" A questão não devia ser se eles podem pensar ou falar mas sim se eles podem sofrer"
-Jeremy Bentham
A ideia de valorizar as pessoas e os animais pela inteligência é injusta, embora pareça subrepticiamente disseminada pela sociedade. Aos animais, nós (pelo menos alguns bastante numerosos) os desprezamos por serem, como se diz: irracionais. E às pessoas, silenciosa mas implacavelmente as fazemos passar pelo filtro do QI. Claro que também existe a sorte, mas isso é outra história. Pessoas mais inteligentes ganham mais dinheiro, são mais felizes, são mais bem sucedidades na escola, são mais saudáveis e vivem mais, etc. É essa a maneira como as coisas estão montadas para o comum dos mortais, e claro, para além da sorte. A vida é mais fácil para as pessoas mais inteligentes. Quem não é tem forçosamente de se esforçar mais. E não é caso para se dizer que cada um é responsável pela muita ou pouca inteligencia que tem - de facto parece que podemos, ou não, agradecer de nascer com ela. Ao longo da vida o QI tende cada vez mais para um valor previsto pela hereditaridade, sendo mais variaveis nos mais jovens.
E é injusto porque o que custa mesmo nesta vida é o sofrimento, e esse não requer muita inteligência para sentir.
Era bom se pudessemos cortar com o sofrimento sem qualquer outra consideração. Mas não creio que seja possivel. O mundo está longe de ser o melhor mundo possível. Mas parece-me que há pelo menos uma tendencia positiva que pode ser seguida e que deve ser seguida. Existe alguma aversão à crueldade a crescer nos paises mais civilizados, mesmo para com animais.
E há uma outra coisa. Se a inteligencia não parece ser um factor determinante para a capacidade de sentir, e logo sofrer, a consciencia não me parece que seja indiferente ao problema do mesmo modo.
Creio, por tudo o que posso perceber, que é diferente - e pode moderar ou ampliar o sofrimento. Neste caso interessa-me filosofar sobre a ultima possibilidade, que me parece bastante frequente.
Alterações do estado de consciencia dão diferentes precepções da dor, sendo que o alcool foi dos primeiros sedativos usados neste mundo. Dissociativos e sedativos são usados ainda para diminuir o sofrimento e percepção da dor, até em seres pouco inteligentes.
Há muita coisa a considerar neste aspecto. Este é o raciocinio que proponho:
Penso que seres mais conscientes terão um significado mais forte para o bem estar e sofrimento. Agressões ou sinalização de lesões a esse bem estar tem por conseguinte um maior significado também;
Se a consciencia é o sentimento de Si próprio e o conhecimento de Si próprio, isto parece-me consequente. Porque temos um palco maior para o que pensamos e sentimos; porque podemos contemplar os nossos próprios sentimentos;
As sensações (do exterior) dão origem a mais que reflexos - não vivemos num fluxo de reflexos sensoriais; Processamos essas sensações e integramos tudo num quandro maior, num mapa mental não só do mundo mas também de nós próprios;
Para além de termos emoções temos sentimento dessas emoções. E temos consciencia desses sentimentos. Em ultima análise temos até consciencia de ter consciencia. E isso não é algo notável? Acabamos por ser capazes de dar sentido a nós próprios, às nossas escolhas, ao que nos rodeia... O universo pode não ter um sentido, a vida pode não ter sido criada com um fim em vista. Mas a vida de um ser consciente parece ter o sentido que este lhe pode dar - em paralelo com o grau de consciencia que tem.
Adiante:
Nem todos os animais parecem ser igualmente conscientes, pelo que proponho que devemos dar o nosso maior respeito àqueles que parecem ter uma capacidade de sofrer mais perto da nossa.
E se a consciencia não parece ser igualmente repartida por todos os animais, obviamente o é para todos os seres humanos. E essa é uma razão para respeitar a vida de cada um de nós sem discriminação de cor, credo, sexo, inteligência ou idade. Todos nós sentimos e sabemos o que sentimos. Temos consciencia.
Não nos esquecendo que para os outros, nós é que somos o outro - Não há um ponto de vista previligiado para a moral se valorizarmos assim a consciência e o bem estar (autobiográfico e instantaneo) acima da riqueza, da cor, do credo ou da inteligência ou da beleza.
