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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Actualização sobre a acupunctura.


E essa justificação tem de incluir tudo o que se sabe acerca da realidade, e naturalmente do que é pertinente para avaliar a afirmação. Por isso temos de considerar a plausibilidade à priori antes de fazermos qualquer teste. Senão, estamos a descartar tudo o que já foi estabelecido como conhecimento como se não valesse nada, e isso não faz sentido. A matemática que permite fazer cálculos usando a plausibilidade de uma afirmação perante um determinado teste,  ou seja, a probabilidade à priori, é a estatística bayesiana. Porque testes positivos aparecem sempre que  se repetir uma experiência vezes suficientes, e não é por isso que se manda tudo o resto que se sabe às urtigas. A ciência funciona porque aposta na consistência, não na quantidade de explicações que aceita, só porque alguém acredita ou porque tiveram sucesso em poucos testes, testes mal desenhados  e escolhidos apenas entre os que deram o resultado que se queria (vulgo "cherry picking"). Por isso se diz que "afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias".

Encontrei um calculador bayeziano on-line para quem quiser experimentar. Tenho uma explicação simplificada do que é a estatística bayesiana aqui.


Então, decidi ver qual era o estado da atual pesquisa cientifica sobre a acupunctura. E parece que até os mais exigentes investigadores andam à procura de "qualquer coisa onde isto possa ser útil" dado a quantidade de coisas em que têm tentado avaliar a sua eficácia. Mas o panorama é o esperado e de acordo com as conclusões anteriores. Os testes são mal desenhados, insuficientes, e não permitem concluir eficácia excepto nalguns casos que sugerem, na mesma, ser pouco significativo. Neste cenário, e perante a falta de plausibilidade cientifica, a probabilidade que devemos dar à eficácia da acupunctura é perto de nenhuma. Ou seja, pouco mudou no mundo cientifico quando à validação da acupunctura desde que a investiguei a ultima vez.

Aqui está uma compilação da avaliação de testes a que a acupunctura foi submetida, (pela Cochrane). Clique no link por favor, e veja caso a caso. Foi praticamente o que fiz (saltei um ou outro, admito, porque estava a ficar monótono).

Dado o resultado dos estudos sistemáticos (e revisão das metodologias dos testes) em face de tudo o que se sabe sobre a realidade, a a minha conclusão é: A acupunctura continua a ser pseudociência e não tem lugar na medicina. A minha justificação é: A acupuncura não prova ser capaz de ter um efeito significativamente superior ao placebo na esmagadora maioria das situações estudadas, não apresenta uma justificação cientifica, e  leva a um campo de investigação regressivo  onde continua a ter de ser defendida por evidencia escassa, anedótica e baseada na popularidade e crença pessoal.

A humanidade viveu baseado nesse tipo de conhecimento durante 200 mil anos em que pouco ou nada evoluiu. A escrita permitiu o nascimento de uma forma de registo e divulgação, e o nascimento da ciência aconteceu sob esta nova aptidão, passado mais uns milhares de anos, um pouco por todas as civilizações, embora muitas vezes apenas pontualmente. Há cerca de 600 anos, na Europa deu-se a revolução cientifica. O poder que nos trouxe foi incomparável com o que tínhamos até agora. O mundo entrou em rápida mudança. Quando é usado para o bem permite as longevidades actuais tão elevadas, a baixa mortalidade infantil e até a erradicação de algumas doenças. Permite que as classes médias vivam melhor que lordes medievais. O caminho a seguir é claramente outro do que o da pseudociência. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um placebo teatral.

Depois de mais de 3000 ensaios clínicos não foi possível encontrar resultados consistentes que suportassem a eficácia da acupunctura.

A pergunta é: vale a pena continuar?

Se não fosse pela crença popular,  a resposta racional seria não. Mas como a crença é o ponto de partida em vez do ponto de chegada nestas coisas, certamente que a acupunctura ainda não morre aqui.

Este é um excelente artigo sobre o assunto e que explica o estado da coisa.

sábado, 16 de março de 2013

Já era tempo da O.M.S. retirar a protecção à acupunctura.

Como não sou muito susceptivel a apelos à autoridade, nunca dei muita importancia ao argumento de que a O.M.S. recomenda a acupunctura. As evidências cientificas e a discussão da metodologia que lhes é subjacente é sempre o ponto onde me procuro focar.

Claro que é preciso recorrer a autoridades numa questão de utilidade prática, (sem dúvida, ninguém tem tempo para estar a rever a bibliografia toda para tudo e/ou a estudar todas as areas a fundo para o poder fazer com segurança) mas isso não quer dizer que seja um argumento bom contra factos, ao tentar estabelecer o que é conhecimento e o que não é de apelar para a autoridade. Foi esse o erro do Aristotelismo da idade média. E de muitas outras coisas ainda nos dias de hoje...

Mas a Organisação Mundial de Saúde devia fazer melhor. Dado a falta relativa de evidências que há a favor desta prática pré-cientifica, e como é um argumento que cada vez aparece mais (talvez porque a apresentação de estudos cegos, randomizados, bem concebidos, com amostras significativas e resultados estatisticamente válidos para efeitos clinicos notáveis seja mais dificil), fui investigar o que realmente tem a O.M.S. a favor da acupunctura.

E o que encontrei sugere a incompetencia da referida organisação em lidar com pseudociencia.

O que eles têm a favor da acupunctura é este trabalho de revisão.

Salta logo à vista na primeira linha da introdução um estranho apelo à antiguidade misturado com um implicito apelo à popularidade: "Nos seus 2500 anos de desenvolvimento, uma experiencia rica foi acumulada na area da acupunctura, atestando à quantidade de doenças que podem ser efectivamente tratadas com esta abordagem". Mau começo.

Não vejo outra maneira de interpretar isto senão como um disclamer de "bias". É como gritar a plenos pulmões: " Eu fui fazer esta revisão bibliográfica, mas é óbvio que já sabia as conclusões a que teria de chegar à partida, afinal não podemos estar todos enganados desde há 2500 anos, certo?"

Afinal quem é que a O.M.S. arranjou para fazer este trabalho? Nao é um ataque à pessoa do autor, mas esta introdução torna imediatamente a questão da parcialidade relevante.

Não é a antiguidade da crença que a eleva a conhecimento. Nem a popularidade. É errado começar por aí. Mesmo que se tenha a honestidade de o dizer. Por isso não estranhei quando verifiquei quem era o autor principal:

Zhang Xiaorui começou a sua prática clinica como "médica pé descalço", que são na prática trabalhadores da saúde básicos, criados pelo regime de Mao, com formação inferior à dos médicos mas necessários na sua falta (pois estes não queriam ir para o campo). Tinham a indicação explicita de misturar a medicina ocidental com a oriental, já que não havia meios "ocidentais" que chegassem para todos. Ela veio mais tarde a concluir o curso em medicina tradicional chinesa (agora a coisa a sério) na Universidade de Pequim. Pessoalmente pode ser uma excelente pessoa, mas é de esperar uma enorme parcialidade. É como incubir um hindu de produzir um relatório que diga ao resto do mundo se Shiva existe ou não.

Em resumo, o que a O.M.S. fez foi ir perguntar aos chineses, que vivem num país de pouca liberdade de expressão, se uma prática re-introduzida no país por Mao e segundo as indicações de Mao (era proibida por ser charlatanismo antes disso) é  boa ou não.

Isto não é caso para um momento WTF? Não? Talvez na altura não se pudesse fazer melhor. Tenho dúvidas, mas adiante.


Vejo depois que os estudos usados na revisão são todos anteriores a 1999. Isso é um problema importante. A acupunctura é notoriamente dificil de ser estudada por ensaios cegos e a metodologia envolvida tem evoluido muito. São os estudos mais recentes (muito mais que 1999) que quando selecionados por rigor e não por outra coisa qualquer, mostram que a acupunctura só tem significado para condições "amigas" do placebo. Por um lado. Por outro lado, pura e simplesmente há muito mais estudos, feitos em várias partes do mundo, e a verificação indenpendente é parte da ciencia.

