sábado, 19 de fevereiro de 2011

Deus e o ónus da prova. Onde anda ele? Um ensaio diferente.


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Não é um problema 
Uma das alegações dos anti-ateus é que o ónus da prova sobre a existência ou não de deus é de quem a nega. Alguns até pretendem fazer um momento de agnosticismo instantâneo para se escaparem momentaneamente a ter de provar que deus existe.

Mas eu não tenho problemas com isso. Eu acredito que a afirmação “deus não existe” é mais plausível, muito mais plausível, que a afirmação “deus existe e é um ser omnipotente, omnipresente, omnisciente, bom e justo”, porque é o que os factos permitem concluir.

E que além disso afirmo que mesmo que deus existisse, não está descrita uma maneira inequívoca de saber o que ele quer e pensa, por isso não se pode sustentar nenhuma afirmação como sendo a sua vontade.

 Quando o cepticismo precede o ateísmo
Mas para além disso a posição do ceptico é lógica. Quem traz uma nova entidade para o plano da realidade tem o ónus da prova. A hipótese nula, tem de ser o "default". Quem traz novas entidades para cima da mesa é que tem de provar. Qualquer entidade. Desde texugos a electrões, deuses ou fadas. Tudo, o que não pertence já a possibilidades demonstradas dentro do corpo de conhecimento actual, é provavelmente imaginação até prova em contrário. É assim que se consegue começar construir conhecimento sólido.

Tomar a alternativa "todas as entidades são reais até prova em contrário" é a loucura cognitiva. É algo que dará uma quantidade infinita e intestável de erros e hipóteses. 


Por isso, a hipótese nula ser aquela com a qual todas são comparáveis é a única maneira não só sã mas possível de ganhar conhecimento. Disso depende a capacidade de isolar variáveis e compreender como e porquê acontecem as coisas. É uma necessidade epistemológia. A não ser que queiramos defender entidades cuja existência ou inexistência é equivalente! - que são de esperar estarem omissas no corpo  de conhecimentos actual
As coisas não passam a existir fora do pensamento só por se pensar nelas. 
Sabemos que criar entidades é fácil. Basta postulá-las. Mas nem todas são reais. Por isso, devemos excluir aquelas que não têm mais em sua defesa que a mera crença.  

Temos de ser capazes de distinguir entre o mapa e o território. Temos que conseguir distinguir entre a crença em deus e a existência real desse deus.

Há um princípio que diz: “As entidades não devem ser replicadas para além do necessário”. E isto provou ser verdade na arena da realidade, não só pela lógica de que não faz sentido validar postulados à toa, mas porque provou ser extremamente fecundo. Tão fecundo, que nem os teístas gostariam de largar tal princípio que é de facto a base do naturalismo metódico. Toda a nossa qualidade de vida potencial e longevidade se devem a essa abordagem. Não a nenhum deus.

O deus-das-lacunas não é um problema se deus é suposto estar em todo o lado e só está nas lacunas.
Por isso, mesmo sem saber tudo acerca do universo, só sabendo um bocadinho, podemos dizer que não havendo factos que suportem especificamente a existência de Deus, o ónus está em quem diz que ele existe. Para ultrapassar este princípio de simplicidade, de que as entidades não devem ser replicadas para além do necessário, não basta dizer que qualquer coisa é obra de deus. É preciso encontrar algo que só possa ser explicado por Deus e nada mais. Coisas que acontecem mecanicamente com regras ou mesmo em nuvens de probabilidade não servem. No mínimo, tem de haver algo que é muito mais bem compreendido por deus existir do que se não existir. Tal como os átomos e as moléculas só foram aceites quando se acumularam factos que só podiam ser explicados pela sua existência. Só que tais fenómenos não há para justificar a crença em deus.

Já houve, talvez quando achar que a chuva e o vento eram deuses fosse de facto a melhor explicação.

Para ajudar, Deus ainda por cima era suposto estar em todo o lado, pelo que nós não temos de ser capazes de procurar em todo o lado para concluir que não existe. Basta mostrar que há sítios críticos onde Deus não está.

