quarta-feira, 20 de julho de 2011

"The Moral Landscape" por Sam Harris.

Este é o ultimo livro de Sam Harris, em português: "A Paisagem Moral"

Tem como subtitulo: "Como pode a ciência determinar os valores humanos?" e pretende dar resposta a esta pergunta com um numero mínimo de pressupostos, de acordo com o que já sabemos sobre a moral, a neurociencia e a ciência em si própria.

Para Sam Harris, a moral é a maximização do bem estar. A julgar pela sua argumentação, mais relacionado com a distribuição do bem estar do que com a sua medida absoluta em qualquer momento.

E o bem estar, defende, é algo que nós podemos vir a medir com rigor cientifico, ou pelo menos com um grau de incerteza tolerável, sobretudo se usarmos uma abordagem neurológica. O bem estar defende, deverá corresponder a um estado cerebral. Neste enquadramento biológico podemos por princípio usar todo o aparato teórico e tecnológico cientifico para dizer o que pode ser melhor para nós e como podemos consegui-lo.

Sam Harris não tenta esconder que cada um dos pressupostos do enquadramento em que propõe abordar a moral não levantam problemas por si próprios.

Tais como sejam:

Queremos procurar o maior valor absoluto para o bem estar? É uma medida de distribuição? E medir a distribuição da moral como? É uma média do bem estar numa população? E o bem estar será realmente algo que todos valorizam da mesma maneira (ja sabendo que nem todos gostam das mesmas coisas)? Fará sentido por si próprio? Como distinguimos isso de alegria ou felicidade momentânea? E será possível encontrar sempre soluções para uma distribuição justa do bem estar em situações limite e complexas ou serão sempre problemas sem resposta ou com resposta apenas após ponderação quase infinita (problemas não-P em matemática).

O que ele propõe é que em princípio o que sabemos hoje já é suficiente para iniciar esta abordagem, já que não precisamos de saber tudo para saber alguma coisa. Ou pelo menos, pressupor que sabemos.

De facto, o grande problema para abordar a moral é conseguir um objectivo, um fim, para que possamos procurar soluções. Esse objectivo, envolve uma escolha. A tal escolha que tem tornado a moral um problema não cientifico. E essa escolha, Sam Harris não nega, será sempre uma escolha subjectiva, por ser referente a sujeitos. Mas os sujeitos somos nós e podemos tentar perceber se a escolha é ou não algo que diga alguma coisa a todos. Mas não é isso que obriga a Moral a ficar plenamente no campo da filosofia.

Mesmo que, como ele argumenta, essa escolha seja provavelmente uma ilusão. A escolha de querer estar bem, pode não ser bem uma escolha (idem, ver "link" acima). Segundo ele, não temos realmente livre-arbítrio: "O livre-arbitrio é uma ilusão de uma ilusão". Mas isso, de não haver escolha, não é um problema neste contexto.


O problema é que sem um fim em vista para a moral, não há soluções para a moral. Apenas afirmações em aberto sem valor. Hipoteses indistintas. É a queda num relativismo moral absurdo.

Se queremos distinguir afirmações de moral umas das outras, e aceitamos que há coisas mais morais que outras, é porque alguma coisa temos em vista, existe um objectivo algures para a especulação moral. É porque tivemos de fazer uma escolha algures.

Ele propõe definir esse objectivo, como já disse, com o “bem estar”, e que essa seja a escolha subjacente a toda a racionalização sobre a moral que nós já fazemos neste momento, e até de um modo relativamente consensual – pois se temos consensos acerca de moral em algumas coisas é porque é plausível que procuremos a mesma coisa.

E consensos acerca da importância do bem estar e do que isso significa para nós, parece que também não será difícil. Mesmo indo para outras espécies animais, parece que valorizamos basicamente as mesmas coisas (referencias na própria obra). E se isso – o consenso - é o suficiente para dizer que há conhecimento na ciência acerca de algo, porque não há de ser na moral? E se temos conhecimento do que procuramos, se temos um fim a atingir porque não podemos saber cientificamente qual a melhor maneira de o obter? Porque havemos de recusar ter vidas melhores, de um modo geral, se soubermos com o podemos fazer?

Na minha opinião não há razão para evitar a abordagem cientifica à moral, por princípio. Na realidade tenho argumentado nesse sentido desde há algum aqui neste blog. Mesmo os problemas que o Sam Harris sugere já tinha abordado alguns. As soluções são as mesmas. É por isso difícil para mim fazer uma boa critica a este livro. Ele tem a mesma opinião que eu e que eu já tinha antes de ler o livro. Não vejo talvez por isso muitos problemas, para além de que me deixou um pouco insatisfeito porque esperava que conseguisse desenvolver mais o tema.


