terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Manifestação anti-homeopatia e dilemas da ética céptica.

Tenho estado a pensar participar na campanha anti-homeopatia (1) apesar de ainda não ter conseguido arranjar companhia. Mas a minha consciência insiste que devo ir - a sociedade precisa que as pessoas que fazem parte dela sejam activas. As manifestações são mais que um direito (pelo menos em alguns casos). Não é aqui que está o problema.

O problema é que a manifestação inclui engolir uma data de medicamentos homeopáticos. É esse todo o ponto da questão. Simular uma overdose para mostrar que só com água não é possível.

O problema está em que eu não confio naquela gente, nos produtores de tretas homeopáticas, nem para lavarem os frascos que usam para vender aquilo.

Como é que é suposto confiar que aquilo é o que eles dizem, se eles dizem também que tratam e curam centenas de doenças quando sabemos não têm realmente eficácia nenhuma? Se não se importam de cobrar dezenas de euros por frascos alegadamente só com agua e açúcar sem eficácia terapêutica?

Quem me garante que cumprem normas de higiene, usam recipientes não tóxicos e que não metem mais nada lá para dentro, nem que seja um bocadinho de paracetamol e cafeína para ter de facto qualquer efeito?

Porque haveria de confiar que um medicamento homeopático é só agua e açúcar se todo o contexto é uma aldrabice pegada?


É simples, não confio. De resto, até me lembro de há uns anos ler um artigo que falava em resíduos de metais pesados e outros medicamentos nestas tretas homeopáticas.

Enviei um email à organização do protesto, e responderam-me que estão com a mesma preocupação. Que estariam a fazer uma lista de medicamentos homeopaticos que fizessem justiça à sua palavra para comprar depois na farmácia. Cada um leva o seu. Mas ainda que não me tenham dito como se obteria tal lista, uma vez que andar a testar tudo fica caro, a verdade é que andei a procurar no site da manifestação e não a encontrei ainda.

Se eu comprar um frasco e puser lá agua dentro, na prática estou a fazer um medicamento homeopático, ainda que sem aquelas feitiçarias de bater com o frasco não sei quantas vezes e etc. Mas não seria um medicamento comercial e não estaria a participar realmente da manifestação de mostrar a impossibilidade de overdose com medicamentos homeopáticos comerciais por não haver lá mais que agua e açúcar, precisamente com medo de que haja lá mais que agua e açúcar, ainda que por motivos de falta de cuidado ou aldrabice redobrada.

Estaria realmente a mentir. E a mascarar outra dúvida que sempre tive, que é quem garante que eles fazem o que dizem, já que o que dizem não faz nada.

Para isso não vale a pena ir. Ir sim é para emborcar aquilo ou ficar a ver. E ficar a ver... Para quê?

Sugestões?

(1) http://1023portugal.wordpress.com/desafio-1023/

 PS: Aos organizadores (caso passem por aqui): Eu apoio completamente o que estão a fazer. Como disse, confio é tanto naquela gente para vender agua como para curar  cancro.

13 comentários:

Pedro Homero disse...

Olá João!

Sou uma das pessoas que está a organizar a acção para o próximo sábado; compreendo as tuas reservas, mas permite-me dar uma sugestão.

Eu vou usar o osccilococcinum, dos laboratórios Boiron. Este laboratório é o mais famoso do mundo, no que concerne à homeopatia. São franceses e, dentro do mundo de fantasia e unicórnios que é a homeopatia, parecem fazer as coisas com seriedade. Eles não se arriscariam a ter processos em tribunal (e a má publicidade que daí adviesse) se contaminassem activamente os seus produtos com ingredientes activos em doses mensuráveis.

Tenho o pacote do oh-so-silly-coccinum fechado, e vou abri-lo diantes das câmaras, para que não se pense que meti lá dentro outra coisa (que, se alguém quiser pensar, vai pensar na mesma, por mais que tente demonstrar que não há jogada no meio.

Por outro lado, convidamos qualquer pessoa a vir assistir e "fazer monte", por assim dizer, sem terem que participar activamente na 'overdose'. Se calhar assim já te interessa ;)

Joao disse...

Pedro:

Obrigado pela resposta. Vou pensar nisso.

Custa-me um bocado não participar na festa.

Mas já pensaste que se te der uma maleca por causa de umas coli perdidas, ainda te vão dizer que te tinham avisado do poder das diluições infinitésimais?

Olha que eu tenho alguma experiencia em discutir com pessoas de descernimento "desafiado" e é este o tipo de resposta.

Pedro Homero disse...

Olá, de novo, João.

Muitas coisas na vida dependem de escolhas, as quais fazemos com um olho no risco, outro no prémio. É possível que até um laboratório que se preocupa com a sua reputação (a nível de higiene e segurança, entenda-se, não de eficácia!) possa vir a ter produtos contaminados, mas o mesmo pode passar-se com qualquer ovo ou alimento com ovo (que não seja pasteurizado) que coma. Parece-me que as hipóteses serão diminutas.

