A percepção humana da realidade é altamente variável perante uma série de factores. E a melhor maneira que se encontrou para eliminar influencias paralelas mas não pertinentes foi recorrer a testes cegos.
Tenho discutido neste blogue com imensa frequência a importância do teste cego (ou com ocultação) na elaboração de ensaios clínicos e avaliação de propostas terapêuticas. De facto, o primeiro registo histórico de um teste cego é o do realizado por Lavoisier e Benjamin Franklin a pedido da Academia de Ciências Francesa, para descobrir a verdade acerca do “magnetismo animal”. Os proponentes desta teoria falharam a identificação cega de frascos com fluidos orgânicos, como seria de esperar pelas suas alegações se fossem correctas.
Mas para além da área da saúde, naturalmente que existe uma série de outras aplicações possíveis para a ocultação nos testes, e alguns resultados bastante curiosos que vale a pena conhecer. Não, não me refiro ao “Pepsi challenge”. Mas... Quase.
Também já tinha falado na incapacidade dos enólogos de distinguirem os vinhos franceses dos americanos em provas cegas. E do publico em geral não distinguir um vinho de preço médio de um vinho de preço elevado. Parece que para a maioria das pessoas e mesmo enólogos, que se o vinho não for uma enorme zurrapa, então são todos igualmente bons. Nota para os vinicultores portugueses: Ponham os nossos vinhos em provas cegas que vão sair nos resultados entre os melhores do mundo (a não ser que haja fraude).
Mas há uma série de outras coisas interessantes.
Por exemplo. Os violinos de Stradivarius não são capazes de ultrapassar uma prova cega. Existem poucas experiências ainda mas nas efectuadas, os resultados não favorecem o mito. E para os que pensem que isso pode apenas significar que os Stradivarios estão a perder qualidades fiquem sabendo que o fenómeno do Stradivarius não é desde sempre. Na época não eram sequer considerados os melhores. E hoje são (desde que o teste não seja cego). O que se passa neste caso é mais uma história de “O rei vai nu”. Ou talvez nú propriamente não esteja, mas como li algures noutro dia, “o monarca vai pelo menos de ténis e fato de treino”.
Mas na música as coisas não se ficam por aqui. E no mundo dos audiófilos as coisas também não são como eles pensavam. Não ouvem o que pensam que ouvem! Os testes cegos mostram que as pessoas não distinguem entre amplificadores, sinais digitais ou analógicos (lamentamos, mas os adoradores do vinil se não tiverem o ruido de fundo para diferenciar não sabem dizer qual é qual – como por exemplo distinguir entre o vinil e o som gravado digitalmente dessa mesma fonte de vinil), cabos ( parece que aqui há indícios e indícios apenas, de que alguns cabos possam ser distinguíveis por algumas pessoas, mas não pela maioria). Na realidade, a maior parte das preferencias dos audiofilos não fazem uma diferença que eles proprios consigam distinguir.
Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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- Página inicial
- Teoria da Relatividade
- Mecânica Quântica
- Criacionismo
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- Teoria da Evolução
- Medicinas Alternativas
- Astrologia
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- Importância do Consenso Científico
- Teorema de Godel
- Evidência Anedótica
- Propriedades emergentes e a mente.
- Leitura a frio vs mediunismo/etc.
- O que é o cepticismo?
sábado, 27 de agosto de 2011
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
O mecanismo de acção da homeopatia está lá junto com o resto das coisas que se alegam que "não se podem provar que não existem só porque não se encontraram".
Isto é, outra vez a questão de provar uma negativa. Para os defensores de pseudociências não pode ser possível provar uma negativa. Insistem nisto quase todos. Não pode ser possível provar que não existem espíritos, não pode ser possível provar que não existem energias inteligentes, etc.
Desta vez é o presidente da firma de produtos homeopaticos Boiron - o Christian Boiron em pessoa - que insiste que lá porque não se conhece o mecanismo de acção da homeopatia não podemos dizer que não existe – que não é cientifico. É cientifico. Podem provar-se negativas.
Em ciência, e como eu tenho já dito, depois de procurar exaustivamente um mecanismo ou entidade e não o encontrar, a conclusão é que não existe. E isso foi o que se passou com a homeopatia. Primeira eram os miasmas, depois a memória da agua, etc. Nenhuma dessas alegações se demonstrou ser verdade, após procura exaustiva e sistemática.
