quinta-feira, 10 de maio de 2012

Mais uma revisão da acupunctura


Este é um “post” longo, mas para me dirigir a todas as questões que são pertinentes na avaliação da acupunctura, num contexto em que esta é uma pratica extremamente popular, parece-me necessário. Espero que valha a pena o esforço do leitor. Procuro responder às defesas mais recentes dos acupunctores face aos céticos e sem prejuízo da minha postura cética quero começar com o seguinte “disclaimer”:
Eu não penso que espetar agulhas não tenha nenhum efeito (espero que não haja para aí amigos do “quote mining”). Não é plausível – se não houvesse nenhum efeito não sentíamos as picadas. A quebra da integridade dos tecidos, só por si, deverá levar a alguma reação por parte do organismo.  A própria sensação da picada e a dor moderada associada a esta, deverá causar alguma distração do foco da atenção, libertar endorfinas e confundir a perceção que temos do nosso próprio corpo. Mas aqui estou a divagar. Eu penso que não é isto que importa – se há algum efeito, seja qual for, ou não:
Penso que o que importa é se existe realmente benefício clínico obtido especificamente pela prática da acupunctura. Isto é, se existe efeito com significado para o doente e um que não possa ser obtido de outro modo mais simples e prático. Isto implica avaliar não só os resultados finais do procedimento do acupunctor, como também a possível explicação que haja para estes resultados. Se os benefícios, a existirem,  não vêm de onde a acupunctura diz que vêm, não só faz pouco sentido usar a acupunctura para os justificar, como devemos encontrar um modo de os reproduzir com a explicação correta.
Como isto não é um assunto fácil, convém antes de mais nada sermos claros. Temos de saber do que estamos a falar e não andar a misturar as coisas. E eu neste “post” não me refiro a formas mais recentes de acupunctura, como por exemplo a electroacupunctura. Uma coisa de cada vez. Porquê? Por um lado, porque é muito diferente meter eletricidade ao barulho do que não meter, seja no que for, por outro porque pode não fazer sentido acrescentar acupunctura à eletroestimulação:
Se não houver bases para a justificar a pratica de acupunctura, dificilmente se pode fazer o argumento de que há para justificar a de eletroacupuntura, pelo menos de um modo que a distinga da eletroestimulação. E para fazer essa distinção, precisamos de testes desenhados para esse efeito especifico e, embora não me pareça que  existam muitos estudos promissores (dentro dos que cumprem determinadas critérios de rigor), não é o assunto que está neste “post” em estudo. Mas se não se distingue eletroacupunctura de eletroestimulação, devemos optar pela explicação mais simples: é de que é a eletroestimulação que está a atuar.
Podemos sempre adornar uma teoria com entidades e explicações supérfluas sem alterar o seu resultado prático. Podia dizer, por exemplo, que as marés existem porque há Duendes que fazem a água andar para frente e para trás. À resposta de que é por ação gravitacional da Lua, eu podia responder que sim, que essa está lá mas é que essa é uma explicação reducionista, que os Duendes estão lá na mesma a ajudar.
Mas que é que isso acrescentava? Nada… Por isso, sabemos desde os princípios da filosofia que se “A” explica o mesmo que “A mais x” é porque o “x” não explica nada (1). Eletroacupunctura precisa de explicar mais que só o feito pela parte “eletro” para manter a parte “acupunctura” com alguma relevância. E por outro lado, pela mesma razão, se a eletrocupuncura funciona para alguma coisa, isso nada diz acerca da acupunctura por si só.
Por isso repito, não é sobre essa evidencia, acerca da eletroacupuncura, que eu proponho ponderar e pensar agora. Agora é a parte “acupunctura” apenas, tal qual nos é apresentada. Apenas quis deixar uma explicação clara e objetiva para não abordar a vertente eletro e não querer misturar as coisas.
Pretendo sim mostrar porque mantenho o ceticismo relativo à acupunctura mais tradicional,  a “unplugged”, deixando ligações para o que dizem os testes empíricos mais rigorosos e salientado que existe um trabalho de revisão cientifica  (5.1 ) já feito, que me permite não me preocupar em reunir tudo o que se sabe, (todos os testes) e me deixa ir direto ao que me interessa.