 O que não são lacunas 
E Deus não está na evolução das formas de vida ou sequer no funcionamento da vida, não está na evolução aparecente do cosmos, não está no curso das doenças e da saúde, não está no funcionamento da consciência... Não está no surgimento de coisas a partir do nada (isso está sempre a acontecer no mundo quântico), não está no aparecimento de organização (coisas mais complexas evoluem naturalmente das mais simples, como demonstrado na teoria da evolução), não está nas nossas vidas, não está na realidade em lado nenhum que se conheça. (E quem disser que está nas suas vidas que mostre que determinada coisa só poderia ser explicada por deus.)

Tudo isto nós sabemos pela ciência. Isto coloca o ónus definitivamente no campo do crente. Mesmo que não aceite a posição cada vez mais válida do céptico que diz que hipótese nula tem de ser o "default". O ónus da prova tem de estar em quem tem a afirmação menos substanciada pelos factos mais sólidos.

Confusões de mapa e território
Quanto às provas metafísicas e pseudofilosóficas, são apenas confusões entre mapa e território, pois pela sua própria natureza não podem demonstrar que deus é mais que uma construção humana. Estão epistemologicamente impedidas de o fazer. Seriam úteis se Deus estivesse já estabelecido como entidade real. A metafísica não é sobre a aferição de algo como real. É sobre o que significam as coisas para o ser pensador e como elas poderiam ou deveriam ser. Esta confusão sobre o poder da metafísica é a origem de imensas provas da existência de deus que são depois refutadas com a simples nota de que as coisas não passam a existir só porque pensamos nelas.

Como disse num parágrafo anterior, as coisas não passam a existir só porque pensamos nelas. E não é preciso que existam para que as possamos postular. Isso é fácil. Postulo agora uma Mifroteca Manfarrona que criou o Javé para testemunhar a meu favor. Vive no interior do polo norte de Vénus apesar de ser omnipresente (Mistério da Fé) e tem pior génio que Javé mas adora a bondade. Tem outros Deuses por si criados que vivem noutros universos, mas este é o seu preferido. A Mifroteca Mafarrona auto-revela-se para mim e todos devem ler as minhas palavras. E venerá-las através dos séculos. A Mifroteca ao contrário de Javé pode mesmo fazer o impossível. Ela pode mover o objecto inamovível que se movendo por ela continua sem se mexer. Ela é o bem e o mal, o amor e o ódio,  ela é a dor e o prazer. Ela não tem limites. Assim se torna necessário que, Ela é e não é simultaneamente. E como eu sou apenas humano e não poderia conceber nunca uma coisa que é e não é ao mesmo tempo provo que só poderia referir tal coisa se ela já existisse antes de mim. Viva a Mifroteca.

Ok, já chega de Mifroteca. Mas posso só postular um ratinho pequenino verde que come baleias e só fala com Esquimós?
O deus que sobra
Se não houver nada que distinga a crença em deus da existência de deus, se não houver efeitos que possam ser inequivocamente atribuídos a um deus real, então a plausibilidade de deus existir é perto de nula.

Porque o corolário disto é que o deus possível é um deus sem efeitos, cuja existência se confunde com a mera crença. E que espécie de Deus é esta? Eu digo que isto não é um deus de todo! Não um que justifique andar a adorar. É um deus cuja existência ou inexistência é indiferente para a espécie humana.  Um deus sem intencionalidade.

Cabe aos teístas demonstrar onde é que está a diferença inequívoca entre o deus real e o deus-crença. O deus-crença é a crença em deus, essa entidade metafísica dos nossos neurónios da qual eu não tenho duvidas da existência. Basta alguém ter a crença para a crença existir! Mas deus todo-poderoso, logo real e com intencionalidade  não se torna real nesse instante.

Não provaste aqui todas as teorias científicas que mencionas. 
Em resposta a esta linha de argumentação há crentes que considerariam satisfatório dizer que eu não apresentei aqui (neste post ou outro do género) provas das citações do conhecimento onde disse que deus não estava, como sendo suficiente para  refutar as minhas afirmações. Isso é tolice. É pôr em causa que essas teorias existam ou tenham sido por sua vez e no local apropriado demonstradas. Por conseguinte põem a validade da ciência em causa. E isso é outra discussão que normalmente é evitada pelo crente.

