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quinta-feira, 7 de julho de 2011

"The Fallacy of Fine Tuning" por Victor Stenger

O “fine tuning” é o argumento de que o universo foi concebido especificamente para haver vida, partindo da premissa que as constantes que temos para valores naturais, são não só bem conhecidas, como não poderiam ser outras se quisermos que a vida seja possível. Outra das premissas de que parte este argumento é que a vida será sempre do tipo da que conhecemos aqui na terra.

Isto implica alegadamente a existência de um ser ainda mais organizado e complexo para explicar o nosso universo – Deus. O ”fine tuning” de facto tem sido um dos argumentos a favor da existência de Deus mais usados nos nossos dias.

Victor Stenger, ateu convicto e reconhecido, apresenta neste livro, argumentos que segundo ele próprio não se destinam a provar de uma vez por todas que não há fine-tuning através de provar como se formou o universo – apenas a provar que não temos razões para dizer que há "fine tuning" e que o universo é o que podemos esperar dele sem um “arquitecto” a desenhar. Nas suas palavras, demonstrar que o fine-tuning é uma falácia.

Começa por considerar que a maioria das alegações de fine tuning não são minimamente justificadas e dedica-se a desmontar apenas aquelas que apresentam algum suporte cientifico (alguns autores falam em listas de 36 mas nem dizem quais são especificamente!).

A maioria da argumentação é bastante teórica e requer bons conhecimentos de matemática e fisica para seguir. Este é um livro de divulgação cientifica que roça o livro técnico. Tem no entanto um resumo no fim para quem quiser ir directo às conclusões.

Mas em resumo, encontrando razões diferentes para criticar cada valor dos alegadamente afinados ele apoia-se num conjunto de achados:

- Nem todos os valores seriam manipuláveis independentemente. Alguns não seriam manipuláveis de todo sem que houvesse quebra das regras que sugerem para outros o próprio fine-tuning

- Manipulando valores sem ser um de cada vez podemos “compensar” uns com os outros.

- Alguns valores permitem uma margem de manobra maior que a “anunciada” sem eliminar a hipótese de haver vida.

- Alguns valores não estão bem estimados/calculados, logo não é possível sequer dizer que estão “afinados”,( tal só será possível após conhecer o valor em si.)



Para além disso alega ser plausível que haja vida com outras necessidades bastante diferentes das nossas. E baseia nisso a hipótese de poder haver outros tipos de universos capazes de albergar vida mesmo que não fujamos muito do que já sabemos hoje, isto é, precisamos de um universo complexo, não serve por exemplo um universo feito de protões.

Por fim faz um ataque frontal aos argumentos teológicos assentes em estatística Bayesiana e mostra como manipulando a probabilidade à priori podemos chegar a conclusões diferentes, sugerido que ainda não estamos prontos para usar esse tipo de estatística para avaliar a existência de Deus.

Isto tudo é feito sem sair da física clássica e sem abordar teorias mais extravagantes como a do multiverso ou a teoria das cordas.

Naturalmente que ja existe uma grande contestação à volta dos resultados, com muitos apelos a autoridade à mistura. No entanto a refutação das afirmações deste livro têm de ser cientificas. Esta discussão está definitivamente nesse campo.

O autor passa ainda uma grande parte do inicio do livro a desacreditar a ideia de que possa ter havido sequer um momento da criação, já que, argumenta, o universo não tem um inicio.

Aconselho a todos os que gostam de cosmologia, querem ter discussões informadas sobre a origem do universo e a existência ou não de Deus.

Citações interessantes do livro:

"Na minha visão, a vida é uma propriedade que qualquer sistema suficientemente complexo, não linear, interactivo e dissipativo desenvolverá se tiver tempo suficiente"

"Então o universo começará com entropa ou desordem máximas. Começa com informação a zero. Não tem registo de nada que possa ter havido antes, incluindo conhecimento e inteções de um criador."

