sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Mistificação vs Lâmina de Occam

O Miguel Panão (1) acha que o Mistério ( a letra grande não é um lapso) é uma coisa boa (2). E que o Mistério é importante na nossa relação com a natureza e que é a saida para fora de nós proprios, no nosso aspecto mental.

O Miguel Panão faz orgulhosamente o oposto do que procura a investigação cientifica. Em vez de tentar compreender e simplificar o Miguel Panão tenta complicar e mistificar. Mas não abdica de dizer que o Mistério é uma série de coisas que lhe vêm à cabeça. Ainda que ache que são um Mistério. 

Nas suas palavras:

"A oposição da metafísica à ciência no racionalismo iluminista elimina o conceito de Mistério no seu sentido contemplativo, confundindo-o com o de enigma a resolver pela ciência, e a consequência é o défice relacional que se verifica entre o ser humano e a natureza. Aquela natureza à qual o naturalismo científico reduz toda a nossa existência, objectificada por ser considerada apenas no seu aspecto material, deixando de ser o portal que nos abre ao que está para além de nós mesmos (o seu aspecto mental), e que nos levou ao despertar da consciência no existir."

Estas coisas até têm piada, mas quando penso que podem ser levadas a sério fico um bocado preocupado.

A oposição da metafísica à ciência só existe se nós comfundimos aquilo que é metafísico, conceptual e emergente da nossa mente com a realidade. Se nós confundirmos o mapa com o território. 

A compreensão da natureza não precisa de nenhum Mistério em cima para não ter "défice relacional". Pelo contrário. Quanto mais conheço a natureza mais a aprecio. Mais beleza lhe vejo. Mas sou eu que vejo essa beleza nela. Há quem prefira cidades e arquitetura. Ou mistificá-la para a poder apreciar.

E um Mistério para sair de nós proprios para ter consciencia tambem me parece uma teoria frouxa. Talvez na parte em que um Mistério é um mistério não? E sair de nós próprios tambem me parece um mistério em si. Ja deu para perceber que Mistério é na realidade o que nos convém. Para quem não quer perceber e quer explicar as coisas como sendo Mistério. Sem explicar nada. Confuso? Não. É isso mesmo, repare-se na continuação:

"Recuperar o sentido de Mistério eliminado pelo mecanicismo do naturalismo científico passa pelo reconhecimento da unidade dos opostos quando os elevamos a nível superior de compreensão da realidade"

Ok... Portanto temos de aceitar esse Mistério mesmo que ele não seja observavel, descritivel, mensuravel, racionalmente dedutivel ou teoricamente demonstrável. Isto tudo para uma "superior compreensão da realidade". Há, e por causa do défice relacional com a natureza.

Isto não é compreender, nem explicar. Não há aqui nada para "comos" ou "porquês". Isto é mistificação. O oposto de tornar compreensivel. Não leva a lado nenhum nem a nenhum relacionameto ou a nenhum portal para fora de nós. Se houver um portal metafisico para fora de nós é por exemplo a procura exaustiva de conceitos que expliquem coisas que aconteceram há milhoes de anos atraz e a milhares de milhares de kilometros de distância. A compreensão da nossa mente. Da nossa biologia. Do nosso planeta. Sem tretas. Essa época do pensamento mágico e da treta insondavel apenas acedivel por alguns iluminados já foi. Pelo menos eu queria acreditar que sim, apesar das reminiscencias. 

A ciência não é um bicho de sete cabeças. O naturalismo também não. São tentativas exaustivas de explicar o universo da melhor maneira possível.

Sem postular desalmadamente Mistérios, duendes ou outras tretas. Este Mistério é uma entidade a mais.  Não é preciso para explicar, compreender ou apreciar a natureza. Só para mistificar.

(1)http://cienciareligiao.blogspot.com/

(2)http://cienciareligiao.blogspot.com/2010/01/dualismos-e-dualidades.html

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