fortemente com inteligências mais baixas. Que ver na televisão um mundo parecido com o real mas que não é real é novidade para a espécie humana não precisa justificações.
2- Pessoas menos inteligentes têm mais crianças que pessoas mais inteligentes, mesmo quando não o querem, explicado pela hipótese com a novidade que é a capacidade de planeamento familiar do ponto de vista evolutivo.
3 - Indivíduos mais inteligentes mantém-se mais saudáveis e vivem mais tempo. Provavelmente porque são capazes de reconhecer os novos perigos da sociedade moderna para a saúde e de lidar com eles. Consistente com esta hipótese é o facto de esta correlação não ser verdadeira em África onde a maioria das ameaças são evolutivamente familiares.
4 - Criminosos têm um QI abaixo da média, pois a intervenção de terceiros para impor justiça é algo relativamente novo para a humanidade. Antes a justiça era feita pelo próprio ou pelos aliados e familiares. Na melhor das hipóteses a interferência de terceiros seria uma punição informal como ostracismo, nada como os mecanismos complexos e mais eficazes dos dias de hoje como policia, detectives, tribunais, etc. Diz o autor que "muito do que chamamos crime interpessoal nos dias de hoje, como violação, assassinato, assalto e roubo foram provavelmente rotina no ambiente ancestral". (Pelo que sei nem é preciso ir até aos dias da Savana...)
As condições testáveis que suportam a hipótese. Capacidade de fazer previsões:
O autor estabeleceu então uma base e uma hipótese a partir da qual deve fazer previsões. Conclui neste aspecto que deve procurar mais variáveis que sejam novas do ponto de vista evolutivo e não pessoal para criar condições em que a teoria é posta à prova. Depois de uma investigação antropológica encontrou 3 parâmetros que serviam para o caso: O grau de liberalismo, ateísmo e monogamia. Porque são experiencias novas do ponto de vista da espécie humana, e é de prever que estejam fortemente correlacionadas com a inteligência. Se a hipótese QI-savana for verdadeira.
1 - Houve algum problema com a questão do liberalismo, pois este parece querer dizer várias coisas para várias pessoas e em vários contextos, mas o autor notou que as pessoas que se identificavam como mais liberais eram também aquelas que mais se preocupavam com o bem estar daqueles que estavam muito afastados da sua esfera de actividade, para lá dos laços de família amigos, aliados e conhecidos. O altruísmo geneticamente herdado é aquele que é relativo aos seres humanos mais próximos. A vida interactiva de grandes cidades numa comunidade global é algo de muito novo.
2 - O ateísmo. É aceite que a atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais terá levado a uma crença no sobrenatural. Muito resumidamente, o autor explica que mais vale acreditar que o barulho do vento nos vem comer que ignorar o dito barulho e acabar na boca de um predador porque afinal não era o vento. Ou seja, identificar positivamente intenção salvou mais vidas que considerar como devido ao acaso determinado fenómeno. O medo do escuro aposto que salvou milhares de vidas, digo eu.
3 - Monogamia. A monogamia como existe hoje também é algo de novo na espécie humana, apesar de haver espécies onde a monogamia existe evolutivamente falando há muito tempo. E é a ultima das caracteristicas testadas com sucesso para suportar a hipotese da interação QI-Savana. E curiosamente a única cujo resultado apareceu em varias revistas de divulgação geral. Os homens mais inteligentes, mas não as mulheres, tendem a ser mais monogamicos.
Conclusão:
Todas estas três características mostraram uma correlação forte com a inteligência, como era previsto na hipótese. A análise estatística foi feita em dois estudos de grandes amostras e durante vários anos. Apesar de ser também extremamente interessante, inclusive a discussão sobre o método de medir a inteligência, penso que a grande importância deste artigo não é a metodologia particular.
Ou sequer a constatação do facto de que os ateus e/ou liberais e/ou monogâmicos tendem a ser mais inteligentes.
O interesse do artigo é mesmo, como diz o titulo, propor uma explicação para o facto de os ateus, liberais e monogâmicos serem relativamente mais inteligentes que os crentes, conservadores e religiosos. E uma explicação que é abrangente e que abre terreno a mais investigação.
A minha modesta opinião é que se trata de um trabalho de extrema importância na sociologia e psicologia humana. E um profundamente cientifico. Prevejo um grande debate acerca destas questões - e um que interessaria a toda a sociedade - se formos seres humanos capazes de discutir isto abertos à novidade e longe de preconceitos. Com inteligência.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A árvore da vida.


Esta é uma representação da "arvore da vida" tal como está no site: "Tree of life web project".
Está cheia de ligações entre os ramos, sobertudo na base, e parece mais uma alga que uma arvore. Penso que não deve andar longe da realidade se bem que se saiba que devia haver algumas ligações entre os ramos superiores que não estão representadas (hibridações). Ou se calhar estão se eu pegar numa lupa.
Os criacionistas gostam de dizer que isso refuta a evolução, nomeadamente que "a arvore da vida de Darwin estava errada". E estava. Mas não no seu conceito. Foi corrigida várias vezes, e mais há de ser. O que começou por ser semelhante a uma árvore, depois foram-se encontrando fenomenos de transmissão horizontal de genes e formando pequenas anastomoses aqui e ali e começou a ter zonas que parecem mais uma rede.
Ja não se parece muito com uma arvore. Isso é verdade. Mas acho que deixar de lhe chamar arvore da vida também não acrescenta muita coisa. A ideia está lá. É só mais uma teimosia dos criacionistas.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A complexidade redutivel da máquina molecular mitocondriana...

...Ou mais um pontapé bem aviado no criacionismo e no designio inteligente.

A complexidade irredutivel é um conceito inventado por Behe para tentar convencer o mundo de que havia coisas que não fazia sentido terem uma versão mais simples, como o olho, por exemplo.