"Além disso, mesmo em ciência, em que relações causais foram construidas dentro de modelos durante séculos, nós temos acontecimentos que surgem sem causa. Quando um electrão num estado excitado de energia num atomo cai para um nivel masi baixo, ele emite um fotão (...). Isto é um fenomeno quântico que na maioria das interpretações da mecanica quantica acontece espontâneamente, isto é, sem causa."

"Craig and Sinclair invocam outro tipo de infinito: um infinito de uma extenção medida. O seu teorema acima [que refere o absurdo do infinito como realidade] está correcto. Mas é irrelevante. Enquanto os cientistas são descuidados com o seu uso do termo "infinito" eles não alegam que o universo é infinito em espaço e tempo. Eles dizem que não tem limites."

"contudo a história biblica da criação não tem qualquer semelhança que seja com o Big Bang tal como descrito pela cosmologia moderna. O Génesis descreve uma criação tendo lugar em seis dias há uns milhares de anos. De acordo com o Genesis , a Terra foi creada ainda antes do SOl, a Lua, e as estrelas e tudo num firmamemto fixo. Em contraste, na cosmologia cientifica o universo é descrito saindo do caos por "tunneling" há 13,7 biliões de anos e num universo em expansão, certamente não num "firmamento" em que o sistema solar apareceu há 4,6 biliões de anos, seguido pela formação do Sol e da Terra nos seguintes 100 milhões de anos ou assim."

"doesn´t it make you wonder why He waited 13,6 biliões de anos antes de nos criar a nós?"

"Como veremos a invariancia de gauge foi o mais importante principio fisico descoberto no século XX. Notar que "gauge invariance" é apenas uma maneira bonita de dizer "invariancia em respeito ao ponto de vista""

"De notar que se o universo veio do nada a sua carga total tem de ser zero, tal como esperado se não houve criação milagrosa"

"Em 1949, Richard Feynman mostrou que electrões retrocedendo no tempo podem ser vistos como positrões acançando no tempo."

"Vou fazê-lo para mostrar que, mesmo no caso pouco provavel de existir apenas um universo, o fine tuning não existe, não há fine-tuning, ou seja, o fine tuning é uma falacia de todos os angulos".

Nota: traduzi bilion por bilião e não por milhar de milhão.

PS: Este livro não é uma repetição do ultimo do Hawking, que assenta na teoria das cordas para explicar porque o "fine tuning" não deve ser algo de estranhar. Aqui o Victor Stenger faz um ataque muito mais frontal com fisica muito mais bem estabelecida.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Stephen Hawking's and Leonard Mlodinow "The Grand Design" book review.

Que não haja duvidas. Este livro é sobre o ateísmo. Vem reforçar o que muitos já  andam a dizer há muito tempo que é:

Deus não tem lugar no universo.


Em poucas páginas e começando com a história do pensamento cientifico, Hawking  e Mlodinow argumentam que a aparente organização do universo é a esperada para qualquer observador inteligente com vida baseada em carbono. Não ser de esperar outra coisa, é também o argumento teísta, que vê nisso sinais de intencionalidade na criação. A diferença é subtil mas com consequencias drásticas.

Para além de desmistificar a aparente organização do universo, apresentando argumentos como eu já fiz (1) de que ver intencionalidade na organização é uma tendência humana, os autores explicam como é que sabemos que interpretar essa organização é um erro que contraria a própria ciência que permitiu chegar aos valores que sugerem afinação. Afinação das constantes e das leis naturais para que possa haver vida. Aquilo que é conhecido como argumento do "fine tuning".

