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sexta-feira, 22 de março de 2013

O eixo do mal - A anomalia.

Quando um facto não é explicado pelo conhecimento cientifico, isso é uma anomalia. 

Segundo os detratores da ciencia, as anomalias são escondidas para fingir que bate tudo certo. No entanto, na maioria das vezes, elas são colocadas à vista de todos e apontadas pelos próprios cientistas. Encontrar anomalias, algo de novo, ou confirmar que as anteriores não eram artefactos da experiencia, também é importante. E avança o conhecimento, aumentando a informação disponivel.

E se os dados acerca do bosão de Higgs parecem estar tão ensonsamente de acordo com as previsões teoricas, com a experança de uma anomalia a desvanecer-se, o que se passou com a medição da radiação micro-ondas de fundo foi o contrário. 

Veio mostrar que algumas anomalias que se discutiam antes são de facto tão reais quanto é possível saber. Mais concretamente, existem zonas, na grande escala, com variações bastante superiores e inferiores ao esperado pelos modelos. Se por um lado a maioria do mapa feito das radiações de fundo na gama das microondas está maioriatáriamente de acordo com as previsões, uma pequena parte não está.

E isso não é menos interessante ou menos notícia que notar a parte que está.

O fundo de radiação de microondas é uma imagem do universo no momento em que se formaram os primeiros atomos. Antes disso, o universo era opaco, denso, uma autentica sopa de particulas a alta temperatura. Os fotões não podiam ir a lado nenhum. Não era transparente.

Depois da recombinação, nome que os fisicos dão à formação dos atomos, os fotões puderam começar a seguir o seu caminho pelo universo. Isto aconteceu, a recombinação,  porque o universo arrefeceu devido à inflação. A inflação é o aumento do próprio espaço. Mais que um big bang é mais um big swosh.

Por isso, estes fotões que foram os primeiros a poderem passear pelo universo são a imagem inflacionada  do universo na altura em que houve esta mudança de estado, ou seja, a "fotografia" possível de uma fase muito primitiva da sua formação. Com a inflação, os fotões perderam energia, aumentando o comprimento de onda, e por isso era previsivel que fossem encontrados na gama das microondas. E que fossem encontrados na mesma quantidade relativa para onde quer que apontemos os detectores. Afinal variações que resultem de flutuações quanticas, (de uma altura em que toda a matéria se comportava desse estranho modo), são esperadas, mas não mais que isso. Aliás essas flutuações quanticas deram origem aos aglomerados de matéria que são as galáxias, com origem nas zonas mais densas e quentes no momento da inflação.

Mas isso prevê uma certa homogeneidade na radiação de fundo. 

Não sabemos como explicar grandes variações sobretudo a formar um padrão. E se durante muito tempo se pensou que algumas dessas variações já medidas pudessem ser erros de medição, agora sabemos que não. O radiotelecopio Planck confirmou que são parte da fotografia. 

Uma dessas anomalias, é o "eixo do mal" assim chamado pelo português João Mangueijo que primeiro o identificou. É um alinhamento da radiação de fundo numa determinada direcção, que pelo que pude perceber, não derruba o modelo inflacionario mas por pouco. Uma explicação possivel será um universo muito mais pequeno que o pensado. Ou podem ser os sinais de uma nova fisica. 

Outra anomalia é um ponto frio maior que o esperado. Alguns fisicos sugerem que poderá ser uma cicatriz do impacto com outro universo. 

Seja como for, estas anomalias vêm por alguma tensão nas costuras dos modelos actuais. Aparentemente estes modelos dão com uma mão (acertando numa grande maioria de coisas) mas tiram com  a outra (deixando de fora anomalias notáveis). 

O que é de prever é que uma maioria da comunidade cientifica tente trabalhar com estes resultados à luz dos paradigmas actuais. Será normal e desejável, até haver uma explicação melhor, tentar juntar as peças do puzzle de acordo com o que já está feito e que levou por exemplo a descobrir estas anomalias. Outros eventualmente tentarão perseguir um novo paradigma de fundo. Como fizeram Newton, Einstein, Darwin, Galileu, etc no seu tempo. Esses provavelmente terão o caminho mais dificil mas também mais conpensatório. Porque há indicios fortes de que precisamos de um novo paradigma.