Para além disso, essas demonstrações encontram-se em artigos que podem ser lidos por quem quiser. Estão por sua vez compilados em tratados técnicos por tema, destinados a quem quiser iniciar-se numa especialidade. Por vezes até a discussão que suscitaram esses artigos é descrita. Para quem não quiser saber tanto, existe ainda uma excelente divulgação cientifica para leigos que inclui sempre material suficiente para se poder ir confirmar como determinada afirmação foi sustentada. Qualquer pessoa pode aceder a esta informação e o caminho para lá é simples (mas árduo, sem duvida, é preciso muito estudo).
Também não é preciso saber tudo o que é possível saber. Muito poucos homens têm sido apontados como compreendendo toda a vastidão da ciência. Eu nem acredito que esses tenham existido, pelo menos nos últimos 50 anos. Mas é possível conhecer-se bem uma grande parte da realidade e ver as grandes fatias de realidade que ficaram despojadas de intervenção divina.

De resto, não podendo apresentar esses temas num único post, (tal nem é possível num único tratado)  tenho feito neste blogue a tentativa de criar uma porta de entrada, um vislumbre do que se pode saber se quiseremos seguir o conhecimento cientifico.

O argumento de que não trouxe para aqui todo o conhecimento que disse haver é tolo. Pois é uma afirmação que pode ser verificada e deve ser verificado no terreno, onde a ciência é produzida e não aqui. Aqui eu procuro divulgar, não fazer ciência. E há limites logísticos.

Em resumo, a questão é  se esse conhecimento existe ou não. O resto é circunstâncial. E é importante verificar isso, sem duvida. Por isso aceito discutir casos a caso e ponto a ponto, porque é loucura trazer tudo para cima mesa de uma vez. Não se consegue discutir nada.

Posso sempre sugerir ir ler a wikipédia em Inglês - os 8 Gigas - ou pôr aqui uma cópia para me desembaraçar da questão. Depois diria que sem lerem tudo, de uma ponta à outra é que podiam ter conhecimento do que se sabe para continuar a discutir. Mas sinceramente isso era fazer o mesmo disparate de negar que o conhcimento cientifico exista porque não pode ser trazido para aqui.
E sim, a wikipédia em Inglês é bastante boa. Para quem for alérgico a coisas grátis sugiro a Brittanica. É uma compilação bastante razoável e acessível. Com bastantes ligações e referências.

Seja como for, estou sempre aberto para uma boa discussão sobre o que é ou não matéria de facto. Mas eu não sou deus e até digo que eles não existem, por isso não me peçam para ser um e discutir e demonstrar tudo de uma vez.
Conclusão 

No contexto do conhecimento actual, onde faltam observações que só a deus possam ser atribuídas e onde tantas afirmações sobre deus e o que deus disse têm vindo a mostrar-se desastrosas, o ónus está em quem insiste que deus é real para lá da imagem mental que fizémos dele.

Também não me parece suficiente argumentar que o universo é deus, e tudo é deus, resolvendo assim uma série de problemas, porque isso não diz nada acerca desse universo ter intencionaldade, ou ser omnipotente e são precisamente essas as características que estão em causa.

Pedir para demonstrar todo o conhecimento que já existe de uma vez e tirar partido da impossibilidade prática de o fazer, é uma atitude palerma que só serve para distrair da verdadeira questão, pois para ser levada a sério significaria que quem a usa está a pôr aquilo que mais solidamente conseguimos provar em causa. Se não está não faz sentido pedir a demonstração em tempo real. Porque o facto de não poder fazer não quer dizer que esse conhecimento não exista e tal pode ser e é de facto demonstrado nos canais adequados. 

O Deus das lacunas é o deus que escapa entre o que sabemos do conhecimento científico. E até do filosófico se quiserem, se bem que haja filósofos que considerem que só podemos pensar em coisas que existam, mas isso é problema deles.

Por último, referenciar a posição do céptico - todas as entidades aceites como reais têm de ter uma evidência forte da sua existência. Por defeito! Embora provar pela negativa seja possível, tal só deverá ser necessário se houver indícios fortes que justifiquem sequer o esforço. Neste caso justifica, nem que seja pela multidão que se rege pelo que Deus supostamente diz.