Noutros países, como os EUA, no qual não há uma regulamentação e fiscalização da segurança destes produtos, o que vai ser feito nas campanhas locais é uma diluição preparada por eles próprios que a seguir beberão. É uma hipótese, mas cá vamos mesmo optar pelos que se compram em farmácias, para minimizar o risco das críticas do género "ah, pois, estão a fazer eles, não compram na farmácia, têm medo".

As críticas absurdas (são pagos pelas farmacêuticas, querem proibir a homeopatia, não querem deixar que ninguém use a homeopatia, etc, etc) vão sempre existir. É o preço a pagar por apontar o foco da razão a pseudo-ciências, crendices e superstições.

Vás ou não no sábado, obrigado pelo apoio, João!

Joao disse...

Ja agora, antes que me esqueça, parabéns pela iniciativa.

Estive a ler sobre o Osciloscopium e estou parvo. São tretas sobre tretas.

Arnaldo Vasconcellos disse...

Eu gostaria de saber se teríamos esse protesto também em Brasília aqui do outro lado do atlântico...
Eu gostaria de participar. Embora a ineficácia do medicamento perdurado por anos no comércio nos corrobore a pensar que os homeopatas possam "sacanear", mas não creio também ser esta a motivação dos mesmos. Pois como o que o sr Pedro Homero disse é algo bem plausível: visto que os homeopatas acreditam na funcionalidade dos seus "medicamentos" e por este motivo fazem realmente com uma certa seriedade nos moldes de sua crença.

Hum, me parece que aqui no Brasil existem farmácias de manipulação homeopática em várias cidades (não sei bem o funcionamento deste comércio por aqui; mas me parece que é assim). Então neste caso, não sei como é a higienização, pois seria particular à cada laboratório. Entretanto o argumento do sr Homero se enquadra aqui ainda... eles não querem perder seus clientes com um processo de insalubridade. Portanto, aqui no Brasil é só eles não descobrirem que quem pediu foi um ativista. :D
Vai que o laboratório da esquina descobre que pedi um 'preparado' homeopático para protesto?... neste caso sim, a segurança seria temível...

Pedro Homero disse...

Oi, Arnaldo,
No Brasil a campanha vai estar presente em três cidades: São Paulo, Natal e Porto Alegre. ( http://www.1023.org.uk/ )

A organização no Brasil parece estar a cargo do site ceticismoaberto.com - talvez eles saibam de mais gente em Brasília que o possa informar melhor. Boa sorte!

Arnaldo Vasconcellos disse...

Ok. Vou procurar saber.

Chico Câmara disse...

As empresas multinacionais de produtos químicos estão conseguindo mobilizar a sociedade civil (neste caso, Pedro Homero, João e Arnaldo Vasconcelos, entre tantos outros), para defender seus (delas)interesses econômicos.
Eu trabalho com homeopatia notratamento de plantas. Uso-a para controlar insetos-pragas e doenças de plantas, e os resultados sempre são muito satisfatórios. Atualmente, por exemplo, tenho um trabalho de controle de broca (inseto) e antracnose (fungo)em abacateiros, numa área de 11 hectares, com eficácia superior ao tratamento com agroquímicos sintéticos.
E também tive experiências incríveis com pessoas da minha família que foram tratadas por médicos homeopatas.

Pedro Homero disse...

Estimado Chico Câmara,
Estou muito interessado no trabalho que está a fazer com plantas e homeopatia. Podia dar-me mais pormenores acerca do assunto?
Obrigado desde já!

Joao disse...

Chico Camâra:

Eu faço minhas as palavras do Pedro Homero.

No entanto queria lembrar-lhe que referencias a casos isolados, sem controle, não cegos e sem diagnóstico seguro são evidencia anedotica.

Deverá tambem incluir os dados e a analise estatistica para um valor de p menor que 0,01. E isso ja é alto.

Chico Câmara disse...

Olá, Pedro Homero e João.
É claro que posso detalhar mais meu trabalho com homeopatia em plantas. Verifiquem, por exemplo, no Google com palavras "homeopatia x formigas", ou na página do Sítio A Boa Terra o boletim on line que menciona o controle de formigas.
Se vocês têm skype ou msn, ficaria mais fácil nossa conversa.
Lembro que casos isolados também contam, pois se não fosse assim, nunca haveria continuidade das pesquisas. E saliento também que pesquisas que usam instrumentos de análise estatística, o fazem por uma convenção arbitrária, inventada pelo homem. O que ocorre com probabilidade de o,5 ou 5 ou 50%, também ocorre, queira você ou não. Qual é a Ciência que deve ser usada? Os seus 5 órgãos dos sentidos são suficientes para avaliar a veracidade de todos os fenômenos universais? São bastante para afirmar que não existem outras formas de energia que não aquelas que nosso organismo é capaz de experimentar?
Talvez um pouco de Física Quântica fosse uma boa pedida para abrir novos horizontes. Como já dito por outrem, "a mente é como um páraquedas: só funciona quando está aberto".