Mas agora comecemos pela teoriaA teoria fornece o suporte “à priori” de qualquer teste. Dá o contexto em que este deve ser lido. Testes estatísticos com valores de p usuais  favorecem falsos positivos (2 e 3), por várias razões e por isso existe uma defesa cada vez maior em que se use também  a estatística bayesiana. Por isso é importante de qualquer modo avaliar a plausibilidade, ver para onde aponta a evidência que já temos. No fundo fazer como Sagan tão eloquentemente colocou: “afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias”(3).
E é logo aí, na apreciação da teoria da acupunctura, que começam os problemas. A ciência contemporânea, explica muito satisfatoriamente o que é a vida, a homeostasia, e as diversas causas de doença ao ponto de não fazer falta recorrer a Qi ou meridianos de qualquer espécie. Novamente, por uma questão de simplicidade, faz sentido cortar a explicação supérflua. Não faz falta para explicar nenhum facto conhecido. Ao fim de mil anos de existência, é um bocado pouco. Igualmente não faz sentido racional apelar ao “Qi das lacunas”, isto é, andar à caça de pormenores onde o conhecimento cientifico não é muito bom e dizer: “não sabemos, logo é o Qi!”.
O dizer que o Qi existe é francamente uma afirmação extraordinária num contexto cientifico.
O que se poderia passar de qualquer maneira era, apesar de não ter uma explicação razoável, ainda assim, a acupunctura funcionar. Muitas descobertas científicas acontecem por acidentes, numa altura em que ainda não se esperam nem se sabe porquê. Podia ser o caso. Houve uma altura onde uma grande quantidade de testemunhos levavam a suspeitar disso. Porque durante algum tempo a acupunctura sofria de falta de testes rigorosos a seu respeito. Não se sabia como fingir o processo de espetar para fazer um controlo. E estudos duplamente cegos em que quem espeta também não sabe se está no tratamento ou não são muito difíceis de fazer pela mesma razão. Já para não falar que testes duplamente cegos são tipos de testes recentes. O problema de se é da acupunctura ou é de todo o ambiente envolvente que vem o efeito, não estava resolvido.
Mas recentemente surgiram algumas soluções para este problema. O placebo da acupunctura, ou seja, aquilo que deve replicar o tratamento em tudo menos nas alegações especificas em estudo foi feito de 2 maneiras: Com as agulhas espetadas fora dos locais tradicionais e picando sem espetar, quer recorrendo a palitos ou agulhas retrateis, quer recorrendo a uma bainha a tapar a agulha (4).
os resultados desses estudos mais recentes e mais bem desenhados são pouco convincentes para suportar alguma eficácia da acupunctura (5.1). De um modo geral, mostram que a acupunctura verdadeira ou falsa tem o mesmo significado, se bem que seja melhor do que não fazer nada (mas isso não é um placebo decente) (5). Então, alguns defensores da acupunctura deram voz ao argumento de que  havia ainda mais maneiras de fazer acupunctura. Como se pode picar à sorte optaram por dizer que funciona até em outros pontos. Em infinitos deles, aparentemente. Como se uma companhia farmacêutica concluísse, num estudo em que o efeito placebo foi igual ao tratamento, que afinal não precisava de pôr sequer principio ativo no comprimido para ele funcionar.
Porque é que eu posso fazer este paralelo? Porque se espetando ao acaso eu tenho o mesmo efeito, é porque as alegações especificas da acupunctura não são devidas a existir nenhuns pontos úteis especiais ou meridianos discretos a que se tenham chegado ao longo de milénios de estudo. Tanto faz onde se espeta. O efeito que existe é replicado por espetar ao calhas ou só picar. Sugere fortemente que é por outra coisa qualquer. Que poderá ter apenas superficialmente a haver com a acupunctura. É para isso que serve o placebo. É para controlar a experiência e testar alegações específicas tentando isolar o resto dos fatores. E neste caso, falsifica as alegações de haver pontos ou regiões que sejam, especiais. E isto era um ponto central da teoria.
