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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Então, até à verdade...

A SIC está a dar uma nova comédia chamada: “Até à verdade.”

Deve ter este nome, porque, até à hora da verdade vamos ouvir uma data de disparates. Penso que será no último episódio em que nos dirão a todos que era uma brincadeira.

De qualquer modo não vale a pena perder tempo. Tem pouca graça já que parece que estão a fazer as coisas a sério. Só vi a apresentação e chega.

Vejamos. Logo na apresentação começa com o mito de que só usamos 10% do nosso cérebro e por conseguinte temos 90% que pode ser usado para outra coisa qualquer que lhes passe pela cabeça. Neste caso, a outra coisa qualquer que lhes passa pela cabeça são os testados e descredibilizados poderes mediúnicos para descobrir crimes.  

Se não houvesse muita gente a acreditar nesta mentira, até tinha graça por isto num canal publico para uma audiência geral. Mas muita gente não tem bases para saber um pouco do que se passa no cérebro e se bem que seja verdade que não usamos mais que 30 a 40% para tarefas corriqueiras e pontualmente, ao longo do tempo usamos o cérebro todo. 

Não faz sentido de qualquer modo, mesmo que fosse verdade a coisa dos 10%,  propor que há uns que só usam 10% do cérebro mas que outros, eleitos e especiais, conseguem usar os outros 90% para fazer coisas que só eles dominam. E que desaparecem quando submetidas a análise rigorosa e metódica. Teríamos de admitir uma de duas coisas, ou os 90% extra estão lá apenas para chatear, ou ainda não saberíamos para que  serviria. Partir para o apelo à ignorância é, bem... Uma falácia.

Também os apelos à autoridade logo no principio do programa são falaciosos. Ninguém conseguiu demonstrar o que eles alegam, não existem dados que suportem aquelas alegações, e não foi por ausência de testes. Logo não há campo de especialidade para se afirmarem como autoridade. 

A tentativa de passar algo como verdade só por que alguém pode acreditar que é verdade não tem graça. Qualquer um pode inventar qualquer treta e há sempre alguém disposto a acreditar. Mesmo se forem muitos - relembrando a falácia do apelo à  popularidade.  Coisas que possam ser justificadas por evidencias recorrendo a um mínimo de pressupostos é que é difícil. Mas talvez para mostrar o atraso na epistemologia básica da nação temos esta comédia...

Se os mediums fossem obrigados a pagar as despesas das coisas que mandam fazer sem resultados... Se calhar já não andavam por aí mandar postas na televisão. Acho que era começar a pedir justiça por aí. Ou provam de modo cientifico que são úteis, ou então... Isto de abusar da credibilidade, da tendência para a confirmação e de relembrar os resultados positivos tem de ter um preço.

Fazer as coisas encaixar à posteriori no que disseram, com re-interpretações das supostas imagens que têm  (e das afirmações vagas que produzem) não chega para justificar dinheiro e tempo perdido gastos em pistas erradas. 


Aqui estão alguns artigos para saber mais sobre este assunto:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/8369369.stm (artigo de divulgação que refere custos)

http://www.cicap.org/new/articolo.php?id=101006 (explicação do aparente sucesso)

https://www.ncjrs.gov/App/Publications/abstract.aspx?ID=56166 (científico, muito bom)

http://www.csicop.org/si/show/psychic_defective_sylvia_brownes_history_of_failure/(avaliação sistemática retrospectiva da medium Sylvia Brown)

http://peicurmudgeon.wordpress.com/2011/06/09/the-cost-of-psychics/ ("post" de blog, muito bom no conteúdo)

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1225417/Police-spend-thousands-investigating-suicide-murder-psychics-claim-spoken-dead-mans-ghost.html

http://www.nytimes.com/1999/12/20/nyregion/dorothy-allison-74-psychic-detective-consulted-by-police.html (medium famosa em que o chefe que a usava diz que ela resolveu muitos casos - mas nenhum do que tentou publicamente, vá-se lá perceber...)

http://www.merseysideskeptics.org.uk/2009/11/the-real-cost-of-psychic-tipsters/(nota acertadamente que atrasam a investigação para além dos custos económicos).

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Videntes, médiums, bruxas, espíritas... Como eles o fazem.

  A leitura fria.

Introdução.
Desde académicos a militares (seria uma arma bem importante), existe actualmente um conjunto bastante razoável de estudos científicos sobre alegados poderes psíquicos. E o que a ciência encontrou nestas investigações foi, não um conjunto de energias e poderes apenas dominadas por uma elite mas um conjunto de técnicas que permitem simular que se tem esses poderes. Chama-se a esse conjunto de técnicas “leitura fria”.

“Aprender a fazer uma leitura psíquica não é uma questão de frequentar cursos para videntes ou para médiums. Em vez disso, é uma questão de elogiar, fazer afirmações com duplo-sentido, fazer comentários vagos e ambíguos, de usar “fishing and forking”, prever o provável e transformar falhanços em sucessos”.
- Prof. Richard Wiseman, Paranormality.

Antes de explicar o que é isto uma nota importante: Nem todos os que a utilizam podem estar conscientes de a estar a utilizar. Um dos enganados pode ser o próprio executante. Entre o conjunto de razões que levam um “leitor frio” a ter sucesso em outras pessoas, estão as mesmas que podem fazer com que o próprio se convença que tem a capacidade de ver para o passado de estranhos, conhecer a sua personalidade e prever o seu futuro. Estas técnicas são “assim tão boas”, por explorar vulnerabilidades conhecidas do pensamento humano, tais como o sentimento de sermos únicos, a tendência para nos lembrarmos apenas dos resultados positivos, a tendência para acreditar no que é ou parece bom, a tendência de procurar significado para as coisas (mesmo quando ele não está lá), etc. Por isso nem todos são aldrabões, alguns podem acreditar que têm mesmo uma capacidade especial.

Como sabemos que é tudo uma questão de leitura fria? Como disse anteriormente existem imensos estudos e eles mostram que (para além destas técnicas estarem a ser usadas sistematicamente), os alegados videntes não são capazes de fazer corresponder uma determinada leitura a uma determinada pessoa. Ou seja, são inespecificos, não estão a dizer nada acerca de uma pessoa em particular (sem que a pessoa forneça essa informação, claro). Por outro lado, a experiência de replicar os resultados dos alegados possuidores de poderes psíquicos recorrendo à aprendisagem e execução destas técnicas de leitura fria tem tido o sucesso esperado. Ou seja, resultados apenas compatíveis com poderes psíquicos não foram encontrados (consegue-se o mesmo com leitura fria), por mais que se tenha procurado. Por isso se verdadeiros médiuns andam para aí, estão muito bem escondidos e no caso de pensar ter um pela frente assegure-se que não está a ser vitima de leitura fria. A evidência acerca de poderes psíquicos ficou reduzida a evidência anedótica.