Também não é feita uma meta-análise rigorosa e bem descrita, quer seja acerca  dos critérios de inclusão quer seja acerca do resultado da estatistica final. Tudo cheira um pouco a "cherry picking" com uma grande quantidade  de estudos a serem traduzidos a partir do chinês pelos autores e revisores (também chineses), porque a  publicação original foi feita em revistas de medicina  tradicional chinesa. Suponho que os trabalhos que não chegassem a determinadas conclusões não seriam sequer aceites nessas revistas com a mesma facildiade, mas nem sabemos isso (não sabemos quase nada sobre o que para lá andam a publicar). Mais, aparentemente nesta revisão, estudos que resultassem em controlos com falsa acupunctura serem iguais a acupunctura, nem sequer foram incluidos, por principio! (1).

"Publication bias" é sempre um problema, mas por isso o valor de cada revista não é igual em todo o panorama cientifico. E para se julgar a Pocranilogia não se pode ir perguntar aos Pocranilogistas os que é que eles andam a dizer nas revistas criadas para publicar artigos de Pocranilogia.

Antes de bricarem no seu próprio canto e dizer que fazem ciencia eles têm de provar perante a comunidade cientifica que é ciencia realmente o que andam a fazer. Se não, isto é só criar um jornal e já está, toda a gente faz ciência. Não vice-versa como se pretende fazer aqui.

Depois, são referidos os efeitos face a grupos controle, mas não são referidos os valores de significancia para esses efeitos. Uma coisa é ter um efeito registado, outra completamente diferente é saber qual a probabilidade de presenciar esse efeito apenas por acaso. Estatistica básica. Mas nada de valores de significancia referidos nesta revisão.

Uma ultima nota diz respeito à ambição do estudo. Em ocasiões diferentes diz coisas diferentes. Num momento dizem que a recomendação de usar a acupunctura como tratamento cabe a organismos nacionais, portando não estando eles a recomendar a acupunctura como normalmente é referido por acupunctores, noutro dizem claramente que pretendem promover "o seu uso adequado".

É de notar que são referidos neste trabalho que há desafios metodológicos envolvidos e também a discussão que havia na altura em torno deles (ainda há hoje em dia mas foram feitos muitos progressos - como disse é notoriamente dificil isolar a acupunctura do efeito placebo e outros tipos de "bias", porque a ocultação total é um problema, já que alguém tem de estar a saber se está a fazer acupunctura ou não). Mas ao menos isso pode ser dito em abono dos autores.

Mas também por isso a questão que se põe é: Agora que sabemos melhor como fazer estes testes e como temos metaestudos e um conhecimento que apontam na direcção oposta, porque não é actualizada esta informação? Porque continua afinal esta recomendação?

Não sei. Isso é uma questão que eles deviam ter já respondida mas não têm.

Notas:
(1) In many published placebo-controlled trials, sham acupuncture was carried out
by needling at incorrect, theoretically irrelevant sites. Such a control really only
offers information about the most effective sites of needling, not about the
specific ef
fects of acupuncture (13). Positive results from such trials, which
revealed that genuine acupuncture is superior to sham acupuncture with
statistical significance, provide evidence showing the effectiveness of
acupuncture treatment. On the other hand, negative results from such trials, in
which both the genuine and sham acupuncture showed considerable therapeutic
effects with no significant difference between them, can hardly be taken as
evidence negating the effectiveness of acupuncture. In the latter case, especially
in treatment of pain, most authors could only draw the conclusion that additional
control studies were needed. Therefore, these reports are generally not included
in this review." - Obrigado ao Marco Filipe pela nota.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Temos mas não mostramos.

Acabei de ver o Pedro Choy na televisão (1) a dizer que os chineses têm imensos estudos de qualidade a mostrar a eficácia da acupunctura e que não os divulgam cá para fora porque não querem saber de nós.

Esta afirmação, caso o Pedro Choy não repare, não adianta nada. Porque ela própria, para se levar a sério, precisa de uma justificação forte. A justificação acrescentada é que eles são 1/3 da população da terra e não precisam de nós para nada.

Tudo bem, mas isso não justifica a eficácia da acupunctura. Muito menos justifica a enorme falta de eficacia encontrada na acupunctura nos teste realizados no ocidente.

Essa do tenho mas não mostro é uma coisa que já não via desde criança. Mas a maior parte de nós percebeu logo que podia responder na mesma moeda e eliminar esse tipo de justificação. Podia-se dizer neste caso: "e eu tenho provas de que esses estudos são uma fraude mas só as mostro quando me os mostrarem ".

No estado em que os testes cegos, controlados e aleatórios conhecidos deixaram a acupunctura, alegar que os testes bons estão todos na china e de lá não saiem é... Apenas pedir para acreditarem que nós é que sabemos porque sim.

Na minha opinião, a China até quer saber de nós, não vive fechada nas suas fronteiras e pura e simplesmente os estudos que apresenta são irreprodutíveis na presença de cépticos metódicos, que é o que lhes vai calhar na sopa se começarem a tentar publicar isso em revistas de prestigio pelo mundo fora.

Depois ainda fez um apelo à autoridade. Que a O.M.S. recomenda a acupunctura. Pois é, mas a O.M.S. também faz asneiras e nunca um apelo à autoridade é melhor que uma prova empírica metódica. Senão voltamos ao Aristotelismo e não se faz nada.

Agora vou brincar com o meu unicórnio azul, único no mundo e que não mostro a ninguém porque o quero só para mim.

(1) Na RTP2 com o Prof. Vaz Carneiro que esteve muito bem pelo que vi. Não sei o nome, eu só assisti um bocadinho e foram logo estas prendas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Acupunctura é 5% melhor que placebo. Isso chega?

Não. Não chega.

Mas é o que diz um meta-estudo recente sobre a acupunctura que conclui que ela deve ser recomendada para determinados tipos de dor crónica (o tipo de dor que devia ser raro na china há uns séculos atrás).

A diferença entre fazer a falsa acupunctura ou a verdadeira acupunctura, neste mesmo estudo, foi de 5% na redução da dor. Redução essa avaliada subjetivamente - não há outra maneira. Ou seja, a dor é sempre uma questão de percepção e logo bastante variável de acordo com outros factores que afetem os pacientes. Donde, uma redução de 5%, é bastante perto de nada. Clinicamente não é relevante, ninguém iria dar por isso.


Estatisticamente, também não chega para provar que a acupunctura é mais que placebo; embora seja neste meta-estudo estatisticamente significativo para  os valores de P usuais, é importante notar que se estamos a usar valores de P iguais aos que usamos para coisas bastante bem explicadas, então estamos a colocar um "bias" forte no sentido da acupunctura.

Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias, por isso não podemos aceitar um valor de P vulgar.

Porque não podemos esquecer que não há um mecanismo plausível para a acupunctura ultrapassar o efeito placebo e não há evidência que funcione para mais nada do que alguma vez se alegou que poderia funcionar - aliás como não me canso de notar, a dor cronica é desde algum tempo o ultimo reduto desta pseudociência .

De resto o "bias" dos autores é bem notável ao concluir que a acupunctura deve ser recomendada, quando o grau de melhora que teve relevância estatística foi 5%. Eles devem saber que relevância estatística e relevância clinica não são a mesma coisa, mas talvez se tenham esquecido...

Aliás, "bias" como o identificado aqui, pode bem ser a origem dos tais 5%. Ou aqui.

O que é certo é que isto se traduz agora em desinformação do público.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fitas Kinesio vão aos jogos olimpicos. Mas funcionam?

As fitas kinésio (KT; tape = fita) foram distribuidas livremente pelos atletas nos Jogos Olimpicos de Pequim e nestes ultimos jogos já  foram bastante usadas por procura direta. Estas fitas adesivas coloridas, inventados por um acupunctor e quiropratico japonês são alegadamente capazes de aliviar a dor, melhorar a performance, re-educar o sistema neuromuscular, prevenir lesões e melhorar a capacidade de regeneração e melhorar a circulação  quando aplicada na parte pertinente do nosso corpo.

Ligaduras, talas e outros suportes físicos são usados com vários fins semelhantes na medicina normal e são racionalmente explicaveis, por isso podemos admitir alguma plausibilidade nas alegações numa primeira abordagem, desde que não se aleguem também grandes e rápidas melhoras para lá do esperado por outras ligaduras. O que soa um bocado a ser o caso mas até aqui fica o beneficio da dúvida. Ser pau para toda a obra e usar linguagem vaga como "re-educar o sistema neuromuscular" também é um bocado estranho...