Se dissermos que os pontos estão em todo o lado, e os meridianos estão em todo o lado, eles passam a ser entidades tão vagas que, ao não fazerem afirmações testáveis, deixam de ser úteis. Passam a ser como os Duendes que movem as marés ao mesmo tempo que a Lua e que não muda nada quer estejam lá ou não. Afinal, temos muitas causas de doenças conhecidas capazes de fazer previsões e explicar situações. Parece-me  normal ver que  a acupunctura, vinda cristalizada de milénios, não pode dizer algo para lá do que se sabe hoje, depois de tudo o que se sabe de genética, teoria dos germes, imunologia, etc. Não podemos aceitar agora meridianos que estão em todo o lado como solução para se ter falsificado a sua previsão quanto aos pontos de acupunctura. Porque isso só está a tornar a sua definição mais vaga e a fazer entrar a acupunctura definitivamente no reino da pseudociência – de facto, depois de Imre Lakatos, sabemos que é o programa de investigação degenerativo (com soluções ad-hoc para as anomalias e perda de capacidade de fazer previsões testáveis que levem a novas descobertas) que é a marca da pseudociência (6).
Resta, de qualquer modo, apresentar uma explicação para os resultados da acupunctura serem quase sempre superiores a outro placebo qualquer que não reproduza a encenação da acupunctura. Será que podemos dizer que funciona mesmo sem espetar desde que a pessoa acredite? Então o que está a funcionar? É a acupunctura e os seus infinitos  meridianos  sensíveis ao toque acabados de descobrir em pleno ocidente científico?
Não é a melhor explicação, se me perguntarem. Existe outra explicação,  consistente com os resultados e com o resto do conhecimento científico para além  de já relativamente bem estudada. Isso faz  ser uma explicação mais simples e mais elegante (elegante no sentido usado pelos cientistas). Vou tentar explicar:
A melhor explicação é a sugerida pelos ensaios em que o placebo da acupunctura é igual à acupunctura. O que estamos a ter é efeito placebo. E o que sabemos sobre o placebo encaixa aqui muito bem. O problema da acupunctura, para ser considerada uma ciência, e levada a sério pelos céticos, é que precisa de se distinguir significativamente do efeito placebo. Não só da sua própria modalidade placebo, mas do que é um placebo como regra geral.
Existem vários graus de efeito placebo, conforme a força da crença do paciente e como é induzido. É influenciado pelo preço (7.1), pela marca no rótulo dos comprimidos (7.1.1), pela forma da administração, etc. Tendo este facto sobre o placebo em conta, podemos ter uma explicação elegante para justificar os resultados obtidos geralmente pela acupunctura. O que parece é que a acupunctura é provavelmente um excelente placebo. Se o que conta é o que a pessoa sente, então sim, a acupunctura parece ser um processo capaz de levar à satisfação com a terapia, pelo menos no curto prazo, já que a longo prazo o curso normal da doença não será alterado. Não altera fatores objetivos, mas parece ter influência na perceção de alguns tipos de dor (ainda que só tenha um bem provado) e na sensação de melhoria. Tal como o efeito placebo.  Têm os mesmos efeitos (sensação de melhora, maior eficácia na dor), as mesmas limitações (não atuam sobre as causas e entidades discretas) e são consistentes com a mesma explicação. Mais uma vez, por occam, tentemos encaixar as peças do puzzle.
E o efeito placebo é algo que é suficiente? Vale a pena por si? Há alguns problemas e o efeito placebo está relativamente bem estudado:
O efeito placebo é muito mais um efeito de perceção do que um efeito real (7.2, 7.3). As razões que o levam a ser tão facilmente  manipulável (de facto a ciência procura efeitos acima do placebo e isso é que é mais difícil) é a mesma razão pela qual ele não é de confiança. Quando são avaliados objetivamente os problemas de saúde, a gravidade da doença não muda por causa do placebo. O placebo pode levar a pessoa a achar que está melhor, mas na realidade não está. Os tumores não reduziram, as bactérias não diminuíram o seu número, os asmáticos não passaram a ser capazes de aumentar o volume de ar respirado, etc. O placebo não atua, pelo menos significativamente, sobre as causas das doenças. Repito, é um efeito sobretudo na perceção.
Por isso, o último reduto de muitas terapias alternativas é a dor e a náusea, coisas relacionadas com a perceção. Na realidade, não há modo rigoroso de avaliar a dor, é sempre por auto-relato. Logo, são áreas bastante dadas ao efeito placebo.
