sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Olha, debate na boa, mas são espantalhos.

Parece que o Luciano Henrique, ali do "Neo-ateísmo, um delirio", tem sido invadido por super-espantalhos.

Digo que são super-espantalhos por relação com a chamada falácia do espantalho. Mas aqui não é apenas criada uma versão deturpada do argumento a contrariar. É criada toda uma nova situação espantalho, com personificação espantalho de algumas pessoas.

Gente que se identifica com a designação "x - meme", ou seja, ideia da pessoa x, e com quem o Luciano, trava arduos debates. Aparecem por lá comentadores que se identificam como "João meme", "Pedro meme" (1), ou "Ludwig meme" (2), talvez até outros memes, o que deve ser chato para o Luciano ter de aturar essa gente toda. Ainda por cima, vá-se lá perceber, parece que argumentam para perder.

Fazem perder tempo e dão pouca luta. O Pedro meme ainda usou uns "quote mining"(3) do blogue do Pedro Couto, mas o meu "x-meme" (não confundir com x-men), ou fez um "quote mining" demasiado radical ou inventou tudo. Ou talvez um pouco de cada. De qualquer modo, não interessa. É conversa de espantalho.

E logo havia de acontecer ao Luciano que me vê a mim ou ao Pedro Couto em todo o lado. Ja não ia ao blogue dele há uns tempos, mas parece que ultimamente toda a gente, ou uma boa parte dela, que aparece lá a critica-lo, ele acha que somos nós.

Mas parece que o blogue dele parece mesmo mesmo é ser assombrado. Diz-se para aí que quando se manda um comentário a um texto dele, o comentário aparece alterado, outras vezes não aparece e ainda em alguns casos desaparece só ao fim de um bocado. Dizem. E comprovam com "print-screens". Mas eu não acredito nestas coisas paranormais e acho que os print-screens devem ser photoshopados.

Pois, é. É caso para dizer. Olha Luciano tenho muita pena, mas estas a debater com fantasmas. Ou espantalhos. Debate na boa, isso é sempre bom, mas olha que não sou eu. (E tenho cá a sensação que os outros também não são quem se diz ser...)

(1) Pedro Amaral Couto, do blogue "Crer para ver", e que dedica uns posts a responder ao Luciano Henrique, no seu estilo sério e exaustivo. Ver aqui:
http://crerparaver.blogspot.com/2009/11/modelos-entre-guerras.html
http://crerparaver.blogspot.com/2009/11/modelos-entre-guerras-dialogos-dificeis.html
(2) Prof. Ludwig Krippahl do blogue "Que treta":
http://www.ktreta.blogspot.com/
(3) Para ler sobre falácias seguir aqui a etiqueta: "falácias"

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

A anti-vacinação "A"

Nos ultimos dias constatei ter-se instalado em Portugal a desconfiança contra a vacina da gripe A. A primeira evidencia foi uma noticia no jornal Público a relatar a falta de vontade de profissionais de saúde como médicos e enfermeiros em tomar a vacina, e depois foi o contato com pessoas no dia-a-dia (eu atendo ao público) a contarem-me que "parece que esta vacina é perigosa". Evidência anedótica, mas à falta de melhor, até haver sondagens, parece-me que ilustra o que se passa. Não me parece no entanto que seja uma coisa anti-vacinação à americana, em que o medo da vacinação se instalou com histórias de conspiração da "big farma" por trás. Importámos tão somente a desconfiança face à vacinação especifica contra a gripe A.

Falei com um médico  e alguns estudantes de medicina (conheço alguns)  que me disseram que entre a classe médica isso não é provavelmente verdade. Não sei se é ou não, mas pelo menos percebe-se que não é uma coisa assim tão generalizada. Entre os enfermeiros não faço a minima ideia se têm ou não medo de se vacinar. Seja como for, foi a desconfiança em relação à vacina, de pessoas do meio, que transpareceu para a opinião pública, e que me parece, está a ter consequências.

São pois, pessoas informadas e atentas que estão a ser o receptor de esta desconfiança. Quem não lê jornais e não leu como se teve de desenvolver a vacina "à pressa", quem não sabe do movimento antivacinação americano, quem não leu a noticia do Público, não deve estar muito preocupado. 

