quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ciência e filosofia.

O que separa a ciência da filosofia é que a ciência é limitada pela realidade.  Tudo o que diz tem de ser de algum modo testado nessa realidade. Modelos têm de corresponder a medições.

Isto é uma garantia sobre o grau de confiança que se pode por numa afirmação cientifica. A não ser que tudo seja uma miragem. Mas sobre isto vemos mais à frente.

Ambas são raciocínio sério e especulativo sobre o que é ou pode ser. Mas as conclusões da ciência não se ficam só por aí. Têm de ser provadas. Se falam sobre a realidade então têm de ser provadas na arena da realidade.

A filosofia ainda se preocupa com o que deve ser, mas aí vai haver sempre uma escolha algures, o que torna dificil dizer qual a melhor resposta. Iden aspas para questões em que haja demasiadas variaveis a ter em conta.

O que está escrito acima não deve ser intrepertado como querendo dizer  que a filosofia não tem de provar ou demonstrar o que diz. Apenas que não tem a preocupação de o fazer para além do plano racional, do pensamento. Isso é importante, sobretudo para coisas que sejam dificeis de testar ou impossíveis, quer por falta de tempo, e com os engarrafamentos de hoje em dia isso é um problema pertinente, quer por ser impossível. Mas só por pensamento os erros são difíceis de encontrar. De facto a filosofia é mais famosa pelas perguntas que pelas respostas.

Na prática, a ciência e a  filosofia são separadas pela certeza com que algo sobre a realidade pode ser afirmado como verdadeiro. Não que a ciência produza afirmações sobre tudo mas porque sobre tudo o que produz afirmações requer um grau de rigor elevado. Porque ciência exige que as afirmações sobre a realidade sejam sustentadas por essa mesma realidade, do modo mais directo possível e além disso estuda o melhor método de o fazer.  A ciência exige ainda que a sua biblioteca não se refute mutuamente. Tem de ser consistente. Só deixando hipoteses em aberto é que se pode admitir que elas se refutem mutuamente. Mas a ciência procura fazer afirmações que se possam testar, ainda que esteja condenada a ter de ultrapassar esse obstaculo mais tarde ou mais cedo. Mas para já tem sido assim.

Isto não quer dizer, que tal como a filosofia, a ciência não se debruce sobre o como as coisas podem ser. A Teoria-M diz aliás que neste momento a ciência não tem outra alternativa. A Teoria-M obriga mesmo a explorar a realidade num contexto em que é preciso contabilizar também como as coisas poderiam ser de outro modo. Já que as probabilidades à escala quantica interferem umas com as outras e o nosso universo é apenas um de vários possiveis.

Mas voltando atrás, esta compulsão com a verificação empírica, é como disse, em termos funcionais o que difere mais fortemente entre as duas formas de conhecimento. Em filosofia, um raciocínio é aceite desde que seja racional desde uma ponta até à outra. Só que o raciocínio não pode sustentar o raciocínio e perante a constatação das limitações cognitivas humanas, o cientista vai procurar refugiar-se na pesquisa experimental.

A evolução da maneira de extrair dados da realidade para desenvolver hipóteses e testar afirmações, evoluiu tanto em tantas áreas nos últimos anos, que só consegue desenvolver o melhor método numa determinada área quem seja um especialista. A epistemologia cientifica, no momento actual, procura uma maneira de fazer observações que sejam evidencia da existência de um numero infinito de universos paralelos, com os quais não temos qualquer ligação. Apenas sabemos da existência deles por propriedades do nosso.

Se me disserem que no fundo de tudo alguns dos príncipios epistemológicos básicos ainda são os mesmos, eu aceito. Sem problemas. Se me disserem que nasceram na filosofia, idem. É um facto. Toda ou quase toda a ciência começou por ser um dia filosofia.

Aristoteles formulou aquilo que é conhecido como "a lâmina de Occam", Laplace formulou a famosa frase "afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias" e desde os tempos mais antigos do pensamento que aceitamos que mesmo que não saibamos tudo, há respostas que podemos considerar melhor que as outras. Toda a matemática, se baseia nisso. Na realidade, bastou a percepção que sem critério de verdade não se pode saber nada, mas se houver a aceitação que há afirmações que estão mais em concordancia com evidencias que outras, então temos um critério de verdade.

Os princípios referifos anteriormente são filosofia ou ciência? Eu acho que já foram filosofia, mas com os resultados em consonância com as previsões, passaram a ser ciência. Por como tenho insistido, é só isso que as distingue. A hipótese de construir conhecimento sobre a realidade a partir da sistematização e integração da informação que conseguíssemos extrair dela, deu  os frutos que deviam dar se esta fosse uma boa hipótese. E só não podemos admitir que temos mais respostas para mais perguntas hoje que há séculos actráz se negarmos que existe um critério de verdade ou seja se negarmos que não há respostas em que podemos ter mais confiança do que outras. Mas isso vai demolir ambos os sistemas, não só o cientifico.