A coisa começa a complicar mesmo quando nos explicam que têm "a mesma elasticidade da pele e assim não têm a desvantagem de um suporte rigido", que "levantam a pele microscopicamente e assim melhora a circulação linfatica" e que este "levantamento da pele leva a uma diminuição da inflamação nas areas afectadas". Aliás o criador diz mesmo que acredita que "muita da dor muscular e articular vem deste espaço entre a derme e a epiderme". E é neste contexto que são repetidas muitas vezes as mesmas vantagens e apresentado o produto como "um tratamento de fita adesiva reabilitante definitivo".

Ok, aqui estão a precisar realmente de algo que justifique estas afirmações todas. Cada um pode dizer o que quiser, e até acreditar, mas o importante é saber como é que se sabe. Que evidências há?

É a este propósito, feita também a afirmação de que foi estudado empiricamente durante anos para sustentar todas estas alegações, mas não se encontram esses resultados publicados nos sitios adequados para ser submetidos a peer-review. Na realidade não encontrei onde ler nenhum desses estudos do desenvolvimento das fitas. Mas fica claro que estamos perante algo que pretende ser novo no modo como atua e não apenas mais um tipo de ligadura elástica. Mas isso requer novas provas. E é um bocado chato que não facilitem o acesso aos estudos que fizeram para lá chegar.

Mas há um metaestudo recente (estudo dos estudos),  indenpendente, publicado numa revista com  peer-review, feito portanto já acerca das fitas kinesio que andam por aí no mercado.

O que diz? Diz isto:

Encontrados 97 estudos, apenas 10 correspondiam aos critérios de selecção. Resultados:

Efficacia para a dor: Trivial, sem relevancia clinica.
Amplitude de movimentos: Resultados inconsistentes - Melhora pequena em dois estudos, trivial noutros dois.
Força: Positivo na maioria dos casos, (alguns negativos apenas para determinados musculos). Também alguns efeitos particulares sobre os musculos foram observados e mas sem ser claro se eram positivos ou negativos.

Conclusão : Pouca evidencia para suportar o uso de KT em vez de qualquer outra fita elástica na prevenção de lesões desportivas. KT pode ter um pequeno papel benéfico em aumentar a força e melhorar a amplitude de movimentos mas são precisos mais estudos que confirmem estes achados. A quantidade de casos em estudo e o suporte pela evidencia anedotica para o KT pedem que se façam mais estudos experimentais bem desenhados (planeados), particularmente para os casos de lesões desportivas de modo que os praticantes possam saber se o KT é benéfico ou não para os atletas.

Traduzido daqui: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22124445; estudo publicado na Sports Medicine em  Fevereiro de 2012.

Bem, é o que há. O que eu posso acrescentar? Não use estas fitas adesivas sem recorrer a um dianóstico médico convencional pois pode não ser o que precisa. Se o médico achar que uma fita elastica deste tipo de tensão é adequado parece-me que estas têm umas cores magnificas e vão dar muito sucesso na praia. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Mais uma revisão da acupunctura