Se isso fosse verdade, um olho um pouco pior não teria vantagem nenhuma, ou mesmo um rudimento de olho, tambem não serviria para nada. Mas parece que não é verdade. Qualquer capacidade para percepcionar luz, desde sombras a imagens, é vantajosa.

Mas o olho, não era o unico exemplo de complexidade irredutivel. Outro era a maquinaria da mitocondria. Uma maquinaria molecular que se se tirasse uma peça, nada funcionava.

O que este estudo vem demonstrar é que as peças já estava feitas antes. Diz assim:

"As mitocondrias derivam de um simbionte (alfa)-protobacteriano e nós identificámos numa (alfa)-protobactéria as partes componentes da maquina molecular de transporte de proteinas da mitocondria"

e mais à frente:

"relativamente poucas mutações serão precisas para convertera sua função para maquinaria de transporte de proteinas."

Ou seja, lá se vai a complexidade irredutivel.

O abstract está aqui:

http://www.pnas.org/content/early/2009/08/25/0908264106.abstract

Eu tive conhecimento do artigo através do Twitter do Luiz Bento do Discutindo Ecologia que me levou a este blog, onde se pode ler mais em português e esta muito bom:

http://scienceblogs.com.br/rnam/2009/08/criacionistas_perdem_mais_um_r.php

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Porque discutir com criacionistas.

O Mats, no seu blogue "Genesis contra Darwin" diz assim:

"Sob o título de "Estudo Sugere que os Primeiros Animais Evoluiram em Lagos e não nos Oceanos"os evolucionistas da National Geographic News contradizem uma das crenças fundamentais da teoria da evolução. "(1)

Esta frase é aquilo que podemos chamar de intelectualemte desonesta. Antes de mais, a origem da vida não é um pilar de suporte da Teoria da Evolução. Quanto muito o modelo evolutivo poderá sugerir o tipo de processo que iniciou a evolução. Mas não é nada em que a teoria se baseie. A teoria, ou mais correctamente o modelo é sobre a evolução e não sobre a origem da vida. Que se estejam a descobrir evidências que suportem uma origem evolutiva da vida é absolutamente desnecessário para provar que há evolução. Mas estão-se a fazer essas descobertas. escrevi sobre isso diversas vezes. Esses posts estão sobre a etiqueta origem da vida (2).

A desonestidade ainda vai mais longe, se o que está em causa é o local onde a vida apareceu. E ainda por cima se se considera que estudos que sugerem que a vida surgiu num lago salgado em vez de no mar fragilizam ou contradizem a teoria da evolução. Porque é isso que o artigo diz (lago salgado em vez de no mar). Sigam o link! Como é que isso contraria a teoria da evolução? É mais um disparate criacionista pouco ralado com a lógica. Esse não é um aspecto fundamental da teoria - ser num lago salgado ou no mar.

Porque então perder tempo a responder a estas coisas tão óbvias? Sobretudo porque os criacionistas são tão poucos em Portugal?

Porque a Teoria da Evolução é uma teoria cientifica formidável, tão sofisticada como a mecânica quântica ou a teoria da relatividade e igualmente difícil de compreender. É preciso saber lidar com números grandes e probabilidades, entre outras coisas, para a perceber a fundo.

É fácil, para quem não se debruça frequentemente sobre o tema, pensar encontrar entraves. E os criacionistas abusam disso. Acho que é importante haver divulgação em nome da verdade. E estes debates ajudam a divulgar. Porque se não o fizermos, podemos ter que a aturar nas escolas em uns poucos de anos como acontece nos estados unidos. Em vez de estar à espera que os investimentos económicos dos criacionistas (3) não tenham impacto na população, mais vale apontar sistematicamente a sua lógica perversa.

Nem que seja porque a verdade é importante (4) e a ciência pode não ser a explicação perfeita, mas é o melhor que se consegue. E nós precisamos dela. A única hipótese de manter a humanidade com os números actuais e a viver em condições é usarmos toda a nossa tecnologia para nos dar essas condições. E os criacionistas querem redefinir o que é ciência para explicar determinadas coisas como tendo origem em entidades sobrenaturais. Querem usar a tecnologia mas destruir o método que lhe deu origem sem pensar em consequências. Em rigor, dizem que determinadas coisas que os contrariam não são ciência. A perversão é enorme.

Adicionalmente, a discussão faz parte do método cientifico, não exactamente com leigos que nem sequer sabem distinguir ciência de pseudociência, mas discutir com criacionistas parece-me um modo de mostrar porque a ciência explica as coisas da maneira que explica - e porque aceita como teoria uma coisa e não outra. Neste casos aceitou a teoria da evolução e rejeitou o criacionismo que foi um modelo aceite até Darwin e até por muitos cientistas importantes (se bem que muitos também não eram realmente biólogos, onde a dúvida fermentava...).

Já tenho falado sobre o principio da falsiabilidade várias vezes, e a Internet está cheia de explicações e justificações da sua importância, por isso hoje já chega.

Mas ao discutir com criacionistas acho que também nos apercebemos melhor do porquê de a ciência funcionar como funciona, com discussão honesta e aberta e exigência acerca das teorias que aceita.

E ao denunciar argumentos tão escandalosamente inadequados como este, chamar a atenção para o que sugere o seu uso.

Os criacionistas não são sequer capazes de explicar o mecanismo que impede um organismo de evoluir. A não ser a explicação do pecado original que diz que só nos podemos degradar e que as mutações TÊM de ser más. Porque Deus quer. E porque Deus criou. Mas isso não explica como funciona nada.

E só por curiosidade, porque não passa disso: Darwin achava que a vida tinha surgido num lago quentinho.

(1)http://genesiscontradarwin.blogspot.com/2009/08/afinal-vida-nao-comecou-nos-oceanos.html
(2)http://cronicadaciencia.blogspot.com/search/label/Origem%20da%20Vida
(3) Parque Discovery: http://discovery.pt/PDiscovery.swf
(4)http://cronicadaciencia.blogspot.com/search/label/verdade

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Estruturas dissipativas II - Sistemas cognitivos que evoluiem e os outros.

