Daniel Kahneman, psicologo e Nobel da economia (não, não me enganei, mais sobre isto no fim), apresenta-nos aqui o seu trabalho sobre os erros sistemáticos da nossa intuição.
E o trabalho que ele tem para apresentar é extenso e cientificamente correcto. Portanto, é preciso o leitor preparar-se para uma leitura longa, mas recompensadora.
De facto, este é um livro que deve ser de leitura obrigatória para todo o pensador critico, ainda que como o próprio autor avisa, conhecer muitos dos erros aqui descritos possa não ser o suficiente para os evitar. Mas ajuda a reconhecer nos outros quando os virmos. Pode ser que isso seja bom. Eu espero que sim.
Para sumarizar rápidamente o conteudo, começarei por dizer que Kahneman postula dois sistemas congnitivos concorrrentes para modelar o processo como geramos crenças e tomamos decisões. São, segundo a sua nomenculatura, o sistema 1 e o sistema 2.
O sistema 1 corresponde ao que se chama vulgarmente por intuição. Tem como caracteristicas: o facto de ser rápido - chega a decisões e conclusões muito depressa; confiante ao ponto de considerar que não há mais nada que aquilo que "está à vista"; leve, porque não requer muito esforço para ser usado; é tendencioso, inconsistente e manipulável.
O sistema 2 é o sistema que é usado no pensamento critico ou na ciencia e desenvolvimento de tecnologia. É pesado pois requer um esforço que se traduz mesmo em um maior gasto de energia pelo cerebro; é "preguiçoso", pois não se mete se não for activamente invocado; é leeeeennntooo, demora uma data de tempo a processar e a gerar informação útil para tirar uma conclusão; é menos susceptivel a "bias" e manipulação. Procura ser consistente com tudo o que existe na sua posse e descarta hipoteses ad-hoc. Segue o "estado da arte" a que pode aceder. Lida com alternativas.
O livro está cheio de exemplos de como funciona um e outro e das experiencias que foram feitas para se chegar às conclusões a que se chegaram. Alguns dos erros e processos disfuncionais que o livro relata são:
- Aversão à perda - É a tendencia para escolher uma opção pior por se dar mais valor ao que se perde do que ao que se ganha.
- Enquadramento - É a têndencia gerada pela forma como as coisas são apresentadas e pode fazer uso de outros problemas como a aversão à perda.
- Priming - É a tendencia (em qualquer sentido) criada apenas pelo contacto com uma ideia, mesmo sem que tenhamos consciencia disso. Por exemplo pessoas que foram postas em contacto com a palavra dinheiro sentaram-se mais longe umas das outras numa sala de espera que as do grupo controle. Por outro lado, esforçaram-se mais na entrevista seguinte. Isto só por ver no fundo a palavra "money" escrita.
- Ancoramento - É a tendencia de usar como referencia o primeiro valor proposto.
- Confundir a facilidade com que nos lembramos de uma coisa com a frequencia com que ela acontece.
- Não nos preocuparmos com as probabilidades base de um acontecimento, que possam já ser conhecidas, quando procuramos determinar a sua probabilidade (ver estatistica Bayesiana acerca de probabilidades à priori).
- Ignorar ou exagerar probabilidades pequenas.
- Falácia narrativa - A tendencia para aceitar uma narrativa plausivel como um conjunto de regras de causalidade que explicam deterministicamente um resultado. Depois das coisas acontecerem elas parecem sempre obvias, ainda que fossem (em muitos casos) impossíveis de prever.
Por descrever e demonstrar tão bem todos estes erros na tomada de decisões, Daniel Kahneman mostra como um dos axiomas basicos da economia está errado. O ser humano não é sempre racional.
Donde a importancia do trabalho de Daniel Kahneman para a economia. Não é possível pura e simplesmente ignorar os resultados das suas investigações e as suas implicações para as teorias economicas.
Ter recebido o prémio Nobel da Economia parece-me um bom sinal da abertura às suas descobertas.
Para outra critica ao livro feita do ponto de vista da economia proponho ir aqui.
Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
Páginas
- Página inicial
- Teoria da Relatividade
- Mecânica Quântica
- Criacionismo
- Ciência
- Teoria da Evolução
- Medicinas Alternativas
- Astrologia
- Aquecimento Global Antropogénico
- Importância do Consenso Científico
- Teorema de Godel
- Evidência Anedótica
- Propriedades emergentes e a mente.
- Leitura a frio vs mediunismo/etc.
- O que é o cepticismo?
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 5 de abril de 2013
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
A sobrevivência dos mais belos, por Nancy Etcoff
A beleza é sobrevalorizada na nossa sociedade. Esta é uma conclusão que me parece apoiada pela investigação descrita neste livro.
As pessoas são julgadas melhores lideres, mais compententes, mais honestas, mais bondosas, apenas pela sua beleza fisica e factores relacionados, como a altura. Até às crianças aplicamos estes critérios e até os próprios pais o fazem. Crianças mais bonitas são menos castigadas quando comparadas com crianças menos bonitas.
Mas as coisas não são tão simples como dizer que a "beleza é apenas tão profunda como a pele" ou que "está nos olhos de quem a vê". A beleza é um conceito que nós temos acerca das aparências porque foi evolutivamente util. Sobretudo para avaliar saúde, fertilidade e bem estar, no que respeita à beleza humana. Portanto não se pode dizer que não signifique absolutamente nada. Apenas que é sobrevalorizada numa sociedade onde as marcas das lutas contra a adversidade já não deixam tantas cictrizes à vista, ou a altura já não seja assim tão importante.
A beleza fisica não diz tanto acerca dos individuos, como nós, sem sequer nos darmos conta (por vezes) pensamos - já que nos dias que correm, porque vivemos de modo diferente, não estamos susceptiveis às mesmas agressões e problemas e precisamos de diferentes capacidades daquelas que precisávamos quando o "detector de beleza" foi criado.
A "Sobrevivencia dos Mais Belos" é um livro simples e acessivel que explora estes assuntos ao olhar para a beleza do ponto de vista evolutivo, derrubando a ideia de que é puramente uma construção social. Não é tão explicita a concluir que a beleza está sobrevalorizada, essa conclusão é minha e é para os dias que correm.
Este é um livro que proponho de qualquer modo para quem quer ter uma opinião mais bem informada sobre o assunto.
Afinal talvez as pessoas mais bonitas não sejam as mais honestas e bondosas, ou pelo menos sempre as mais honestas e bondosas, embora o nosso subconsciente assim o considere. Mas talvez diga de facto algo acerca do nosso sistema imunitário e da nossa fertilidade. E isso será ainda assim tão importante? E será ainda assim tão fiável no mundo da medicina moderna? Ou serão apenas falsos positivos?
Notas:
Encontrei pelo menos um erro no livro no que se refere à afirmação de que os presidentes americanos eleitos desde Nixon são mais altos que o seu candidato rival. Isso aconteceu pelo menos mais 1 vez e logo nas eleições seguintes, até à publicação do livro em 2000 e se não contarmos com a vitória de JWB nesse mesmo ano. Parece no entanto haver de facto um "bias" para o candidato mais alto.
Nancy Etcoff é Doutourada em psicologia e é professora assistente na Harvard Medical School e psiquitra no Massachussets General Hospital.
As pessoas são julgadas melhores lideres, mais compententes, mais honestas, mais bondosas, apenas pela sua beleza fisica e factores relacionados, como a altura. Até às crianças aplicamos estes critérios e até os próprios pais o fazem. Crianças mais bonitas são menos castigadas quando comparadas com crianças menos bonitas.
Mas as coisas não são tão simples como dizer que a "beleza é apenas tão profunda como a pele" ou que "está nos olhos de quem a vê". A beleza é um conceito que nós temos acerca das aparências porque foi evolutivamente util. Sobretudo para avaliar saúde, fertilidade e bem estar, no que respeita à beleza humana. Portanto não se pode dizer que não signifique absolutamente nada. Apenas que é sobrevalorizada numa sociedade onde as marcas das lutas contra a adversidade já não deixam tantas cictrizes à vista, ou a altura já não seja assim tão importante.
A beleza fisica não diz tanto acerca dos individuos, como nós, sem sequer nos darmos conta (por vezes) pensamos - já que nos dias que correm, porque vivemos de modo diferente, não estamos susceptiveis às mesmas agressões e problemas e precisamos de diferentes capacidades daquelas que precisávamos quando o "detector de beleza" foi criado.
A "Sobrevivencia dos Mais Belos" é um livro simples e acessivel que explora estes assuntos ao olhar para a beleza do ponto de vista evolutivo, derrubando a ideia de que é puramente uma construção social. Não é tão explicita a concluir que a beleza está sobrevalorizada, essa conclusão é minha e é para os dias que correm.
Este é um livro que proponho de qualquer modo para quem quer ter uma opinião mais bem informada sobre o assunto.
Afinal talvez as pessoas mais bonitas não sejam as mais honestas e bondosas, ou pelo menos sempre as mais honestas e bondosas, embora o nosso subconsciente assim o considere. Mas talvez diga de facto algo acerca do nosso sistema imunitário e da nossa fertilidade. E isso será ainda assim tão importante? E será ainda assim tão fiável no mundo da medicina moderna? Ou serão apenas falsos positivos?
Notas:
Encontrei pelo menos um erro no livro no que se refere à afirmação de que os presidentes americanos eleitos desde Nixon são mais altos que o seu candidato rival. Isso aconteceu pelo menos mais 1 vez e logo nas eleições seguintes, até à publicação do livro em 2000 e se não contarmos com a vitória de JWB nesse mesmo ano. Parece no entanto haver de facto um "bias" para o candidato mais alto.
Nancy Etcoff é Doutourada em psicologia e é professora assistente na Harvard Medical School e psiquitra no Massachussets General Hospital.
Etiquetas:
beleza,
livros,
preconceito
sábado, 22 de setembro de 2012
Os melhores anjos da nossa natureza
Só por este livro, Stephen Pinker já merecia o prémio Nobel da literatura. Não que isso faça justiça ao livro já, que todos os anos alguém ganha aquilo e poucos deles escreveram algo com este valor.
Exagero?
Bem, o livro é uma análise profunda dos dados que temos sobre o declínio da violência, de como sabemos que está a diminuir e que fatores podem estar a contribuir para isso. Estamos a fazer muitas coisas mal, mas também estamos certamente a fazer muitas coisas bem. E é por isso que eu acho que este livro é tão importante.
Exagero?
Bem, o livro é uma análise profunda dos dados que temos sobre o declínio da violência, de como sabemos que está a diminuir e que fatores podem estar a contribuir para isso. Estamos a fazer muitas coisas mal, mas também estamos certamente a fazer muitas coisas bem. E é por isso que eu acho que este livro é tão importante.
Sabendo essas coisas, segue que ensina algo acerca de como diminuir a violência e a crueldade à face da Terra e explica-o clara e convincentemente com recurso a investigação empírica sistemática. Sabemos o que temos de continuar a fazer e o que temos de evitar. Conhecemos melhor os nossos anjos e os nossos demônios.
