quinta-feira, 2 de junho de 2016

Consultas de 10 minutos


Em Inglaterra o tempo de consulta médio para humanos ou animais de companhia é de cerca de 10 minutos.Cá as consultas médicas de 10 minutos também são sistema em muitos sítios.  Isto sempre me pareceu muito pouco tempo, e defendo que as consultas devem ser mais longas e com limites flexíveis. Dificuldades com limitação de recursos face a populações crescentes com necessidades cada vez mais complexas podem ter levado a este cenário. Mas as coisas até estão a melhorar ainda que lentamente. O problema é que muitos médicos e médicos veterinários (na prática em Inglaterra) consideram mesmo que este tempo é suficiente. Mas muitos outros nem por isso, então eu penso que temos de olhar para os estudos e ver o que dizem. Eu vou apresentar argumentos para que se aumente o tempo de consulta e que se isso requer mais meios que se lute por eles. A desculpa pode ser económica, mas não é médica.

Permitam-me abordar ambas os problemas (medicina humana e veterinária) de uma só vez, por 3 razões. A primeira é que existem poucos estudos e são quase todos de medicina humana pelo que quero juntar o que se pode de medicina veterinária. Outra é porque o problema é o mesmo. Por ultimo, existem paralelos  na forma de colher uma história, observar sinais e sintomas e chegar a uma lista de diagnósticos diferenciais e estabelecer uma terapia. Isto porque a fisiologia é a mesma, muitas patologias são as mesmas ou tem o seu análogo, a ciência é a mesma e o método é adaptado a cada espécie mas com poucas diferenças. Poder-se há argumentar que existem imensas diferenças e existem, mas parece-me mais difícil argumentar que isso se traduza em grandes diferenças de necessidades temporais na clínica geral. Consultas de especialidade são outra questão.

Como escrevia antes, existem poucos estudos. Mas existem já alguns que deixo em baixo para referencia e consulta dos interessados. De facto, existem razões fortes para defender consultas superiores a 10 minutos. Eu penso que neste momento a média deveria rondar, não os 10 mas a meia hora. Mas isto é mesmo uma opinião, porque a única coisa que posso sustentar é que 10 minutos não chega para a clínica geral, seja de que espécie de mamífero seja. Dos que são capazes de argumentar ou dos que não são.

Em resumo, pelos  resultados dos estudos, posso defender que consultas mais longas têm estas vantagens:

- Mais problemas são discutidos por consulta (e eles aparentemente andam aí)
- Permite fazer perguntas abertas, em vez de perguntas fechadas de sim ou não que podem deixar algo por dizer.
- A relação com o paciente tende a ser melhor numa consulta longa e possibilita construir um ambiente mais positivo que leva a melhores resultados
- O médico pode sentir pressão para cumprir um determinado horário e muitos admitem que isso interferiu nas decisões clínicas.
- Leva a mais consultas de controlo e confirmação do sucesso terapeutico.
- Dar ao doente estimativas de custos e de proporcionar consentimento informado requerem mais que 10 minutos de consulta.
- São detectados mais problemas em consultas mais longas.
- Satisfação do paciente aumenta em consultas longas.
- Pode estar a alimentar a prática da chamada medicina integrativa que pouco mais oferece que tempo.

Parecem-me vantagens substanciais. Do ponto de vista médico parece-me que não deviam deixar dúvidas. Num mundo de recursos limitados, por vezes, pode não ser possível fazer as coisas como se devia, mas esse é outro argumento, para abordar com outras ferramentas.
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Abaixo estão as referencias anotadas.

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- 10 minutos provavelmente não são suficientes, nem são adequados ao que os veterinários têm de fazer na practica. http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1111/jsap.12115
- consultas em que não há patologia são de maior sociabilidade entre veterinario e paciente : http://cel.webofknowledge.com/InboundService.do?product=CEL&SID=R2JnRl1lIBzlg3y66lF&UT=WOS%3A000260984300028&SrcApp=Highwire&action=retrieve&Init=Yes&SrcAuth=Highwire&Func=Frame&customersID=Highwire&IsProductCode=Yes&mode=FullRecord. Quando há patologia, pelo menos 1/4 das vezes o veterinário está "apressado", o dono ansioso ou abatido e outras componentes importantes são negligenciadas.
-  Consultas com ambiente positivo são mais eficazes.
- Em medicina humana, consultas mais longas estão ligadas a melhores resultado (estamos a considerar consultas de 15 minutos como referencia), e cada vez mais os problemas que aparecem em consulta são complexos. mais problemas são detectados em consultas mais longas.  É preciso mais interacção com o paciente. Implementar consultas mais longas deve ser uma prioridade: http://www.bmj.com/content/324/7342/880.full?ijkey=ceef6e5c8149f93ca8ae7ae9f6f3d162f55f09ae&keytype2=tf_ipsecsha

