quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Companhia homeopata ameaça com processos legais crítico italiano.

A Boiron, uma empresa que produz artigos homeopáticos ameaçou um blogger italiano com um processo legal por este a ter criticado abertamente. E exigiu ao servidor de internet que alojava o site para impedir o acesso ao dito site.

Não havendo outros argumentos aparentemente esta ideia ter-lhes há parecido uma boa solução. Ou talvez tenham só avançado para ver como é que a coisa corria, afinal se puderem calar os críticos todos e todas as vozes a dizer "o rei vai nú", talvez se possa continuar negócio sem sobresaltos.

Mas a coisa aparentemente correu mal - ou está a correr - e já se comenta pelo mundo fora. O assunto é inclusivamente noticiado pelo British Medical Journal.

É um atentado ao direito de expressão. É um atentado à divulgação e discussão de ideias. E é um atentado à ciência em si que vive e cresce na discussão de ideias. Mandar calar e tentar calar em vez de argumentar é cobarde, é antidemocrático e anti-cientifico.

Ainda por cima ele tem razão. Os medicamentos homeopatas não têm eficacia e nem era esperado que tivessem. São apenas agua ou açúcar e funcionam como um placebo. Vendido ao preço de medicamento.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

O espiritismo desmistificado.

Os espíritas insistem que não podemos criticar o espiritismo sem ler as obras completas do Allan Kardec. Dizem que não podemos saber o que estamos a criticar se não o fizermos.

Estaria de acordo se quisesse criticar o estilo, a encadernação das obras ou como devem lá conduzir os promenores das crenças deles. Mas eu critico antes alegações bem conhecidas e gerais dessas obras ou afirmações que se possam racionalmente extrair desses textos (e desde que lá se suponha que existem espiritos imortais não estou a enganar muito). Critico alegações de fundo e que refletem questões de matéria de facto. Critico alegações sobre o mundo que nos rodeia e que dizem respeito a todos. Não apenas a quem queira seguir uma ou outra doutrina espirita. E depois comparo a essas afirmações com aquilo que é suportado pelas evidencias.

Quem diz o que lá diz são os espiritas. Se eu disser que la diz algo que não diz, aceito ser corrigido. Mas não tem sido esse o problema. Parece que de um modo geral o cetico acerta nos fundamentos do espiritismo (vida após morte, dualismo mente/cerebro, comunicação com os mortos). O que discordamos é na veracidade e plausibilidade desses fundamentos.

Pretenderão que as evidencias a favor do espiritismo são apenas a autoridade de um homem e a força da sua palavra? Isso é um apelo à autoridade falacioso (por não ter sido primeiro sequer estabelecido como poderia ele ser especialista de uma coisa que não está demonstrada). Por outro lado, se os únicos relatos sistemáticos que suportam o espiritismo são os encontrados nestes textos de cerca de 1850 o problema é o mesmo. Outra falácia. É evidencia anedótica, já que não se consegue repetir as coisas independentemente e com os mesmos resultados.

De facto, existe uma série de experiencias, relatos, descobertas, investigações, etc. que mostram que alegações de comunicações com mortos são treta. Há evidencias cada vez mais fortes que a mente é emergente do cérebro e que não há algo como uma alma sobrenatural e que a nossa vida não é mais que o funcionamento do nosso corpo ( e que isso já é complexo o suficiente). E que por mais que se procure exaustivamente não há evidencias de vida após a morte. E após uma procura exaustiva ausencia de prova é prova de ausencia.

Os espíritas procuram trazer documentos que mostrem previsões bem sucedidas pelos seus espíritos. Tal como os astrólogos. Mas a verdade é que fazendo muitas previsões sobre muitas coisas algumas vão ter de sair correctas. Não podemos isolar os resultados positivos no meio dos negativos e fingir que acertamos tudo quando fazendo as contas o sucesso teve uma percentagem muito baixa. E é isso que conta.

É este de resto um dos princípios dos truques usado nas sessões mediúnicas (e por mágicos do Showbiz) e de resto hoje bastante bem documentados. O médium lança para o ar problemas frequentes que todos temos, atira uns nomes comuns, e quando tem um "hit" não larga. As pessoas perdem o fio à meada e esquecem-se de todas as hipóteses rejeitadas anteriormente. AO que ajuda muitas vezes um contexto de forte carga emocional. Tendem a lembrar-se apenas das hipóteses que acertaram em algo. Ou lá perto...E nem se apercebem da probabilidade elevada, vulgo "clichés", que são as hipóteses propostas pelos médiuns. Tipo "Um familiar próximo que morreu de doença prolongada e que deixou algo por dizer...". E que se chamava Amanda, Fernanda, Alexandra, Xana ou Ana. Chama-se a isto "fishing". Para saber se há previsão é preciso anotar todas as hipóteses e ver a percentagem de sucesso. Quando isto é feito a sério e bem feito, os espíritos não adivinham nada. Não é preciso ler os livros do Kardec para saber isto.