Recomendação: Leia e depois passe a outro. Por um futuro melhor.
PS: Ninguém vai traduzir isto?
Não vou fazer, como tenho feito muitas vezes, um resumo do livro. Este livro tem de ser lido. É extenso (800 paginas) , bem justificado, e com uma amplitude de assuntos tão diversificado quanto o carácter humano obriga. Nenhum resumo eu conseguiria aqui fazer que conseguisse valer por si próprio.
Os melhores anjos da nossa natureza, ou seja, as nossas melhores ideias, motivações e criações, são cada uma delas suficientes para um "post". E não vale a pena estar a referi-los sem explicar as coisas à volta. Por exemplo, a democracia é um desses anjos. O liberalismo (o clássico) é outro. Mas a vigilância do estado como garante da justiça imparcial é outro também - com "o monstro" a ter não só o monopólio do uso da força como o seu legitimo direito. E eu podia continuar, mas sem explicar melhor os porquês, alguns vão soar a obvio outros a vão parecer inconsistentes entre si, e outros ainda a treta: O comercio é outro desses anjos, e um dos mais relevantes. Assim como a feminização da sociedade.
Naturalmente a racionalidade (e a discussão racional aberta) é outro dos mais importantes.
Dos demônios - das causas de guerra, violência e crueldade - talvez surpreenda dizer que a pobreza não é uma causa justificada pelos dados empíricos. Só indiretamente a pobreza leva ao crime violento, se aumentar muito o numero de jovens do sexo masculino sem emprego e sem mulher. Ou se o produto per capita descer abaixo dos 1000 dollars, mas nessa altura há tanta coisa a correr mal que é difícil apontar o dedo a causas isoladas.
A desigualdade entre a qualidade de vida das pessoas é um dos piores demônios.
Parece-me que trabalhos como este são também dos melhores anjos da nossa natureza....
"The Better Angels Of Our Nature, Why violence has declined", Stephen Pinker.
"The Better Angels Of Our Nature, Why violence has declined", Stephen Pinker.
Recomendação: Leia e depois passe a outro. Por um futuro melhor.
PS: Ninguém vai traduzir isto?
Etiquetas:
aversão à violencia,
livros,
Stephen Pinker,
violência
domingo, 29 de abril de 2012
Laurence Krauss, "A Universe From Nothing" comentário final.
Para uma abordagem e defesa do conteúdo ler aqui. Este é um pequeno post apenas para deixar a minha opinião de que o livro merece ser lido por todos.
Não é de todo verdade que, para além do titulo, o livro prometa termos verdades absolutas e respostas finais. O que promete, e entrega, é uma explicação plausível de que podemos não precisar da vontade de ninguém para criar o universo. E de que tal como vimos na evolução biológica, algumas coisas mais complexas, provém de outras mais simples. Pelo menos em espécie.
E o "overstatement" no titulo eu penso que se justifica. Apesar de tudo é apenas um titulo e é sobre este tema que o livro se debruça. E é essa a possibilidade que, embora não sendo publicada pela primeira vez, aparece aqui explicita de um modo que pode ser acessível a todos.
A inteligencia de Krauss e o seu empenho no procura de conhecimento são contagiosas. A prosa (no original) é clara e o livro peca apenas por alguma redundância que eu penso dever-se a um excesso de zêlo pela divulgação.
Quem quiser continuar a acreditar em criação divina depois de o ler, poderá continuar como sempre agarrado às suas convicções. Mas ficará a saber que é possível que tenha sido de outra maneira. E que é para lá que as evidencias empíricas apontam, mesmo se falta muito para "saber tudo"...
Não é de todo verdade que, para além do titulo, o livro prometa termos verdades absolutas e respostas finais. O que promete, e entrega, é uma explicação plausível de que podemos não precisar da vontade de ninguém para criar o universo. E de que tal como vimos na evolução biológica, algumas coisas mais complexas, provém de outras mais simples. Pelo menos em espécie.
E o "overstatement" no titulo eu penso que se justifica. Apesar de tudo é apenas um titulo e é sobre este tema que o livro se debruça. E é essa a possibilidade que, embora não sendo publicada pela primeira vez, aparece aqui explicita de um modo que pode ser acessível a todos.
A inteligencia de Krauss e o seu empenho no procura de conhecimento são contagiosas. A prosa (no original) é clara e o livro peca apenas por alguma redundância que eu penso dever-se a um excesso de zêlo pela divulgação.
Quem quiser continuar a acreditar em criação divina depois de o ler, poderá continuar como sempre agarrado às suas convicções. Mas ficará a saber que é possível que tenha sido de outra maneira. E que é para lá que as evidencias empíricas apontam, mesmo se falta muito para "saber tudo"...
Etiquetas:
ateísmo,
criação ex-nihilo,
Laurence Krauss,
livros,
princípio antropico fraco
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Um Universo Vindo do Nada.
As críticas ao livro de Lawrence
Krauss com este nome estão previstas logo na introdução.
Aquilo a que ele chama
nada já não é aceite como sendo nada. Porque já é algo, nomeadamente espaço, de
onde surgem as coisas. Ele no entanto argumenta que espaço vazio é um
nada tão nada quanto é possível ser nada. É um nada tão bom como sempre foi.
Nem porque haja já as leis que
permitem que exista espaço vazio e de onde por sua vez as partículas possam
começar a pular dentro e fora da existência, isso já é algo - insistem os
críticos.
Mas por este andar, se nada é
definido como sendo mesmo nada, sem sequer existirem possibilidades de virem
existir coisas, então nunca existiu nada. Porque estamos cá.
Muito menos um nada cheio de
deus. Seja o que for que seja o nada mais nada a que nos podemos referir, com
ou sem deuses, tem de incluir a possibilidade de sofrer a entrada na existência.
Voltamos atrás. É que nada em
termos absolutos, não existe. É o que diz a palavra. Nada. Por definição e por
lógica. Se o nada não existe, algo deve pelo menos manter a possibilidade de
vir a existir. Se não houver nesse nada essa possibilidade, (com ou sem deuses), então não estaríamos aqui. E é plausível que estejamos aqui, mesmo que tudo
seja uma ilusão. Como dizia Descartes "penso logo existo".
Se disserem, não foi o nada que
tinha esse potencial de entrada na existência. Foi Deus. Então é caso para
dizer que se Deus não é nada então nada não serve para descrever o momento
anterior à existência ter surgido. Antes havia Deus e não nada. Estaremos então
de acordo que havia algo. Tem sempre de ter existido algo.
Insisto: Porque nada, nada não
existe. Nunca pode ter existido, a não
ser que ainda hoje exista. Mas é como dizer o não-existe existe. Não serve
para... Nada. E como negação da existência de outras coisas, como conceito relativo,
como em "nada de nada" ou "nada de tudo", vamos ter sempre
de chegar a um ponto onde não podemos negar a possibilidade da entrada na existência
de algo. E creio que é nesse ponto que o livro de Krauss nos deixa.
Isto tudo para dizer que temos
sempre de ter cuidado com o que queremos dizer com o conceito de nada. Que a
nada faz referencia...
O universo nasce da possibilidade
de uma flutuação quântica. Daí surgem partículas.
Claro que é um grande pontapé no sobrenaturalismo (tal com diz Dawkins). É uma
afirmação bem sustentada pela teoria cientifica e aponta para um principio onde
estamos bastante perto de não haver nada. Acrescentar um deus para um principio
tão simples é complicar as coisas. Bastante. Para a simplicidade de existirmos porque
apenas podemos existir não precisamos de juntar nada ao kit de construção que
seja complexo e com vontade própria. Isso é bastante mais longe de ser nada.
Talvez venhamos a descobrir
porque temos estas leis que permitem que apareçam partículas do espaço puro. E
depois porque existem essas leis que permitem as outras leis. E por aí fora. Mas nesse sentido vai ter de haver sempre
algo.
Mas ao que tudo indica não
estamos a caminhar num sentido de precisar de nadas omnipotentes e
omnipresentes, nem que estamos a caminhar num sentido em que nada possa
significar realmente nada.
Ou então, pura e simplesmente,
algumas coisas acontecem sem causa. Só porque podem. Mas esse é o nada de que estamos a descrever cientificamente. E não precisa de ser divinal, ao tudo indica. Não precisa de ser consciente e intencional. É apenas uma possibilidade.
O que estamos a fazer ao impor
uma criação divina é dizer que só Deus pode vir do nada sem causa inicial, mais
nada pode. Como sabemos isso já é um problema em si. Mas que assim estamos a dizer que a possibilidade de haver algo já existe desde sempre,
já estamos.
Etiquetas:
cosmologia,
livros,
princípio antropico fraco
quarta-feira, 20 de julho de 2011
"The Moral Landscape" por Sam Harris.
Este é o ultimo livro de Sam Harris, em português: "A Paisagem Moral"
Tem como subtitulo: "Como pode a ciência determinar os valores humanos?" e pretende dar resposta a esta pergunta com um numero mínimo de pressupostos, de acordo com o que já sabemos sobre a moral, a neurociencia e a ciência em si própria.
Para Sam Harris, a moral é a maximização do bem estar. A julgar pela sua argumentação, mais relacionado com a distribuição do bem estar do que com a sua medida absoluta em qualquer momento.
E o bem estar, defende, é algo que nós podemos vir a medir com rigor cientifico, ou pelo menos com um grau de incerteza tolerável, sobretudo se usarmos uma abordagem neurológica. O bem estar defende, deverá corresponder a um estado cerebral. Neste enquadramento biológico podemos por princípio usar todo o aparato teórico e tecnológico cientifico para dizer o que pode ser melhor para nós e como podemos consegui-lo.
Sam Harris não tenta esconder que cada um dos pressupostos do enquadramento em que propõe abordar a moral não levantam problemas por si próprios.
Tais como sejam:
Queremos procurar o maior valor absoluto para o bem estar? É uma medida de distribuição? E medir a distribuição da moral como? É uma média do bem estar numa população? E o bem estar será realmente algo que todos valorizam da mesma maneira (ja sabendo que nem todos gostam das mesmas coisas)? Fará sentido por si próprio? Como distinguimos isso de alegria ou felicidade momentânea? E será possível encontrar sempre soluções para uma distribuição justa do bem estar em situações limite e complexas ou serão sempre problemas sem resposta ou com resposta apenas após ponderação quase infinita (problemas não-P em matemática).
O que ele propõe é que em princípio o que sabemos hoje já é suficiente para iniciar esta abordagem, já que não precisamos de saber tudo para saber alguma coisa. Ou pelo menos, pressupor que sabemos.
De facto, o grande problema para abordar a moral é conseguir um objectivo, um fim, para que possamos procurar soluções. Esse objectivo, envolve uma escolha. A tal escolha que tem tornado a moral um problema não cientifico. E essa escolha, Sam Harris não nega, será sempre uma escolha subjectiva, por ser referente a sujeitos. Mas os sujeitos somos nós e podemos tentar perceber se a escolha é ou não algo que diga alguma coisa a todos. Mas não é isso que obriga a Moral a ficar plenamente no campo da filosofia.
