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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Falhas cerebrais

Como o Neil Tyson diz num excelente video sobre o apelo à ignorancia e o testemunho não sistematico (1) as ilusoes de optica são falhas do cerebro. Mas que toda a gente tem.

O recente concurso sobre ilusoes de que ja falei apresenta uma série delas novas, mas entre muitas que apena suscitam um "meh..." há algumas francamente ilustrativas do que podemos contar de um testemunhos não sitematicos, não reprodutiveis.

Por exemplo, a ilusão "Monkey Business" pede que estejamos atentos aos jogadores de branco e quantas vezes passam a bola. Devera ser capaz de chegar ao numero correcto ou perto disso para saber se executou bem o teste. E depois de ter confirmado se contou bem os passes são lhe perguntadas outras coisas sobre o que se passou naqule palco. Coisas absoltamente visiveis, quase atiradas à cara. Coisas que nem se tentam esconder, e no entanto não são vistas por metade das pessoas que assitem ao video e são capazes de contar o numero de passes. Porque se não estiver a contar o numero de passes e estiver a procurar o que se passa em palco vai ver tudo - mas claro, não saberá responder a pelo menos uma pergunta sobre o filme, que é quantos são os passes. Mas deixe isso para quando o filme se repetir. 

O filme esta aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=IGQmdoK_ZfY&feature=player_embedded

Notas:

(1) A excelente apresentação do Neil Tyson em resposta à pergunta se ele acredita em O:V.N.I.S. http://www.youtube.com/watch?v=zfAzaDyae-k

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Peer-review, but beware of the peers

Noticias de um artigo falso e jocoso a serem aceites numa revista de "peer-review", como aconteceu mais uma vez ainda recentemente, são sempre um pouco preocupantes. Mas temos de aceitar que não existe processo sem falhas. 

Provavelmente, a melhor resposta, é procurar o "peer-review" ( se tem ou não) e além disso, observar em que posição do ranking (1) se encontra a revista. Quem são os autores, que interesses têm, a quem pertence a publicação e que interesses tem. Qual a area de divulgação, etc...

E era aqui que eu queria chegar. É que falhas no "peer-review" fazem parte do processo, porque errar é humano,  e ainda não são assim tão preocupantes (ok, às vezes são). Mas maus artigos acabam por ter pouco impacto. Ficam para a história.

Agora, artigos com resultados extraordinarios mas falsos, destinados a alterar a matéria de facto com que a ciência lida? Publicações com "peer-review" que foram criadas com o propósito de fazer avançar crenças descabidas? 

É que a revisão pelos pares, agora existe em qualquer publicação pseudocientifica. Artigos de Hocus-pocus, revistos por pares de especialistas  em Hocupologia e publicados na "Journal of European Hocupology" são Hocus Pocus na mesma. É preciso ter muito cuidado com os artigos que aparecem citados nas paginas de pseudociências a provar a sua realidade.

É que a revisão por pares faz parte do método cientifico, mas é suposto ser apenas quando vem na sequência da aplicação do método cientifico e não da adivinhação ou crença da treta.

E estes artigos e revistas representam uma ameaça ainda maior que o erro no "peer review", sobertudo a nivel da opinião publica que é onde se pretendem mostrar, mas também para a própria comunidade cientifica porque minam a credibilidade de um aspecto tão importante da ciencia.

É preciso denunciar essa pratica.

(1) existem vários metodos de colocar as publicações e os próprios artigos numa escala hieraquica. Mas fica para outro post.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O método cientifico

Sem querer fazer aqui uma entrada enciclopédica sobre o método científico ou sobre a definição de ciência, vou tentar deixar em linhas simples e o mais claras possíveis o que é a ciência e como funciona.

Portanto, o que é a ciência? O que a caracteriza?
Resposta curta: É o método científico.
O que é o método cientifico?
Resposta curta: É um método baseado na experiência sistemática.

Passo a passo:

1- Observação e caracterização do objecto de estudo. - Tentar reunir o máximo possível de informação sobre o assunto que queremos estudar, mantendo de fora o que não pertence a esse assunto. Pode demorar anos. Aliás pode demorar gerações.
2- Formulação de uma hipótese. – depois de reunida a maior quantidade de informação pertinente que nos foi possível, está na altura de por o cérebro a funcionar para imaginar uma solução que explique os dados observados. Podem ser precisos vários cérebros!
3- Experimentação. – Formulámos uma hipótese e agora a pergunta chave. Será que é verdade? Vamos fazer o “reality check”. Vamos ver se as coisas se passam como nós dizemos ou não. Se não, pode ser preciso começar tudo de novo.
4- Teorização.- Se a experiencia foi conclusiva e de acordo com a nossa hipótese essa hipótese começa a estar em condições de se chamar teoria. Essa teoria deverá permitir fazer previsões racionais e explicar o que já se conhece.