Também não é preciso ler os livros do Kardec para saber que já Faraday, o físico, tinha mostrado uma maneira muito engenhosa e eficaz para mostrar que nas sessões espíritas eram as pessoas que faziam os objectos mexerem-se, ao colocar camadas moveis debaixo dos dedos. Se a camada de cima (em contacto com os dedos) mexe antes do objecto e das camadas debaixo(seja este um copo, uma mesa ou o que for) é por que é a pessoa que esta a mexer o objecto e não o espírito.

De facto, Faraday suspeitava de algo apenas demonstrado electrofiosiológicamente muito recentemente. Que basta nós pensarmos num movimento para parte do impulso seguir para os nossos membros. Muitas pessoas empurravam os objectos nestas sessões sem sequer se aperceberem. Sem fraude consciente. E depois deles se começarem a mexer só a antecipação do movimento e de ter de o seguir dá origem a mais empurrões. E esta é a explicação de mais movimentos de pêndulos "mágicos" que me chegaram aos ouvidos à pouco tempo.

De qualquer modo suspeito que nos livros de Kardec não se encontre um pingo de evidencia acerca do espiritismo. Apenas códigos e regras de procedimentos. Mesmo sem ler, arrisco dizer que lá não vêm lá justificações sólidas sobre como eles sabem o que dizem que sabem. A não ser que os espíritas as queiram esconder de toda a gente! E tenham uma mania estranha que só a pode conhecer quem a ler directamente no próprio livro...

Mas dizer que só lendo o livro dele é que podemos criticar o espiritismo é uma maneira de dizer que tudo o que é importante a suportar o espiritismo está lá e apenas lá. Ou seja, que não é confirmável independentemente nem reproduzível - e isto é algo imprescindivel e inultrapassavel para julgar alegações. Senão, vale tudo! Na melhor das hipóteses, sendo assim, seria algo que apenas aconteceu ou acontecia por vota de 1850.

Mas mesmo assim, tendo em conta tudo o resto que sabemos do universo e juntando todas as tentativas frustradas de demonstrar almas, espíritos, comunicações com o além, pré-cognição, etc. sou obrigado pelas evidências a rejeitar essa hipótese de uma época em que os espíritos falavam connosco e os mortos eram vivos à sua maneira.

Quem quiser demonstrar que estou errado avance com evidencias. Afirmações qualquer um pode fazer. A diferença é a justificação. E quanto mais extraordinária a afirmação mais extraordinária tem de ser a justificação. Esta de ter de ler o Kardec para poder criticar o espiritismo é ultrapassada apenas pelo abuso das afirmações do espiritismo propriamente dito.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Violência nos videojogos, update.

Acrescentei isto ao post de ontem:

"Embora tenha tomado conhecimento de estudos conflituosos em relação à violência desde que comecei a escrever o post, pareceu-me que a evidencia para haver um ligação entre jogos de computador e violência era mais consistente com estudos mais teóricos. E estudos conflituosos aparecem sempre. Por outro lado reparei que os estudos que não encontram relação são quase todos estudos que incluem C.J. Fergunson como autor, o que me inclina a dar razão a quem considera haver "bias" nesses trabalhos. No entanto numa segunda revisão considerei o caso menos forte a favor da influencia negativa dos jogos violentos.

O meu pensamento actual é o seguinte: Se não houver fraude deliberada, e os autores que chegam sistematicamente a conclusões diferentes (Anderson vs Fergunson) forem apenas vitimas de bias (ambos) é bem possível que estejam a medir coisas diferentes em indivíduos diferentes. Isto é: Nem todos os indivíduos são susceptíveis em igual grau e nem em todas as condições (por exemplo pouco tempo de jogo diário). Para além disso a discordância acerca de como deve a agressividade ser medida pode sofrer o mesmo problema. O que é agressividade para um autor não é para outro, sem que nenhum tenha absolutamente razão. Provavelmente os jogos violentos não serão responsáveis por agressividade extrema mas sim por uma atitude geral pro-violenta.

Em resumo, os jogos de computador seriam mais perniciosos em crianças que ja de si são vulneráveis e um pouco agressivas e não em adultos estáveis, assim como seriam provavelmente incapazes de gerar por si só fenómenos de loucura violenta. É neste sentido que eu penso que aponta o conjunto de toda a bibliografia. Não deixa no entanto de ser pertinente o efeito da violência dos jogos nas crianças e jovens. Não iliba completamente os jogos de computador de comportamentos indesejados nos jovens. No caso de adultos estáveis não me parece que os jogos violentos sejam motivo de preocupação."

Portanto continuo a considerar que a evidência sugere fortemente que haja influencia negativa de jogos violentos em indivíduos. Não é é em todos. E que essa influencia não pode ser negligenciada só porque é mais provável que seja sobretudo em crianças susceptíveis e jovens instáveis. Mas sobretudo por ser mais provável que seja notável em crianças susceptíveis e jovens instáveis. E além do mais a susceptibilidade não deve ser uma questão de tudo ou nada. É razoável concluir que será um continuo em relação à idade entre outros factores.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Jogos de computador violentos podem aumentar a agressividade. Mas também melhoram algumas capacidades intelectuais...


