A austeridade é a politica económica que diz que devem ser os pobres a pagar a incapacidade dos ricos de aplicar efectivamente a sua riqueza (nem investir nem emprestar querem, muito menos pagar impostos) para que haja crescimento.
Em vez de ir buscar o dinheiro onde ele está, a ideia da austeridade é tão burra como ir tentar buscar dinheiro a quem menos tem. E para dar a quem? A quem menos tem também? Para isso começavam por não o ir lá buscar.
Normalmente com o argumento que as empresas e os ricos criam postos de trabalho, e como se o verdadeiro objectivo das empresas não fosse apenas ter lucro, em vez de taxar o capital proveniente desse lucro, procura-se taxar o trabalho. É uma assimetria enorme nos esforços pedidos.
E uma data de gente sem capital, na esperança eventual de um dia ficar cheio de capital, talvez porque acredite que se vive numa meritocracia ( e cada um de nós tem tendencia para achar que é melhor que os outros), ou que vá ganhar a lotaria, defende que de facto os ricos merecem todo o dinheiro que têm. Ou talvez acreditem que todos podem abrir empresas e ficar com os lucros das suas próprias empresas como se houvessem recursos infinitos e espaços para infinitas empresas. Ou então ainda se calhar é para se armarem em fortes, tal qual o miudo que se espalha no chão e se levanta todo direitinho, a tentar não coxear e a dizer que não doeu nada.
Defendem portanto que 0,001% das pessoas merecem ter practicamente 20% da riqueza. E por aí fora a desporporção continua. 6 biliões de pessoas, ou seja 99,9% partilham apenas 19% da riqueza que sobra. Que moral é esta? Que discrepancia de mérito pode justificar isto?
Nesta sociedade todos parecem fazer falta para que tudo funcione. Se não igualmente, pelo menos nada que justifique uma diferença tão grande. Apenas há uns que se puseram na posição de fazer as regras e garantem que as regras dizem que os outros não valem grande coisa. Uns acumulam capital enquanto outros acumulam dividas a quem tem capital. E faz as regras. É que ter riqueza dá poder e poder dá riqueza.
Lutar por riqueza, recursos e ideias é em grande parte uma lotaria. Mandar o povo tornar-se empreendedor é como dizer: "amanhem-se!" mesmo sabendo que não dá nem para 1/3 destes.
Parece-me mesmo, tal como a austeridade é imposta, que estamos a pedir o maior esforço a quem mais as coisas custam. Com impacto na qualidade de vida, na saude, na própria e nos seus filhos e provavelmente por muitas gerações. Por isso não me falem em espantalhos de premiar quem mais merece. Nada justifica estas desigualdades e esta má distribuição dos esforços. Afinal o esforço devia ser premiado.
A solução, na minha maneira de ver, é substituir a austeridade por um estimulo economico com origem na redistribuição da riqueza. É preciso ir buscar o dinheiro onde ele está. Não onde ele não está.
Os seres humanos são notávelmente semelhantes entre si. De facto parece que descendemos todos de uma população ancestral de cerca de 10.000 individuos. Qualquer argumento que procure racionalizar a discrepancia de riqueza de um modo tão implacavel está condenada a falhar na justiça, na moralidade e na biologia. E não resta muito mais. Há!... resta na estabilidade mundial. Sim, está a falhar também. A crise é mundial - deixar alguns acumular riqueza sem limites e reger a seu belo prazer deu nisto - e agora é a teoria de que espremer os pobres que resolve o problema. E as desigualdades e o desemprego são causas de guerras. Já chega não?
Dizem também que são ciclos. Suavizem esses ciclos com melhor distribuição dos esforços e da riqueza, num estado mais social e menos selvagem.
Não é preciso acabar com os ricos. Eles podem andar aí na sua vida de ricos que a mim tanto me faz. Mas não podem ser tão ricos. Têm de ajudar a acabar com a pobreza, a miséria e outras coisas que não têm nada de existir. É que num mundo de recursos limitados o que se acrescenta num lado tem de vir de outro. Só se houvesse recursos livres e ilimitados é que fazia sentido dizer que cada um tem o que se esforça por ter. Assim, o que uns têm é tirado a outros. E se razão pode haver para alguma, moderada e simbolica desigualdade, nada justifica a actual.
