Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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terça-feira, 20 de julho de 2010
Tratado sobre o que podemos prever sobre o clima, grau a grau.
O objectivo é obviamente tornar-se o guia de referencia para o publico e poder politico sobre decisões que envolvam as emissões de Co2.
Naturalmente centrado sobretudo na America do Norte, existe informação sobre o que se pode prever para o mundo inteiro. Fazem a abordagem destas alterações por grau a mais e por aumento de CO2 cumulativo, o que permite encaixar de uma vez vários cenarios possiveis.
Via "Nature" : http://www.nature.com/news/2010/100719/full/466425a.html
(1) Aqui pode-se, depois de "dar" o email, descarregar o PDF da pré publicação:
http://www.nap.edu/catalog.php?record_id=12877
Nota: É impressão minha ou evitaram usar os trabalhos dos envolvidos no "climategate"? Pelos vistos tambem não precisam deles...
Porque é que os cepticos não têm gurus e porque é que os crentes são crentes.
http://scan.oxfordjournals.org/content/early/2010/03/12/scan.nsq023
Que leva a um abstract de um estudo que sugere que seguir figuras de culto e acreditar em milagres pode de facto ter a mesma origem. Em presença de figuras carismáticas, crentes cristãos mostraram uma tendência para desactivar redes neuronais no córtex frontal, em contraste com os cépticos, onde isto não acontece. Os crentes também aceitaram mais facilmente a capacidade destas pessoas carismáticas terem poderes curativos.
Afinal, quer-me parecer que quando os cépticos dizem que não seguem gurus, provavelmente estão apenas a dizer que não desligam a "máquina de duvidar" perante ninguém. E isto é neurologicamente suportado por esta pesquisa. E acrescento que na realidade nós seguimos muito mais raciocínios e ideias que pessoas, coisa que aparentemente não precisa de desactivar nenhuma area do cerebro.
(1) André Luís, http://www.blogger.com/profile/09702334332550490793 - comentário em "Porque é que os ateus e liberais são tendencialmente mais inteligentes"
A evolução e a cozinha.
Porque é que isto faz algum sentido? Porque a comida cozinhada aumenta a facilidade com que é mastigada e digerida, potencialmente permitindo passar mais tempo a pensar noutras coisas que a caçar e a comer. A comida é mastigada e digerida não só mais rapidamente mas também com maior eficácia, uma vez que as paredes das células estão já destruídas, sendo possível aproveitar mais daquilo que se come.
De facto, é visível a redução drástica do tamanho dos dentes em relação aos hominídeos anteriores quando se dá o aparecimento do Homo erectus e do H. neanthertalensis. O que não acontece no resto dos primatas actuais também. Por esta altura da evolução dos hominideos dá-se também um aumento notável do volume da caixa craniana, como seria de esperar se a teoria estivesse correcta.
O que falta demonstrar ainda é que os hominídeos em causa seriam capaz de controlar o fogo. Não existem evidencias que tal fosse possível há mais de 750 000 anos.
A noticia veio daqui :
http://www.newscientist.com/article/mg20727694.500-chew-on-this-thank-cooking-for-your-big-brain.html
E agora um aparte meu:
Uma vida inteira sem lavar os dentes devia dar bocas muito disfuncionais nos mais velhos e contribuir primeiro para a sua má nutrição, e depois para a diminuição da esperança de vida. Provavelmente estes anciãos terão tido um papel importante também no desenvolvimento da cultura e técnicas primitivas, pois poderiam potencialmente saber mais que os seus contemporâneos. Não só por terem mais tempo para acumular experiência e aprender com outros, mas porque nesta fase da evolução chegar a velho seria em si um sinal de boas capacidades individuais. E que certamente integrado no seu meio social seria uma mais valia para a tribo onde vivesse: poderiam gerir melhor os problemas da tribo, ensinar, etc, e fazê-lo durante mais tempo. Penso que a longevidade humana é um factor importante para o que a nossa sociedade conseguiu fazer. Embora certamente do ponto de vista pessoal pareça pouco tempo, comparando com o resto dos animais é difícil encontrar longevidades maiores em animais com vidas aparentemente tão activas. A tendência é para ou viverem menos ou serem menos activos, havendo naturalmente excepções.
