sábado, 17 de julho de 2010

Cientísmo - uma apologia

Pessoas como eu são acusadas frequentemente de cientismo. 

Se considerarmos cientismo a propriedade de alguém considerar a ciência a maior obra da humanidade no que respeita a compreender o universo (incluindo-nos  a nós próprios), eu não vejo razões para negar esse titulo. O problema é que serve para mais coisas.  Mas adiante.

Enquanto que a ciencia é materialista ("é milagre!" não é uma explicação)  e é a melhor forma para adquirir conhecimento e a unica que consegue produzir previsões sobre o comportamento da realidade, existe um numero de coisas que a ciencia ainda não consegue explicar. 

E que provavelmente nunca vai conseguir explicar. De facto isso até esta provado matematicamente graças ao Kurt G.

Mas nenhuma outra forma de conhecimento se aproxima sequer da ciencia. O tipo de afirmações justificadas, consistentes num sistema abrangente, capaz de fazer previsões e de abrir novos campos de estudo que formam a ciencia, são inigualaveis no seu poder explicativo em todo o conhecimento humano.

As duvidas da ciencia são acima de certezas de outras formas de conhecimento, sobretudo as advinhatorias como as medicinas alternativas e a teologia. Porque estas nem sequer conseguem justificar para alem da crença as suas afirmações sobre a realidade.

E se há uma forma de conhecimento que tenta não se fechar em si propria e manter-se aberta é a ciencia. Não so pelo gancho que mantem na realidade, mas pela incormporação da matematica, da filosofia e da tecnica que transformou em tecnologia. 

Nenhum outro sistema de conhecimento é tão aberto e simulataneamente consistente (a filosofia é aparentemente mais aberto, mas com perda de consistencia e realmente fechado a qualquer criterio de consistencia - eles dizem que o importante são as perguntas...)

A ciencia é tão boa comparado com o resto que pode parecer quase perfeita e no entanto é apenas o melhor que temos. E quando a ciencia inclui explicações que dispensam vontade propria para o universo é um disparate postular essa vontade propria para o universo e dar-lhe um nome. 

Temos de tomar decisões no dia a dia quase sempre sem fundamento cientifico. Nos tribunais são elaboradas sentenças com base em testemunhos oculares. A moral envolve escolhas que podem ser corretas num país e tabus noutra cultura. Nada disto quer dizer que estas tomadas de decisão não têm por principio, o mesmo rigor que a ciência. Apenas que a ciência esta dependente de informação muitas vezes impossível de colher, de processos que ainda não conhecemos e que talvez haja coisas que são escolhas puras - ou seja, que são neutras do ponto de vista da ciência


Afinal o sacrificio humano praticado anos a fio por outras culturas, pode hoje ser considerado com pouca margem de erro uma asneira. Por outro lado se eu comer gelado de chocolate ou de morango, e a escolha em questão for apenas essa, isso não parece ser um problema de moral. Com bastante certeza. Ja que não deve ter efeitos perceptiveis no bem estar de ninguém.

Mas nós não escolhemos tudo acerca da realidade. Se eu não posso prever com rigor que cor a Maria vai querer pintar a casa, ainda posso ter uma ideia muito boa se a conhecer e conhecer que cor as pessoas que partilham escolhas com a Maria pintam as casas. Mas essa escolha da Maria, pode muito bem ser mais escolha, seja isso o que for, que algo que seja causa e por sua vez cause efeitos neste mundo. Porque se o fizer de forma inequivoca, se causar efeitos mediveis em si e nos outros, ainda que probabilistica, pode muito bem até tornar-se objecto cientifico. E... Se calhar até já é...

O que não faz sentido, é considerar que se a ciencia não pode determinar como devem ser coisas em afirmações abertas das quais não conhecemos todas as ponderaveis ou processos, que o modo como nos tomamos essas decisões (vulgarmente apelando para uma referencia cultural qualquer que cada grupo diz que a sua é que é a absoluta), então considerar que a ciencia é a melhor forma de conhecimento que é mau. 

Porque apesar de ser possível sempre tomar uma decisão, não quer dizer que essa decisão esteja correcta. E se não é possível aplicar o rigor cientifico a algo é porque coisas que não se sabem  ou podem nunca vir a saber-se.  E o que não se sabe, não se sabe, não é para fingir que se sabe. Ou então resta provar que existe outro modo de as saber realmente. E tal nunca foi feito. As unicas respostas que temos foi a ciencia que trouxe. O resto são palpites. 

Para mal dos cientófobos, se alguma resposta vier, de outra area qualquer, que se mostre justificável, com poder preditivo, consistente num sistema, etc... A ciÊncia vai assimila-la. Como fez no passado. E vai evoluir e continuar a estar na crista da onda. Porque é apenas esse o seu objectivo. É ter respostas. Mas não palpites. Respostas justificáveis. Para alguns, apenas as respostas com rigor cientifico são respostas. As outras são opiniões. 

O objectivo da ciencia não é provar que não existem deuses ou fadas ou que a homeopatia não funciona. Não ha uma lista de coisas que não podem acontecer ou existir. Ou de efeitos que temos de fingir que não se vêm. É tentar saber como as coisas são. E como vão ser. O problema é que o conhecimento cientifico diz precisamente que acreditar nestas coisas requer afirmações sobre a realidade que são implausiveis ou cientificamente refutadas.

Por natureza o homem (e a mulher) atribuiem intencionalidade aos fenómenos até os compreenderem. Sabemos isto pela história humana. E sabemos pela ciência que só encontramos na natureza biológica agentes com intencionalidade. E mesmo assim muito poucos.

quem queira postular ad-hoc efeitos destes seres com intencionalidade. Ou até de os postular mesmo dizendo que eles não causam efeitos!

Naturalmente que têm de acusar pessoas como eu de qualquer coisa. Cientismo? Desde que não pensem que isso quer dizer que acho que a ciência é um deus ou algo que atingiu o ponto final do seu desenvolvimento. A ciência é como a democracia. É cheia de problemas, mas não há melhor. Como sabemos isso? É um facto histórico. Mas antes de mais, um facto. Que é a unidade básica do processo cientifico.

Por fim, dizem que a ciencia não pode justificar a ciencia. Que é auto-refutante. Mas o erro esta em que a ciencia tenta ter uma acora na realidade. E é isso que lhe permite ser tão aberta em tudo o resto. Enquanto a teologia se fundamente na teologia, e a filosofia na filosofia, a ciencia tenta ser a parte da filosofia que se comprova adequar-se à realidade. Mantendo assim uma entrada de informação vinda do exterior e evitar ao máximo a auto-referencia. Claro que vai ser sempre conhecimento humano e disso não passara. Mas nada mais se adequa tanto à realidade.

Se se adequar, é ciencia. 


Nota: Uso o termo afirmação aberta para afirmações que não concretizam um objectivo proposto, por exemplo: "É melhor ser-se magro" ou " comer açucar é bom". Fica a questão. É bom para quê? Porquê? Isso fica em aberto. Não é uma questão cientifica. Se por outro lado for "comer açucar é bom para emagrecer". Bem isso já é uma afirmação testável e cientifica. A questão é que o primeiro exemplo parece ser algo que é um problema por algo mais que ser cientifico ou não. Parece que enquanto bom não tiver um fim definido em si próprio, o que tornaria a afirmação fechada, não há muito que se possa dizer acerca dela. Em ciencia ou não.
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