Exemplos empiricos: Eu sugiro o modelo nórdico para começar. E nunca, mas nunca por a democracia em causa.
Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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segunda-feira, 15 de abril de 2013
quinta-feira, 4 de abril de 2013
A falácia do empreendedorismo
O empreendedorismo parece ser, segundo uma direita actual sem soluções melhores, a panaceia universal para os problemas da crise.
Não só a apresentam como solução para o futuro, como a apresentam como explicação para o facto de alguns passarem dificuldades - é porque não são empreendedores. Se fossem, insinuam, agora estavam a viver à grande.
Isto é uma falácia.
Não só a apresentam como solução para o futuro, como a apresentam como explicação para o facto de alguns passarem dificuldades - é porque não são empreendedores. Se fossem, insinuam, agora estavam a viver à grande.
Isto é uma falácia.
Porque isso pressupõe que as novas empresas são todas, ou em larga maioria, bem sucedidas. E que qualquer um pode fazer a empresa que quer. Isto não é assim. Não há recursos ilimitados à mão para cada um pegar e começar a usar... Em nada. Nem humanos, nem materiais. Tudo já tem um dono algures ou pelo menos alguém que se porta como tal, em termos económicos. A não se que se nasça dono, o caminho para ultrapassar este problema é o endividamento. Quanto maior o projecto, maior a divida inicial.
Ideias novas e garantidas também são raras. Ou inexistentes, já que à partida não parece ser possível sequer prever que "start ups" vão ser bem sucedidas no longo prazo.
E depois vem o resto da questão:
A maioria das empresas que começam de novo, da mão dos tais empreendedores, falham. Pelo menos nos Estados Unidos, onde é sempre mais fácil conhecer a estatistica. Cá, tenho poucas razões para acreditar que será melhor. Portanto empreender não é uma solução para a maioria, mas sim apenas para muito, muito poucos. É como dizer: "Estão mal? Não faz mal, alguns de vocês vão conseguir esgatanhar-se e criar algo e é isso que importa. Depois os que ja têm uma data de massa podem comprar esse negócio e ficamos todos contentes. Os outros azar, olha, é a vida..."
Mas é precisamente soluções que não sejam apenas para um ou outro que procuramos. Se não mais vale dizer abertamente que o que importa é que alguns se safam e os outros que se danem - pelo menos podemos perceber onde se quer chegar.
Mas é precisamente soluções que não sejam apenas para um ou outro que procuramos. Se não mais vale dizer abertamente que o que importa é que alguns se safam e os outros que se danem - pelo menos podemos perceber onde se quer chegar.
Como disse, e como era de esperar com taxas de sucesso tão baixas, não há uma formula conhecida, para o sucesso. De facto, a sorte conta imenso. A inteligencia também, é verdade. Mas que sentido há em dizer: "Vocês são pobres porque são burros. Sejam mais espertos e já podem ter mais hipoteses. E depois olha, mesmo assim espero que tenham muita sorte, já que vão precisar.". Duh! Parece-me claro que isto também não é solução.
E por isso eu considero o apelo ao empreededorismo como exlicação para a pobreza ou como solução futura, uma falácia do ponto de vista politico. Porque é uma solução que vai ser viável apenas para poucos. Vai deixar, caso todos vão na conversa, uma maioria de gente endividada.
Tem de haver outra solução que contar com o empreendedorismo individual. A não ser que aceitemos que o nosso objectivo não é combater a desigualdade e a pobreza. Mas isso é um disparate que ninguem quer assumir. Não é?
PS: Estou a falar do empreendedorismo tal como ele parece ser considerado actualmente e tal como é colocado em cima dos ombros dos individuos. Não como poderemos fazer evoluir o conceito. Deve haver alguma solução para esta falácia.
Bibliografia recomendada: Daniel Kahneman, "Thinking, fast and slow"
PS: Estou a falar do empreendedorismo tal como ele parece ser considerado actualmente e tal como é colocado em cima dos ombros dos individuos. Não como poderemos fazer evoluir o conceito. Deve haver alguma solução para esta falácia.
