Mostrar mensagens com a etiqueta inteligência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta inteligência. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Acertem no mensageiro.

O que uma coisa é ou o que deve ser não é a mesma coisa.

Eu posso dizer que a incidência duma doença numa determinada faixa etária de uma população é de mais de 50% sem que isso queira dizer que eu quero que esse valor seja tão alto. Ou que quero que seja de todo verdade. Apenas que é o que se encontra.

Isso também quer dizer que nem toda a gente tem essa doença nessa população e nomear essas excepções não refuta a afirmação nem resolve nada.

Não mencionar estes factos ou não os procurar, também não me parece que ajude as pessoas. A informação sobre populações é importante para ajudar as pessoas, sobretudo quando revela coisas que não gostamos.

Isto vem a propósito de uma correlação negativa, que é um resultado estatístico, que foi encontrado entre a religiosidade e a inteligência. Uma correlação não diz se há uma relação de causa efeito, não diz se é assim que deve ser e muito menos que alguém quer que assim seja. Isto se a matemática por trás for bem usada.

Mas o artigo onde isto é publicado, um metaestudo (do qual esta é uma boa apresentação com ligação para o original), não foi criticado pela qualidade cientifica ou rigor matemático. Foi criticado porque não devia ter sido feito, porque era generalizador (era uma correlação), porque havia ateus burros, etc, etc, etc.

Não poder estudar um assunto ou publicar um resultado só porque ele diz respeito à religião e pode trazer-lhe uma imagem menos bonita é uma asneira. Pelo menos se queremos compreender o mundo, a sociedade e assim procurar o melhor para nós. Uma correlação nem sequer implica uma relação de causa e efeito, coisa que ainda é mal compreendida - quer dizer só que há uma associação mensurável entre valores de parâmetros diferentes -  mas pede que se procure o porquê de se encontrar essa correlação. Isso é feito comummente em ciência e tornar a coisa politicamente incorrecta por ser com a religião é um disparate. E um retrocesso civilizacional.

E claro. Não diz quase nada acerca de pessoas individuais ou amostras pequenas. Sosseguem.

Claro que os autores foram vilipendiados como se fossem os causadores intencionais de tais dados estatísticos.

Idem para o Dawkins que teve o "mau gosto" de responder factualmente às alegações de que o Islão produzia muita ciência. Disse que todo o Islão junto não tinha mais prémios nobel que o Trinity Colege (mas que tinham sido produtivos na idade média). Isto é relevante porque o Islão representa 23% da população da terra. É muita gente para tão pouco Nobel, mesmo se existir um "bias"  para judeus e americanos (não estou a dizer que há) . De facto, a mensagem é facilmente verificável na sua autenticidade, vem em contexto, e refere-se a uma religião. Não a um povo ou a uma pessoa. No entanto o rótulo de racista (o Islão não é uma raça) é lhe atirado para cima por várias publicações deste mundo, para lá dos comentários nas redes sociais. Além disso é acusado de irracionalidade (!?).

Mais uma vez, por preocupação com as pessoas, o importante será tentar perceber o que está a correr mal e corrigir. Fingir que não passa nada é uma asneira. É até o que diz este artigo interessante escrito por um membro do Islão. Ou este.

Parece que das melhores avaliações da situação vêm de membros do mundo Islamico. E isto só por si devia fazer-nos pensar um pouco no assunto.

E se queremos mesmo andar aos tiros aos mensageiros, como era hábito noutros tempos.

domingo, 14 de abril de 2013

Sofrem? Essa é a questão.

" A questão não devia ser se eles podem pensar ou falar mas sim se eles podem sofrer"
-Jeremy Bentham


A ideia de valorizar as pessoas e os animais pela inteligência é injusta, embora pareça subrepticiamente  disseminada pela sociedade. Aos animais, nós (pelo menos alguns bastante numerosos) os  desprezamos por serem, como se diz: irracionais. E às pessoas, silenciosa mas implacavelmente as fazemos passar pelo filtro do QI. Claro que também existe a sorte, mas isso é outra história. Pessoas mais inteligentes ganham mais dinheiro, são mais felizes, são mais bem sucedidades na escola, são mais saudáveis e vivem mais, etc. É essa a maneira como as coisas estão montadas para o comum dos mortais, e claro, para além da sorte. A vida é mais fácil para as pessoas mais inteligentes. Quem não é tem forçosamente de se esforçar mais. E não é caso para se dizer que cada um é responsável pela muita ou pouca inteligencia que tem - de facto parece que podemos, ou não, agradecer de nascer com ela. Ao longo da vida o QI tende cada vez mais para um valor previsto pela hereditaridade, sendo mais variaveis nos mais jovens.