O que prova a ciência não é a filosofia. É a própria ciência, ou melhor, o teste cientifico. Porque temos de admitir que gerar hipóteses e pensar na maneira de as testar é trabalho do cientista, se bem que seja algo que é practicamente indistinguivel em filosofia. Temos de admitir que quaisquer pressupostos em que acente a ciência, tais como que a realidade existe ou que a realidade é inteligivel, tem tanto de filosofico como de ciêntifico. Estes pressupostos estão muito mais próximos de ser caracteristicos da ciencia do que filosofia. Mais uma vez a questão  está... Na próximidade assumida com o mundo empirico.

Se me disserem que isso é um ciclo vicioso na mesma, eu respondo que por aí - com essa critica - não vamos a lado nenhum, que o pensamento humano se suportará sempre no pensamento humano, até que um de nós se transforme num sapo. E mesmo nessa altura não estou a ver que grande coisa isso possa dar. A verdade é que não há saída do balde, (na famosa alegoria do cérebro a boiar num balde, em que tudo o que experiênciamos nos é "injectado" por uma entidade super potente). Nem filosofia, nem ciência têm resposta absoluta para o solipsismo. Ambas têm respostas parciais. Mas isso é outra história.

Isto quer dizer que a filosofia morreu, como diz Stephen Hawking no seu ultimo livro? Ou como dizia Feyman, que a filosofia precisa tanto da ciência como os pássaros da ornitologia? Eu penso que não. Sinceramente. Nem que todas as respostas que temos vieram da ciência, como dizia Russel. Isso é porque Russel só admite como resposta algo que tenha o rigor da ciência. Se quer rigor cientifico tem de se socorrer da ciência. Mas ainda não sabemos repostas para tudo com rigor cientifico, e é preciso tomar decisões em tempo real e precisamos de fazer escolhas. Como conhecimento, essas respostas serão mais fracas,  mas poderão ser consideradas respostas na mesma, desde que sejam consistentes com tudo o resto que sabemos ser verdade. Não existe melhor caminho para avaliar isso que recorrer a ferramentas filosóficas. Que no fundo são também cientificas, provadas pela experiência sistemática e cepticismo coerente.

Há realmente toda uma extensa área de terreno misto entre a ciência e a filosofia. Pricipios básicos como os que referi anteriormente são actualmente exemplo disso. O pensamento crítico é uma parte substancial do pensamento cientifico e no entanto foi possível lá chegar apenas "pensando", ainda que seja de facto construído sobre questões empíricas, sistematicamente testáveis. E que, muito imporante, se pode demonstrar na pratica. Tal como a matemática. Só no dia em que 2 maças mais uma sejam 3 é que a coisa treme.

Na prática a filosofia permite construir raciocínios longos, encaminhados logicamente. Mas basta haver uma hipótese negligenciada, uma pequenina falha lógica num pequeno passo para um erro ser amplificado várias vezes nos seguintes. Como naquelas contas no ensino secundário em que um erro numa virgula a meio do exercício e depois o resultado já dava completamente diferente e andavos às turras para ver o que deu torto. Mas na filosofia não há um sistema de regras formal no qual possamos confirmar o resultado, ou sequer uma tabela de conclusões para verificar a nossa. Na prática, a filosofia está cheia de enganos geniais. De coisas que fazem tanto sentido que só por azar não são reais. Mas quando o que conta é a veracidade de uma afirmação, temos de ter mais ferramentas. E a melhor maneira de ter uma tabela com repostas é tentar ir busca-la à natureza.


O que o cientista faz na maioria das vezes não é diferente do que faz o filosofo. Enquanto anda ali às voltas a tentar criar uma hipotese a partir dos dados, uma que preveja dados futuros, está a fazer algo muito parecido com filosofar. Talvez seja um pouco mais livre nesta atividade (os filosofos dirão trapalhão?) porque sabe que pode sempre experimentar para saber se a hipotese era boa, em vez de ter de a repensar uma data de vezes à procura de falhas lógicas. Lamentavelmente, eu sei que na faculdade não ensinam aos futuros cientistas a pensar, pelo menos na maioria dos cursos, e por isso o trabalho da ciencia ainda é compensado com força bruta, ou seja, colocando muitas hipoteses para testar, e pelo génio ocasional. Mas em suma, ambos têm actividades parecidas,  excepto quando o cientista mete as mãos ao trabalho e vai tentar testar a teoria. Às vezes nem é preciso tanto. Para Einstein nunca foi preciso ir para o laboratório, bastou-lhe esperar um eclipse para poder fazer a primeira de muitas provas para a relatividade. Hoje qualquer GPS é uma prova em tempo real da teoria da relatividade.