Em poucas palavras, ainda menos do que no livro, vou tentar explicar:

Sabemos que algures na história do universo, este teve um tamanho em que a mecânica quântica é que o regia, já que era mais pequeno que um átomo. Sabemos também que nessas condições, não precisamos de um criador (2). Na realidade é de esperar que a auto-criação esteja sempre a acontecer a nível quântico. Mas se se aplica a mecânica quântica, e as previsões feitas por esta teoria estão surpreendente bem confirmadas, então temos de explicar o funcionamento actual do universo de acordo com o que diz a mecânica quântica. A maneira matemática de explorar isso é através da reformulação de Feynman. É o que se chama "soma das histórias". Isto é, para cada entidade quântica, temos de contar como reais todas as histórias possíveis para essa entidade, e em que essas histórias possiveis interferem umas com as outras produzindo um resultado final que é a soma dessas histórias. Ou seja, os vários acontecimentos provaveis interferem uns com os outros porque têm de ser tomados como sendo todos reais, como se para uma entidade tudo o que pode acontecer com ela acontecesse ao mesmo tempo.  Por outro lado quando se faz uma observação, em qualquer momento do percurso de uma entidade quantica, estamos logo a eliminar uma data de históras possiveis que passam a não ter acontecido. O tempo comporta-se como se fosse espaço e a direcção da causalidade dá para os dois lados. O presente afecta o passado. E isto está demosntrado em mecanica quântica. E o universo neste caso é uma entidade quântica.

Por isso a teoria prevê que uma data de universos com leis diferentes tenham de ser assumidos como reais enquanto ele estiver em dimensões quanticas. E tal como a teoria prevê, se estamos cá como observadores desse universo, é natural que só vão contar para a soma das histórias do nosso universo aquelas em que é permitido que nós apareçamos. Isto é a prova cientifica do princípio antrópico fraco (1). O universo em que estamos é como é porque se não fosse não era o nosso universo. Era outro qualquer. Que é igualmente possível e real. Mas não é este em que o leitor lê estas palavras. Pelo simples facto de cá estarmos para fazer essa observação. Para quem isto estiver a fazer confusão deixem-me então explicar outra vez (3) que em mecânica quântica o presente altera o passado. Literalmente. Quando se faz uma observação, tudo o que aconteceu até esse momento é limitado por essa observação. Todas as histórias possiveis são reais mas são eliminadas aquelas que não contribuiem para o resultado obtido com a observação. De tal modo que é como se essas historias possiveis nunca tivessem acontecido. No entanto à partida sabemos que são possiveis. Algures deve haver outros universos a "pular" com histórias diferentes.

Ajudou? Se não ajudou proponho ler não só este livro como "O universo elegante" de Brian Green.

Outra parte importante do livro é a explicação de porque é que podemos usar a mecânica quântica e a relatividade ao mesmo tempo para chegar a esta conclusão mista - a parte de um universo que se contrai conforme andamos para o passado vem da teoria da relatividade. E esta parte da soma das histórias é da mecanica quantica. E sabemos que se as tentarmos conjugar uma com a outra o resultado é infinito. Não dá. Então como fazemos isso?

É porque existe uma Teoria-M que é na realidade um aglomerado de teorias, que unifica consistentemente os resultados destas teorias. Esta unificação é resultado da abordagem matemática conhecida como teorias das cordas, onde das cordas já passamos para membranas e outras coisas mais complicadas. A Teoria-M deixa que usemos modelos diferentes para problemas diferentes porque os modelos sobrepõem-se e nessa zona de sobreposição são completamente concordantes. O que não acontece com a mecânica quântica e a relatividade que sem esta integração o resultado da sua combinação e infinito. A Teoria-M ainda não está cientificamente provada, apesar de ter já o nome de teoria. Porque o grau de certeza que temos nela é tão elevado como em outras teorias. Para aqueles que considerem que a filosofia tem o mesmo grau de certeza que a ciência nas afirmações, então devem ficar satisfeitos com ela porque a lógica e a matemática que a suportam são de alto nível. Para outros como eu, que precisamos de ver as confirmações cientificas ou saber das demonstrações matemáticas completas, falta ainda só um bocadinho. Mas é claro para mim, mesma que ache que ainda falta um pequeno passo para poder escrever o meu post intitulado "O fine tuning refutado", que esta explicação está a anos-luz da qualidade de qualquer outra. É a melhor explicação que há para tudo o que conhecemos. Disso não tenho duvidas.

