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segunda-feira, 28 de março de 2011

Simplicidade Revisitada.

Princípios de Simplicidade



A Lâmina de Occam, Elegância e Parcimónia



Um dos princípios mais unanimemente aceites em todo o processo do conhecimento humano parece ser o de que a simplicidade de uma explicação ou teoria é uma vantagem. Em vários aspectos, se não todos.



Desde filósofos a cientistas e até teólogos, todos ou quase todos, têm incluída na sua caixa de ferramentas a simplicidade. De facto, o seu primeiro enunciado é atribuído geralmente a Aristóteles e parece coincidir com os princípios do conhecimento em si mesmo (no mundo ocidental). A nossa filosofia nasce aí. Aristóteles disse:



“Quando todos os outros aspectos são idênticos, deve aceitar-se como superior a demonstração que deriva de menos hipóteses ou postulados”



Muito mais recentemente, Einstein dizia que “uma teoria deve ser tão simples quanto possível, mas não mais do que isso”.



Passando por Kant, Popper, Tomás de Aquino, Newton, Galileu, Lavoisier, são muitos os que têm defendido uma versão ou outra dos princípios de simplicidade no conhecimento. Têm sido princípios extremamente fecundos. A justificação de porque é que a simplicidade é uma virtude metodológica ou epistemológica é que é mais complicada. (E até mesmo se é uma virtude metodológica ou epistemológica ou ambas, mas isso está para além do âmbito deste texto.)



Embora os princípios de simplicidade estejam intrinsecamente relacionados e não sejam claramente distintos, a tentativa de os explicar obriga a que sejamos concretos (simples?) a dizer a que nos estamos a referir. E isso leva a criar definições. De acordo com os filósofos, logo numa primeira abordagem, temos de separar a simplicidade em dois princípios:



A simplicidade sintática ou elegância e a simplicidade ontológica ou parcimónia.



A simplicidade sintática diz respeito ao número e clareza das hipóteses que são necessários para a explicação.



E a simplicidade ontológica diz respeito ao número de novas entidades que temos de postular para explicar algo.



A Lâmina de Occam é vulgarmente considerada como referindo-se a simplicidade ontológica e é frequentemente enunciada assim: “As entidades não devem ser multiplicadas para além do necessário”.



Esta distinção é importante não só pelas tentativas de justificação serem diferentes, mas porque existe por vezes um compromisso entre um aspecto e outro da simplicidade. Digamos que ao acrescentar de um lado estamos a tirar do outro. E é preciso ver para que lado a balança pende.



Por exemplo: Dizer que o vento é o resultado de um ser mágico como a fada-do-vento, é uma explicação elegante. É sintaticamente simples. E é completa para o que se propõe. A vontade da fada explica o vento. Mas é uma explicação ontologicamente complexa, pois leva a ter de postular uma entidade extra para explicar o vento. Se tirarmos a fada da explicação, temos de nos socorrer de uma bateria enorme de outros conhecimentos para explicar porque há vento a soprar. É sintaticamente mais complexa. O equilíbrio da importância destes aspectos, qual é que valorizamos mais, também não é claro. Neste caso, a atribuição de intencionalidade a fenómenos naturais, o apelo ao sobrenatural, fez sentido como sendo a resposta mais simples, até muito recentemente, quando aspectos de uma explicação naturalista se tornaram evidentes.



O contexto em que se julga uma teoria é importante, obviamente. Aquilo que se sabe é importante. Para o que se sabia, digamos, há 6000 anos atrás, aquela resposta podia ser a mais elegante e a mais parcimoniosa possível – notar que os princípios não dizem que não podemos postular novas entidades, apenas que devemos evitar fazê-lo se para isso não comprometermos poder explanatório.



Para continuar com este exemplo e agora colocando-nos no contexto cientifico dos dias de hoje, este é um caso em que é fácil explicar a razão porque devemos preferir a simplicidade.



Como todos os mecanismos e entidades usados para explicar a deslocação de massas de ar à superfície da Terra estão eles próprios bem estabelecidos e provados, (assim como os passos intermédios), isto leva a uma situação “fácil” de justificar em que de um lado, temos a explicação científica, e do outro, a explicação científica mais a fada, em que a fada-do-vento aparece como uma entidade neutra, não interventiva – e portanto sem significado explanatório. Em suma, não faz sentido dizer que a fada lá está de qualquer maneira, apesar de ser igual a não estar para todos os efeitos. Vejamos:



A= explicação científica.