A própria lógica e a matemática têm as suas conclusões baseadas na experiência empírica daquilo que é tido como facto. Teoremas matemáticos que demoram tempo a demonstrar que afinal continuam a ser apenas conjecturas não falta aí.

O cérebro humano falha. As ferramentas não são perfeitas. E mesmo depois de tudo confirmado, filósofos da ciência continuam a encontrar comportamentos arbitrários entre os cientistas. E teorias cientificas manhosas. Mas mesmo os filósofos da ciência parece que trabalham como cientistas. Formulam hipóteses e depois vão ver se encaixam no que sabem sobre a ciência. Apenas ainda não funcionam com a sofisticação com que a ciência já funciona, isto é, testando previsões. Ainda estão a tentar explicar apenas o que se conhece.

Mas a ciência não é um sujeito fácil, mesmo para ela própria. Na essência um cientista procura a melhor resposta possível e cada caso é avaliado pontualmente, comparado com as respostas alternativas e todo o processo é realmente um pouco ad-hoc, excepto na concordância que os cientistas têm de que uma teoria tem de ser justificada experimentalmente. No fim do dia o que conta é se explica tudo o que se sabe ou não e se pode ser testada em relação às afirmações novas que produz para a qual ainda não sabemos a resposta. Naturalmente que se entra em conflito com teorias existentes não está a cumprir estes requesitos. Em ciência, desde que se possa justificar que uma afirmação é melhor que outra para explicar os dados empíricos conhecidos, todos (com alguns só precisa de ser coerente claro) ela é aceite. A consistencia também é uma exigencia, mas é algo que emerge destes príncipios.

Não é demais repetir isto: A ciência é efectivamente a procura da melhor explicação possível. Tenha sido sonhada na noite anterior, descoberta acidentalmente na observação do monte de estrume do quintal ou conseguida após 10 anos de tentativa e erro com geometria de espaço curvo. E tudo o que é previsão um dia, vão ser dados passados no dia seguinte. É preciso é que a teoria os explique.

É este o grau de certeza que a ciência exige. Podemos ter mais respostas, podemos até ter respostas que estão certas mas que não estão provadas. O problema é que com a história desastrosa que temos de fazer afirmações racionais que depois se provam erradas como é que sabemos que a resposta está certa? Como é que sabemos que lhe podemos dar determinado grau de confiança? O cientista diz que é comparando a afirmação com a realidade, vendo se o mapa corresponde ao território.

Por exemplo, eu posso dizer que é tudo milagre. É uma resposta consistente e completa. E depois, por exemplo questionar porque é que os corpos caiem? E respoder outra vez milagre. Mas se eu responder que é porque há uma curvatura do espaço-tempo e que por causa disso esta é a observação esperada do que acontece a um corpo em repouso nesse espaço-tempo até que sofra uma aceleração em sentido oposto por causa do chão, não é uma explicação muito melhor? É. Sério que é!  Porque? Porque é especifica para a questão em causa e porque explica mais coisas comparando com a reposta do milagre. Por exemplo porque é que o dito milagre é sempre o mesmo, mecanimente. Com que força actua, etc. E este critério de ser melhor, como o descobrimos? Porque com outros critérios não consiguimos evoluir tanto. Então porque é que é melhor saber mais do que menos? Bem, aqui não sei responder. Mas estou a tentar escrever para os que concordam que saber responder a mais perguntas é melhor enquanto conhecimento.


Os filósofos poderão ficar incomodados com este texto. Não porque eu seja alguém no mundo intelectual, mas porque pessoas que se sentem atraídas pela verdade como alguns filósofos que eu conheci não conseguem deixar passar sem mais nem menos o que eles consideram que é um disparate. Mas antes disso eu quero que pensem no que eu estou a dizer. Que é simplesmente que a ciência é a melhor explicação que há da realidade. E que a filosofia e a ciência partilham muita coisa, tal qual mãe e filha. Mas o que é usado em ciência não faz sentido dizer que é filosofia ou apenas filosofia. E o que é apenas filosofia, se é uma afirmação sobre a realidade, está em desvantagem.

Talvez um dia, quando já se saiba tudo, todas as previsões teoricas possam ser feitas sem precisar de ser confirmadas, mas até lá, a ciência bate tudo

Se não é assim, venham lá as criticas.

Nota: Eu sei que a ciência não explica tudo. Mas nada explica tudo. Nem dizer que a respota é 42. Ou que é milagre, ja que é só passar de um mistério para outro ainda maior. Em vez de ser para um menor.
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