O que pensam que vai acontecer com a particula de Higgs se não for encontrada nas condições em que devia aparecer? Ou com a supersimetria? Ou com todos os outros medicamentos (que não sendo rotulados de alternativos) não encontrem eficacia e mecanismo de acção comprovados?
Para mais, não existe nenhuma diferença lógica funcional entre uma afirmação positiva e uma negativa, já que pela dupla negação temos a afirmação original “de volta”. Isto pode ser usado para converter afirmações positivas em negativas e fazer avaliações lógicas. Ver este artigo aqui acerca disto.
Temos de ver que de entre as coisas que se procurou exaustivamente e não se encontrou prova é de que tenha de existir um mecanismo de acção. A homeopatia não funciona, logo não encontrar o mecanismo de acção é o esperado. O Christian Boiron diz que a homeopatia trata muita gente. Mas isso não é verdade. Do mesmo modo, quando repetimos sistematicamente testes que dizem que não há eficácia, a conclusão é que não há eficácia. Não é que “apesar de ainda não termos demonstrado que havia eficácia logo, não quer dizer que ela não exista”.
Na prática, provar uma negativa pode dar mais trabalho porque pode exisgir que se repita uma experiencia até deixar de ser plausivel aceitar que exista esse efeito. Ou, até chegar a um ponto, onde esse efeito mesmo que exista, é tão reduzido que não tem significado (como por exemplo o efeito de mais uma ou duas moleculas de agua ingeridas por dia).
Mas sem efeitos e sem mecanismo de acção nem vale a pena estar a arranjar problemas que nem sequer são verdadeiros. Pode-se provar uma negativa.
Desta vez é o presidente da firma de produtos homeopaticos Boiron - o Christian Boiron em pessoa - que insiste que lá porque não se conhece o mecanismo de acção da homeopatia não podemos dizer que não existe – que não é cientifico. É cientifico. Podem provar-se negativas.
Em ciência, e como eu tenho já dito, depois de procurar exaustivamente um mecanismo ou entidade e não o encontrar, a conclusão é que não existe. E isso foi o que se passou com a homeopatia. Primeira eram os miasmas, depois a memória da agua, etc. Nenhuma dessas alegações se demonstrou ser verdade, após procura exaustiva e sistemática.
O que pensam que vai acontecer com a particula de Higgs se não for encontrada nas condições em que devia aparecer? Ou com a supersimetria? Ou com todos os outros medicamentos (que não sendo rotulados de alternativos) não encontrem eficacia e mecanismo de acção comprovados?
Para mais, não existe nenhuma diferença lógica funcional entre uma afirmação positiva e uma negativa, já que pela dupla negação temos a afirmação original “de volta”. Isto pode ser usado para converter afirmações positivas em negativas e fazer avaliações lógicas. Ver este artigo aqui acerca disto.
Temos de ver que de entre as coisas que se procurou exaustivamente e não se encontrou prova é de que tenha de existir um mecanismo de acção. A homeopatia não funciona, logo não encontrar o mecanismo de acção é o esperado. O Christian Boiron diz que a homeopatia trata muita gente. Mas isso não é verdade. Do mesmo modo, quando repetimos sistematicamente testes que dizem que não há eficácia, a conclusão é que não há eficácia. Não é que “apesar de ainda não termos demonstrado que havia eficácia logo, não quer dizer que ela não exista”.
Na prática, provar uma negativa pode dar mais trabalho porque pode exisgir que se repita uma experiencia até deixar de ser plausivel aceitar que exista esse efeito. Ou, até chegar a um ponto, onde esse efeito mesmo que exista, é tão reduzido que não tem significado (como por exemplo o efeito de mais uma ou duas moleculas de agua ingeridas por dia).
Mas sem efeitos e sem mecanismo de acção nem vale a pena estar a arranjar problemas que nem sequer são verdadeiros. Pode-se provar uma negativa.
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Nem tudo o que acontece depois de espetar agulhas prova a existência de Qis, meridianos e essas coisas. Nem passa uma borracha sobre estudos de eficácia anteriores.
Ao fim de cerca de 3000 anos, a acupunctura continua a não ser capaz de fornecer evidencias convincentes da sua eficácia, para tudo, excepto eventualmente para ligeira dor cervical. A panaceia universal prometida regularmente é uma ilusão.