Mesmo que, como ele argumenta, essa escolha seja provavelmente uma ilusão. A escolha de querer estar bem, pode não ser bem uma escolha (idem, ver "link" acima). Segundo ele, não temos realmente livre-arbítrio: "O livre-arbitrio é uma ilusão de uma ilusão". Mas isso, de não haver escolha, não é um problema neste contexto.
O problema é que sem um fim em vista para a moral, não há soluções para a moral. Apenas afirmações em aberto sem valor. Hipoteses indistintas. É a queda num relativismo moral absurdo.
Se queremos distinguir afirmações de moral umas das outras, e aceitamos que há coisas mais morais que outras, é porque alguma coisa temos em vista, existe um objectivo algures para a especulação moral. É porque tivemos de fazer uma escolha algures.
Ele propõe definir esse objectivo, como já disse, com o “bem estar”, e que essa seja a escolha já subjacente a toda a racionalização sobre a moral que nós já fazemos neste momento, e até de um modo relativamente consensual – pois se temos consensos acerca de moral em algumas coisas é porque é plausível que procuremos a mesma coisa.
E consensos acerca da importância do bem estar e do que isso significa para nós, parece que também não será difícil. Mesmo indo para outras espécies animais, parece que valorizamos basicamente as mesmas coisas (referencias na própria obra). E se isso – o consenso - é o suficiente para dizer que há conhecimento na ciência acerca de algo, porque não há de ser na moral? E se temos conhecimento do que procuramos, se temos um fim a atingir porque não podemos saber cientificamente qual a melhor maneira de o obter? Porque havemos de recusar ter vidas melhores, de um modo geral, se soubermos com o podemos fazer?
Na minha opinião não há razão para evitar a abordagem cientifica à moral, por princípio. Na realidade tenho argumentado nesse sentido desde há algum aqui neste blog. Mesmo os problemas que o Sam Harris sugere já tinha abordado alguns. As soluções são as mesmas. É por isso difícil para mim fazer uma boa critica a este livro. Ele tem a mesma opinião que eu e que eu já tinha antes de ler o livro. Não vejo talvez por isso muitos problemas, para além de que me deixou um pouco insatisfeito porque esperava que conseguisse desenvolver mais o tema.
A única objecção racional possivel (mas idiota) para esta abordagem é a apologia da maldade e dizer que é correcto escolher o mal estar para qualquer um. É dizermos que não querermos que haja uma distribuição justa do bem estar. Que não há justificação para a moral em si outra que querermos o melhor para todos e que podemos não querer o melhor para todos. Mas isso não só não é o que entendemos por moral, como leva a auto-destruição, e se pensassemos assim não estariamos preocupados com a moral. Acho que quem levantar esta objecção vai cair na posição do egoista e do psicopata e não conseguirá mostrar que é um sistema consistente e estável andarmos a dar facadas uns aos outros como contributo civico. Quanto aos que querem o bem estar só para si, isso pode funcionar até que sejam apanhados a darem cabo do bem estar dos outros. Na realidade estas pessoas podem ter repercursões muito mais sérias no bem estar das populações do que "apenas" nas pessoas directamente atingidas. Ja para não falar que uma vida, no caso de um psicopata assassino, será sempre mais valiosa que uns momentos de aceleração. Quero com isto dizer que o registo na distribuição do bem estar vai passar por valores mais baixos. Isso é suficente para explicar porque é que tal não é argumentavel num sistema que é feito a pensar em todos e não apenas em alguns especiais. E a moral é para todos. Senão estaremos a falar de outra coisa. Não me parece que venha a ser um problema chegar a consenso sobre isto.
Eu tenho defendido ocasionalmente que isto de escolher ser moral, de considarar moral como o bem, é uma escolha obrigatória no contexto de uma escolha mais básica que é querermos viver e escolhermos viver. Creio que uma sociedade que fique completamente maldosa colapsará nas suas próprias maquinações. Escolher a moral é escolher o caminho que leve a que qualquer pessoa em qualquer lugar tenha provavelmente o melhor que se pode esperar dos outros. E isso é o resultado de todos podermos ser essa pessoa. E de compreender que querermos todos viver o melhor possível e que na realidade nós somos também “o outro”.
Claro que pode haver indivíduos que procurem o bem estar sem se preocuparem com o que fazem aos outros para conseguir isso, desde o simples egoísta ao psicopata. Mas a moral não é a procura do bem estar individual de um individuo especial em detrimento de todos. Isso será o inverso da moral com origem em escolhas iniciais e princípios igualmente antagónicos: não distribuir o bem estar... E que daria, plausivelmente ao colapso da sociedade e não à sobrevivência nas melhores condições possíveis.
Porque queremos viver o melhor possível? Porque queremos viver de todo? Bem, essa é a questão. Não temos resposta absoluta. Resta saber se teremos também escolha. Não parecemos ter. Somos filhos de gerações e gerações de seres que escolheram (durante pelo menos uma grande parte do seu tempo) viver. O Sam Harris também aborda esta questão e também chega a esta falta de conclusões. E não tendo resposta absoluta, temos uma relativa a nós.
Mas o que é importante, é que parece que criamos a moral com este objectivo e que quer tenhamos escolha ou não, não parece haver duvidas que queremos bem estar. E que essa escolha, errada ou não, é para já aquilo que fazemos quando procuramos respostas morais. E que sendo assim, saibendo o que pretendemos atingir, estejamos completamente dentro do foro da ciência. A moral, se é a distribuição do bem é algo que pode ser abordado cientificamente. Mesmo com todas as dúvidas que ainda levanta.
Diria eu que é tal e qual como a medicina. A escolha de querermos ser saudáveis está certa ou errada? Tal como a moral, parte do principio que viver é certo, e que essa questão não impede que abordemos a saúde de modo científico, ainda que seja em si uma área cheia de incógnitas.
A escolha de querer bem estar, de querer viver, será sempre subjectiva. Será sempre relativa a sujeitos. Sem sujeitos não há fim em vista para a moral. É uma construção social e mental para que possa haver mais bem estar. Mas é uma que podemos estudar cientificamente em função desses sujeitos que somos nós. E é a escolha que por tudo o que sabemos TEMOS de fazer. Quer haja um deus ou não. De outro modo colapsamos.
O universo não deve estar ralado com a moral e com o bem estar. Mas nós estamos. É esse o sentido da moral. Pelo menos para nós é, mas somos nós que a fazemos, a moral é para nós. Não é para as pedras, para as estrelas e para o Sol. E se for aplicavel a estas coisas é sempre em relação a nós e ao que significa para nós. Por isso as coisas encaixam consistentemente... Que mais justificação pode haver? Que mais justificação que esta é sensato pedir?
Não sei. Mas mesmo que haja algo por responder, como em tudo, parece que temos o suficiente para fazer medições, projecções, modelos, testes, etc, Essas coisas da ciência.
AVISO IMPORTANTE: O livro contém, na discussão sobre psicopatas, o relato pessoal do que uma destas bestas fazia ao próprio filho. Esse relato é extremamente violento e aconselho a não ler a quem puder passar por cima. Não perde nada.
PS:
O autor tem uma secção onde discute o direito a acreditar. Não considerei a abordagem convincente mas levanta questões importantes que ainda não consegui processar. Não a achei de qualquer modo de relevo para esta reflexão sobre a obra.
Tem como subtitulo: "Como pode a ciência determinar os valores humanos?" e pretende dar resposta a esta pergunta com um numero mínimo de pressupostos, de acordo com o que já sabemos sobre a moral, a neurociencia e a ciência em si própria.
Para Sam Harris, a moral é a maximização do bem estar. A julgar pela sua argumentação, mais relacionado com a distribuição do bem estar do que com a sua medida absoluta em qualquer momento.
E o bem estar, defende, é algo que nós podemos vir a medir com rigor cientifico, ou pelo menos com um grau de incerteza tolerável, sobretudo se usarmos uma abordagem neurológica. O bem estar defende, deverá corresponder a um estado cerebral. Neste enquadramento biológico podemos por princípio usar todo o aparato teórico e tecnológico cientifico para dizer o que pode ser melhor para nós e como podemos consegui-lo.
Sam Harris não tenta esconder que cada um dos pressupostos do enquadramento em que propõe abordar a moral não levantam problemas por si próprios.
Tais como sejam:
Queremos procurar o maior valor absoluto para o bem estar? É uma medida de distribuição? E medir a distribuição da moral como? É uma média do bem estar numa população? E o bem estar será realmente algo que todos valorizam da mesma maneira (ja sabendo que nem todos gostam das mesmas coisas)? Fará sentido por si próprio? Como distinguimos isso de alegria ou felicidade momentânea? E será possível encontrar sempre soluções para uma distribuição justa do bem estar em situações limite e complexas ou serão sempre problemas sem resposta ou com resposta apenas após ponderação quase infinita (problemas não-P em matemática).
O que ele propõe é que em princípio o que sabemos hoje já é suficiente para iniciar esta abordagem, já que não precisamos de saber tudo para saber alguma coisa. Ou pelo menos, pressupor que sabemos.
De facto, o grande problema para abordar a moral é conseguir um objectivo, um fim, para que possamos procurar soluções. Esse objectivo, envolve uma escolha. A tal escolha que tem tornado a moral um problema não cientifico. E essa escolha, Sam Harris não nega, será sempre uma escolha subjectiva, por ser referente a sujeitos. Mas os sujeitos somos nós e podemos tentar perceber se a escolha é ou não algo que diga alguma coisa a todos. Mas não é isso que obriga a Moral a ficar plenamente no campo da filosofia.
Mesmo que, como ele argumenta, essa escolha seja provavelmente uma ilusão. A escolha de querer estar bem, pode não ser bem uma escolha (idem, ver "link" acima). Segundo ele, não temos realmente livre-arbítrio: "O livre-arbitrio é uma ilusão de uma ilusão". Mas isso, de não haver escolha, não é um problema neste contexto.
O problema é que sem um fim em vista para a moral, não há soluções para a moral. Apenas afirmações em aberto sem valor. Hipoteses indistintas. É a queda num relativismo moral absurdo.
Se queremos distinguir afirmações de moral umas das outras, e aceitamos que há coisas mais morais que outras, é porque alguma coisa temos em vista, existe um objectivo algures para a especulação moral. É porque tivemos de fazer uma escolha algures.
Ele propõe definir esse objectivo, como já disse, com o “bem estar”, e que essa seja a escolha já subjacente a toda a racionalização sobre a moral que nós já fazemos neste momento, e até de um modo relativamente consensual – pois se temos consensos acerca de moral em algumas coisas é porque é plausível que procuremos a mesma coisa.