Apenas que temos de respeitar os seres conscientes como nós, sejam eles como eles forem noutros aspectos.
Claro que esta exposição não diz que podemos ser crueis para animais como os peixes, que me parece terem um estado de consciencia mais superficiais que o nosso. Apenas sugiro que nos esforcemos no sentido de diminuir o sofrimento e que começemos por distribuir os nossos esforços para quem eles podem ter mais significado. Seres humanos no topo, seguidos dos primatas e depois outros mamiferos. Naturalmente que insectos e vermes, por exemplo, no fim da lista.
E agora que sabemos como podemos fazer uma alimentação baseada em vegetais que é na mesma saudavel e que as carnes vermelhas nem por isso são assim tão boas, começar a reduzir nos mamiferos.
Voltando aos seres humanos, claramente há também muito por onde lutar.
Por fim, isto não é uma tentativa de meter tudo no mesmo saco e desvalorizar uns por valorizar outros. Isto é mesmo uma tentativa de dar uma prespectiva completa e consistente sobre a procura possível de diminuir o sofrimento neste mundo. A começar por nós. Se eu quero começar por nós por eu ser humano ( e não macaco ou bactéria) , tenho as minhas dúvidas já que o suporte racional me parece sólido, mas se é, também me parece que não é um mau ponto de partida, já que se estende por aí fora... Por outro lado tenho serias reservass de quem diz ser capaz de abandonar completamente o ponto de vista humano quando propõe uma outra teoria qualquer. Ainda por cima, incosistentes e incompletas com uma série de outro conhecimento que temos como as que andam para aí.
O nosso conhecimento, será sempre humano enquanto nós formos humanos. E o nosso conhecimento terá sempre de ser assente na nossa epistemologia. O que interessa é ser o melhor possivel em consistencia, completude, poder preditivo e clareza.
Notas: As ideias expressas acerca da consciencia, já que também não há ainda uma conceptualização cientifica final, são as baseadas nos livros de Damásio.
Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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domingo, 14 de abril de 2013
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Chimpanzés mostram sentido de justiça.
Crianças e chimpanzés tiveram as mesmas respostas perante um "jogo do ultimato" modificado. Um individuo podia escolher entre duas fichas, que podiam ser trocadas por premios mas requerendo para isso um segundo interveniente. Uma das fichas dava um prémio igual para ambos, outra das fichas dava um prémio que previligiava quem as escolhia.
Perante parceiros participativos a "ficha equalitária" foi a mais escolhida.
Mas quando o ajudante era passivo, não sendo precisa a sua intervenção para recolher o prémio, tanto crianças como chimpanzés optavam pela ficha que os priveligiava. Esta é também a resposta tipica de humanos adultos.
Nenhum primata reparte tão bem tarefas e resultados do trabalho como o ser humano. Embora alguns, para além do género homo, partilhem comida e recursos com familiares próximos e membros do grupo, os chimpanzés não têm sido, até agora, vistos consistentemente a entrar neste tipo de actividade pró-social - de repartir comida ou prémios.
O seu sentido de justiça não os leva a castigar infractores de terceiros, apenas ataques ao próprio, mas têm o hábito de consolar vitimas, sobretudo se o agressor se mostrar indiferente ao que fez.
Será que podemos ver aqui fundamentos de um sistema moral pouco desenvolvido? Na minha opinião, sim. São dados que sugerem que outros primatas são capazes de reconhecer "o outro" como semelhante.
Existem modelos que mostram que o conceito mais complexo e profundo de uma sociedade equalitária surge da união bem sucedida de grupos contra "bullies" fisicamente mais fortes. A meu ver, isto requer cooperação, empatia, sentimento de justiça e claro massa critica, já que derrubar alguns "bullies" bem organisados é um sarilho.
Parece-me que são versões simples mas inequivocas de empatia, cooperação e sentido de justiça o que vêmos aqui.
Perante parceiros participativos a "ficha equalitária" foi a mais escolhida.
Mas quando o ajudante era passivo, não sendo precisa a sua intervenção para recolher o prémio, tanto crianças como chimpanzés optavam pela ficha que os priveligiava. Esta é também a resposta tipica de humanos adultos.