Os jogos de computador modernos são complexos e exigentes em termos intelectuais. Forçam os jogadores a planear, memorizar localizações e inventário, tomar decisões em pouco tempo, manter índices de concentração elevados e uma capacidade de saber o que se passa no cenário geral da acção. E claro a fazer o famoso "multitasking".

Por isso é de esperar que exista alguma vantagem - no campo da neurologia - de jogar computador.
Mas alguma vantagem é diferente de enormes ou muitas vantagens. E estas têm de ser avaliadas num contexto geral de possíveis contra-indicações.

Para ja sabemos que apesar de imensas promessas de escolas e programas para aumentar o QI, a verdade é que este tem uma heritabilidade extremamente elevada . Por outro lado sabemos que muitas actividades que aprendemos têm pouca capacidade de passar para outras areas, mesmo que algo relacionadas. E o QI é uma medida que se correlaciona fortemente com outras aptidões intelectuais, por isso aqui refiro este facto.

Isto não quer dizer que não valha a pena treinar o cérebro. Existe plasticidade neuronal. Treinar é importante e é até imprescindível. Quem tiver pelo menos o 12º a matemática sabe que não se pode fazê-lo sem treinar bastante os conceitos envolvidos.

O que quero dizer é que devemos ter muito "cuidado" com o que esperamos de determinado treino. E que as alegações de melhoras cognitivas devido a isto ou aquilo devem ser cautelosamente ponderadas e investigadas. Sobretudo se são feitas como tendo um resultado benéfico geral, tipo panaceia.


Por isso, quando recentemente encontrei este artigo da PCWorld intitulado "7 jogos que expandem o seu cérebro" senti os alarmes do cepticismo a tocar, ainda que tivesse vontade de acreditar no que dizia o artigo (eu gosto de jogos de computador e estou sempre interessado em melhorar qualquer capacidade intelectual). O titulo era bom demais para ser verdade. O sub titulo já falava em moderação na quantidade, mas isso ainda é dizer pouco acerca dos problemas envolvidos.

Debaixo deste titulo sensacional, a PCWorld apresentava 7 jogos que em determinadas faixas etárias tinham dado melhorias intelectuais em aspectos muito específicos. Tudo bem. Não justifica a generalização inicial mas podia representar bons indícios. E representam em um ou outro caso. O problema, é que os estudos que vêm referenciados pela PCWorld para justificar a alegação inicial são quase tudo (mas não tudo - ver mais à frente) o que há a dizer de bom para os jogos de computador (e que ja têm suporte cientifico) e não fala dos problemas associados.

De facto, procurei saber se a PCWorld tinha escolhido as cerejas de artigos científicos para fazer o seu texto. E tinha. O seu artigo omitia informação importante acerca dos jogos de computador - e relevantes no contexto geral de avaliar o benefício de jogar. Havia um mundo de cerejas podres à volta de onde aquelas saíram.

Mas este "post" não é tanto a criticar o artigo da PCWorld - se fosse pegaria em cada alegação uma por uma e não no titulo sensacionalista (que sabemos apenas segue regras de marketing). De facto este post é muito mais sobre o que eu encontrei por ir averiguar o artigo em causa.

O que se passa é que a evidência a favor de quaisquer aumentos da capacidade cerebral é ainda relativamente leve, excepto talvez para questões relacionadas com a percepção visual, compreensão espacial e atenção.

Mas isso nem foi o pior.

A parte pior, foi encontrar que de entre indícios de efeitos positivos existem efeitos negativos sugeridos por muita bibliografia (vários estudos e revisões) - a agressividade, vício e menor rendimento escolar - que têm de ser tidos em conta. Não apenas indícios (ver nota 2 em respeito a conflito de estudos). E se levarmos em conta como provados todos os efeitos positivos então temos de aceitar também o que esta igualmente indiciado para efeito adverso.

Como por exemplo tirar tempo de estudo e de sono (mas não tiram o sono, apenas levam os miúdos a querer jogar até tarde) e competir com a dedicação à escola e matérias escolares. Existe uma correlação com pior rendimento escolar (rapazes).

De entre um numero de vantagens que os jogos (no geral) podem trazer existe um numero equivalente de efeitos negativos. Vale a pena aumentar um pouco a rapidez com que se toma decisões se isso tem como efeito colateral mais violência e menor rendimento escolar? Eu acho que não (por exemplo: os jogos que são apresentados no estudo sobre melhor capacidade de tomar decisões são jogos de guerra na primeira pessoa - muito violentos).

Mas adiante.

Não quero também deixar também a ideia que os jogos de computador são o diabo. Jogos não violentos, jogados com moderação, podem ser positivos. Podem ajudar a ensinar, melhorar habilidades especificas, treinar a memoria, etc. E há indícios que sejam sobretudo úteis em indivíduos do sexo feminino.