E consensos acerca da importância do bem estar e do que isso significa para nós, parece que também não será difícil. Mesmo indo para outras espécies animais, parece que valorizamos basicamente as mesmas coisas (referencias na própria obra). E se isso – o consenso - é o suficiente para dizer que há conhecimento na ciência acerca de algo, porque não há de ser na moral? E se temos conhecimento do que procuramos, se temos um fim a atingir porque não podemos saber cientificamente qual a melhor maneira de o obter? Porque havemos de recusar ter vidas melhores, de um modo geral, se soubermos com o podemos fazer?
Na minha opinião não há razão para evitar a abordagem cientifica à moral, por princípio. Na realidade tenho argumentado nesse sentido desde há algum aqui neste blog. Mesmo os problemas que o Sam Harris sugere já tinha abordado alguns. As soluções são as mesmas. É por isso difícil para mim fazer uma boa critica a este livro. Ele tem a mesma opinião que eu e que eu já tinha antes de ler o livro. Não vejo talvez por isso muitos problemas, para além de que me deixou um pouco insatisfeito porque esperava que conseguisse desenvolver mais o tema.
A única objecção racional possivel (mas idiota) para esta abordagem é a apologia da maldade e dizer que é correcto escolher o mal estar para qualquer um. É dizermos que não querermos que haja uma distribuição justa do bem estar. Que não há justificação para a moral em si outra que querermos o melhor para todos e que podemos não querer o melhor para todos. Mas isso não só não é o que entendemos por moral, como leva a auto-destruição, e se pensassemos assim não estariamos preocupados com a moral. Acho que quem levantar esta objecção vai cair na posição do egoista e do psicopata e não conseguirá mostrar que é um sistema consistente e estável andarmos a dar facadas uns aos outros como contributo civico. Quanto aos que querem o bem estar só para si, isso pode funcionar até que sejam apanhados a darem cabo do bem estar dos outros. Na realidade estas pessoas podem ter repercursões muito mais sérias no bem estar das populações do que "apenas" nas pessoas directamente atingidas. Ja para não falar que uma vida, no caso de um psicopata assassino, será sempre mais valiosa que uns momentos de aceleração. Quero com isto dizer que o registo na distribuição do bem estar vai passar por valores mais baixos. Isso é suficente para explicar porque é que tal não é argumentavel num sistema que é feito a pensar em todos e não apenas em alguns especiais. E a moral é para todos. Senão estaremos a falar de outra coisa. Não me parece que venha a ser um problema chegar a consenso sobre isto.
Eu tenho defendido ocasionalmente que isto de escolher ser moral, de considarar moral como o bem, é uma escolha obrigatória no contexto de uma escolha mais básica que é querermos viver e escolhermos viver. Creio que uma sociedade que fique completamente maldosa colapsará nas suas próprias maquinações. Escolher a moral é escolher o caminho que leve a que qualquer pessoa em qualquer lugar tenha provavelmente o melhor que se pode esperar dos outros. E isso é o resultado de todos podermos ser essa pessoa. E de compreender que querermos todos viver o melhor possível e que na realidade nós somos também “o outro”.
Claro que pode haver indivíduos que procurem o bem estar sem se preocuparem com o que fazem aos outros para conseguir isso, desde o simples egoísta ao psicopata. Mas a moral não é a procura do bem estar individual de um individuo especial em detrimento de todos. Isso será o inverso da moral com origem em escolhas iniciais e princípios igualmente antagónicos: não distribuir o bem estar... E que daria, plausivelmente ao colapso da sociedade e não à sobrevivência nas melhores condições possíveis.
Porque queremos viver o melhor possível? Porque queremos viver de todo? Bem, essa é a questão. Não temos resposta absoluta. Resta saber se teremos também escolha. Não parecemos ter. Somos filhos de gerações e gerações de seres que escolheram (durante pelo menos uma grande parte do seu tempo) viver. O Sam Harris também aborda esta questão e também chega a esta falta de conclusões. E não tendo resposta absoluta, temos uma relativa a nós.
Mas o que é importante, é que parece que criamos a moral com este objectivo e que quer tenhamos escolha ou não, não parece haver duvidas que queremos bem estar. E que essa escolha, errada ou não, é para já aquilo que fazemos quando procuramos respostas morais. E que sendo assim, saibendo o que pretendemos atingir, estejamos completamente dentro do foro da ciência. A moral, se é a distribuição do bem é algo que pode ser abordado cientificamente. Mesmo com todas as dúvidas que ainda levanta.
Diria eu que é tal e qual como a medicina. A escolha de querermos ser saudáveis está certa ou errada? Tal como a moral, parte do principio que viver é certo, e que essa questão não impede que abordemos a saúde de modo científico, ainda que seja em si uma área cheia de incógnitas.
A escolha de querer bem estar, de querer viver, será sempre subjectiva. Será sempre relativa a sujeitos. Sem sujeitos não há fim em vista para a moral. É uma construção social e mental para que possa haver mais bem estar. Mas é uma que podemos estudar cientificamente em função desses sujeitos que somos nós. E é a escolha que por tudo o que sabemos TEMOS de fazer. Quer haja um deus ou não. De outro modo colapsamos.
O universo não deve estar ralado com a moral e com o bem estar. Mas nós estamos. É esse o sentido da moral. Pelo menos para nós é, mas somos nós que a fazemos, a moral é para nós. Não é para as pedras, para as estrelas e para o Sol. E se for aplicavel a estas coisas é sempre em relação a nós e ao que significa para nós. Por isso as coisas encaixam consistentemente... Que mais justificação pode haver? Que mais justificação que esta é sensato pedir?
Não sei. Mas mesmo que haja algo por responder, como em tudo, parece que temos o suficiente para fazer medições, projecções, modelos, testes, etc, Essas coisas da ciência.
AVISO IMPORTANTE: O livro contém, na discussão sobre psicopatas, o relato pessoal do que uma destas bestas fazia ao próprio filho. Esse relato é extremamente violento e aconselho a não ler a quem puder passar por cima. Não perde nada.
PS:
O autor tem uma secção onde discute o direito a acreditar. Não considerei a abordagem convincente mas levanta questões importantes que ainda não consegui processar. Não a achei de qualquer modo de relevo para esta reflexão sobre a obra.
Etiquetas:
livros,
moral,
relativismo cultural
quarta-feira, 13 de julho de 2011
"Paranormality" do Professor Richard Wiseman.
Usando alegados fenómenos para normais, o Prof. Wiseman vai explicando onde o nosso cérebro falha e tira as conclusões erradas se não estivermos atentos e conscientes aos seus "bugs" naturais. Tudo cientificamente justificado.
Como cereja no topo do bolo, o autor ainda ensina (foi ilusionista profissional antes de estudar psicologia) a fazer uma série de truques que poderão fazer sensação numa festa.
Ao misturar de uma foram tão consistente ciência e entretenimento o livro "Paranormality" proporciona uma leitura agradável e edificante.
A única reserva que senti ocasionalmente, foi que o livro ao ensinar a explorar as falhas de percepção e raciocínio, está a ensinar a enganar o próximo. Mas isso é um problema de toda a ciência. Pode ser sempre usada para o bem ou para o mal. E o antídoto, neste caso, é saber onde podemos ser enganados.
Como conseguimos convencer qualquer estranho que o conhecemos tão bem como qualquer amigo? Como convencer um incauto que estamos a falar com um ente querido falecido? Como tirar pequenas pistas acerca do que as pessoas estão a pensar? Como criar uma sessão espirita?
As respostas a estas perguntas vêm todas no livro. Vem também a resposta à tal pergunta que eu considero essencial "como é que sabemos isso?"
Adicionalmente, o James Randy lançou um pedido a todos os cépticos que comprem o livro. Por uma simples razão. Nos Estados Unidos o professor Wiseman não conseguiu encontrar quem o publicasse por ser demasiado realista e sugeriram mesmo que ele dissesse que havia fantasmas ou lá o que foi para lhe avançarem com a publicação. A ideia é comprar a uma loja americana a versão inglesa (a única que conheço) e dar um tabefe metafísico no establishmant pró-treta americano. Eu comprei na amazon assim que li o pedido do James Randy. Se me estivesse a pedir para matar uma galinha ou ir de joelhos a algum lado não tinha acedido. Mas para mostrar apreço por investigação cientifica? Sem suor!
Como cereja no topo do bolo, o autor ainda ensina (foi ilusionista profissional antes de estudar psicologia) a fazer uma série de truques que poderão fazer sensação numa festa.
Ao misturar de uma foram tão consistente ciência e entretenimento o livro "Paranormality" proporciona uma leitura agradável e edificante.
A única reserva que senti ocasionalmente, foi que o livro ao ensinar a explorar as falhas de percepção e raciocínio, está a ensinar a enganar o próximo. Mas isso é um problema de toda a ciência. Pode ser sempre usada para o bem ou para o mal. E o antídoto, neste caso, é saber onde podemos ser enganados.
Como conseguimos convencer qualquer estranho que o conhecemos tão bem como qualquer amigo? Como convencer um incauto que estamos a falar com um ente querido falecido? Como tirar pequenas pistas acerca do que as pessoas estão a pensar? Como criar uma sessão espirita?
As respostas a estas perguntas vêm todas no livro. Vem também a resposta à tal pergunta que eu considero essencial "como é que sabemos isso?"
Adicionalmente, o James Randy lançou um pedido a todos os cépticos que comprem o livro. Por uma simples razão. Nos Estados Unidos o professor Wiseman não conseguiu encontrar quem o publicasse por ser demasiado realista e sugeriram mesmo que ele dissesse que havia fantasmas ou lá o que foi para lhe avançarem com a publicação. A ideia é comprar a uma loja americana a versão inglesa (a única que conheço) e dar um tabefe metafísico no establishmant pró-treta americano. Eu comprei na amazon assim que li o pedido do James Randy. Se me estivesse a pedir para matar uma galinha ou ir de joelhos a algum lado não tinha acedido. Mas para mostrar apreço por investigação cientifica? Sem suor!
Etiquetas:
aparições,
cepticismo,
ciência; espírito crítico,
livros,
sobrenatural
quinta-feira, 7 de julho de 2011
"The Fallacy of Fine Tuning" por Victor Stenger
O “fine tuning” é o argumento de que o universo foi concebido especificamente para haver vida, partindo da premissa que as constantes que temos para valores naturais, são não só bem conhecidas, como não poderiam ser outras se quisermos que a vida seja possível. Outra das premissas de que parte este argumento é que a vida será sempre do tipo da que conhecemos aqui na terra.
Isto implica alegadamente a existência de um ser ainda mais organizado e complexo para explicar o nosso universo – Deus. O ”fine tuning” de facto tem sido um dos argumentos a favor da existência de Deus mais usados nos nossos dias.
Victor Stenger, ateu convicto e reconhecido, apresenta neste livro, argumentos que segundo ele próprio não se destinam a provar de uma vez por todas que não há fine-tuning através de provar como se formou o universo – apenas a provar que não temos razões para dizer que há "fine tuning" e que o universo é o que podemos esperar dele sem um “arquitecto” a desenhar. Nas suas palavras, demonstrar que o fine-tuning é uma falácia.