Nenhum primata reparte tão bem tarefas e resultados do trabalho como o ser humano. Embora alguns, para além do género homo, partilhem comida e recursos com familiares próximos e membros do grupo, os chimpanzés não têm sido, até agora, vistos consistentemente a entrar neste tipo de actividade pró-social - de repartir comida ou prémios.
O seu sentido de justiça não os leva a castigar infractores de terceiros, apenas ataques ao próprio, mas têm o hábito de consolar vitimas, sobretudo se o agressor se mostrar indiferente ao que fez.
Será que podemos ver aqui fundamentos de um sistema moral pouco desenvolvido? Na minha opinião, sim. São dados que sugerem que outros primatas são capazes de reconhecer "o outro" como semelhante.
Existem modelos que mostram que o conceito mais complexo e profundo de uma sociedade equalitária surge da união bem sucedida de grupos contra "bullies" fisicamente mais fortes. A meu ver, isto requer cooperação, empatia, sentimento de justiça e claro massa critica, já que derrubar alguns "bullies" bem organisados é um sarilho.
Parece-me que são versões simples mas inequivocas de empatia, cooperação e sentido de justiça o que vêmos aqui.
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sábado, 22 de setembro de 2012
Os melhores anjos da nossa natureza
Só por este livro, Stephen Pinker já merecia o prémio Nobel da literatura. Não que isso faça justiça ao livro já, que todos os anos alguém ganha aquilo e poucos deles escreveram algo com este valor.
Exagero?
Bem, o livro é uma análise profunda dos dados que temos sobre o declínio da violência, de como sabemos que está a diminuir e que fatores podem estar a contribuir para isso. Estamos a fazer muitas coisas mal, mas também estamos certamente a fazer muitas coisas bem. E é por isso que eu acho que este livro é tão importante.
Exagero?
Bem, o livro é uma análise profunda dos dados que temos sobre o declínio da violência, de como sabemos que está a diminuir e que fatores podem estar a contribuir para isso. Estamos a fazer muitas coisas mal, mas também estamos certamente a fazer muitas coisas bem. E é por isso que eu acho que este livro é tão importante.
Sabendo essas coisas, segue que ensina algo acerca de como diminuir a violência e a crueldade à face da Terra e explica-o clara e convincentemente com recurso a investigação empírica sistemática. Sabemos o que temos de continuar a fazer e o que temos de evitar. Conhecemos melhor os nossos anjos e os nossos demônios.
Recomendação: Leia e depois passe a outro. Por um futuro melhor.
PS: Ninguém vai traduzir isto?
Não vou fazer, como tenho feito muitas vezes, um resumo do livro. Este livro tem de ser lido. É extenso (800 paginas) , bem justificado, e com uma amplitude de assuntos tão diversificado quanto o carácter humano obriga. Nenhum resumo eu conseguiria aqui fazer que conseguisse valer por si próprio.
Os melhores anjos da nossa natureza, ou seja, as nossas melhores ideias, motivações e criações, são cada uma delas suficientes para um "post". E não vale a pena estar a referi-los sem explicar as coisas à volta. Por exemplo, a democracia é um desses anjos. O liberalismo (o clássico) é outro. Mas a vigilância do estado como garante da justiça imparcial é outro também - com "o monstro" a ter não só o monopólio do uso da força como o seu legitimo direito. E eu podia continuar, mas sem explicar melhor os porquês, alguns vão soar a obvio outros a vão parecer inconsistentes entre si, e outros ainda a treta: O comercio é outro desses anjos, e um dos mais relevantes. Assim como a feminização da sociedade.
Naturalmente a racionalidade (e a discussão racional aberta) é outro dos mais importantes.
Dos demônios - das causas de guerra, violência e crueldade - talvez surpreenda dizer que a pobreza não é uma causa justificada pelos dados empíricos. Só indiretamente a pobreza leva ao crime violento, se aumentar muito o numero de jovens do sexo masculino sem emprego e sem mulher. Ou se o produto per capita descer abaixo dos 1000 dollars, mas nessa altura há tanta coisa a correr mal que é difícil apontar o dedo a causas isoladas.