 - Em medicina humana, a duração da consulta está positivamente correlacionada com o numero de problemas discutidos. E em veterinaria também: http://veterinaryrecord.bmj.com/content/175/19/486.2.full

 - Em medicina humana cada novo problema discutido aumenta a consulta em 2,4 minutos (em média) : http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11252208
- artigos de média relatam que consultas curtas podem servir para ter preços mais baixos: http://www.telegraph.co.uk/news/health/pets-health/11497515/How-much-time-do-you-need-with-your-vet.html
 - Client surveys have shown that clients place caring and communication‟ as top priority, with clinical skills second. Consultas de 10 minutos podem não ser suficientes e obrigar o cliente a marcar e pagar  consultas duplas. Parrticularmente questões abertas levam a aumentar o tempo de consulta.: https://eprints.mdx.ac.uk/3625/1/pauls_doctorate_post_viva__(4)_edtd_17.5.07.final_doc.pdf

- consultas para problemas novos demoram 14 min em média, varianado entre 6  e 25 minutoss.The average length of consultations in this study was 11 minutes and 45seconds rising to 14 minutes and 15 seconds for consultations for new conditions. Many veterinary surgeons reported feeling pressure to try to keep to appointment times, with some consultations such as vaccinations and post-operative checks being completed more rapidly as veterinary surgeons attempt to keep to time. The time pressure also appeared to have an influence on the clinical decision making in the consultation with veterinary surgeons reporting that they had to make decisions about which problems to deal with in a particular consultation, and ongoing consultations being used to assess changes over time and response to treatment. : http://eprints.nottingham.ac.uk/12051/1/Dissertation_final.pdf
In GP human doctors are considering that consults must be longer: http://careers.bmj.com/careers/advice/Consultation_times
Em medicina humana o tempo de consulta é influenciado pelo tipo de cliente e pelo país (Belgica e Suiça a média é de 15 minutos. Em Inglaterra 10 minutos). Médicos mais velhos dão consultas mais longas. A lista de espera só diminui o tempo de consulta quando é muito grande): http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC119444/
Although the length of UK primary care consultations has increased steadily from the 1960s and is now on average 9.36 min,1 patients still express dissatisfaction with the length of their consultations. :http://fampra.oxfordjournals.org/content/21/5/479.full
 Mean appointment length was 11.45 minutes (range, 4–28 minutes), with problem and recheck appointments requiring 14 and 13 minutes, respectively. Most appointments took an iterative approach that led to 71% exceeding necessary history-taking. An increase in time budgeting is needed, so that the client has informed consent and cost estimate. : http://www.veterinaryteambrief.com/article/consultation-style-are-you-following-best-practices

The shortest consultation observed lasted for just 51 seconds, while the longest lasted for 36 minutes. In human medicine, large amounts of research has been conducted into the nitty gritty of how consultations work and the types of issues that are discussed. This has shown that more lengthy consultations tend to lead to more issues being discussed and better detection and management of certain conditions: http://blogs.bmj.com/vetrecord/category/veterinary-education/
 Time spent reading or writing clinical notes prior to or following the consultation, talking to the client in the waiting room, or preparing medications or samples once the client had left was not included. Consultation length ranged from 51 seconds to 36 minutes 45 seconds with a median of 9 minutes 49 seconds.  This suggests that a 10-minute ­consultation may not be of sufficient length, particularly as not all tasks associated with a consultation were included in the timing. http://veterinaryrecord.bmj.com/content/early/2014/09/26/vr.102713.full

 This raised concerns as to whether previously used methods are able to capture the full complexity of the veterinary consultation and so a method which is able to gather more detailed data from each consultation is needed. Understanding the complexity of the consultation will also be useful when directing veterinary curricula, particularly when teaching consultation skills, and will also have applications in first opinion practice (e.g. scheduling of appointments). http://veterinaryrecord.bmj.com/content/early/2014/09/26/vr.102548.full
 greater patient satisfaction is associated with perceived and actual visit duration.5,6 . (…) Not surprisingly, however, we found a clear and consistent relationship between visit duration and provision of counseling and screening–based care. :

medicos ingleses queixam-se de falta de tempo de consulta, embora os alemães ainda tenham menos. De qualquer modo uma consulta de exame físico completo mesmo em Inglaterra dura 20 minotos. Nos estados unidos 30 minutos.:  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3621071/

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O monarca vai de fato de banho.

