Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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segunda-feira, 28 de março de 2011
Simplicidade Revisitada.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
O ateu é ateu porque não quer acreditar?
Não. De todo.
O Prof. Miguel Panão diz o contrário:
"No Cristianismo, se Deus transcende o mundo, também está nele imanente, implicando isso que está presente, e se está presente podemos fazer uma experiência dessa presença.Quem não a faz é porque a recusa na negação da existência de Deus , limitando deliberadamente essa experiência, não porque lhe seja negada a possibilidade de a fazer."(1)
Como é que é "deliberadamente" se o raciocínio começa com uma afirmação injustificada e impossível de provar? Na qual assenta todo o resto?
Eu respondo antes que se Deus lá estivesse e se é possível senti-lo, eu então senti-lo ia. E mesmo que só possa sentir a Sua presença quem nele acredite, era preciso mostrar que não acreditar em Deus é uma escolha não condicionada pela evidência existente. Ou seja, que há tantas provas para acreditar como para não acreditar. Ora isto é falso. Se bem que a inexistência de provas não seja prova da ausência, de um modo geral, quando nós procuramos sistemática e metodicamente e não se encontram efeitos ou factos que sejam inequívocos dessa entidade temos de admitir que não existe. Se apesar disso insistimos que existe, então estamos a acreditar porque queremos, de facto. Mas para não acreditar basta aceitar a conclusão mais plausível de que as entidades não devem ser replicadas para alem do necessário.
É como dizer que as plantas têm consciência e só vê quem acredita. E que quem não vê é porque nega deliberadamente que essa experiência. Mesmo que não haja nada que sugira que as plantas têm consciência.
Ou ainda melhor, isto é análogo às roupas do rei. Mas o rei vai nu. Não me digam que eu não vejo as roupas porque decidi deliberadamente limitar essa experiência.
Agora imaginemos que Deus existe e eu não sinto isso. Que de facto podemos provar que Deus existe se sentirmos. Para já isto não tem confirmação independente, uma vez que por definição só sente quem acredita. Por outro lado, que culpa tenho eu de não sentir? É minha? Deus cegou o olho interior capaz de o ver, e a culpa é minha? É uma escolha deliberada? Acho que há aqui desonestidade intelectual ou muita distracção pela parte do Miguel.
(1)http://cienciareligiao.blogspot.com/2010/09/como-interagem-ciencia-e-fe.html?showComment=1284710481370
PS: Além do mais aquilo é completamente circular, pois era a reposta à pergunta de como é que sabe que ele existe. Logo está a dizer que existe porque sente. E justifica que sente porque existe. E que eu nego essa experiência "deliberadamente".
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Mistificação vs Lâmina de Occam
O Miguel Panão (1) acha que o Mistério ( a letra grande não é um lapso) é uma coisa boa (2). E que o Mistério é importante na nossa relação com a natureza e que é a saida para fora de nós proprios, no nosso aspecto mental.
O Miguel Panão faz orgulhosamente o oposto do que procura a investigação cientifica. Em vez de tentar compreender e simplificar o Miguel Panão tenta complicar e mistificar. Mas não abdica de dizer que o Mistério é uma série de coisas que lhe vêm à cabeça. Ainda que ache que são um Mistério.
Nas suas palavras:
"A oposição da metafísica à ciência no racionalismo iluminista elimina o conceito de Mistério no seu sentido contemplativo, confundindo-o com o de enigma a resolver pela ciência, e a consequência é o défice relacional que se verifica entre o ser humano e a natureza. Aquela natureza à qual o naturalismo científico reduz toda a nossa existência, objectificada por ser considerada apenas no seu aspecto material, deixando de ser o portal que nos abre ao que está para além de nós mesmos (o seu aspecto mental), e que nos levou ao despertar da consciência no existir."
Estas coisas até têm piada, mas quando penso que podem ser levadas a sério fico um bocado preocupado.
A oposição da metafísica à ciência só existe se nós comfundimos aquilo que é metafísico, conceptual e emergente da nossa mente com a realidade. Se nós confundirmos o mapa com o território.
A compreensão da natureza não precisa de nenhum Mistério em cima para não ter "défice relacional". Pelo contrário. Quanto mais conheço a natureza mais a aprecio. Mais beleza lhe vejo. Mas sou eu que vejo essa beleza nela. Há quem prefira cidades e arquitetura. Ou mistificá-la para a poder apreciar.
