quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Conhecer o que não é mensurável. Um ensaio.

O Arnaldo Vasconcelos, autor do excelente blogue “Análise da Ciência”, defende que a ciência precisa de aceder a informação do mundo físico para especular sobre ele. E eu estou de acordo.

Considero mesmo que essa obsessão cientifica com a recolha de dados é a diferença prática entre a filosofia e a ciência. 

Mas depois diz que se existirem entidades que não tenham efeitos mensuráveis, direta ou indirectamente que mesmo que possam ser alvo de conhecimento por qualquer outro sistema cognitivo, a ciência não será esse sistema. Ele diz assim:

“Bem a minha noção teórica da ciência, exposta neste blog, deixa bem claro que não é do escopo da ciência analisar a existencia de um ser que é fenomenicamente inexistente, mas que ela deve-se calar (meio que “wittgensteinianamente”) a respeito deste assunto (visto que não é seu objetivo e nem tem meios para isso).
Agora repassar que para todos os meios “cognitivos” é impossível é uma derivação deveras exagerada.”(1)

E é exagerada. De facto parece-me que se pudermos conhecer uma entidade que seja igual a não existir para todos os efeitos, é com a participação da ciência. E parece-me que apenas com esta. E que tal é possivel.

Sempre me manifestei contra “mortes anunciadas” do conhecimento científico. Em cada altura defendi isso de acordo com o contexto da previsão. Por isso em vez de passar a pente fino os argumentos anteriores vamos à questão em causa:

Imaginemos uma teoria A que descreve a ocorrência de uma entidade x tal que essa entidade’ é capaz de produzir entidades a1, a2 e a3 quando em contacto com a entidade y. 

Imaginemos que as entidades a1 e a2, previstas pela teoria são encontradas com as características esperadas. No entanto a entidade a3, por questões teóricas não é passível de ser detectada por nenhum método. A razão porque tal coisa acontece é porque não causa neste universo nenhum efeito. E tal como previsto pela teoria, ela não é detectada, por mais tentativas que se façam. 

O que eu proponho, é que a consistência e falseabilidade da teoria A seja a prova científica de que a entidade a3 existe, embora não tenha propriedades físicas e seja a causa de qualquer efeito mensurável. Até que ponto uma entidade sem propriedades físicas existe realmente é algo que deixo para o futuro, mas se houver tal coisa, esta será provavelmente a única maneira de saber se ela existe.

Essa maneira é, resumidademente, se a sua existência for prevista a partir de algo que já tenhamos bem estabelecido. Enquanto houver uma seta do tempo em que os efeitos não precedem as causas, esta entidade b3 tem todos os requisitos para ser uma entidade intangível e incomunicável, passível de ser aferida como real pela ciência.

Existem analogias possíveis com entidades científicas já previstas? Não totalmente, mas sim para as linhas gerais, no sentido em que sugere que tal possas vir a acontecer.

Algumas interpretações de teorias levam a coisas como um numero de universos alternativos infinitos e infestáveis, a teoria das cordas prevê a existência de dimensões que talvez não possamos medir, (embora as cordas em si não possam ser medidas podemos medir efeitos da sua existência).

(1)http://arnaldo.networkcore.eti.br/1923-o-dragao-de-minha-garagem-e-o-conhecimento-de-contato.html/comment-page-1#comment-368
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