Este é um “post” longo, mas para me dirigir a todas as questões que são pertinentes na avaliação da acupunctura, num contexto em que esta é uma pratica extremamente popular, parece-me necessário. Espero que valha a pena o esforço do leitor. Procuro responder às defesas mais recentes dos acupunctores face aos céticos e sem prejuízo da minha postura cética quero começar com o seguinte “disclaimer”:
Eu não penso que espetar agulhas não tenha nenhum efeito (espero que não haja para aí amigos do “quote mining”). Não é plausível – se não houvesse nenhum efeito não sentíamos as picadas. A quebra da integridade dos tecidos, só por si, deverá levar a alguma reação por parte do organismo.  A própria sensação da picada e a dor moderada associada a esta, deverá causar alguma distração do foco da atenção, libertar endorfinas e confundir a perceção que temos do nosso próprio corpo. Mas aqui estou a divagar. Eu penso que não é isto que importa – se há algum efeito, seja qual for, ou não:
Penso que o que importa é se existe realmente benefício clínico obtido especificamente pela prática da acupunctura. Isto é, se existe efeito com significado para o doente e um que não possa ser obtido de outro modo mais simples e prático. Isto implica avaliar não só os resultados finais do procedimento do acupunctor, como também a possível explicação que haja para estes resultados. Se os benefícios, a existirem,  não vêm de onde a acupunctura diz que vêm, não só faz pouco sentido usar a acupunctura para os justificar, como devemos encontrar um modo de os reproduzir com a explicação correta.
Como isto não é um assunto fácil, convém antes de mais nada sermos claros. Temos de saber do que estamos a falar e não andar a misturar as coisas. E eu neste “post” não me refiro a formas mais recentes de acupunctura, como por exemplo a electroacupunctura. Uma coisa de cada vez. Porquê? Por um lado, porque é muito diferente meter eletricidade ao barulho do que não meter, seja no que for, por outro porque pode não fazer sentido acrescentar acupunctura à eletroestimulação:
Se não houver bases para a justificar a pratica de acupunctura, dificilmente se pode fazer o argumento de que há para justificar a de eletroacupuntura, pelo menos de um modo que a distinga da eletroestimulação. E para fazer essa distinção, precisamos de testes desenhados para esse efeito especifico e, embora não me pareça que  existam muitos estudos promissores (dentro dos que cumprem determinadas critérios de rigor), não é o assunto que está neste “post” em estudo. Mas se não se distingue eletroacupunctura de eletroestimulação, devemos optar pela explicação mais simples: é de que é a eletroestimulação que está a atuar.
Podemos sempre adornar uma teoria com entidades e explicações supérfluas sem alterar o seu resultado prático. Podia dizer, por exemplo, que as marés existem porque há Duendes que fazem a água andar para frente e para trás. À resposta de que é por ação gravitacional da Lua, eu podia responder que sim, que essa está lá mas é que essa é uma explicação reducionista, que os Duendes estão lá na mesma a ajudar.
Mas que é que isso acrescentava? Nada… Por isso, sabemos desde os princípios da filosofia que se “A” explica o mesmo que “A mais x” é porque o “x” não explica nada (1). Eletroacupunctura precisa de explicar mais que só o feito pela parte “eletro” para manter a parte “acupunctura” com alguma relevância. E por outro lado, pela mesma razão, se a eletrocupuncura funciona para alguma coisa, isso nada diz acerca da acupunctura por si só.
Por isso repito, não é sobre essa evidencia, acerca da eletroacupuncura, que eu proponho ponderar e pensar agora. Agora é a parte “acupunctura” apenas, tal qual nos é apresentada. Apenas quis deixar uma explicação clara e objetiva para não abordar a vertente eletro e não querer misturar as coisas.
Pretendo sim mostrar porque mantenho o ceticismo relativo à acupunctura mais tradicional,  a “unplugged”, deixando ligações para o que dizem os testes empíricos mais rigorosos e salientado que existe um trabalho de revisão cientifica  (5.1 ) já feito, que me permite não me preocupar em reunir tudo o que se sabe, (todos os testes) e me deixa ir direto ao que me interessa.
Mas agora comecemos pela teoriaA teoria fornece o suporte “à priori” de qualquer teste. Dá o contexto em que este deve ser lido. Testes estatísticos com valores de p usuais  favorecem falsos positivos (2 e 3), por várias razões e por isso existe uma defesa cada vez maior em que se use também  a estatística bayesiana. Por isso é importante de qualquer modo avaliar a plausibilidade, ver para onde aponta a evidência que já temos. No fundo fazer como Sagan tão eloquentemente colocou: “afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias”(3).
E é logo aí, na apreciação da teoria da acupunctura, que começam os problemas. A ciência contemporânea, explica muito satisfatoriamente o que é a vida, a homeostasia, e as diversas causas de doença ao ponto de não fazer falta recorrer a Qi ou meridianos de qualquer espécie. Novamente, por uma questão de simplicidade, faz sentido cortar a explicação supérflua. Não faz falta para explicar nenhum facto conhecido. Ao fim de mil anos de existência, é um bocado pouco. Igualmente não faz sentido racional apelar ao “Qi das lacunas”, isto é, andar à caça de pormenores onde o conhecimento cientifico não é muito bom e dizer: “não sabemos, logo é o Qi!”.
O dizer que o Qi existe é francamente uma afirmação extraordinária num contexto cientifico.
O que se poderia passar de qualquer maneira era, apesar de não ter uma explicação razoável, ainda assim, a acupunctura funcionar. Muitas descobertas científicas acontecem por acidentes, numa altura em que ainda não se esperam nem se sabe porquê. Podia ser o caso. Houve uma altura onde uma grande quantidade de testemunhos levavam a suspeitar disso. Porque durante algum tempo a acupunctura sofria de falta de testes rigorosos a seu respeito. Não se sabia como fingir o processo de espetar para fazer um controlo. E estudos duplamente cegos em que quem espeta também não sabe se está no tratamento ou não são muito difíceis de fazer pela mesma razão. Já para não falar que testes duplamente cegos são tipos de testes recentes. O problema de se é da acupunctura ou é de todo o ambiente envolvente que vem o efeito, não estava resolvido.
Mas recentemente surgiram algumas soluções para este problema. O placebo da acupunctura, ou seja, aquilo que deve replicar o tratamento em tudo menos nas alegações especificas em estudo foi feito de 2 maneiras: Com as agulhas espetadas fora dos locais tradicionais e picando sem espetar, quer recorrendo a palitos ou agulhas retrateis, quer recorrendo a uma bainha a tapar a agulha (4).
os resultados desses estudos mais recentes e mais bem desenhados são pouco convincentes para suportar alguma eficácia da acupunctura (5.1). De um modo geral, mostram que a acupunctura verdadeira ou falsa tem o mesmo significado, se bem que seja melhor do que não fazer nada (mas isso não é um placebo decente) (5). Então, alguns defensores da acupunctura deram voz ao argumento de que  havia ainda mais maneiras de fazer acupunctura. Como se pode picar à sorte optaram por dizer que funciona até em outros pontos. Em infinitos deles, aparentemente. Como se uma companhia farmacêutica concluísse, num estudo em que o efeito placebo foi igual ao tratamento, que afinal não precisava de pôr sequer principio ativo no comprimido para ele funcionar.
Porque é que eu posso fazer este paralelo? Porque se espetando ao acaso eu tenho o mesmo efeito, é porque as alegações especificas da acupunctura não são devidas a existir nenhuns pontos úteis especiais ou meridianos discretos a que se tenham chegado ao longo de milénios de estudo. Tanto faz onde se espeta. O efeito que existe é replicado por espetar ao calhas ou só picar. Sugere fortemente que é por outra coisa qualquer. Que poderá ter apenas superficialmente a haver com a acupunctura. É para isso que serve o placebo. É para controlar a experiência e testar alegações específicas tentando isolar o resto dos fatores. E neste caso, falsifica as alegações de haver pontos ou regiões que sejam, especiais. E isto era um ponto central da teoria.
Se dissermos que os pontos estão em todo o lado, e os meridianos estão em todo o lado, eles passam a ser entidades tão vagas que, ao não fazerem afirmações testáveis, deixam de ser úteis. Passam a ser como os Duendes que movem as marés ao mesmo tempo que a Lua e que não muda nada quer estejam lá ou não. Afinal, temos muitas causas de doenças conhecidas capazes de fazer previsões e explicar situações. Parece-me  normal ver que  a acupunctura, vinda cristalizada de milénios, não pode dizer algo para lá do que se sabe hoje, depois de tudo o que se sabe de genética, teoria dos germes, imunologia, etc. Não podemos aceitar agora meridianos que estão em todo o lado como solução para se ter falsificado a sua previsão quanto aos pontos de acupunctura. Porque isso só está a tornar a sua definição mais vaga e a fazer entrar a acupunctura definitivamente no reino da pseudociência – de facto, depois de Imre Lakatos, sabemos que é o programa de investigação degenerativo (com soluções ad-hoc para as anomalias e perda de capacidade de fazer previsões testáveis que levem a novas descobertas) que é a marca da pseudociência (6).
Resta, de qualquer modo, apresentar uma explicação para os resultados da acupunctura serem quase sempre superiores a outro placebo qualquer que não reproduza a encenação da acupunctura. Será que podemos dizer que funciona mesmo sem espetar desde que a pessoa acredite? Então o que está a funcionar? É a acupunctura e os seus infinitos  meridianos  sensíveis ao toque acabados de descobrir em pleno ocidente científico?
Não é a melhor explicação, se me perguntarem. Existe outra explicação,  consistente com os resultados e com o resto do conhecimento científico para além  de já relativamente bem estudada. Isso faz  ser uma explicação mais simples e mais elegante (elegante no sentido usado pelos cientistas). Vou tentar explicar:
A melhor explicação é a sugerida pelos ensaios em que o placebo da acupunctura é igual à acupunctura. O que estamos a ter é efeito placebo. E o que sabemos sobre o placebo encaixa aqui muito bem. O problema da acupunctura, para ser considerada uma ciência, e levada a sério pelos céticos, é que precisa de se distinguir significativamente do efeito placebo. Não só da sua própria modalidade placebo, mas do que é um placebo como regra geral.
Existem vários graus de efeito placebo, conforme a força da crença do paciente e como é induzido. É influenciado pelo preço (7.1), pela marca no rótulo dos comprimidos (7.1.1), pela forma da administração, etc. Tendo este facto sobre o placebo em conta, podemos ter uma explicação elegante para justificar os resultados obtidos geralmente pela acupunctura. O que parece é que a acupunctura é provavelmente um excelente placebo. Se o que conta é o que a pessoa sente, então sim, a acupunctura parece ser um processo capaz de levar à satisfação com a terapia, pelo menos no curto prazo, já que a longo prazo o curso normal da doença não será alterado. Não altera fatores objetivos, mas parece ter influência na perceção de alguns tipos de dor (ainda que só tenha um bem provado) e na sensação de melhoria. Tal como o efeito placebo.  Têm os mesmos efeitos (sensação de melhora, maior eficácia na dor), as mesmas limitações (não atuam sobre as causas e entidades discretas) e são consistentes com a mesma explicação. Mais uma vez, por occam, tentemos encaixar as peças do puzzle.
E o efeito placebo é algo que é suficiente? Vale a pena por si? Há alguns problemas e o efeito placebo está relativamente bem estudado:
O efeito placebo é muito mais um efeito de perceção do que um efeito real (7.2, 7.3). As razões que o levam a ser tão facilmente  manipulável (de facto a ciência procura efeitos acima do placebo e isso é que é mais difícil) é a mesma razão pela qual ele não é de confiança. Quando são avaliados objetivamente os problemas de saúde, a gravidade da doença não muda por causa do placebo. O placebo pode levar a pessoa a achar que está melhor, mas na realidade não está. Os tumores não reduziram, as bactérias não diminuíram o seu número, os asmáticos não passaram a ser capazes de aumentar o volume de ar respirado, etc. O placebo não atua, pelo menos significativamente, sobre as causas das doenças. Repito, é um efeito sobretudo na perceção.
Por isso, o último reduto de muitas terapias alternativas é a dor e a náusea, coisas relacionadas com a perceção. Na realidade, não há modo rigoroso de avaliar a dor, é sempre por auto-relato. Logo, são áreas bastante dadas ao efeito placebo.
O que o paciente sente é importante. Disso não haja dúvida. Mas existem outras maneiras de o fazer acreditar na terapia e sentir-se bem. E talvez o estudo de como isso se consegue na acupunctura consiga dizer algo sobre como se deviam tratar sempre os pacientes. Quero dizer, com delicadeza e simpatia.
Dito isto, a acupunctura parece ainda ter uma aplicação para a qual encontra resultados positivos consistentes, como já aludi. É a dor cervical. Porque isso acontece não sei dizer. Talvez haja ali de facto um local especial que mediante a estimulação física liberte endorfinas. Mas porque só ali, ainda é um mistério. Não estranho se se descobrir depois que era um artefacto. Seja como for não podemos esperar que espetar agulhas em qualquer lado seja rigorosamente igual a espetar noutro qualquer. Se espetarmos num olho ou numa bochecha é garantidamente diferente num lado e noutro. O que isso não tem nada a ver é com a acupunctura.
Em baixo encontram-se uma série de artigos que uso para fundamentar as afirmações aqui feitas. A crença é livre e cada um pode acreditar no que quiser. Mas podemos formar a crença no sentido das evidências ou noutro sentido qualquer que nos apeteça. Eu proponho que se sigam as evidências.
Bibliografia:
(1) principios de simplicidade, como por exemplo a lâmina de occam remontam à Grécia antiga: http://plato.stanford.edu/entries/simplicity/
Acerca de falsos positivos, estes têm sempre de aparecer algures – cuidado com o Cherry Picking:
(2) Relevância do valor p num universo onde há poucos estudos ou há grande bias e os resultados negativos não recebem atenção  - gera falsos positivos sobretudo se usarmos p<0,05 (95%). Aponta para a necessidade de usarmos estatística bayesiana:
http://www.plosmedicine.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pmed.0040215
(3) Idem, inclui explicação mais detalhada de porque a probabilidade à priori é importante, já que implica deitar fora toda uma data de outra evidencia bem colhida em detrimento de uma pequena contradição que pode ser um falso positivo: http://dl.dropbox.com/u/1018886/Bem6.pdf
(4) Existem vários artigos a falar do assunto, e como não é um tópico de controvérsia não me vou debruçar muito no assunto mas por exemplo: http://en.wikipedia.org/wiki/Acupuncture#Sham_acupuncture
(5) Eficácia da acupunctura:
(5.1)Revisão sobre numerosos estudos de acupunctura que conclui que não se encontrar evidencia convincente que seja útil para a dor, excepto eventualmente dor cervical: http://www.painjournalonline.com/article/S0304-3959(10)00689-5/abstract
(5.2) Estudo da Cochrane publicado (no BMJ) em 2009, naturalmente incluído na ultima revisão de Ernst e que não encontra diferença relevante entre placebo e acupunctura: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2769056/?tool=pmcentrez
(5.3) Estudos que não encontram diferença significativa entre falsa e verdadeira acupunctura:
Com agulhas que se retraem ao toque na náusea:
(5.5) Para sintomas associados ao cancro da mama: http://jco.ascopubs.org/content/25/35/5584.abstract
(6.6) Sem quase espetar (minimal needling), nas dores de cabeça: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1046/j.1468-2982.2001.00198.x/abstract
(5.8) Estudo que mostra não  haver diferença entre falsa e verdadeira e que sugere  a diferença está na crença (efeito placebo) que conseguimos criar no paciente: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/acr.20225/abstract
(5.x) A diferença está no tratador, não no tratamento:
(6) Lakatos e a sua abordagem do problema da demarcação, considerado o melhor e mais atual:
(7) Placebo,
Estudo publicado na JAMA que mostra a variação do efeito placebo com o preço:
Revisão que conclui não haver efeitos clínicos relevantes do efeito placebo, sendo que a perceção do paciente não é considerada neste caso um efeito clinico. O efeito placebo aparece como sendo ligado à perceção e a questões onde a perceção é mais importante como a dor. Ainda assim mesmo no caso da dor, existe uma grande variação nos resultados:
Estudo que mostra que placebo e acupunctura dá origem aos pacientes relatarem o mesmo grau de melhoras mas que tal não coincide com o que está realmente a acontecer: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1103319
(7.3)Relação entre o placebo e a marca e roltulo: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM200105243442106