A desigualdade entre a qualidade de vida das pessoas é um dos piores demônios.
Parece-me que trabalhos como este são também dos melhores anjos da nossa natureza....
"The Better Angels Of Our Nature, Why violence has declined", Stephen Pinker.
"The Better Angels Of Our Nature, Why violence has declined", Stephen Pinker.
Recomendação: Leia e depois passe a outro. Por um futuro melhor.
PS: Ninguém vai traduzir isto?
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Sociedades orientadas para o longo prazo.
Geert Hofstede é um dos sociólogos mais citados da atualidade.
Hofstede criou um modelo cultural com 6 dimensões (*) que permite assim fazer comparações e explicar variações entre culturas.
Uma dessas dimensões é a orientação para o curto prazo ou o longo prazo.
As culturas que estão mais orientadas para o curto prazo são aquelas que em que se alimentam valores tradicionais, empolgam-se questões de honra e "salvar a face", alimentam virtudes como "orgulho nacional" e se procuram preencher as obrigações sociais. As de longo prazo valorizam uma perspectiva pragmática, orientada para resultados futuros, pondo enfase em poupar e ter capacidade de adaptação a ambientes em mudança.
Outra dessas dimensões é o eixo Indulgencia - Contenção.
Indulgencia refere-se à tendencia para preferir resultados do presente por recompensas melhores no futuro. E contenção ("restraint") à capacidade e tendencia de adiar a gratificação e de regular este aspecto com normas estritas.
Ambas estas dimensões estão intimamente ligadas à capacidade de auto-controlo. E aparecem fortemente correlacionadas pelos países fora. Culturas tendencialmente de longo-prazo são culturas também mais contidas. Com maior auto-controlo na sua população.
Mas não é só isto. As culturas viradas para a contenção numa dimensão e longo prazo na outra, são culturas onde a taxa de homicídios é menor.
Isto é previsto por uma outra teoria descrita por Elias em "O Processo Civilizacional", que prevê que o auto-controlo seja responsável pela inibição da violência e o seu decréscimo.
É caso para dizer que estas culturas de índole violenta, apegadas a valores tradicionais e questões de honra que precisam é de controlar melhor os seus impulsos.
E que manifestações pacificas são de facto um motivo de orgulho para os povos que as praticam. Quer dizer que têm outras qualidades bem amadurecidas.
* estou a par que a Wikipédia fala em 5. Mas Hofstede acrescentou uma nova recentemente.
Via Stephen Pinker in "The Better Angels of Our Nature", o livro.
Hofstede criou um modelo cultural com 6 dimensões (*) que permite assim fazer comparações e explicar variações entre culturas.
Uma dessas dimensões é a orientação para o curto prazo ou o longo prazo.
As culturas que estão mais orientadas para o curto prazo são aquelas que em que se alimentam valores tradicionais, empolgam-se questões de honra e "salvar a face", alimentam virtudes como "orgulho nacional" e se procuram preencher as obrigações sociais. As de longo prazo valorizam uma perspectiva pragmática, orientada para resultados futuros, pondo enfase em poupar e ter capacidade de adaptação a ambientes em mudança.
Outra dessas dimensões é o eixo Indulgencia - Contenção.
Indulgencia refere-se à tendencia para preferir resultados do presente por recompensas melhores no futuro. E contenção ("restraint") à capacidade e tendencia de adiar a gratificação e de regular este aspecto com normas estritas.
Ambas estas dimensões estão intimamente ligadas à capacidade de auto-controlo. E aparecem fortemente correlacionadas pelos países fora. Culturas tendencialmente de longo-prazo são culturas também mais contidas. Com maior auto-controlo na sua população.
Mas não é só isto. As culturas viradas para a contenção numa dimensão e longo prazo na outra, são culturas onde a taxa de homicídios é menor.
Isto é previsto por uma outra teoria descrita por Elias em "O Processo Civilizacional", que prevê que o auto-controlo seja responsável pela inibição da violência e o seu decréscimo.
É caso para dizer que estas culturas de índole violenta, apegadas a valores tradicionais e questões de honra que precisam é de controlar melhor os seus impulsos.