B= explicação científica + fada



A é melhor que B se ambas são iguais em tudo o resto. Porque assim, a fada não está lá a fazer nada. Acaba assim por tornar a teoria mais complicada do que aquilo que queremos explicar, e a isso chama-se complicar. E quem diz a fada, diz qualquer outra coisa que seja supérflua.



Podemos sempre adornar uma teoria com entidades a gosto se as fizermos neutras, mas se esse é o caso, porque o haveríamos de fazer? Não com a desculpa de estarmos a compreender ou a explicar melhor algo. Se a verdade é que essa entidade está de facto lá, sem fazer nada, é melhor dizer que então ela não pertence à explicação. Dizer que ela é neutra e passiva é também dizer que não há maneira de ter informação sobre ela. Se há maneira de saber, então vai haver mais tarde ou mais cedo uma diferença pratica entre os testes às duas teorias.



Mas casos tão claros como este não são a regra no meio da discussão científica e filosófica. As situações em que as teorias dizem exactamente o mesmo (ou fazem as mesmas previsões) são raras, e além disso é preciso pesar diferentes aspectos de como se mede a simplicidade e do que queremos com ela. A justificação de porque é que a teoria mais simples é a melhor, segundo Sober (1994) por exemplo, deve ser feita caso a caso – o que em última análise torna estes princípios inúteis, já que nos obrigaria sempre a ter outra justificação que não a simplicidade. O que a tornaria supérflua, pelas suas próprias indicações.



Haver outra justificação é de facto o que acontece a maior parte das vezes, mas a posteriori. Felizmente temos mais ferramentas. Que acabam precisamente por mostrar que a explicação mais simples era a maior parte das vezes, a melhor.



Os princípios de simplicidade são úteis desde a investigação policial ao diagnóstico médico. Apenas por vezes se torna difícil dizer qual a teoria mais simples:



Em que medida? Em termos ontológicos ou sintáticos, qual é mais importante? Em termos de quantidade, ou qualidade isto é, número versus variedade? E com que objectivos? Para decidir o ónus da prova, para saber que teoria tem mais probabilidade de estar certa ou para dizer qual permite um campo de investigação mais frutuoso? Ou para dizer qual está mais perto da verdade?



Podemos dizer que justificamos a simplicidade porque sabemos que funciona. Ou seja, usando a indução. Usamos como prova tudo o que se conseguiu explicar e prever recorrendo a estes princípios. Mas aqui caímos no problema de justificar a indução. E analogamente estamos a explicar a simplicidade com as coisas a que ela própria deu origem, o que é uma regressão infinita.



No entanto, se o universo se comportar sempre como até agora, (facto que se tivéssemos como certo seria uma justificação para a indução, pois a questão da causalidade estaria simplificada), não há grande perigo em depositar alguma confiança na simplicidade. Não há razão para acreditar que ela vá agora de repente deixar de funcionar. Pelo menos se além disso, o cérebro humano não perder a tendência natural que tem para complicar e que é compensada por esta crença na simplicidade.



Talvez estes princípios tenham de ser tomados mais correctamente como sendo pressupostos básicos para questionar quando soubermos o suficiente, mas não para já.



Esta crença é de tal modo difícil de justificar que Einstein dizia mesmo que era o que o cientista tinha de mais parecido com a fé religiosa. A crença na simplicidade.



A título de nota e para não prolongar este texto demasiado vou mencionar apenas o tipo das tentativas actuais de justificar a simplicidade:



De acordo com o princípio de simplicidade em causa:



1- Justificações a priori, metafisicas ou teológicas para a parcimónia e elegância

2- Justificações naturalistas e científicas para a parcimónia (simplicidade ontológica)

3- Justificações por estatística e probabilidades para a elegância.

Bibliografia: Entrada "simplicity" na Stanford Phylosophy Enciclopaedia on-line


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O ateu é ateu porque não quer acreditar?

Não creio. Eu pelo menos ponho a minha vontade de parte. Não acredito em divindades porque não há razões para isso. Procuro de facto não acreditar em Deus porque me dá jeito, mas daí a recusar a sua existência porque quero?

Não. De todo.