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Medicina Tradicional Chinesa - doenças crónicas e a esperança média de vida.

A China tinha, no inicio do século passado, uma esperança média de vida de cerca de 30 anos. Na Europa por essa altura a esperança média de vida era no mínimo 10 anos mais - em muitos países era quase 20 anos mais (mesma referência).

Só 50 anos mais tarde é que a média de vida na china chegou aos 40 anos, em 1950.

Hoje, a esperança média de vida na china é de cerca de 74,5 anos. Menos 4 anos em média que em Portugal.

Se a medicina tradicional chinesa é uma pratica milenar como vem sendo dito, é óbvio que não era suficiente para dar à China uma longevidade a par da vivida no ocidente. E é óbvio também, pela mesma razão, que não foi esse o factor que permitiu o aumento da esperança média de vida, nos últimos anos. Existem autores que atribuem isso à chegada da medicina cientifica. Mas podem estar errados, claro.

Também pode dar-se que as causas de uma longevidade tão baixa não estejam apenas ligadas a falta de eficiência da medicina tradicional chinesa mas sobretudo a não saber para o que ela serviria. E portanto a aplicá-la mal.

Afinal, arranjar o Qi podia ser ineficaz não só contra doenças infecciosas mas também contra Qis desalinhados devido a carências alimentares ou duras condições de vida. Afinal não podemos esperar que alinhar os Qis por meio de agulhas resolva todo o tipo de problemas não é? Mesmo que fossem as questões mais pertinentes nessa altura. Afinal o que essa gente precisava era de uma alimentação melhor, saneamento básico, vacinas, etc. que aquele tipo de desatino no Qi não se arranjava com agulhas.

Felizmente esses problemas estão resolvidos e a acupunctura pode agora brilhar nas coisas para que realmente serve.

Parece que segundo as tendências actuais, alinhavar os Qis por meio de agulhas, é sobretudo bom para doenças crónicas, de preferência ligadas a dor crónica (1). É bom, porque se não serviu para aumentar a longevidade para lá dos 30 ou 40 anos durante milénios, ao menos agora serve para resolver  doenças que surgem em quem vive mais.

Resta a dúvida de para que é que aquilo servia em pessoas com menos de 30 anos... E mais. Onde é que a medicina tradicional, dita milenar, aprendeu algo sobre doenças crónicas em populações com esperança média de vida até aos 30? Que sorte formidável ter conseguido sobreviver durante milénios sem dar resultados para nos ajudar agora contra doenças crónicas. Essas coisas que só aparecem depois dos 30.

É... Suponho que a acupunctura deve ter sido mesmo útil foi a resolver doenças auto-limitantes em jovens. E duvido que seja mais útil para doenças crónicas que para as agudas.

Seja como for, não me parece um bom argumento falar em doenças crónicas ou na longa história de existência da acupunctura para a defender. Isso levanta questões que não lhe são favoráveis.

O problema é que os testes científicos também.

(1) Deixei uma referência, mas isto foi me dito pessoalmente por um senhor, vestido com roupas chinesas e tudo, que estava num congresso de veterinária a vender os seus serviços e que me abalroou enquanto eu ia nos meus afazeres.

sábado, 17 de setembro de 2011

Os palitos e a acupunctura.

Se existem já estudos que mostram que aplicar acupunctura e picar (sem espetar) com palitos tem o mesmo efeito, a conclusão que se pode tirar daqui é a mesma que se pode tirar quando comparamos acupunctura verdadeira ( acupunctura feita nos pontos tradicionais)  com outra onde se espeta à toa.

A conclusão é que as alegações especificas da acupunctura são falsas.

Quando os resultados são replicáveis de um modo inespecifico e oposto ao da teoria em estudo é porque não é essa teoria que está a explicar os resultados observados. É outra coisa qualquer que também é posta em funcionamento por processos que são substancialmente diferentes (de facto tão diferentes que foram imaginados para refutar as alegações da teoria desafiada).

Se o efeito de analgesia da acupuncura for superior a placebo, coisa que não está estabelecida de modo algum, pelo contrário, o que sabemos já com toda a certeza, é que não tem nada a ver com a medicina tradicional chinesa. Sabemos que podemos replicar esse efeito de um modo menos invasivo, sem precisar de decorar pontos estúpidos, e sem ter de propor energias místicas. Sabemos que não podemos permitir chamar àquilo medicina alternativa e deixar que se proponham tratar uma data de coisas.

Mas o que sabemos também é que esse efeito, é muito ligeiro. Afinal qualquer um pode experimentar picar a pele com palitos para ver se elimina a dor forte. Distrai. E até pode, eventualmente, libertar umas adenosinas e endorfinas. Mas funciona realmente? Alivia satisfatóriamente? Não. Precisamos sempre de algo verdadeiramente eficaz para dores fortes.

É que efeitos vagos, tipo placebo, é fácil encontrar. Existe em tudo o que se convença alguém que funciona. Existe no antibiotico e na agua da torneira, na fisioterapia e na acupunctura. O que é difícil é encontrar coisas que não deixem dúvidas do alivio que causam e que tenham mais que efeito placebo. Pelo que sei de estudos recentes, para dor crónica não temos quase nada. Mas para dor aguda felizmente sim.