E é injusto porque o que custa mesmo nesta vida é o sofrimento, e esse não requer muita inteligência para sentir.

Era bom se pudessemos cortar com o sofrimento sem qualquer outra consideração. Mas não creio que seja possivel. O mundo está longe de ser o melhor mundo possível. Mas parece-me que há pelo menos uma tendencia positiva que pode ser seguida e que deve ser seguida. Existe alguma aversão à crueldade a crescer nos paises mais civilizados, mesmo para com animais.

E há uma outra coisa. Se a inteligencia não parece ser um factor determinante para a capacidade de sentir, e logo sofrer, a consciencia não me parece que seja indiferente ao problema do mesmo modo.

Creio, por tudo o que posso perceber, que é diferente - e pode moderar ou ampliar o sofrimento. Neste caso interessa-me filosofar sobre a ultima possibilidade, que me parece bastante frequente.

Alterações do estado de consciencia dão diferentes precepções da dor, sendo que o alcool foi dos primeiros sedativos usados neste mundo. Dissociativos e sedativos são usados ainda para diminuir o sofrimento e percepção da dor, até em seres pouco inteligentes.

Há muita coisa a considerar neste aspecto. Este é o raciocinio que proponho:

Penso que seres mais conscientes terão um significado mais forte para o bem estar e sofrimento. Agressões ou sinalização de lesões a esse bem estar tem por conseguinte um maior significado também;

 Se a consciencia é o sentimento de Si próprio e o conhecimento de Si próprio, isto parece-me consequente. Porque temos um palco maior para o que pensamos e sentimos; porque podemos contemplar os nossos próprios sentimentos;

As sensações (do exterior) dão origem a mais que reflexos - não vivemos num fluxo de reflexos sensoriais;  Processamos essas sensações e integramos tudo num quandro maior, num mapa mental não só do mundo mas também de nós próprios;

Para além de termos emoções temos sentimento dessas emoções. E temos consciencia desses sentimentos. Em ultima análise temos até consciencia de ter consciencia. E isso não é algo notável? Acabamos por ser capazes de dar sentido a nós próprios, às nossas escolhas, ao que nos rodeia... O universo pode não ter um sentido, a vida pode não ter sido criada com um fim em vista. Mas a vida de um ser consciente parece ter o sentido que este lhe pode dar - em paralelo com o grau de consciencia que tem.

Adiante:

Nem todos os animais parecem ser igualmente conscientes, pelo que proponho que devemos dar o nosso maior respeito àqueles que parecem ter uma capacidade de sofrer mais perto da nossa.

E se a consciencia não parece ser igualmente repartida por todos os animais, obviamente o é para todos os seres humanos. E essa é uma razão para respeitar a  vida de cada um de nós sem discriminação de cor, credo, sexo, inteligência ou idade. Todos nós sentimos e sabemos o que sentimos. Temos consciencia.

Não nos esquecendo que para os outros, nós é que somos o outro - Não há um ponto de vista previligiado para a moral se valorizarmos assim a consciência e o bem estar (autobiográfico e instantaneo) acima da riqueza, da cor, do credo ou da inteligência ou da beleza.

Apenas que temos de respeitar os seres conscientes como nós, sejam eles como eles forem noutros aspectos.

Claro que esta exposição não diz que podemos ser crueis para animais como os peixes, que me parece terem um estado de consciencia mais superficiais que o nosso. Apenas sugiro que nos esforcemos no sentido de diminuir o sofrimento e que começemos por distribuir os nossos esforços para quem eles podem ter mais significado. Seres humanos no topo, seguidos dos primatas e depois outros mamiferos. Naturalmente que insectos e vermes, por exemplo, no fim da lista.

E agora que sabemos como podemos fazer uma alimentação baseada em vegetais que é na mesma saudavel e que as carnes vermelhas nem por isso são assim tão boas, começar a reduzir nos mamiferos.

Voltando aos seres humanos, claramente há também muito por onde lutar.