Seja como for, é pena. Estão enganadas. Há poucas vacina e o seu uso deve ser usado criteriosamente. Deve ser vacinado quem precisa de ser protegido por estar mais exposto e por poder contagiar um maior numero de pessoas. As vacinas também servem de "almofada" para proteger terceiros, aquilo que se chama nos animais "protecção de rebanho". Além disso, existem profissoes que estando diretamente ligadas a resolver problemas relacionadas com a doenças, não podem faltar por causa dessa mesma doença, se tal puder ser evitado. 

Tanto quanto se sabe, a vacina é segura. E sabe-se bastante. O bastante para dizer que é mais seguro tomar a vacina do que não tomar. Se o risco de morrer de gripe A nem é muito elevado, o de morrer da vacina é várias vezes mais pequeno, e se o risco de desenvolver uma doença grave causada pelo virus também não é estremamente elevada, ainda menos elevado é o risco de desenvolver uma doença relacionada com a vacina da gripe A.

A vacina da gripe A é feita do mesmo modo que as anteriores vacinas para a gripe. Aliás isso foi uma concequencia do pouco tempo que houve para a desenvolver. Assim, a unica coisa nova na vacina é a estirpe viral usada e para a qual ela se destina. Não é grande problema. Nada que levante bandeiras vermelhas de alarme. 

Relatos de problemas realcionados com a vacina em questão, também não apontam para que esta vacina seja mais perigosa que as outras. Não é. E no meu post sobre os mitos à volta da gripe A já tinha dito isso. As vacinas não são perigosas. A informação colhida de maneira rigorosa e sistemática permite concluir que são de facto a solução e não o problema. Por uma larga margem!

O problema é haver mesmo poucas vacinas. Se eu pudesse vacinava-me. Mas compreendo que haja gente que tem de estar antes de mim. Que se diga que não se querem deixar vacinar surpreende-me. É irracional. Talvez não seja bem verdade o que se disse de médicos e enfermeiros, mas a opinião pública também é importante. Espero que não seja o único a chamar a atenção para o facto de que a vacina para a gripe A não é perigosa. 

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Hockey Stick: Conclusão?

Acabei de ler as ultimas entradas do blog do Steve McIntire e quer-me parecer que a ultima controversia acerca do "hockey stick" está a esbater-se.

Acho que posso resumir assim:

Foi usada informação proveniente de estudos russos para produzir uma analise, liderada por Briffa em 2000  e em 2008, que serviu para integrar os "proxys" usados na construção do "Hockey Stick" por Mann e outros.

O Hockey Stick tem sido criticado por McIntire, e as criticas têm sido ouvidas, mas a conclusão a que se chega é que o clima esta mais quente agora que nos ultimos 12 séculos.

A nova disputa de argumentos acaba da mesma maneira, com S. M. a querer que os cientistas do clima pelo menos aceitem que não tinham dito quantas amostras usavam em 2000 (Briffa). 

Acho que deviam aceitar isso, até porque para o que é realemente importante, se estamos a ir na direção certa, mostrou-se que era indiferente. Mostrou-se que não houve intenção de manipular os resultados e nem o McIntire quer que se pense que alguma vez disse isso. O que não disse mas deixou a insinuação (pode ver-se o que ele disse nas notas do meu post de ontem).

Parece-me é que talvez Briffa tenha usado os dados de que dispunha na altura e que era só aquilo  e talvez até nem soubesse que a amostra era pequena demais para usar o metodo RCS (que ele de facto usou). Quer-me parecer também que só não foi induzido em erro, isto é, só não teve um resultado irreal, porque os russos escolheram de facto as amostras que eram importantes - e que levou a um numero tão pequeno. Em 2008, repete a mesma abordagem, usa o material dos russos, mas desta vez indica o numero de amostras. O que desperta a desconfiança de S.M. ao comparar com as amostras e dados disponiveis. Erradamente. Pois as amostras que foram retiradas eram anomalas mas não o suficiente. Produz um grafico só com essas amostras que dizem que não há aquecimento recente (que nós sabemos haver por outras medições) e põe em causa o valor da dendrocronologia.

A escolha dos russos foi baseada na idade das árvores, estado de concervação das subfosseis, compressão da amostra (artefacto da extração?) e não sei de cor se não estou a falhar nada. 