O homo sapiens conhecido como Prince Charles, defende uma série de disparates como práticas médicas e médico-veterinárias. Como por direito de nascença é melhor que os outros homo sapiens, mesmo sem ter feito nada para isso, tem audiência que não acaba. É um disseminador de memes privilegiado, teve um tipo de sorte que só cabe a um punhado dos 10 biliões de habitantes da Terra. Podia fazer diferença, mas  não teve sorte na capacidade de pensar criticamente e compreender ciência básica. Os memes que dissemina são aleijados.

Quer tratar doenças com agua. Não é muito diferente em termos de treta, das roupas do outro rei, que também não tinham nada que as fizesse ser roupas. Umas são ar,  outras são agua. Ar não é roupa e agua não é medicamento. Nem tem memória.

É caso que para dizer que o monarca vai de fato de banho. E a escorrer agua. 




quarta-feira, 11 de maio de 2016

O John Oliver tem razão. O jornalismo de ciência é mau. E ainda há mais que ele não disse.

Como diz a "Ars Technica", o "rant" do John Oliver acerca da ciência e da comunicação da ciência é merecido.

A intensidade com que a comunicação social nos despeja com a interpretação mais sensacionalista possível,  de estudos de qualidade heterogénea, descontextualizada e contraditória, é de tirar a qualquer um do sério. E fora do sério mas com toda a razão, o  John Oliver toca na maioria das feridas. Não vou repetir as que ele foca. Vejam o video abaixo. Vou acrescentar apenas umas picuinhices que não parecendo, ainda são importantes.

A replicação, a plausibilidade do estudo, a qualidade do desenho, etc, são tudo coisas importantes. Mas para além disso existe outra coisa que só o tempo traz. A importância de um estudo cientifico está muito ligada ao tipo de evolução que ele permite trazer à ciência ou como dela faz parte. Estudos que integram um plano de investigação progressivo, ou seja, um plano de investigação que vai abrindo portas a novas previsões para testar, e que permite interpretar e passado de um modo mais consistente e completo, são o tipo de estudos que consideramos ciência. São como peças de um puzzle a encaixar e a dizer como deverá ser a seguinte.

Se são estudos, que apesar ou não de integrarem um tema, não levantam novas questões que possam ser testadas (e falsificadas), requerem explicações ad-hoc, são incompletos e inconsistentes nas explicações que trazem, e as anomalias só se acumulam, isso é pseudociência. Como um todo, esses estudos são planos de investigação degenerativos.

Esta critica à apreciação de um estudo e do seu valor, é um passo acima da que vem da máxima implícita no discurso do John Oliver de que "não é ciência até ter sido replicado". E isto é uma boa máxima, já que em média um estudo é refutado em cerca de 6 meses (a replicação normalmente não vem nos média e nem na comunidade cientifica tem muita divulgação e de facto não é sempre tentada, já que "vale pouco mérito"). Mas  um estudo tem de facto de ser replicado para ser levado a sério e normalmente se é algo muito importante, alguém tenta replicar ou esmiuçar o estudo até ao mais pequeno pormenor. A comunidade cientifica compete por recursos e não perdoa o disparate por aí além. Mesmo assim, a não replicação de estudos ( ou a sua não divulgação)  por falta de mérito e recursos é de facto um problema por resolver. É preciso mais.

Mas acima de tudo, para que as suas conclusões - de um determinado estudo -  sejam aceites para além dos factos (que até podem ser replicados embora a conclusão esteja errada), tem de pertencer a um plano de investigação progressivo e não degenerativo.

Isto é o que dizem os filósofos da ciência, originalmente por Lakatos, que tem a proeza de resolver os problemas não resolvidos por Popper de uma maneira muito satisfatória e que permite sustentar que ciência é o conhecimento que é feito das melhores explicações possíveis. Quando deixa de ser a melhor explicação possível é porque é preciso encontrar outra. Isto é o que os cientistas têm andado a fazer. Ou a tentar fazer. Com um sucesso bastante porreiro.

Outra coisa que o John Oliver não toca, é a estupidez dos documentários apresentarem todas as ideias dispares acerca de um tema com a mesma "neutralidade".