E que manifestações pacificas são de facto um motivo de orgulho para os povos que as praticam. Quer dizer que têm outras qualidades bem amadurecidas.
* estou a par que a Wikipédia fala em 5. Mas Hofstede acrescentou uma nova recentemente.
Via Stephen Pinker in "The Better Angels of Our Nature", o livro.
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terça-feira, 4 de setembro de 2012
Acerca da aversão à crueldade.
A pretexto de alguns comentários que li acerca da defesa da tourada e estando a ler um livro sobre o declinio da violencia, o excelente "The Better Angels of Our Nature" achei apropriado escrever um post sobre a aversão à crueldade (no ambito dos direitos dos animais), que na realidade é outra face da empatia. Mas como já há para aí um bom com esse nome, decidi dar outro titulo e outra abordagem. A matéria no fundo é a mesma.
A maioria dos defensores dos direitos dos animais reconhecem nos animais caracteristicas semelhantes às nossas que permitem concluir que são seres capazes de sentir dor, fome, prazer, ansiedade e stress de uma forma muito semelhante à nossa. Devido às semelhanças neurologicas, e sendo de esperar que se as estruturas são as mesmas até ao nivel microscópico é de esperar que a função seja a mesma até um pormenor muito elevado, podemos dizer com alguma segurança que a ciência suporta a sensação de empatia dada por reconhecer um nosso semelhante.
O que nós chamamos, quando vemos um ser a que reconhecemos a capacidade de sentir e de saber que sente, a ser dolorosamente estimulado sem uma justificação extraordinária, é crueldade.
Um primeiro aparte: Não parece ser importante se a crueldade é dirigida a seres menos inteligentes. Nós começámos a reconhecer crueldade em acções contra cavalos há muito tempo e ninguém põe em causa que se trate de crueldade o torturar uma criança pouco capaz de falar sequer. Ou um atrasado mental de 5 anos que tenha a inteligencia de um de 2. O que está em causa é reconhecer a dor e o sofrimento causado pela dor. E do facto de quem sofre saber que está em dor. Em maior ou menor grau. E não é preciso muita inteligencia para isso. A existencia da dor em si ou de se sentir uma emoção relacionada com a dor - a emoção é a resposta organica da qual o cerebro constroi o mapa - é o fulcro da questão. Estará mais relacionada com a existência de algum grau de consciência. E se a inteligencia não é a questão, então temos de reconhecer que é errado causar dor a animais só porque serão menos inteligentes. O resto, está lá tudo. Até a inteligência lá está em muitos deles, apenas menos que a nossa.
A maioria dos defensores dos direitos dos animais reconhecem nos animais caracteristicas semelhantes às nossas que permitem concluir que são seres capazes de sentir dor, fome, prazer, ansiedade e stress de uma forma muito semelhante à nossa. Devido às semelhanças neurologicas, e sendo de esperar que se as estruturas são as mesmas até ao nivel microscópico é de esperar que a função seja a mesma até um pormenor muito elevado, podemos dizer com alguma segurança que a ciência suporta a sensação de empatia dada por reconhecer um nosso semelhante.
O que nós chamamos, quando vemos um ser a que reconhecemos a capacidade de sentir e de saber que sente, a ser dolorosamente estimulado sem uma justificação extraordinária, é crueldade.
E a especie humana tem vindo a ganhar uma aversão benefica à crueldade. Já foi tão insensivel ao ponto de criar festas de tortura, em várias culturas diferentes, contra proprios seres humanos. Hoje em muitos paises civilizados do 1º mundo nem contra animais para abate isso é toleravel.
Um primeiro aparte: Não parece ser importante se a crueldade é dirigida a seres menos inteligentes. Nós começámos a reconhecer crueldade em acções contra cavalos há muito tempo e ninguém põe em causa que se trate de crueldade o torturar uma criança pouco capaz de falar sequer. Ou um atrasado mental de 5 anos que tenha a inteligencia de um de 2. O que está em causa é reconhecer a dor e o sofrimento causado pela dor. E do facto de quem sofre saber que está em dor. Em maior ou menor grau. E não é preciso muita inteligencia para isso. A existencia da dor em si ou de se sentir uma emoção relacionada com a dor - a emoção é a resposta organica da qual o cerebro constroi o mapa - é o fulcro da questão. Estará mais relacionada com a existência de algum grau de consciência. E se a inteligencia não é a questão, então temos de reconhecer que é errado causar dor a animais só porque serão menos inteligentes. O resto, está lá tudo. Até a inteligência lá está em muitos deles, apenas menos que a nossa.