Hantemirov, um dos russos envolvidos no estudo, está para apresentare em breve o seu trabalho em publicações de peer-review, pois precisa de o fazer para completar o seu doutouramento. Soube da controversia e escreveu uma carta que S.M. publicou (decentemente), explicando que tinha de ser assim e que para mais iria publicar (ja estava feito) um estudo com uma  amostragem maior (tudo) que mostrava que a seleção que ele tinha feito não alterava as conclusões.

Briffa refaz o gráfico com os dados todos e mais uns quantos e chega ao gráfico que mostrei aqui ontem. 

McIntire vira as suas acusações para o facto de o terem acusado de difamação, de ser verdade que Briffa não publicou o numero de amostras em 2000 e de que a informação de Khadita esta de pernas para o ar. 

Em relação ao uso de informação de pernas para o ar, parece que é verdade. Mas parece-me também pelas criticas que li, que isso pode ser feito. Aliás, li mas preciso confirmar que é uma consequencia de uma abordagem matemática especifica (algoritmo Mea?).

Fico a aguardar os desenvolvimentos. Porque sinceramente, como cada um publica tudo o que quer, sem passar por um filtro de "Peer-review" sequer, é dificil perceber onde esta a verdade quando não se está verdadeiramente "por dentro". E eu não estou. Estou apenas a tentar comparar argumentos e perceber o que se está a passar. 

O Real Climate tambem passou à frente para outro assunto. Hoje publica um "post" muito interessante onde mostra aritmeticamente que a alegação que as placas solares iriam aquecer o planeta é falsa (feita por Steven Lewvit, autor de freackonomics e que faz a alegação em superfreackonomics).

Neste mesmo post podemos também perceber que o CO2 é claramente o problema fundamental do aqucimento climático, a não ser que a formula básica que diz o valor de retenção de calor pelo CO2 esteja errada. Mas isso é matéria de ciencia com mais de um século.

Ver aqui:

http://www.realclimate.org/index.php/archives/2009/10/an-open-letter-to-steve-levitt/

As minhas desculpas se me estou a repetir em relação a ontem, mas penso que a abordagem é diferente e hoje posso ser mais conclusivo em relação às reações na blogosesfera. Espero que seja de utilidade para alguem. Criticas e sugestões são bem vindas. 

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Novamente o gráfico das temperaturas terrestres no ultimo milénio


Como referi em "Blogosciência climática" (1) , a analise gráfica das temperaturas dos ultimos seculos - denominada pelo seu aspecto Hockey Stick (HS) - e que tem uma importância relativa elevada nas conclusões praticas do IPCC, foi posta em causa por Steve McIntire. Mais uma vez. Das outras vezes pode-se mostrar que apesar da critica ser factualmente correta, ela não implicava que todo o gráfico estivesse incorreto. Provavelmente o erro não seria assim tão grande, mas de qualquer modo uma analise feita por peritos em estatistica que encontrei na Wikipédia concluia o seguinte: "Contas erradas + resultado certo = má ciência". Não digo que não, mas o que me importa neste momento é qual é o resultado depois das contas corrigidas. E as evidências apontam para que na prática o resultado é o mesmo.  (2)

Steve McIntire (SM)não faz mais que insinuações veladas, mas a sugestão de ter havido "cherry-picking" (3) , por alguem, algures, está lá (4). Isto foi reinterpretado por diversas publicações que verbalizaram as acusações que S.M. faz . Foi dito que é "um novo escândalo científico"(5), que é tudo uma "mentira massiva" (6).

Naturalmente Briffa prometeu uma resposta. Declarou que não havia cherry picking e que as suas conclusões estavam corretas e que isso podia ser corroborado por uma amostra maior. De facto, aumentando a amostra e incluindo mesmo a parte divergente de que S.M. se aproveita para criar o escandalo, o resultado é o mesmo. De resto, de acordo com outros proxys. 

Pode ver-se no gráfico a preto o resultado final com todas as amostras disponiveis contra a versão anterior criticada por S.M. a azul. A vermelho está o primeiro trabalho de Briffa em 2000.


O trabalho que será entregue para publicação esta aqui:

http://www.cru.uea.ac.uk/cru/people/briffa/yamal2009/

-----------------------------------------------------------------------------------------

(1) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/10/blogosciencia-climatica.html

(2) American Statistical Associaction: http://www.amstat-online.org/sections/envr/ssenews/ENVR_9_1.pdf; tem um resumo da analise de Wegmen - e pode ler-se que mesmo antes da revisão do gráfico por Mann et all em 2008, que o problema não é estatistico e que está a ser feita ciencia, com as coisas a evoluirem, embora a opinião de Wegmen como ja disse é que não presta chegar às conclusões certas se as contas estão erradas. 