Isso não quer dizer que o que sabemos não serve para nada ou não vale nada. Quer dizer que serve para algumas coisas (e já assombrosamente muitas) mas não para outras e que deve ser possível e desejavel alcansar um modelo mais completo (sem por a consistencia em causa). 

Não deixa de ser impressionante ver onde a fisica chegou e o tipo de problemas que tem para resolver nos dias de hoje. Ainda há uns poucos milénios, um pequeno punhado dos 200.000 que temos de idade,  não faziamos a minima ideia de como era a Terra ou o sistema solar, quanto mais estar a discutir anomalias de uma fotografia das microondas do universo primitivo.

E no mundo da informação que vivemos hoje é formidável poder assistir à ciencia a avançar em tempo real em tantas areas diferentes, e como o faz. Também hoje se discute  - e abertamente -  cada vez mais a importancia de eliminar a tendencia de publicar apenas resultados positivos, por um lado. Por outro de como as anomalias têm de ser confirmadas com certeza cientifica para serem levadas a sério. Cada vez mais a estatistica bayesiana, é avançada como a solução estatistica da ciencia. Isto quer dizer que a certeza da anomalia ser real e ter significado tem de ser tão forte como o modelo que esta contraria. Dito assim parece banal, mas a matemática envolvida não é assim tão simples.

E quando isso acontece - ter uma anomalia bem confirmada -  não é menos importante. E segundo li, o próprio Magueijo já veio dizer que se devia chamar antes "eixo-do-bem". Afinal é nova informação, preciosa, que pode apontar para novos desenvolvimentos teoricos.
E isso é bom.

Por isso acho que em vez de dedicar um post à nova idade do universo ou à confirmação da matéria negra, etc (também resultado dos achados de Planck), dedico à anomalia que este radiotelescópio veio confirmar. 





segunda-feira, 23 de abril de 2012

O futuro afecta o passado.

No mundo da mecânica quântica, claro.

Esta é mais uma peça de evidencia experimental deste fenómeno contra-intuitivo previsto matemáticamente a partir da teoria quântica por John Wheeler:

Na experiência clássica, já confirmada, um observador alterava a trajectoria passada de um electrão modificando o modo como fazia as suas medições.

Concretamente, se se dispara um electrão através de duas ranhuras e se detecta com um ecrãn incapaz de dizer porque ranhura ele passou, o resultado é um padrão de ondas que implica que ele passou pelas duas ao mesmo tempo. Mas se se detecta com "telescópios" capazes de avaliar apenas o que se passa nas fendas, verificamos que o electrão ou passa por uma ou pela outra. Muito pertinente é o facto do ecrán ser retirado da frente dos "telescópios" detectores depois do electrão passar pelas fendas!

Agora, a experiencia recentemente publicada na "Nature physics", foi feita com recurso a outro fenómeno quantico, o emparelhamento de particulas. Sumáriamente, se decidirmos emparelhar as particulas depois de medirmos as suas propriedades, elas vão dar resultados diferentes do que se não as decidirmos emparelhar mais tarde. Sabemos que os resultados são alterados à posteriori (e não antes) recorrendo a um pré-emparelhamento que nos diz o valor antes do segundo emparelhamento que é atrasado uns bilionésimos de segundo. O resultado da medição é alterado pelo que vai acontecer a seguir.

Na mecânica quantica o tempo é parecido com o espaço. A causalidade move-se em qualquer direcção. Aqui já tinha falado sobre isto ao rever o livro do Stephen Hawking "The Grand Design".



Via Ars Technica: http://arstechnica.com/science/news/2012/04/decision-to-entangle-effects-results-of-measurements-taken-beforehand.ars

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Quantas dimensões precisamos para descrever o universo?

Tenho imensos leitores que vêm aqui parar para encontrar a resposta à questão "quantas dimensões tem o universo"?  Por isso decidi fazer um post sumário sobre isso:

De acordo com a teoria das cordas mais completa, a Teoria-M, cuja prova ainda não surgiu são 11 (eu aposto nesta resposta).

Só nos dizem respeito 4 dimensões. As outras serão mínimas para que as vejamos e segundo os físicos estão enroladas algures.

As dimensões que nos dizem respeito directamente são 3 de espaço e uma de tempo. Só medimos o tempo numa direcção, excepto em fenómenos quanticos em que as observações têm efeitos retroactivos instantaneos.