O que o paciente sente é importante. Disso não haja dúvida. Mas existem outras maneiras de o fazer acreditar na terapia e sentir-se bem. E talvez o estudo de como isso se consegue na acupunctura consiga dizer algo sobre como se deviam tratar sempre os pacientes. Quero dizer, com delicadeza e simpatia.
Dito isto, a acupunctura parece ainda ter uma aplicação para a qual encontra resultados positivos consistentes, como já aludi. É a dor cervical. Porque isso acontece não sei dizer. Talvez haja ali de facto um local especial que mediante a estimulação física liberte endorfinas. Mas porque só ali, ainda é um mistério. Não estranho se se descobrir depois que era um artefacto. Seja como for não podemos esperar que espetar agulhas em qualquer lado seja rigorosamente igual a espetar noutro qualquer. Se espetarmos num olho ou numa bochecha é garantidamente diferente num lado e noutro. O que isso não tem nada a ver é com a acupunctura.
Em baixo encontram-se uma série de artigos que uso para fundamentar as afirmações aqui feitas. A crença é livre e cada um pode acreditar no que quiser. Mas podemos formar a crença no sentido das evidências ou noutro sentido qualquer que nos apeteça. Eu proponho que se sigam as evidências.
Bibliografia:
(1) principios de simplicidade, como por exemplo a lâmina de occam remontam à Grécia antiga: http://plato.stanford.edu/entries/simplicity/
Acerca de falsos positivos, estes têm sempre de aparecer algures – cuidado com o Cherry Picking:
(2) Relevância do valor p num universo onde há poucos estudos ou há grande bias e os resultados negativos não recebem atenção  - gera falsos positivos sobretudo se usarmos p<0,05 (95%). Aponta para a necessidade de usarmos estatística bayesiana:
http://www.plosmedicine.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pmed.0040215
(3) Idem, inclui explicação mais detalhada de porque a probabilidade à priori é importante, já que implica deitar fora toda uma data de outra evidencia bem colhida em detrimento de uma pequena contradição que pode ser um falso positivo: http://dl.dropbox.com/u/1018886/Bem6.pdf
(4) Existem vários artigos a falar do assunto, e como não é um tópico de controvérsia não me vou debruçar muito no assunto mas por exemplo: http://en.wikipedia.org/wiki/Acupuncture#Sham_acupuncture
(5) Eficácia da acupunctura:
(5.1)Revisão sobre numerosos estudos de acupunctura que conclui que não se encontrar evidencia convincente que seja útil para a dor, excepto eventualmente dor cervical: http://www.painjournalonline.com/article/S0304-3959(10)00689-5/abstract
(5.2) Estudo da Cochrane publicado (no BMJ) em 2009, naturalmente incluído na ultima revisão de Ernst e que não encontra diferença relevante entre placebo e acupunctura: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2769056/?tool=pmcentrez
(5.3) Estudos que não encontram diferença significativa entre falsa e verdadeira acupunctura:
Com agulhas que se retraem ao toque na náusea:
(5.5) Para sintomas associados ao cancro da mama: http://jco.ascopubs.org/content/25/35/5584.abstract
(6.6) Sem quase espetar (minimal needling), nas dores de cabeça: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1046/j.1468-2982.2001.00198.x/abstract
(5.8) Estudo que mostra não  haver diferença entre falsa e verdadeira e que sugere  a diferença está na crença (efeito placebo) que conseguimos criar no paciente: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/acr.20225/abstract
(5.x) A diferença está no tratador, não no tratamento:
(6) Lakatos e a sua abordagem do problema da demarcação, considerado o melhor e mais atual:
(7) Placebo,
Estudo publicado na JAMA que mostra a variação do efeito placebo com o preço:
Revisão que conclui não haver efeitos clínicos relevantes do efeito placebo, sendo que a perceção do paciente não é considerada neste caso um efeito clinico. O efeito placebo aparece como sendo ligado à perceção e a questões onde a perceção é mais importante como a dor. Ainda assim mesmo no caso da dor, existe uma grande variação nos resultados:
Estudo que mostra que placebo e acupunctura dá origem aos pacientes relatarem o mesmo grau de melhoras mas que tal não coincide com o que está realmente a acontecer: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1103319
(7.3)Relação entre o placebo e a marca e roltulo: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM200105243442106