Sempre foi. Felizmente que já ninguém tenta sequer iniciar uma discussão séria acerca da eficácia da acupuncura que não esteja relacionada com dor ou nausea. Em termos cientificos, tudo o resto esta já fora de questão há algum tempo. Em questões que envolvem percepçao subjectiva a coisa tem sido mais dificil. Mas está numa rota semelhante desde que se descobriu uma maneira de imitar um tratamento de acupunctura.
Quando se inicia uma discussão séria sobre acupuntura a coisa descamba logo para a eficacia como analgésico para tentar provar e dar credibilidade ao resto da teoria. A dor é o ultimo reduto. Mas é fraco e não chega. Como se diz em Inglês: "Too little (dor cervical), too late (mais de 3000 anos)"
É caso para dizer que tanto se procurou que lá se encontrou qualquer coisa onde espetar agulhas tivesse algum efeito. Suponho que se se investir uma fortuna a testar como é que colar autocolantes vermelhos resolvem sintomas, algum resultado positivo há de aparecer algures. Mas seja.
Mesmo admitindo que é eficaz para dor cervical, moderada claro, isso não quer dizer que todo o resto da teoria da acupunctura funcione. E isto pode parecer óbvio mas é importante salientar, porque é de facto por aí que pegam sempre os proponentes destas coisas. Não é por após milénios encontrarmos uma pequena utilidade para uma coisa, que isso passa por cima de todos os estudos que mostram que não existe eficácia em mais nada. E que temos de passar a considerar que o mecanismo em que a acupunctura se diz assentar é real. Não existem Qis. Não estão onde deviam estar, não fazem falta para explicar nenhum aspecto da fisiologia ou da patologia e não existe de resto qualquer vestigio de evidência que permita distinguir a mera crença nos Qis da sua existência real.
Espetar agulhas faz coisas. Lesa tecidos, causa dor e naturalmente serão libertados modeladores da dor e inflamação. Mas a acupunctura não é apenas espetar agulhas. Ou seja, nem tudo o que envolve espetar agulhas faz sentido que seja chamado acupunctura. Senão dar uma injecção subcutânea, uma vacina que seja é acupunctura. Ou para outro exemplo se picar um nódulo para fazer uma citologia, estaria a fazer acupunctura. E certamente que a electroestimulação não é acupuncura.
Repetindo, porque não é demais, os Qis não existem. Os pontos de acupunctura não existem histológicamente e anatómicamente e sabemos que onde quer que espetemos as agulhas o resultado é o mesmo. Os efeitos que possamos verificar e medir após espetar agulhas, dentro deste contexto é a consequência inespecifica de espetar qualquer coisa. E nem parece ser preciso espetar para dar origem a esse efeito. Picar com palitos chega. Não tem nada a ver com o resto da lenga lenga teórica milenar que tentam impingir depois.
E mesmo essa historia de ser milenar me faz confusão... Já que só foi possível fazer agulhas de metal fino lá para o século 2 ac, e antes de haver assépcia (e vacina do tétano) espetar agulhas metálicas ou pior (ossos e pedras) devia ser uma brincadeira perigosíssima. Não que hoje não haja riscos, de facto no ultimo estudo de revisão do Prof Edzar Ernst foram identificados mais de noventa casos de complicações graves e uns poucos de mortos. Na minha opinião a acupunctura inicial poderá ter começado por ser apenas a punção para drenagem de abcessos, que me parece ser uma coisa bastante intuitiva. A generalização apressada e o efeito placebo fizeram o mito. Isto é a minha opinião, já que não posso andar para trás no tempo e verificar empiricamente. Mas encaixa perfeitamente naquilo que hoje o empirismo metódico nos trouxe.
Este novo “post” sobre acupunctura vem a propósito de um estudo que já tem um ano mas que continua a ser discutido por aí (teve e ainda tem um enorme impacto) de uns investigadores que descobriram uma nova forma de aliviar a dor. Descobriram que picar as pernas de ratos com agulhas no ponto gásrico-36, Sunali, fazia libertar adenosina que depois se mostrou, recorrendo a um agonista, ou seja, um amplificador da sua acçao, que funciona também como agente analgésico. Boa. O estudo é bom e a descoberta pode abrir um campo de investigação proveitoso para o uso do agonista da adenosina nos receptores em causa (tenho menos fé em relação a usar a adenosina propriamente dita já que ela é usada para muitas, muitas outras coisas). A parte errada e falsa é concluir que isto prova a acupunctura em algum aspecto. Isto não prova Qis, meridianos, desiquilibrios energéticos e essas coisas todas. Nem prova que se espetarmos uma agulha numa enorme perna humana no ponto gastrico-36 que vamos produzir adenosina suficiente para servir de analgesia para seja o que for. As tentativas que houve, que não ficam menos válidas por não termos em mente a existência deste novo mecanismo, mostram que isso só funcionaria no pescoço (caso seja o que lá se está a passar). Não o suficiente sequer para chamar a tal procedimento uma terapia complementar.