Dão o mesmo tempo de antena aos vários intervenientes, o mesmo ênfase (e aqui já é quando temos sorte), e depois o pessoal que tire as suas conclusões. Está errado. Leigos, por definição,  não estão preparados para comparar determinados argumentos intuitivamente. E está a ajudar a ter uma sociedade com dois pesos e duas medidas - um para a ciência (mais exigente) e outro para a treta (nada exigente). Existem coisas que são matéria de especialista, cuja argumentação completa ultrapassa qualquer documentário de poucas horas e não pode ser apresentada como se a opinião de cada um pudesse ser apresentada ao lado de um trabalho metódico e auto-correctivo. Ao menos que promovam debates sérios onde as tretas possam ser confrontadas ponto a ponto por quem tem a capacidade de o fazer.

E agora o John Oliver. É do melhor que anda por aí. E sim as TED talks são "hit or miss".


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Actualização sobre a acupunctura.


E essa justificação tem de incluir tudo o que se sabe acerca da realidade, e naturalmente do que é pertinente para avaliar a afirmação. Por isso temos de considerar a plausibilidade à priori antes de fazermos qualquer teste. Senão, estamos a descartar tudo o que já foi estabelecido como conhecimento como se não valesse nada, e isso não faz sentido. A matemática que permite fazer cálculos usando a plausibilidade de uma afirmação perante um determinado teste,  ou seja, a probabilidade à priori, é a estatística bayesiana. Porque testes positivos aparecem sempre que  se repetir uma experiência vezes suficientes, e não é por isso que se manda tudo o resto que se sabe às urtigas. A ciência funciona porque aposta na consistência, não na quantidade de explicações que aceita, só porque alguém acredita ou porque tiveram sucesso em poucos testes, testes mal desenhados  e escolhidos apenas entre os que deram o resultado que se queria (vulgo "cherry picking"). Por isso se diz que "afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias".

Encontrei um calculador bayeziano on-line para quem quiser experimentar. Tenho uma explicação simplificada do que é a estatística bayesiana aqui.


Então, decidi ver qual era o estado da atual pesquisa cientifica sobre a acupunctura. E parece que até os mais exigentes investigadores andam à procura de "qualquer coisa onde isto possa ser útil" dado a quantidade de coisas em que têm tentado avaliar a sua eficácia. Mas o panorama é o esperado e de acordo com as conclusões anteriores. Os testes são mal desenhados, insuficientes, e não permitem concluir eficácia excepto nalguns casos que sugerem, na mesma, ser pouco significativo. Neste cenário, e perante a falta de plausibilidade cientifica, a probabilidade que devemos dar à eficácia da acupunctura é perto de nenhuma. Ou seja, pouco mudou no mundo cientifico quando à validação da acupunctura desde que a investiguei a ultima vez.

Aqui está uma compilação da avaliação de testes a que a acupunctura foi submetida, (pela Cochrane). Clique no link por favor, e veja caso a caso. Foi praticamente o que fiz (saltei um ou outro, admito, porque estava a ficar monótono).

Dado o resultado dos estudos sistemáticos (e revisão das metodologias dos testes) em face de tudo o que se sabe sobre a realidade, a a minha conclusão é: A acupunctura continua a ser pseudociência e não tem lugar na medicina. A minha justificação é: A acupuncura não prova ser capaz de ter um efeito significativamente superior ao placebo na esmagadora maioria das situações estudadas, não apresenta uma justificação cientifica, e  leva a um campo de investigação regressivo  onde continua a ter de ser defendida por evidencia escassa, anedótica e baseada na popularidade e crença pessoal.

A humanidade viveu baseado nesse tipo de conhecimento durante 200 mil anos em que pouco ou nada evoluiu. A escrita permitiu o nascimento de uma forma de registo e divulgação, e o nascimento da ciência aconteceu sob esta nova aptidão, passado mais uns milhares de anos, um pouco por todas as civilizações, embora muitas vezes apenas pontualmente. Há cerca de 600 anos, na Europa deu-se a revolução cientifica. O poder que nos trouxe foi incomparável com o que tínhamos até agora. O mundo entrou em rápida mudança. Quando é usado para o bem permite as longevidades actuais tão elevadas, a baixa mortalidade infantil e até a erradicação de algumas doenças. Permite que as classes médias vivam melhor que lordes medievais. O caminho a seguir é claramente outro do que o da pseudociência. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Randi a desmascarar vendedores de tretas.

