segunda-feira, 1 de junho de 2009

Genética, proteínas e a árvore da vida.

Árvore da vida é o nome popular de um esquema taxonómico onde as espécies são agrupadas e ramificadas por morfologia. A ideia é anterior a Darwin mas foi ele quem primeiro apresentou uma teoria capaz de a explicar consistentemente.
Os criacionistas procuram explicar a árvore da vida pela existencia de um Criador comum. As espécies são morfológicamente parecidas porque o Criador foi o mesmo e fez tudo parecido. Poderia chamar-lhe o "argumento da falta de criatividade do Criador" se eu não achasse que a natureza é um espectáculo. E só refiro este pormenor, da falta de criatividade, porque são eles que argumentam nesse sentido. E que a natureza se repete, é um facto. 
Mesmo assim, não explica satisfatóriamente porque as gradações são tão suaves de espécie para espécie e formam tão coerentemente uma "arvore da vida". O criador teria de ter criado as espécies de um modo evolutivo para justificar essa gradação. Nem que fosse por criar o organismo seguinte baseando-se no anterior. Mas isso fica para outra altura.
O que torna a teoria da evolução uma ciência é a capacidade de fazer previsões falseaveis. Mas nem o próprio Darwin esperava o modo como a evolução iria ser testada e suportada. E que dimensão iria atingir, mas mais uma vez isso é outra história.
A genética e a bioquímica, viriam a ser das areas que mais suportam a evolução. Em relação à árvore da vida, por poder replicar a mesma arvore partindo de um ponto completamente diferente. Como por exemplo a partir da estrutura proteica. Passo a explicar:
As proteínas são compostas por sequências de aminoácidos e a sua função está muito ligada à sua forma. Alterações relativamente pequenas na sua sequência de aminoacidos, resultam frequentemente em formas diferentes com perda de função. A não ser que haja um mecanismo que além de introduzir modificações na sequência (mutações) também elimine aquelas que já não funcionam (selecção natural). Isto estando a falar de proteínas que têm a mesma finalidade em especies diferentes. Por exemplo a mioglobina - ver aqui (1)(2).
Quando se começou a sequenciar as proteínas, de acordo com a teoria da evolução, era de esperar que especies mais proximas tivessem proteínas mais proximas (mais parecidas na sua sequencia de aminoacidos). E que mutações que dão origem a sequências funcionais não só existissem como se acumulassem com a distancia (diferença) entre espécies. Porque a teoria da evolução prevê um ancestral comum a cada ramificação da árvore. Mais tempo desde a separação ou ramificação decorrido desse ancestral comum, tem de significar mais mutações. Resumidamente, é isso que se verifica. Pode-se inclusivamente reconstruir a arvore da vida a partir das proteínas. Se isto não acontecesse a teoria da evolução era falseada. As arvores da vida, feitas a partir da morfologia animal e da sequenciação das proteinas são a mesma.
Atribuir estas alterações na sequência de aminoacidos nas proteinas a um criador, pela lógica, só tem uma justificação que é: Porque o Criador quiz fazer assim. A questão é que se enveredarmos por explicações do género do "porque sim", então mais vale desistir de querer saber seja o que for. Que é na realidade o que quem defende essas teorias faz. Ou se calhar não quer apenas que os outros queiram saber. Não sei. Continuando...
Mais incrivel ainda é que a nivel do DNA que codifica essas proteínas, se estudarmos os segmentos de DNA correspondentes a cada proteína e em cada espécie vamos poder novamente replicar a árvore da vida tal como a desenhamos a partir da morfologia. Com um argumento adicional. Algumas mutações não dizem absolutamente nada, são redundantes, porque como cada 3 sequencias de bases de DNA codificam um aminoacido, há varias sequencias de 3 bases a codificar o mesmo aminoacido. Essas mutações são cegas para a selecção, no sentido em que estão lá mas não dão origem a proteínas diferentes. São completamente neutras. Se a evolução é uma realidade, é de esperar que quanto mais afastadas as espécies são mais mutações neutras acumulem entre si no DNA. Porque elas não são eliminadas - são neutras. E em rigor estatistico, esta previsão também se verifica (3).
Porque havia o criador de as colocar lá? Para nos fazer acreditar na evolução?
Existe no entanto uma pequena excepção a tudo isto. Alguns seres vivos são capazes de trocar informação entre si, ou seja, transferir o material genético horizontalemente e não verticalmente para a descendencia como por exemplo na espécie humana. Sobretudo em organismos primitivos vamos encontrar uma grande miscelanea de materiais genéticos. Mas o que temos aí é que a árvore da vida é uma rede, embora a designação de arvore se mantenha. Mas isto não refuta a evolução porque ela não faz previsões deste genero para transferencia horizontal de genes.
Espero que tenha sido claro.
Referências e leitura adicional:
Obrigado ao Ludwig Krippahl por me ter indicado os posts que procurava.
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