Começa por considerar que a maioria das alegações de fine tuning não são minimamente justificadas e dedica-se a desmontar apenas aquelas que apresentam algum suporte cientifico (alguns autores falam em listas de 36 mas nem dizem quais são especificamente!).
A maioria da argumentação é bastante teórica e requer bons conhecimentos de matemática e fisica para seguir. Este é um livro de divulgação cientifica que roça o livro técnico. Tem no entanto um resumo no fim para quem quiser ir directo às conclusões.
Mas em resumo, encontrando razões diferentes para criticar cada valor dos alegadamente afinados ele apoia-se num conjunto de achados:
- Nem todos os valores seriam manipuláveis independentemente. Alguns não seriam manipuláveis de todo sem que houvesse quebra das regras que sugerem para outros o próprio fine-tuning
- Manipulando valores sem ser um de cada vez podemos “compensar” uns com os outros.
- Alguns valores permitem uma margem de manobra maior que a “anunciada” sem eliminar a hipótese de haver vida.
- Alguns valores não estão bem estimados/calculados, logo não é possível sequer dizer que estão “afinados”,( tal só será possível após conhecer o valor em si.)
Para além disso alega ser plausível que haja vida com outras necessidades bastante diferentes das nossas. E baseia nisso a hipótese de poder haver outros tipos de universos capazes de albergar vida mesmo que não fujamos muito do que já sabemos hoje, isto é, precisamos de um universo complexo, não serve por exemplo um universo feito de protões.
Por fim faz um ataque frontal aos argumentos teológicos assentes em estatística Bayesiana e mostra como manipulando a probabilidade à priori podemos chegar a conclusões diferentes, sugerido que ainda não estamos prontos para usar esse tipo de estatística para avaliar a existência de Deus.
Isto tudo é feito sem sair da física clássica e sem abordar teorias mais extravagantes como a do multiverso ou a teoria das cordas.
Naturalmente que ja existe uma grande contestação à volta dos resultados, com muitos apelos a autoridade à mistura. No entanto a refutação das afirmações deste livro têm de ser cientificas. Esta discussão está definitivamente nesse campo.
O autor passa ainda uma grande parte do inicio do livro a desacreditar a ideia de que possa ter havido sequer um momento da criação, já que, argumenta, o universo não tem um inicio.
Aconselho a todos os que gostam de cosmologia, querem ter discussões informadas sobre a origem do universo e a existência ou não de Deus.
Citações interessantes do livro:
"Na minha visão, a vida é uma propriedade que qualquer sistema suficientemente complexo, não linear, interactivo e dissipativo desenvolverá se tiver tempo suficiente"
"Então o universo começará com entropa ou desordem máximas. Começa com informação a zero. Não tem registo de nada que possa ter havido antes, incluindo conhecimento e inteções de um criador."
"Além disso, mesmo em ciência, em que relações causais foram construidas dentro de modelos durante séculos, nós temos acontecimentos que surgem sem causa. Quando um electrão num estado excitado de energia num atomo cai para um nivel masi baixo, ele emite um fotão (...). Isto é um fenomeno quântico que na maioria das interpretações da mecanica quantica acontece espontâneamente, isto é, sem causa."
"Craig and Sinclair invocam outro tipo de infinito: um infinito de uma extenção medida. O seu teorema acima [que refere o absurdo do infinito como realidade] está correcto. Mas é irrelevante. Enquanto os cientistas são descuidados com o seu uso do termo "infinito" eles não alegam que o universo é infinito em espaço e tempo. Eles dizem que não tem limites."
"contudo a história biblica da criação não tem qualquer semelhança que seja com o Big Bang tal como descrito pela cosmologia moderna. O Génesis descreve uma criação tendo lugar em seis dias há uns milhares de anos. De acordo com o Genesis , a Terra foi creada ainda antes do SOl, a Lua, e as estrelas e tudo num firmamemto fixo. Em contraste, na cosmologia cientifica o universo é descrito saindo do caos por "tunneling" há 13,7 biliões de anos e num universo em expansão, certamente não num "firmamento" em que o sistema solar apareceu há 4,6 biliões de anos, seguido pela formação do Sol e da Terra nos seguintes 100 milhões de anos ou assim."
"doesn´t it make you wonder why He waited 13,6 biliões de anos antes de nos criar a nós?"
"Como veremos a invariancia de gauge foi o mais importante principio fisico descoberto no século XX. Notar que "gauge invariance" é apenas uma maneira bonita de dizer "invariancia em respeito ao ponto de vista""
"De notar que se o universo veio do nada a sua carga total tem de ser zero, tal como esperado se não houve criação milagrosa"
"Em 1949, Richard Feynman mostrou que electrões retrocedendo no tempo podem ser vistos como positrões acançando no tempo."
"Vou fazê-lo para mostrar que, mesmo no caso pouco provavel de existir apenas um universo, o fine tuning não existe, não há fine-tuning, ou seja, o fine tuning é uma falacia de todos os angulos".
Nota: traduzi bilion por bilião e não por milhar de milhão.
PS: Este livro não é uma repetição do ultimo do Hawking, que assenta na teoria das cordas para explicar porque o "fine tuning" não deve ser algo de estranhar. Aqui o Victor Stenger faz um ataque muito mais frontal com fisica muito mais bem estabelecida.
Isto implica alegadamente a existência de um ser ainda mais organizado e complexo para explicar o nosso universo – Deus. O ”fine tuning” de facto tem sido um dos argumentos a favor da existência de Deus mais usados nos nossos dias.
Victor Stenger, ateu convicto e reconhecido, apresenta neste livro, argumentos que segundo ele próprio não se destinam a provar de uma vez por todas que não há fine-tuning através de provar como se formou o universo – apenas a provar que não temos razões para dizer que há "fine tuning" e que o universo é o que podemos esperar dele sem um “arquitecto” a desenhar. Nas suas palavras, demonstrar que o fine-tuning é uma falácia.
Começa por considerar que a maioria das alegações de fine tuning não são minimamente justificadas e dedica-se a desmontar apenas aquelas que apresentam algum suporte cientifico (alguns autores falam em listas de 36 mas nem dizem quais são especificamente!).
A maioria da argumentação é bastante teórica e requer bons conhecimentos de matemática e fisica para seguir. Este é um livro de divulgação cientifica que roça o livro técnico. Tem no entanto um resumo no fim para quem quiser ir directo às conclusões.
Mas em resumo, encontrando razões diferentes para criticar cada valor dos alegadamente afinados ele apoia-se num conjunto de achados:
- Nem todos os valores seriam manipuláveis independentemente. Alguns não seriam manipuláveis de todo sem que houvesse quebra das regras que sugerem para outros o próprio fine-tuning
- Manipulando valores sem ser um de cada vez podemos “compensar” uns com os outros.
- Alguns valores permitem uma margem de manobra maior que a “anunciada” sem eliminar a hipótese de haver vida.
- Alguns valores não estão bem estimados/calculados, logo não é possível sequer dizer que estão “afinados”,( tal só será possível após conhecer o valor em si.)
Para além disso alega ser plausível que haja vida com outras necessidades bastante diferentes das nossas. E baseia nisso a hipótese de poder haver outros tipos de universos capazes de albergar vida mesmo que não fujamos muito do que já sabemos hoje, isto é, precisamos de um universo complexo, não serve por exemplo um universo feito de protões.
Por fim faz um ataque frontal aos argumentos teológicos assentes em estatística Bayesiana e mostra como manipulando a probabilidade à priori podemos chegar a conclusões diferentes, sugerido que ainda não estamos prontos para usar esse tipo de estatística para avaliar a existência de Deus.
Isto tudo é feito sem sair da física clássica e sem abordar teorias mais extravagantes como a do multiverso ou a teoria das cordas.
Naturalmente que ja existe uma grande contestação à volta dos resultados, com muitos apelos a autoridade à mistura. No entanto a refutação das afirmações deste livro têm de ser cientificas. Esta discussão está definitivamente nesse campo.
O autor passa ainda uma grande parte do inicio do livro a desacreditar a ideia de que possa ter havido sequer um momento da criação, já que, argumenta, o universo não tem um inicio.
Aconselho a todos os que gostam de cosmologia, querem ter discussões informadas sobre a origem do universo e a existência ou não de Deus.
Citações interessantes do livro:
"Na minha visão, a vida é uma propriedade que qualquer sistema suficientemente complexo, não linear, interactivo e dissipativo desenvolverá se tiver tempo suficiente"
"Então o universo começará com entropa ou desordem máximas. Começa com informação a zero. Não tem registo de nada que possa ter havido antes, incluindo conhecimento e inteções de um criador."
"Além disso, mesmo em ciência, em que relações causais foram construidas dentro de modelos durante séculos, nós temos acontecimentos que surgem sem causa. Quando um electrão num estado excitado de energia num atomo cai para um nivel masi baixo, ele emite um fotão (...). Isto é um fenomeno quântico que na maioria das interpretações da mecanica quantica acontece espontâneamente, isto é, sem causa."
"Craig and Sinclair invocam outro tipo de infinito: um infinito de uma extenção medida. O seu teorema acima [que refere o absurdo do infinito como realidade] está correcto. Mas é irrelevante. Enquanto os cientistas são descuidados com o seu uso do termo "infinito" eles não alegam que o universo é infinito em espaço e tempo. Eles dizem que não tem limites."
"contudo a história biblica da criação não tem qualquer semelhança que seja com o Big Bang tal como descrito pela cosmologia moderna. O Génesis descreve uma criação tendo lugar em seis dias há uns milhares de anos. De acordo com o Genesis , a Terra foi creada ainda antes do SOl, a Lua, e as estrelas e tudo num firmamemto fixo. Em contraste, na cosmologia cientifica o universo é descrito saindo do caos por "tunneling" há 13,7 biliões de anos e num universo em expansão, certamente não num "firmamento" em que o sistema solar apareceu há 4,6 biliões de anos, seguido pela formação do Sol e da Terra nos seguintes 100 milhões de anos ou assim."
"doesn´t it make you wonder why He waited 13,6 biliões de anos antes de nos criar a nós?"
"Como veremos a invariancia de gauge foi o mais importante principio fisico descoberto no século XX. Notar que "gauge invariance" é apenas uma maneira bonita de dizer "invariancia em respeito ao ponto de vista""
"De notar que se o universo veio do nada a sua carga total tem de ser zero, tal como esperado se não houve criação milagrosa"
"Em 1949, Richard Feynman mostrou que electrões retrocedendo no tempo podem ser vistos como positrões acançando no tempo."
"Vou fazê-lo para mostrar que, mesmo no caso pouco provavel de existir apenas um universo, o fine tuning não existe, não há fine-tuning, ou seja, o fine tuning é uma falacia de todos os angulos".
Nota: traduzi bilion por bilião e não por milhar de milhão.
PS: Este livro não é uma repetição do ultimo do Hawking, que assenta na teoria das cordas para explicar porque o "fine tuning" não deve ser algo de estranhar. Aqui o Victor Stenger faz um ataque muito mais frontal com fisica muito mais bem estabelecida.