(3) "Cherry picking": escolher as cerejas, ou seja, escolher os valores da amostra de modo a que as conclusões da analise sejam as que nós queremos.

(4) "So while CRU may have archived the data that they "used", we run once again into a problem that we run into over and over again in paleoclimate studies. What about the data that was in their sample, but which they didn't use? (...)  To what extent is the Yamal HS a product of the selection process and to what extent is it climatic? Without the complete data set, it is impossible to set aside the troubling thoughts that one is faced with in these circumstances" em Climate Audit: http://www.climateaudit.org/?p=7142

(5) http://www.theregister.co.uk/2009/09/29/yamal_scandal/

(6) http://blogs.telegraph.co.uk/news/jamesdelingpole/100011716/how-the-global-warming-industry-is-based-on-one-massive-lie/


E agora para algo completamente diferente: Os dados:

http://www.cru.uea.ac.uk/cru/people/briffa/yamal2009/data/


quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Mitos sobre a gripe A

Via New Scientist.

Mito :A gripe A mata tanto como a outra, não mais.

R: Não se sabe realemente quanto mata a gripe A, mas os numeros normalemnte disponiveis e vulgarmente usados não podem ser comparados, pois os valores que saiem para a gripe A referem-se ao numero de casos que se tem a certeza que a gripe A foi a causa de morte. Os numeros de mortes atribuidos à gripe noutros anos são mais vagos e incluiem mais situações.

Alem disso, a gripe está a afetar as pessoas jovens e saudaveis, a que se juntarão as mortes pelo frio quando o inverno se instalar...

Mito : Se não tem febre não é gripe A:

R: Metade das pessoas afetadas não tem febre.

Mito : Só pessoas com problemas de saude são gravemente afetadas.

R: A maioria das crianças que morreram com gripe A eram saudaveis. Grande parte dos adultos tambem.

Mito : A vacina não é segura.

R: Falso. A vacina é tão segura como qualquer outra vacina. Riscos há sempre, mas quando o risco de não tomar é muito maior que o de tomar, os profissionais de saude aconselham a vacinação. Quando os riscos são muito, muito baixos é facil pesar as coisas. O fenomeno "anti-vacinação", que agora chega à vacina da gripe, é uma crença injustificada sem fundamento. (desculpem a redundancia, mas é para não deixar duvidas...)

Mito : Agora que já há vacina o problema está controlado

R: Infelizmente a vacina não chega para todos. Era bom que profissionais que estiverem em posição fulcral na dispersão da epidemia se deixassem vacinar. Vacinar serve para proteger os outros tanto quanto aos próprios.

Ver mais aqui:

http://www.newscientist.com/special/swine-flu-myths-that-could-endanger-your-life


Nota: o meu post não é uma tradução literal. É um resumo com algumas alterações. Outra coisa que nunca fica mal lembrar é que as grávidas são 4 a 5 vezes mais susceptiveis a formas graves da gripe. Devem ter ainda mais atenção e cuidados.




quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Da sinapse à moral.

É vulgar dizer que a moral esta fora da ciência. Que não é possivel o rigor cientifico numa aboradagem à moral ou que esta nem pode ser feita.

A minha opinião é mista. Sim - para não ser possivel abordar abrangentemente a questão da moral com o rigor e metodos cientidficos. E não, para a moral ser totalmente inacessivel à ciencia.

Vou tentar desenvolver para me explicar:

Não conhecimento mais solido que o cientifico. Há é coisas que não se conseguem determinar cientificamente. Por falta de tempo, por falta de meios, ou pela própria natureza. Convenções e escolhas, estão para la do actual poder da ciência. Mas o nosso cérebro é a base física da nossa mente, e não nada que indique que o nosso pensamento não é uma coisa deste mundo. Ou seja, o nosso pensamento é um fenomeno emergente dos circuitos neuronais do nosso cerebro e das influencias fisicas que nele actuam.

E do nosso pensamento emerge a moral. Pode ser impossível descrever a moral a um nível tão baixo como o do conjunto das sinapses de todos os cerebros que nela participam. E que seja simultâneamente um modelo preditivo, capaz de ser utilizado para prever decisões, por exemplo.

