quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Conhecer o que não é mensurável. Parte II



Depois de uma longa discussão(1) com o Arnaldo Vasconcelos na primeira parte deste tema (1), venho a admitir que o exemplo que dei não é de algo realmente e absolutamente incomunicável. É de facto o mais próximo disso que eu consigo conceber – uma entidade sem propriedades físicas definidas da qual sabemos existir porque sabemos tudo acerca de uma outra que a origina.

O Arnaldo argumenta correctamente que há uma ponte fenoménica algures ao demonstrar a teoria que prevê a existência da nossa entidade, ainda que ela não tenha qualquer efeito mensurável no mundo físico. Ela não é mensurável mas não corresponde à ideia de incomunicável que deu origem à discussão. Mas se é assim, então há outras divergências:

A discussão agora, e para aproveitar o ultimo post sobre a cabala (2), é se existe alguma maneira de conhecer que ultrapasse a ponte fenoménica. Ou melhor, se existe alguma maneira de produzir informação assertiva, com algum grau de confiança, sem que algures tenha de ter sido adquirida informação sobre algo que a suporte. Lembrar que qualquer ponte de informação será também uma ponte fenoménica é importante. Algures a informação vai causar algum efeito.

De acordo que dizer que algo é incomunicavel, é à priori dizer que tal conhecimento não é científico. Eles dizem que o conhecimento não vem do mundo dos sentidos, como o cientifico. Então vem de onde e como eles sabem que diz algo acerca da realidade? Isso não dizem. Postulam apenas que determinadas coisas dizem algo acerca de uma plano mistico do universo. Isso não é conhcimento. É postular à toa.

Mas voltando à questão em abstracto:

É que para além de uma posição de agnosticismo, de não ser capaz de formar conhecimento, não existe outra maneira alguma vez proposta de se saber seja o que for sem uma ponte fenoménica algures. O cérebro humano não tem outra maneira de produzir conhecimento. É sabido que uma criança que cresça em isolamento e sem aprender a reconhecer quantidades não vai saber contar. Eventualmente, nem falar, nem pensar. Na realidade existem tribos inteiras sem saber contar para lá de 2. A matemática é conhecimento com origem fenoménica. É uma abstracção da realidade.

Mas para além das questões praticas, mesmo no mundo do postulável, se queremos que o postulavel tenha um mínimo de plausibilidade, não me ocorre outra maneira de conhecer sem transferência de informação. Parece-me mesmo que sem transferência de informação não pode haver conhecimento. É uma questão lógica. ( E já que a lógica tem origem fenoménica - por isso é que nos faz confusão a mecânica quântica dizer que uma coisa está em vários estados opostos ao mesmo tempo, não estamos habituados a isso – é um sistema formal em que com um certo numero de axiomas conseguimos descrever abstrações de fenómenos reais, de tal modo preciso que se constroem maquinas de imitação lindas com tal coisa, os computadores).

Em conclusão, eu proponho que se se diz que pode haver uma maneira de conhecer um incomunicável, sendo que um incomunicável é algo onde não há uma ponte fenoménica algures, é uma impossibilidade não só do ser humano enquanto tal, mas uma impossibilidade lógica.

Teríamos sempre de colher essa informação ou o suporte de tal informação de algum modo. (percepção extra-sensorial estaria incluída em adquirir informação, mas seja como for parece que o numero de sentidos que temos não aumentou ultimamente).

E a partir do momento em que há informação, há fenómenos. E se há informação então há ciência possível.

Postular podemos sempre postular. Mas isso não nos diz nada acerca da realidade das coisas. Nem postular que poderia eventualmente haver uma maneira desconhecida de ultrapassar o incomunicável. Disso não sabemos nada. E o que não sabemos não gera conhecimento. Logo não podemos dizer que talvez haja. Quem diz que não há conhecimento sobre esta questão também não me pode contrariar a dizer que não há outra maneira.

(1) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/01/normal-0-21-false-false-false-pt-x-none.html
(2) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/02/e-agora-para-algo-completamente.html
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