A teoria dos memes, vem da analogia que há entre como as ideias se propagam e evoluem e a forma como o fazem as nossas características fenotípicas. O gene e o meme são as unidades básicas e funcionais de cada um dos processos.

Acerca do "post" de ontem (1) , sobre auto-organização, não pude deixar de reparar o seguinte:

As estruturas dissipativas só surgem em sistemas abertos, com uma fonte de energia externa, em sistemas longe do ponto de equilíbrio

E agora vou especular um bocadinho:

E se a entrada de energia é a questão crítica para um sistema físico evoluir contra a entropia, tendo portanto de ser aberto, então a entrada de informação será o factor crítico para um sistema cognitivo evoluir também. Sistemas cognitivos só evoluem se forem abertos. Se entrar constantemente informação. Sistemas cognitivos fechados onde a informação não entra não evoluem. Tornam-se dogmáticos e mantém-se estáveis e imutáveis ao longo do tempo. Como por exemplo o criacionismo.

A ciência não. A sua natureza empírica e o seu naturalismo metódico obrigam a procurar extrair toda a  informação que se conseguir do mundo físico. Foi isso um dos factores mais importantes que a terá permitido  evoluir. Isso, e a abertura à critica. 

Por isso refutações, sugestões e ideias são bem vindas. Há espaço embaixo para isso.

(1) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/08/estruturas-dissipativas.html

domingo, 2 de agosto de 2009

Estruturas dissipativas.

Ilya Prigogine, prémio Nobel da quimica em 1977, dedicou-se ao estudo do aparecimento de estruturas mais organisadas, em contradição aparente com as leis da termodinamica que dizem que tudo caminha no sentido da desordem.

O que Prigogine descobriu é que em determinadas condições - sistemas abertos longe do ponto de equilibrio - se podem formar estas estruturas dissipativas (de entropia) e enquadrar focos de auto-organização. Uma estrutura dissipativa captura energia e exibe ordem.

Ele notou que apenas sistemas abertos evoluiem, os fechados não. Apontou como exemplos os fenomenos de cristalização, e da formação de furacões. Pode parecer estranho mas aquela coisa a andar à roda e a mover-se pela superficie do planeta é uma estrutura mais organisada que as moléculas de ar a baterem uma contra as outras desordenadamente.

Sistemas abertos são aqueles que trocam energia ou matéria com o meio exterior. Como na Terra, a entrada constante de energia solar. A entropia no Sol aumenta brutalmente, mas na Terra, não. No entanto se se considerar o Sol e a Terra como o mesmo sistema, já temos um sistema em que a entropia aumenta. Conclusão obvia é que não vai durar para sempre.

Prigogine conciliou deste modo a Teoria da Evolução com as Leis da Termodinâmica.

sábado, 1 de agosto de 2009

Machos e fêmeas como exemplo de aumento de informação.


Os criacionistas têm um problema com as mutações. Uma vez que admitem a sua existência vêm-se forçados a autenticas manobras ilusionistas para demonstrar que elas não podem aumentar a informação existente no ADN. O que, quando admitem que existem mutações prejudiciais, fazem.


Porque, a informação em si, é cega ao critério de bondade. Quem não é cego somos nós, seres conscientes, e sobre uma perspectiva realmente implacável, a selecção natural. Mas a informação já lá está.


De facto, quando surge uma mutação que origina uma doença genética, temos de aceitar em termos literais que a informação total disponível no genoma aumentou. Antes, não havia informação capaz de codificar(1) essa doença. Até porque, nem o ADN, nem a célula que o usa, têm maneira de saber, até a selecção actuar, se a mutação é boa ou má.


Mas vejamos em termos abstractos o seguinte:

Temos uma população de indivíduos, que para uma dada caracteristica X têm alelos A e B. Imaginemos que esse gene B que codificava para a mesma caracteristica X, por isso se diz alelo, sofre uma mutação num particular individuo. Esse individuo passou a transportar em vez do alelo B, o alelo novo que agora vamos chamar C. Mas na população em que ele vive, existe muita gente com o alelo B ainda . Por isso, se considerarmos esta população a enfrentar a selecção natural vemos claramente que há mais por onde escolher. No património genetico total existem agora os alelos A, B e C. A quantidade de informação aumentou.


Os criacionistas dizem então que as mutações são sempre más, e por isso é que a informação não aumenta. Mas infelizmente, as más noticias também são informação. Respondem então que não é possível uma mutação trazer uma caracteristica nova benéfica. Eu já aqui disse que quando elas surgem não são boas nem más e até dei o exemplo da anemia falsiforme que é boa em países onde há malária, porque protege do parasita e é má dos países onde não há, porque resulta numa anemia, ainda que se consiga viver com isso (senão não se tinha propagado tanto, certo? É frequente até aqui ao Mediterraneo e conheço pelo menos uma pessoa que a tem).


Mas existem mais exemplos, que também aqui já falei, como a capacidade de metabolizar citrato que foi adquirida por bactérias E. coli numa experiência exaustiva realizada ao longo de milhares de gerações de bactérias. Ou a capacidade de digerir Nylon, uma substancia que não existia na natureza até a começar-mos a deitar fora.


Mas um criacionista conhecido da blogosfera pela sua hiperactividade no "festival do copy-paste" acrescentou um argumento novo ao seu estafado material que me lembrou que era de facto um bom argumento para demonstrar o que acabo de escrever.