Um outro aparte ainda antes de explicar as várias técnicas da leitura fria. A investigação no terreno e aquisição de informação através de outros meios físicos que não em frente-a-frente é chamado por brincadeira de “leitura quente”. Existem testemunhos de que a leitura quente e o trafico de informação entre mediuns, videntes e astrólogos existe, mas este “post” não é sobre isso.

Criar um ambiente propício.

Embora não seja indispensável, já que a leitura fria pode ser feita pela rádio, por email, em programas ao vivo, etc., a leitura a frio beneficia muito da colaboração do sujeito a ser "lido", por isso um conjunto de mecanismos de sugestão e capazes de propiciar a colaboração são utilizados se possível. Criar empatia e mostrar simpatia, fazer as pessoas sentirem-se bem recebidas e confortáveis, dizer que muita gente importante recorre a videntes ou astrólogos (ou o que seja) e que já ajudou muita gente a resolver problemas, decorar o ambiente apropriadamente (não esquecendo uns quantos livros sobre o assunto à vista e uns símbolos adequados aqui e ali), etc. são os aspectos a considerar.

Os pontos chaves.


1 - A arte do elogio.

É por aqui que se deve começar. O poder de dizer às pessoas o que elas querem ouvir vai não só manifestar-se na predisposição certa para o resto da sessão, como causar a percepção de “tiros na mouche” quase garantidos. As qualidades sugeridas a mencionar são: personalidade equilibrada, sentido de ética, honestidade, responsabilidade, educação, simpatia, criatividade e intuição (e que seria capaz até de ser um bom astrólogo/vidente/medium)/etc). São coisas que quase todos achamos que fazem parte de nós e que temos  em doses acima da média. Tal como grande sentido de humor. Não se pode no entanto atirar isto a seco. É preciso ir metendo a coisa no meio do jargão tipico da pseudociência escolhida, para dar credibilidade à cena. Algo como:

“Nasceu sob o signo da balança e posso ver como tem uma personalidade equilibrada, tipico dos balança, mas no seu caso mais marcada ainda por um forte sentido etico e de dever, devido à influencia de jupiter na quinta casa, e blá, blá, blá.”

Não vem na bibliografia consultada mas eu arriscaria ainda a inteligência entre essas qualidades, ja que como Descartes dizia “ a inteligência parece ser a coisa mais bem distribuida do mundo pois ninguém parece queixar-se da pouca que tem”.

Há, e não esquecer fazer um elogio à mente aberta.

2 - Afirmações duplas (e contraditórias) ou como diz o povo, “dar uma no cravo e outra na ferradura”.

Para tirar partido do facto das pessoas notarem mais o que lhes faz sentido do que o resto, é boa tecnica  dizer uma coisa e o seu oposto de uma assentada. É uma das tecnicas mais importantes e mais usadas.

Se por um lado a tendencia das pessoas é só "ouvirem" o que interessa, por outro lado a maioria das caracteristicas da natureza humana podem de facto manifestar-se de maneiras diferentes em diferentes alturas. Desde que não se quantifique e se especifique demasiado, a coisa vai soar bem. Claro que, como sempre, deve ser bem embrulhado no jargão tipico da pseudociência em causa.

Os traços de personalidade a abordar são os “grandes 5”: A abertura, a escrupolusidade, a extroversão, a sociabilidade e o neoroticismo. Como se disse o que se faz é dar uma no cravo e outra na ferradura:

“A mensagem que estou a receber é de que é uma pessoa muito sociável e que preza a amizade mas por vezes prefere dedicar algum tempo a si própria ou passar o tempo na companhia de um bom livro”. Ou “ Apesar de ser uma pessoa criativa e com muita imaginação é bem capaz de ser pragmática e terra-a-terra noutras alturas quando se torna necessário.”

Os anglófonos chamam a isto popularmente “rainbow ruse”. Não há como errar. São “hits” garantidos.

3 - Fazer afirmações vagas e tiros de caçadeira.

Afirmações vagas são afirmações que podem ser interpretadas de diversas maneiras ou são tão abrangentes que provavelmente incluiem uma ponta de verdade algures.

O leitor pode ainda pedir à pessoa que está a ser “lida” que o ajude a fazer sentido com as imagens que está ter e pode depois ir aumentando a especificidade do que diz:

“Estou a ver uma viagem, talvez pessoal ou de alguém próximo, está a ver a me refiro?”

“Tenho aqui alguém que quer falar contigo, parece-me um homem, um familiar, talvez um avô ou um tio, ou um amigo da familia...”

“Estou a ver uma coisa vermelha, talvez um lenço, talvez uma camisa... Estou a ver alguém a mexer nela, isto faz sentido para ti? “

Ou então afirmações completamente abstractas: “estou a ver um circulo a fechar-se, sabes a que se refere?”. Alguns leitores a frio conseguem acertar em coisas que nunca chegam eles próprios a saber o que são! Mas um “hit” é um “hit”.


No "tiro de caçadeira" isto é conseguido com muitas propostas feitas de uma só vez em vez de uma só abrangente. É como se fossem vários tiros de uma vez. Por exemplo, o classico:






“É uma pessoa que se chama algo como Sara, Lara, Luisa, Salomé, Sandra... Sim, Sandra não é? Era uma amiga próxima, da familiar talvez, ou alguém que, sim era a avó, claro que consigo ver claramente que era a avó, é uma pessoa já com alguma idade, mas com um ar muito afável...”


Nota: Ocasionalmente pode-se avançar com uma afirmação especifica. Se acertar, porreiro, é algo que ninguém esquece tão cedo. Se falhar, é minimizar a coisa, e passar à frente. Não será lembrado. Há ainda uma terceira técnica que consiste em insistir numa afirmação algo especifica e se vai insistindo até a que pessoa seja capaz de encontrar algo na sua vida a que ela se possa referir. O Ian Rowland chama-lhes “Push Statements”, ver tecnica 6,

4 - “Fishing and forking”: Andar à pesca e ramificar.

Andar à pesca é como o tiro de caçadeira mas mais lento. Largar perguntas com mais calma e observar a reação das pessoas. É o atirar a barra à parede a ver se pega.  Depois de pegar não largar e aprofundar. Agir como se se tivesse sempre tido isso em mente.

Enquanto não há nenhum sinal  de se ter acertado muda-se de tema, ramifica-se, e vão-se deitando mais umas hipoteses para o ar.