A explicação mais plausível que eu tenho para isto, e é baseada no que diz o Steven Novella, é que qualquer agressão mecânica deva levar a produzir adenosina. Mas tal como as endorfinas que são libertadas em situaçôes de dor, causar mais dor para libertar mais endorfinas e assim minimizar teoricamente baixar a dor é uma asneira. Senão as mulheres em trabalho de parto que têm doses de endorfinas enormes em circulaçao não precisavam de outro analgésico qualquer. E no entanto o parto é considerado das coisas mais dolorosas que há (e provavelmente sem paralelo no parto de qualquer outra espécie). E isto faz-me é lembrar um investigador espanhol que concluiu que o touro de lide devia sentir menos dor porque as análises mostraram que eles ficam também carregados de endorfinas durante a lide. Pois ficam, é porque doi.
Tal como a endorfina, a adenosina está lá após espetar a agulha, provavelmente porque faz parte do processo bioquímico de modelação da dor. Podemos tirar partido disso, mas sabemos já à partida que a acupunctura não é essa via (excepto para o pescoço, como já referido).
Se tivermos de espetar agulhas para depois conseguir um efeito analgésico enorme mediado pela adenosina ( e penso que recorrendo a agonistas) e se tiver menos efeitos secundários que os que já conhecemos, então que seja. Mas isso tem tanto a ver com acupuncura como tem a ver com Qis e merdianos.
Sempre foi. Felizmente que já ninguém tenta sequer iniciar uma discussão séria acerca da eficácia da acupuncura que não esteja relacionada com dor ou nausea. Em termos cientificos, tudo o resto esta já fora de questão há algum tempo. Em questões que envolvem percepçao subjectiva a coisa tem sido mais dificil. Mas está numa rota semelhante desde que se descobriu uma maneira de imitar um tratamento de acupunctura.
Quando se inicia uma discussão séria sobre acupuntura a coisa descamba logo para a eficacia como analgésico para tentar provar e dar credibilidade ao resto da teoria. A dor é o ultimo reduto. Mas é fraco e não chega. Como se diz em Inglês: "Too little (dor cervical), too late (mais de 3000 anos)"
É caso para dizer que tanto se procurou que lá se encontrou qualquer coisa onde espetar agulhas tivesse algum efeito. Suponho que se se investir uma fortuna a testar como é que colar autocolantes vermelhos resolvem sintomas, algum resultado positivo há de aparecer algures. Mas seja.
Mesmo admitindo que é eficaz para dor cervical, moderada claro, isso não quer dizer que todo o resto da teoria da acupunctura funcione. E isto pode parecer óbvio mas é importante salientar, porque é de facto por aí que pegam sempre os proponentes destas coisas. Não é por após milénios encontrarmos uma pequena utilidade para uma coisa, que isso passa por cima de todos os estudos que mostram que não existe eficácia em mais nada. E que temos de passar a considerar que o mecanismo em que a acupunctura se diz assentar é real. Não existem Qis. Não estão onde deviam estar, não fazem falta para explicar nenhum aspecto da fisiologia ou da patologia e não existe de resto qualquer vestigio de evidência que permita distinguir a mera crença nos Qis da sua existência real.
Espetar agulhas faz coisas. Lesa tecidos, causa dor e naturalmente serão libertados modeladores da dor e inflamação. Mas a acupunctura não é apenas espetar agulhas. Ou seja, nem tudo o que envolve espetar agulhas faz sentido que seja chamado acupunctura. Senão dar uma injecção subcutânea, uma vacina que seja é acupunctura. Ou para outro exemplo se picar um nódulo para fazer uma citologia, estaria a fazer acupunctura. E certamente que a electroestimulação não é acupuncura.
Repetindo, porque não é demais, os Qis não existem. Os pontos de acupunctura não existem histológicamente e anatómicamente e sabemos que onde quer que espetemos as agulhas o resultado é o mesmo. Os efeitos que possamos verificar e medir após espetar agulhas, dentro deste contexto é a consequência inespecifica de espetar qualquer coisa. E nem parece ser preciso espetar para dar origem a esse efeito. Picar com palitos chega. Não tem nada a ver com o resto da lenga lenga teórica milenar que tentam impingir depois.