domingo, 29 de abril de 2012

Laurence Krauss, "A Universe From Nothing" comentário final.

Para uma abordagem e defesa do conteúdo ler aqui. Este é um pequeno post apenas para deixar a minha opinião de que o livro merece ser lido por todos.

Não é de todo verdade que, para além do titulo, o livro prometa termos verdades absolutas e respostas finais. O que promete, e entrega, é uma explicação plausível de que podemos não precisar da vontade de ninguém para criar o universo. E de que tal como vimos na evolução biológica, algumas coisas mais complexas, provém de outras mais simples. Pelo menos em espécie.

E o "overstatement" no titulo eu penso que se justifica. Apesar de tudo é apenas um titulo e é sobre este tema que o livro se debruça. E é essa a possibilidade que, embora não sendo publicada pela primeira vez, aparece aqui explicita de um modo que pode ser acessível a todos.

A inteligencia de Krauss e o seu empenho no procura de conhecimento são contagiosas. A prosa (no original) é clara e o livro peca apenas por alguma redundância que eu penso dever-se a um excesso de zêlo pela divulgação.

Quem quiser continuar a acreditar em criação divina depois de o ler, poderá continuar como sempre agarrado às suas convicções. Mas ficará a saber que é possível que tenha sido de outra maneira. E que é para lá que as evidencias empíricas apontam, mesmo se falta muito para "saber tudo"...



sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pensamento analítico compete com crença religiosa.

Quando se obriga as pessoas a serem mais analíticas, sugere um novo estudo, a crença religiosa sofre. Não talvez no longo prazo, mas no momento em que esse esforço está a ser dirigido.

Isto vem em linha paralela com outra coisa que já sabíamos, de que se pode ser cientista e ter fé. O que não se pode fazer é as duas coisas ao mesmo tempo. Elas não jogam uma com a outra. São pensamentos diferentes, guiados por princípios diferentes.

Esta semana ouve um outro estudo que sugere que o pensamento analítico é aumentado ao pensar em outra lingua que não a materna.

Gostava agora de saber se pensar numa língua que não a materna pelo processo de aumentar o raciocínio analítico reduz a propensão para acreditar pela fé. A coisa devia funcionar.

Via Publico, aqui


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um Universo Vindo do Nada.



As críticas ao livro de Lawrence Krauss com este nome estão previstas logo na introdução.

 Aquilo a que ele chama nada já não é aceite como sendo nada. Porque já é algo, nomeadamente espaço, de onde surgem as coisas. Ele no entanto argumenta que espaço vazio é um nada tão nada quanto é possível ser nada. É um nada tão bom como sempre foi.

Nem porque haja já as leis que permitem que exista espaço vazio e de onde por sua vez as partículas possam começar a pular dentro e fora da existência, isso já é algo - insistem os críticos.
Mas por este andar, se nada é definido como sendo mesmo nada, sem sequer existirem possibilidades de virem existir coisas, então nunca existiu nada. Porque estamos cá.

Muito menos um nada cheio de deus. Seja o que for que seja o nada mais nada a que nos podemos referir, com ou sem deuses, tem de incluir a possibilidade de sofrer a entrada na existência.  

Voltamos atrás. É que nada em termos absolutos, não existe. É o que diz a palavra. Nada. Por definição e por lógica. Se o nada não existe, algo deve pelo menos manter a possibilidade de vir a existir. Se não houver nesse nada essa possibilidade, (com ou sem deuses), então não estaríamos aqui. E é plausível que estejamos aqui, mesmo que tudo seja uma ilusão. Como dizia Descartes "penso logo existo".

Se disserem, não foi o nada que tinha esse potencial de entrada na existência. Foi Deus. Então é caso para dizer que se Deus não é nada então nada não serve para descrever o momento anterior à existência ter surgido. Antes havia Deus e não nada. Estaremos então de acordo que havia algo. Tem sempre de ter existido algo. 

Insisto: Porque nada, nada não existe.  Nunca pode ter existido, a não ser que ainda hoje exista. Mas é como dizer o não-existe existe. Não serve para... Nada. E como negação da existência de outras coisas, como conceito relativo, como em "nada de nada" ou "nada de tudo", vamos ter sempre de chegar a um ponto onde não podemos negar a possibilidade da entrada na existência de algo. E creio que é nesse ponto que o livro de Krauss nos deixa.

Isto tudo para dizer que temos sempre de ter cuidado com o que queremos dizer com o conceito de nada. Que a nada faz referencia...

O universo nasce da possibilidade de uma flutuação quântica.  Daí surgem partículas. Claro que é um grande pontapé no sobrenaturalismo (tal com diz Dawkins). É uma afirmação bem sustentada pela teoria cientifica e aponta para um principio onde estamos bastante perto de não haver nada. Acrescentar um deus para um principio tão simples é complicar as coisas. Bastante.  Para a simplicidade de existirmos porque apenas podemos existir não precisamos de juntar nada ao kit de construção que seja complexo e com vontade própria. Isso é bastante mais longe de ser nada.

Talvez venhamos a descobrir porque temos estas leis que permitem que apareçam partículas do espaço puro. E depois porque existem essas leis que permitem as outras leis. E por aí fora.  Mas nesse sentido vai ter de haver sempre algo.

Mas ao que tudo indica não estamos a caminhar num sentido de precisar de nadas omnipotentes e omnipresentes, nem que estamos a caminhar num sentido em que nada possa significar realmente nada.
Ou então, pura e simplesmente, algumas coisas acontecem sem causa. Só porque podem. Mas esse é o nada de que estamos a descrever cientificamente. E não precisa de ser divinal, ao tudo indica. Não precisa de ser consciente e intencional. É apenas uma possibilidade.

