quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Evidência e Prova.

«Thomas Huxley observou que "a ciência é simplesmente o senso comum no seu melhor; isto é, rigorosamente precisa na observação e impiedosa com falácias lógicas". Esta segunda edição do Reference Manual of Scientific Evidence avança mais o objectivo de assistir os juizes federais em reconhecer as caracterisiticas e o raciocínio da ciência tal como é relevante em casos litigiosos» (1)

Andava a estudar sobre evidência cientifica de um modo mais geral, pois tenho mesmo à vontade é em areas de medicina ( estão muito bem hierarquizadas as formas de evidencia), quando encontrei o manual acima. É muito interessante (Ainda não li mas promete uma boa leitura...). E vem a calhar.

Tenho reparado que existe alguma confusão com o que é admitido como facto em ciência. Ou o que é considerado evidencia ou prova de algo. Ou mais propriamente como isso acontece.

Prova mesmo, só existe em Matemática. No resto da ciência a prova é mais um conjunto de dados que suporta ou corrobora uma teoria. Tal como não há certezas absolutas não há provas absolutas.

Existe de facto uma hierarquização da prova. Em ciencia a autoridade máxima é a prova empirica sistematica, reprodutivel, sustentada pela teoria e rigorosamente documentada. Por exemplo as experiências de Alan Aspect demonstraram implacavelmente que a não localidade quantica (coisas que estão ligadas não importa a distância a que estão) era uma facto tão real como outro qualquer. Para trás ficavam trabalhos de Einstein que chamava a este facto "acção fantasmagórica à distância". Einstein se fosse vivo teria de aceitar essa derrota intelectual.

A forma de prova mais fraca que há é o testemunho anedótico de factos extraórdinários. Tipo alguem que vê algo que mais ninguem vê e ouviu falar ou que não é plausível.

Pelo meio existe todo o tipo de evidência possível. Toda uma gradação existe de um tipo de evidencia à outra. Existêm estudos com amostras pequenas, estudos com amostras grandes, dados suportados pela teoria, dados não suportados pela teoria, dados que apesar de terem sido rigorosamente colhidos podem ser dificeis de repetir, etc. Até as revistas cientificas têm um ranking de relevância que acaba por ser sinónimo de credibilidade no que publicam. E sobre o "peer-review" já tenho aqui falado.

A evidencia teórica está entre estes casos extremos, mas uma afirmação suportada pela teoria, matemáticamente derivada de outras teorias estabelecidas tem um grande grau de certeza. Se for uma questão puramente matemática em relação a coisas muito bem estabelecidas é tido como facto.

A probabilidade de uma afirmação teórica ser verdadeira é proporcional à força do modelo teorico que tem por trás.

O testemunho individual, se acerca de coisas plausíveis, rigorosamente descrito, etc tambem tem valor.

Existirá de facto um limiar minimo para a credibilidade ou que se admite que é preciso juntar mais informação. Muitos estudos terminam exactamente com a conclusão que é preciso juntar mais resultados. Esse limiar está sugeito a discussão em muitos casos. Noutros está metodologicamente definido, como por exemplo na medicina baseada na evidência.

Por exemplo, mesmo que a ciência nunca tivesse perdido um segundo do seu tempo a descrever estados emocionais humanos, relações interpessoais, a evidência acumulada a esse respeito é cientificamente relevante. Não há problema com isso.

Mas por exemplo o relato anedótico, sem provas físicas, sem um apoio lógico forte de que Noé e a familia apenas, passou 40 dias no mar num barco gigantesco cheio de animais que ele próprio construiu, é insuficiente. Tal como o testemunho de que Jesus era um deus e ressuscitou. Requerem mais evidencias para terem valor como sendo conhecimento.

Igualmente, a questão de o cientista não poder fazer por si todas as experiencias, como um anónimo referia no blogue "companhia dos filosofos" é manipulada com este tipo de raciocínio. Por exemplo a massa do electrão. Eu medi? Não. Acredito no que me dizem os físicos? Sim. Por fé? Não. Porque ou tudo isto é uma gigantesca conspiração - o que é uma hipotese muito pouco plausível - ou eu posso satisfatóriamente responder a questões como as levantadas acima:

- Várias pessoas chegaram à mesma conclusão? A medição foi rigorosa e reprodutivel? Foi independentemente repetida? Posso saber exactamente como se chegou lá?

- O processo foi revisto pelos especialistas da area?

- Integra-se num sistema teórico maior e está de acordo com outras questões?

- Existia alguma razão para que se possa suspeitar de parcialidade?

Se sim, então temos razão para dizer que sabemos com um elevado grau de certeza a massa do electrão. Mesmo que nunca tenhamos visto nenhum.

(1) do prefácio de Reference Manual of Scientific Evidence em http://www.fjc.gov/public/pdf.nsf/lookup/sciman00.pdf/$file/sciman00.pdf


Update: corrigido Moisés por Noé. O Sabino e os seus comentadores ficaram muito ofendidos, apesar da evidencia de que o homem sequer existiu seja irreprodutivel, de fonte unica perdida no tempo, não acompanhada de provas físicas e francamente incrivel. Nem é por ter intervenção de uma entidade que deixou de intervir nos nossos dias e que dela não há sinal. É mesmo por ser incrível. E isto sem falar no sistema de esgotos da arca. Ou de limpeza das jaulas. Deus todo-poderoso teve de por os animais num barco para os salvar? Não podia antes tirar a vida aos que queria sem inundar a Terra? Sim, é prefeitamente plausível.

Enviar um comentário