E mesmo essa historia de ser milenar me faz confusão... Já que só foi possível fazer agulhas de metal fino lá para o século 2 ac, e antes de haver assépcia (e vacina do tétano) espetar agulhas metálicas ou pior (ossos e pedras) devia ser uma brincadeira perigosíssima. Não que hoje não haja riscos, de facto no ultimo estudo de revisão do Prof Edzar Ernst foram identificados mais de noventa casos de complicações graves e uns poucos de mortos. Na minha opinião a acupunctura inicial poderá ter começado por ser apenas a punção para drenagem de abcessos, que me parece ser uma coisa bastante intuitiva. A generalização apressada e o efeito placebo fizeram o mito. Isto é a minha opinião, já que não posso andar para trás no tempo e verificar empiricamente. Mas encaixa perfeitamente naquilo que hoje o empirismo metódico nos trouxe.
Este novo “post” sobre acupunctura vem a propósito de um estudo que já tem um ano mas que continua a ser discutido por aí (teve e ainda tem um enorme impacto) de uns investigadores que descobriram uma nova forma de aliviar a dor. Descobriram que picar as pernas de ratos com agulhas no ponto gásrico-36, Sunali, fazia libertar adenosina que depois se mostrou, recorrendo a um agonista, ou seja, um amplificador da sua acçao, que funciona também como agente analgésico. Boa. O estudo é bom e a descoberta pode abrir um campo de investigação proveitoso para o uso do agonista da adenosina nos receptores em causa (tenho menos fé em relação a usar a adenosina propriamente dita já que ela é usada para muitas, muitas outras coisas). A parte errada e falsa é concluir que isto prova a acupunctura em algum aspecto. Isto não prova Qis, meridianos, desiquilibrios energéticos e essas coisas todas. Nem prova que se espetarmos uma agulha numa enorme perna humana no ponto gastrico-36 que vamos produzir adenosina suficiente para servir de analgesia para seja o que for. As tentativas que houve, que não ficam menos válidas por não termos em mente a existência deste novo mecanismo, mostram que isso só funcionaria no pescoço (caso seja o que lá se está a passar). Não o suficiente sequer para chamar a tal procedimento uma terapia complementar.
A explicação mais plausível que eu tenho para isto, e é baseada no que diz o Steven Novella, é que qualquer agressão mecânica deva levar a produzir adenosina. Mas tal como as endorfinas que são libertadas em situaçôes de dor, causar mais dor para libertar mais endorfinas e assim minimizar teoricamente baixar a dor é uma asneira. Senão as mulheres em trabalho de parto que têm doses de endorfinas enormes em circulaçao não precisavam de outro analgésico qualquer. E no entanto o parto é considerado das coisas mais dolorosas que há (e provavelmente sem paralelo no parto de qualquer outra espécie). E isto faz-me é lembrar um investigador espanhol que concluiu que o touro de lide devia sentir menos dor porque as análises mostraram que eles ficam também carregados de endorfinas durante a lide. Pois ficam, é porque doi.
Tal como a endorfina, a adenosina está lá após espetar a agulha, provavelmente porque faz parte do processo bioquímico de modelação da dor. Podemos tirar partido disso, mas sabemos já à partida que a acupunctura não é essa via (excepto para o pescoço, como já referido).
Se tivermos de espetar agulhas para depois conseguir um efeito analgésico enorme mediado pela adenosina ( e penso que recorrendo a agonistas) e se tiver menos efeitos secundários que os que já conhecemos, então que seja. Mas isso tem tanto a ver com acupuncura como tem a ver com Qis e merdianos.
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acupunctura,
medicinas alternativas e complementares
A ilusão é melhor que a realidade? Basta acreditar para ser real? Mais confusões com o significado do placebo.
Este é um estudo muito interessante que mostra que o “placebo” é um efeito sobre a percepção e não sobre a doença, e que é preciso muito cuidado a avaliar os relatórios que as pessoas fazem sobre as suas próprias doenças.
É assim:
Foram testados no tratamento da asma, um inalador com albuterol (bronco-dilatador), uma acupunctura falsa “sham”, e ainda mais um placebo que era um inalador mas sem albuterol para libertar. A juntar a isto houve um grupo que não recebeu tratamento nenhum. Temos portanto em teste um principio activo, dois placebos e não fazer nada. O ensaio clinico está metodológicamente correcto e recorre a dupla ocultação, é randomizado, amostra válida, essas coisas. E em geral as conclusões também estão correctas. Mas os resultados primeiro para depois poder discutir as conclusões, ou melhor, o que tem sido feito elas.