Existe ainda uma hipotese, (baseada também em teoria das cordas) de todas as nossas dimensões de espaço serem projecções de uma realidade num plano - é o Universo Holograma.

Para saber mais seguir as etiquetas em baixo:

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Stephen Hawking's and Leonard Mlodinow "The Grand Design" book review.

Que não haja duvidas. Este livro é sobre o ateísmo. Vem reforçar o que muitos já  andam a dizer há muito tempo que é:

Deus não tem lugar no universo.


Em poucas páginas e começando com a história do pensamento cientifico, Hawking  e Mlodinow argumentam que a aparente organização do universo é a esperada para qualquer observador inteligente com vida baseada em carbono. Não ser de esperar outra coisa, é também o argumento teísta, que vê nisso sinais de intencionalidade na criação. A diferença é subtil mas com consequencias drásticas.

Para além de desmistificar a aparente organização do universo, apresentando argumentos como eu já fiz (1) de que ver intencionalidade na organização é uma tendência humana, os autores explicam como é que sabemos que interpretar essa organização é um erro que contraria a própria ciência que permitiu chegar aos valores que sugerem afinação. Afinação das constantes e das leis naturais para que possa haver vida. Aquilo que é conhecido como argumento do "fine tuning".

Em poucas palavras, ainda menos do que no livro, vou tentar explicar:

Sabemos que algures na história do universo, este teve um tamanho em que a mecânica quântica é que o regia, já que era mais pequeno que um átomo. Sabemos também que nessas condições, não precisamos de um criador (2). Na realidade é de esperar que a auto-criação esteja sempre a acontecer a nível quântico. Mas se se aplica a mecânica quântica, e as previsões feitas por esta teoria estão surpreendente bem confirmadas, então temos de explicar o funcionamento actual do universo de acordo com o que diz a mecânica quântica. A maneira matemática de explorar isso é através da reformulação de Feynman. É o que se chama "soma das histórias". Isto é, para cada entidade quântica, temos de contar como reais todas as histórias possíveis para essa entidade, e em que essas histórias possiveis interferem umas com as outras produzindo um resultado final que é a soma dessas histórias. Ou seja, os vários acontecimentos provaveis interferem uns com os outros porque têm de ser tomados como sendo todos reais, como se para uma entidade tudo o que pode acontecer com ela acontecesse ao mesmo tempo.  Por outro lado quando se faz uma observação, em qualquer momento do percurso de uma entidade quantica, estamos logo a eliminar uma data de históras possiveis que passam a não ter acontecido. O tempo comporta-se como se fosse espaço e a direcção da causalidade dá para os dois lados. O presente afecta o passado. E isto está demosntrado em mecanica quântica. E o universo neste caso é uma entidade quântica.

Por isso a teoria prevê que uma data de universos com leis diferentes tenham de ser assumidos como reais enquanto ele estiver em dimensões quanticas. E tal como a teoria prevê, se estamos cá como observadores desse universo, é natural que só vão contar para a soma das histórias do nosso universo aquelas em que é permitido que nós apareçamos. Isto é a prova cientifica do princípio antrópico fraco (1). O universo em que estamos é como é porque se não fosse não era o nosso universo. Era outro qualquer. Que é igualmente possível e real. Mas não é este em que o leitor lê estas palavras. Pelo simples facto de cá estarmos para fazer essa observação. Para quem isto estiver a fazer confusão deixem-me então explicar outra vez (3) que em mecânica quântica o presente altera o passado. Literalmente. Quando se faz uma observação, tudo o que aconteceu até esse momento é limitado por essa observação. Todas as histórias possiveis são reais mas são eliminadas aquelas que não contribuiem para o resultado obtido com a observação. De tal modo que é como se essas historias possiveis nunca tivessem acontecido. No entanto à partida sabemos que são possiveis. Algures deve haver outros universos a "pular" com histórias diferentes.

Ajudou? Se não ajudou proponho ler não só este livro como "O universo elegante" de Brian Green.

Outra parte importante do livro é a explicação de porque é que podemos usar a mecânica quântica e a relatividade ao mesmo tempo para chegar a esta conclusão mista - a parte de um universo que se contrai conforme andamos para o passado vem da teoria da relatividade. E esta parte da soma das histórias é da mecanica quantica. E sabemos que se as tentarmos conjugar uma com a outra o resultado é infinito. Não dá. Então como fazemos isso?