Mas se calhar não devemos esperar que jogos que são desenhados apenas para entretenimento sejam capazes de aumentar muito determinadas competências. Precisamos de saber mais sobre este assunto para fazer afirmações com um grau de certeza mais satisfatório - neste momento uma série de testes precisa de verificação independente, jogos que apresentaram benefícios devem ser estudados quanto a efeitos adversos, etc. Existem bons indícios, não quero que isso fique enterrado no meio das criticas, mas provavelmente temos de aprender um pouco mais e influenciar um bocado a industria que produz os jogos se queremos amplificar os benefícios enquanto diminuímos os efeitos negativos. Parece-me bastante plausível que tal seja possível.

O Peggle e o Tetris não são agressivos e apresentaram vantagens. Mas e desvantagens? Não sabemos. Quer dizer que não há ou que têm as mesmas de outros jogos no que se refere a dependência e vicio? Eu acho que provavelmente teremos de controlar o tempo de jogo no caso de jovens e crianças, se não vai descambar. Se isso for feito provavelmente não haverá problema. Mas o Peggle e o Tetris não representam o que os jovens andam para aí a jogar!

Em suma, tudo depende do jogo em causa. Esse é talvez o principal factor. Um jogo é apenas um tipo de meio. O que esse meio trás é que faz a diferença. Portanto é preciso começar a estudar cada jogo por si e começar por organizar este "saco de gatos".

Mas o verdadeiro problema actual é que uma grossa fatia dos jogos são violentos e /ou requerem que sejam jogados um numero elevado de horas. Levam as crianças e jovens a querer perder esse tempo com o jogo e não com outras coisas.

Ainda no tema da agressividade, não creio que esteja bem divulgado o grau de certeza com que podemos dizer que jogos violentos aumentam a tendência para a agressividade. Pode não ser em todos os jogadores, mas ou há fraude deliberada nos estudos ou esse efeito existe, ainda que num contexto multifactorial. Convinha pais, reguladores, educadores, etc, terem noção disso. Não sei se têm, mas acho que não. Posso estar enganado. Mas penso que a evidencia a esse respeito é suficientemente forte para crianças e mais nas já de si "problemáticas". Mas temos de pensar em todos. (Sendo uma conclusão tão pouco popular e aparecendo em tantos estudos e revisões (existem também a dar a conclusão errada, mas se bem que sejam muito mais visíveis na comunicação social parecem-me em menor numero e por menos autores que os outros. Um autor parece ser o responsável por toda a divulgação de que os video jogos não fazem mal a ninguém. Adicionalmente, a verdade pode estar no meio. Que a violência em jogos de computador só põe alguns em risco (é consensual que existem crianças susceptíveis e parece-me que se forem jovens o suficiente, todas poderão estar em risco), mas eu acho que isso por si é importante e suficiente para considerar os jogos um factor de risco. Ver nota 2)

No tema da dependência, os jogos" mass multiplayer" são os piores. Isso já sabemos. Mas também aqui precisamos saber mais. Parece que existem empresas que deixam os trabalhadores jogar à vontade no tempo de trabalho. Gostava de saber que tipo de empresas e que tipo de empregados e como é que isso vai acabar.


Nota 1: este post não é mais que um comentário algo longo ao conjunto de referencias que estão em baixo. Aos interessados no assunto, continuem por aí abaixo, é lá que está a melhor informação. Procurei ter as ligações descritas e agrupadas para facilitar o estudo a quem quiser .

Nota 2: Embora tenha tomado conhecimento de estudos conflituosos em relação à violência desde que comecei a escrever o post, pareceu-me que a evidencia para haver um ligação entre jogos de computador e violência era mais consistente com estudos mais teóricos. E estudos conflituosos aparecem sempre. Por outro lado reparei que os estudos que não encontram relação são quase todos estudos que incluem C.J. Fergunson como autor, o que me inclina a dar razão a quem considera haver "bias" nesses trabalhos. No entanto numa segunda revisão considerei o caso menos forte a favor da influencia negativa dos jogos violentos. O meu pensamento actual é o seguinte: Se não houver fraude deliberada, e os autores que chegam sistematicamente a conclusões diferentes (Anderson vs Fergunson) forem apenas vitimas de bias (ambos) é bem possível que estejam a medir coisas diferentes em indivíduos diferentes. Isto é: Nem todos os indivíduos são susceptíveis em igual grau e nem em todas as condições (por exemplo pouco tempo de jogo diário). Para além disso a discordância acerca de como deve a agressividade ser medida pode sofrer o mesmo problema. O que é agressividade para um autor não é para outro, sem que nenhum tenha absolutamente razão. Provavelmente os jogos violentos não serão responsáveis por agressividade extrema mas sim por uma atitude geral pro-violenta. Em resumo, os jogos de computador seriam mais perniciosos em crianças que ja de si são vulneráveis e um pouco agressivas e não em adultos estáveis, assim como seriam provavelmente incapazes de gerar por si só fenómenos de loucura violenta. É neste sentido que eu penso que aponta o conjunto de toda a bibliografia. E é plausível considerar que esse efeito não será uma questão de tudo ou nada, mas um continuo relacionado com outros factores. Não deixa no entanto de ser pertinente o efeito da violência dos jogos nas crianças e jovens. Não iliba completamente os jogos de computador de comportamentos indesejados nos jovens. No caso de adultos estáveis não me parece que os jogos violentos sejam motivo de preocupação.