Dito isto, não penso que todos os animais tenham uma consciencia como a nossa. Existem alguns que sabemos que andam lá muito perto, como o chimpanzé e os golfinhos.
Não é só não conseguirem elaborar sobre ela. Mas provavelmente o mapa da própria mente, que é uma parte de construir a consciência, é muito mais simples, conforme vão tendo sistemas nervosos centrais menos complexos.
E isso embora não tire a dor, dá provavelmente um significado diferente ao facto de se ter dor. Começa por se dar menos valor ao facto de se estar vivo, se nem sequer se tem consciência disso.
Não é só não conseguirem elaborar sobre ela. Mas provavelmente o mapa da própria mente, que é uma parte de construir a consciência, é muito mais simples, conforme vão tendo sistemas nervosos centrais menos complexos.
E isso embora não tire a dor, dá provavelmente um significado diferente ao facto de se ter dor. Começa por se dar menos valor ao facto de se estar vivo, se nem sequer se tem consciência disso.
Isso provavelmente resume-se a um menor sofrimento e a crueldade será menor. Pelo menos o mapa mental onde o sofrimento é assinalado é muito minimalista ou inexistente. Por isso eu não creio que valha a pena ficar a pensar muito na crueldade contra insectos por exemplo. Dos peixes tenho algumas duvidas.
Mas em relação aos mamiferos? Não tenho muitas dúvidas que em geral sentem, que sabem que sentem e que guardam memórias e gostos das coisas. As respostas à dor são muito parecidas e a tolerância não parece ser muito diferente.
Claro que os filósofos, como não podia deixar de ser, põem em causa a até a existência de certos zombies, que são seres humanos que fazem tudo como os outros, mas não têm consciencia. Não sabem que existem. Embora respondam até que têm consciencia. Dentro da máquina, sugerem os filosofos, não vai nenhuma alma. A dor seria apenas um ato reflexo.
Mas em relação aos mamiferos? Não tenho muitas dúvidas que em geral sentem, que sabem que sentem e que guardam memórias e gostos das coisas. As respostas à dor são muito parecidas e a tolerância não parece ser muito diferente.
Claro que os filósofos, como não podia deixar de ser, põem em causa a até a existência de certos zombies, que são seres humanos que fazem tudo como os outros, mas não têm consciencia. Não sabem que existem. Embora respondam até que têm consciencia. Dentro da máquina, sugerem os filosofos, não vai nenhuma alma. A dor seria apenas um ato reflexo.
Isso parece-me um disparate exatamente pela mesma razão que reconheço sofrimento nos animais. E essa é a questão toda.
Onde quero chegar mesmo é que sentir empatia por reconhecimento de semelhança nos animais é sustentável cientificamente - e mesmo moralmente correcto, se formos honestos e tentarmos ver o que é que consideramos pertinente na aversão à crueldade. Por um lado. Por outro, se tivermos empatia até com animais, tendo em conta o que isso envolve, é quase impossivel não a ter por humanos. O contrário aparentemente pode ser verdade, mas quem tem empatia e aversão à crueldade contra coisas mais diferentes também faz sentido que a tenha para as menos diferentes. E eu penso que isso é bom para a sociedade.
Realmente não conheço nenhum atentado físico violento à saúde de ninguém em nome da defesa dos animais. Um caso recente de pelo menos uma pedra que se vê atirada a um cavaleiro tem outra causa que a defesa dos animais em geral e muito mais relacionada com um acto de retaliação direta a uma ameaça fisica.
Realmente não conheço nenhum atentado físico violento à saúde de ninguém em nome da defesa dos animais. Um caso recente de pelo menos uma pedra que se vê atirada a um cavaleiro tem outra causa que a defesa dos animais em geral e muito mais relacionada com um acto de retaliação direta a uma ameaça fisica.
