sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Dualismo das Lacunas

O dualismo, para quem ainda se lembre, é o "erro de Descartes". Ou seja, de que mente e cérebro são coisas diferentes. O Discovery Institute, na sua batalha contra a ciência (1), decidiu revitalizar o dualismo e o seu plano já está em pratica.

Mas afinal, no essencial, a estratégia é a mesma utilizada em muitas outras ocasiões. Terão resolvido algo como: " Vamos ver onde existem buracos no conhecimento cientifico, e não importa quão pequenos eles são, vamos lá encaixar os alicerces da nossa teoria. Adicionalmente, vamos fazer a nossa teoria tão abrangente que possamos tirar partido do explicado e do inexplicado. "

Vou tentar explicar melhor. Enquanto que a ciência tenta explicar os fenómenos da mente estritamente em relação com o que se passa no cérebro, o dualismo diz que nem todos os fenómenos da mente são explicados pelo que se passa no cérebro (2). O "nem todos" são os que convenientemente são atribuídos a essa entidade extra-corporal que é a mente. Eles reúnem assim o melhor de dois mundos. De uma vez, metem debaixo da sua alçada toda a neurobiologia, declaram-se como científicos (por essa razão) e "enfiam a mente" nos buracos ou lacunas do conhecimento actual.

Porque é que esta atitude não é científica? Logo numa primeira abordagem porque contraria a navalha de Ockham. O princípio de Ockham, ou navalha de Occam diz que as entidades não devem ser multiplicadas para além do necessário. Daqui se conclui que cada nova entidade que surja para explicar determinada fenomenologia deve encontrar evidencia inequívoca que a suporte. E não vice versa. A mente, se é uma entidade real extracorporal, tem de encontrar provas reais que o suportem.

Por isso, na pratica, como dizia Carl Sagan "em ciência afirmações extraordinárias requerem justificações extraordinárias."

Não se espantem os dualistas, que sejam então desclassificados de científicos apesar dos seus créditos em outras questões.

(1)http://cronicadaciencia.blogspot.com/2008/10/sobre-o-anti-materialismo-actual.html
(2)http://www.evolutionnews.org/2008/02/proving_dr_novella_wrong_imagi.html

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Do discurso de Barack Obama:

"Vamos recolocar a ciência no seu devido lugar e dominar as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade do serviço de saúde e diminuir o seu custo. Vamos domar o sol e os ventos e a terra para abastecer os nossos carros e pôr a funcionar as nossas fábricas. E vamos transformar as nossas escolas e universidades para satisfazer as exigências de uma nova era."

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hipericão

Para que não digam que eu ando a fazer "cherry picking" das mezinhas que não funcionam, aqui fica uma que funciona.

O hipericão, também chamada de erva de S. João, funciona. Em vários estudos e meta-analises mostrou ter um efeito benéfico em depressões ligeiras e moderadas ao nível dos anti-depressivos tricíclicos.

Mas se funciona, é porque altera algo nos mecanismos fisiológicos, exactamente o quê ainda não se sabe. E como tal também pode ter efeitos adversos de gravidade variável. Está descrita também a interação prejudicial com outros fármacos.

Intoxicações em gado com o hipericão (que cresce no campo) também são conhecidas há muito.

Por isso a minha recomendação é a mesma de sempre. Se está doente, vá ao médico. Auto-medicação pode ser sempre danosa. E o que faz bem, se faz alguma coisa de facto, então também pode fazer mal. Deixem esse equilibrio entre efeito terapêutico e efeitos adversos e contra-indicações ser avaliada por quem sabe.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sobre a Origem da Vida.

Tracey Lincoln e Gerald Joyce publicaram esta semana na revista Science um artigo (1) muito interessante sobre a replicação auto-sustentada de enzimas de RNA.

Embora não esclareça directamente sobre a origem da vida, a experiencia não deixa de ser fascinante, sobretudo tendo sido admitida a hipótese das primeiras moléculas "vivas" (ou que deram origem à vida) serem precursoras ancestrais do actual RNA, um acido nucleico capaz de conter informação genética.

