terça-feira, 11 de novembro de 2008

Opiniões são opiniões, factos são factos.

A preocupação da ciência, aquilo que é o seu objecto são os factos. Sejam eles quais forem. Se acontece, então é passível de ser cientificamente estudado. E como nunca é demais referir, os cientistas são ávidos por factos. Sobretudo se forem novos e trouxerem novas hipóteses a considerar. A crença de que a ciência nega factos à partida é falsa. E tem sido um argumento abusivo por parte de quem defende fenómenos sobrenaturais e outros tipos de bruxaria. Não existem fenómenos sobrenaturais. Se esses fenómenos existirem, sejam quais forem, então são tão naturais como o orvalho matinal ou a evolução das espécies.

Não estou a dizer que não existem anomalias na investigação científica, ou seja resultados que não correram como o esperado e não têm aparente explicação. Mas essas anomalias são quase sempre interpretadas como erros de metodologia e as experiências são repetidas e normalmente a anomalia não. Se se repete, deixa de ser uma anomalia e passa a ser um facto que carece explicação, o que vai deixar a comunidade cientifica excitadíssima e em cerrada competição para encontrar primeiro a explicação. As histórias de cientistas que abdicam em grande parte da vida pessoal em busca de explicações não são fantasia. Einstein era em muitos aspectos um exemplo.

O problema dos alegados fenómenos sobrenaturais ou paranormais, e a razão pela qual continuam a sê-lo (sobrenaturais) é porque não se repetem quando existem condições de os descrever rigorosamente. Nunca passam da narrativa pessoal com apelo incondicional da credulidade do leitor ou ouvinte. E essa narrativa nunca é rigorosa e está sempre marcada por interpretações individuais, em muitos casos até, por pessoas que são elas próprias crédulas, não estando a tentar enganar ninguém conscientemente, mas estando elas próprias enganadas.

Apesar de haver defensores que esses fenómenos se repetem sempre em determinadas condições (se não, não era possível haver consultas espíritas, leituras de aura, energias inteligentes, medicinas “alternativas”, etc.), as tentativas efectuadas para o verificar cientificamente dão sempre para dois lados. Ou fraude ou nada de novo.

Alguns defensores do paranormal, cuja honestidade até é de registar, alegam que a ciência não os pode verificar porque eles ocorrem com uma frequência inferior ao acaso. Mas isto é o mesmo que dizer que esses fenómenos são coincidências mal interpretadas. Se eu adivinhar em 50% das vezes de que lado uma moeda vai cair, com que lógica posso argumentar que em essas 50% das vezes o sucesso foi devido a conseguir prever o futuro?
O exemplo que eu dei foi óbvio, mas algumas alegações de médium tiveram de ser submetidas a análise matemática para se explicar a realidade, ou não realidade. Resumidamente, quando se começam a lidar com muitas hipóteses e com muitos factos simultaneamente, a percepção humana é levada a reter as hipóteses correctas e esquecer as falsas. As hipóteses são também formuladas com um fraco grau de especificidade para poderem ser consideradas certas numa variedade de cenários diferentes. Diminuir a especificidade aumenta sempre a sensibilidade, ou seja a probabilidade de ter um positivo (Diz-se que aumenta a quantidade de falsos positivos).

Por exemplo, isto é o que é feito na astrologia e naqueles programas de televisão em que um médium procura na audiência alguém que tenha um familiar que tinha um colar vermelho. E depois o colar passa a pulseira, depois a lenço, depois a relógio. E depois diz que o nome dessa pessoa é algo como Lara. E depois passa a Clara e depois a Mara e finalmente entre as 50 pessoas alguém conhece uma Sara. Em relação à nossa vida pessoal, além do truque de debitar muitas hipóteses inespecíficas por unidade de tempo ainda há a ter em conta aquilo que é chamado na língua Inglesa de “cold reading”. Que resumidamente é a capacidade que algumas pessoas têm de tirar conclusões a partir de pequenos detalhes. E aqui não há nada de sobrenatural. Trata-se de se conhecer bem a espécie humana, o mundo e de se ser um bom observador. As histórias do Sherlock Holmes ilustram esta noção, ainda que com um personagem fictício.

Isso ajuda a debitar menos hipóteses, mas graças à riqueza da nossa vida pessoal o mesmo método de “adivinhação” pode ser usado. Experimente-se, usar um horóscopo da semana anterior e pedir a alguém que o leia, de Janeiro a Dezembro, sem dizer o título, para ver se consegue acertar qual era o correspondente ao seu signo. Se pelo menos metade deles não for razoavelmente adequado, o astrólogo em questão devia ter umas aulas de psicologia.

Isto tudo para dizer que as crenças no paranormal são isso mesmo, apenas crenças, ou na melhor das hipóteses, como eu tenho lido na sua defesa, opiniões. E as opiniões têm de ser respeitadas.

Tudo bem, as opiniões têm de ser respeitadas. Eu respeito quem me diga que a trilogia do Senhor dos Anéis é uma grande obra, mas se me disserem que aquilo tudo aconteceu realmente e eu negar estou a desrespeitar uma opinião? Não. Porque não era uma opinião, era uma afirmação de que algo era factual quando não era. Era uma refutação. E qualquer sistema cognitivo decente tem de ser aberto à refutação. É um garante da qualidade na ciência por assim dizer.

O problema é que esses alegados fenómenos bizarros não são factos. Não acontecem. E começo mesmo a achar que os cientistas mais sérios deviam deixar de gastar dinheiro com isto. Os resultados são sempre os mesmos. Já para não falar que incluem sempre uma serie de pressupostos que também não se verificam.
Por isso digo opiniões são opiniões, factos são factos. Venham eles. E a minha opinião muda. Mas sinceramente, perdi as esperanças há muito tempo.
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