E um Mistério para sair de nós proprios para ter consciencia tambem me parece uma teoria frouxa. Talvez na parte em que um Mistério é um mistério não? E sair de nós próprios tambem me parece um mistério em si. Ja deu para perceber que Mistério é na realidade o que nos convém. Para quem não quer perceber e quer explicar as coisas como sendo Mistério. Sem explicar nada. Confuso? Não. É isso mesmo, repare-se na continuação:
"Recuperar o sentido de Mistério eliminado pelo mecanicismo do naturalismo científico passa pelo reconhecimento da unidade dos opostos quando os elevamos a nível superior de compreensão da realidade"
Ok... Portanto temos de aceitar esse Mistério mesmo que ele não seja observavel, descritivel, mensuravel, racionalmente dedutivel ou teoricamente demonstrável. Isto tudo para uma "superior compreensão da realidade". Há, e por causa do défice relacional com a natureza.
Isto não é compreender, nem explicar. Não há aqui nada para "comos" ou "porquês". Isto é mistificação. O oposto de tornar compreensivel. Não leva a lado nenhum nem a nenhum relacionameto ou a nenhum portal para fora de nós. Se houver um portal metafisico para fora de nós é por exemplo a procura exaustiva de conceitos que expliquem coisas que aconteceram há milhoes de anos atraz e a milhares de milhares de kilometros de distância. A compreensão da nossa mente. Da nossa biologia. Do nosso planeta. Sem tretas. Essa época do pensamento mágico e da treta insondavel apenas acedivel por alguns iluminados já foi. Pelo menos eu queria acreditar que sim, apesar das reminiscencias.
A ciência não é um bicho de sete cabeças. O naturalismo também não. São tentativas exaustivas de explicar o universo da melhor maneira possível.
Sem postular desalmadamente Mistérios, duendes ou outras tretas. Este Mistério é uma entidade a mais. Não é preciso para explicar, compreender ou apreciar a natureza. Só para mistificar.
(1)http://cienciareligiao.blogspot.com/
(2)http://cienciareligiao.blogspot.com/2010/01/dualismos-e-dualidades.html
Simplicidade.
Os princípios de simplicidade podem ser considerados dois:
A parsimónia ontológica ou lamina de occam, que diz que as entidades não devem ser multiplicadas para além do necessário.
E o principio de elegância ou lei da ecónomia que diz que entre explicações igualmente satisfatórias, a mais simples é provavelmente a correcta.
Embora pareçam semelhantes, uma é muito mais especifica e concreta que a outra. A lamina de occam é mais especifica e por isso mais fácil de compreender lógicamente. Que não devemos acrescentar entidades extra ao que é explicado sem as introduzir - é lógico. Se se mostrar que não pode ser explicado sem essas entidades, então temos que elas já não são desnesseçárias.
A lei da economia parece uma generalização da lamina de occam em termos mais latos. Mas não se consegue deduzir em termos lógicos da anterior. A razão pela qual ela é tão fecunda ainda não encontrou uma demonstração lógica completa. Existem no entanto várias tentativas que penso que nenhuma pode ser considerada definitiva. Por enquanto tem de ser considerada verdadeira por demonstração empírica. Quase sempre se verifica que a explicação mais simples era a correta. Em casos de policia, em diagnósticos médicos, em teorias ciêntificas, etc.
Estes são dos tais princípios filosóficos da ciência. São partilhados entre as duas se considerarmos limites estanques entre elas. Ou se estiverem de acordo comigo, são principios daquela area que é das duas, em que elas se fundem.
Conhecemos a simplicidade na filosofia, originalmente, não por William de Ockham mas sim por Aristoteles. Ele foi o primeiro que pôs um principio de simplicidade no papel. E tinha razão.
Centenas de anos depois, Einstein formulava assim a simplicidade na ciência: "uma teoria deve ser tão simples como possível, mas não mais que isso". Dizia mesmo que se houvesse alguma coisa semelhante a fé na ciência era a busca da simplicidade.
Em senso comum existe a versão dos anglo-saxonicos que usam a sigla K.I.S.S. (Keep It Simple Stupid) que é um pouco insultuosa, mas fácil de memorizar.
Para saber mais sugiro a Standford Encyclopedia of Filosophy que me serviu de bibliografia para este post. Aqui:
http://plato.stanford.edu/entries/simplicity/