Bibliografia recomendada: Daniel Kahneman, "Thinking, fast and slow"
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sexta-feira, 29 de março de 2013
Sobre a Inteligência
“A inteligência é a coisa mais bem repartida nos homens, porque qualquer um considera que dela é dotado o suficiente, pois é com ela que faz esse julgamento.” - René Descartes, “Discurso do Método”, 1637.
“1 -A Inteligência é uma capacidade mental muito geral, que entre outras coisas envolve a capacidade de raciocinar, pensar abstractamente, planear, resolver problemas, aprender depressa e aprender a partir da experiencia. (...)
2 - A Inteligência, assim defenida pode ser medida e testes de inteligência fazem-no bem. Estão entre os testes mais precisos de toda a psicologia (em termos tecnicos, de validade e reliabilidade). (...)
3 - Enquanto é verdade que existem diferentes tipos de testes de inteligencia, eles medem todos a mesma inteligência. Alguns usam palavras ou numeros e requerem conhecimento cultural especifico (como vocabulário). Outros não e usam figuras e formas abstractas que requerem apenas conhecimento simples de conceitos universais (...)
4- A distribuição das pessoas ao longo do continuum do QI, do mais baixo para o mais alto, pode ser bem representado por uma curva em forma de sino (em jargão estatistico, uma curva normal) (...)
9 - O QI está fortemente correlacionado, provavelmente mais fortemente que qualquer outro traço humano mensurável a muitos resultados educativos, economicos ou sociais (...) Há muitas excepções, mas as probabilidades de sucesso na nossa sociedade estão largamente do lado dos QIs mais altos”. - Linda S. Gottfreson, “Mainstream Science on Inteligence: An Editorial With 52 signatories, History, and Bibliography” , 1994
“Os individuos variam na sua abilidade de compreender ideias complexas, de se adaptar effectivamente ao meio ambiente, de aprender com a experiencia, de entrar nas varias formas de raciocionio, de ultrapassar obstaculos através de pensameneto. (...) Conceitos de Inteligencia são tentativas de clarificar e organizar este conjunto de fenómenos complexos. Apesar de considerável clareza ter sido conseguida em algumas areas, nenhuma conceptualização ainda respondeu a todas as questões importantes e nenhuma recebe aceitação universal.
(...) Por razões históricas, o termo QI é frequentemente usado em relação a resultados de testes de inteligencia. Originalmente referia-se a um “quociente de Inteligencia” que era formado dividindo a então chamada idade mental pela idade cronologica. Este procedimento já não é usado.
(...) É parcialmente porque os testes de inteligencia prevêm os anos de escolaridade tão bem que eles também prevêm o status occupacional e numa extensão menor até os rendimentos. Para mais, muitas ocupações podem apenas ser acedidas através de escolas que baseiam as suas admissões, pelo menos parcialmente em testes como GMAT, LSAT MCAT, etc. Resultados individuais como estes estão certamente correlacionados com resultados de testes de inteligência.” Ulric Neisser e outros, “Intelligence: Knowns and Unknowns”, 1996
“A inteligência, então, é a capacidade de alcançar objectivos em face de obstaculos por meio de decisões baseadas em regras racionais lógicas. Os cientistas da computação Allen Newell e Herbert Simon levaram esta ideia mais longe notando que a inteligência consiste em especificar um objectivo, avaliar a situação currente face a esse objectivo e aplicar um conjunto de operações que reduzam a diferença. Talvez seja recomfortante notar, que por esta definição, os seres humanos e não apenas aliens, são inteligentes. Nós temos desejos e nós presseguimos esses desejos através de crenças que, em geral, quando tudo corre bem, são pelo menos aproximadamente ou provavelmente verdade.” - Steven Pinker, “How the mind Works”,1997
“Matendo todas as outras coisas iguais, um mundo mais esperto é um mundo menos violento (...)
(...) A relação entre a inteligencia dos presidentes e guerra também pode ser quantificada. Entre 1946 e 2008, o QI de um presidente está negativamente correlacionado com o numero de mortos em batalhas envolvendo os Estados Unidos da América durante a sua presidencia, por um factor de -0,45. (...)