Como tenho reparado, as discussões acerca da acupunctura acabam sempre por girar acerca da dor. E do efeito moderado sobre a dor, que é replicado por picar com palitos.

Mas mesmo que, no melhor cenário para a acupunctura, isto fosse verdade, que tinha um ligeiro efeito analgésico, de modo algum isto significa que faz sentido usar acupuncura para qualquer outra coisa, ou que sequer faz sentido dizer que a acupunctura funciona. Não funciona. Picar com agulhas e com palitos faz qualquer coisa. Isso parece-me óbvio. Doi um bocado. Mas não tem nada a ver com o que dizem os chineses à séculos. Esse apelo à antiguidade está comprovadamente falso.

E então se vêm falar em estudos de análgesia moderada para defender que se  pode com isto  tratar constipações, cancro, hepatites, deixar de fumar, etc. é a treta completa. E no entanto parecem haver sempre bastantes individuos dispostos a fazer precisamente isso...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Acunpunctura e o autismo.

Haja crentes que se gasta dinheiro a testar tudo e mais alguma coisa.

Desta feita foi em espetar agulhas para tratar o autismo. Resultado: Não serve. Surpresa, hã??

Aqui.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Nem tudo o que acontece depois de espetar agulhas prova a existência de Qis, meridianos e essas coisas. Nem passa uma borracha sobre estudos de eficácia anteriores.

Ao fim de cerca de 3000 anos, a acupunctura continua a não ser capaz de fornecer evidencias convincentes da sua eficácia, para tudo, excepto eventualmente para ligeira dor cervical. A panaceia universal prometida regularmente é uma ilusão.

Sempre foi. Felizmente que já ninguém tenta sequer iniciar uma discussão séria acerca da eficácia da acupuncura que não esteja relacionada com dor ou nausea. Em termos cientificos, tudo o resto esta já fora de questão há algum tempo. Em questões que envolvem percepçao subjectiva a coisa tem sido mais dificil. Mas está numa rota semelhante desde que se descobriu uma maneira de imitar um tratamento de acupunctura.

Quando se inicia uma discussão séria sobre acupuntura a coisa descamba logo para a eficacia como analgésico para tentar provar e dar credibilidade ao resto da teoria. A dor é o ultimo reduto. Mas é fraco e não chega. Como se diz em Inglês: "Too little (dor cervical), too late (mais de 3000 anos)"

É caso para dizer que tanto se procurou que lá se encontrou qualquer coisa onde espetar agulhas tivesse algum efeito. Suponho que se se investir uma fortuna a testar como é que colar autocolantes vermelhos resolvem sintomas, algum resultado positivo há de aparecer algures. Mas seja.

Mesmo admitindo que é eficaz para dor cervical, moderada claro, isso não quer dizer que todo o resto da teoria da acupunctura funcione. E isto pode parecer óbvio mas é importante salientar, porque é de facto por aí que pegam sempre os proponentes destas coisas. Não é por após milénios encontrarmos uma pequena utilidade para uma coisa, que isso passa por cima de todos os estudos que mostram que não existe eficácia em mais nada. E que temos de passar a considerar que o mecanismo em que a acupunctura se diz assentar é real. Não existem Qis. Não estão onde deviam estar, não fazem falta para explicar nenhum aspecto da fisiologia ou da patologia e não existe de resto qualquer vestigio de evidência que permita distinguir a mera crença nos Qis da sua existência real.

Espetar agulhas faz coisas. Lesa tecidos, causa dor e naturalmente serão libertados modeladores da dor e inflamação. Mas a acupunctura não é apenas espetar agulhas. Ou seja, nem tudo o que envolve espetar agulhas faz sentido que seja chamado acupunctura. Senão dar uma injecção subcutânea, uma vacina que seja é acupunctura. Ou para outro exemplo se picar um nódulo para fazer uma citologia, estaria a fazer acupunctura. E certamente que a electroestimulação não é acupuncura.

Repetindo, porque não é demais, os Qis não existem. Os pontos de acupunctura não existem histológicamente e anatómicamente e sabemos que onde quer que espetemos as agulhas o resultado é o mesmo. Os efeitos que possamos verificar e medir após espetar agulhas, dentro deste contexto é a consequência inespecifica de espetar qualquer coisa. E nem parece ser preciso espetar para dar origem a esse efeito. Picar com palitos chega. Não tem nada a ver com o resto da lenga lenga teórica milenar que tentam impingir depois.

E mesmo essa historia de ser milenar me faz confusão... Já que só foi possível fazer agulhas de metal fino lá para o século 2 ac, e antes de haver assépcia (e vacina do tétano) espetar agulhas metálicas ou pior (ossos e pedras) devia ser uma brincadeira perigosíssima. Não que hoje não haja riscos, de facto no ultimo estudo de revisão do Prof Edzar Ernst foram identificados mais de noventa casos de complicações graves e uns poucos de mortos. Na minha opinião a acupunctura inicial poderá ter começado por ser apenas a punção para drenagem de abcessos, que me parece ser uma coisa bastante intuitiva. A generalização apressada e o efeito placebo fizeram o mito. Isto é a minha opinião, já que não posso andar para trás no tempo e verificar empiricamente. Mas encaixa perfeitamente naquilo que hoje o empirismo metódico nos trouxe.


Este novo “post” sobre acupunctura vem a propósito de um estudo que já tem um ano mas que continua a ser discutido por aí (teve e ainda tem um enorme impacto) de uns investigadores que descobriram uma nova forma de aliviar a dor. Descobriram que picar as pernas de ratos com agulhas no ponto gásrico-36, Sunali, fazia libertar adenosina que depois se mostrou, recorrendo a um agonista, ou seja, um amplificador da sua acçao, que funciona também como agente analgésico. Boa. O estudo é bom e a descoberta pode abrir um campo de investigação proveitoso para o uso do agonista da adenosina nos receptores em causa (tenho menos fé em relação a usar a adenosina propriamente dita já que ela é usada para muitas, muitas outras coisas). A parte errada e falsa é concluir que isto prova a acupunctura em algum aspecto. Isto não prova Qis, meridianos, desiquilibrios energéticos e essas coisas todas. Nem prova que se espetarmos uma agulha numa enorme perna humana no ponto gastrico-36 que vamos produzir adenosina suficiente para servir de analgesia para seja o que for. As tentativas que houve, que não ficam menos válidas por não termos em mente a existência deste novo mecanismo, mostram que isso só funcionaria no pescoço (caso seja o que lá se está a passar). Não o suficiente sequer para chamar a tal procedimento uma terapia complementar.

A explicação mais plausível que eu tenho para isto, e é baseada no que diz o Steven Novella, é que qualquer agressão mecânica deva levar a produzir adenosina. Mas tal como as endorfinas que são libertadas em situaçôes de dor, causar mais dor para libertar mais endorfinas e assim minimizar teoricamente baixar a dor é uma asneira. Senão as mulheres em trabalho de parto que têm doses de endorfinas enormes em circulaçao não precisavam de outro analgésico qualquer. E no entanto o parto é considerado das coisas mais dolorosas que há (e provavelmente sem paralelo no parto de qualquer outra espécie). E isto faz-me é lembrar um investigador espanhol que concluiu que o touro de lide devia sentir menos dor porque as análises mostraram que eles ficam também carregados de endorfinas durante a lide. Pois ficam, é porque doi.

Tal como a endorfina, a adenosina está lá após espetar a agulha, provavelmente porque faz parte do processo bioquímico de modelação da dor. Podemos tirar partido disso, mas sabemos já à partida que a acupunctura não é essa via (excepto para o pescoço, como já referido).

Se tivermos de espetar agulhas para depois conseguir um efeito analgésico enorme mediado pela adenosina ( e penso que recorrendo a agonistas) e se tiver menos efeitos secundários que os que já conhecemos, então que seja. Mas isso tem tanto a ver com acupuncura como tem a ver com Qis e merdianos.

A ilusão é melhor que a realidade? Basta acreditar para ser real? Mais confusões com o significado do placebo.

Este é um estudo muito interessante que mostra que o “placebo” é um efeito sobre a percepção e não sobre a doença, e que é preciso muito cuidado a avaliar os relatórios que as pessoas fazem sobre as suas próprias doenças.