Etiquetas:
cosmologia,
Fine Tuning,
livros
terça-feira, 29 de março de 2011
Bem vindo ao seu cérebro.
"Bem vindo ao seu cérebro" é a tradução literal do nome do livro vendido em Portugal com o titulo "Cérebro - Manual do Utilizador". Tinha sido muito mais correcto manter o sentido original do titulo, já que o livro ensina muito mais acerca do que é o cérebro do que o que devemos fazer com ele. É certo que sabendo como funciona podemos ter uma ideia melhor de como o usar, e o livro está cheio de pequenas notas práticas sobre o que melhora ou piora o funcionamento deste órgão. É um pormenor insignificante, mas apeteceu ser picuinhas já que gosto muito mais do titulo original. E é menos pomposo. Adiante.
A simplicidade com que está escrito, por vezes com uma prosa infantil de livro de escola, esconde não só o trabalho enorme de bastidores que tem um livro com este conteúdo, como a pertinência e rigor cientifico do próprio conteúdo.
Não carrega demasiado na forma como se chegou a esta ou aquela conclusão, não está quase referenciado em relação a quem descobriu o quê ou quem disse o quê. É um livro de divulgação cuja maior ambição me parecer ser o de poder ser lido por todos.
Aconselho a todos os que quiserem uma abordagem leve (enganadoramente leve) mas não inconsistente ou incorrecta do que se sabe actualmente sobre o mais complexo órgão do nosso corpo. E para tirar a teimas sobre uma data de mitos que por aí circulam.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Stephen Hawking's and Leonard Mlodinow "The Grand Design" book review.
Que não haja duvidas. Este livro é sobre o ateísmo. Vem reforçar o que muitos já andam a dizer há muito tempo que é:
Deus não tem lugar no universo.
Em poucas páginas e começando com a história do pensamento cientifico, Hawking e Mlodinow argumentam que a aparente organização do universo é a esperada para qualquer observador inteligente com vida baseada em carbono. Não ser de esperar outra coisa, é também o argumento teísta, que vê nisso sinais de intencionalidade na criação. A diferença é subtil mas com consequencias drásticas.
Para além de desmistificar a aparente organização do universo, apresentando argumentos como eu já fiz (1) de que ver intencionalidade na organização é uma tendência humana, os autores explicam como é que sabemos que interpretar essa organização é um erro que contraria a própria ciência que permitiu chegar aos valores que sugerem afinação. Afinação das constantes e das leis naturais para que possa haver vida. Aquilo que é conhecido como argumento do "fine tuning".
Em poucas palavras, ainda menos do que no livro, vou tentar explicar:
Sabemos que algures na história do universo, este teve um tamanho em que a mecânica quântica é que o regia, já que era mais pequeno que um átomo. Sabemos também que nessas condições, não precisamos de um criador (2). Na realidade é de esperar que a auto-criação esteja sempre a acontecer a nível quântico. Mas se se aplica a mecânica quântica, e as previsões feitas por esta teoria estão surpreendente bem confirmadas, então temos de explicar o funcionamento actual do universo de acordo com o que diz a mecânica quântica. A maneira matemática de explorar isso é através da reformulação de Feynman. É o que se chama "soma das histórias". Isto é, para cada entidade quântica, temos de contar como reais todas as histórias possíveis para essa entidade, e em que essas histórias possiveis interferem umas com as outras produzindo um resultado final que é a soma dessas histórias. Ou seja, os vários acontecimentos provaveis interferem uns com os outros porque têm de ser tomados como sendo todos reais, como se para uma entidade tudo o que pode acontecer com ela acontecesse ao mesmo tempo. Por outro lado quando se faz uma observação, em qualquer momento do percurso de uma entidade quantica, estamos logo a eliminar uma data de históras possiveis que passam a não ter acontecido. O tempo comporta-se como se fosse espaço e a direcção da causalidade dá para os dois lados. O presente afecta o passado. E isto está demosntrado em mecanica quântica. E o universo neste caso é uma entidade quântica.
Por isso a teoria prevê que uma data de universos com leis diferentes tenham de ser assumidos como reais enquanto ele estiver em dimensões quanticas. E tal como a teoria prevê, se estamos cá como observadores desse universo, é natural que só vão contar para a soma das histórias do nosso universo aquelas em que é permitido que nós apareçamos. Isto é a prova cientifica do princípio antrópico fraco (1). O universo em que estamos é como é porque se não fosse não era o nosso universo. Era outro qualquer. Que é igualmente possível e real. Mas não é este em que o leitor lê estas palavras. Pelo simples facto de cá estarmos para fazer essa observação. Para quem isto estiver a fazer confusão deixem-me então explicar outra vez (3) que em mecânica quântica o presente altera o passado. Literalmente. Quando se faz uma observação, tudo o que aconteceu até esse momento é limitado por essa observação. Todas as histórias possiveis são reais mas são eliminadas aquelas que não contribuiem para o resultado obtido com a observação. De tal modo que é como se essas historias possiveis nunca tivessem acontecido. No entanto à partida sabemos que são possiveis. Algures deve haver outros universos a "pular" com histórias diferentes.
Ajudou? Se não ajudou proponho ler não só este livro como "O universo elegante" de Brian Green.
Outra parte importante do livro é a explicação de porque é que podemos usar a mecânica quântica e a relatividade ao mesmo tempo para chegar a esta conclusão mista - a parte de um universo que se contrai conforme andamos para o passado vem da teoria da relatividade. E esta parte da soma das histórias é da mecanica quantica. E sabemos que se as tentarmos conjugar uma com a outra o resultado é infinito. Não dá. Então como fazemos isso?
É porque existe uma Teoria-M que é na realidade um aglomerado de teorias, que unifica consistentemente os resultados destas teorias. Esta unificação é resultado da abordagem matemática conhecida como teorias das cordas, onde das cordas já passamos para membranas e outras coisas mais complicadas. A Teoria-M deixa que usemos modelos diferentes para problemas diferentes porque os modelos sobrepõem-se e nessa zona de sobreposição são completamente concordantes. O que não acontece com a mecânica quântica e a relatividade que sem esta integração o resultado da sua combinação e infinito. A Teoria-M ainda não está cientificamente provada, apesar de ter já o nome de teoria. Porque o grau de certeza que temos nela é tão elevado como em outras teorias. Para aqueles que considerem que a filosofia tem o mesmo grau de certeza que a ciência nas afirmações, então devem ficar satisfeitos com ela porque a lógica e a matemática que a suportam são de alto nível. Para outros como eu, que precisamos de ver as confirmações cientificas ou saber das demonstrações matemáticas completas, falta ainda só um bocadinho. Mas é claro para mim, mesma que ache que ainda falta um pequeno passo para poder escrever o meu post intitulado "O fine tuning refutado", que esta explicação está a anos-luz da qualidade de qualquer outra. É a melhor explicação que há para tudo o que conhecemos. Disso não tenho duvidas.
Para o Stephen Hawking não falta nada. ( E eu fico um bocado atrapalhado por ser ainda mais céptico que o Stephen Hawking, mas é assim a vida). Para ele, esta é a teoria de tudo. E afirma-o categoricamente. Explicitamente, para que não restem duvidas. E também diz explicitamente que a ciência diz que Deus não existe. Continuar a insistir no oposto no contexto actual do conhecimento humano só se deve à vontade dos crentes. Só se deve a uma crença apaixonada em algo que não tem justificação racional e é até contra o conhecimento cientifico. Só se deve a Fé. Mas Fés há muitas (não faltam aí e o livro aponta umas quantas), o que é dificil mesmo é descrever a realidade sem deixar que a nossa vontade atrapalhe a visão (4).
Mas se bem que a observação que fazemos no universo condicione as leis com que ele teve de evoluir desde o Big Bang, a Fé só por si não faz aparecer as coisas que nós queremos como diz aquele livro idiota chamado "O desejo".
Que recomendação dar deste livro? Para quem quiser saber em vez de palpitar ou escolher postulados é de leitura obrigatória. Para quem já sabe tudo o que lá está escrito, é também uma história excelente. Uma que já sabemos o fim, mas que não deixa de ser uma das histórias mais fantásticas que há. A do nosso próprio conhecimento. Para mim o livro foi o que os anglófonos chamam "a page turner". Só parei de ler quando acabou, mesmo se as pestanas já pesavam.
Notas e referencias:
(1) O argumento do "fine-tuning desmistificado":
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/o-argumento-do-fine-tuning.html
(2) De uma flutuação quântica nasceu o universo:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/criacao-partir-do-nada-e-radiacao-de.html
(3)Sobre a mecânica quantica:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html
(4) O mais cego é aquele que não quer ver: (ainda não escrevi neste universo).
Nota: Eu ainda considero que a teoria da evolução ao mostrar como coisas mais complexas podem emergir de outras mais simples desde que haja energia suficiente, tal como comprovado por Prigogine, justifica satisfatóriamente qualquer organisação em qualquer aspecto do universo.
Nota 2: Os autores consideram, tal com eu tenho vindo a argumentar neste blogue, que mesmo na ausencia deste conhecimento actual, que recorrer a um deus para explicar a criação não leva a lado nenhum. É só substituir um mistério por outro. Se temos de aceitar que algures há algo que não precisa de criação é uma explicação muito mais simples dizer que o universo se auto-formou.
Nota 3: Provavelmente vai haver uma data de gente que não vai perceber nada disto e vai continuar a acreditar em deus. É a vida. Mas a tese de que a ciência repudia a existencia de deus está mais que bem fundamentada. Este livro sucede-se a outros de uma série de autores que arriscaram o seu "conforto" quer académico quer pessoal para denúnciar que o rei vai nú.
Nota 4: Para nós não há deus. Nem grande. nem pequeno. É contra tudo o que se sabe. Mas se a possibilidade de se formarem universos é infinita e as hipóteses são infinitas então temos de assumir que pode haver um universo que é uma sucessão ainda maior de acontecimetos ainda mais extraordinários! Extranhamente, e porque parece-me que não há nada que o impeça, na auto-criação pode emergir expontaneamente uma entidade "tipo-deus", poderosa até ao limite da lógica e autoconsciente. Uma que no seu universo poderia por e dispor. Sabemos no entanto que isso não aconteceu neste. A não ser que essa entidade faça tudo para que tudo se passe como se não existisse, e mais do que isto não pudesse ser imaginado sequer.
Deus não tem lugar no universo.
Em poucas páginas e começando com a história do pensamento cientifico, Hawking e Mlodinow argumentam que a aparente organização do universo é a esperada para qualquer observador inteligente com vida baseada em carbono. Não ser de esperar outra coisa, é também o argumento teísta, que vê nisso sinais de intencionalidade na criação. A diferença é subtil mas com consequencias drásticas.
Para além de desmistificar a aparente organização do universo, apresentando argumentos como eu já fiz (1) de que ver intencionalidade na organização é uma tendência humana, os autores explicam como é que sabemos que interpretar essa organização é um erro que contraria a própria ciência que permitiu chegar aos valores que sugerem afinação. Afinação das constantes e das leis naturais para que possa haver vida. Aquilo que é conhecido como argumento do "fine tuning".