O sinal de se ter acertado pode vir conscientemente ou não, mas pode-se contar com ele. Toda a gente faz isso normalmente numa conversa se não tiver atenção especifica para não o fazer - e não é preciso pensar em algo complexo como o que se passa no pocker - uma pessoa pode por exemplo ir abanando a cabeça negativamente muito suavemente até  de repente parar e lançar um sorriso quando ouve a coisa certa, ou manter uma expressão tensa e relaxar de repente, etc. O que é certo é que as pessoas reagem quase sempre quando é dito algo com significado. Esta é a razão pela qual muitos videntes preferem estar a segurar a mão da pessoa - ajuda muito. Mas muitas pessoas vão mantendo o diálogo aberto, mesmo verbalmente. E a leitura a frio é isso mesmo. Um diálogo. Mas um que as pessoas não notam que estão a contribuir significativamente.

Esta é uma das técnicas mais importantes da leitura e frio e a usada mais vezes em espectáculos televisivos do género.

Por exemplo, o leitor a frio pode dizer “Ele está a apontar para o peito, talvez pulmões ou talvez mais abaixo, o estômago, ou...” ao que a pessoa interrompe “sim, morreu de ataque cardíaco” e o leitor continua, fazendo sua a resposta dada, como se tivesse sempre sabido de que era assim: “sim, morreu de ataque cardíaco, está a apontar para o coração, e....”


5 - A Ilusão da originalidade. Efeito Forer.

A maior parte de nós não sabe o suficiente sobre uma data de coisas em que afinal somos todos iguais. Ou quase. E sente no seu intimo que ninguém é realmente como si próprio. O tipo de coisas que nos levam a achar que somos excelentes condutores, que temos um sentido de humor acima da média levam-nos a achar que de certo modo somos únicos e especiais. Mas aqui a tecnica em questão não é o elogio para conseguir acertar, mas dizer aquelas coisas que dizem qualquer coisa a quase qualquer pessoa. O dom especial que era admirado quando eramos crianças e que nunca desenvolvemos, a caixa das fotografias desorganisadas, a peça de roupa que se rasgou ou o salto do sapato que se partiu num altura inconveniente, etc. Existe uma lista deste tipo de coisas prontas a usar aí pela Internet. E raios, como é que eles sabiam que eu tinha ainda guardada aquela chave de já nem sei o que é que abre?

E há sempre os dados estatísticos para aumentar as probabilidades de acertar só por saber a idade, o género, as tendências actuais, a classe social, etc.

O efeito Forer, que é o efeito em causa nas “afirmações tipo Barnum”, é então tirar partido deste sentimento de originalidade e da tendência de dar sentido especifico e pessoal a afirmações vagas. É a tendência das pessoas acharem que algo é com elas.

Muitas vezes as afirmações tipo Barnum aparecem numa classe à parte nas tecnicas de leitura fria e em vez da ilusão de originalidade. Eu segui a classificação do Prof. Richard Wiseman. Distingue-se da técnica do tiro de caçadeira porque não é tanto o carácter geral da afirmação que lhe dá o “hit”, mas o facto da pessoa lida percepcionar algo na afirmação como uma coisa única referente a si ou à sua vida.

Para além dos exemplos anteriores, posso acrescentar algo como: “estou a ver muita gente preocupada com uma doença ou acidente na sua infância, mas depois estão todos aliviados, foi só susto não foi? Não era assim tão grave mas na altura todos estavam muito aflitos.”

6 - Transformar limões em limonada. A arte de fazer o falhanço se transformar num “hit”.

Conforme se vão dizendo asneiras, é preciso ir reagindo apropriadamente. Falhou, é passar rapidinho à frente:

“Não. Claro que não, não me parecia mesmo, nem era nada o seu género que é uma pessoa tão recatada” ou “Não? Pois, bem me pareceu, mas era para tirar aqui uma coisa a limpo, continuando,”.

Mas existem mais estratégias e nem todas servem para as mesmas coisas. Outra estratégia será ir aumentando a inespecificidade da afirmação, tipo de uma viagem ao Porto passar para uma viagem ao norte até ser apenas uma viagem a uma outra cidade. Outra ainda é dizer que era uma afirmação metafórica, que por exemplo no caso da viagem não queria dizer viagem no sentido físico. Explicar por exemplo que se podia referir a uma alteração no curso da vida ou uma experiência. Há um grande numero de fugas e correcções possíveis.

Como no “push statement”, o executante da leitura a frio pode mesmo manter-se relativamente agarrado ao erro e insistir nele até que a outra pessoa faça sentido dessa frase. Se finalmente a pessoa descobrir qualquer coisa em que essa afirmação possa encaixar é um êxito extra ordinário já que dá a sensação que era algo que nem o próprio estava a compreeder. Como já referi, podemos quase sempre confiar na capacidade das pessoas de verem significados e pormenores pessoais em coisas que não têm nada a ver consigo. Às vezes é só insistir, já que se pedirmos para que percam tempo com isto se fazem verdadeiros milagres. Se não funcionar, pode-se sugerir que pode ter sido com uma pessoa próxima e/ou mandar ir pensar para casa porque alguma coisa deve ser, ja que “estou a ter uma imagem tão forte de...”. Dentro de umas horas será esquecido. Ficará apenas na memória o que estava certo. Como em tudo o resto.

O alegado psíquico pode ainda fazer um sumário da sessão mesmo antes de finalizar relembrando todos os “hits, o que vai fortalecer ainda mais a tendência para memorizar os resultados positivos, passando uma borracha psíquica sobre todas as tentativas que falharam.

O Ian Rowland sugere que em casos extremos de pessoas desconfiadas e quando a coisa começa a entornar se pode fazer uso das falácias conhecidas mas usálas ao contrário: Apelos para a ignorância, para “wishfull thinking” e explicar como “uma mente aberta pode tornar todos muitos mais felizes”. Ele acrescenta que muitos alegados psiquicos quando a coisa começa a complicar ainda mais eles podem dizer algo como “existem muitas coisas a bloquear como isto e aquilo e a leitura não vai funcionar consigo” e devolver o dinheiro prontamente.

Acabamentos extra.

O mesmo Ian Rowland acrescenta uma série de outras técnicas, não mencionadas pelo Richard Weiseman de que eu penso valer a pena a menção de pelo menos três:

1 - Afirmações não falsificáveis, ou seja, que não podem errar por serem do tipo: “deve” ou “deverá” como em “deve ter cuidado com a sua saúde”.
2 - Dizer às pessoas o que elas querem ouvir. Mas sem ser o elogio. Tipo: “vai tudo correr bem”.
3- Profecias que se cumprem a elas próprias (pelo menos enquanto forem lembradas que é o que interessa), por exemplo: “Vai passar a ter mais cuidado com a alimentação”

BIBLIOGRAFIA:

Ian Rowland, The Full Facts of Cold Reading
Richard Wiseman, Paranormality (no qual vem sugerida a leitura do livro de Rowland para saber mais sobre cold reading).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Vudopuntura.