É assim:

Foram testados no tratamento da asma, um inalador com albuterol (bronco-dilatador), uma acupunctura falsa “sham”, e ainda mais um placebo que era um inalador mas sem albuterol para libertar. A juntar a isto houve um grupo que não recebeu tratamento nenhum. Temos portanto em teste um principio activo, dois placebos e não fazer nada. O ensaio clinico está metodológicamente correcto e recorre a dupla ocultação, é randomizado, amostra válida, essas coisas. E em geral as conclusões também estão correctas. Mas os resultados primeiro para depois poder discutir as conclusões, ou melhor, o que tem sido feito elas.

Os resultados são que usando critérios objectivos, não dependentes de opinião de médicos ou pacientes, o único eficaz é o inalador com albuterol. Se usarmos a auto-avaliação dos doentes, tudo funciona de igual modo, excepto não fazer nada.

O albuterol ser o único eficaz em termos objectivos, com melhoras reais, está de acordo com as expectativas. E que as pessoas relatem melhoras com a acupunctura sham ou um inalador inerte também. É o efeito placebo. Sabemos por estudos anteriores que o efeito placebo não causa melhoras reais, quantificáveis objectivamente mas que leva as pessoas a terem uma percepção optimista sobre o seu estado de saúde. Este estudo é altamente consistente com isso. É alias um excelente exemplo de que os relatórios de melhoras por auto-avaliação não são de confiança. Não fazer nada, acaba por ser o que se espera, não se melhora nada.

A parte complicada e que está a servir para manipulações pelos defensores das medicinas alternativas é a de que o albuterol foi relatado pelos pacientes como tendo tanta eficácia como o placebo. Logo, sugerem, o efeito placebo é melhor que a coisa real (1). Non sequitur!

Na própria conclusão do artigo diz: "Placebo effects can be clinically meaningful and can rival the effects of active medication in patients with asthma. "


Mas embora o que nós sentimos seja importante, quer-me parecer que o mais importante é haver realmente melhoras - para além daquilo que nós achamos, já que estamos obviamente enganados. Convencer as pessoas que elas estão melhores é mais importante que elas estarem de facto melhores? A longo prazo e num contexto mais abrangente, as coisas não podem ser equivalentes. Os que conseguem ter pulmões mais funcionais, ainda que não se apercebam disso, deverão ter uma serie de outras vantagens funcionais relacionadas. E o desgaste no organismo deverá ser completamente diferente.

O que estes estudos mostram é que as pessoas podem ser iludidas no mapa que o cerebro faz do próprio corpo. Mas tirar proveito disso em detrimento de recorrer a tratamentos que actuam positivamente no corpo é errado. A melhor conclusão que podemos tirar daqui é que é importante atacar em todas as frentes e tirar proveito do efeito placebo ser um efeito da pessoa. Isto é, pode ser conseguido com tudo. Até com o que funciona realmente.

Fontes, referencias, origem, etc., encontra-se tudo aqui:

http://www.sciencebasedmedicine.org/index.php/dummy-medicine-dummy-doctors-and-a-dummy-degree-part-2-0-harvard-medical-school-and-the-curious-case-of-ted-kaptchuk-omd/

Directo para o artigo cientfico:
http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1103319

(1) "However, even though objective physiological measures (e.g., FEV1) are important, other outcomes such as emergency room visits and quality-of-life metrics may be more clinically relevant to patients and physicians." Citado do artigo na Science Based Medicine.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Acupunctura Revisitada


O Prof. Edzard Ernst publicou recentemente meta-estudo de todos os artigos de revisão sobre a acupunctura para o tratamento da dor. Ou seja, um artigo de revisão dos artigos de revisão no ultimo reduto da acupunctura – a dor – uma vez que é sempre uma questão de percepção subjectiva. E a percepção subjectiva é variável de acordo com uma data de coisas. É o efeito placebo.


57 revisões sistemáticas cumpriam os critérios de inclusão. Encontrou-se uma mistura de resultados positivos, negativos e inconclusivos e segundo Ernst escreve no “abstract” emergiram também uma série de contradições e problemas que explicam a inconsitencia dos resultados. Apenas 4 estudos foram considerados de elevada qualidade metodológica.

De todos os casos apenas 4 situações médicas houve consistência nos resultados, com os estudos a chegar à mesma conclusão e em 3 dos 4 casos essa conclusão é negativa.

O caso único em que se pôde concluir positivamente a favor da acupunctura é na dor no pescoço – já antes tínhamos visto como a dor é o ultimo reduto da acupunctura, uma vez que é sempre uma questão de percepção.

Adicionalmente, como nota a autora do editorial da revista onde o artigo é publicado, quando uma terapia popular ineficaz é testada vai haver um excesso de falso positivos. (1)

Foram ainda encontradas descritas 5 mortes e 95 casos de efeitos adversos graves.

Se bem que este estudo por si não prove que a acupunctura não funciona para tratamento da dor, prova sim que é muito pouco eficaz, tão pouco que o ruído (acaso, placebo, etc) se confunde com qualquer efeito que haja.

No entanto, se abordarmos este artigo no contexto geral, de tudo o que já sabemos que sobre a doença e a natureza, podemos concluir que a acupunctura não funciona. Não é funciona mal. É não funciona.

Via Science Based Medicine:
http://www.sciencebasedmedicine.org/?p=11765

  1. Ioannidis et al 2007, citado por Harriet Hall em:
    http://www.painjournalonline.com/article/S0304-3959(11)00077-7/abstract

    O texto de Ioannidis aqui (muito interessante):
    http://www.plosmedicine.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pmed.0040215
       

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Acupunctura é placebo, o que conta é a crença no tratamento.

Já foi publicado em Abril deste ano mas mais vale tarde do que nunca. Um estudo na "Arthritis Care & Research" que põe a acupunctura em contraste com a "sham" (falsa - agulhas espantalho, pontos à sorte) acupunctura, além de um grupo a que não se fez nada, conclui que a falsa e a verdadeira têm o mesmo efeito.

Isto é o padrão cientifico para dizer que um tratamento não funciona. Quer dizer que o efeito terapêutico deve ser atribuído a outras causas que não sejam o objecto de estudo. Neste caso, como ambas as acupuncturas tiveram o mesmo efeito, mas foram superiores a não fazer nada, concluímos inequivocamente que estamos perante o efeito placebo. Mas esse efeito, é um efeito da crença e não do medicamento. Está presente em qualquer medicamento a que se consiga ligar a confiança do paciente.

E numa abordagem muito interessante, neste estudo ainda se decidiu testar essa variável, tentando isola-la da seguinte forma: Dentro dos grupos sujeitos a acupunctura, separaram-se três subgrupos a quem foram dadas expectativas diferentes. Um a que não era dado uma grande confiança no tratamento, outro que era dada confiança ligeira e outro a que se dizia que se esperavam grandes melhoras. Os resultados foram os esperados. O grupo com as melhores expectativas e mais confiante relatou melhores resultados. E o segundo mais confiante em segundo lugar O que confirma que a variável em causa na acupunctura é o efeito placebo.

Este estudo tem uma dupla conclusão. Uma é de que a acupunctura isolada não é um tratamento real. É treta. A outra é de que devemos ter todo o cuidado em conseguir investir o paciente de confiança. Como eu sou alérgico à treta, proponho que não devamos mentir ao paciente. Nem para seu bem. Mas como o efeito do placebo pode estar associado também aos medicamentos que têm de facto eficácia por si só, e a meios comprovados cientificamente, eu penso que se deve ter atenção a coisas que tradicionalmente o meio médico negligência. Todo o aparato à volta conta.

Este estudo, a par com outros que se vão acumulando, mostra que os sistemas de saúde devem ter uma recepção cuidadosa dos pacientes e os médicos e enfermeiros preparados para fazer um certo "counching". Sem querer por a responsabilidade especificamente em cima de ninguém, atrevo-me a dizer que isto até podia revestir de uma nova importância à profissão dos enfermeiros. Uma que eles sempre tiveram, mas que agora tem justificação cientifica e podia ser cientificamente estudada. De modo a proporcionar serviços de saúde exemplares.

Para terminar queria acrescentar duas coisas:

Este estudo foi sobre a dor. Era uma área onde a acupunctura ainda tinha alguma credibilidade. Não se sabia porquê mas havia resultados. Agora com a técnica que permite fazer uma acupunctura a fingir, resultando na eliminação de variáveis inespecificas (placebos), podemos ver o que esta realmente a funcionar. Não é a acupunctura. É o pensamento positivo (e no caso de alguns acupunctores o Ben-u-ron, pelo sim, pelo não).