O Prof. Miguel Panão diz o contrário:

"No Cristianismo, se Deus transcende o mundo, também está nele imanente, implicando isso que está presente, e se está presente podemos fazer uma experiência dessa presença.Quem não a faz é porque a recusa na negação da existência de Deus , limitando deliberadamente essa experiência, não porque lhe seja negada a possibilidade de a fazer."(1)



Como é que é "deliberadamente" se o raciocínio  começa com uma afirmação injustificada e impossível de provar? Na qual assenta todo o resto?

Eu respondo antes que se Deus lá estivesse e se é possível senti-lo, eu então senti-lo ia. E mesmo que só possa sentir a Sua presença quem nele acredite, era preciso mostrar que não acreditar em Deus é uma escolha não condicionada pela evidência existente. Ou seja, que há tantas provas para acreditar como para não acreditar. Ora isto é falso. Se bem que a inexistência de provas não seja prova da ausência, de um modo geral, quando nós procuramos sistemática e metodicamente e não se encontram efeitos ou factos que sejam inequívocos dessa entidade temos de admitir que não existe. Se apesar disso insistimos que existe, então estamos a acreditar porque queremos, de facto. Mas para não acreditar basta aceitar a conclusão mais plausível de que as entidades não devem ser replicadas para alem do necessário.

É como dizer que as plantas têm consciência e só vê quem acredita. E que quem não vê é porque nega deliberadamente que essa experiência. Mesmo que não haja nada que sugira que as plantas têm consciência.

Ou ainda melhor, isto é análogo às roupas do rei. Mas o rei vai nu. Não me digam que eu não vejo as roupas porque decidi deliberadamente limitar essa experiência.

Agora imaginemos que Deus existe e eu não sinto isso. Que de facto podemos provar que Deus existe se sentirmos. Para já isto não tem confirmação independente, uma vez que por definição só sente quem acredita. Por outro lado, que culpa tenho eu de não sentir? É minha? Deus cegou o olho interior capaz de o ver, e a culpa é minha? É uma escolha deliberada? Acho que há aqui desonestidade intelectual ou muita distracção pela parte do Miguel.

(1)http://cienciareligiao.blogspot.com/2010/09/como-interagem-ciencia-e-fe.html?showComment=1284710481370

PS: Além do mais aquilo é completamente circular, pois era a reposta à pergunta de como é que sabe que ele existe. Logo está a dizer que existe porque sente. E justifica que sente porque existe. E que eu nego essa experiência "deliberadamente".

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Mistificação vs Lâmina de Occam

O Miguel Panão (1) acha que o Mistério ( a letra grande não é um lapso) é uma coisa boa (2). E que o Mistério é importante na nossa relação com a natureza e que é a saida para fora de nós proprios, no nosso aspecto mental.

O Miguel Panão faz orgulhosamente o oposto do que procura a investigação cientifica. Em vez de tentar compreender e simplificar o Miguel Panão tenta complicar e mistificar. Mas não abdica de dizer que o Mistério é uma série de coisas que lhe vêm à cabeça. Ainda que ache que são um Mistério. 

Nas suas palavras:

"A oposição da metafísica à ciência no racionalismo iluminista elimina o conceito de Mistério no seu sentido contemplativo, confundindo-o com o de enigma a resolver pela ciência, e a consequência é o défice relacional que se verifica entre o ser humano e a natureza. Aquela natureza à qual o naturalismo científico reduz toda a nossa existência, objectificada por ser considerada apenas no seu aspecto material, deixando de ser o portal que nos abre ao que está para além de nós mesmos (o seu aspecto mental), e que nos levou ao despertar da consciência no existir."

Estas coisas até têm piada, mas quando penso que podem ser levadas a sério fico um bocado preocupado.

A oposição da metafísica à ciência só existe se nós comfundimos aquilo que é metafísico, conceptual e emergente da nossa mente com a realidade. Se nós confundirmos o mapa com o território. 

A compreensão da natureza não precisa de nenhum Mistério em cima para não ter "défice relacional". Pelo contrário. Quanto mais conheço a natureza mais a aprecio. Mais beleza lhe vejo. Mas sou eu que vejo essa beleza nela. Há quem prefira cidades e arquitetura. Ou mistificá-la para a poder apreciar.