Após milhares de milésimos de segundo de pesquisa, desenvolvi uma tecnica que irá revolucionar o mundo da pseudociência médica. A "Crónica da Ciência" em exclusivo único pública a revelação que irá revolucionar o modo como se faz pseudomedicina.

Usando pela primeira vez a produção de conhecimento acumulado nas pseudociencias, unindo pela primeira vez a Acunpunctura com a arte Vudo, heis que surge a Vodupuntura.

Somando Misteriosamente* o conhecimento asiático da Acupuntura com o conhecimento caribe do Vodu, a pseudomedicina do futuro emerge triunfante num mundo de conspiração tecnológica contra a sua saúde. Quando a medicina ocidental conspira para que passe os dias em casa com baixa, heis que pode voltar ao trabalho graças à Vudopunctura.

Não precisa de se deslocar ao consultório. Não tem riscos de infecções ou pneumotorax e essas tretas que foram relatadas na acunpuncura. E acima de tudo não causa dor.

É tudo feito no boneco Vudo e depois por Energias Misticas, o tratamento é comunicado ao Xi do seu corpo.

Não negue à partida uma pseudociencia só porque ela não faz sentido.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Interpretar a linguagem da pseudociência médica.

Pseudociência médica
Tradução
Holístico
Sem saber o que se passa  "por dentro". Que não compreende o funcionamento. Ver "abordagem de caixa preta".
Milenar/ antiga/ tradicional
Conhecimento fóssil. Pouco evoluída. Ver "apelo à antiguidade".
Funciona com outra filosofia.
Não funciona neste universo natural. Talvez noutro. Ver "pensamento mágico"
Que a ciência não explica.
Que a ciência refuta. Que não tem suporte nenhum para as suas afirmações. Ver "apelo à Ignorâcia".
E cada vez mais pessoas recorrem...
Que "não temos testes rigorosos que suportem isto mas estamos a conseguir convencer muita gente, seja mais um". Ver "apelo à popularidade".
"reprimidas pelo sistema de saúde moderno “científico”"
Ultrapassadas. Desacreditadas. Sem suporte empírico metodológico ou perigosas. Ver também  "teorias da conspiração".
"As medicinas alternativas também sao sistemas científicos culturalmente específicos que merecem respeito e também pesquisa"
Que "Na nossa visão do universo não há contradições já que basta acreditar para ser científico". Assim ciência e pseudociência são a mesma coisa. Significa algo como "Vale tudo, junte-se a nós que vai ser uma farra."

 Este quadro  - a coluna da esquerda - foi feito com recurso a páginas reais de internet de proponentes destas teorias para me "avivar a memória". As referencias das origens são omitidas porque são argumentos recorrentes, que não são usados apenas uns poucos.
Infelizmente a realidade não é aquilo que nós queremos que seja. É preciso muito trabalho para nos aproximarmos de uma descrição capaz. Querm um bom apelo emocional? Mas verdadeiro?
A Ciência Salva. Quase tudo o resto é placebo (há coisas que ainda não sabemos, e que podem ser uteís, mas essas... ainda não sabemos quais são, não é. Depois há é uns que acham que adivinham...)

terça-feira, 1 de março de 2011

O coração como pequeno cérebro e pseudociência relacionada.

Segundo me contaram, passou num canal qualquer num destes dias, um documentário que falava do coração como o "pequeno cérebro". Seria investigação nova e promissora e até me recomendaram que falasse dela aqui. Pois aqui vai:

Pelo que pude averiguar o termo "pequeno cérebro" tem origem num artigo de um senhor chamado Armour, escrito em 1994, que eu não pude ler, mas de que encontrei uma apresentação pelo mesmo autor(1). Tudo o que refere é que há neurónios no coração e à volta dele e que estes neurónios têm influencia na mediação do ritmo cardíaco. Nada de especial. Chama-lhe de facto "pequeno cérebro", logo no título, mas falha redondamente a dar uma explicação para tão pretensiosa denominação. Não há qualquer outra alegação extraordinária nessa apresentação, e títulos exagerados é algo a que estamos (infelizmente) habituados.

É que neurónios a processar informação (é o trabalho deles) há pelo corpo todo, assim como agrupamentos e redes deles, e se chamamos ao coração "pequeno cérebro" temos de chamar pequeno cérebro a qualquer rede neuronal que exista, desde os intestinos, à bexiga, passando pelos músculos, vários  plexos, aos  gânglios do simpático e parasimpático etc. Estaríamos cheios de pequenos cérebros (2).

De notar que o sistema nervoso autonomo simpatico e parasimpático são em grande parte responsáveis pela resposta cardiaca. Adiante.

Como disse, se considerarmos pequeno cérebro algo como plexos ou gânglios teríamos muitos mais pequenos cérebros. Por exemplo no blog Neurologica, o Steven Novella critica um autor que quer por o segundo cérebro no aparelho digestivo (3) onde a quantidade de gânglios nervosos e neurónios envolvidos é de facto enorme.

De resto sabemos que o "grande cérebro", o lá de cima, conta com os "pequenos cérebros" todos para construir um mapa do corpo e dar assim origem às emoções. As emoções são programas de acção corporais  desde as visceras até aos musculos que são mapeadas e processadas no cérebro em sentimentos de emoções. 

Resumindo, é tolice andar a chamar pequeno cérebro ao coração, senão pequenos cérebros havia muitos. Por outro lado, o cérebro, o verdadeiro, é capaz de um processamento de tantas fontes de informação diferente em paralelo e dar respostas tão globais em simultâneo que não faz sentido andar a falar em pequenos cerebros pelo corpo. Só temos defacto uma unicade de processamento geral, e na melhor das hipoteses cada hemisfério seria o mais próximo que temos de "pequeno cérebro".

A minha contestação ao nome não é por não gostar de metáforas. É porque não é mesmo adequado. E isso levantou a minha dúvida quanto ao resto do que poderia ter sido dito nesse documentário.

A procura pela origem do termo "pequeno cérebro" para designar o  coração, que afinal é uma alegação que tem cerca de 20 anos e não é fruto de nenhuma descoberta recente, levou-me até uma empresa chamada Heartmath (4). É aí que mais tarde ou mais cedo as referências vão dar e foi já a partir daqui que cheguei à apresentação do Armour.

 
A Hearthmath vende uma máquina que mede a variação do ritmo cardíaco e que promete atingir um estado de "coherencia" dos vários sistemas organicos através do seu uso. (mative o "h" extra em coHerencia para não confundir com coerencia que é o que falta aqui).