Ele diz assim:
“"os genomas estão a perder informação genética. Isso foi recentemente observado em estudos sobre o Cromossoma Y (que está a perder genes) e foi novamente confirmado no estudo de muitos mamíferos. "


Isto era para argumentar que o ADN se esta a deteorar. Mas vamos pensar sobre os factos.
Os cromossomas X e Y têm a mesma origem.  São virtualmente iguais excepto que ao Y faltam partes, porque é muito mais pequeno. Sabemos que deleções existem, o caro Prespectiva até confirma isso, e temos que o cromossoma Y é igual a um X a que faltam bocados (há inversões e outras mutações também mas para o caso, isso não é realmente importante, são mutações na mesma).  Por isso doenças como a hemofilia que estão ligadas ao cromossoma X são mais, mas muito mais frequentes nos machos, porque esse cromossoma X, herdado da mãe, portador do gene deficiente, não tem o seu alelo homologo no cromossoma y para interagir e determinar o fénotipo. Isto é, todas as características são determinadas por dois genes, em principio, um que vem do pai e outro que vem da mãe, excepto nas partes do cromossoma X que corresponde ao braço do cromossoma Y que falta. Esses genes determinam tudo aquilo para que servem sozinhos. Nas mulheres, para aparecer a hemofilia, já de si rara, precisamos que o individuo seja homozigótico, (tenha dois genes iguais) uma vez que o gene é recessivo. Ver figura.


Voltando ao essencial, temos então que por mutações passou a ser possível haver uma diferença fundamental entre dois grupos de individuos. Os machos e as femeas. Os homens e as mulheres. Sabe-se hoje que esse não é o único factor que determina o sexo, mas é muito importante, talvez o mais importante e o único que se conhecia durante muito tempo.
Resumidamente, onde antes só se conseguia ter XX ( o que representa quase sempre femeas nas espécies actuais), é possivel ter XY. E também XYY, ou só X e variantes com varias linhagens de celulas diferentes (quimeras), mas isso fica para outro post.
Quero ver agora como os criacionistas vão argumentar que haver machos e femeas representa uma redução na informação contida no DNA e que isso é uma coisa má. Porque segundo eles, até foi Deus que criou os dois sexos.

(1) Como já aqui discuti no CdC, existe uma diferença fundamental entre o tipo de armazenamento, processamento e tradução do ADN e outros códigos para que ele seja considerado literalmente um código. Todos os códigos requerem convenções, tal como o código de um programa de computador requer o código fonte. A convenção é algo combinado e requer de facto inteligencia e intencionalidade. Isso não existe na “codificação do ADN”, e de facto o próprio Watson Crick que descobriu o ADN e cunhou o termo no sentido biológico admite que a palavra mais correcta para usar seria “cifra” mas que código era mais sonante.
A imagem saquei da wikipédia.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Outra vez a lei de Occam e o criacionismo.

O Mats, um criacionista do blogue "Génesis contra Darwin" (que parece esquecer que o Darwinismo é uma forma primitava do modelo evolutivo, talvez por o Genesis não ter recebido nenhum "update" nos últimos 2000 anos), diz assim em resposta a um comentário meu:

"Ai é? Alguém observou o início do universo? Não. Alguém observou o surgimento da vida? Não. Alguém observou o dinossauro a evoluir para passarinho? Não. Alguém observou o animal terreste a evoluir para baleia? Não. Alguém observou o primata a evoluir para o homo sapiens? Não.

Portanto, segundo a tua definição de "ciência", esses eventos estão fora do domínio da mesma, certo?" (1)

Não, errado.  

A ciencia debruça-se sobre o que é observavel e tem efeitos no mundo material. Isso é o materialismo. O que é observavel e mensuravel indiretamente através dos seus efeitos também pertence ao ambito da ciência.

Por isso sabemos que existem electrões, buracos negros e vários tipos de forças. 

Se tentarmos explicar uma medição ou observação qualquer com uma entidade não medível nem observavel não vamos chegar a lado nenhum. É equivalente a dizer "porque sim". Não explica realmente. Sobretudo se podermos explicar determinado fenómeno com entidades ou processos que têm implicações observaveis e mensuraveis. 

A lei de occam, que diz que as entidades não devem ser replicadas para além do necessário é acerca desta questão. É um pilar da ciencia, comprovado experimentalmente ao longo dos séculos conforme fomos explicando fenómenos do mundo fisico através de entidades do mundo fisico. 

Racionalmente não é dificil entender que se uma entidade não tem efeitos mensuraveis e observaveis, então a plausibilidade que ela explique um fenómeno é baixa. Porque se faz alguma coisa que se veja, então é testavel. E pertence ao mundo material. Se não é testavel mas o podes explicar sem recorrer a entidades superfluas, então esta é a melhor explicação.

Enquanto tentarmos explicar a chuva com deuses, as doenças com duendes e forças intestaveis, etc, não estamos a compreender nada.

A teoria da evolução tem poucas observações directas (e eu aqui no blogue ja referi algumas como a experiencia de Lenski), mas muitas indiretas. Muitos efeitos observados hoje são melhor explicados pelo modelo evolutivo do que por uma entidade que se diz estar lá mas não se pode provar.

E sabemos que os electrões existem porque a electricidade tem o efeito da dar luz. E sei que a velocidade com que algo se move no tempo e espaço somada tem de ser igual a C (velocidade da luz no vácuo) porque as equações e previsões que esta hipotese (Teoria da relatividade restrita) proporciona podem ser confirmadas esperimentalmente. 

A evolução deixa um rastro no DNA sob a forma de mutações neutras. E consequentemente na sequencia de aminoacidos nas proteinas, onde algumas mutações nem significado biologico têm porque dão origem à mesma sequencia.  

E os resultados das comparações, entre especies, do numero destas mutações,  são extraordinariamente consistentes com o seu aspecto fisico (morfologia) e com os achados de datação radiometrica. Tudo coisas medíveis e observaveis.

Porque Deus haveria de introduzir mutações neutras nas proteinas de cada espécie  na proporção exacta que existe se fizermos essa previsão  baseada na morfologia dos seres vivos? Para nos enganar?