É porque existe uma Teoria-M que é na realidade um aglomerado de teorias, que unifica consistentemente os resultados destas teorias. Esta unificação é resultado da abordagem matemática conhecida como teorias das cordas, onde das cordas já passamos para membranas e outras coisas mais complicadas. A Teoria-M deixa que usemos modelos diferentes para problemas diferentes porque os modelos sobrepõem-se e nessa zona de sobreposição são completamente concordantes. O que não acontece com a mecânica quântica e a relatividade que sem esta integração o resultado da sua combinação e infinito. A Teoria-M ainda não está cientificamente provada, apesar de ter já o nome de teoria. Porque o grau de certeza que temos nela é tão elevado como em outras teorias. Para aqueles que considerem que a filosofia tem o mesmo grau de certeza que a ciência nas afirmações, então devem ficar satisfeitos com ela porque a lógica e a matemática que a suportam são de alto nível. Para outros como eu, que precisamos de ver as confirmações cientificas ou saber das demonstrações matemáticas completas, falta ainda só um bocadinho. Mas é claro para mim, mesma que ache que ainda falta um pequeno passo para poder escrever o meu post intitulado "O fine tuning refutado", que esta explicação está a anos-luz da qualidade de qualquer outra. É a melhor explicação que há para tudo o que conhecemos. Disso não tenho duvidas.

Para o Stephen Hawking não falta nada. ( E eu fico um bocado atrapalhado por ser ainda mais céptico que o Stephen Hawking, mas é assim a vida). Para ele, esta é a teoria de tudo. E afirma-o categoricamente. Explicitamente, para que não restem duvidas. E também diz explicitamente que a ciência diz que Deus não existe. Continuar a insistir no oposto no contexto actual do conhecimento humano só se deve à vontade dos crentes. Só se deve a uma crença apaixonada em algo que não tem justificação racional  e é até contra o conhecimento cientifico. Só se deve a Fé. Mas Fés há muitas (não faltam aí e o livro aponta umas quantas), o que é dificil mesmo é descrever a realidade sem deixar que a nossa vontade atrapalhe a visão (4).

Mas se bem que a observação que fazemos no universo condicione as leis com que ele teve de evoluir desde o Big Bang, a Fé só por si não faz aparecer as coisas que nós queremos como diz aquele livro idiota chamado "O desejo".

Que recomendação dar deste livro? Para quem quiser saber em vez de palpitar ou escolher postulados é de leitura obrigatória. Para quem já sabe tudo o que lá está escrito, é também uma história excelente. Uma que já sabemos o fim, mas que não deixa de ser uma das histórias mais fantásticas que há. A do nosso próprio conhecimento. Para mim o livro foi o que os anglófonos chamam "a page turner". Só parei de ler quando acabou, mesmo se as pestanas já pesavam.



Notas e referencias:



(1) O argumento do "fine-tuning desmistificado":
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/o-argumento-do-fine-tuning.html

(2) De uma flutuação quântica nasceu o universo:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/criacao-partir-do-nada-e-radiacao-de.html

(3)Sobre a mecânica quantica:
 http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html

(4) O mais cego é aquele que não quer ver: (ainda não escrevi neste universo).

Nota: Eu ainda considero que a teoria da evolução ao mostrar como coisas mais complexas podem emergir de outras mais simples desde que haja energia suficiente, tal como comprovado por Prigogine, justifica satisfatóriamente qualquer organisação em qualquer aspecto do universo.

Nota 2: Os autores consideram, tal com eu tenho vindo a argumentar neste blogue, que mesmo na ausencia deste conhecimento actual, que recorrer a um deus para explicar a criação não leva a lado nenhum. É só substituir um mistério por outro. Se temos de aceitar que algures há algo que  não precisa de criação é uma explicação muito mais simples dizer que o universo se auto-formou.

Nota 3: Provavelmente vai haver uma data de gente que não vai perceber nada disto e vai continuar a acreditar em deus. É a vida. Mas a tese de que a ciência repudia a existencia de deus está mais que bem fundamentada. Este livro sucede-se a outros de uma série de autores que arriscaram o seu "conforto"  quer académico quer pessoal para denúnciar que o rei vai nú.