Para o Stephen Hawking não falta nada. ( E eu fico um bocado atrapalhado por ser ainda mais céptico que o Stephen Hawking, mas é assim a vida). Para ele, esta é a teoria de tudo. E afirma-o categoricamente. Explicitamente, para que não restem duvidas. E também diz explicitamente que a ciência diz que Deus não existe. Continuar a insistir no oposto no contexto actual do conhecimento humano só se deve à vontade dos crentes. Só se deve a uma crença apaixonada em algo que não tem justificação racional  e é até contra o conhecimento cientifico. Só se deve a Fé. Mas Fés há muitas (não faltam aí e o livro aponta umas quantas), o que é dificil mesmo é descrever a realidade sem deixar que a nossa vontade atrapalhe a visão (4).

Mas se bem que a observação que fazemos no universo condicione as leis com que ele teve de evoluir desde o Big Bang, a Fé só por si não faz aparecer as coisas que nós queremos como diz aquele livro idiota chamado "O desejo".

Que recomendação dar deste livro? Para quem quiser saber em vez de palpitar ou escolher postulados é de leitura obrigatória. Para quem já sabe tudo o que lá está escrito, é também uma história excelente. Uma que já sabemos o fim, mas que não deixa de ser uma das histórias mais fantásticas que há. A do nosso próprio conhecimento. Para mim o livro foi o que os anglófonos chamam "a page turner". Só parei de ler quando acabou, mesmo se as pestanas já pesavam.



Notas e referencias:



(1) O argumento do "fine-tuning desmistificado":
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/o-argumento-do-fine-tuning.html

(2) De uma flutuação quântica nasceu o universo:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/criacao-partir-do-nada-e-radiacao-de.html

(3)Sobre a mecânica quantica:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html

(4) O mais cego é aquele que não quer ver: (ainda não escrevi neste universo).

Nota: Eu ainda considero que a teoria da evolução ao mostrar como coisas mais complexas podem emergir de outras mais simples desde que haja energia suficiente, tal como comprovado por Prigogine, justifica satisfatóriamente qualquer organisação em qualquer aspecto do universo.

Nota 2: Os autores consideram, tal com eu tenho vindo a argumentar neste blogue, que mesmo na ausencia deste conhecimento actual, que recorrer a um deus para explicar a criação não leva a lado nenhum. É só substituir um mistério por outro. Se temos de aceitar que algures há algo que  não precisa de criação é uma explicação muito mais simples dizer que o universo se auto-formou.

Nota 3: Provavelmente vai haver uma data de gente que não vai perceber nada disto e vai continuar a acreditar em deus. É a vida. Mas a tese de que a ciência repudia a existencia de deus está mais que bem fundamentada. Este livro sucede-se a outros de uma série de autores que arriscaram o seu "conforto"  quer académico quer pessoal para denúnciar que o rei vai nú.

Nota 4:  Para nós não há deus. Nem grande. nem pequeno. É contra tudo o que se sabe. Mas se a possibilidade de se formarem universos é infinita e as hipóteses são infinitas então temos de assumir que pode haver um universo que é uma sucessão ainda maior de acontecimetos ainda mais extraordinários!  Extranhamente, e porque parece-me que não há nada que o impeça, na auto-criação pode emergir expontaneamente uma entidade "tipo-deus", poderosa até ao limite da lógica e autoconsciente. Uma que no seu universo poderia por e dispor. Sabemos no entanto que isso não aconteceu neste. A não ser que essa entidade faça tudo para que tudo se passe como se não existisse, e mais do que isto não pudesse ser imaginado sequer.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A teoria da evolução e o ateísmo.