Outra é que neste teste foi usada electro-estimulação nervosa que se sabe ja há muito tempo reduzir a percepção da dor. Isto é, ligaram as agulhas à electricidade. Não devia ter sido confundido com acupunctura tradicional chinesa, embora isso aconteça com frequência, pois é um meio de aumentar a resposta terapêutica face a grupos em que não se faz nada e tem eficácia comprovada ja ha muito tempo. Neste estudo a acupunctura falsa recebeu intensidades menores de corrente (segundo o S. Novella, pois no abstract não diz nada!) e não houve diferença. Podiam no entanto ter evitado mais esta variavel no estudo. No entanto o estudo foi desenhado para estudar o papel do efeito placebo na acupunctura e isso acho que faz eficazmente uma vez que sabemos que a electro-estimulação não reduz qualquer tratamento que existisse na acupunctura mas sim pelo contrário.

Notas:

Via "Neurologica" do Steven Novella - http://theness.com/neurologicablog/?p=2233
Ligação para o abstract:
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/acr.20225/abstract

domingo, 12 de setembro de 2010

Até onde se pode ir para defender uma treta?

Aparentemente até a revistas com peer review como a Plos. Mesmo com um estudo sobre a plausibilidade da acupunctura laser, que não é nem sobre acupunctura, nem sobre  a plausibilidade do tratamento.

Acupunctura laser não é acupunctura, é apontar  laseres para a pele. A não ser que apesar de nem haver tecnologias para fazer agulhas finas, já houvesse para fazer lasers, na china e à milénios atrás (quando eles se vangloriam num "ad antiquitatem" típico de que a acupunctura é... velha). E depois, que o cérebro mostre sinais de receber essa descarga de fotões também não devia ser de estranhar.

Mas parece que isto é um estudo bom o suficiente.  Mesmo se nada se pode concluir com este desenho de estudo sobre a plausibilidade do tratamento.

Podia ser com cuspo, assobios, qualquer coisa que causasse uma resposta cerebral. Afinal é no cérebro que  os sentidos ganham sentido. Mas talvez os acupunctores não saibam disto. Apesar de saberem usar laseres.

Não é a primeira vez que a acupunctura infecta a literatura científica com  peer-review, nem será a ultima, mas estas coisas fazem-me o estômago andar à volta (mais um efeito da acupunctura? Imagino que era a conclusão que estes tipos tiravam se lessem isto).

Eu estou aonde a evidencia me levar. Mas há aqui duas coisas que não batem certo. Uma é a debilidade do desenho dos estudos aceites destas medicinas alternativas. Parece que começa a haver dois pesos e duas medidas tal como faz a população em geral: "Ah e tal, funciona com energias místicas, temos de tolerar tudo. E além disso é (suspense)  -tratamento holístico - ". Outra é a reciclagem das medicinas alternativas, neste caso a acupunctura, tal qual criacionismo mascarado de Desígnio Inteligente.

Já vi de tudo. Quando a acupunctura funciona pior que o controle (em que as agulhas não são espetadas) conclui-se que não é preciso espetar as agulhas para funcionar (o standard cientifico é que se não ultrapassa o controle/ placebo é ineficaz). Depois era a electroacupunctura, que também esta provado faz qualquer coisa. Duh!!!! São choques eléctricos, qual electroacupunctura. Claro que faz qualquer coisa. Faz muita coisa. E até pode ser bem usada. Chama-se electroestimulação e estava cá antes de ligarem as agulhas à corrente e lhe chamarem tratamento holístico. E ainda tenho aí outro post antigo onde mostravam como se podia juntar a acupunctura para ajudar o tratamento com opiáceos. (ver nas etiquetas - acupunctura).

Deixem-se de tretas para vender uma pratica disfuncional, fantasiosa e que devia ser uma relíquia do passado!

Agora é acumpuntura laser. Que faz qualquer coisa no cérebro. Pois faz. E se assobiares ou cuspires também. Vão-lhe chamar cuspacupunctura e sobiocupunctura?

Haja pachorra.

Descobri o dito estudo através do blog do Orac aqui:



E já agora aqui outro link para o debunk de outro estudo publicado numa boa revista:

http://www.sciencebasedmedicine.org/?p=6485

Isto de facto é preocupante. Há a invasão do meio científico com um sistema de crenças que não é plausível, não se encaixa com mais nada e esta a abrir caminho como um mantra, pela repetição das coisas e por apelos à popularidade, e não com estudos bem desenhados e com rigor cientifico.

Como disse, se se provar que a acupunctura é mais que placebo, eu passo a defender a sua prática. Estou onde leva a evidência. Mas não é isso que está a acontecer.




segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Espetar agulhas ajuda a melhorar a eficiência dos opiáceos. Que mais se segue?

Os defensores da acupunctura não se deixaram convencer quando testes após testes, a acupuntura foi sendo apagada pela sua rival "Sham". Em resposta, dizem, que as duas funcionam. Mas a "sham" foi um método engenhoso desenvolvido para fingir que se esta a fazer acupunctura. As agulhas não espetam. Tem ponta retrátil e cola em alguns casos, feita em pontos diferentes dos tradicionais noutros, mas não é acupunctura. Só que o paciente não sabe. E não sabendo, não pode ser influenciado pela crença que tem no tratamento, aquando relata a sua melhora à dor. Que era o ultimo reduto de eficacia da acupunctura.

Os acupunctores reagiram dizendo que então as duas funcionam. Quando um placebo é mais eficás que o fármaco ou procedimento a ser estudado, em ciência, conclui-se que o novo produto não funciona. Mas no mundo das medicinas alternativas, esse universo alternativo existente nas fantasias de alguns, conclui-se que funcionam as duas. Bravo. E descobrimos uma nova medicina.

E no estudo que eu vou criticar hoje, o autor propoe mesmo que se passe a considerar sempre que o placebo funciona. Certo. Mas será que não dá para perceber que o placebo é um efeito inexpecifico? Que o que se procura tem mesmo de ser algo que faça mais do que o placebo? Porque placebos há muitos. Dos outros é que há poucos. E o efeito placebo é muito limitado. E o outro não tanto. Sobretudo quando temos em conta que tudo tem efeito placebo, ou pode ter, se se acreditar minimanente na medicina, alternativa ou não. E que tal um chocolate quente?

Mas esta questão não é nova. O que é novo no estudo com que me deparei hoje, foi a alegação que a acupuntura melhorava a acção de outro fármaco. Bravo outra vez. O tal tratamento milenar afinal só serve para complementar tratamentos quimicos mais recentes? É isso que nos querem impingir?

Mas na minha opinião nem essa conclusão é correcta.

O que se verificou foi que entre a Sham e a real, não houve diferenças na dor relatada, mas por Tomografia por emissão de positrões, foi concluido que os que receberam a verdadeira acupunctura tinham mais receptores de opioides activos que os outros. O que torna o cérebro mais sensivel aos opiodes, potencialmente aumentando o efeito de qualquer opiacio administrado. O que não foi feito. O estudo conclui uma coisa para a qual não foi desenhado. O erro é crasso. Mas adiante.

Outro erro que pode explicar esta situação é que as agulhas foram deixadas espetadas nos pacientes recebendo a real e não na Sham. Isto devia ter sido evitado, deviam ser virtualemente identicas. Porque a unica conclusão logica a tirarassim é que deixar agulhas espetadas muito tempo aumenta os receptores de opioides em relação a elas serem tiradas imediatamente.

E se querem a minha opinião, se isso acontece é porque causa algum desconforto e dor. E se vamos dar opiacios não temos de espetar agulhas, não vá o paciente ser hemofilico.

Esta aqui o estudo que critico:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19501658?ordinalpos=2&itool=EntrezSystem2.PEntrez.Pubmed.Pubmed_ResultsPanel.Pubmed_DefaultReportPanel.Pubmed_RVDocSum

Uma noticia dele aqui:

http://latimesblogs.latimes.com/booster_shots/2009/08/acupuncture-boosts-effects-of-painkillers-whether-natural-or-prescription.html

Uma critica mais elaborada que a minha pode ser encontrada aqui:

http://www.sciencebasedmedicine.org/?p=733