Os resultados são que usando critérios objectivos, não dependentes de opinião de médicos ou pacientes, o único eficaz é o inalador com albuterol. Se usarmos a auto-avaliação dos doentes, tudo funciona de igual modo, excepto não fazer nada.
O albuterol ser o único eficaz em termos objectivos, com melhoras reais, está de acordo com as expectativas. E que as pessoas relatem melhoras com a acupunctura sham ou um inalador inerte também. É o efeito placebo. Sabemos por estudos anteriores que o efeito placebo não causa melhoras reais, quantificáveis objectivamente mas que leva as pessoas a terem uma percepção optimista sobre o seu estado de saúde. Este estudo é altamente consistente com isso. É alias um excelente exemplo de que os relatórios de melhoras por auto-avaliação não são de confiança. Não fazer nada, acaba por ser o que se espera, não se melhora nada.
A parte complicada e que está a servir para manipulações pelos defensores das medicinas alternativas é a de que o albuterol foi relatado pelos pacientes como tendo tanta eficácia como o placebo. Logo, sugerem, o efeito placebo é melhor que a coisa real (1). Non sequitur!
Na própria conclusão do artigo diz: "Placebo effects can be clinically meaningful and can rival the effects of active medication in patients with asthma. "
Mas embora o que nós sentimos seja importante, quer-me parecer que o mais importante é haver realmente melhoras - para além daquilo que nós achamos, já que estamos obviamente enganados. Convencer as pessoas que elas estão melhores é mais importante que elas estarem de facto melhores? A longo prazo e num contexto mais abrangente, as coisas não podem ser equivalentes. Os que conseguem ter pulmões mais funcionais, ainda que não se apercebam disso, deverão ter uma serie de outras vantagens funcionais relacionadas. E o desgaste no organismo deverá ser completamente diferente.
O que estes estudos mostram é que as pessoas podem ser iludidas no mapa que o cerebro faz do próprio corpo. Mas tirar proveito disso em detrimento de recorrer a tratamentos que actuam positivamente no corpo é errado. A melhor conclusão que podemos tirar daqui é que é importante atacar em todas as frentes e tirar proveito do efeito placebo ser um efeito da pessoa. Isto é, pode ser conseguido com tudo. Até com o que funciona realmente.
Fontes, referencias, origem, etc., encontra-se tudo aqui:
http://www.sciencebasedmedicine.org/index.php/dummy-medicine-dummy-doctors-and-a-dummy-degree-part-2-0-harvard-medical-school-and-the-curious-case-of-ted-kaptchuk-omd/
Directo para o artigo cientfico:
http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1103319
(1) "However, even though objective physiological measures (e.g., FEV1) are important, other outcomes such as emergency room visits and quality-of-life metrics may be more clinically relevant to patients and physicians." Citado do artigo na Science Based Medicine.
É assim:
Foram testados no tratamento da asma, um inalador com albuterol (bronco-dilatador), uma acupunctura falsa “sham”, e ainda mais um placebo que era um inalador mas sem albuterol para libertar. A juntar a isto houve um grupo que não recebeu tratamento nenhum. Temos portanto em teste um principio activo, dois placebos e não fazer nada. O ensaio clinico está metodológicamente correcto e recorre a dupla ocultação, é randomizado, amostra válida, essas coisas. E em geral as conclusões também estão correctas. Mas os resultados primeiro para depois poder discutir as conclusões, ou melhor, o que tem sido feito elas.
Os resultados são que usando critérios objectivos, não dependentes de opinião de médicos ou pacientes, o único eficaz é o inalador com albuterol. Se usarmos a auto-avaliação dos doentes, tudo funciona de igual modo, excepto não fazer nada.
O albuterol ser o único eficaz em termos objectivos, com melhoras reais, está de acordo com as expectativas. E que as pessoas relatem melhoras com a acupunctura sham ou um inalador inerte também. É o efeito placebo. Sabemos por estudos anteriores que o efeito placebo não causa melhoras reais, quantificáveis objectivamente mas que leva as pessoas a terem uma percepção optimista sobre o seu estado de saúde. Este estudo é altamente consistente com isso. É alias um excelente exemplo de que os relatórios de melhoras por auto-avaliação não são de confiança. Não fazer nada, acaba por ser o que se espera, não se melhora nada.