Como disse no post anterior, muitos cientistas pré-darwinianos eram não só teistas como eram criacionistas. Depois de Darwin quase todos os cientistas de relevo são evolucionistas, e muitos são ateus. Actualmente nas academias de ciências, os ateus proliferam entre os seus membros e mesmo entre filósofos profissionais essa parece ser a tendência.

A teoria da evolução parece-me ter sido o ponto de viragem. Na realidade a sua primeira vitima terá sido o próprio Darwin que conta que a sua crença em Deus se manteve durante quase todo o período em trabalhou na teoria da evolução. Segundo ele, foi gradualmente deixando de acreditar até ser completamente ateu na ultima fase da sua vida.

Os criacionistas costumam dizer que acreditar na evolução é consequencia de não se aceitarem acções de seres subrenaturais para explicar coisas  naturais. Mas como se pode exemplificar com o próprio darwin, o problema(para os criacionistas) não é esse. Podia acrescentar que a maioria dos catolicos, que aceitam deus como o criador, aceitam também a teoria da evolução.

O problema (para os criacionistas e crentes)  não parece ser o alegado materialismo acabar com a crença em deus. Parece-me mais ser a teoria da evolução provar a legitimidade de uma abordagem materialista e com isso levar a uma perda da crença em deus.

Mas ainda não é este o mecanismo principal pelo qual a evolução leva a descrença. Ha algo muito mais fundamental no pensamento teísta típico que é abalado... Porque a teoria da evolução refuta convincentemente o argumento de que as coisas relativamente evoluídas têm de vir de uma ainda mais evoluída. (Santo Agostinho)

Num universo onde existe um processo capaz de explicar como pode haver um ganho de complexidade sem a intervenção de seres conscientes e inteligentes, a necessidade de recorrer a Deus para explicar tudo cai por terra. Mesmo se essa tendência se mantém, (de atribuir intencionalidade a coisas aparentemente complexas, como se vê nos argumentos de "fine tuning"(1)  ), ela fica bastante debilitada com a demonstração de que o mais sofisticado pode vir do mais simples.

E se as crenças têm ao longo do tempo evoluído no sentido de permitir a perda de terreno para a ciência ao deixar de atribuir intencionalidade a  trovões, ventos, chuvas,  etc, aceitando que são fenómenos naturais devidos ao acaso, a verdade é que com a evolução o assunto é muito mais complexo.


Mesmo a religião católica (evolucionista) debate-se com o problema de ter dizer entre que dois seres pai e filho foi injectada a alma , um problema não só insolúvel teoricamente, como ridículo se não quiserem aceitar a hipotese de meias almas ou almas só mais ou menos imortais.  E também perde o argumento de que as coisas complicadas têm de ter um criador consciente. Não têm. A evolução mostra isso.

Se o processo evolutivo é inteligente em si é outra questão. Mas para já falta-lhe a capacidade de criar cenários e testar hipóteses em memoria antes de as por em pratica. Não é sequer capaz de determinar um objectivo. Não tem consciência, nem consciência da consciência como um ser humano. É no entanto um processo de tentativa e erro (mutação/selecção) tal como a aprendizagem humana.A analogia é tão profunda que existe uma teoria neurológica que explica a inteligencia como um processo evolutivo ao nível da sinapse. O Darwinismo neural.