Em poucas palavras, ainda menos do que no livro, vou tentar explicar:
Sabemos que algures na história do universo, este teve um tamanho em que a mecânica quântica é que o regia, já que era mais pequeno que um átomo. Sabemos também que nessas condições, não precisamos de um criador (2). Na realidade é de esperar que a auto-criação esteja sempre a acontecer a nível quântico. Mas se se aplica a mecânica quântica, e as previsões feitas por esta teoria estão surpreendente bem confirmadas, então temos de explicar o funcionamento actual do universo de acordo com o que diz a mecânica quântica. A maneira matemática de explorar isso é através da reformulação de Feynman. É o que se chama "soma das histórias". Isto é, para cada entidade quântica, temos de contar como reais todas as histórias possíveis para essa entidade, e em que essas histórias possiveis interferem umas com as outras produzindo um resultado final que é a soma dessas histórias. Ou seja, os vários acontecimentos provaveis interferem uns com os outros porque têm de ser tomados como sendo todos reais, como se para uma entidade tudo o que pode acontecer com ela acontecesse ao mesmo tempo. Por outro lado quando se faz uma observação, em qualquer momento do percurso de uma entidade quantica, estamos logo a eliminar uma data de históras possiveis que passam a não ter acontecido. O tempo comporta-se como se fosse espaço e a direcção da causalidade dá para os dois lados. O presente afecta o passado. E isto está demosntrado em mecanica quântica. E o universo neste caso é uma entidade quântica.
Por isso a teoria prevê que uma data de universos com leis diferentes tenham de ser assumidos como reais enquanto ele estiver em dimensões quanticas. E tal como a teoria prevê, se estamos cá como observadores desse universo, é natural que só vão contar para a soma das histórias do nosso universo aquelas em que é permitido que nós apareçamos. Isto é a prova cientifica do princípio antrópico fraco (1). O universo em que estamos é como é porque se não fosse não era o nosso universo. Era outro qualquer. Que é igualmente possível e real. Mas não é este em que o leitor lê estas palavras. Pelo simples facto de cá estarmos para fazer essa observação. Para quem isto estiver a fazer confusão deixem-me então explicar outra vez (3) que em mecânica quântica o presente altera o passado. Literalmente. Quando se faz uma observação, tudo o que aconteceu até esse momento é limitado por essa observação. Todas as histórias possiveis são reais mas são eliminadas aquelas que não contribuiem para o resultado obtido com a observação. De tal modo que é como se essas historias possiveis nunca tivessem acontecido. No entanto à partida sabemos que são possiveis. Algures deve haver outros universos a "pular" com histórias diferentes.
Ajudou? Se não ajudou proponho ler não só este livro como "O universo elegante" de Brian Green.
Outra parte importante do livro é a explicação de porque é que podemos usar a mecânica quântica e a relatividade ao mesmo tempo para chegar a esta conclusão mista - a parte de um universo que se contrai conforme andamos para o passado vem da teoria da relatividade. E esta parte da soma das histórias é da mecanica quantica. E sabemos que se as tentarmos conjugar uma com a outra o resultado é infinito. Não dá. Então como fazemos isso?
É porque existe uma Teoria-M que é na realidade um aglomerado de teorias, que unifica consistentemente os resultados destas teorias. Esta unificação é resultado da abordagem matemática conhecida como teorias das cordas, onde das cordas já passamos para membranas e outras coisas mais complicadas. A Teoria-M deixa que usemos modelos diferentes para problemas diferentes porque os modelos sobrepõem-se e nessa zona de sobreposição são completamente concordantes. O que não acontece com a mecânica quântica e a relatividade que sem esta integração o resultado da sua combinação e infinito. A Teoria-M ainda não está cientificamente provada, apesar de ter já o nome de teoria. Porque o grau de certeza que temos nela é tão elevado como em outras teorias. Para aqueles que considerem que a filosofia tem o mesmo grau de certeza que a ciência nas afirmações, então devem ficar satisfeitos com ela porque a lógica e a matemática que a suportam são de alto nível. Para outros como eu, que precisamos de ver as confirmações cientificas ou saber das demonstrações matemáticas completas, falta ainda só um bocadinho. Mas é claro para mim, mesma que ache que ainda falta um pequeno passo para poder escrever o meu post intitulado "O fine tuning refutado", que esta explicação está a anos-luz da qualidade de qualquer outra. É a melhor explicação que há para tudo o que conhecemos. Disso não tenho duvidas.
Para o Stephen Hawking não falta nada. ( E eu fico um bocado atrapalhado por ser ainda mais céptico que o Stephen Hawking, mas é assim a vida). Para ele, esta é a teoria de tudo. E afirma-o categoricamente. Explicitamente, para que não restem duvidas. E também diz explicitamente que a ciência diz que Deus não existe. Continuar a insistir no oposto no contexto actual do conhecimento humano só se deve à vontade dos crentes. Só se deve a uma crença apaixonada em algo que não tem justificação racional e é até contra o conhecimento cientifico. Só se deve a Fé. Mas Fés há muitas (não faltam aí e o livro aponta umas quantas), o que é dificil mesmo é descrever a realidade sem deixar que a nossa vontade atrapalhe a visão (4).
Mas se bem que a observação que fazemos no universo condicione as leis com que ele teve de evoluir desde o Big Bang, a Fé só por si não faz aparecer as coisas que nós queremos como diz aquele livro idiota chamado "O desejo".
Que recomendação dar deste livro? Para quem quiser saber em vez de palpitar ou escolher postulados é de leitura obrigatória. Para quem já sabe tudo o que lá está escrito, é também uma história excelente. Uma que já sabemos o fim, mas que não deixa de ser uma das histórias mais fantásticas que há. A do nosso próprio conhecimento. Para mim o livro foi o que os anglófonos chamam "a page turner". Só parei de ler quando acabou, mesmo se as pestanas já pesavam.
Notas e referencias:
(1) O argumento do "fine-tuning desmistificado":
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/03/o-argumento-do-fine-tuning.html
(2) De uma flutuação quântica nasceu o universo:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/criacao-partir-do-nada-e-radiacao-de.html
(3)Sobre a mecânica quantica:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/sobre-mecanica-quantica.html
(4) O mais cego é aquele que não quer ver: (ainda não escrevi neste universo).
Nota: Eu ainda considero que a teoria da evolução ao mostrar como coisas mais complexas podem emergir de outras mais simples desde que haja energia suficiente, tal como comprovado por Prigogine, justifica satisfatóriamente qualquer organisação em qualquer aspecto do universo.
Nota 2: Os autores consideram, tal com eu tenho vindo a argumentar neste blogue, que mesmo na ausencia deste conhecimento actual, que recorrer a um deus para explicar a criação não leva a lado nenhum. É só substituir um mistério por outro. Se temos de aceitar que algures há algo que não precisa de criação é uma explicação muito mais simples dizer que o universo se auto-formou.
Nota 3: Provavelmente vai haver uma data de gente que não vai perceber nada disto e vai continuar a acreditar em deus. É a vida. Mas a tese de que a ciência repudia a existencia de deus está mais que bem fundamentada. Este livro sucede-se a outros de uma série de autores que arriscaram o seu "conforto" quer académico quer pessoal para denúnciar que o rei vai nú.
Nota 4: Para nós não há deus. Nem grande. nem pequeno. É contra tudo o que se sabe. Mas se a possibilidade de se formarem universos é infinita e as hipóteses são infinitas então temos de assumir que pode haver um universo que é uma sucessão ainda maior de acontecimetos ainda mais extraordinários! Extranhamente, e porque parece-me que não há nada que o impeça, na auto-criação pode emergir expontaneamente uma entidade "tipo-deus", poderosa até ao limite da lógica e autoconsciente. Uma que no seu universo poderia por e dispor. Sabemos no entanto que isso não aconteceu neste. A não ser que essa entidade faça tudo para que tudo se passe como se não existisse, e mais do que isto não pudesse ser imaginado sequer.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
"O livro da Consciência"
"Todo o tecido da mente consciente é criado a partir dos mesmos fios: imagens criadas pela capacidade de mapeamento do cérebro" .
António Damásio consegue em poucas páginas, dado a profundidade do tema, expor uma hipótese cientifica, testável e acessível, sobre o que forma a consciência. E porque existe uma consciência.
De facto, o livro tem uma longa introdução sob a perspectiva da evolução do que significa possuir uma consciência. Resumidamente, plausivelmente argumenta como a consciência pode ter evoluído de comportamentos mais simples, e como de facto ainda hoje essas estruturas são os alicerces do nosso Eu. A vantagem para os seres possuidores de consciência será a capacidade de tomar melhores decisões.
Daqui passa para o desmontar do processo consciente, sempre justificando as suas afirmações em conhecimentos concretos de neurologia, e constroi gradualmente a sua tese. O suporte neuroanatómico e neurofisiológico para tudo o que diz é de facto o ponto forte deste livro.
António Damásio in "O Livro da Consciência"
António Damásio consegue em poucas páginas, dado a profundidade do tema, expor uma hipótese cientifica, testável e acessível, sobre o que forma a consciência. E porque existe uma consciência.
De facto, o livro tem uma longa introdução sob a perspectiva da evolução do que significa possuir uma consciência. Resumidamente, plausivelmente argumenta como a consciência pode ter evoluído de comportamentos mais simples, e como de facto ainda hoje essas estruturas são os alicerces do nosso Eu. A vantagem para os seres possuidores de consciência será a capacidade de tomar melhores decisões.
Daqui passa para o desmontar do processo consciente, sempre justificando as suas afirmações em conhecimentos concretos de neurologia, e constroi gradualmente a sua tese. O suporte neuroanatómico e neurofisiológico para tudo o que diz é de facto o ponto forte deste livro.
SPOILERS
O livro apresenta a consciência dividida em 3 componentes principais. A vigília, a mente e o eu. É a "Santíssima Trindade" da consciência. Segundo ele, o mais simples componente e o primeira a ser cientificamente abordado (talvez por essa razão) foi a vigília. O segundo é a mente. A mente é o processamento matemático de informação, informação essa que pode circular a nível consciente ou não. O terceiro é o Eu. E o livro explica como o Eu ao ser acrescentado nesta mistura forma a consciência.
Eu penso que aqui o autor dá um verdadeiro passo em frente. Outro ponto forte da obra: É apresentar uma explicação plausível, de como esse fluxo principal da mente pode ser também o pensamento consciente. Um pensamento em que nós sabemos que somos nós que o pensamos.
Para isso ele divide o Eu em outras 3 fases. É a escalada de complexidade nessas fases que forma o Eu que depois chega à mente (Self comes to mind, no original) para formar a consciência no estado de vígilia.
E são: O proto-Eu, o Eu nuclear e o Eu-autobiográfico.