O termo  "coherencia" é aproveitado da mecanica quântica e é relativo à interferência de ondas quânticas de probabilidade. Coisa que é um fenómeno que não acontece à escala macroscópica mas que os autores decidiram usar de um modo que não dá para perceber quando estão a importar mais fenómenos quanticos para a biologia ou quando estão a inventar simplesmente ou até a dizer banalidades vagas. Coherencia para eles é a sincronização de várias funções vitais e da optimização das suas ondas ciclicas (!). Dizem que se atingirmos um estado de coerência que passamos a pensar melhor, somos mais criativos, etc. É só usar a tecnologia por eles descoberta. Existem de facto ritmos e variações de ritmo na fisiologia, mas o modo como propõe que esses ritmos se devem sincronizar e o que dizem que se conseguepor esse modo é absolutamente inédito. Infelizmente não me parece ter plausíbilidade nenhuma.

Todo o site da Heartmath cheira a pseudociência misturando factos ciêntificos com teorias originais pouco plausiveis (como esta da coherencia), que são fundamentadas em artigos por eles próprios produzidos ,  publicados em revistas tão pouco credíveis como o "Jornal of alternative and complementary medicine" e companhia.

O seu investigador mais referido  chama-se  McCraty e é ele que propõe a chamada coherencia fisiológica e diz coisas como " é postulado que conforme o numero de pessoas a adicionar energia coherente ao campo global, isso ajudará a estabilizar ciclos de feedback mutuamente benéficos entre os seres humanos e a própria Terra."(4)

E isto logo no primeiro artigo da lista de bibliografia que eles facultam para consulta. Este tipo de coisas requerem evidencias fortes para fundamentar. Fortíssimas! É uma alegação para além do extraordinário a precisar de evidencias mais que extraordinárias para justificar mandar a ciência tal como a conhecemos para o caixote do lixo e reformular tudo de modo a que afirmações como esta façam sentido. Não é o tipo de coisa que possa ser dita com se se estivesse a propor que correr cansa, e publicar em revistas de credibilidade duvidosa. A não ser que a credibilidade duvidosa lhes chegue e não precisem de persuadir um publico culto e exigente...


Mas há mais, muito mais.

Précognição: "parte da decisão e acção  empreendedora que não é baseada na memória ou raciocínio mas na consciência de uma informação vinda do futuro energéticamente codificada." (5)

Propor que a seta do tempo não existe, ou seja, que a causalidade possa ser direcionada para o futuro ou o passado, coisa que teria de acontecer para haver informação vinda do futuro, contraria tudo que sabemos, não só de fisica mas do conhecimento geral como ser dificil ganhar a lotaria, ser preciso estudar para passar exames, os casinos estarem a ganhar dinheiro, etc. Já para não falar do termo "enérgicamente codificada"...

Parece que têm ainda um plano para "medir efectivamente as ondas cerebrais e cardiacas do planeta Terra" (6). Em tempo real, dizem eles! (não vá haver dúvidas do que estão a fazer).

Dizem ainda que são uma instituição sem fins lucrativos, apesar de venderem uma série de coisas para que possamos levar uma vida mais centrada no coração.

Acrescento ainda que dei uma vista de olhos nos artigos que eles publicam para provar as melhorias reais no rendimento das pessoas. E que achei que eram muito fracos, por não serem duplamente cegos e não terem controle com placebo. Têm controle,  mas sem substituição por um placebo qualquer, o que à partida permite atribuir qualquer efeito de tratamento no estudo da "coherencia" ao efeito placebo. Sabemos que basta falar em histórias de sucesso antes de um exame para melhorar os resultados. Mas sinceramente acho que não vale a pena perder muito mais tempo com isto.

É apenas mais uma pseudociência. E citando directamente sem tradução só mais uma pérola irresistível:

"Research has shown that 0.1Hz is the human resonant frequency—the frequency at which spirit, heart, mind, emotions, and body are in resonant"

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Referencias:
(1)http://www.heartbrain.org/resources/2006hbsummitproceedings/articles/littlebrain_heart.html
(2) http://en.wikipedia.org/wiki/File:Gray838.png
(3) http://theness.com/neurologicablog/?p=118
(4) http://www.heartmath.org/research/research-publications/coherence-bridging-personal-social-global-health.html
(5) http://www.heartmath.org/research/research-publications/before-cognition-the-active-contribution-of-the-heart.html
(6) http://www.heartmath.com/about/institute-of-heartmath.html

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

E agora para algo completamente diferente: A Cabala.


Este video apareceu-me à frente na minha página do "facebook".

Tipicamente, alega que há algo que só eles sabem e que o sabem há milénios. Dizem que existe uma realidade para além da percepcionada e propõem explicar essa realidade através de cursos.

Do apelo à ignorância, segue um apelo à antiguidade. E depois claro, o apelo emocional.

Será que não é óbvio?

Nada sobre a parte mais importante. Que seria como "como" se conseguiu chegar a conhecer tal realidade. Como é que eles sabem aquilo? Como distinguem aquilo de uma fantasia?

Não, só dizem que sabem. Adivinharam, que é o costume. Qual a probabilidade de terem "acertado" realmente no que dizem? De terem adivinhado como é o mundo para lá dos sentidos? É realmente importante que seja diferente de zero? Ou é mais importante que seja estupidamente próximo de zero?

Mais próximo de zero que a probabilidade de acertar precisamente no numero de grãos de areia numa praia sem os contar?

Talvez  o que defina a ciência não seja o método em si. Mas é certamente algo que permite desenhar o método e permite responder à pergunta de porque é que sabemos determinada coisa e com que grau de certeza.

Podemos saber que existem electrões com o mesmo grau de certeza que a nossa chave no bolso abre a porta de casa.

E este é um dos pontos criticos deste blogue. Não é convencer ninguem da "realidade" cientifica. É ajudar a eliminar tretas só pelo cheiro.   :-)

Que eu de cabalar sei muito pouco. E nem quero saber. O que vi já chega.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A astrologia.

A astrologia é uma pseudociencia, que entre outras coisas diz que o dia em que nascemos marca a nossa personalidade. E que todos os dias apenas 12 tipos de dia diferentes vão ser distribuídos por cada pessoa pelo mundo fora.Um tipo de dia, semana ou ano para cada signo em que se nasceu.

Dizem que os astros são os responsáveis por essa predeterminação mas a forma como influenciam as pessoas é tão bem conhecida como o processo que  Noé terá usado para manter uma higiene mínima a bordo da arca.