Ou seja, existe tanta diferença entre o numero de mutações neutras  como a que seria de esperar se fizessemos essa previsão de acordo com a teoria da evolução.

O que cumpre o principio da Falsibilidade. 

Ou então são formidaveis coincidencias. Tal como o ovo partir-se cada vez que cai no chão ser uma coincidência.

(1)https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20012779&postID=5641787868466963778

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Evolucionismo


Fotografia feita perto de Torres Vedras, cerca de 8mp.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Desígnio Inteligente e o cunho pessoal.

O criacionismo e o movimento do DI são a mesma coisa. Vestem roupas diferentes mas por baixo é igual. A negação do materialismo que tantos resultados trouxe à humanidade - a ciência é materialista , azar, não há nada a fazer, é assim que funciona(1) - e a insistência no fixismo absoluto de criação instântanea são as características mais marcantes desta pseudociência.

Um dos argumentos centrais, sobretudo no DI, e que lhe dá o nome é de que se tem aspecto de que serve para alguma coisa, é porque tem um criador inteligente. Mais dizem, que se pode perceber logo ao olhar, que como é muito funcional, tem de ter um criador esperto.

Dão como exemplos, repetidas vezes, artefactos que se possam encontrar - de arqueologia - em que se topa logo que tem um criador inteligente e que não se confundem com uma pedra (ou outra coisa que pode ter um criador mais burro). Que espanto. Mas embora as pedras até sirvam para alguma coisa, estamos a falar de coisas mais complexas, como por exemplo um vaso. Mas também ninguém vai começar logo a dizer que foi Deus que terá feito estes artefactos, (se bem que sempre me impressionou a perfeição daquelas laminas de sílex lascado) ou confundir um pergaminho de Nag Hammadi com fosseis de vegetais.

A questão aqui, é que à semelhança de uma ilusão de óptica, estes pseudocientistas procuram abusar de um ilusão cognitiva, a primeira de uma série delas. Passo a explicar:

O cérebro humano, para aumentar a velocidade como reconhece coisas, funciona à base de identificação de padrões e compartimentalização de conhecimento. Desde um nível muito baixo, como por exemplo, na reconstrução dentro do cérebro de uma imagem captada pelo olho (Googlem ilusões de óptica para ver consequências disto) até um nível mais elevado do processamento cognitivo e intelectual. Identificar e reconhecer uma rã leva apenas instantes para a maioria de nós, porque a encaixamos imediatamente no local certo. Não precisamos de estar de cada vez a seguir um algoritmo exaustivo como se fossemos taxonomistas virtuosos. O padrão é reconhecido e depois, até mais facilmente podemos buscar o resto da informação (tipo é vertebrado, sofre metamorfoses, etc).

É claro que por um conjunto de razões temos facilidade em reconhecer artefactos humanos ou obras de arte mal olhamos para elas. Mas não é por terem um criador inteligente. O que nós reconhecemos mesmo são os padrões que utilizamos para construir coisas. Podemos muitas vezes, instantaneamente, dizer imediatamente do que se trata e até onde foi feito (ex: calculadora digital, relógio, feito na china).

Agora, chegando a esta fase, os criacionistas pedem que o único critério e padrão que nós usemos seja o da complexidade e utilidade, para juntar uma série de outras coisas àquelas que têm origem humana. Por tudo na mesma gaveta sobre o rotulo "Criação Inteligente".

Depois, como não vão dizer, "estão a ver, os dentes servem para trincar, logo foram feitos pelo homem", tem de dizer que foram feitos por outro criador inteligente e que mais esse criador tem de ter tido intencionalidade - é essa a característica que eles querem confundir com a percepção de complexidade e utilidade. Mas, se prestarmos atenção, a ilusão é desfeita ao debruçarmo-nos sobre a questão:

Mas não há outra maneira pela qual estas estruturas, (seres vivos) se possam ter surgido?

Eles querem que isto, o argumento DI, seja um pressuposto, para depois terem de concluir que foram aliens que criaram os animais, perdão que foi Deus. Mas é ao contrário. Só podemos concluir que é obrigatório ter origem inteligente e intencional senão houver uma explicação melhor. Porque pelas caracteristicas sabemos que não foi o homem e precisamos de colocar uma entidade extraordinária no processo, que sendo intestável (sim, a hipótese Deus é intestável) tem de ser postulada, não só a sua existência, mas também o seu papel de criador. Violando o principio de Occam.

Adicionalmente, existe uma muito boa explicação para o surgimento de formas de vida tão bonitas e incríveis. Chama-se modelo evolutivo, ou síntese evolutiva moderna.

Por mais que lutem os fixistas de várias religiões, as confirmações da evolução vêm por várias linhas de confirmação diferentes e são consistentes e convergentes. Como eles têm vindo a demonstrar, é preciso andar a escolher a dedo entre o que é ciência e o que não é para dizerem que são amigos da ciência (se calhar só para poderem continuar a jogar computador) e que a evolução não é ciencia. Que é mito materialista. Treta.

Agora a parte mais curiosa.:
A selecção natural poderá ser em si considerada um processo inteligente (mas não consciente, característica que lhe falta para que a comecemos a venerar). Matematicamente a ideia tem sido explorada na informática em programação de algoritmos genéticos.

Mas mais interessante ainda é existirem suspeitas de que o funcionamento do nosso cérebro, mais concretamente a inteligência seja muito semelhante à evolução. Perante um desafio, novas sinapses se formam em grande numero e depois só ficam as que servem para um circuito neuronal funcional. Conseguem ver a analogia com mutação (criação de diversidade) e selecção natural (synapses inadequadas ou não utilizadas perdem-se)?