"Amazing" James Randi foi inicialmente um ilusionista (ou mágico se preferirem) que dedicou a sua vida a divulgar e promover uma abordagem critica às alegações de fenómenos paranormais. O seu conhecimento dos truques de magia foi util para rápidamente perceber como as aldrabices eram impigidas a um público maior. Foi e é (particularmente através da sua fundação), um grande defensor do céticismo cientifico tendo desmascarado vários casos de charlatães famosos.

O seu prémio para quem consguir provar um fenómeno sobrenatural continua por levantar, apesar de os concorrentes e o júri estarem de acordo acerca das condições em que o teste vai ser feito antes de começar.

Escolhi alguns videos do James Randi a desmascarar tretas para por aqui.

O primeiro é o de James Hydrick, que dizia ter poderes mentais que desenvolveu com a ajuda de um mestre chinês. Hydrick movia lapis e levantava folhas sem lhes tocar e tinha já estado antes num programa de TV chamado "That´s Incredible" (deu em Portugal) onde conseguiu levar a sua mentira avante apesar da saudável suspeita do apresentador desse espetáculo. Randi de uma maneira muito simples consegue expor a mentira de Hydrick de uma maneira convincente. É incrível a maneira como Hydrick continua a mentir sem dar parte de fraco depois de ser desmascarado. Viria a admitir tudo apenas mais tarde.




O segundo é de Peter Popoff, um popular milagreiro, que usava um auricular de radio para receber instruções da mulher acerca das pessoas da audiencia. Deste modo conseguia surpreendê-las acerca do que sabia. Randi gravou a comunicação para todos podermos ouvir.










O terceiro começa com a exposição de Uri Geller depois continua com o caso já referido de Popov. Geller dobrava talheres com a mente e estava a ter uma popularidade formidável. Num programa (Johnny Carson) em que tinham convidado Geller para motrar os seus poderes, a conselho de Randi, trocaram os talheres dele por outros vulgares. Quando Geller, ao vivo, se apercebe que os talheres não são os seus, fica visivelmente inquieto. Sabia que o seu truque ia falhar, ao vivo. Tanto quanto sei nunca admitiu a treta, mas a fama foi-se em pouco tempo. Moveu vários processos judiciais a James Randi.







Mas um dos mais giros é a descrição do que fazem os cirurgiões filipinos:







Para terminar um em que é usado um "espião" para desmascarar outros milagreiros:





Islão será a religião com maior crescimento até 2050, no mundo e na Europa.

Segundo um estudo do Pew Research Center a religião que mais vai crescer no mundo até 2050 é o Islão. Por essa altura, globalmente, deverá haver um numero quase igual de cristãos e muçulmanos.

Isto será verdade inclusivé na Europa, onde o cristianismo continuará a ser a religião predominante mas em declinio. Enquanto que a religião muçulmana praticamente será o dobro da actual a religião cristã terá um crescimento negativo de cerca de 17%.

Em todo o mundo um dos fatores mais importantes do crecimento do Islão são os níveis de fertilidade com uma média de 3,1 filhos por casal. Na Europa, esse é também um dos factores principais do seu crescimento, com 2,1 filhos por casal contra 1,6 na religião cristã. De notar que o valor de reposição para manutenção de uma população é de 2,1 filhos por casal. A baixa fertilidade é de resto a causa para a totalidade da população europeia ter uma previsão de crescimento negativa.

Em relação aos que não se identificam com qulquer religião, que podem ser ou não ateus, o estudo prevê que a sua participação na composição das sociedades da Europa e da América do Norte aumente, até 23 e 26% respectivamente, apesar de uma taxa de fertilidade baixa. O seu crescimento acima da média deverá ser explicado devido ao "switching" ou a mudança de crença ou abandono da crença. Enquanto que a religião muçulmana terá uma taxa de fertilidade confortávelmente acima da média, a religião cristã terá apenas o suficiente para manter os seus numeros, com os não religiosos a alcançarem apenas 2,1%. Mas o switching na Europa deverá ocorrer sobretudo a partir da religião Cristão. Nos paises de maioria muçulama o switching não deverá ter impacto.



terça-feira, 28 de abril de 2015

As definições

Havia um filósofo que dizia que o significado das palavras era o uso. Isso parece-me razoável. Quando dizemos "morango" produzimos uma sequência de sons que aprendemos que indicam um fruto vermelho. Mas depois usamos também essa palavra para indicar um desenho de um morango. Com um bocado de azar, existe alguém com gato chamado "Morango". E o uso deu então uma série de significados novos à palavra "morango". Ainda assim, se falarmos em morangos, requer outro tipo de filósofos para questionar se não estamos a falar de laranjas.