Por uma razão igualmente desconhecida, não é a fecundação o momento determinante (2).  Parece que o útero materno é capaz de proteger o feto das forças astrológicas, mas uma vez que se dê o nascimento, haverá uma tendência vitalícia para pertencer a um dos 12 tipos de estereótipos descritos (e que por sorte correspondem mais ou menos à personalidade dos deuses romanos que deram o nome a planetas), e uma tendência perpetua para ter um dia parecido com o das pessoas todas que nasceram quando o sol estava naquela posição. Quer seja por cesariana ou por parto natural .

Aparentemente podemos dispensar facilmente qualquer tipo de força conhecida, uma vez que da disposição das pessoas na sala de partos não é importante. Eu explico: A gravidade seria a única plausível. Mas apesar da massa do cirurgião e ajudantes resultarem em campos gravíticos muito maiores que o de Plutão ou Urano, por estarem muito mais perto apesar de serem muito mais pequenos, parece que Urano e Plutão influenciam  as personalidades e o destino estas pessoas não.

Além disso, segundo alguns astrólogos, (e sem que se formem consensos acerca de coisas básicas como acontece nas ciências verdadeiras),  quase todos os astros contam. O que levanta o problema da recente descoberta dos 3 últimos planetas do sistema solar (Úrano, Neptuno e plutão não eram conhecidos na antiguidade,  altura em que os defensores desta crença garantem que já andavam a fazer previsões certinhas )  da perda de ranking de plutão (que deixou de ser  planeta ainda mais recentemente) e da existência de milhares de outros planetas e estrelas pela galáxia fora que estes especialistas parece nunca terem ouvido falar. Porque pelos vistos Plutão é mais importante que as luas de Júpiter.  Já para não falar no resto.

Como não conseguem mostrar que haja uma relação consistente entre as suas previsões e as personalidades(1) das pessoas, ou o que vai de facto acontecer-lhes a cada dia ou semana(2), os astrólogos começaram a ser cada vez mais vagos nas predições e mais gerais na descrição dos esteriotipos.

Se se fizerem previsões muito vagas ou como ainda está mais na moda, se se derem  apenas derem conselhos, é bem provável que se consiga um "hit". Ao contrário, se a previsão for muito especifica, é muito mais difícil acertar. Por isso é só fazer previsões muito abrangentes e um "hit" algures está garantido. Depois é só contar com a tendência natural do cérebro humano para reparar nos resultados positivos ou nas confirmações e esta o sucesso garantido. Se eu disser, "durante esta semana tenha cuidado com a condução e aproveite para fazer uma coisa que anda a pensar fazer há muito tempo", certamente que soará muito bem num horóscopo, mas são realmente banalidades. Coisas que se acontecer algo minimamente parecido nos vai fazer recordar do que lemos, (mas não do que também lemos e não aconteceu) , e aceitar que a previsão se concluiu.


Uma coisa do género: "Esta semana vai ser atropelado  num semáforo se não reparar que esta vermelho para os peões." Isso sim, era algo não só realmente útil, como testável.

No entanto, no meio de todas as questões que eu aqui levanto, a mais importante a perguntar a um astrólogo é a pergunta do costume. Uma pergunta que eu ando a insistir que deve ser feita sempre e para tudo desde que iniciei este blogue. Que é: "Como é que se sabe isso?" E se a resposta for um apelo `a autoridade, ou à ignorância... É treta.



Eu sou Gémeos, dizem eles. Vejam só a disparidade de coisas que prevêem hoje para mim no mesmo site:

Em: http://astral.sapo.pt/

"Carta do Dia: 4 de Copas, que significa Desgosto.
Amor: Acarinhe mais o seu par. Plante hoje sementes de optimismo, amor e paz. Verá que com esta atitude irá colher mais tarde os frutos da alegria.
Saúde: Não deixe que o seu pessimismo o faça entrar em depressão"

" SAÚDE: Dia muito positivo; disporá de tempo e ideias para viver um dia sem preocupações
AMOR: O bem-estar é a tónica do dia; vai conseguir superar dúvidas e transmitir grande afecto.
DINHEIRO: Pode sentir-se desconfortável perante alguns factos ou críticas mas hoje nada realmente o poderá afectar
HORA MAIS PROTEGIDA: 13h às 15h"


 "É possível que haja uma maior possessividade nos relacionamentos de intimidade. Procure não sufocar as outras pessoas, caso contrário afastá-las-á."

Notas:

(1)http://www.imprint.co.uk/pdf/Dean.pdf
(2) http://www.astrosociety.org/education/astro/act3/astrology3.html#defense



Existem vários estudos  que mostram que as previsões (no sentido cientifico) da astrologia são acasos como os referidos na nota 2. A favor encontrei poucos e apenas os de Michel Gauguelin parecem merecer alguma atenção, embora os resultados sejam bastante disputados e criticados.  Segundo Michel Gauguelin algumas correlações positivas entre posições de astros e sucesso pessoal foram encontradas, mas diferentes das previstas pela astrologia tradicional.. A mais famosa será o efeito Marte cuja refutação cientifica ainda não foi conclusiva. Refere-se à identificação da posição de Marte em determinadas posições no dia do nascimento de atletas bem sucedidos. Michel Gauguelin começou a sua vida profissional procurando bases cientificas para a astrologia e foi mudando de posição ao longo dos anos, chegando a atacar frontalmente muitos conceitos base da astrologia como por exemplo os próprios signos.

domingo, 28 de março de 2010

Acerca das lacunas e explicações "ad-hoc"

Entretido a pensar sobre a questão dos "níveis de realidade", tal como são propostos na Carta da Transdisciplinariedade assinada na Arrábida por Lima de Freitas e Basarab Nicolesco entre outros, vim a verificar outra coisa importante que também é comum com outras pseudociências.

Se procuramos criar buracos para abrir a realidade a explicações ad-hoc, intencionalmente ou não, por esses buracos vão passar uma data de outras coisas que certamente não estavam previstas aquando do postulado que criou esse buraco.

Se criamos buracos para passar uma explicação a gosto, então vamos abrir um buraco por onde caibam uma quantidade incrível outras coisas. Como os criacionistas de resto têm demonstrado
ao propor uma tecnologia superior à contemporânea à cerca de 7000 anos atrás ou genuínos dragões contra os quais humanos lutaram (ver o blogue do Marcus Sabino a este respeito. Eles acreditam tanto nas lacunas que criam que não se importam em muitos casos de chamar a atenção para que espécie de coisas que por lá passam - ou precisam para tapar outros buracos que abriram sem querer.

Quanto maior a lacuna, mais tretas por lá vão passar. Tretas que depois iniciam uma espiral de inconsistências que requer uma verdadeira cegueira intelectual para não ver. Se o buraco é gigantesco, e a metáfora do tamanho do buraco é ironicamente funcional, a treta é gigantesca. Se criamos um buraco para passar algo maior que o universo, a treta que passa nesse buraco é apenas limitada pela nossa capacidade de fantasiar.