Nota 4:  Para nós não há deus. Nem grande. nem pequeno. É contra tudo o que se sabe. Mas se a possibilidade de se formarem universos é infinita e as hipóteses são infinitas então temos de assumir que pode haver um universo que é uma sucessão ainda maior de acontecimetos ainda mais extraordinários!  Extranhamente, e porque parece-me que não há nada que o impeça, na auto-criação pode emergir expontaneamente uma entidade "tipo-deus", poderosa até ao limite da lógica e autoconsciente. Uma que no seu universo poderia por e dispor. Sabemos no entanto que isso não aconteceu neste. A não ser que essa entidade faça tudo para que tudo se passe como se não existisse, e mais do que isto não pudesse ser imaginado sequer.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Criação a partir do nada e radiação de Hawking

Outra das excentricidades da mecânica quântica é a previsão de que a matéria se está sempre a produzir a partir do nada. Pares de partícula e anti-partícula aparecem espontâneamente para logo a seguir colidirem e extinguirem-se de uma vez. No fim, nada se perde, nada se cria, tudo ficou como antes.

Stephen Hawking, fez a previsão teórica de que se isto acontecesse em cima  do horizonte de acontecimentos de um buraco negro, ficando as duas partículas separadas pela linha de fronteira, uma cairia no buraco e a outra poderia escapar-se. Não haveria aniquilação. Um fotão seria emitido - o resultado seria a radiação de Hawking.

Até agora não havia maneira de medir esta radiação, pois criar buracos negros no laboratório não é muito prático. Mas um grupo de cientistas conseguiu criar uma maneira de aprisionar e puxar uma das partículas para  simular a queda para dentro do buraco negro.

O que aconteceu foi que isso criou fotões dentro das frequências previstas pela teoria. Naturalmente que agora que o trabalho foi publicado vai ser analisado a pente fino. Mas em principio deu mais uma prova da capacidade predictiva da mecânica quântica e da possibilidade de criação de matéria a partir de uma flutuação quântica. Apenas da indeterminação nasce matéria.

Os crentes que estão sempre preocupados com a criação a partir do nada que "tem de ser impossível" deviam prestar atenção a estas coisas. É que o aparecimento da matéria não depende da vontade de ninguém. É ao acaso - e de acordo com as probabilidades quânticas. Literalmente nasce da indeterminação.

Via New Scientist:
http://www.newscientist.com/article/dn19508-hawking-radiation-glimpsed-in-artificial-black-hole.html

Sobre a mecanica quantica:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre a mecânica quântica

A mecânica quântica é a teoria cientifica que explica o comportamento de sistemas abaixo do nível do átomo. É uma parte do modelo padrão, a síntese de teorias para explicar o universo em pequena escala.

O nome quanta, vem de pacote, porque as trocas de energia vêm em múltiplos de uma quantidade mínima, como se viessem em pacotes e não como se fossem algo continuo. De resto o modelo padrão explica tudo como vindo em unidade mínimas discretas. O espaço, a matéria e a energia. O modelo padrão, que é o modelo que integra a mecânica quântica não explica a gravida. Tudo o resto é descrito como trocas de partículas.

Para alem dos "pacotes" em que é definida a energia, a mecânica quântica rompe com as teorias anteriores no seu tipo de formulação e previsões. Tudo é explicado em termos de probabilidades. Isto terá levado Einstein a formular a famosa frase "Deus não joga aos dados", se bem que não se sabe se ele o disse realmente.

Tudo bem. A mecânica quântica usa unidades discretas para descrever a energia, usa partículas para descrever a matéria sub-atómica, naturalmente vamos ter de ter um abordagem estatística para coisas tão difíceis de medir. Mas aqui é que as coisas deixam de se parecer com o universo de dimensões maiores que o átomo. As probabilidades quânticas interferem umas com as outras. E a probabilidade de uma partícula ter determinada propriedade, só passa a propriedade real quando a medimos. Ainda há mais coisas contra-intuitivas, mas comecemos por estas duas.

No mundo à escala da nossa visão, por exemplo, a probabilidade de o dado dar o numero 6 num lançamento, não influencia a probabilidade do dado dar 6 outra vez no lançamento seguinte. Intuitivamente consideramos que sair 6 outra vez é menor. Mas sabemos pela experiência e pela matemática que isso é errado. São acontecimentos independentes e esse erro vulgar tem o nome de "falácia do jogador". Isto é algo que penso que apesar do nome que tem, jogadores especializados ou ratos de casino conhecem perfeitamente.