Teoriza-se que a vida tenha surgido a partir de moléculas que tenham adquirido a capacidade de se replicarem e evoluírem, e já aqui tinha referido a noticia de um modelo matemático recente que sustentava essa possibilidade (2).

O que estes cientistas Norte Americanos fizeram foi criar enzimas RNA em que duas enzimas catalisam a síntese uma da outra a partir de um substrato com apenas 4 nucleotideos. Não são necessárias mais enzimas ou quaisquer proteínas no substrato. Estas enzimas duplicavam o seu número a cada hora passada.

Adicionalmente, quando varias populações destas enzimas foram misturadas, surgiram por recombinação novas variantes mais eficazes na competição pelo substrato (o meio em que elas evoluem) com o resultado de ficarem em maior número. Isto é, verifica-se selecção natural e evolução. Já sei que os criacionistas vão fingir que esta experiencia não significa nada, mas o facto é estamos a ver evolução a acontecer numa escala de tempo observável.

Claro que está (ainda) longe de esclarecer exactamente como se deu a origem da vida ou de provar que foi assim que as coisas aconteceram, mas é um passo formidável na compreensão de que fenómenos pré-bioticos são plausíveis de considerar.

(1) http://www.sciencemag.org/cgi/content/abstract/1167856
(2) mesmo no fim do "post" sobre a evolução - cito o mais relevante do que escrevi em: http://cronicadaciencia.blogspot.com/search/label/Teoria%20da%20Evolu%C3%A7%C3%A3o ; "De facto uma notícia publicada hoje na New Scientist fala justamente disso. Dois biólogos matemáticos de Harvard, Novak e Ohtsuki, desenharam um modelo onde a variedade de moléculas no chamado “caldo primordial” era tanta que deveria haver reacções químicas permanentemente a acontecer. Terão surgido entre as moléculas pré-bióticas algumas que participavam em reacções que davam origem a elas próprias: a replicação. As que se conseguiam replicar mais eficazmente e rapidamente acabariam por substituir todas as outras. São os conceitos Evolutivos aplicados na explicação do surgimento de moléculas complexas e complexos moleculares. Segundo este modelo o aparecimento finalmente de vida terá também levado ao desaparecimento das moléculas pré-vida que não tinham utilidade. "

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Valeriana

De todas as candidatas a medicinas alternativas ou complementares aquela que eu acho que tem mais hipóteses de êxito é sem dúvida a fitoterapia (ervanária, ou herbal, como lhe quiserem chamar). Porque lança tantas hipóteses, que algumas têm de acertar, isto é, ter sucesso terapêutico. Mesmo que moderado.

Porque ervas há muitas e que muitas contem substâncias capazes de modificar funções orgânicas já se sabe há séculos. A história da aspirina é um bom exemplo.

O que não se sabe ainda é que espécies vegetais não testadas terão algo para nos dar. Não testadas, quero dizer, de uma maneira rigorosa e sistemática, que tente reduzir a probabilidade de conclusões erradas.

Como qualquer produto que alegue ser “natural” tem entrada facilitada no mercado, não sendo obrigado a sujeitar-se aos exigentes procedimentos farmacológicos habituais de determinação de eficácia, toxicidade ou mecanismo de acção, a sua variedade e disponibilidade no comercio é enorme.

O extracto de valeriana é um dos produtos ditos "naturais" que tenho ouvido mais testemunhos pessoais a validar a sua eficácia, como ajudante do sono ou calmante. O seu registo no Infarmed, pelo que pude saber, nem é como produto natural. Portanto, para ser mais exacto nem é um produto de ervanária nem de medicina herbal. Tem um registo normal como qualquer outro medicamento.

Mas, mesmo assim, o que dizem os ensaios clínicos mais rigorosos?