Por fim, isto não é uma tentativa de meter tudo no mesmo saco e desvalorizar uns por valorizar outros. Isto é mesmo uma tentativa de dar uma prespectiva completa e consistente sobre a procura possível de diminuir o sofrimento neste mundo. A começar por nós. Se eu quero começar por nós por eu ser humano ( e não macaco ou bactéria) , tenho as minhas dúvidas já que o suporte racional me parece sólido, mas se é, também me parece que não é um mau ponto de partida, já que se estende por aí fora... Por outro lado tenho serias reservass de quem diz ser capaz de abandonar completamente o ponto de vista humano quando propõe uma outra teoria qualquer. Ainda por cima, incosistentes e incompletas com uma série de outro conhecimento que temos como as que andam para aí.

O nosso conhecimento, será sempre humano enquanto nós formos humanos. E o nosso conhecimento terá sempre de ser assente na nossa epistemologia. O que interessa é ser o melhor possivel em consistencia, completude, poder preditivo e clareza.

 Notas: As ideias expressas acerca da consciencia, já que também não há ainda uma conceptualização cientifica final, são as baseadas nos livros de Damásio.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A falácia do empreendedorismo

O empreendedorismo parece ser, segundo uma direita actual sem soluções melhores, a panaceia universal para os problemas da crise.

Não só a apresentam como solução para o futuro, como a apresentam como explicação para o facto de alguns passarem dificuldades - é porque não são empreendedores. Se fossem, insinuam, agora estavam a viver à grande.

Isto é uma falácia.

Porque isso pressupõe que as novas empresas são todas, ou em larga maioria, bem sucedidas. E que qualquer um pode fazer a empresa que quer. Isto não é assim. Não há recursos ilimitados à mão para cada um  pegar e começar a usar... Em nada. Nem humanos,  nem materiais.  Tudo já tem um dono algures ou pelo menos alguém que se porta como tal, em termos económicos. A não se que se nasça dono, o caminho para ultrapassar este problema é o endividamento. Quanto maior o projecto, maior a divida inicial. 

Ideias novas e garantidas também são raras. Ou inexistentes, já que à partida não parece ser possível sequer prever que "start ups" vão ser bem sucedidas no longo prazo. 

E depois vem o resto da questão:

A maioria das empresas que começam de novo, da mão dos tais empreendedores, falham. Pelo menos nos Estados Unidos, onde é sempre mais fácil conhecer a estatistica. Cá, tenho poucas razões para acreditar que será melhor. Portanto empreender não é uma solução para a maioria, mas sim apenas para muito, muito poucos. É como dizer: "Estão mal? Não faz mal, alguns de vocês vão conseguir esgatanhar-se e criar algo e é isso que importa. Depois os que ja têm uma data de massa podem comprar esse negócio e ficamos todos contentes. Os outros azar, olha, é a vida..."

Mas é precisamente soluções que não sejam apenas para um ou outro que procuramos. Se não mais vale dizer abertamente que o que importa é que alguns se safam e os outros que se danem - pelo menos podemos perceber onde se quer chegar. 

Como disse, e como era de esperar com taxas de sucesso tão baixas, não há uma formula conhecida,  para o sucesso. De facto, a sorte conta imenso. A inteligencia também, é verdade.   Mas que sentido há em dizer: "Vocês são pobres porque são burros. Sejam mais espertos e já podem ter mais hipoteses. E depois olha, mesmo assim espero que tenham muita sorte, já que vão precisar.". Duh! Parece-me claro que isto também não é solução. 

E por isso eu considero o apelo ao empreededorismo como exlicação para a pobreza ou como solução futura, uma falácia do ponto de vista politico. Porque é uma solução que vai ser viável apenas para poucos. Vai deixar, caso todos vão na conversa, uma maioria de gente endividada. 

Tem de haver outra solução que contar com o empreendedorismo individual. A não ser que aceitemos que o nosso objectivo não é combater a desigualdade e a pobreza. Mas isso é um disparate que ninguem quer assumir. Não é?


PS: Estou a falar do empreendedorismo tal como ele parece ser considerado actualmente e tal como é colocado em cima dos ombros dos individuos. Não como poderemos fazer evoluir o conceito. Deve haver alguma solução para esta falácia.

Bibliografia recomendada: Daniel Kahneman,  "Thinking, fast and slow"

sexta-feira, 29 de março de 2013

Sobre a Inteligência


“A inteligência é a coisa mais bem repartida nos homens, porque qualquer um considera que dela é dotado o suficiente, pois é com ela que faz esse julgamento.” - René Descartes, “Discurso do Método”, 1637.


“1 -A Inteligência é uma capacidade mental muito geral, que entre outras coisas envolve a capacidade de raciocinar, pensar abstractamente, planear, resolver problemas, aprender depressa e aprender a partir da experiencia. (...)


