sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Certezas? Não tenho a certeza.

“ ciência é acreditar na ignorância de especialistas”(1); R. Feynman, in “what is science”, apresentação na associação nacional de professores de ciência, 1966, N.Y.

Algo que é difícil de explicar na ciência é a sua ausência total de certezas. Porque se houver um caminho rápido para a Verdade, seja ela o que for, não é a ciência. A ciência é o caminho lento e custoso para a compreensão da realidade. Se existe uma via rápida, ainda não foi descoberta. Por isso, a ciência, passo a passo, com uma humildade perante o universo única em toda a história do pensamento humano (sem assumir que temos respostas logo à partida), vai tentando encontrar maneira de conseguir colocar as suas dúvidas de modo que a Natureza possa responder. Metodicamente e sistematicamente… O método cientifico é acerca disso. E os resultados vêm chegando, como respostas, às vezes mais simples às vezes mais complexas. E consistentemente, as peças vão se encaixando como num puzzle gigantesco do conhecimento. Desse conhecimento nasce a Tecnologia como afirmação prática de que as peças de facto encaixam. Mas isso não quer dizer que sejam certezas. São apenas o que se pode considerar a melhor explicação quando se toma em conta toda a informação que esta disponível. Tem falhas e lacunas, muita coisa por descobrir e explicar, mas essa dúvida que o cientista manifesta é ela própria um motor de conhecimento.

Há quem queira no entanto perverter a situação, abusando da clareza com que a comunidade científica esclarece as suas teorias e manifesta as suas dúvidas. Vêm uma fraqueza na constante dúvida científica e pensam que por lá podem entrar, e usar todas as lacunas para encaixar as suas ideologias. Fecham os olhos que a cada passo atrás à dois para a frente e que as lacunas que se abrem foi porque um novo conhecimento surgiu, fechando muitas outras. Brinquei exactamente com este assunto quando escrevi “Breve história da ignorância”(2), mas como em outras ocasiões o humor servia para esclarecer e não para confundir. Esclarecer que há de facto progresso na ciência e que as duvidas se transformam desafios e que no passado muito se ganhou neste processo.

Para essas pessoas, que pretendem perverter a ciência, ela é como se fosse um processo estático, fossilizado, mas que pensam ser maleável a seu belo prazer, tal como muitas das teorias que propõem. Querem gozar os benefícios da tecnologia enquanto escarnecem de aspectos fundamentais do processo que lhes permitiu ter esses benefícios. Querem usar o nome da ciência, mas quando isso vai contra a sua agenda, logo acusam os cientistas de nunca ter certezas e estar sempre a actualizar o que dizem.

Por hoje fico-me por aqui. Eu acho que o Feynman tem razão. As duvidas dos experts são melhores que qualquer certeza. Porque se alguém apregoa certezas... Hum.... é de suspeitar.


Para completar este post sugiro a leitura das entradas “a ciência é a mesma?” e “ciência ou certeza” (3)(4)no Blogue Ktreta de Ludwig Krippal, acerca de debate com criacionistas. E já agora a palestra “what is science” do Feynman. Os links estão em baixo:
(1) http://www.fotuva.org/online/frameload.htm?/online/science.htm
(2) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2008/09/breve-histria-da-ignorncia.html
(3) http://ktreta.blogspot.com/2008/11/cincia-ou-certeza.html
(4) http://ktreta.blogspot.com/2008/11/cincia-mesma.html
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