Aqui esta uma tabela de longevidade de animais:
http://www.newton.dep.anl.gov/natbltn/400-499/nb486.htm (em animais de Zoologico porque na natureza não se encontram animais velhos ou apenas muito raramente... Talvez se começarem a cozer os alimentos...)
Outra nota: A taxa metabolica por kg aumenta inversamente ao peso: isto é, animais mais pequenos queimam mais calorias em relação ao seu peso vivo. E de facto parece que a tendencia destes queimadores rápidos de glicose vivem pouco tempo, talvez seja preciso ser-se um pouco maior para aproveitar melhor a energia e viver mais devagar. Mas animais maiores queimam mais calorias de um modo absoluto pelo que animais muito grandes precisam de grandes doses de energia para se sustentarem. De acordo com os cálculos divulgado na New Scientist um animal relativamente grande como o homem precisaria de passar 48% do seu tempo a comer. Mas só passa 10%, graças provavelmente à comida estar cozida ou assada.
sábado, 17 de julho de 2010
Cientísmo - uma apologia
Pessoas como eu são acusadas frequentemente de cientismo.
Se considerarmos cientismo a propriedade de alguém considerar a ciência a maior obra da humanidade no que respeita a compreender o universo (incluindo-nos a nós próprios), eu não vejo razões para negar esse titulo. O problema é que serve para mais coisas. Mas adiante.
Enquanto que a ciencia é materialista ("é milagre!" não é uma explicação) e é a melhor forma para adquirir conhecimento e a unica que consegue produzir previsões sobre o comportamento da realidade, existe um numero de coisas que a ciencia ainda não consegue explicar.
E que provavelmente nunca vai conseguir explicar. De facto isso até esta provado matematicamente graças ao Kurt G.
Mas nenhuma outra forma de conhecimento se aproxima sequer da ciencia. O tipo de afirmações justificadas, consistentes num sistema abrangente, capaz de fazer previsões e de abrir novos campos de estudo que formam a ciencia, são inigualaveis no seu poder explicativo em todo o conhecimento humano.
As duvidas da ciencia são acima de certezas de outras formas de conhecimento, sobretudo as advinhatorias como as medicinas alternativas e a teologia. Porque estas nem sequer conseguem justificar para alem da crença as suas afirmações sobre a realidade.
E se há uma forma de conhecimento que tenta não se fechar em si propria e manter-se aberta é a ciencia. Não so pelo gancho que mantem na realidade, mas pela incormporação da matematica, da filosofia e da tecnica que transformou em tecnologia.
Nenhum outro sistema de conhecimento é tão aberto e simulataneamente consistente (a filosofia é aparentemente mais aberto, mas com perda de consistencia e realmente fechado a qualquer criterio de consistencia - eles dizem que o importante são as perguntas...)
A ciencia é tão boa comparado com o resto que pode parecer quase perfeita e no entanto é apenas o melhor que temos. E quando a ciencia inclui explicações que dispensam vontade propria para o universo é um disparate postular essa vontade propria para o universo e dar-lhe um nome.
Temos de tomar decisões no dia a dia quase sempre sem fundamento cientifico. Nos tribunais são elaboradas sentenças com base em testemunhos oculares. A moral envolve escolhas que podem ser corretas num país e tabus noutra cultura. Nada disto quer dizer que estas tomadas de decisão não têm por principio, o mesmo rigor que a ciência. Apenas que a ciência esta dependente de informação muitas vezes impossível de colher, de processos que ainda não conhecemos e que talvez haja coisas que são escolhas puras - ou seja, que são neutras do ponto de vista da ciência.
Afinal o sacrificio humano praticado anos a fio por outras culturas, pode hoje ser considerado com pouca margem de erro uma asneira. Por outro lado se eu comer gelado de chocolate ou de morango, e a escolha em questão for apenas essa, isso não parece ser um problema de moral. Com bastante certeza. Ja que não deve ter efeitos perceptiveis no bem estar de ninguém.