Encontrei sem grande dificuldade uma revisão de artigos publicada o ano passado num jornal com “peer-review” (1) que começa assim:

uma recente revisão sistemática e meta-análise da valeriana concluiu que a evidencia a favor da sua eficácia era inconclusiva “(2)

Isto é um mau começo. Se fosse muito eficaz, provavelmente essa revisão sistemática teria sido conclusiva, ou mais correctamente teria concluído a sugerir a eficácia do extracto de valeriana (os cientistas tem este tipo de cautelas). Os autores continuam dizendo que:

por essa razão, num esforço para examinar mais de perto este assunto, uma revisão sistemática foi conduzida para examinar a evidencia acerca da eficácia da valeriana como um ajudante do sono com atenção especifica ao tipo de preparações testado e características dos sujeitos do estudo”.

Foram encontrados 36 artigos que cumpriam os critérios de inclusão num total de 592 identificados. De acordo com os autores não foram encontradas diferenças significativas entre os efeitos do placebo e dos que tomavam valeriana, quer entre as pessoas saudáveis, quer entre as que tinham algum tipo de distúrbio do sono. Mas pior ainda é verificar que:

Nenhuns dos estudos mais recentes, que eram também os mais metodologicamente rigorosos, encontraram efeitos significativos da valeriana no sono.”

O estudo acaba concluindo que a valeriana apesar de ter efeitos adversos apenas raramente, não é eficaz para a insónia e problemas do sono.

(1)http://www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez?db=journals&term=%22Sleep%20Med%20Rev%22%5BTitle%20Abbreviation%5D
(2)http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17517355?ordinalpos=1&itool=EntrezSystem2.PEntrez.Pubmed.Pubmed_ResultsPanel.Pubmed_DiscoveryPanel.Pubmed_Discovery_RA&linkpos=3&log$=relatedreviews&logdbfrom=pubmed

Acupunctura: Uma abordagem crítica (para variar).

A acupunctura é uma prática antiga chinesa que alega conseguir manipular o Qi, através da inserção de agulhas finas em pontos predeterminados do corpo. O Qi, dizem os praticantes, é a energia vital do nosso corpo, cuja perturbação é a origem da doença. Só que tal energia é uma entidade extra, desnecessária à explicação dos fenómenos fisiológicos, (contrariando o princípio de Occam).
Pode-se dizer com alguma segurança que a bioquímica e a fisiologia são mesmo opostas ao conceito do Qi. Cada vez se conhece mais sobre o funcionamento do corpo, (até ao nível molecular) e os mapas metabólicos sugerem um funcionamento perfeitamente independente de tal forma de energia na nossa vida. Por outro lado a patologia científica acumula conhecimento que identifica de forma muito mais precisa os mecanismos da doença. Espetar agulhas finas em determinados pontos para resolver problemas de saúde não tem qualquer tipo de suporte racional nas teorias vigentes da biologia humana. Nem esses pontos de acupunctura têm alguma diferença histológica ou anatómica característica que indicie a sua existência.

Mas apesar da inconsistência com os avanços da ciência e da medicina, a acupunctura goza de uma extraordinária reputação no ocidente e também em Portugal. Na crista da onda das ditas medicinas complementares e alternativas, acarinhada por alguma imprensa, parece vir ao encontro de uma tendência mística recente.

Adicionalmente e provavelmente devido a algum enaltecimento dos resultados experimentais a nível da analgésica ligeira, um critério relativamente subjectivo, faz-se um uso indiscriminado do “provado cientificamente” aquando da sua discussão. É de facto uma alegação exagerada.

Para além dos mecanismos de funcionamento serem completamente inconsistentes com a ciência, cabia de qualquer modo à experimentação sistemática clínica ter a palavra final. Às vezes descobrem-se coisas por acaso, mesmo quando aparentemente não fazem sentido. Por isso, comparam-se os resultados de eficácia do tratamento em estudo com os de um grupo placebo. Expliquei como funcionavam os ensaios clínicos com algum detalhe no artigo “medicinas alternativas e as outras” (1), por isso adiante.