(...) Mas os cientistas que estudam as diferenças individuais são virtualmente unanimos que a inteligência pode ser medida, que é francamente estável ao longo de uma vida de um individuo e que prevê o sucesso académico e profissional em cada nivel da escala. (...)
(...) Estes subtestes (de QI) são considerados as mais puras medidas de inteligencia geral porque se correlacionam bem com a tendência das pessoas de obter melhores resultados numa grande bateria de testes diferentes. Essa tendência é chamada g, e a existencia de g é considerada a mais importante descoberta na ciência dos testes mentais. (...) ” Steven Pinker, “Better Angels of our Nature” 2011
Como em muitas outras coisas na ciência, há muito por saber acerca da inteligência, mas há muito que também já sabemos. Do que falta saber, uma area escandalosamente vazia, é a sua base biológica - mas existe um extraórdinario esforço nesse campo. Ou seja, o que significa a nível neuronal e fisiologico o g? É uma propriedade emergente do cerebro, tal qual um centro de massa cognitivo, ou é uma entidade discreta da qual medimos a potencia? É um efeito da alma?
Do que já sabemos melhor, como em muitas outras coisas, é das suas propriedades. Sabemos o que estamos a medir do ponto de vista comportamental e sabemos que o fazemos com rigor cientifico pois é capaz de fazer previsões significativas, sistematicamente.
Por isso a inteligencia é um conceito util, funciona, acerca do qual somos capazes de dizer muita coisa - existem consensos acerca de muitas das suas propriedades, e se bem que não haja consenso acerca de uma definição final formal, sabemos dizer o que esperamos dela e o como ela é em muitos aspectos. Um pouco como o que sabemos da própria ciencia. Ou sobre o que é a própria identidade em si.
No entanto, este tema parece estar a tornar-se tabu. Pessoas que até pensam como eu numa série de outras coisas neste preferem tratar a inteligencia como algo mistico, ou coisa parecida. E parece-me que é uma atitude de querer meter a cabeça na areia. Porque existem diferenças entre pessoas no que toca a QI e porque isso é determinante nas suas vidas. E como não é bonito, negamos que exista um efeito real. Mas esse caminho não nos leva a resolver nada.
De facto, a literatura do QI sugere que os fracos dos dias modernos são as pessoas com menos QI. Dão-se pior nas tarefas que levam a melhor qualidade de vida, como o desempenho académico e profissional. Não é de estranhar por isso que haja até uma associação entre QI e longevidade. E entre QI e felicidade.
Mas de como as coisas são não segue que devam ser assim. A discriminação por inteligencia da nossa sociedade é real - tão real como a qualidade das suas previsões, e pelo menos como uma tendencia. E a questão que deviamos estar a responder é se é realmente justo que assim seja. E se não é, se há soluções.
Por exemplo, e aqui vejo uma defesa da discriminação por inteligencia: parece que precisamos de lideres inteligentes. Certo. Esses se calhar até podiam ser mais discriminados por esse lado.
Mas há mais na qualidade de vida que poder. Não precisamos todos de o ter.
Update: Saiu um estudo sobre como as pessoas menos inteligentes tendem a ser preconceituosas, e por vezes caiem em ideologias perigosas. Talvez expondo estas pessoas a menos pressão ambiental fosse uma solução para evitar fugas para o desastre...
Update: Saiu um estudo sobre como as pessoas menos inteligentes tendem a ser preconceituosas, e por vezes caiem em ideologias perigosas. Talvez expondo estas pessoas a menos pressão ambiental fosse uma solução para evitar fugas para o desastre...
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Chimpanzés mostram sentido de justiça.
Crianças e chimpanzés tiveram as mesmas respostas perante um "jogo do ultimato" modificado. Um individuo podia escolher entre duas fichas, que podiam ser trocadas por premios mas requerendo para isso um segundo interveniente. Uma das fichas dava um prémio igual para ambos, outra das fichas dava um prémio que previligiava quem as escolhia.
Perante parceiros participativos a "ficha equalitária" foi a mais escolhida.