O proto-Eu é o mapa das disposições corporais. Mapeia o corpo, as emoções, e processa os sentimentos primordiais dessas emoções.
O Eu nuclear é o resultado da interacção do proto-eu com objectos. Qualquer coisa exterior ao cérebro que resulte num outro objecto (que é uma representação interna) e que interaja e se integre nos mapas do proto-eu. Ambos objecto mental e proto-eu sofrem alterações no decorrer dessas interações, formando um padrão coerente.
O Eu-autobiográfico é a relação dessa interacção objecto/proto-eu registada no cenário maior da experiência vivida ou até antecipada.
Damásio rejeita ainda formalmente a noção de espaço de trabalho global avançada por Baars, Dehaene e Changeaux. Propõe antes a divisão de tarefas entre um espaço imagetico e um espaço disposicional, e prevê a base neuronal de tais processos. Como Dennet, insiste que não há um sitio que forme a consciência. Ela é um processo global embora fortemente suportado por determinadas estruturas. O tronco cerebral, o tálamo e o córtex.
O cuidado da tradução e da escrita é notório, mas por uma razão qualquer não me parece ao nível dos anteriores. O conteúdo sim, é de primeira categoria. Tenho no entanto a certeza que mesmo os apreciadores de boa fraseologia irão ficar satisfeitos mais que não seja pelas pequenas pérolas salpicadas pelo livro fora.
De facto, não me impressionou tanto este livro como o "sentimento de Si", talvez por muitas ideias virem já dessa altura, mas a actualização e polimento dos conceitos desta nova obra é razão suficiente para uma leitura. Quem não tem lido nada de nada sobre a consciência, então até posso dizer que o invejo. Tem pela frente uma excelente montanha russa de revelações sobre a mente, o cérebro e a consciência.
Está como disse escrito de um modo ainda acessível, mas num nível de dificuldade acima da média dentro dos padrões da divulgação cientifica. Penso que esta obra representa mesmo uma unificação original dos pensamentos do autor, destinada a vários meios diferentes simultâneamente.
Embora o autor admita que a consciência continue um mistério (1) , muita coisa na consciência já não o é. Temos uma ideia muito boa de como ela se forma e de porque a temos.
Aconselho fortemente a todos os seres conscientes.
Damásio rejeita ainda formalmente a noção de espaço de trabalho global avançada por Baars, Dehaene e Changeaux. Propõe antes a divisão de tarefas entre um espaço imagetico e um espaço disposicional, e prevê a base neuronal de tais processos. Como Dennet, insiste que não há um sitio que forme a consciência. Ela é um processo global embora fortemente suportado por determinadas estruturas. O tronco cerebral, o tálamo e o córtex.
END SPOILERS
O cuidado da tradução e da escrita é notório, mas por uma razão qualquer não me parece ao nível dos anteriores. O conteúdo sim, é de primeira categoria. Tenho no entanto a certeza que mesmo os apreciadores de boa fraseologia irão ficar satisfeitos mais que não seja pelas pequenas pérolas salpicadas pelo livro fora.
De facto, não me impressionou tanto este livro como o "sentimento de Si", talvez por muitas ideias virem já dessa altura, mas a actualização e polimento dos conceitos desta nova obra é razão suficiente para uma leitura. Quem não tem lido nada de nada sobre a consciência, então até posso dizer que o invejo. Tem pela frente uma excelente montanha russa de revelações sobre a mente, o cérebro e a consciência.
Está como disse escrito de um modo ainda acessível, mas num nível de dificuldade acima da média dentro dos padrões da divulgação cientifica. Penso que esta obra representa mesmo uma unificação original dos pensamentos do autor, destinada a vários meios diferentes simultâneamente.
Embora o autor admita que a consciência continue um mistério (1) , muita coisa na consciência já não o é. Temos uma ideia muito boa de como ela se forma e de porque a temos.
Aconselho fortemente a todos os seres conscientes.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1) O que é um mistério? Se as hipoteses aqui espostas forem provadas ficam ainda coisas por explicar, por exemplo porque sentimos como sentimos - o problema dos qualia. Mas deixará de ser um mistério. Se o termo mistério significa algo como "não fazemos sequer uma ideia por onde lhe pegar", então acho que já não é mistério há algum tempo - pelo menos desde o "Consciousness Explained" de Daniel Dennet.
Etiquetas:
António Damásio,
ciência; materialismo,
consciência,
livros
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
"Filosofia" de Stephen Law
Este livro de Stephen Law , ensina-nos filosofia como se de uma viagem se trata-se. Está feito como um guia turistico para uma viagem.
Pode parecer uma estrutura bizarra para um livro com um tema tão sério mas funciona bem. Não é para saber a fundo. É para saber alguma coisa e despertar a curiosidade. E claro, entreter. Não precisa de ser lido por ordem, podemos pegar e começar a ler em qualquer parte - exactamente como num guia de viagens. E que viagem esta é.
Informação rápida, fiável e pertinente. Extremamente acessivel.
Politica, pensamento crítico, história do conhecimento, pequenas biografias, etc. Para nas paragens obrigatórias todas.
Aconselho.
Publicado pela Civilização, ISBN 978-989-550-720-7
Pode parecer uma estrutura bizarra para um livro com um tema tão sério mas funciona bem. Não é para saber a fundo. É para saber alguma coisa e despertar a curiosidade. E claro, entreter. Não precisa de ser lido por ordem, podemos pegar e começar a ler em qualquer parte - exactamente como num guia de viagens. E que viagem esta é.
Informação rápida, fiável e pertinente. Extremamente acessivel.
Politica, pensamento crítico, história do conhecimento, pequenas biografias, etc. Para nas paragens obrigatórias todas.
Aconselho.
Publicado pela Civilização, ISBN 978-989-550-720-7
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Espectáculo da Vida - A Prova da Evolução, de Richard Dawkins
Richard Dawkins volta ao seu melhor com este novo livro sobre a evolução. Desta vez o foco é na evolução enquanto facto e não como processo. A síntese evolutiva moderna explica como se deu a evolução, mas antes de mais a evolução é um facto que como qualquer outro requer explicação. Este livro é uma colecção de evidencias para a evolução enquanto facto. E a explicação dessas evidencias. E nisso é muito bom. Não creio que qualquer pessoa intelectualmente honesta possa dizer que não há evolução depois deste livro. Explicar como isso se deu é que não se encontra aqui.
A prosa de Dawkins para quem não conhece ainda, é despretensiosa e clara. Não usa jargão científico se o puder evitar, mas mantém uma grande simplicidade e clareza nas explicações. A aversão explícita que Dawkins tem pelas citações fora de contexto (de que é alvo frequente), tem provavelmente um papel na tentativa de fazer frases claras e objectivas, onde dificilmente se pode dar um segundo sentido (acidentalmente ou não).
Sobre os conhecimentos do autor acerca do tema não vale a pena puxar pelos galões. Basta ler. Dawkins está como peixe na água a falar da evolução e o entusiasmo com que o faz nota-se. Não só sabe muito sobre o tema como tem um enorme entusiasmo, quase juvenil, em mostrar como sabemos o que sabemos. Aliás, se o título tivesse sido traduzido à letra chamar-se-ia: "O maior espectáculo à face da terra: provas da evolução". Drama, competição, sucesso, beleza, alianças, traições. Tem tudo e Dawkins parece vibrar enquanto fala do assunto.
Como pontos negativos aponto a extensão do livro, mas sinceramente não sei onde cortaria para o encurtar. Só se fosse mesmo na parte de comentários pessoais, que estão salpicados por todo o lado, mas isso sem dúvida empobreceria o livro.
Recomendado a todos os que gostam de natureza e de saber como ela é.
Não é recomendado para quem queira saber como determinado aspecto da evolução é explicado. Para isso deve procurar outros livros, que até podem ser do mesmo autor, como por exemplo "O relojoeiro cego", onde se explica porque sabemos que a evolução não segue um plano (e que as coisas evoluem para altos níveis de complexidade pela importância que têm a cada passo e não por serem passos intermédios com um fim em vista), embora nesse livro seja dado já como facto que a vida evolui.
Penso ainda que é um livro com valor para professores de biologia que queiram fazer uma revisão ou tenham de gerir discussões sobre a evolução nas aulas.
Aqui ao lado, o autor do blogue "Biogeonorte" tem feito uma compilação de citações do "Espectáculo da Vida" que aconselho também:
http://biogeonorte.blogspot.com/
PS: Dawkins apesar de dizer que este livro não é uma critica à religião não se abstém de dar uma ou outra alfinetada. Não é de estranhar, uma vez que a evolução é apenas contrariada por aqueles que consideram que Deus nos disse o contrário.
A prosa de Dawkins para quem não conhece ainda, é despretensiosa e clara. Não usa jargão científico se o puder evitar, mas mantém uma grande simplicidade e clareza nas explicações. A aversão explícita que Dawkins tem pelas citações fora de contexto (de que é alvo frequente), tem provavelmente um papel na tentativa de fazer frases claras e objectivas, onde dificilmente se pode dar um segundo sentido (acidentalmente ou não).
Sobre os conhecimentos do autor acerca do tema não vale a pena puxar pelos galões. Basta ler. Dawkins está como peixe na água a falar da evolução e o entusiasmo com que o faz nota-se. Não só sabe muito sobre o tema como tem um enorme entusiasmo, quase juvenil, em mostrar como sabemos o que sabemos. Aliás, se o título tivesse sido traduzido à letra chamar-se-ia: "O maior espectáculo à face da terra: provas da evolução". Drama, competição, sucesso, beleza, alianças, traições. Tem tudo e Dawkins parece vibrar enquanto fala do assunto.
Como pontos negativos aponto a extensão do livro, mas sinceramente não sei onde cortaria para o encurtar. Só se fosse mesmo na parte de comentários pessoais, que estão salpicados por todo o lado, mas isso sem dúvida empobreceria o livro.
Recomendado a todos os que gostam de natureza e de saber como ela é.
Não é recomendado para quem queira saber como determinado aspecto da evolução é explicado. Para isso deve procurar outros livros, que até podem ser do mesmo autor, como por exemplo "O relojoeiro cego", onde se explica porque sabemos que a evolução não segue um plano (e que as coisas evoluem para altos níveis de complexidade pela importância que têm a cada passo e não por serem passos intermédios com um fim em vista), embora nesse livro seja dado já como facto que a vida evolui.
Penso ainda que é um livro com valor para professores de biologia que queiram fazer uma revisão ou tenham de gerir discussões sobre a evolução nas aulas.
Aqui ao lado, o autor do blogue "Biogeonorte" tem feito uma compilação de citações do "Espectáculo da Vida" que aconselho também:
http://biogeonorte.blogspot.com/
PS: Dawkins apesar de dizer que este livro não é uma critica à religião não se abstém de dar uma ou outra alfinetada. Não é de estranhar, uma vez que a evolução é apenas contrariada por aqueles que consideram que Deus nos disse o contrário.
Etiquetas:
livros,
Teoria da Evolução
Subscrever:
Mensagens (Atom)