Mas adiante. De facto, as primeiras associações de direitos das crianças nasceram a partir de pessoas que eram de associações de direitos dos animais, nestes caso o cavalo. O cão e o gato vieram muito, muito depois. Mas antes disto, a crueldade contra crianças era uma coisa natural. Abandonar crianças, matar bébes, era natural. As casas de órfãos tinham taxas perto dos 90% de mortalidade em alguns casos.
Estas pessoas que sentem empatia pelos seus semelhantes têm feito muitas coisas boas. Mas na altura não era tão obvio. Como não é hoje para muitos que o touro é um nosso semelhante e também é capaz de sentir dor e até de saber que a sente. O cerebro deles é estupidamente parecido com o nosso. Estarem lá aqueles milhões de neurónios todos a formarem as mesmas estruturas anatómicas sugere o mesmo, como já disse. Isso, ou teremos de considerar sériamente a existencia de zombies filosóficos.
E permitir esse tipo de dor, é crueldade. E nós queremos (eu quero e sei que a maioria também), caminhar no sentido da aversão à crueldade.
Estas pessoas que sentem empatia pelos seus semelhantes têm feito muitas coisas boas. Mas na altura não era tão obvio. Como não é hoje para muitos que o touro é um nosso semelhante e também é capaz de sentir dor e até de saber que a sente. O cerebro deles é estupidamente parecido com o nosso. Estarem lá aqueles milhões de neurónios todos a formarem as mesmas estruturas anatómicas sugere o mesmo, como já disse. Isso, ou teremos de considerar sériamente a existencia de zombies filosóficos.
E permitir esse tipo de dor, é crueldade. E nós queremos (eu quero e sei que a maioria também), caminhar no sentido da aversão à crueldade.
Por outro lado, existem também estudos que mostram que o sadismo é aprendido. Mas não penso, e não há estudos que o mostrem, que o sadismo contra animais se estenda a sadismo contra humanos. Penso que muita gente pode pura e simplesmente não sentir a tal empatia e as coisas ficam em caixotes separados na cabeça e não são mais perigosas para outros seres humanos por torturarem animais como entretenimento. Mas penso que se o sadismo é aprendido, quem não o aprender e não o tolerar em animais mais dificilmente sequer o tolerará em humanos. De facto temos visto que o reconhecimento do "nosso semelhante" tem sido gradual, assim como a aversão à crueldade. Andaram de mãos dadas.
Outro ataque pre-emptivo que tenho ja de fazer é contra o espantalho previsto por: "estás a comparar crianças a touros/cavalos/cães/etc. , não dá para acreditar!". Sim estou. E dá para acreditar. Há muitas semelhanças. Sobre inumeros pontos de vista. E entre mim e quem faz esse comentário hipotético também. O que eu não estou a dizer é que a criança vale o mesmo que o touro. Ao fim e ao cabo se a empatia e o reconhecimento são por semelhança e reconhecimento, a criança vem primeiro. É o que me parece aliás que vale mais de tudo. Mas talvez seja por eu ser pai também - tenho de reconhecer o bias.
Por isso o que proponho é que evitemos o sofrimento de acordo com o que esperamos que seja a capacidade de sofrer e sentir dor de cada animal.
Mais valor para os mamiferos que para os peixes, muito menos valor para os camarões que para as aves. De preferencia seriamos vegetarianos. Isso parece ser a tendencia actual, já agora. Mas como não é preciso ser-se imaculado para criticar o que está errado, senão ninguem podia criticar nada, aconselho todos os comedores de carne que não tolerem a tourada a falar na mesma. Mas se deixassem de comer mamiferos pelo menos era melhor. E já agora reduzir um pouco a carne até de aves.
Não chega dizer que "se não gostas não vás". Porque há um ser senciente envolvido em tratamentos cruéis. Um ser que não tem a inteligencia para saber sequer o que se está passar ao ponto de poder fazer uma escolha, que de qualquer modo não tem. Mas já vimos que essa não é a questão, a da inteligencia. Tal como noutras coisas em que sabemos melhor, é preciso proteger os mais fracos.
Falam em bravura... Mas as coisas não estão nem aí. É que todo o ambiente é controlado previamente para chacinar o touro. É uma emboscada que começa na genética do que ficam cegos para retaliar. Nem um ser humano escaparia a este tipo de emboscada como os documentos que nos falam do circo romano mostram.