Mas quando o ajudante era passivo, não sendo precisa a sua intervenção para recolher o prémio, tanto crianças como chimpanzés optavam pela ficha que os priveligiava. Esta é também a resposta tipica de humanos adultos.
Nenhum primata reparte tão bem tarefas e resultados do trabalho como o ser humano. Embora alguns, para além do género homo, partilhem comida e recursos com familiares próximos e membros do grupo, os chimpanzés não têm sido, até agora, vistos consistentemente a entrar neste tipo de actividade pró-social - de repartir comida ou prémios.
O seu sentido de justiça não os leva a castigar infractores de terceiros, apenas ataques ao próprio, mas têm o hábito de consolar vitimas, sobretudo se o agressor se mostrar indiferente ao que fez.
Será que podemos ver aqui fundamentos de um sistema moral pouco desenvolvido? Na minha opinião, sim. São dados que sugerem que outros primatas são capazes de reconhecer "o outro" como semelhante.
Existem modelos que mostram que o conceito mais complexo e profundo de uma sociedade equalitária surge da união bem sucedida de grupos contra "bullies" fisicamente mais fortes. A meu ver, isto requer cooperação, empatia, sentimento de justiça e claro massa critica, já que derrubar alguns "bullies" bem organisados é um sarilho.
Parece-me que são versões simples mas inequivocas de empatia, cooperação e sentido de justiça o que vêmos aqui.
Perante parceiros participativos a "ficha equalitária" foi a mais escolhida.
Mas quando o ajudante era passivo, não sendo precisa a sua intervenção para recolher o prémio, tanto crianças como chimpanzés optavam pela ficha que os priveligiava. Esta é também a resposta tipica de humanos adultos.
Nenhum primata reparte tão bem tarefas e resultados do trabalho como o ser humano. Embora alguns, para além do género homo, partilhem comida e recursos com familiares próximos e membros do grupo, os chimpanzés não têm sido, até agora, vistos consistentemente a entrar neste tipo de actividade pró-social - de repartir comida ou prémios.
O seu sentido de justiça não os leva a castigar infractores de terceiros, apenas ataques ao próprio, mas têm o hábito de consolar vitimas, sobretudo se o agressor se mostrar indiferente ao que fez.
Será que podemos ver aqui fundamentos de um sistema moral pouco desenvolvido? Na minha opinião, sim. São dados que sugerem que outros primatas são capazes de reconhecer "o outro" como semelhante.
Existem modelos que mostram que o conceito mais complexo e profundo de uma sociedade equalitária surge da união bem sucedida de grupos contra "bullies" fisicamente mais fortes. A meu ver, isto requer cooperação, empatia, sentimento de justiça e claro massa critica, já que derrubar alguns "bullies" bem organisados é um sarilho.
Parece-me que são versões simples mas inequivocas de empatia, cooperação e sentido de justiça o que vêmos aqui.
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terça-feira, 16 de outubro de 2012
As desigualdades.
Portugal é um dos países da europa onde as desigualdades são mais marcantes. De acordo com medições do coeficiente de Gini, que mede precisamente a desigualdade económica, só no nordeste da Europa encontramos países com a mesma quantidade de desigualdade.
Os melhores são mais ou menos os do costume. Norte da Europa e Europa central. Eles distribuem melhor a riqueza produzida que nós. Muito melhor.
Segundo o que se pode ler no Público, isso vai piorar ainda mais entre nós.
E o que nós sabemos sobre isto, é que a desigualdade é um factor de instabilidade social, revoluções e mesmo guerras. Não há de facto justificação, para uma sociedade que funciona como um organismo, em que cada um dos seus órgãos cumpre uma parte do processo, que haja discrepâncias tão grandes no valor atribuído aos seus constituintes.
O argumento de que é preciso premiar quem se esforça mais, não impede que haja uma redução na diferença de rendimentos, já que para premiar não são necessárias diferenças tão dramáticas como as que verificamos nos dias de hoje e ao longo de tanto tempo. Isto acontece em boa verdade por todo o mundo.
Há muita margem de manobra para diminuir as desigualdades.