No entanto em mecânica quântica não. O resultado de um evento relacionado afecta directamente outro que apenas difira no tempo.  É como se a probabilidade de sair um 6 no dado de uma vez, influencia-se algo na segunda vez que lançamos o dado. Como se algo no universo tivesse mudado por ter saído já o 6 uma vez.

Debatemo-nos com uma situação deste género logo nos principios da teoria. Se lançarmos um electrão de cada vez através de duas ranhuras numa chapa, ora por uma, ora por outra, eles vão marcar num receptor um padrão de ondas como se tivessem sido todos lançados ao mesmo tempo. Embora estejamos a disparar um de cada vez, parece que disparamos todos ao mesmo tempo. Eles interferiram uns com os outros tal como era de esperar se em vez de partículas discretas estivessemos a fazer ondas. Mas quando acertam no receptor, podemos confirmar que chegou um de cada vez. Isto não tem paralelo no mundo macroscopico. E parece que de facto o electrão só passou a ser um quando foi medido pelo receptor. E só nessa altura definiu a sua posição. Antes era... Uma onda de probabilidades.

Richard Feynman reformulou a teoria de modo a explicar o padrão de interferencia como sendo a interferencia entre si de todos os caminhos possiveis que uma particula toma de uma fonte ao seu destino. Isto resolve o facto de um acontecimento aparentemente independente interferir com outro, mas não resolve a questão similar da escolha do caminho da particula ser influenciada retroativamente pela nossa observação. De facto, se escolhermos observar a particula num dado ponto, em uma das sua possiveis trajectorias, parece que tal observação irá influenciar o percurso que a particula fez até essa medição, porque reduz o numero de trajectorias possíveis ao eliminar as que ficam fora do ponto de verificação.

No mundo macroscópico a probabilidade aparece quando existem demasiados factores a contabilizar para que possamos dizer exactamente o resultado de um acontecimento. Como por exemplo dizer que numero vai sair na roleta. Seria possivel se tivessemos acesso a uma descrição perfeita da velocidade, desenho da roleta com todas as imprecisoes, peso da bola, perfeiçãro da bola, etc. Com uma supermaquina e supermedições seria possivel. No mundo quantico não. A probabilidade é o que as coisas são. E o resultado so se forma no momento da verdade. É algo intrinseco.

De resto sabemos, por previsão da teoria, que não podemos saber simultâneamente a velocidade e a posição de uma partícula. E ao contrário do que muitas vezes vem escrito em textos simples como este, não é apenas por uma questão de tecnologia. Não há mesmo  maneira de medir velocidade e posição simultâneamente, porque só ao medirmos é que essas caracteristicas se revelam, e ao medir uma, estamos a perder a hipótese de medir a outra, porque não havia antes de medir e depois de medir ja a modificamos. A teoria prevê como disse, que as coisas so são o que são quando medimos.

De resto, esta caracteristica foi algo que levou a uma grande contestação da teoria. Einstein dizia que as caracteristicas tinham de estar la, que nós é que não conseguíamos medir. Mas a teoria previa que não. Que as caracteristicas não estavam definidas - estavam na tal nuvem de probabilidades quanticas - até nós as medirmos.

Como tinha prometido, ainda há outra coisa mais incrível a cerca da mecânica quântica. A não localidade. Os efeitos quânticos não dependem da distancia. É como se para coisas abaixo do tamanho do átomo, o local onde estão seja pouco importante e possam agir à distancia como se já estivessem no destino. Em certas condições claro. Einstein chamou-lhe "Spooky action at a distance" ou em português "acção fantasmagórica à distancia". E mais, disse que se tal fosse possível, então podíamos emparelhar duas partículas e separa-las centenas de metros que o resultado de uma influenciaria instataneamente e mais rápido que a luz o resultado da outra.