Também aqui a natureza se repete. A evolução deu origem à inteligencia que não é mais que um processo evolutivo mais sofisticado (um pouco de antropocentrismo faz bem ao ego). Sim, porque em toda a sua diversidade, a Natureza repete-se. E o mundo vivo ainda mais. Essas semelhanças permitiram construir uma árvore da vida que sugeriu a evolução a Darwin. Os fixistas dizem que isso é antes prova de que existe um Criador comum.

No outro post de anteontem chamei a isto o argumento da falta de imaginação do criador". Eu não estou de acordo, volto a dizer que eles é que argumentam nesse sentido. Mas estive a pensar no assunto. Sendo a evolução um processo criativo e não me parecendo que tenha pouca imaginação, apesar de se repetir, (e uma vez que já vimos é análogo ao processo de inteligência), acho que era mais sensato, e depois de tudo o que sabemos apontar para algo como uma marca de artista ou cunho pessoal do artista. Se a evolução tivesse consciência, o que não tem.

Mas tem definitivamente um padrão que podemos identificar num instante. Os artistas chamam orgânico a esse aspecto, e vêm-no na arquitectura, escultura, etc... A evolução explica o aspecto orgânico e repetitivo através da ascendência comum a viver num mundo comum a adaptar-se progressivamente. Eles explicam-no através do Criador comum.

Porque os fixistas insistem que o criador, omnisciente e omnipresente tinha um cunho artístico pessoal, ultrapassa-me.

A não ser que ele tenha criado o mundo biológico... Evolutivamente!

Mas depois desta conversa toda, e para ser sério, tenho de sublinhar o que interessa. O argumento de designio inteligente tem de ser provado e não servir como prova. É tudo.


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(1) materialismo já não é obviamente dizer que a matéria é tudo o que existe, mas antes que o universo pode ser estudado através de efeitos mensurados na matéria. Se não acontece, não existe. Se existe, é preciso procurar onde causa efeitos. Para saber mais perguntem a um filosofo.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Genética, proteínas e a árvore da vida.

Árvore da vida é o nome popular de um esquema taxonómico onde as espécies são agrupadas e ramificadas por morfologia. A ideia é anterior a Darwin mas foi ele quem primeiro apresentou uma teoria capaz de a explicar consistentemente.
Os criacionistas procuram explicar a árvore da vida pela existencia de um Criador comum. As espécies são morfológicamente parecidas porque o Criador foi o mesmo e fez tudo parecido. Poderia chamar-lhe o "argumento da falta de criatividade do Criador" se eu não achasse que a natureza é um espectáculo. E só refiro este pormenor, da falta de criatividade, porque são eles que argumentam nesse sentido. E que a natureza se repete, é um facto. 
Mesmo assim, não explica satisfatóriamente porque as gradações são tão suaves de espécie para espécie e formam tão coerentemente uma "arvore da vida". O criador teria de ter criado as espécies de um modo evolutivo para justificar essa gradação. Nem que fosse por criar o organismo seguinte baseando-se no anterior. Mas isso fica para outra altura.
O que torna a teoria da evolução uma ciência é a capacidade de fazer previsões falseaveis. Mas nem o próprio Darwin esperava o modo como a evolução iria ser testada e suportada. E que dimensão iria atingir, mas mais uma vez isso é outra história.
A genética e a bioquímica, viriam a ser das areas que mais suportam a evolução. Em relação à árvore da vida, por poder replicar a mesma arvore partindo de um ponto completamente diferente. Como por exemplo a partir da estrutura proteica. Passo a explicar:
As proteínas são compostas por sequências de aminoácidos e a sua função está muito ligada à sua forma. Alterações relativamente pequenas na sua sequência de aminoacidos, resultam frequentemente em formas diferentes com perda de função. A não ser que haja um mecanismo que além de introduzir modificações na sequência (mutações) também elimine aquelas que já não funcionam (selecção natural). Isto estando a falar de proteínas que têm a mesma finalidade em especies diferentes. Por exemplo a mioglobina - ver aqui (1)(2).
Quando se começou a sequenciar as proteínas, de acordo com a teoria da evolução, era de esperar que especies mais proximas tivessem proteínas mais proximas (mais parecidas na sua sequencia de aminoacidos). E que mutações que dão origem a sequências funcionais não só existissem como se acumulassem com a distancia (diferença) entre espécies. Porque a teoria da evolução prevê um ancestral comum a cada ramificação da árvore. Mais tempo desde a separação ou ramificação decorrido desse ancestral comum, tem de significar mais mutações. Resumidamente, é isso que se verifica. Pode-se inclusivamente reconstruir a arvore da vida a partir das proteínas. Se isto não acontecesse a teoria da evolução era falseada. As arvores da vida, feitas a partir da morfologia animal e da sequenciação das proteinas são a mesma.
Atribuir estas alterações na sequência de aminoacidos nas proteinas a um criador, pela lógica, só tem uma justificação que é: Porque o Criador quiz fazer assim. A questão é que se enveredarmos por explicações do género do "porque sim", então mais vale desistir de querer saber seja o que for. Que é na realidade o que quem defende essas teorias faz. Ou se calhar não quer apenas que os outros queiram saber. Não sei. Continuando...
Mais incrivel ainda é que a nivel do DNA que codifica essas proteínas, se estudarmos os segmentos de DNA correspondentes a cada proteína e em cada espécie vamos poder novamente replicar a árvore da vida tal como a desenhamos a partir da morfologia. Com um argumento adicional. Algumas mutações não dizem absolutamente nada, são redundantes, porque como cada 3 sequencias de bases de DNA codificam um aminoacido, há varias sequencias de 3 bases a codificar o mesmo aminoacido. Essas mutações são cegas para a selecção, no sentido em que estão lá mas não dão origem a proteínas diferentes. São completamente neutras. Se a evolução é uma realidade, é de esperar que quanto mais afastadas as espécies são mais mutações neutras acumulem entre si no DNA. Porque elas não são eliminadas - são neutras. E em rigor estatistico, esta previsão também se verifica (3).
Porque havia o criador de as colocar lá? Para nos fazer acreditar na evolução?
Existe no entanto uma pequena excepção a tudo isto. Alguns seres vivos são capazes de trocar informação entre si, ou seja, transferir o material genético horizontalemente e não verticalmente para a descendencia como por exemplo na espécie humana. Sobretudo em organismos primitivos vamos encontrar uma grande miscelanea de materiais genéticos. Mas o que temos aí é que a árvore da vida é uma rede, embora a designação de arvore se mantenha. Mas isto não refuta a evolução porque ela não faz previsões deste genero para transferencia horizontal de genes.
Espero que tenha sido claro.
Referências e leitura adicional:
Obrigado ao Ludwig Krippahl por me ter indicado os posts que procurava.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A diferença...