E o problema é que eles andam aí.

Em vez de utilizar a linguagem para comunicar, utilizam a linguagem para impedir essa comunicação. Ou pelo menos torná-la tão improvavel como acertar na lotaria.

Por exemplo, queremos expor uma ideia que lemos sobre a inteligência ou avançar um argumento e vem logo o comentário "mas o que é a inteligência?". Ou, "o que é a consciência" ou "Deus", etc.

Se fosse para clarificar os conceitos e determinar limites, podia dar geito para a conversa, mas muitas vezes é mais um tique de pseudoprofundidade que serve apenas para tornar as palavras tão ambiguas como possíveis.

Este tipo de filósofos, porque isto deve ser daquelas coisas a que se referem quando se fala em "em  outras filosofias" consegue rápidamente transformar a conversa, num ensaio sobre a inteligência das bactérias, ou sobre a possibilidade de Deus ser tudo o que existe (e isto é muito profundo, não brinquemos, e para mais prova que Deus existe) etc, conforme fosse o tema inicial.

O problema  mais grave é que isto começa a aparecer na literatura cientifica. O estudo da fisiologia vegetal agora tem um campo chamado neurobiologia. É engraçado porque as plantas não têm neurónios. Mas tudo bem, podiam ter chamado Miguel ou Tobias, por isso neurobiologia parece melhor. O problema é que querem com isso determinar que estão a estudar algo que será equivalente ao sistema nervoso das plantas. E assim, ja podem encontrar todas as caracteristicas do sistema nervoso ali representadas. Se uma planta ao fim de 5 flores dá uma com cor mais ténue fica provado que a planta tem memoria ou sabe contar (esta é inventada, o estudo original é com biopotenciais mas o problema é o mesmo). Se os estomas da planta interagem entre si em cadeia, ao ponto de haver influencias para lá do vizinho do lado , (possivelmente, ainda não está provado) estamos a falar de algo como um sistema nervoso central, e por aí fora.

Mas a coisa é assim. Por este processo eu posso argumentar que um cepo é inteligente, ora vejamos;

Quando dou uma machadada no cepo, ele comunica a marretada a todas as partes do seu corpo sob a forma de energia mecânica e essa energia mecânica pode ser objecticamente medida em Newtons, o que prova não só que há comunicação de informação pelo corpo do cepo mas também que ele tem um sistema nervoso central. Para mais, fica uma marca no local da machadada que corresponde à parte da lamina que se enfiou no cepo, logo o cepo tem memória. O cepo também processa informação tal como se pode provar pela identificação dos estimulos e respostas diferenciais e de facto a machadada não produz a mesma memoria ou reacção que a martelada. Normalmente reage à primeira com a multiplicação ou racha e à segunda com uma depressão com a forma da cabeça do martelo. E agora, não podemos dizer que o cepo não sente já que dificilmente podemos dizer que não há alterações no corpo do cepo (e já vimos que podemos medir essa percepção por todo o cepo). Portanto os cepos devem sentir dor. Vamos fazer a liga da defesa do cepo.

E cá está, Brilhantemente reduzi qualquer limitação que pudesse ser posta às palavras "memória", "inteligencia" e sei lá mais o quê, para acabar com a limitação que qualquer um quizesse por no magnifico cepo, certo?

Errado. Apenas desprovi as palavras do sentido que o seu uso habitual e cientifico lhes deu. Mas não produzi nenhum argumento acerca da senciencia dos cepos, ou da inevitabilidade de que o cepo seja senciente caso eu queira falar sobre senciencia. O que eu fiz agora foi mesmo uma redução ao absurdo (surpresa!). Para ilustrar que o que temos de fazer para avançar as discussões é definir os termos de modo a que saibamos do que estamos a falar, e, não para que não sejamos capazes de os usar...

Nota: Este post vem em sequência do post anterior e dos estudos de neurobiologia vegetal que descobri por aí. Por mim podem continuar a usar esse termo e até os outros todos (memória, inteligencia, etc), mas para isso convinha ter a honestidade de dizer que não se referem exactamente à mesma coisa que essas palavras significam  para alguns participantes no reino animal. Por exemplo, o termo inteligência aparece muitas vezes na informática. Mas muitas vezes também é acrescentado o termo "artificial" que ajuda a perceber que não estamos a falar exactamente da mesma coisa (e penso que ainda não estamos, embora eu suspeite que ela está muito mais próximo da inteligencia humana que a chamada inteligência das plantas).