Mas isso não quer dizer que, de certo modo, uma abordagem de alto nível (ao nivel de manipulação de conceitos complexos como morte, sofrimento, etc) não possa ser enquadrada numa abordagem cientifica.

quem não percebe nada de ciência e quer mistificar a mente, (e o pensamento), é que enfia o barrete do dualismo.

A ciência também não pode prever que bola vai sair primeiro no totoloto. Isso quer dizer que é um problema que transcende a ciência? Não. Quer dizer que ha demasiados imponderaveis em causa. É mais um problema de abordagem pratica que teorico.

E é algo analogo ao problema de reduzir a moral às suas unidades básicas, as sinapses. Quaquilhioes delas! Mesmo que ja soubessemos como são os circuitos neuronais de todos os seres humanos, ainda tinhamos de computar o resultado de milhoes de mihoes de circuitos, compostos por milhões de milhões de sinapses.

É impossível de abordar a este nível. Tem de ser abordado ao nivel de conceitos e trabalhar com unidades menos simples mas manipulaveis pelo esforço intelctual.

Mas uma vez compreendendo melhor quem somos, como funcionamos, porque é que sofremos com isto ou aquilo, o que é normal e saudavel desejar, etc, e usando um pensamento critico sobre os conceitos, podemos ainda usar ferramentas cientifico-matemáticas como as sondagens, estatistica, etc, para compreender melhor o que se passa com os grandes numeros das massas.

A ciencia pode pois ajudar e muito a desenvolver a moral humana. Não está completamente fora do seu alcance. E a neurologia só agora esta a dar os primeiros passos. A psicologia é hoje uma ciencia tão rigorosa como a biologia, e a sociologia para lá caminha.

O medo da ciencia que têm aqueles que dominam outras formas de conhecimento é razoavel, se não quiserem aceitar a evoluçao. Se forrem dogmáticos. Coisa que a ciencia não é, pois apressa-se a integrar novos factos quando estes emergem, mesmo que para isso se tenha de corrigir.

A ciência tem as melhores respostas possíveis, quando as tem, há é coisas que não se consegue usar a ciência. Mas a historia sugere que o futuro tem menos lacunas que o presente.

Deus das lacunas.

O naturalismo metódico é aquilo que os criacionistas e defensores do ID (que é realmente criacionismo com outra roupagem), querem eliminar da ciência. A abordagem naturalista, que é sumariamente, procurar causas naturais para os fenomenos naturais, exclui necessáriamente a intervenção sobrenatural. 

Não podemos mais atribuir os trovões a um Deus, a chuva a  outro, etc. Nem tudo ao mesmo. A não ser que possamos trazer evidências ou provas que mostrem isso. Se não indica que essa é inequivocamente a solução, temos de procurar outra. Não é por não a termos que podemos atribui-la ao que mais nos convém. Dá trabalho. Não agrada a muita gente.

Mas o que a ciência sugere fortemente, é que esse é o caminho a seguir. O do naturalismo. Ao longo de seculos, foi a unica abordagem que criou conhecimento tão consistente, tão completo e em tão pouco tempo.

Porque ao procurar uma explicação natural para as coisas, começámos a encontrá-las. De facto, encontrámos explicação para tanta coisa, que o espaço deixado para intervenção sobrenatural, ficou muito reduzido. Ficou reduzido a pequenas lacunas do conhecimento cientifico.

De notar que isto não é o mesmo que dizer que a ciencia regeita "à priori" que existam Deuses , fantasmas ou duendes, por exemplo. Apenas que se eles existem, então vamos ter que encontrar observações que só possam ser explicadas pela sua existência. Tal como por exemplo a observação directa de tais seres - mas de um modo credivel, não por histórias de diz que disse ou evidencia anedótica. 

Se o sobrenatural existe, e coisas com causa sobernatural acontecem, só temos de as encontrar. E cá por mim, passam a ser tão naturais como tudo o resto. Se há fantasmas, que se mostrem evidencias. E eles passam a ser matéria da ciencia. Tal como Duendes ou magia. Se aparecer um Duende em frente ao mosteiro dos Gerónimos, ele passa a ser tão objecto da ciência como o macaco ou o cão.