Referências:


Video Jogos: Quanto mais agressivo pior:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20849041: "a key finding can be demonstrated: the more time students spend on consuming media and the more violent its contents are, the worse are their marks at school",
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19742374

Melhora a capacidade de compreensão espacial em individuos do sexo feminino:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17894600
http://www.biomedcentral.com/1756-0500/2/174/abstract - referenciado na PCworld.

O conteudo é o mais importante (não ´
e se é jogo ou não):
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21338006
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19742374

Util para ensinar:
medicina: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21204720,
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19742374 "educational games may be related to positive outcomes" mas também diz: " Results revealed that time spent playing games was related positively to aggression and negatively to school competence"

Video Jogos tiram tempo de estudo e causam problemas a estudantes do sexo masculino:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20424084

Aumento da agressividade devido a jogos violentos:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20192555 (excelente abstract, muito importante ler).
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17474848 " weak evidence for the assumption that aggressive behavior is interrelated with excessive gaming in general (mas não é nula)" e " an addictive potential of gaming should be taken into consideration regarding prevention and intervention."
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19739057 - " children with ADHD are especially vulnerable ",
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21731788 "A number of risk behaviors, including involvement in physical fights and initiation of alcohol use before age 13, were significantly associated with frequent TV use or frequent computer/video game use, even after controlling for sex, race/ethnicity and grade.",
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16402007,outra review
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20192553,é a review a que se refere o abstract 2019555
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11554666,anderson ,mais antiga.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17914672 - meta-estudo que diz que jogos violentos agressivos não têm provas que causem agressividade, o que esta em desacordo com a maioria dos outros meta-estudos e reviews. Christopher J. Ferguson é o defensor destes resultados. É apontado como jogador pelos criticos e por isso sugeito a "bias", coisa que ele considera o problema nas análises de outros. Considera que a violencia em jogos de computador esta relacionada com a susceptibilidade individual e que só afecta individuos susceptiveis. Parece-me que esta linha não deve ser assim tão bem demarcada e se bem que obviamente deve haver susceptibilidade individual.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21529925: individuos com tendencias agressivas e menor educação procuram jogos violentos.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18977956
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15721477: artigo na Lancet em 2005 considerava a questão bem estabelecida em crianças especialmente rapazes. E é este o foco principal do meu post, ja que penso que adultos normais não ficam muito mais agressivos se os puserem a jogar jogos violentos 8 horas por dia...
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21381967
http://www.apa.org/science/about/psa/2003/10/anderson.aspx

Melhoria das capacidades psicomotoras:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21821223

Efeitos positivos em raparigas que jogam com os pais:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21783048

Jogos que levam a actividade pode corresponder a exercicio moderado:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20332536,
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20603468

Aumentar a empatia:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21171755

Jogos de estratégia em tempo real em idosos melhoram várias capacidades intelectuais:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19140648


Vicio e dependencia:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20597036 "signs of an overuse or addictive use of computer and video games. Moreover there is evidence that the disorder is associated with higher rates of depression, anxiety, as well as lower achievements e. g. at school",
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18027346,
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21703437 " average age, the scores of social belonging in real life, self-esteem and sub-dimensions "family" and "friends" of the quality of interpersonal relations scale are lower than those obtained by the non-dependent. Furthermore, the number of hours of play per week, the feeling of social belonging, self-esteem, quality of family relationships and loneliness are predictive factors of addiction to video games online.",
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21142990

Jogos aumentam aptidões gerais:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20826302

Jogos aumentam a capacidade (tomada de decisões) de inferência probabilistica:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20833324 - é o estudo referido na PCworld e divulgado aqui:
http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-12/uoia-svg120808.php

Para melhorar a visão em adultos!:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18997318

Brain age não aumenta capacidade cognitiva em adultos:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20822257

Jogar antes de dormir não é prejudicial:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20411697

Melhores capacidades de percepção:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21062660

Referências da PcWorld:

http://www.pcworld.com/businesscenter/article/227894/tell_your_boss_play_video_games_work_smarter.html