Arte? Arte como em musica, pintura, literatura? Seria sempre algo mais semelhante a um desporto, mas se for isso, então usem velcro nas costas do touro ou pontas magnéticas, whatever. Continuam com a mesma arte e menos sofrimento. Se a arte está na crueldade apenas... Isso não deve ser tolerável e trata-se de um equivoco perigoso.
Existe para aí um estudo que pretende dizer que os touros não sofrem assim tanto. Mas o que mostra é que provavelmente a dor é elevadíssima, tal como sugerido pelos elevados niveis de endorfina que nele se encontram. A endorfina é libertada quando ha estimulo dolorso, até por exemplo na picada de uma agulha e serve para moderar as dor. Niveis semelhantes e mais elevados ao encontrado no touro são encontrados em mulheres durante o parto humano. E as mulheres que tiveram partos naturais narram dor a um nivel elevadíssimo. Neste estudo, as hormonas do stress como o cortisol não estão em niveis muito elevados. Mas o stress não é todo o tipo de sofrimento. O sofrimento a partir da dor deve estar lá concerteza e isso o próprio autor sabe que não pode negar.
Falam em bravura... Mas as coisas não estão nem aí. É que todo o ambiente é controlado previamente para chacinar o touro. É uma emboscada que começa na genética do que ficam cegos para retaliar. Nem um ser humano escaparia a este tipo de emboscada como os documentos que nos falam do circo romano mostram.
Arte? Arte como em musica, pintura, literatura? Seria sempre algo mais semelhante a um desporto, mas se for isso, então usem velcro nas costas do touro ou pontas magnéticas, whatever. Continuam com a mesma arte e menos sofrimento. Se a arte está na crueldade apenas... Isso não deve ser tolerável e trata-se de um equivoco perigoso.
Existe para aí um estudo que pretende dizer que os touros não sofrem assim tanto. Mas o que mostra é que provavelmente a dor é elevadíssima, tal como sugerido pelos elevados niveis de endorfina que nele se encontram. A endorfina é libertada quando ha estimulo dolorso, até por exemplo na picada de uma agulha e serve para moderar as dor. Niveis semelhantes e mais elevados ao encontrado no touro são encontrados em mulheres durante o parto humano. E as mulheres que tiveram partos naturais narram dor a um nivel elevadíssimo. Neste estudo, as hormonas do stress como o cortisol não estão em niveis muito elevados. Mas o stress não é todo o tipo de sofrimento. O sofrimento a partir da dor deve estar lá concerteza e isso o próprio autor sabe que não pode negar.
Uma outra critica que prevejo - estou mesmo a acabar - é a do antropocentrismo. Porque na prática isto resume-se na mesma a uma forma de antropocentrismo, mas é o melhor que podemos fazer. Não temos outro ponto de vista até os animais começarem a falar e a escreve ou dialogar com extraterrestres. Temos é de ver se não estamos a chegar a conclusões porque consideramos o antropocentrismo algo a manter sem recorrer às melhores tecnicas anti-"bias" que temos. O antropocentrismo aqui emerge da analise racional da questão, elevando alguns animais a criaturas sencientes e não como assumpção inicial cega que estipula uma hierarquia binária. No minimo é um antropocentrismo muito mais informado e aberto.
E depois há o ad antiquitatem - o apelo à tradição. Mas é uma falácia. Tradição já foi muita coisa que não presta, o que conta é o que se está a tentar manter. Evoluimos ou não?
Bibliografia (os tais ombros dos gigantes):
Damásio - "O sentimento de si", "O livro da consciência" ; nas questões de o que é a consciência.
Pinker - "The Better Angels Of Our Nature" para as questões relacioandas com a diminuição de violencia, a empatia e de o sadismo ser algo que se aprende, e da referencia histórica dos direitos.
Acerca da empatia também ler este: http://afugadeideias.wordpress.com/2012/09/03/da-empatia-com-os-animais/
O argumento de a inteligencia - não torturar só porque não é esperto - é originalmente de Singer como muitos defensores dos animais sabem, mas vem referenciado também por Pinker.
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