Um comentador, anteontem, no post “criticando o criacionísmo num blogue chamado Darwinísmo” (1) confunde o que são pressupostos com factos e teorias. Por isso confunde evolucionismo com fé. E criacionismo com ciência.

Os pressupostos da ciência são os princípios em que esta precisa de assentar para se conseguir os factos e depois as teorias. São os princípios de funcionamento.
Estes principios são os mesmo em toda a ciência. E são opostos de ter uma teoria a proteger e depois ter de escolher de entre os factos aqueles que nos servem. A ordem é diferente. E o resultado está à vista. A ciência evolui com o surgir de novos dados e o criacionísmo não. Mantém-se um fóssil cognitivo.

Mas pensei que estava claro. Espero que agora a diferença já esteja bem explicita.

Notas:
O cartoon é de John Trevor e foi publicado no Albuquerque Jornal 1998. A minha fonte foi secundária, foi o blogue Lusodinos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Fosseis de dinossauros encaixam perfeitamente na árvore da vida.

Uma estudo recente da Universidade de Bath, conclui que há uma concordância muito boa entre a analise morfológica dos fosseis de dinossauros e a sua análise cronológica.

Da analise morfológica pode-se desenhar uma "árvore da vida", de acordo com as características de cada fóssil. As divergências quando ocorrem criam novos ramos que vão prosseguir até uma nova alteração que dê origem a outros dois ramos. Ou três ou quatro.

Seja como for, a teoria da evolução prevê que conforme se forem encontrando novos fosseis, eles se vão encaixando na "árvore da vida" e que a sua análise cronológica seja coerente com estes resultados. Isto é, não encontrar formas mais evoluídas em ramos inesperados antes ou depois do que era previsto. Se tal acontece-se a teoria era falsificada.

Anomalias no registo fóssil podem aparecer. Segundo o artigo as explicações mais frequentes são a inexistência de fosseis suficientes para fazer um quadro completo, erros no desenho da árvore ou ambos. Fala ainda da existência de lacunas no registo fóssil, ou porque ainda não foram encontrados ou porque existem condições particulares para a formação dos fosseis.

Mas de acordo com a análise estatística levada a cabo com dinossauros esse problema não existe. O nosso conhecimento acerca da sua árvore da vida é bastante completo.

Que espantosa coincidência esta entre a datação por carbono e a morfologia. Aparentemente, pelo menos, os dinossauros evoluem (ou evoluiram). Se calhar as outras espécies também.

Pode ler-se o "press-release" aqui:

http://www.bath.ac.uk/news/2009/1/26/dinosaur-fossils.html

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Criticando o Criacionismo de um blogue chamado Darwinismo

O Mats, um defensor do criacionismo, no seu blogue chamado “Darwinismo” (!?) , dedicou uma entrada (1) a responder ao meu “post” intitulado “mutações cumulativas”(2). Ele começa assim:

“No blog intitulado de “Crónica da Ciência - Divulgar ciência, cepticismo e pensamento crítico”, encontramos este post onde tudo que é divulgado é mitologia mascarada de ciência.
Não deixa de ser impressionante a quantidade de falsas crenças que dominam a religião evolucionista.”

Por trás destas afirmaçôes só pode estar a ideia de que existem algo como duas ciências. Existe aquela que lhes trás a tecnologia, utilizada no dia a dia e que suporta as suas crenças, e a outra - que sendo incompatível com os seus postulados teóricos – se trata de uma espécie de mitologia.

Mas a ciência é a mesma. Não existe uma ciência que assente em qualquer tipo de mitologia, como se tivesse uma lista de factos e teorias definidos à priori a partir dos quais tivesse de se elaborar todo o resto. A ciência parte de facto de um conjunto de pressupostos e de princípios básicos, que evoluem, mas eles são transversais às diversas áreas. A fundação na Lógica e na Matemática, a experimentação sistemática e a preocupação com a metodologia, os critérios de falseabilidade e valor preditivo das teorias, o rigor da descrição das observações, a abertura a refutação, o principio de Occam, etc.

É o criacionismo, neste caso, que como tem de partir de determinados factos e ou teorias pré-determinados, depois precisa de fazer uma escolha quase ad-hoc entre o que é ciência e o que não é, para poder afirmar que se trata de uma teoria científica. Digo quase ad-hoc porque afinal tem um critério de exclusão. E o critério é não entrar em contradição com as teorias que pretende manter intocáveis.

Por isso, é preciso para ele por de parte quase toda a biologia, onde nada faz sentido sem ser à luz da evolução como dizia Dobzhansky (3). É preciso acabar com a estratigrafia e parte da geologia -com a paleontologia de enfiada, a datação por carbono 14, negar o resultado de experiencias como as de Lensky (4) e mais recentemente de Lincoln e Joyce (5), negar a existência de fosseis de transição (6), os resultados obtidos com algoritmos genéticos em matemática, etc… E negar a excelente integração da genética com o modelo evolutivo. Aliás, negar uma grande parte da própria genética como o estudo de mutações, hereditariedade, etc.