2 - A Inteligência, assim defenida pode ser medida e testes de inteligência fazem-no bem. Estão entre os testes mais precisos de toda a psicologia (em termos tecnicos, de validade e reliabilidade). (...)


3 - Enquanto é verdade que existem diferentes tipos de testes de inteligencia, eles medem todos a mesma inteligência. Alguns usam palavras ou numeros e requerem conhecimento cultural especifico (como vocabulário). Outros não e usam figuras e formas abstractas que requerem apenas conhecimento simples de conceitos universais (...)



4- A distribuição das pessoas ao longo do continuum do QI, do mais baixo para o mais alto, pode ser bem representado por uma curva em forma de sino (em jargão estatistico, uma curva normal) (...)

9 - O QI está fortemente correlacionado, provavelmente mais fortemente que qualquer outro traço humano mensurável a muitos resultados educativos, economicos ou sociais (...) Há muitas excepções, mas as probabilidades de sucesso na nossa sociedade estão largamente do lado dos QIs mais altos”. - Linda  S. Gottfreson, “Mainstream Science on Inteligence: An Editorial With 52 signatories, History, and Bibliography” , 1994

“Os individuos variam na sua abilidade de  compreender ideias complexas, de se adaptar effectivamente ao meio ambiente, de aprender com a experiencia, de entrar nas varias formas de raciocionio, de ultrapassar obstaculos através de pensameneto. (...) Conceitos de Inteligencia são tentativas de clarificar e organizar este conjunto de fenómenos complexos. Apesar de considerável clareza ter sido conseguida em algumas areas, nenhuma conceptualização ainda respondeu a todas as questões importantes e nenhuma recebe aceitação universal.

(...) Por razões históricas, o termo QI é frequentemente usado em relação a resultados de testes de inteligencia. Originalmente referia-se a um “quociente de Inteligencia” que era formado dividindo a então chamada idade mental pela idade cronologica. Este procedimento já não é usado.

(...) É parcialmente porque os testes de inteligencia prevêm os anos de escolaridade tão bem que eles também prevêm o status occupacional e numa extensão menor até os rendimentos. Para mais, muitas ocupações podem apenas ser acedidas através de escolas que baseiam as suas admissões, pelo menos parcialmente em testes como GMAT, LSAT MCAT, etc. Resultados individuais como estes estão certamente correlacionados com resultados de testes de inteligência.” Ulric Neisser e outros, “Intelligence: Knowns and Unknowns”, 1996

“A inteligência, então, é a capacidade de alcançar objectivos em face de obstaculos por meio de decisões baseadas em regras racionais lógicas. Os cientistas da computação Allen Newell e Herbert Simon levaram esta ideia mais longe notando que a inteligência consiste em especificar um objectivo, avaliar a situação currente face a esse objectivo e aplicar um conjunto de operações que reduzam a diferença. Talvez seja recomfortante notar, que por esta definição, os seres humanos e não apenas aliens, são inteligentes. Nós temos desejos e nós presseguimos esses desejos através de crenças que, em geral, quando tudo corre bem, são pelo menos aproximadamente ou provavelmente verdade.” - Steven Pinker, “How the mind Works”,1997


“Matendo todas as outras coisas iguais, um mundo mais esperto é um mundo menos violento (...)

(...) A relação entre a inteligencia dos presidentes e guerra também pode ser quantificada. Entre 1946 e 2008, o QI de um presidente está negativamente correlacionado com o numero de mortos em batalhas envolvendo os Estados Unidos da América durante a sua presidencia, por um factor de -0,45. (...)

(...) Mas os cientistas que estudam as diferenças individuais são virtualmente unanimos que a inteligência pode ser medida, que é francamente estável ao longo de uma vida de um individuo e que prevê o sucesso académico e profissional em cada nivel da escala. (...)

(...) Estes subtestes (de QI) são considerados as mais puras medidas de inteligencia geral porque se correlacionam  bem com a tendência das pessoas de obter melhores resultados numa grande bateria de testes diferentes. Essa tendência é chamada g, e a existencia de g é considerada a mais importante descoberta na ciência dos testes mentais. (...) ” Steven Pinker, “Better Angels of our Nature” 2011


Como em muitas outras coisas na ciência, há muito por saber acerca da inteligência, mas há muito que também  já sabemos. Do que falta saber, uma area escandalosamente vazia, é a sua base biológica - mas existe um extraórdinario esforço nesse campo. Ou seja, o que significa a nível neuronal e fisiologico o g? É uma propriedade emergente do cerebro, tal qual um centro de massa cognitivo, ou é uma entidade discreta da qual medimos a potencia? É um efeito da alma?

