quinta-feira, 10 de setembro de 2009

BE quer implementar as medicinas alternativas e complementares

O bloco de esquerda mantém no seu programa eleitoral a já aqui discutida intenção de abrir o debate em torno das medicinas alternativas "abrindo espaço para a sua implementação e complementaridade."

Para um crítico das MAC (Medicinas alternativas e complementares) activo como eu, poderia dizer que isto equivalerá à maioria das pessoas ler num programa eleitoral algo do género: "abrir o debate acerca da caça ao gambuzino, abrindo espaço para a sua implementação e complementaridade". Na melhor das versões.

Mas qualquer dúvida que houvesse acerca da intenção do Bloco de esquerda acerca das MAC ficou desfeita quando descobri que nas suas fileiras está o Pedro Choy (2), que dá cursos em Portugal - licenciaturas aliás -de medicina tradicional chinesa, através de pólos em nosso país da Universidade de Chengdu(3)!

Não sendo este um blogue sobre politica, não gosto de me debruçar sobre como deviam ser implementadas as medidas de combate à fraude ou se isto ou aquilo devia ser proibido. Gosto mais de me debruçar sobre o que é ou não verdade, sobre o que é ou não ciência e sobre o que é ou não matéria de facto.

Mas infelizmente, não estou a ver como é que a lei não tem nada dizer sobre este assunto.

Porque eu acho que permitir a confusão das MAC com medicina cientifica verdadeira é um problema de segurança. Quando eu vou ao hospital, não quero ter de estar a preocupar-me se o que me estão a fazer é suportado por evidências cientificas ou não. Esse não devia ser um problema meu. E quem diz um hospital diz outro serviço de saúde qualquer. E a confusão começa logo pelos nomes.

Frequentemente, distinguir ciencia de pseudociencia é um berbicacho e essa devia ser a ultima das preocupações do doente. E com tantos nomes de um lado e de outro e com tanta mistura, a coisa começa a ficar complicada. Nos Estados Unidos já há um serviço de urgência em que se usam MACs. Por cá, clínicas e consultórios de terapias e medicinas alternativas com nomes para todos os gostos não faltam. E para todas as doenças, maleitas e lesões. Até me tenho deparado com pessoas que pensavam que determinada medicina alternativa era uma especialidade médica. Mais que uma vez. Pessoas inteligentes e cultas. Mas não médicas, claro.

Por isso, eu acho que deve ser dado um claro sinal de que é preciso evitar a mistura de umas com as outras, e manter como medicina apenas a medicina cientifica. Porque quando uma coisa funciona, ela passa a ser tão cientifica como outra qualquer.

Vender serviços que não existem é apenas uma pequena parte do problema. A parte grande são os atrasos de diagnóstico e tratamento adequado a que uma pessoa mal informada se pode submeter. A juntar a possíveis complicações, que possam surgir directamente destas práticas. O que acontece.

Mas é sobretudo por causa de atrasos ao inicio de um tratamento adequado, que eu digo que isto é um problema de segurança acima de tudo. As pessoas tem de ser protegidas daquilo que requer conhecimentos de especialista, ou quase, para compreender. Se querem ir a um praticante das MAC, pois até pode ser que seja legitimo deixa-las ir, desde que haja a garantia que elas sabem que não há suporte experimental para determinadas alegações destas práticas.

Tal como é obrigatório o uso de cinto de segurança ou capacete, no minimo estas práticas não deviam poder chamar-se medicinas, alegar serem terapêuticas ou incluir a pratica de diagnósticos. Fazer um diagnóstico requer saber usar o método de diagnóstico além de conhecer bem a semiologia e patologia médica.

Jorge Sampaio enquanto Presidente da Républica foi contra a Ordem dos Médicos e vetou a lei que definia o que é o acto médico (4). As medicinas alternativas têm uma lei que as defende dizendo que funciona com uma filosofia diferente, desde 2003 (5). O bloco quer abrir espaço para a sua implementação e complementaridade.

Mesmo sem admitir que isto envolve riscos com a saúde das pessoas (e que a lei deve proteger as pessoas logo devia pronunciar-se), é tarde demais para dizer que este debate se deve manter apenas no âmbito da ciência.

Por outro lado a ciência diz-nos que estas coisas são pouco mais que "Wishfull Thinking" e elaborados placebos. Esse debate está quase fechado, por falta de evidências pelos proponentes das CAM (6).

Por outro lado, há ainda quem defenda as CAM usando o facto de os médicos e a farmacologia convêncional cometerem muitos erros. Isso é uma falácia, a saber, falácia do duplo erro que significa que um erro não justifica outro erro. Porque se se quiser apertar com os médicos, e exigir mais deles, não podemos deixar que outros se proponham fazer medicina sem provas de eficácia. Só os médicos e farmaceuticas convencionais é que são obrigados a dar provas, serem escrutinados quanto à eficacia das suas praticas?

Este post vem a propósito de uma discussão recorrente que eu tenho com o Prof. Ludwig Krippahl do blogue "Que treta". Somos ambos defensores de que o que o bloco de esquerda quer fazer está errado. Mas ele defende que a lei não tem nada a ver com isto e que este argumento é o suficiente para não dar muita importância à proposta do Bloco de Esquerda. Eu digo que se a lei não tem nada a ver com isto, então que não se façam leis a implementar. E que isso é uma questão importante.

Ligações

(1) Para o programa: http://www.bloco.org/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=65&Itemid=63

(2)http://santarem.bloco.org/index.php?option=com_content&task=view&id=98&Itemid=1

(3)http://www.pedrochoy-chengdutcm.eu/univ/pt/apresentacao_curso.asp Neste site pode-se ler que :"O Pólo da Universidade de MTC de Chengdu é a única instituição reconhecida pelo Ministério da Educação da República Popular da China fora do território chinês."

(4)http://saude.sapo.pt/artigos/?id=79254

(5)http://www.imt.pt/lei_medicina_452003.php

(6)http://cronicadaciencia.blogspot.com/search/label/medicinas%20alternativas%20e%20complementares





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