A parte complicada e que está a servir para manipulações pelos defensores das medicinas alternativas é a de que o albuterol foi relatado pelos pacientes como tendo tanta eficácia como o placebo. Logo, sugerem, o efeito placebo é melhor que a coisa real (1). Non sequitur!
Na própria conclusão do artigo diz: "Placebo effects can be clinically meaningful and can rival the effects of active medication in patients with asthma. "
Mas embora o que nós sentimos seja importante, quer-me parecer que o mais importante é haver realmente melhoras - para além daquilo que nós achamos, já que estamos obviamente enganados. Convencer as pessoas que elas estão melhores é mais importante que elas estarem de facto melhores? A longo prazo e num contexto mais abrangente, as coisas não podem ser equivalentes. Os que conseguem ter pulmões mais funcionais, ainda que não se apercebam disso, deverão ter uma serie de outras vantagens funcionais relacionadas. E o desgaste no organismo deverá ser completamente diferente.
O que estes estudos mostram é que as pessoas podem ser iludidas no mapa que o cerebro faz do próprio corpo. Mas tirar proveito disso em detrimento de recorrer a tratamentos que actuam positivamente no corpo é errado. A melhor conclusão que podemos tirar daqui é que é importante atacar em todas as frentes e tirar proveito do efeito placebo ser um efeito da pessoa. Isto é, pode ser conseguido com tudo. Até com o que funciona realmente.
Fontes, referencias, origem, etc., encontra-se tudo aqui:
http://www.sciencebasedmedicine.org/index.php/dummy-medicine-dummy-doctors-and-a-dummy-degree-part-2-0-harvard-medical-school-and-the-curious-case-of-ted-kaptchuk-omd/
Directo para o artigo cientfico:
http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1103319
(1) "However, even though objective physiological measures (e.g., FEV1) are important, other outcomes such as emergency room visits and quality-of-life metrics may be more clinically relevant to patients and physicians." Citado do artigo na Science Based Medicine.
Boiron desiste das ameaças contra blogger Italiano.
Num comunicado em que nota que nunca quis fazer nada contra a liberdade de expressão, a Boiron afirma não ter intenção de prosseguir contra o autor do Blog (0).
Asneiras todas a gente faz, por isso desta estará perdoada. Só falta deixar de vender artigos homeopáticos alegando propriedades terapêuticas. (Notar que o placebo é um efeito do doente e não do medicamento).
No resto do comunidado (sim, sei ler italiano, vejam só a minha sorte) a Boiron diz uma série de coisas que não posso deixar de notar também.
Dizem que estão habituados a serem criticados mas que a origem das criticas é "compreensivel": é que a ciencia "ainda não atingiu as fronteiras do infinitamente pequeno". E eu aqui tenho de dizer, com humor, mas honestamente, que não percebo se se trata de um apelo à ignorancia, um "red herring" (algo para distrair) ou se com este infinitamente pequeno se referem à eficacia dos seus produtos! Não diria que essa eficacia infinitamente pequena não pudesse existir (conceptualmente), mas para que serviria?
Acrescentam que queriam apenas tirar as frases mais ofensivas e difamatórias, não apenas apagar o blog todo - no entanto não foi esse o pedido que fizeram ao provedor do IP. Foi que tirasse o blogue da net. Mas uma vez que o autor do Blog (0) tirou essas frases imediatamente deixou de haver razões para continuar com o processo legal.
Portanto, tudo se explica. É uma questão de usar linguagem bonita que fica tudo resolvido. Até ofereceram um livro ao Samuel (autor do Blog (0)) que dizem lhe vai mostrar "como as coisas que se dizem da homeopatia estão longe da realidade. "
O que não vem nesse livro, aposto eu, são estudos com amostras grandes, bem controlados, duplamente ou triplamente cegos e randomizados. Ver aqui porque precisamos disso.
Nota 1:
O infinito é um conceito que em absoluto e em muitos sentidos não tem realidade fisica. Se tivesse não seria infinito, certo? É um termo que os cientistas usam para dizer que algo não tem limites discretos. Seja como for, a mecanica quântica, a teoria das cordas, a matemática e até a bioquimica, têm mecanismos para lidar com o muito pequeno. Conhecemos efeitos de venenos e hormonas que existem em doses minimas (mas que continuam a ter de estar fisicamente nos corpos onde causam efeitos, a cena da memória da agua não tem a ver como infinitamente pequeno, tem a ver com propriedades que não existem).