Mas a negação mesmo presente no texto do Mats, a que ele explicíta é:

“1. Mutações re-organizam e/ou apagam informação que já exista.. Elas não geram novas funções genéticas.2. As mutações são na sua esmagadora maioria malignas para o sistema biológico. Acreditar que um processo aleatório como as mutações genéticas possam gerar sistemas sofisticados como o sistema de visão é ter uma fé imensa e totalmente infundada.”

Não é assim. As mutações quando aparecem podem ser de vários tipos. Por diversos processos e com variadas consequências. Podem ir desde uma troca de um nucleotideo por outro, a perdas de bocados de cromossomas ou duplicação do seu numero. Acrescentam diversidade ao genoma. Ou seja, vai haver mais genes no total no património genético de uma população depois da mutação do que antes. E quando aparecem não são boas nem más. Isso é determinado pelas suas consequências.

A adaptação e a sobrevivência, para o meio ambiente específico do organismo melhorou ou piorou? Ou manteve-se igual? Às vezes melhora nuns casos mas piora noutros como no caso da anemia falsiforme que aumenta a resistência a um parasita dos glóbulos vermelhos (plasmondium) mas pode ser um sarilho sem vantagens em regiões onde a malária não é um problema. Esta resistência à malária é ganha através da simples troca de ácido glutâmico por valina (aminoácidos) na cadeia de aminoácidos da hemoglobina. Nem precisa de grandes alterações genéticas. Os resultados no entanto são enormes, nas zonas onde há malária essa mutação mostrou ser mais bem adaptada que a versão normal do gene.

Que elas resultem “na sua esmagadora maioria” malignas para o sistema biológico não é de estranhar. A probabilidade de uma mutação pontual surgir que melhore ainda mais aquilo que tem milhares de anos de evolução é pequena. Mas não inexistente. E muitas vezes é preciso um acumular de várias mutações, que até podem ser neutras, para dar origem a uma nova função, como ilustrado na já referida experiencia de Lensky. É obvio que se acreditamos que a Terra só tem cerca de 6000 anos, não vai haver tempo para tal processo. Mas resultados CIENTIFICOS não convergem nessa direcção. Nem pouco mais ou menos.

Quanto ao acreditar que processos aleatórios não podem dar origem a mecanismos complexos como o olho é não querer compreender a analogia que eu dei do desenho do gato. Mas como eu disse, se no caso do desenho do gato poderia argumentar-se que era preciso uma guia ou algo parecido que fosse inteligente, em relação à filtragem das mutações por selecção natural essa guia é o meio ambiente. A realidade é de facto melhor que a analogia. Ela só foi criada para explicar, aparentemente a quem tem vontade de aprender. Explicar como o acumular de mutações geradas ao acaso, por acção ambiental podem dar origem a estruturas complexas. Que existem diferentes graus de adaptabilidade dos indivíduos conforme as suas características é uma facto. Que estas estão parcialmente determinadas pelo código genético (genotipo/fenotipo) também é um facto. Que mutações acontecem com consequências variadas é outro facto. Que se a natureza exclui as más por inviabilidade total (curto prazo) ou parcial (longo prazo) - as neutras e as “boas” se vão acumular, é lógico.

Quanto ao olho humano, obvio que não surge de um dia para o outro. É preciso um acumular de mutações que vão dando origem a estruturas progressivamente mais complexas e funcionais, como eu tenho referido. De resto, o caso do olho está muito bem explicado no livro “O Relojoeiro Cego” do Richard Dawkins e eu já o abordei aqui noutro “post” (7).



(1)http://darwinismo.wordpress.com/2009/02/04/mutacoes-e-mitologia/
(2)http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/01/mutacoes-cumulativas.html
(3) Ver aqui um post sobre Dobzhanzky:
http://lusodinos.blogspot.com/2009/01/theodosius-hryhorovych-dobzhansky.html
(4) Lensky; a experiencia sugere fortemente como o acumular de várias mutações e não apenas uma foi necessária para surgir uma nova função em bacterias E. coli: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2008/11/uma-prova-favor-da-evoluo-mais-uma.html
(5) Lincoln e Joyce; mostram a evolução a acontecer ao nivel de moleculas:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/01/sobre-origem-da-vida.html
(6) Sobre fosseis de transição:
http://lusodinos.blogspot.com/search/label/F%C3%B3sseis%20de%20Transi%C3%A7%C3%A3o
(7) Sobre a teoria da evolução:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2008/09/teoria-da-evoluo.html

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Mutações cumulativas.

A questão de fundo do desígnio inteligente, e do criacionismo que no fundo são a mesma coisa, é que determinado nível de resultados não pode ser obtido a partir do acaso.

Mas por acaso, pode.

Por exemplo, vou tentar fazer uma analogia com um desenho. Como é que pontos feitos ao acaso numa folha de papel podem desenhar um gato?

Se houver um processo de selecção que leve a um acumulo dos pontos que foram feitos no sitio certo. Cada ponto feito fora do sitio é apagado. Cada ponto feito no sitio certo (na linha virtual do desenho) mantém-se. Ao fim de muitos pontos apagados e depois de ter saído um numero de pontos suficientes para quase cobrir a folha toda, o gato esta desenhado.

Agora que já desenhámos um gato com pontos feitos ao acaso, deixem-me falar da teoria da evolução.

Na teoria da evolução as coisas passam-se de uma forma parecida. Aparecem mutações ao acaso. Aquelas que estão "erradas", isto é, que não contribuem para o sucesso adaptativo são apagadas. Ficam as outras. Que se vão acumulando. É o efeito cumulativo de mutações que permite a evolução e o aparecimento de novas características.

E se no caso do desenho do gato se pode argumentar que ainda não podia ser totalmente ao acaso, quer seria preciso uma "inteligencia" para discernir os pontos certos dos mal colocados, no segundo caso teriamos de argumentar que a selecção natural é uma forma de inteligencia. Ou aceitar que depois do acaso, a selecção natural resolve o problema.