Os ditos prémios a serem realmente prémios serão tão díspares entre as pessoas que pouco poderão ter a ver com o mérito ou falta dele. Têm mais a ver com quem pode não querer distribuir aquilo com que pode ficar, e em tentar racionalizar a questão. E depois, há muitas mais maneiras de premiar o esforço e o bom trabalho. A medalha e o oscar, etc, valem muito mais que o ouro em que são feitos. E afinal, ainda há todo o conjunto de posições de poder que podem e devem ir para quem mais merece - alguém tem de organizar as coisas. E o poder e a glória sempre foram motivos humanos, pelos quais podemos distribuir os prémios. Ou seja, há uma margem muito grande para reduzir as desigualdades nos rendimentos. Justificada pela importância e papel que todos cumprem.
A prova de que a cenoura à frente do burro não é tudo o que precisamos para ter bons produtos e boa produções é ilustrada por coisas boas feitas de graça - completamente trabalho oferecido - como o sistema operativo Linux, que se pode descarregar à borla, a suite de programas de produtividade Libreoffice, o programa de edição de imagem Gimp, a wikipédia, associações humanitárias e de caridade, etc...
Ou olhar para muita da ciência produzida pela história fora, já que os cientistas nunca foram remunerados de acordo com a contribuição que deram e muito menos a dedicação que muitas vezes tiveram. O melhor com que podem contar para enriquecer, ainda hoje, é o prémio Nobel. E quanto a patentes... Essas ficam as firmas com a maioria delas como se vê pelas disputas em tribunal - elas nem pertencem às pessoas que as criaram.
E isto é para argumentar contra as desigualdades no mundo, nem sequer só em Portugal. E faço-o, acima de tudo, chamando a atenção para o fato de que funcionamos como um organismo onde cada órgão cumpre um papel fundamental. Cada profissão faz falta. Até os... Adiante.
Para o caso português em particular, podemos até usar o argumento de que todos os países que estão melhor que nós na Europa distribuem melhor a riqueza. Por isso nós devíamos fazer melhor do que o que estamos a fazer, sem medo de perder o resultado do "incentivo a quem merece mais".
E em boa verdade, toda a Europa, que agora é uma união económica, tem culpa disto que por cá se passa. Só porque estamos na periferia, longe, em vez de nos ajudarem a resolver os problemas, dão-nos austeridade - austeridade que acaba por custar mais a quem menos tem. Se funcionasse, ainda se aturava, talvez... Mas não. A austeridade está a falhar e o ressentimento das pessoas aumenta.
E o ressentimento vem sobretudo das desigualdades. Quando o problema é distribuído por todos, como acontece em casos de catástrofes naturais, não se vê aumento da instabilidade social. Vê-se entreajuda e empatia. Ressentimento vê-se quando há crises em que os sacrifícios não são distribuídos equalitariamente e a coisa é óbvia.
As grandes desigualdades dão buraco. Dão crime, violência e revoluções. E são injustificáveis moralmente.
Ou então, onde estão agora aqueles que eram tão importantes para a sociedade que se dispuseram a guardar a esmagadora maioria da riqueza? É a altura de mostrar que valem o que ganharam e que podem fazer a diferença.
Porque temos de fazer como se a história não nos ensinasse nada? Porque temos de fazer as mesmas asneiras uma e outra vez? Não temos...
Agora sabemos mais... Temos de reduzir a desigualdade. E a riqueza tem de ser melhor distribuída Em todo o mundo isso é preciso, mas nós até somos dos piores casos e onde podemos fazer mais diferença é onde estamos.
E as pessoas... Precisam de se lembrar que a violência só piora tudo. Há mais maneiras de exigir também.
Suporte bibliográfico e leituras aconselhadas:
No BMJ; desigualdades guerra e pobreza: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1122240/
Inequality.org - http://inequality.org/
Desigualdade e guerra nos EUA: http://www.counterpunch.org/2006/02/08/inequality-and-war/
Estudos empíricos recentes contrariam a noção de que a desigualdade leva a crescimento económico: http://www.jstor.org/discover/10.2307/2565487?uid=3738880&uid=2&uid=4&sid=21101273781791
No longo termo não há perda de eficiência com diminuição da desigualdade IMF; http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2011/09/berg.htm
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