Nota 2:
Aqui o resto da história.
Asneiras todas a gente faz, por isso desta estará perdoada. Só falta deixar de vender artigos homeopáticos alegando propriedades terapêuticas. (Notar que o placebo é um efeito do doente e não do medicamento).
No resto do comunidado (sim, sei ler italiano, vejam só a minha sorte) a Boiron diz uma série de coisas que não posso deixar de notar também.
Dizem que estão habituados a serem criticados mas que a origem das criticas é "compreensivel": é que a ciencia "ainda não atingiu as fronteiras do infinitamente pequeno". E eu aqui tenho de dizer, com humor, mas honestamente, que não percebo se se trata de um apelo à ignorancia, um "red herring" (algo para distrair) ou se com este infinitamente pequeno se referem à eficacia dos seus produtos! Não diria que essa eficacia infinitamente pequena não pudesse existir (conceptualmente), mas para que serviria?
Acrescentam que queriam apenas tirar as frases mais ofensivas e difamatórias, não apenas apagar o blog todo - no entanto não foi esse o pedido que fizeram ao provedor do IP. Foi que tirasse o blogue da net. Mas uma vez que o autor do Blog (0) tirou essas frases imediatamente deixou de haver razões para continuar com o processo legal.
Portanto, tudo se explica. É uma questão de usar linguagem bonita que fica tudo resolvido. Até ofereceram um livro ao Samuel (autor do Blog (0)) que dizem lhe vai mostrar "como as coisas que se dizem da homeopatia estão longe da realidade. "
O que não vem nesse livro, aposto eu, são estudos com amostras grandes, bem controlados, duplamente ou triplamente cegos e randomizados. Ver aqui porque precisamos disso.
Nota 1:
O infinito é um conceito que em absoluto e em muitos sentidos não tem realidade fisica. Se tivesse não seria infinito, certo? É um termo que os cientistas usam para dizer que algo não tem limites discretos. Seja como for, a mecanica quântica, a teoria das cordas, a matemática e até a bioquimica, têm mecanismos para lidar com o muito pequeno. Conhecemos efeitos de venenos e hormonas que existem em doses minimas (mas que continuam a ter de estar fisicamente nos corpos onde causam efeitos, a cena da memória da agua não tem a ver como infinitamente pequeno, tem a ver com propriedades que não existem).
Nota 2:
Aqui o resto da história.
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Cético obrigado a fechar o blogue para manter o emprego.
Depois do caso Quiropraticos vs Simon Singh há uns anos, o do Blog (0) vs Boiron há uns dias, venho agora a tomar conhecimento de outro caso, via Orac. Outro caso de tentar silenciar a critica legitima com recurso a processos legais.
Trata-se de um epidemiologista de profissão, defensor da medicina baseada na ciência, que vê o seu emprego posto em causa após uma discussão com um proprietário de empresas farmacêuticas. Este senhor, não satisfeito com o curso da discução e perante a incapacidade de resolver o assunto com argumentos, ameaça processar o blogger e os patrões do blogger. O blog, esse, já era. Afinal temos de trabalhar para comer.
Os cépticos e cientistas respondem aos ataques à ciência com argumentos. E para eles a ciência é uma coisa bem pessoal e de onde muitas vezes vem o dinheiro para viver. Porque é que os outros não podem fazer o mesmo?
Ao menos temos o efeito Streisand para nos reconfortar. Mas era bom acabar com o recurso a processos legais para resolver disputas cientificas.
Trata-se de um epidemiologista de profissão, defensor da medicina baseada na ciência, que vê o seu emprego posto em causa após uma discussão com um proprietário de empresas farmacêuticas. Este senhor, não satisfeito com o curso da discução e perante a incapacidade de resolver o assunto com argumentos, ameaça processar o blogger e os patrões do blogger. O blog, esse, já era. Afinal temos de trabalhar para comer.
Os cépticos e cientistas respondem aos ataques à ciência com argumentos. E para eles a ciência é uma coisa bem pessoal e de onde muitas vezes vem o dinheiro para viver. Porque é que os outros não podem fazer o mesmo?
Ao menos temos o efeito Streisand para nos reconfortar. Mas era bom acabar com o recurso a processos legais para resolver disputas cientificas.
Etiquetas:
liberdade de expressão
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