O problema está em que a acupunctura não mostra evidências de ser eficaz para o tratamento de doenças, porque tem dificuldade em separar-se do efeito placebo. É o que mostram os estudos mais recentes em que se tentou simular o acto da acupunctura com pressão exercida no local mas sem espetar a agulha (2). Chama-se “sham acupuncture” em Inglês a esta solução para o efeito placebo na acupunctura. E as evidências parecem apontar para a conclusão de que a “sham” é tão boa como a real.

Exemplos de estudos com resultados promissores também existem (3) mas dificilmente escapam a uma análise metodológica. Por exemplo, no caso referido acima, sobre dores de cabeça crónicas, o estudo não é fiável porque (entre outras razões) não é cego (os médicos e os pacientes sabem quem é o grupo que recebe tratamento e quem não recebe), e igualmente grave, nem sequer usa placebo. Mas para uma análise detalhada a este estudo, (e em que se pode aprender muito), referencio o artigo dos médicos Orac (4), ou Steve Novella (5).

No livro “truque ou tratamento”(6), em que é feita uma revisão sistemática de vários estudos, a conclusão é que a Acupunctura pode ser útil no alivio da náusea ou na dor moderada… Que são áreas por natureza amigas do efeito placebo. E como se mostrou recentemente, há placebos uns melhores que os outros (7). Talvez a acupunctura seja a rainha dos placebos.

Mas, seja como for, eficácia comprovada e consensual no meio cientifico em outros problemas é tão visível como o Yeti. Contra quem eu não tenho nada. Talvez até exista. Talvez também a acupunctura seja mais que um excelente placebo, resta provar exactamente em quê.

Abaixo encontram-se os links para as paginas citadas assim como quatro estudos (8) ,(9),(10) e (11) a ilustrar a variedade de situações em que a acupunctura foi estudada (devido a haver alegações de eficácia); como vantagens na fertilização in vitro, tratamento dos “hot flashes” em pacientes com cancro da mama, insonias... Em nenhum destes estudos se mostrou mais eficácia que o placebo.

Nesta revisão de 2009, encontraram-se efeitos moderados de analgesia mas não relevantes clinicamente (12)
Nesta revisão de 2010 a eficácia para a acupunctura fica apenas atribuída a dor cervical moderada e são encontrados vários efeitos adversos (13)

Ultimo Update Out 2011


(1) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2008/10/medicinas-alternativas-e-as-outras-uma.html

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ginkgo biloba

O Ginkgo biloba é uma árvore cujo extracto tem sido utilizado por alegados benefícios na memoria e cognição. Mas um estudo publicado no prestigiado Journal of the American Medical Association (JAMA), vem colocar serias duvidas sobre a sua eficácia.

Foram formados dois grupos, um que tomou uma dose de 120mg de extracto de Ginkgo biloba (EGb 761) de manhã e à noite, e outro que tomou placebo. O primeiro grupo continha 1545 pessoas e o segundo 1524. O estudo foi feito entre 2000 e 2008 e cada pessoa foi acompanhada em média durante 6,1 anos. Todos os participantes tinham 75 anos ou mais.

Destes 3069 voluntários 2587 não apresentavam problemas cognitivos e 482 apresentavam uma forma ligeira de deficiencia cognitiva. Foram examinados de 6 em 6 meses durante o estudo.

523 indivíduos desenvolveram demência e destes alguns comprovadamente Alzheimer. Não houve diferenças significativas entre o grupo tratado e o que recebeu placebo. Mais concretamente a taxa de incidência foi de 3,3% por ano para os que receberam o extrato e 2,9% por ano para os que receberam placebo.

Tradução da conclusão:

"Neste estudo, G biloba a 120mg duas vezes por dia, não foi eficaz em reduzir a incidência geral de demência ou doença de Alzheimer em idosos quer em indivíduos normais, quer em indivíduos com deficiência cognitiva moderada"

Fica aqui o link para o artigo:http://jama.ama-assn.org/cgi/content/full/300/19/2253

Update (7-jan-2010):

Restam poucas dúvidas. Um estudo extremamente completo e rigoros conclui que o Gingko biloba é placebo. Via "Neurologica": http://www.sciencebasedmedicine.org/?p=3235