sexta-feira, 12 de abril de 2013

Acerca dos problemas que temos para resolver.

Uma pessoa inteligente e bem informada respondeu à minha afirmação de que precisamos de abrandar o crescimento económico de modo a que este seja mais sustentável (e tenha menos precalços) com a seguinte questão:

 - Que problemas é que a humanidade teve para resolver que não tenha resolvido?

...Sério? Parece-me uma resposta francamente insatisfatória. Este post é uma resposta curta que penso que  toca nos pontos essenciais:

                                                                        ~oOo~

Eu sou um optimista. Não um optimista radical, mas um optimista moderado.

Não acho que vivemos no melhor dos mundos possíveis - como o optimismo criticado por Voltaire em "O Candido" -  mas também não acho que vivemos no pior dos mundos possíveis. O que acho é que vivemos num mundo que não tem mais mal que bem e que ainda pode ser melhorado.

E sou optimista porque vejo que muitas coisas estão a melhorar face ao passado e outras vejo em que podemos compreender o que está a correr mal. Isso quer dizer que temos tomado, em relação a muita coisa, uma boa atitude: aprender e corrigir. E que podemos continuar a fazê-lo.

Mas isso é conseguido a custo. E não quer dizer que só porque estamos no bom caminho num numero notável de coisas, que qualquer ideia apresentada agora, seja uma ideia que nos mantenha nesse caminho. Esse é um argumento que dá para tudo. Para o que presta e para o que não presta. Não nos diz nada acerca das soluções que temos de encontrar. E as soluções podem bem passar por fazer algumas coisas de outra maneira, porque desta actual já não dá.

Não é um argumento capaz de mostrar que se pura e simplesmente não alterarmos o rumo de algumas coisas, que vamos continuar a trilhar uma via de melhorias. De facto, por tudo o que sabemos, temos de continuar a usar as coisas que nos levam a decidir melhor - a via que envolve esforços racionais e fisicos, discussão aberta, etc. Se o passado nos diz alguma coisa é que podemos aprender algo acerca do processo de fazer previsões, escolher explicações e compreender os desafios. Não que não temos de fazer adaptações. Pelo contrário.

Só porque estamos a fazer melhor numa grande quantidade de coisas e a resolver muitos problemas, isso  não nos diz nada acerca de como devemos enfrentar alguns dos actuais problemas por resolver -  salvo o facto de termos uma razão forte para dizer que aprendemos muito sobre como pensar sobre eles.

Temos de usar tudo o que sabemos para saber o rumo a seguir. E como aparentemente temos conceitos diferentes de como deve ser esse caminho, a discussão deve ser centrada no processo de decisão e não num argumento que qualquer um pode fazer seu, de dizer que "temos resolvido tudo até agora, logo a solução há de aparecer se continuarmos a fazer o que estamos a fazer". A lógica aqui não segue. É como o senhor que salta do 12º andar e em cada varanda por aí abaixo o ouvem dizer "so far so good". Se fizemos muita coisa bem foi também porque deixamos de fazer muita coisa mal.

Se calhar a solução é precisamente admitir que podemos fazer melhor, ver para onde apontam as evidências e adaptar o nosso comportamento face ao que queremos do futuro. O nosso progresso não nos garante por si, afirmar que passivamente e mágicamente, que podemos pura e simplesmente deixar-nos ir em vez de continuar a procurar arduamente como devemos fazer as coisas.

Dos problemas que temos para resolver:

- Fome no mundo - cerca de 1 bilião de pessoas está subnutrida. É mais de 10% da população mundial.
- Em paises como Moçambique, Nigéria, Máli, Rwanda e outros a mortalidade infantial (antes do 1 ano de vida) ronda os 10%.
- Miséria para além de apenas fome, com ausencia de meios de saúde ou acesso a estes, habitação e condições dignas de vida para muitos seres humanos.
- Desigualdades - Embora a diferença entre quaisquer dois seres humanos seja minima, (há mais diferença entre qualquer humano e um chimpanzé, ou entre dois chimpanzés, que entre qualquer humano e Einstein,  por exemplo), as diferenças na distribuição da riqueza são gritantes (0,001% das pessoas tem 30%  da riqueza) . E isso tem consequencias na saude, bem estar e até na estabilidade da sociedade.
- O aquecimento global antropogénico (e os fenomenos extremos e secas que estarão associados).
- A poluição.
- O esgotamento de recursos naturais de um mundo cada vez mais povoado.
- A perda de biodiversidade.
- Desertificação.
- Ciclos de crises profundas e bolhas especulativas.

São apenas alguns exemplos. Alguns são relativamente novos, outros são absolutamente velhos.

Estes problemas não têm qualquer garantia que vão desaparecer por si se não mudarmos alguns aspectos da nossa actividade à face da terra. Claro que eu confio na ciência e tecnologia, mas não estamos à porta de desenvolvimentos tecnologicos para resolver tudo isto. A ciencia ainda nos deixa ver, que em alguns casos, o melhor que podemos fazer agora, é moderar o nosso comportamento. Respeitar mais o ambiente, assumir a importancia de cada ser humano por si e de toda a vida. E de aceitar uma responsabilidade que temos também para as gerações futuras e o que vai em cima da bandeja que lhes damos.

PS: E claro, ninguém está a sair daqui com vida. Mas isso é algo que talvez possamos aspirar daqui a muitos , muitos avanços cientifico-tecnológicos...

Actualizado a 14/04/2013 para acrescentar a história que levou a este post e a miséria, desertificação e os ciclos de crises nos problemas por resolver.

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