MRI assessment of cortical thickness and functional activity changes in adolescent girls following three months of practice on a visual-spatial task:
http://www.biomedcentral.com/1756-0500/2/174/abstract

http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-12/uoia-svg120808.php

Estudo que encontra melhoras a matemática num jogo de Nintendo DS "more brain training":
http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/education/7064196.stm - infelizmente na página do autor podemos ver o que não diz no artigo da BBc. O conflito de interesses entre um estudo não tendencioso e os patrocinadores que são marcas de jogos. Ver aqui: http://www.gamebasedlearning2009.com/conference/speakers/907-spekers/166-derek-p-robertson-learning-and-teaching-scotland-national-adviser-for-emerging-technologies-and-learning-

Melhorias em adultos que jogam jogos de estratégia em tempo real:
http://www.eurekalert.org/pub_releases/2010-09/uor-vgl091010.php. É a noticia deste estudo já referenciado acima: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19140648

Visual:
http://www.bcs.rochester.edu/people/daphne/VisionPDF/DyeBavelier2010.pdf "participants who played action games showed enhanced performance on all
aspects of attention tested as compared to non-gamers."

http://www.pcworld.com/article/229408/7_games_that_expand_your_brain.html#tk.hp_new

Relacionado:

Memoria de trabalho pode ser treinada com video jogos:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20630350 (sem referencia a video jogos, apenas a treino)
http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/news/fullstory_113138.html

Jogo "Big seed" pode ser usado para avaliar potencial intelectual:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/14977052


Melhora a atenção:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21248123

domingo, 24 de julho de 2011

Conselhos de Russel

1.Não tenhas certeza absoluta de nada.

2.Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.

3.Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.

4.Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.

5.Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.

6.Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.

7.Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.

8.Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.

9.Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.

10.Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.

Na autobiografia citada na Wikipédia, aqui.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"The Moral Landscape" por Sam Harris.

Este é o ultimo livro de Sam Harris, em português: "A Paisagem Moral"

Tem como subtitulo: "Como pode a ciência determinar os valores humanos?" e pretende dar resposta a esta pergunta com um numero mínimo de pressupostos, de acordo com o que já sabemos sobre a moral, a neurociencia e a ciência em si própria.

Para Sam Harris, a moral é a maximização do bem estar. A julgar pela sua argumentação, mais relacionado com a distribuição do bem estar do que com a sua medida absoluta em qualquer momento.

E o bem estar, defende, é algo que nós podemos vir a medir com rigor cientifico, ou pelo menos com um grau de incerteza tolerável, sobretudo se usarmos uma abordagem neurológica. O bem estar defende, deverá corresponder a um estado cerebral. Neste enquadramento biológico podemos por princípio usar todo o aparato teórico e tecnológico cientifico para dizer o que pode ser melhor para nós e como podemos consegui-lo.

Sam Harris não tenta esconder que cada um dos pressupostos do enquadramento em que propõe abordar a moral não levantam problemas por si próprios.

Tais como sejam:

Queremos procurar o maior valor absoluto para o bem estar? É uma medida de distribuição? E medir a distribuição da moral como? É uma média do bem estar numa população? E o bem estar será realmente algo que todos valorizam da mesma maneira (ja sabendo que nem todos gostam das mesmas coisas)? Fará sentido por si próprio? Como distinguimos isso de alegria ou felicidade momentânea? E será possível encontrar sempre soluções para uma distribuição justa do bem estar em situações limite e complexas ou serão sempre problemas sem resposta ou com resposta apenas após ponderação quase infinita (problemas não-P em matemática).

O que ele propõe é que em princípio o que sabemos hoje já é suficiente para iniciar esta abordagem, já que não precisamos de saber tudo para saber alguma coisa. Ou pelo menos, pressupor que sabemos.

De facto, o grande problema para abordar a moral é conseguir um objectivo, um fim, para que possamos procurar soluções. Esse objectivo, envolve uma escolha. A tal escolha que tem tornado a moral um problema não cientifico. E essa escolha, Sam Harris não nega, será sempre uma escolha subjectiva, por ser referente a sujeitos. Mas os sujeitos somos nós e podemos tentar perceber se a escolha é ou não algo que diga alguma coisa a todos. Mas não é isso que obriga a Moral a ficar plenamente no campo da filosofia.

Mesmo que, como ele argumenta, essa escolha seja provavelmente uma ilusão. A escolha de querer estar bem, pode não ser bem uma escolha (idem, ver "link" acima). Segundo ele, não temos realmente livre-arbítrio: "O livre-arbitrio é uma ilusão de uma ilusão". Mas isso, de não haver escolha, não é um problema neste contexto.


O problema é que sem um fim em vista para a moral, não há soluções para a moral. Apenas afirmações em aberto sem valor. Hipoteses indistintas. É a queda num relativismo moral absurdo.

Se queremos distinguir afirmações de moral umas das outras, e aceitamos que há coisas mais morais que outras, é porque alguma coisa temos em vista, existe um objectivo algures para a especulação moral. É porque tivemos de fazer uma escolha algures.

Ele propõe definir esse objectivo, como já disse, com o “bem estar”, e que essa seja a escolha já subjacente a toda a racionalização sobre a moral que nós já fazemos neste momento, e até de um modo relativamente consensual – pois se temos consensos acerca de moral em algumas coisas é porque é plausível que procuremos a mesma coisa.