Por poucas palavras, criar lacunas por onde passem Deuses omnipotentes, omnipotentes, omnipresentes e etc, dá lugar não a lacunas mas a majestosos buracos por onde passam todas as coisas mais pequenas que deuses - e sem o mínimo de dificuldade.

A minha crença de que os teólogos do momento não estejam a par do problema é forte. Isto tem-lhes sido atirado à cara quer em metáforas cómicas, quer em explicações sérias.

O facto de preferirem ignorar o problema de abrir para Deus dar abertura para todas as tretas, remetendo isso para que "tal é a vontade deus "( ou isso não é verdade porque deus não quer), diz muito sobre a questão. Não tem solução lógica.

E a saída é a fuga para a frente. Cá vai de atacar o Naturalismo e defender que há consistência num tal sistema lógico. Não há. Por muito completo que seja, porque em potencia explica tudo dizendo que é milagre não permite depois discernir a verdade ao nível mais básico.

Que é propor a um ser consciente que quando a fantasia e a realidade se podem confundir, um meio de resolver o dilema. E não me refiro apenas a deuses. Porque pelo buraco de onde passa um Deus passa tudo. Duendes, fadas, Reikis, etc.

Porque a fantasia, o palpite ou mesmo a "fezada" ficam indistintos da realidade do ponto de vista de validação do que é real. Considerando que uma coisa que é real porque existe na nossa mente, não é necessariamente real fora da nossa mente. Como o Elefante cor-de-rosa que neste momento estou a pensar.

Depois fica o apelo à credulidade para justificar. Porque a nossa é que é a real. E nós é que somos os tais que sabem reconhecer a palavra de deus ou são auto-revelados com o que deus quer.




terça-feira, 4 de agosto de 2009

Evidências Anedóticas

Em passeio pelo site da Associação dos Divulgadores de Espíritismo de Portugal, uma associação que tem como objectivo o oposto daquilo que eu pretendo com este blogue, chamou-me a atenção o simbolo da N.A.S.A.

Por baixo dizia assim:

"Sabia que...
Em experiências realizadas pela NASA, em Uberaba, Minas Gerais, Brasil, em 1978, o Engenheiro Paul Hild constatou que a aura de Francisco Cândido Xavier era sentida num raio de dez metros, enquanto a de outros médiuns pesquisados se ficou por alguns centímetros?"

Não tinha links para lado nenhum, por isso fui pesquisar. Em lado nenhum há mais informação que a que está neste texto. Não há referencias em Inglês nos resultados do Google. Este senhor, Paul Hild não aparece também na Wikipédia em Inglês.

Fico sem saber os materiais e os métodos usados, onde foi realizada a experiencia, quais os fundamentos teoricos suportados pela ciência em que se baseia e muito sériamente, se este senhor existe sequer.

Mas o que se passa é que quem quiser repetir a experiencia para confirmar os resultados e conclusões não o pode fazer. Tem de aceitar crédulamente que foi assim que as coisas se passaram.

E depois dizem que são uma ciência:

"O espiritismo é uma ciência filosófica de consequências morais. Como ciência, investiga os factos espíritas. Como filosofia explica-os".

Ha...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O estado das coisas.

A infiltração das pseudociências no meio académico é uma realidade preocupante.

Descobri esta nota através do blogue "Coletivo Ácido Cético" (1) a que aconselho uma visita.


"Nota de Esclarecimento Aprovada pelo Conselho da Unidade do IF em 15-06-2009

Os Professores e Pesquisadores do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul discordam profundamente do conceito de Ciência apresentado no evento intitulado "1ª Semana Ciência e Espiritualidade na Universidade”, infelizmente patrocinado por esta universidade de 8 a 13 de junho de 2009.

Cabe também esclarecer à comunidade que a utilização de pretensas noções de Física Quântica em encontros dessa natureza é fortemente rejeitada pela comunidade científica nacional e internacional da área de Física."

(1)http://coletivoacidocetico.blogspot.com/

Para a noticia da nota:
http://coletivoacidocetico.blogspot.com/2009/06/esclarecimento.html

O Bold foi colocado por mim

sábado, 6 de junho de 2009

Sociedade da Terra Plana. No coments.

http://theflatearthsociety.org/forum/index.php?board=12.0:

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March 05, 2007, 01:19:19 PM
Daniel
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Flat Earth FAQ - Read This!
Many thanks to joffenz for his hard work on this FAQ..Last update on 21/4/2009 by Jack.Welcome to the Flat Earth Society!Thanks for taking the time to go through this FAQ. It was created in light of the realization that for someone with a "round-Earth" (RE) background, the FE theory would appear at first glance to have some glaring holes.Recently we have had many new members joining us and asking the same questions about these holes, so joffenz decided to make a FAQ. While the original version was mostly complete, it's a work-in-progress, and we occasionally do make corrections based on inconsistencies that are raised.I'm just making a sticky out of it so that no one will have an excuse for starting a thread about a topic that's already been discussed and debated to death. It will be updated as necessary.DisclaimerThe opinions and beliefs expressed in any posts do not necessarily reflect the beliefs of The Flat Earth Society Forums.The Flat Earth Society Forums' goal is to promote the free discussion of The Flat Earth Theory as well as the free discussion of and debate of any topic of interest to our members that do not contradict Forum Rules. The views of any individual or organization (including that of the old Flat Earth Society run by Charles K Johnson) are not necessarily shared in whole

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Porque é que a verdade é importante?

Talvez a verdade seja algo inalcançável ao pensamento humano. Talvez, como dizem alguns filósofos, a verdade não exista. Talvez o mundo seja um engano, uma ilusão. Talvez vivamos todos dentro do universo da “matrix”. Talvez a verdade seja uma invenção humana, um conceito apenas consequente do pensamento humano, em que só existe verdade porque existem seres inteligentes para pensar sobre ela.

Seja como for, seja qual for a realidade em que se vive, tudo indica que tem regras; e que a realidade, tem pelo menos uma parcela inteligível, compreensível, a partir da qual se pode gerar conhecimento, fazer previsões, construir e planear, tudo coisas capazes de influenciar a nossa vida. E esse conhecimento corresponderá em certo modo, à verdade. Sendo a verdade a propriedade positiva de algo corresponder à realidade, no sentido mais completo e consistente que for permitido à mente humana alcançar.

A enciclopédia Britannica diz assim: (traduzido) “Verdade: Em filosofia, a propriedade de afirmações, pensamentos, ou preposições que são ditas, no discurso vulgar, de concordarem com os factos ou assertarem que esse é o caso.” (1) Depois continua dizendo que há quatro tipos principais de teorias da verdade que foram propostos.