Cada um dos passos que eu referi tem os seus próprios sub-passos descritos e tipo de raciocínios implicados (dedução, lamina de occam, etc). Qualquer facto observável é passível de se submeter ao método. Mesmo fenómenos cuja ocorrência é muito baixa, ou seja, que acontecem raramente, são passíveis de se submeter ao método. Neste caso pedimos a ajuda de ferramentas matemáticas como a teoria da probabilidade e a estatística. Se um fenómeno não é observável pelos nossos sentidos podemos usar também outras ferramentas, como por exemplo microscópios, telescópios, aceleradores de partículas com detectores, etc… Adicionalmente o método é versatil. Existem na realidade varios métodos que são adaptações da ciencia à questão particular em estudo.
Sempre presente na ciência, e sem duvida um dos aspectos que também a caracterizam é a sua abertura à refutação. É preciso que tudo seja feito de modo que outros possam compreender e avaliar. E refutar ou sustentar conforme o caso.
5- Peer-review:
Um factor muito importante portanto é deixar escrito e arquivado o modo como colhemos as observações, como funcionam as nossas ferramentas e como as usamos, como foi testada a hipótese, etc. Tudo ao mais pequeno pormenor. Isto é mesmo muito importante porque quando chegamos ao passo 3 ou 4 as coisas ainda estão a começar. Chegou a altura do resto das pessoas que se dedicam ao estudo dos mesmos assuntos que nós - os nossos pares - esmiuçar completamente o nosso trabalho e tentar encontrar erros ou verificar, repetindo muitas vezes a experiencia, se estamos a dizer a verdade. Ou mesmo se fizemos a experiencia adequada!

Na prática as coisas funcionam assim: Se nos parece que esta tudo bem feitinho na nossa pesquisa, vamos tentar publicar na melhor revista da especialidade possível. Nessa altura o texto que descreve o nosso trabalho é submetido ao “peer-review”, a avaliação pelos pares. O "peer-review" faz parte do método. Pode surgir em qualquer fase do processo. Pode-se por exemplo querer publicar apenas observações. Continuando. Um júri da revista vai enviar o trabalho a um grupo de cientistas da nossa área de investigação e eles vão dar o seu melhor para tentarem evitar que o nosso trabalho seja publicado. Como a única maneira que têm de o fazer é encontrando erros, é a isso que se dedicam. Se passarmos no exame, então o texto será publicado. Mas agora toda a gente, em todo o mundo esta a ver o que nós fizémos e vai tentar ver por sua vez se é verdade. Muitos vão mesmo repetir as nossas experiencias, vão pegar na teoria e dizer “se isso é assim então tal deverá ser assado” e desenham novas experiencias para por a teoria que nos deu tanto trabalho a elaborar em causa.

Agora sim, depois disto tudo a nossa teoria terá passado a fazer parte do corpo de conhecimentos que representa a ciência. Uma tarefa difícil como se pode ver.
Outra caracteristica da ciencia é o facto de o corpo do conhecimento científico se poder e dever comportar como um puzzle em que as peças vão sendo apanhadas de varios sitios e se vão encaixando aos poucos. E ter uma nova peça a encaixar neste puzzle é motivo de grande orgulho. E para dizer a verdade uma peça que não encaixe também. Vai por uma data de gente a procurar onde está o problema.

Também se percebe por aqui que qualquer objecto de estudo novo é algo que os cientistas adoram. Não lhes passa pela cabeça deitar para o lixo algo que ainda não se conhece. É difícil ter a oportunidade de fazer uma grande contribuição científica. Nada como ir para onde ainda ninguém foi.

Continua a ser a melhor maneira possível de explicar o universo.
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Nota: Segundo os filósofos da ciencia a resposta à questão "o que é a ciência" ainda está em aberto. Essa discussão está fora do ambito deste post. Dito isto, é obvio que este post é uma simplificação que espero seja util para compreender a ciencia. Existem muitas outras questões que podem ser levantadas, naturalmente. Por exemplo, de que o método não é rigido e toma aspectos muito variados conforme o caso. Ao ponto de não poder ser usado para definir a ciencia.
Sugestões e comentários são bem vindos.
Continuação sugerida - O Consenso Científico:
Ou para uma versão detalhada do método científico adaptada a ensaios clínicos farmacologicos: