segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Fé em ciência.

Se dermos a fé o sentido de ser apenas acreditar fortemente numa coisa, podemos dizer que o cientista tem fé. Tem de ter. Quando faz pesquisa, procura evidencias, tem de acreditar fortemente naquilo que está a fazer, para que o motive a continuar e o leve a defender arduamente as suas ideias, mesmo quando a coisa está aparentemente a correr mal.

Defender o que se acredita vigorosamente é importante para o cientista. Mas isso é fé como em "Fé em Deus"? Eu penso que não, que são coisas distintas. O fervor religioso e intenso associado a manifestações de Fé em Deus não existe na ciência. Einstein dizia que devia estar perto, que um bom cientista teria que ter uma fervor quase religioso pelo universo e pela realidade, que o levasse a procurar respostas e a isso dedicar os seus melhores esforços. Mas isto não é exactamente o mesmo que a devoção a um Deus pai todo-poderoso. Em relação à Fé, dizia que o mais perto que o homem de ciência tinha, o mais parecido com isso, era acreditar que era possível encontrar explicações simples para as coisas. Einstein não acreditava em Deus.

Mas aparte da intensidade do sentimento, a diferença entre a fé do cientista e da Fé do crente religioso é enorme na questão da formação do conhecimento. É aí que as duas se separam em categorias diferentes.

Enquanto o crente religioso parte da Fé para depois procurar as razões pela qual ele tem essa fé, o cientista tem fé nas suas hipoteses e teorias porque tem suporte cientifico para elas. Mesmo quando formula hipoteses que estão longe de poderem ser testadas, é porque tem uma granda carga teorica por trás que o leva nessa direcção. E nessa carga teorica está o esforço honesto de milhares de homens, e a descrição de teorias e relatos de evidências.

Enquanto para o teólogo a Fé é o ponto de partida para começar a formar conhecimento, para o homem de ciência, a fé na ciência é uma consequência do conhecimento.

A enciclopaedia Britânica diz assim:

" É distinguida da filosofia (a teologia) por estar dedicada a explicar e a justificar a fé, em vez de questionar os pressupostos subjacentes a tal fé, mas muitas vezes emprega métodos quase filosóficos " (1)

Em relação à ciência a questão é semelhante, embora a ciência tenha a filosofia a questionar os seus pressupostos. Mas as teorias cientificas sofrem uma grande abuso de duvida até se considerarem um facto. Que é de onde a fé parte. A ordem, é outra.

A Fé em Deus é acreditar que se encontrou. A fé na ciência é muito mais acreditar que se pode encontrar.

Dá origem a visões distintas do mundo. Há quem consiga manter ambas as visões em simultâneo, mas este post não é sobre isso - não é sobre poder ter-se Fé em Deus e ser-se cientista ao mesmo tempo. É sobre a diferença entre os tipos de Fé.

Para elas serem iguais, era preciso que houvesse uma prova inequivoca da existência de Deus e uma forma objectiva de O poder estudar. A ultima vez que me debrucei sobre o assunto, essa prova não era inequivoca e final. E como diz na E. Britanica, o procedimento é quase filosófico. Falta o quase. Outra vez.

(1) "theology."Encyclopædia Britannica.
2009. Encyclopædia Britannica 2006 CD.
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