Mas este texto não é sobre o conceito de verdade. Este é um blogue de ciência, não de filosofia, e a minha preocupação é apenas que seja claro o que escrevo. Pareceu-me no entanto relevante se ia falar sobre a verdade fazer uma pequena introdução ao conceito. Adiante:

A minha posição é simples. A verdade é importante. E é sobre isso de que se trata este "post".
Não é também sobre tolerância. Especificamente, a tolerância que devemos ter ou não ter em relação a crenças diferentes. Este ponto pode não ser muito claro, mas a explicação terá de ficar para mais tarde. Sumariamente: Tolerância - sim, é absolutamente necessária do ponto de vista social e pessoal. Substituir a verdade por qualquer crença imaginária em nome da tolerância - nem sequer é possível. Para já porque crenças há muitas e são incompatíveis umas com as outras.

Outro aparte que importa fazer, (e de que já tenho falado antes sobre diversas formas), usando uma expressão popular, é que não tenho, nem conheço quem tenha “a verdade no bolso”. Mas, mais uma vez, não é sobre isso que é o presente texto. Este é a apologia que tentar conhecer a realidade o mais possível e o melhor possível é importante.

Defender que a verdade é importante pode até parecer redundante. Pode parecer uma verdade auto-sustentada. Mas não é. Tenho visto que é possível construir um argumento acerca da validade de permitir (por "fechar os olhos") a crença de realidades imaginárias. Eu não estou de acordo.

Muitas crenças actuais criam sistemas conceptuais simples que confortam e apoiam as pessoas nas suas dificuldades do dia-a-dia. Na previsão do futuro, no tratamento das doenças, na aceitação da morte pessoal ou de entes queridos, na expectativa de riqueza, etc. De um modo geral aumentam a felicidade com base num sentimento de controlo ou protecção que é ilusório. O argumento hedonista, na minha opinião é fraco e por razões que vou tentar mostrar que são mais importantes. Mesmo sem argumentar que conhecer o mundo da melhor maneira possível e aceita-lo como ele é se pode traduzir directamente em bem estar (eu acho que sim e no fim cito Carl Sagan a este respeito), eu argumento que há coisas mais importantes que se sobrepõem ao argumento hedonista. Há muitas verdades que são dolorosas, inconvenientes, perturbadoras, preocupantes, etc, mas “meter a cabeça na areia” não é a solução. Porque a sensação de conforto é ilusória, a sensação de controlo é falsa, e as consequências podem ser lesivas para os outros ou para os próprios. Acreditar numa mentira é um caminho insustentável e fraco para o indivíduo e a sociedade. Seguir um caminho de procurar a verdade e encarar a realidade talvez requeira coragem, mas tem as suas compensações. É possível construir sobre a verdade.

Se aceitarmos que a mentira nos serve, estamos a abrir a porta à irracionalidade e à injustiça. A procura da verdade é importante porque é o garante da consistência do nosso mundo intelectual e cognitivo. Quero dizer, se a verdade não for importante e aceitarmos a mentira, então este mundo torna-se incompreensível. Não é possível construir conhecimento e tecnologia sobre a mentira porque ela é inconsistente. Só se for uma tecnologia inexistente, verdadeira apenas num universo paralelo, imaterial e inconsequente. Não é possível conhecer, porque o que se conhece é e não é, ou já foi, de acordo com os caprichos de cada um. O saber fica sinónimo de ignorância.

É possível lidar com a verdade, com a mentira não. A verdade é consistente, previsível, passível de ser estudada e compreendida (pelo menos até certo ponto). A mentira não. A mentira é mutável e imprevisível, variável conforme quem a produz e inconsistente. Resulta num mundo incontrolável e caótico. Se se aceitar a mentira, não pode haver justiça. Não pode haver ética. Porque qualquer um pode a qualquer momento inventar factos ou argumentos, sem que a sua validade seja importante.

Pode-se dizer que estes são argumentos consensuais e óbvios mas que não têm nada a ver com a argumentação contra as pseudociências e crendices variadas. Mas tem tudo a ver.

Porque a realidade é só uma e é o critério de verdade que interessa. Se vamos admitir umas mentiras e não outras, onde fica a linha divisória? Se muita gente acreditar em algo isso não torna esse algo necessariamente verdadeiro. Nem se muita gente acreditar que algo era bom que fosse verdade isso passa a ser verdade… E depois, pode-se vender uma mentira a alguém desde que essa pessoa pense que isso é verdade? Eu acho que não, porque se sim, então qual é a diferença entre vender a Lua e vender pozinhos mágicos?

E que justiça há entre uns terem de ser honestos e fazerem o melhor que podem nas suas áreas de trabalho e outros não; podem prever o futuro sem qualquer fundamento factual, apenas porque alguém acredita no processo? Porque pode um médico ser acusado de má prática quando falha, mas pode o praticante de uma qualquer medicina alternativa prometer o que não acontece? Que sentido faz tentar ensinar ciência nas escolas, se se aceita todo o lixo anti-cientifico como verdade?

Há quem argumente que algumas dessas crendices não fazem mal a ninguém. Mas eu acho que fazem. Inibem o sentido crítico e a vontade de conhecer. Resultam em confusão intelectual e em concepções enganosas do mundo. Resultam em prejuízos económicos pessoais e economias sem produção. Resultam em atrasos no tratamento de doenças, e efeitos adversos incontrolados. Resultam em manipulação de pessoas, na melhor das hipóteses não intencionalmente.

Porque não se há-de aceitar uma preocupação com a verdade e procurar quem tem provas daquilo que afirma, que baseia as suas decisões em estudos sistemáticos e fundamentados, que usa um conhecimento claro, público e acessível a qualquer um?

O ensino e a educação são das melhores ferramentas que se pode dar a alguém, tenho ouvido varias vezes. E estou de acordo. Aceitar que a verdade não é importante é ir contra a importância do ensino e ir contra a importância da ciência. É criar disfuncionalidades nessas ferramentas.

A verdade é importante no dia-a-dia, na vida, na sociedade e na ciência. Porque se não for, dificilmente algo mais é importante.

Para terminar:
"The world is so exquisite, with so much love and moral depth, that there is no reason to deceive ourselves with pretty stories for which there's little good evidence. Far better, it seems to me, in our vulnerability, is to look Death in the eye and to be grateful every day for the brief but magnificent opportunity that life provides."-- Carl Sagan, Billions and Billions, page 215

(1) “truth.” Enciclopaedia Britannica. 2008. Enciclopaedia Britannica 2006 CD. 25 Nov 2008