E consensos acerca da importância do bem estar e do que isso significa para nós, parece que também não será difícil. Mesmo indo para outras espécies animais, parece que valorizamos basicamente as mesmas coisas (referencias na própria obra). E se isso – o consenso - é o suficiente para dizer que há conhecimento na ciência acerca de algo, porque não há de ser na moral? E se temos conhecimento do que procuramos, se temos um fim a atingir porque não podemos saber cientificamente qual a melhor maneira de o obter? Porque havemos de recusar ter vidas melhores, de um modo geral, se soubermos com o podemos fazer?

Na minha opinião não há razão para evitar a abordagem cientifica à moral, por princípio. Na realidade tenho argumentado nesse sentido desde há algum aqui neste blog. Mesmo os problemas que o Sam Harris sugere já tinha abordado alguns. As soluções são as mesmas. É por isso difícil para mim fazer uma boa critica a este livro. Ele tem a mesma opinião que eu e que eu já tinha antes de ler o livro. Não vejo talvez por isso muitos problemas, para além de que me deixou um pouco insatisfeito porque esperava que conseguisse desenvolver mais o tema.


A única objecção racional possivel (mas idiota) para esta abordagem é a apologia da maldade e dizer que é correcto escolher o mal estar para qualquer um. É dizermos que não querermos que haja uma distribuição justa do bem estar. Que não há justificação para a moral em si outra que querermos o melhor para todos e que podemos não querer o melhor para todos. Mas isso não só não é o que entendemos por moral, como leva a auto-destruição, e se pensassemos assim não estariamos preocupados com a moral. Acho que quem levantar esta objecção vai cair na posição do egoista e do psicopata e não conseguirá mostrar que é um sistema consistente e estável andarmos a dar facadas uns aos outros como contributo civico. Quanto aos que querem o bem estar só para si, isso pode funcionar até que sejam apanhados a darem cabo do bem estar dos outros. Na realidade estas pessoas podem ter repercursões muito mais sérias no bem estar das populações do que "apenas" nas pessoas directamente atingidas. Ja para não falar que uma vida, no caso de um psicopata assassino, será sempre mais valiosa que uns momentos de aceleração. Quero com isto dizer que o registo na distribuição do bem estar vai passar por valores mais baixos. Isso é suficente para explicar porque é que tal não é argumentavel num sistema que é feito a pensar em todos e não apenas em alguns especiais. E a moral é para todos. Senão estaremos a falar de outra coisa. Não me parece que venha a ser um problema chegar a consenso sobre isto.

Eu tenho defendido ocasionalmente que isto de escolher ser moral, de considarar moral como o bem, é uma escolha obrigatória no contexto de uma escolha mais básica que é querermos viver e escolhermos viver. Creio que uma sociedade que fique completamente maldosa colapsará nas suas próprias maquinações. Escolher a moral é escolher o caminho que leve a que qualquer pessoa em qualquer lugar tenha provavelmente o melhor que se pode esperar dos outros. E isso é o resultado de todos podermos ser essa pessoa. E de compreender que querermos todos viver o melhor possível e que na realidade nós somos também “o outro”.

Claro que pode haver indivíduos que procurem o bem estar sem se preocuparem com o que fazem aos outros para conseguir isso, desde o simples egoísta ao psicopata. Mas a moral não é a procura do bem estar individual de um individuo especial em detrimento de todos. Isso será o inverso da moral com origem em escolhas iniciais e princípios igualmente antagónicos: não distribuir o bem estar... E que daria, plausivelmente ao colapso da sociedade e não à sobrevivência nas melhores condições possíveis.

Porque queremos viver o melhor possível? Porque queremos viver de todo? Bem, essa é a questão. Não temos resposta absoluta. Resta saber se teremos também escolha. Não parecemos ter. Somos filhos de gerações e gerações de seres que escolheram (durante pelo menos uma grande parte do seu tempo) viver. O Sam Harris também aborda esta questão e também chega a esta falta de conclusões. E não tendo resposta absoluta, temos uma relativa a nós.

Mas o que é importante, é que parece que criamos a moral com este objectivo e que quer tenhamos escolha ou não, não parece haver duvidas que queremos bem estar. E que essa escolha, errada ou não, é para já aquilo que fazemos quando procuramos respostas morais. E que sendo assim, saibendo o que pretendemos atingir, estejamos completamente dentro do foro da ciência. A moral, se é a distribuição do bem é algo que pode ser abordado cientificamente. Mesmo com todas as dúvidas que ainda levanta.


Diria eu que é tal e qual como a medicina. A escolha de querermos ser saudáveis está certa ou errada? Tal como a moral, parte do principio que viver é certo, e que essa questão não impede que abordemos a saúde de modo científico, ainda que seja em si uma área cheia de incógnitas.