Do que já sabemos melhor, como em muitas outras coisas, é das suas propriedades. Sabemos o que estamos a medir do ponto de vista comportamental e sabemos que o fazemos com rigor cientifico pois é capaz de fazer previsões significativas, sistematicamente.

Por isso a inteligencia é um conceito util, funciona, acerca do qual somos capazes de dizer muita coisa - existem consensos acerca de muitas das suas propriedades, e se bem que não haja consenso acerca de uma definição final formal, sabemos dizer o que esperamos dela e o como ela é em muitos aspectos. Um pouco como o que sabemos da própria ciencia. Ou sobre o que é a própria identidade em si.

No entanto, este tema parece estar a tornar-se tabu. Pessoas que até pensam como eu numa série de outras coisas neste preferem tratar a inteligencia como algo mistico, ou coisa parecida.   E parece-me que é uma atitude de querer meter a cabeça na areia. Porque existem diferenças entre pessoas no que toca a QI e porque isso é determinante nas suas vidas. E como não é bonito, negamos que exista um efeito real. Mas esse caminho não nos leva a resolver nada.

De facto, a literatura do QI sugere que os fracos dos dias modernos são as pessoas com menos QI. Dão-se pior nas tarefas que levam a melhor qualidade de vida, como o desempenho académico e profissional. Não é de estranhar por isso que haja até uma associação entre QI e longevidade. E entre QI e felicidade.

Mas de como as coisas são não segue que devam ser assim. A discriminação por inteligencia da nossa sociedade é real - tão real como a qualidade das suas previsões, e pelo menos como uma tendencia. E a questão que deviamos estar a responder é se é realmente justo que assim seja. E se não é, se há soluções.

Por exemplo, e aqui vejo uma defesa da discriminação por inteligencia: parece que precisamos de lideres inteligentes. Certo. Esses se calhar até podiam ser mais discriminados por esse lado.

Mas há mais na qualidade de vida que poder. Não precisamos todos de o ter.

Update: Saiu um estudo sobre como as pessoas menos inteligentes tendem a ser preconceituosas, e por vezes caiem em ideologias perigosas. Talvez expondo estas pessoas a menos pressão ambiental fosse uma solução para evitar fugas para o desastre...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Porque é que os liberais e ateus são tendencialmente mais inteligêntes?