E um Mistério para sair de nós proprios para ter consciencia tambem me parece uma teoria frouxa. Talvez na parte em que um Mistério é um mistério não? E sair de nós próprios tambem me parece um mistério em si. Ja deu para perceber que Mistério é na realidade o que nos convém. Para quem não quer perceber e quer explicar as coisas como sendo Mistério. Sem explicar nada. Confuso? Não. É isso mesmo, repare-se na continuação:

"Recuperar o sentido de Mistério eliminado pelo mecanicismo do naturalismo científico passa pelo reconhecimento da unidade dos opostos quando os elevamos a nível superior de compreensão da realidade"

Ok... Portanto temos de aceitar esse Mistério mesmo que ele não seja observavel, descritivel, mensuravel, racionalmente dedutivel ou teoricamente demonstrável. Isto tudo para uma "superior compreensão da realidade". Há, e por causa do défice relacional com a natureza.

Isto não é compreender, nem explicar. Não há aqui nada para "comos" ou "porquês". Isto é mistificação. O oposto de tornar compreensivel. Não leva a lado nenhum nem a nenhum relacionameto ou a nenhum portal para fora de nós. Se houver um portal metafisico para fora de nós é por exemplo a procura exaustiva de conceitos que expliquem coisas que aconteceram há milhoes de anos atraz e a milhares de milhares de kilometros de distância. A compreensão da nossa mente. Da nossa biologia. Do nosso planeta. Sem tretas. Essa época do pensamento mágico e da treta insondavel apenas acedivel por alguns iluminados já foi. Pelo menos eu queria acreditar que sim, apesar das reminiscencias. 

A ciência não é um bicho de sete cabeças. O naturalismo também não. São tentativas exaustivas de explicar o universo da melhor maneira possível.

Sem postular desalmadamente Mistérios, duendes ou outras tretas. Este Mistério é uma entidade a mais.  Não é preciso para explicar, compreender ou apreciar a natureza. Só para mistificar.

(1)http://cienciareligiao.blogspot.com/

(2)http://cienciareligiao.blogspot.com/2010/01/dualismos-e-dualidades.html

Simplicidade.

Os princípios de simplicidade podem ser considerados dois: 

A parsimónia ontológica ou lamina de occam, que diz que as entidades não devem ser multiplicadas para além do necessário. 

E o principio de elegância ou lei da ecónomia que diz que entre explicações igualmente satisfatórias, a mais simples é provavelmente a correcta.

Embora pareçam semelhantes, uma é muito mais especifica e concreta que a outra. A lamina de occam é mais especifica e por isso mais fácil de compreender lógicamente. Que não devemos acrescentar entidades extra ao que é explicado sem as introduzir - é lógico. Se se mostrar que não pode ser explicado sem essas entidades, então temos que elas já não são desnesseçárias.

A lei da economia parece uma generalização da lamina de occam em termos mais latos. Mas não se consegue deduzir em termos lógicos da anterior. A razão pela qual ela é tão fecunda ainda não encontrou uma demonstração lógica completa. Existem no entanto várias tentativas que penso que nenhuma pode ser considerada definitiva. Por enquanto tem de ser considerada verdadeira por demonstração empírica. Quase sempre se verifica que a explicação mais simples era a correta. Em casos de policia, em diagnósticos médicos, em teorias ciêntificas, etc.

Estes são dos tais princípios filosóficos da ciência. São partilhados entre as duas se considerarmos limites estanques entre elas. Ou se estiverem de acordo comigo, são principios daquela area que é das duas, em que elas se fundem.

Conhecemos a simplicidade na filosofia, originalmente, não por William de Ockham mas sim por Aristoteles. Ele foi o primeiro que pôs um principio de simplicidade no papel. E tinha razão. 

Centenas de anos depois, Einstein formulava assim a simplicidade na ciência: "uma teoria deve ser tão simples como possível, mas não mais que isso". Dizia mesmo que se houvesse alguma coisa semelhante a fé na ciência era a busca da simplicidade.

Em senso comum existe a versão dos anglo-saxonicos que usam a sigla K.I.S.S. (Keep It Simple Stupid) que é um pouco insultuosa, mas fácil de memorizar.

Para saber mais sugiro a Standford Encyclopedia of Filosophy que me serviu de bibliografia para este post. Aqui:

http://plato.stanford.edu/entries/simplicity/