A escolha de querer bem estar, de querer viver, será sempre subjectiva. Será sempre relativa a sujeitos. Sem sujeitos não há fim em vista para a moral. É uma construção social e mental para que possa haver mais bem estar. Mas é uma que podemos estudar cientificamente em função desses sujeitos que somos nós. E é a escolha que por tudo o que sabemos TEMOS de fazer. Quer haja um deus ou não. De outro modo colapsamos.

O universo não deve estar ralado com a moral e com o bem estar. Mas nós estamos. É esse o sentido da moral. Pelo menos para nós é, mas somos nós que a fazemos, a moral é para nós. Não é para as pedras, para as estrelas e para o Sol. E se for aplicavel a estas coisas é sempre em relação a nós e ao que significa para nós. Por isso as coisas encaixam consistentemente... Que mais justificação pode haver? Que mais justificação que esta é sensato pedir?

Não sei. Mas mesmo que haja algo por responder, como em tudo, parece que temos o suficiente para fazer medições, projecções, modelos, testes, etc, Essas coisas da ciência.

AVISO IMPORTANTE: O livro contém, na discussão sobre psicopatas, o relato pessoal do que uma destas bestas fazia ao próprio filho. Esse relato é extremamente violento e aconselho a não ler a quem puder passar por cima. Não perde nada.

PS:

O autor tem uma secção onde discute o direito a acreditar. Não considerei a abordagem convincente mas levanta questões importantes que ainda não consegui processar. Não a achei de qualquer modo de relevo para esta reflexão sobre a obra.

sábado, 16 de julho de 2011

Pensamento, apresento-te o teu pensamento.

Muitos dos nossos pensamentos e muitas das nossas decisões, passam debaixo do radar da nossa consciência sem que tenhamos uma visão completa deles próprios. As respostas intuitivas emergem no nosso fluxo de consciencia e temos a tentação de as agarrar como verdades sem duvidar, apenas porque são nossas.

Pensamento crítico não é simplesmente criticar isto ou aquilo,

Pensamento crítico é antes de mais tornar o processo de pensamento acerca de algo um processo consciente. É um processo metacognitivo – é pensar sobre o pensamento. Conscientemente fazer as perguntas certas em cada passo do processo do raciocínio, dissecando um argumento nas suas pequenas partes.

Tornar o processo consciente é a maneira de conseguir uma abordagem sistemática e metódica de qualquer argumento.

Ao fim e ao cabo é por isso que temos consciencia (ver António Damásio, O Livro da Consciencia). Porque nos permite tomar melhores decisões. E é tirar o máximo partido do processo consciente do raciocínio que se pretende numa abordagem critica. Embora com mais esforço, é verdade, do que se aceitarmos a primeira coisa que nos vem à cabeça. Usar técnicas de pensamento crítico requer maior esforço do que não usar e naturalmente leva mais tempo. Mas chega a melhores conclusões. De facto implica perder tempo, entre outras coisas, a pesquisar mais informação.

Outra das competências que se espera treinar no pensamento critico é a capacidade de gerar mais hipóteses. Fazer um “brainstorm” como se diz em Inglês, e só depois de uma lista de alternativas possíveis elaborada, é que se passa para a avaliação sistemática de cada uma. Por isso alguns autores falam em pensamento critico-criativo.

No estudo do pensamento crítico procuramos adquirir as técnicas e ferramentas que nos permitam chegar às melhores conclusões possiveis, qualquer que seja a área que abordemos. E a aprendizagem prática do pensamento crítico, fazendo exercícios, é tão importante como o conhecimento simplesmente teórico destas ferramentas de raciocínio. É preciso criar hábitos de pensamento critico. Como na matemática ou no desporto é preciso praticar para se saber efetivamente usar essas técnicas.

Tal como em muitas outras coisas, sugere-se que a própria aprendizagem do pensamento crítico seja sistemática. Isto é, após aprender cada conceito novo devemos praticar a sua aplicação antes de passar para o seguinte. Embora talvez se possa aprender algum pensamento crítico enquanto se aprendem outras coisas, como história, matemática, lógica, etc, é provável que a aprendizagem directa e a prática especifica seja a maneira mais eficaz, já que nos dirigimos às questões diretamente e podemos pensar sobre elas. Tornamos a aprendizagem consciente, e ficamos conscientes da universalidade das técnicas de pensamento crítico.

Em conclusão, o pensamento critico é um processo consciente, sistemático e metódico que é aplicável a todo o pensamento e que visa chegar a melhores conclusões através da análise do próprio raciocínio.

Leitura adicional sugerida e bibliografia:

1 – Fisher, “Critical Thinking, an Introduction”. (Este livro é um verdadeiro achado, tem os fundamentais, imensos exercícios e é baratíssimo na amazon).

2 –Manual do Pensamento Crítico do Prof. Ludwig Krippahl da U.N.L – no site da disciplina (inclui aulas gravadas, aconselho especialmente a aula de pensamento científico), aqui: http://ssdi.di.fct.unl.pt/pc/teoricas.html