O problema, é que coisas que não tenhamos a ideia como aconteceram, que estejam de tal modo mal compreendidas que se possa apontar uma origem sobrenatural são cada vez menos. E destas as que poderão sugerir diretamente uma intervenção sobrenatural ainda menos. Talvez o unico exemplo seja a criaçao do universo. O que deixa a inquietante pergunta de que é que andou o Criador a fazer depois disso. E ainda mais, quem o criou a Ele.

Na realidade, dizer que algo é sobernatural, não faz sentido nenhum. Ou existe ou não existe. Se existe, então deve haver alguma evidencia que exista. Se estamos a discutir a existencia de um ser omnipotente, omnisciente e omnipresente ainda menos sentido faz que não encontremos evidencias inequivocas da sua omnipresença, omnisciencia e omnipotencia. Pelo menos, se ainda argumentamos que Deus é interventivo. Se isto fosse verdade, eu diria que Deus era tão natural como qualquer outra coisa.

Porque senão temos que aquilo que entendemos por sobrenatural é caracterizado por ser aquilo que não se pode provar que existe nem identificar onde se manifesta a sua existencia. O que em teoria, é possivel, mas é pouco plausivel. Porque se não se pode provar nem identificar onde se manifesta a sua existencia, é uma maneira de dizer que não acontece. 

E isto não tem nada a ver com as coisas que nós não podemos saber por questões de medição pratica ou de numero de ponderáveis. Isto é, não é por não sabermos que numero vai sair na lotaria que podemos atribuir esse resultado a Deus. Porque sabemos minimamente o que se está a passar. E é tudo neste mundo. Ou não é por não sabermos o pensamento especifico de uma pessoa especifica num momento especico que temos uma falha no conhecimento cientifico. Porque temos uma ideia muito boa de como funciona o cerebro. E não é uma que sugira intervenção divina.

É por isso, que se chama Deus-das-lacunas ao deus que intervem no mundo natural. É porque só sobram umas pouquinhas de lacunas. E é isso que os criacionistas e dualistas querem fazer.

E é por isso que a ciência tem uma descrição do universo diferente da religião. Descrevem causas diferentes e apresentam justificações diferentes. Uma diz que as coisas que observamos têm causas naturais, todas ou quase, faltam umas lacunas, e a outra diz que há coisas que só Deus pode ter feito, mesmo quando se identificam causas e explicações naturais e precisas para esses fenomenos. 

Uma aceita a palavra irreprodutivel de uns poucos como portadores da verdade absoluta e a outra, a ciencia, poe em causa tudo o que é dito e feito, dentro e fora dela. Porque só pela palavra de um homem ou 10 ou 20, não se faz ciencia. Einstein não foi aceite cientificamente por ter uma figura simpática. Mas sim porque as suas teorias fizeram previsões que foram confirmadas, além de serem capazes de explicar tudo o que ja se conhecia. E de, claro, isto poder ter sido confirmado por todos os que estavam em posição de o fazer.

Senão tinhamos profetas também na ciência. E não temos. Temos pessoas que descobriram coisas que os outros puderam confirmar.

E que nos permitiram chegar a numeros populacionais impensaveis, e a esperanças médias de vida loucas e fazer coisas que qualquer homem de há 300 anos diria que eram magia.

Deus continua sem dar sinais de vida, mas a tecnologia atravessa a sociedade. E se bem que por vezes ela seja mal utilizada, também não é Deus que tenta proteger as vitimas do seu abuso.

Quem se questiona abertamente sobre o universo, e procura respostas, sabe que só a ciencia foi capaz de proporcionar algumas. E que outras entidades, que por definição conveniente, escapam à pesquisa cientifica, não passam senão de elaborados pressupostos que não explicam nada. 

A ciencia reduz deus todo-poderoso a um deus-das-lacunas.

E é por isso que os religiosos andam tão activos ora em redefinir ciência, ora em dizer que quem a pratica não sabe nada sobre ela, ou mesmo, tentar dizer que é tudo verdade ao mesmo tempo. Mas isso, tudo verdade ao mesmo tempo, só se for em universos separados. Neste em que vivemos, a melhor descrição que temos é a dada pela ciencia. 

É possivel conceber um deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e ainda por cima moral à luz do conhecimento cientifico? Sim, penso que como exercicio de pensamento é possivel. Mas não é plausível.