Joao disse...

Chico Camera:

Com mais tempo detalho melhor uma resposta, mas há um nuemro de erros que quero corrigir ja:

"Lembro que casos isolados também contam, pois se não fosse assim, nunca haveria continuidade das pesquisas."

Não, é completamente falso. Se fosse assim qualquer alegação entraria para o corpo do conhecimento. Tem de haver verificação independente e discussão. Se não é possivel verificar a homeopatia indenpendentemente e sistematicamente ela não serve para tratar ninguém, só os que iriam ficar curados de qualquer maneira.

"E saliento também que pesquisas que usam instrumentos de análise estatística, o fazem por uma convenção arbitrária, inventada pelo homem"

Não. São usadas tabelas de distribuição naturais que se encontram sempre em numeros grandes. Depois compara-se a diferença entre a distribuição natural e aquela que é obtida pelo nosso teste. A convenção está em aferir o quanto de probabilidade de a coisas acontecer tal como a estamos a observar só por acaso. Isso está actualmente em p <0,5 ou p< 0,01 e a baixar, para aceitarmos eficácia. Se temos medicamentos que passam este teste com este grau de exigência porque havemos de aceitar produtos que dão resultados que poderiam ser obtidos ao acaso em 5% das vezes que a experiencia fosse feita? Para p < 5 (uma enormidade para os standards actuais)?. De qualquer modo há já correntes no sentido de interpretar o valor de P em comparação com o obtido em estatística Bayesiana.
Essa dá-te uma probabilidade para a hipótese dentro do contexto de tudo o que se sabe.
Nunca é perfeito. Mas é o melhor que há. É muito melhor do que pegar num ou dois casos e generalizar, porque estás a fazer conclusões estatísticas na mesma mas com matemática da idade da pedra.
Mas não é tudo uma convenção. A convenção está apenas em quanto erro tu te importas de aceitar. A matemática depois dá-te o resultado para essa questão.

Joao disse...

" O que ocorre com probabilidade de o,5 ou 5 ou 50%, também ocorre, queira você ou não"
Tudo bem si isso for verdade. Mas mesmo assim, se o Chico quer um medicamento que só funcione em 5% dos casos ou 0,5% devia ser mais exigente. Isto por um lado.
Por outro lado se se está a referir ao valor de P como em P<0,05 está a incorrer num erro vulgar (mesmo vulgar, é algo que é contra-intuitivo) de considerar que o teste afere probabilidades às hipóteses. Tal coisa só acontece em estatistiva Bayesina que eu penso que não é o que se está a referir porque daria ainda resultados mais próximos de zero para o funcionamento da homeopatia.
"Qual é a Ciência que deve ser usada? Os seus 5 órgãos dos sentidos são suficientes para avaliar a veracidade de todos os fenômenos universais?"

Não, para já são 6 mesmo que incluias o sentido de pressão, calor e dor como sendo o mesmo tens de contar com o sensação de aceleração e equilibrio vestibular. E depois usamos máquinas, cruzamos informações, etc... Ou conheces mais algum meio de adquirir informação que mais ninguém conheça? É que se vais dizer que temos de acreditar em tudo porque temos limitações sensoriais é facil de ver que a lógica não segue.

"São bastante para afirmar que não existem outras formas de energia que não aquelas que nosso organismo é capaz de experimentar?"

Não. São o suficiente para dizer que a tua alegação é implausivel e que se dizes que descobriste uma nova tens de mostrar como sabes que existe e que não é fantasia tua.

"Talvez um pouco de Física Quântica fosse uma boa pedida para abrir novos horizontes"

Não confundas o que acontece abaixo do tamanho do atomo com o que acontece acima. É a mesma ciência que te tras a mecanica quantica que diz que ela não se aplica em quase nada no mundo macroscópico. Se queres falar de mecanica quantica não podes estar a falar de fenomenos que não são por ela descritos. Podes ler o meu post sobre isso se queres saber mais. E não podes escolher do conhecimento cientifico as coisas que te agradam e dizer que as outras não são verdade. Porque é tudo do mesmo metodo. E estarias a fazer "cherry picking".

"Como já dito por outrem, "a mente é como um páraquedas: só funciona quando está aberto"."

Só que o que tu pensas que "mente aberta" quer dizer está errado. Mente aberta é saber aceitar as evidencias apesar das nossas convicções anteriores. Não quer dizer aceitar toda a caixa de alegações como sendo verdadeiras.

Fevereiro 19, 2011