A única objecção racional possivel (mas idiota) para esta abordagem é a apologia da maldade e dizer que é correcto escolher o mal estar para qualquer um. É dizermos que não querermos que haja uma distribuição justa do bem estar. Que não há justificação para a moral em si outra que querermos o melhor para todos e que podemos não querer o melhor para todos. Mas isso não só não é o que entendemos por moral, como leva a auto-destruição, e se pensassemos assim não estariamos preocupados com a moral. Acho que quem levantar esta objecção vai cair na posição do egoista e do psicopata e não conseguirá mostrar que é um sistema consistente e estável andarmos a dar facadas uns aos outros como contributo civico. Quanto aos que querem o bem estar só para si, isso pode funcionar até que sejam apanhados a darem cabo do bem estar dos outros. Na realidade estas pessoas podem ter repercursões muito mais sérias no bem estar das populações do que "apenas" nas pessoas directamente atingidas. Ja para não falar que uma vida, no caso de um psicopata assassino, será sempre mais valiosa que uns momentos de aceleração. Quero com isto dizer que o registo na distribuição do bem estar vai passar por valores mais baixos. Isso é suficente para explicar porque é que tal não é argumentavel num sistema que é feito a pensar em todos e não apenas em alguns especiais. E a moral é para todos. Senão estaremos a falar de outra coisa. Não me parece que venha a ser um problema chegar a consenso sobre isto.

Eu tenho defendido ocasionalmente que isto de escolher ser moral, de considarar moral como o bem, é uma escolha obrigatória no contexto de uma escolha mais básica que é querermos viver e escolhermos viver. Creio que uma sociedade que fique completamente maldosa colapsará nas suas próprias maquinações. Escolher a moral é escolher o caminho que leve a que qualquer pessoa em qualquer lugar tenha provavelmente o melhor que se pode esperar dos outros. E isso é o resultado de todos podermos ser essa pessoa. E de compreender que querermos todos viver o melhor possível e que na realidade nós somos também “o outro”.

Claro que pode haver indivíduos que procurem o bem estar sem se preocuparem com o que fazem aos outros para conseguir isso, desde o simples egoísta ao psicopata. Mas a moral não é a procura do bem estar individual de um individuo especial em detrimento de todos. Isso será o inverso da moral com origem em escolhas iniciais e princípios igualmente antagónicos: não distribuir o bem estar... E que daria, plausivelmente ao colapso da sociedade e não à sobrevivência nas melhores condições possíveis.

Porque queremos viver o melhor possível? Porque queremos viver de todo? Bem, essa é a questão. Não temos resposta absoluta. Resta saber se teremos também escolha. Não parecemos ter. Somos filhos de gerações e gerações de seres que escolheram (durante pelo menos uma grande parte do seu tempo) viver. O Sam Harris também aborda esta questão e também chega a esta falta de conclusões. E não tendo resposta absoluta, temos uma relativa a nós.

Mas o que é importante, é que parece que criamos a moral com este objectivo e que quer tenhamos escolha ou não, não parece haver duvidas que queremos bem estar. E que essa escolha, errada ou não, é para já aquilo que fazemos quando procuramos respostas morais. E que sendo assim, saibendo o que pretendemos atingir, estejamos completamente dentro do foro da ciência. A moral, se é a distribuição do bem é algo que pode ser abordado cientificamente. Mesmo com todas as dúvidas que ainda levanta.


Diria eu que é tal e qual como a medicina. A escolha de querermos ser saudáveis está certa ou errada? Tal como a moral, parte do principio que viver é certo, e que essa questão não impede que abordemos a saúde de modo científico, ainda que seja em si uma área cheia de incógnitas.

A escolha de querer bem estar, de querer viver, será sempre subjectiva. Será sempre relativa a sujeitos. Sem sujeitos não há fim em vista para a moral. É uma construção social e mental para que possa haver mais bem estar. Mas é uma que podemos estudar cientificamente em função desses sujeitos que somos nós. E é a escolha que por tudo o que sabemos TEMOS de fazer. Quer haja um deus ou não. De outro modo colapsamos.

O universo não deve estar ralado com a moral e com o bem estar. Mas nós estamos. É esse o sentido da moral. Pelo menos para nós é, mas somos nós que a fazemos, a moral é para nós. Não é para as pedras, para as estrelas e para o Sol. E se for aplicavel a estas coisas é sempre em relação a nós e ao que significa para nós. Por isso as coisas encaixam consistentemente... Que mais justificação pode haver? Que mais justificação que esta é sensato pedir?

Não sei. Mas mesmo que haja algo por responder, como em tudo, parece que temos o suficiente para fazer medições, projecções, modelos, testes, etc, Essas coisas da ciência.

AVISO IMPORTANTE: O livro contém, na discussão sobre psicopatas, o relato pessoal do que uma destas bestas fazia ao próprio filho. Esse relato é extremamente violento e aconselho a não ler a quem puder passar por cima. Não perde nada.

PS:

O autor tem uma secção onde discute o direito a acreditar. Não considerei a abordagem convincente mas levanta questões importantes que ainda não consegui processar. Não a achei de qualquer modo de relevo para esta reflexão sobre a obra.
Enviar um comentário