Mas isso fica para outro dia

(1)O "fine tuning " é o argumento mais moderno de atribuição de intencionalidade a observações e  factos complexos. Mais actual mas a falacia é a mesma  de quando chamavam Zéfiros ao vento e atribuiam a tempestade a Thor (ou a chuva a S Pedro).  O universo e particularmente o nosso sistema solar parecem ter sido criados para ter vida inteligente. Parecem. Mas a verdade é que na quase infinidade de planetas da galáxia e na quase infinidade de galáxias do universo é de esperar que haja seres a interrogarem-se pela sua aparente afinação para a vida inteligente, precisamente nos planetas onde a vida inteligente pode surgir. E se é possível haver universos diferentes com outras constantes é de esperar que a vida inteligente surja a questionar a aparente afinação para a sua existência apenas nos universos onde pode existir. Dizer depois que existirem universos onde pode haver vida inteligente prova a existência de Deus explica tanto como dizer que uma pêra cai da árvore porque é a sua tendência natural.Tal como disse, desde a teoria da evolução temos um exemplo de que as coisas que parecem complexas não precisam de outras mais complicadas para as explicar. Pelo contrário. Se a complexidade requer explicação então postular a entidade mais complexa que é possível conceber para explicar essa complexidade é como lavar nódoas com agua ainda mais suja.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O argumento do "Fine Tuning" desmistificado

O "Fine Tuning" é um argumento de intencionalidade baseado na aparente organização e "afinação precisa" do universo. Chamo argumento de intencionalidade porque é a atribuição de intenção ao facto de o universo ser regido por leis e constantes que se não fossem exactamente estas, o universo era muito diferente.
Se as leis fossem apenas ligeiramente diferentes, e as constantes conhecidas apenas ligeiramente alteradas, uma qualquer, o universo teria uma aparência absolutamente diferente. Podia ser tudo só protões por exemplo. E no entanto é de tal forma que parece desenhado especificamente para a existência humana - é o chamado principio antrópico.
O facto de este universo ser como é e não de outra maneira, dizem os crentes, é a prova que ele foi criado com um intenção. O céptico responde que se o universo fosse de outra maneira, nenhum de nós estava aqui para fazer a pergunta, pelo que não deveria ser motivo de espanto o universo ser de modo que permita a existência de vida inteligente.
E eu naturalmente, estou de acordo com o céptico. Chama-se a isto o princípio antrópico fraco. E se assim não fosse teríamos de concluir que o universo foi desenhado não para existir o homem mas sim para existirem parasitas. De facto, um ténia poderia gabar-se que o intestino humano parece especialmente concebido para que ela exista e o universo concebido especialmente para que existam intestinos humanos. Isto se levar-mos a sério a questão da intencionalidade.
Por outro lado, a situação é um bocado análoga a perguntar porque é que pi tem o valor que tem. É porque não podia ter outro. Se não, não era uma esfera. O crente argumentará que existem outras constantes que parecem ter uma origem mais arbitrária e portanto poderiam ser de outra forma. Para além de eu não saber se podiam ou não ter outra forma, uma vez que tenho de dizer que em alguns casos não posso provar que podiam, apenas posso dizer que é tão legitimo dizer que podiam como não podiam.
Mas nem é este o meu argumento principal. O meu argumento principal é que essa intencionalidade tem origem na mesma tendência humana de atribuir intenção a outros fenómenos naturais, e que não há nada de racional acerca disso. E que sendo esta a explicação mais simples e plausível, não devemos partir para outra sem provas.
A atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais esta bem documentada. Para além do "fine tuning" que é dos últimos redutos, podemos ver como o vento, os trovões, a chuva, a vida, a sorte, a doença, etc, foram todos em dada altura explicados por vontades de deuses, duendes ou demónios. Conforme fomos compreendendo melhor estes fenómenos e os fomos capazes de explicar de uma forma mais precisa, fomos empurrando a intencionalidade para outras coisas que ainda não podíamos explicar.