Emparelhamento de particulas é algo dificil de conseguir mas na practica é dar a duas particulas propriedades complementares. Como a mecânica quântica diz que a propriedade so é definida com a medição e se uma partícula não transmite à outra que foi medida, então quando medimos uma a outra tem de dicar exactamente e instantaneamente com o valor complementar. Instantâneo quer dizer mesmo ao mesmo tempo. Literalmente. Se demorar o tempo que a luz demora a percorrer esse espaço podemos suspeitar de uma partícula transmissora. Mas não é isso que a teoria prevê. E Einstein compreendeu isso e disse: "vejam só o que a vossa teoria prevê. Se isso fosse verdade tínhamos "spooky action at a distance".  Pois é. Mas hoje essa experiência foi feita inúmeras vezes e acontece tal qual como Einstein considerou impossível que acontecesse.

De resto, a mecânica quântica, mantém até aos dias de hoje a incompatibilidade com a teoria da relatividade. Não é apenas uma coisa de uma descrever o grande e outra o pequeno. Nos pontos de intersecção a conjunção das duas teorias dá resultados absurdos. Já para não falar que elas dizem coisas diferentes acerca da gravidade. Uma prevê que a gravidade sejam uma partícula, a outra diz que a gravidade é a distorção do espaço. De facto uma destas teorias vai cair. E a mecânica quântica tem acertado tantas previsões incríveis e permitido tantos avanços científicos que a maior parte dos teóricos considera que será a relatividade de Einstein a cair.

Uma das mais fortes pretendentes, a teoria das cordas, substitui as duas de uma só vez. Mas a teoria das cordas ainda é tem muitos buracos para tapar além de ser difícil testar algumas das suas previsões especificas. E tem uma coisa que a generalidade dos físicos parece não gostar. Precisa de 11 dimensões (já foram 22) para descrever o universo. São muitas dimensões que não são previstas por mais nada, não são observadas e para trazer mais 7 dimensões que as que se conhecem é preciso evidencias fortes. As entidades não devem ser replicadas para além do nesseçário.

Mas voltando à mecânica quântica, há algo que é preciso esclarecer. Apesar de haver algumas maneiras diferentes de interpretar a matemática da mecânica quântica, os fenómenos quânticos estão longe de acontecer em dimensões maiores. Mesmo ao nível de moléculas as coisas já se passam de outra maneira.

Aquelas teorias de terapias alternativas ou místicas do universo que alegam que se baseiam na mecânica quântica, não têm nada a ver com isto. Não são ciência. São aproveitamos da ignorância das pessoas acerca de uma teoria que é tudo menos simples. O facto de os próprios físicos debaterem como devem ser interpretadas determinadas coisas não quer dizer que cada um tem o direito de dizer que a teoria faz isto ou aquilo.

Por exemplo. A descoerencia é o nome que se dá ao fenómeno da partícula revelar o que é quando é medida. Os físicos consideram que o acto de medir é na realidade qualquer coisa que obrigue a partícula a revelar as suas propriedades. Ela não esta definida até que interaja com algo que a leve a dar um valor. E esse valor sai com a probabilidade que a teoria lhe atribuiu. Isto é uma interpertação. A dos "many-worlds" é outra. São interpretações, nãp afectam o sistema matemático da teoria. E são fundamentadas cientificamente. Mais a primeira que a segunda se me perguntarem, nas eu não tenho de dar opiniões sobre isto. Mas posso dizer que extrapolações como as que faz o Deepak Chopra são tretas. Não têm nada a ver com ciência. Nem com a parte matemática, nem como interpretações.

Por exemplo, não se conseguem emparelhar moléculas grandes e provavelmente nunca se conseguirá. Porque elas depois de emparelhadas precisavam de não interagir com mais nada para não se dar o processo de descoerencia, perdendo nesse instante o estado quântico de indeterminação e emparelhamento.

Não há maneira de fazer uma coisa a uma molécula aqui, de modo a que outra faça o que a gente quer alí. Nem hoje, nem provavelmente nunca. Estamos limitados pela dimensão que os objectos emparelhados podem ter e pelas propriedades que se lhes pode atribuir.

Mas este post já está demasiado longo. Mas tinha de ser. A mecânica quântica é muito complicada. Eu só acredito que tenha um grau de verdade elevado porque anos após anos aquilo, aquela coisa, acerta em todas as previsões e mais alguma, por mais estranha que pareça. E mais. Proporcionou um campo de investigação prolifero como poucas outras teorias. E encaixou com perfeitamente com outras teorias físicas para formar o Modelo Padrão.