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Nota Importante: Eu sei que o onus da prova é atribuido por defeito a quem faz uma afirmação. Sei que essa é a norma. Peço desculpa se não deixei claro que isto representa uma posição original:
O que eu ponho em causa é precisamente o valor dessa norma. A unica justificação que eu vejo para essa norma é que quem quer acrescentar informação que não existe ao corpo de conhecimento humano, seja negando ou afirmando uma nova entidade tem de produzir prova. Mas se o corpo de conhecimento não diz nada acerca da sua existencia, a afirmação "essa entidade tem o valor lógico falso até prova em contrário" é de facto uma necessidade lógica, que não representa nova informação por si. É o que já sabemos. É o que fazemos quando estamos a tentar isolar variaveis e a dar valores de inexistencia a toda uma série delas que nem sequer sonhamos. Outra coisa é que dizer que  "A é falso até prova em contrário" é uma necessidade lógica. É uma assumpção. Um pressuposto de trabalho que apesar de atirar o onus para outro campo não é igual a dizer "eu tenho prova de que A é falso." Embora, se a prova de que A é falso, não for a hipotese mais plausível dentro do conhecimento actual, dizer que "A é  falso até prova em contrário" representa uma afirmação falsa. Mas se for o caso, quem faz a afirmação que A é verdade deve ter o trabalho do onus simplificado sem ter de precisar de nova investigação.

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Segunda nota: comecei a emendar algumas frases que não estavam a suportar a posição que queria deixar e acabei por optar escrever apenas esta segunda nota, a reforçar coisas que apesar de de tudo já disse antes. Emendei apenas duas frases no principio do texto. Reli a conclusão e está no espírito do que quero dizer

Considero que o maior argumento contra a minha apresentação é o facto de se poder tratar de uma falsa dicotomia. Mas esta discussão só se aplica a casos em que no corpo de conhecimentos total não há nada que sugira a plausibilidae de A (sendo A a entidade em discussão)  e em que o corpo de conhecimentos é completo ou perto disso para questões relacionadas com A. Nesse caso ainda penso que a minha apresentação é válida. Há mais possiveis contra-argumentações que procurarei referir embaixo mas que não considero suficientes para refutar o texto:

1 - Não estou a dizer que a ausência de prova é prova de ausência, apenas. Estou a querer dizer que a ausência de prova (se o conhecimento é extenso sobre questões relacionadas com A) coloca o onús da prova em quem afirma a sua existência. Se isto coloca a discussão sobre se existe ou não existe prova no corpo de conhecimento ja existente, este ensaio não se aplica. Se se conclui que não existe prova apesar de haver um extenso desenvolvimento de questões diretamente ligadas, é correcto assumir que não existe - até prova em contrário - já que o conhecimento é um trabalho em contrução. Se queremos provar A com argumentos que podem vir no futuro, isso sim é um apelo à ignorancia.

2 - Também não estou a dizer que se não está provado que A não existe, então A não existe, apenas. Estou a dizer que a posição mais plausível para abordar esse problema é que se A não está provado que existe ou que nada aponta para a  plausíbilidade da sua existencia, então o onús da prova tem de estar em quem diz que existe. Se temos um corpo de conhecimentos que é extenso a  omissão total de A nesse corpo de conhecimentos é indicativo de baixa plausíbilidade. Coloca o onús da prova em terreno oposto.


Podemos acabar com a dicotomia assumindo nem que a entidade é falsa, nem que é verdadeira. Esta posição está sempre correcta. É independente do valor real para a entidade A. Ou sequer se é sobre a entidade A. Mas precisamos de um critério de verdade e de distinguir entre verdadeiro e falso. É nesse sentido que digo que não é lógico, no pressuposto de que queremos criar conhecimento, de não assumir nenhuma hipotese. Alguma hipotese tem de ser posta para se testar. E a que tem de ser provada é a que tras a nova entidade para o campo do conhecimento. Isto num contexto em que já temos muitas explicações para as coisas que observamos. 

É importante ver que isto não é sobre o que está provado à priori. Nada está provado à priori. É sobre quem tem o onus da prova à priori num contexto vasto de conhecimento, não sobre tudo, mas sobre alguma coisa que esteja relacionada com a entidade em causa.

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