A Hipotese QI-Savana, uma possivel teoria sobre a inteligência geral
"Porque os liberais e ateus são mais inteligentes" é o nome de um extenso artigo de Satoshi Kanazawa da London School of Economics and Political Science e publicado na revista da Associação Americana de Sociologia, a Social Psychology Quaterly.
O artigo é sobre o teste experimental de uma hipótese abrangente sobre a origem da inteligência, gostos e valores. Diz a hipótese que a inteligência geral é o produto evolutivo da exposição a novas situações. Novas, mas não do ponto de vista da experiencia particular pessoal mas sim relativa à experiencia evolutiva total como espécie.
Ou seja, será a capacidade adaptativa a condições tão novas que não poderá ser procurada a solução entre as coisas que como espécie já não são novidade.
Esta hipótese, denominada "Hipótese da Interacção QI-Savana" é uma implicação do Principio da Savana.
Que diz o seguinte: "O cérebro humano tem dificuldade em compreender e lidar com situações e entidades que não existiram no seu ambiente ancestral."
Então ele propõe o seguinte: "Se a inteligência geral evoluiu para lidar com problemas evolucionariamente novos, então a dificuldade do cérebro humano de lidar com entidades e situações que não existiram no seu ambiente ancestral [a savana] deve interactuar com a inteligência geral de modo que o principio da savana aparece mais forte entre indivíduos menos inteligentes que entre indivíduos mais inteligentes."
Ou seja: "Indivíduos mais inteligentes devem ser capazes de compreender e lidar com entidades e situações de novidade evolutiva (mas não evolutivamente familiar) do que os menos inteligentes."
O que já explica:
Como todas as boas hipóteses cientificas deve explicar o que já se sabe e o autor nomeia entre os factos conhecidos que suportam a sua hipótese quatro constatações estatísticas conhecidas:
1 - A tendência para responder a personagens de televisão fictícias como se fossem realmente amigos conhecidos está correlacionada mais fortemente com inteligências mais baixas. Que ver na televisão um mundo parecido com o real mas que não é real é novidade para a espécie humana não precisa justificações.
2- Pessoas menos inteligentes têm mais crianças que pessoas mais inteligentes, mesmo quando não o querem, explicado pela hipótese com a novidade que é a capacidade de planeamento familiar do ponto de vista evolutivo.
3 - Indivíduos mais inteligentes mantém-se mais saudáveis e vivem mais tempo. Provavelmente porque são capazes de reconhecer os novos perigos da sociedade moderna para a saúde e de lidar com eles. Consistente com esta hipótese é o facto de esta correlação não ser verdadeira em África onde a maioria das ameaças são evolutivamente familiares.
4 - Criminosos têm um QI abaixo da média, pois a intervenção de terceiros para impor justiça é algo relativamente novo para a humanidade. Antes a justiça era feita pelo próprio ou pelos aliados e familiares. Na melhor das hipóteses a interferência de terceiros seria uma punição informal como ostracismo, nada como os mecanismos complexos e mais eficazes dos dias de hoje como policia, detectives, tribunais, etc. Diz o autor que "muito do que chamamos crime interpessoal nos dias de hoje, como violação, assassinato, assalto e roubo foram provavelmente rotina no ambiente ancestral". (Pelo que sei nem é preciso ir até aos dias da Savana...)
As condições testáveis que suportam a hipótese. Capacidade de fazer previsões:
O autor estabeleceu então uma base e uma hipótese a partir da qual deve fazer previsões. Conclui neste aspecto que deve procurar mais variáveis que sejam novas do ponto de vista evolutivo e não pessoal para criar condições em que a teoria é posta à prova. Depois de uma investigação antropológica encontrou 3 parâmetros que serviam para o caso: O grau de liberalismo, ateísmo e monogamia. Porque são experiencias novas do ponto de vista da espécie humana, e é de prever que estejam fortemente correlacionadas com a inteligência. Se a hipótese QI-savana for verdadeira.
1 - Houve algum problema com a questão do liberalismo, pois este parece querer dizer várias coisas para várias pessoas e em vários contextos, mas o autor notou que as pessoas que se identificavam como mais liberais eram também aquelas que mais se preocupavam com o bem estar daqueles que estavam muito afastados da sua esfera de actividade, para lá dos laços de família amigos, aliados e conhecidos. O altruísmo geneticamente herdado é aquele que é relativo aos seres humanos mais próximos. A vida interactiva de grandes cidades numa comunidade global é algo de muito novo.
2 - O ateísmo. É aceite que a atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais terá levado a uma crença no sobrenatural. Muito resumidamente, o autor explica que mais vale acreditar que o barulho do vento nos vem comer que ignorar o dito barulho e acabar na boca de um predador porque afinal não era o vento. Ou seja, identificar positivamente intenção salvou mais vidas que considerar como devido ao acaso determinado fenómeno. O medo do escuro aposto que salvou milhares de vidas, digo eu.
3 - Monogamia. A monogamia como existe hoje também é algo de novo na espécie humana, apesar de haver espécies onde a monogamia existe evolutivamente falando há muito tempo. E é a ultima das caracteristicas testadas com sucesso para suportar a hipotese da interação QI-Savana. E curiosamente a única cujo resultado apareceu em varias revistas de divulgação geral. Os homens mais inteligentes, mas não as mulheres, tendem a ser mais monogamicos.
Conclusão:
Todas estas três características mostraram uma correlação forte com a inteligência, como era previsto na hipótese. A análise estatística foi feita em dois estudos de grandes amostras e durante vários anos. Apesar de ser também extremamente interessante, inclusive a discussão sobre o método de medir a inteligência, penso que a grande importância deste artigo não é a metodologia particular.
Ou sequer a constatação do facto de que os ateus e/ou liberais e/ou monogâmicos tendem a ser mais inteligentes.
O interesse do artigo é mesmo, como diz o titulo, propor uma explicação para o facto de os ateus, liberais e monogâmicos serem relativamente mais inteligentes que os crentes, conservadores e religiosos. E uma explicação que é abrangente e que abre terreno a mais investigação.
A minha modesta opinião é que se trata de um trabalho de extrema importância na sociologia e psicologia humana. E um profundamente cientifico. Prevejo um grande debate acerca destas questões - e um que interessaria a toda a sociedade - se formos seres humanos capazes de discutir isto abertos à novidade e longe de preconceitos. Com inteligência.