Mas nós não escolhemos tudo acerca da realidade. Se eu não posso prever com rigor que cor a Maria vai querer pintar a casa, ainda posso ter uma ideia muito boa se a conhecer e conhecer que cor as pessoas que partilham escolhas com a Maria pintam as casas. Mas essa escolha da Maria, pode muito bem ser mais escolha, seja isso o que for, que algo que seja causa e por sua vez cause efeitos neste mundo. Porque se o fizer de forma inequivoca, se causar efeitos mediveis em si e nos outros, ainda que probabilistica, pode muito bem até tornar-se objecto cientifico. E... Se calhar até já é...
O que não faz sentido, é considerar que se a ciencia não pode determinar como devem ser coisas em afirmações abertas das quais não conhecemos todas as ponderaveis ou processos, que o modo como nos tomamos essas decisões (vulgarmente apelando para uma referencia cultural qualquer que cada grupo diz que a sua é que é a absoluta), então considerar que a ciencia é a melhor forma de conhecimento que há é mau.
Porque apesar de ser possível sempre tomar uma decisão, não quer dizer que essa decisão esteja correcta. E se não é possível aplicar o rigor cientifico a algo é porque há coisas que não se sabem ou podem nunca vir a saber-se. E o que não se sabe, não se sabe, não é para fingir que se sabe. Ou então resta provar que existe outro modo de as saber realmente. E tal nunca foi feito. As unicas respostas que temos foi a ciencia que trouxe. O resto são palpites.
Para mal dos cientófobos, se alguma resposta vier, de outra area qualquer, que se mostre justificável, com poder preditivo, consistente num sistema, etc... A ciÊncia vai assimila-la. Como fez no passado. E vai evoluir e continuar a estar na crista da onda. Porque é apenas esse o seu objectivo. É ter respostas. Mas não palpites. Respostas justificáveis. Para alguns, apenas as respostas com rigor cientifico são respostas. As outras são opiniões.
O objectivo da ciencia não é provar que não existem deuses ou fadas ou que a homeopatia não funciona. Não ha uma lista de coisas que não podem acontecer ou existir. Ou de efeitos que temos de fingir que não se vêm. É tentar saber como as coisas são. E como vão ser. O problema é que o conhecimento cientifico diz precisamente que acreditar nestas coisas requer afirmações sobre a realidade que são implausiveis ou cientificamente refutadas.
Por natureza o homem (e a mulher) atribuiem intencionalidade aos fenómenos até os compreenderem. Sabemos isto pela história humana. E sabemos pela ciência que só encontramos na natureza biológica agentes com intencionalidade. E mesmo assim muito poucos.
Há quem queira postular ad-hoc efeitos destes seres com intencionalidade. Ou até de os postular mesmo dizendo que eles não causam efeitos!
Naturalmente que têm de acusar pessoas como eu de qualquer coisa. Cientismo? Desde que não pensem que isso quer dizer que acho que a ciência é um deus ou algo que já atingiu o ponto final do seu desenvolvimento. A ciência é como a democracia. É cheia de problemas, mas não há melhor. Como sabemos isso? É um facto histórico. Mas antes de mais, um facto. Que é a unidade básica do processo cientifico.
Por fim, dizem que a ciencia não pode justificar a ciencia. Que é auto-refutante. Mas o erro esta em que a ciencia tenta ter uma acora na realidade. E é isso que lhe permite ser tão aberta em tudo o resto. Enquanto a teologia se fundamente na teologia, e a filosofia na filosofia, a ciencia tenta ser a parte da filosofia que se comprova adequar-se à realidade. Mantendo assim uma entrada de informação vinda do exterior e evitar ao máximo a auto-referencia. Claro que vai ser sempre conhecimento humano e disso não passara. Mas nada mais se adequa tanto à realidade.
Se se adequar, é ciencia.