Provavelmente a atribuição de intencionalidade à natureza foi muito útil. Durante milénios foi a melhor explicação possível, o que terá proporcionado alguma sensação de controle. Por outro lado, identificar intenção num fenómeno desconhecido, deverá ter salvo muitas vidas. Porque mais valia elevar o nível de alerta para um fenómeno natural, estar enganado mas sobreviver, do que considerar que determinado fenómeno era devido ao acaso e perecer nas garras de um predador com intenções homicidas (1). Ter medo do escuro, ver formas nas sombras ao luar, atribuir intenção a sons e barulhos, terá salvo muitas vidas e terá sido por esta razão seleccionado positivamente ao longo da evolução. E terá sido o inicio da crença no sobrenatural, que não é mais do que ver intenção onde ela não existe. Isso provavelmente nasce connosco (2).
Resta-me agora terminar, depois de ter adiantado uma explicação simples, verificável na história e ciência para o argumento da intenção ou do desenho inteligente concluir que fazê-lo não é sequer lógico.
Pois se consideramos o "Fine Tuning" como argumento directo para intencionalidade, ao postularmos um criador para que seja a origem dessa intencionalidade passamos a ter de explicar em deus essa mesma intencionalidade. Porque tudo em deus parece ser ainda mais perfeitamente organizado para que possa criar um universo.
Na realidade, o argumento do "Fine Tuning" é só uma variante do argumento de S. Agostinho que diz que o universo é tão organizado que só pode ter tido um criador mais organizado que ele próprio. E que da origem sempre a termos de ter criadores para o criador até ao infinito.
A questão está em que explicar complexidade de uma entidade postulando uma entidade acima só "empurra para cima" a solução do problema. Se o universo é tão complexo que "aparenta Fine Tuning", como é que postular algo ainda mais complexo e inexplicável resolve o problema da origem da complexidade e "Fine Tuning"? Se o universo é tão complexo e afinado que parece ter sido concebido inteligentemente para um fim, como é que postular uma entidade ainda mais complexa e afinada resolve o problema?
Afinal o que é mais provável que surja do acaso, a entidade mais complexa ou a menos complexa? É que se é a primeira, não implica que deus existe, porque a complexidade não é um problema para explicar por si, teríamos de provar primeiro que deus existe então para presumindo que deus é mais complexo, explicar a segunda. Se é a segunda voltamos a não precisar de deuses porque aceitamos que o mais provável é o universo ter aparecido primeiro.
E agora a explicação do titulo, para quem não tiver ficado convencido. Eu não disse que era a refutação do argumento do "fine tuning". Essa só o conhecimento profundo do universo trará, conforme for mostrando porque é que as constantes têm o valor que têm, se o universo só pode ser este ou não, etc.
Isto é mostrar que o argumento do "Fine Tuning" é fraco e que há outras abordagens não só muito plausíveis, como mais consistentes com o que se sabe e pode saber. É desmistificar. Tornar mais claro e não tornar mais confuso.
Se o universo podia ser de outra maneira que não albergasse vida, é óbvio que não teria ninguém a questionar-se sobre esse problema. Se não podia então o problema nem se põe.
E para aqueles que estão a pensar na sorte deste universo ter aparecido pensem na sorte que foi entre milhares de espermatozóides e de óvolos que existem no universo se terem juntado logo os que davam origem a si. Fantastico, não? Há, e parabéns. Mas não esqueça que o universo não foi criado para a ténia e pela mesma razão, nem para si. Podia ter sido outro espermatozóide, ou outra constante...


(1) ler mais aqui e na bibliografia deste post:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/porque-e-que-os-liberais-e-ateus-sao.html


(2) : Neste post refiro um estudo pertinente para o assunto onde se sugere que a capacidade de reconhecer vida seja inata e possa por vezes dar falsos positivos:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/09/reconhecer-vida-e-inato.html


Nota: Há de facto evidencia cientifica que mostra que estruturas organizadas não precisam de ter origem numa mais organizada ainda. A entropia pode, raramente, andar para trás:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/02/consumo-de-entropia.html

Update: desde que escrevi este post foram publicados estes dois livros com interesse para o tema:

1 - Do Stephen Hawking, "O grande Designio", minha "review" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/02/stephen-hawkings-and-leonard-mlodinow.html

2 - Do Victor Stenger, "A Falácia Do Fine-Tuning" aqui: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/07/fallacy-of-fine-tuning-por-victor.html