O que estamos a fazer ao impor uma criação divina é dizer que só Deus pode vir do nada sem causa inicial, mais nada pode. Como sabemos isso já é um problema em si. Mas que assim estamos a dizer que a possibilidade de haver algo já existe desde sempre, já estamos.




segunda-feira, 23 de abril de 2012

O futuro afecta o passado.

No mundo da mecânica quântica, claro.

Esta é mais uma peça de evidencia experimental deste fenómeno contra-intuitivo previsto matemáticamente a partir da teoria quântica por John Wheeler:

Na experiência clássica, já confirmada, um observador alterava a trajectoria passada de um electrão modificando o modo como fazia as suas medições.

Concretamente, se se dispara um electrão através de duas ranhuras e se detecta com um ecrãn incapaz de dizer porque ranhura ele passou, o resultado é um padrão de ondas que implica que ele passou pelas duas ao mesmo tempo. Mas se se detecta com "telescópios" capazes de avaliar apenas o que se passa nas fendas, verificamos que o electrão ou passa por uma ou pela outra. Muito pertinente é o facto do ecrán ser retirado da frente dos "telescópios" detectores depois do electrão passar pelas fendas!

Agora, a experiencia recentemente publicada na "Nature physics", foi feita com recurso a outro fenómeno quantico, o emparelhamento de particulas. Sumáriamente, se decidirmos emparelhar as particulas depois de medirmos as suas propriedades, elas vão dar resultados diferentes do que se não as decidirmos emparelhar mais tarde. Sabemos que os resultados são alterados à posteriori (e não antes) recorrendo a um pré-emparelhamento que nos diz o valor antes do segundo emparelhamento que é atrasado uns bilionésimos de segundo. O resultado da medição é alterado pelo que vai acontecer a seguir.

Na mecânica quantica o tempo é parecido com o espaço. A causalidade move-se em qualquer direcção. Aqui já tinha falado sobre isto ao rever o livro do Stephen Hawking "The Grand Design".



Via Ars Technica: http://arstechnica.com/science/news/2012/04/decision-to-entangle-effects-results-of-measurements-taken-beforehand.ars

Aquecendo.

Ao contrário do que propõem os pseudocéticos do clima, a subida de CO2 que se verificou noutros períodos de aquecimento global, ao longo da história da Terra, não é consequente apenas do aumento de temperatura. Pelo que podemos saber agora com mais rigor, antecede-a.

O que aponta, para que seja nesse caso, tal com agora, uma causa do aquecimento.

Quando Fourier previu que se aumentássemos gases como o CO2 na atmosfera iríamos aquecer o planeta, isto no tempo de Napoleão, estava longe de saber que a sua teoria iria ser posta à prova numa escala global.

Mas a sua previsão estava correcta. Ao aumentarmos o CO2 o planeta aqueceu. Foi assim no passado e está a ser assim no presente. Apesar de haver mecanismos de compensação, como perder temperatura para o degelo e reter CO2 no mar. E se estes mecanismos forem ultrapassados, como por exemplo não haver mais gelo para derreter, a expectativa é que ainda seja pior.

A propósito das alterações climática mas não só, vale a pena ver o slide show que a NASA criou sobre a evolução do planeta vista. Aqui:

http://climate.nasa.gov/sof/#Mininggrowth_Chile1.jpg

Bibliografia:

http://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_Fourier#Discovery_of_the_greenhouse_effect

http://www.nature.com/ngeo/journal/v5/n4/full/ngeo1430.html

http://news.cnet.com/8301-11128_3-57389154-54/oceans-are-acidifying-faster-than-ever/?tag=cnetRiver

http://www.sciencemag.org/content/early/2012/03/28/science.1217161.abstract?ijkey=c3067784ba8dd543fcbdd1e176fb0deed3e7d941&amp;keytype2=tf_ipsecsha

http://www.nature.com/nature/journal/v484/n7392/full/nature10915.html

http://news.cnet.com/8301-11386_3-57409513-76/what-thawed-the-last-ice-age/?tag=cnetRiver


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Homeopatia: O que é, como não funciona e para que não serve.

A COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa irá organizar uma manifestação que terá lugar no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, no Sábado, dia 21 de Abril de 2012, às 10 horas. A iniciativa, designada Campanha 10:23, pretende denunciar a ineficácia da homeopatia.