Nota: Uso o termo afirmação aberta para afirmações que não concretizam um objectivo proposto, por exemplo: "É melhor ser-se magro" ou " comer açucar é bom". Fica a questão. É bom para quê? Porquê? Isso fica em aberto. Não é uma questão cientifica. Se por outro lado for "comer açucar é bom para emagrecer". Bem isso já é uma afirmação testável e cientifica. A questão é que o primeiro exemplo parece ser algo que é um problema por algo mais que ser cientifico ou não. Parece que enquanto bom não tiver um fim definido em si próprio, o que tornaria a afirmação fechada, não há muito que se possa dizer acerca dela. Em ciencia ou não.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Falhas cerebrais
Como o Neil Tyson diz num excelente video sobre o apelo à ignorancia e o testemunho não sistematico (1) as ilusoes de optica são falhas do cerebro. Mas que toda a gente tem.
O recente concurso sobre ilusoes de que ja falei apresenta uma série delas novas, mas entre muitas que apena suscitam um "meh..." há algumas francamente ilustrativas do que podemos contar de um testemunhos não sitematicos, não reprodutiveis.
Por exemplo, a ilusão "Monkey Business" pede que estejamos atentos aos jogadores de branco e quantas vezes passam a bola. Devera ser capaz de chegar ao numero correcto ou perto disso para saber se executou bem o teste. E depois de ter confirmado se contou bem os passes são lhe perguntadas outras coisas sobre o que se passou naqule palco. Coisas absoltamente visiveis, quase atiradas à cara. Coisas que nem se tentam esconder, e no entanto não são vistas por metade das pessoas que assitem ao video e são capazes de contar o numero de passes. Porque se não estiver a contar o numero de passes e estiver a procurar o que se passa em palco vai ver tudo - mas claro, não saberá responder a pelo menos uma pergunta sobre o filme, que é quantos são os passes. Mas deixe isso para quando o filme se repetir.
O filme esta aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=IGQmdoK_ZfY&feature=player_embedded
Notas:
(1) A excelente apresentação do Neil Tyson em resposta à pergunta se ele acredita em O:V.N.I.S. http://www.youtube.com/watch?v=zfAzaDyae-k
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Ser vivo artificial criado em laboratorio "Pela primeira vez"
No principio deste ano lembro-me de ter lido uma previsão que isto ia acontecer. Alguem este ano ia afirmar ter criado vida pela primeira vez. E eu pensei, porque não? So falta conseguir por as peças todas juntas, e isto se considerarmos que RNA a evoluir e a replicar-se sozinho não é vida (1) . Bem, esta quase feito:
Craig Venter, fabricou um cromossoma de raiz e intruduziu-o dentro de um microbio ja existente, substituido assim o DNA original pelo acabado de sintetizar.
Naturalmente que o novo ser vivo não é de facto o anterior. Faz e é o que o novo DNA comanda. Mas é realmente um ser vivo criado de novo? Cá por mim está no cinzento. É meio novo.
O que não fica pela metade é a importancia do sucesso biotecnologico. É completo. Estamos a aproximarmo-nos de poder fazer microbios "à lá carte" para o que for preciso. Se as comissoes de etica deixarem claro. Mas isso é outra questão. Claro que depende dos casos, mas é sabido que alguem vai querer proibir tudo como se isso chegasse para que a tecnologia não seja mal utilizada.
Via SkyNews:
http://uk.news.yahoo.com/5/20100520/twl-scientists-create-synthetic-life-in-3fd0ae9.html
a mesma noticia na New Scientist:
http://www.newscientist.com/article/dn18942-immaculate-creation-birth-of-the-first-synthetic-cell.html
Notas:
(1) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/01/sobre-origem-da-vida.html
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Ilusões
Às vezes as coisas não são o que nós vemos. O cerebro interpreta e re-interpreta as imagens, às vezes acrescentando coisas, outras tirando, ou alterando o significado.
Esta foi a ilusão vencedora de um concurso em Napoles, Florida. Siga o link para ver umas esferas a subir por rampas de madeira como se a gravidade estivesse confusa.
http://www.newscientist.com/article/dn18886-impossible-motion-trick-wins-illusion-contest.html