terça-feira, 25 de novembro de 2008

Porque é que a verdade é importante?

Talvez a verdade seja algo inalcançável ao pensamento humano. Talvez, como dizem alguns filósofos, a verdade não exista. Talvez o mundo seja um engano, uma ilusão. Talvez vivamos todos dentro do universo da “matrix”. Talvez a verdade seja uma invenção humana, um conceito apenas consequente do pensamento humano, em que só existe verdade porque existem seres inteligentes para pensar sobre ela.

Seja como for, seja qual for a realidade em que se vive, tudo indica que tem regras; e que a realidade, tem pelo menos uma parcela inteligível, compreensível, a partir da qual se pode gerar conhecimento, fazer previsões, construir e planear, tudo coisas capazes de influenciar a nossa vida. E esse conhecimento corresponderá em certo modo, à verdade. Sendo a verdade a propriedade positiva de algo corresponder à realidade, no sentido mais completo e consistente que for permitido à mente humana alcançar.

A enciclopédia Britannica diz assim: (traduzido) “Verdade: Em filosofia, a propriedade de afirmações, pensamentos, ou preposições que são ditas, no discurso vulgar, de concordarem com os factos ou assertarem que esse é o caso.” (1) Depois continua dizendo que há quatro tipos principais de teorias da verdade que foram propostos.

Mas este texto não é sobre o conceito de verdade. Este é um blogue de ciência, não de filosofia, e a minha preocupação é apenas que seja claro o que escrevo. Pareceu-me no entanto relevante se ia falar sobre a verdade fazer uma pequena introdução ao conceito. Adiante:

A minha posição é simples. A verdade é importante. E é sobre isso de que se trata este "post".
Não é também sobre tolerância. Especificamente, a tolerância que devemos ter ou não ter em relação a crenças diferentes. Este ponto pode não ser muito claro, mas a explicação terá de ficar para mais tarde. Sumariamente: Tolerância - sim, é absolutamente necessária do ponto de vista social e pessoal. Substituir a verdade por qualquer crença imaginária em nome da tolerância - nem sequer é possível. Para já porque crenças há muitas e são incompatíveis umas com as outras.

Outro aparte que importa fazer, (e de que já tenho falado antes sobre diversas formas), usando uma expressão popular, é que não tenho, nem conheço quem tenha “a verdade no bolso”. Mas, mais uma vez, não é sobre isso que é o presente texto. Este é a apologia que tentar conhecer a realidade o mais possível e o melhor possível é importante.

Defender que a verdade é importante pode até parecer redundante. Pode parecer uma verdade auto-sustentada. Mas não é. Tenho visto que é possível construir um argumento acerca da validade de permitir (por "fechar os olhos") a crença de realidades imaginárias. Eu não estou de acordo.

Muitas crenças actuais criam sistemas conceptuais simples que confortam e apoiam as pessoas nas suas dificuldades do dia-a-dia. Na previsão do futuro, no tratamento das doenças, na aceitação da morte pessoal ou de entes queridos, na expectativa de riqueza, etc. De um modo geral aumentam a felicidade com base num sentimento de controlo ou protecção que é ilusório. O argumento hedonista, na minha opinião é fraco e por razões que vou tentar mostrar que são mais importantes. Mesmo sem argumentar que conhecer o mundo da melhor maneira possível e aceita-lo como ele é se pode traduzir directamente em bem estar (eu acho que sim e no fim cito Carl Sagan a este respeito), eu argumento que há coisas mais importantes que se sobrepõem ao argumento hedonista. Há muitas verdades que são dolorosas, inconvenientes, perturbadoras, preocupantes, etc, mas “meter a cabeça na areia” não é a solução. Porque a sensação de conforto é ilusória, a sensação de controlo é falsa, e as consequências podem ser lesivas para os outros ou para os próprios. Acreditar numa mentira é um caminho insustentável e fraco para o indivíduo e a sociedade. Seguir um caminho de procurar a verdade e encarar a realidade talvez requeira coragem, mas tem as suas compensações. É possível construir sobre a verdade.

Se aceitarmos que a mentira nos serve, estamos a abrir a porta à irracionalidade e à injustiça. A procura da verdade é importante porque é o garante da consistência do nosso mundo intelectual e cognitivo. Quero dizer, se a verdade não for importante e aceitarmos a mentira, então este mundo torna-se incompreensível. Não é possível construir conhecimento e tecnologia sobre a mentira porque ela é inconsistente. Só se for uma tecnologia inexistente, verdadeira apenas num universo paralelo, imaterial e inconsequente. Não é possível conhecer, porque o que se conhece é e não é, ou já foi, de acordo com os caprichos de cada um. O saber fica sinónimo de ignorância.

É possível lidar com a verdade, com a mentira não. A verdade é consistente, previsível, passível de ser estudada e compreendida (pelo menos até certo ponto). A mentira não. A mentira é mutável e imprevisível, variável conforme quem a produz e inconsistente. Resulta num mundo incontrolável e caótico. Se se aceitar a mentira, não pode haver justiça. Não pode haver ética. Porque qualquer um pode a qualquer momento inventar factos ou argumentos, sem que a sua validade seja importante.

Pode-se dizer que estes são argumentos consensuais e óbvios mas que não têm nada a ver com a argumentação contra as pseudociências e crendices variadas. Mas tem tudo a ver.

Porque a realidade é só uma e é o critério de verdade que interessa. Se vamos admitir umas mentiras e não outras, onde fica a linha divisória? Se muita gente acreditar em algo isso não torna esse algo necessariamente verdadeiro. Nem se muita gente acreditar que algo era bom que fosse verdade isso passa a ser verdade… E depois, pode-se vender uma mentira a alguém desde que essa pessoa pense que isso é verdade? Eu acho que não, porque se sim, então qual é a diferença entre vender a Lua e vender pozinhos mágicos?

E que justiça há entre uns terem de ser honestos e fazerem o melhor que podem nas suas áreas de trabalho e outros não; podem prever o futuro sem qualquer fundamento factual, apenas porque alguém acredita no processo? Porque pode um médico ser acusado de má prática quando falha, mas pode o praticante de uma qualquer medicina alternativa prometer o que não acontece? Que sentido faz tentar ensinar ciência nas escolas, se se aceita todo o lixo anti-cientifico como verdade?

Há quem argumente que algumas dessas crendices não fazem mal a ninguém. Mas eu acho que fazem. Inibem o sentido crítico e a vontade de conhecer. Resultam em confusão intelectual e em concepções enganosas do mundo. Resultam em prejuízos económicos pessoais e economias sem produção. Resultam em atrasos no tratamento de doenças, e efeitos adversos incontrolados. Resultam em manipulação de pessoas, na melhor das hipóteses não intencionalmente.

Porque não se há-de aceitar uma preocupação com a verdade e procurar quem tem provas daquilo que afirma, que baseia as suas decisões em estudos sistemáticos e fundamentados, que usa um conhecimento claro, público e acessível a qualquer um?

O ensino e a educação são das melhores ferramentas que se pode dar a alguém, tenho ouvido varias vezes. E estou de acordo. Aceitar que a verdade não é importante é ir contra a importância do ensino e ir contra a importância da ciência. É criar disfuncionalidades nessas ferramentas.

A verdade é importante no dia-a-dia, na vida, na sociedade e na ciência. Porque se não for, dificilmente algo mais é importante.

Para terminar:
"The world is so exquisite, with so much love and moral depth, that there is no reason to deceive ourselves with pretty stories for which there's little good evidence. Far better, it seems to me, in our vulnerability, is to look Death in the eye and to be grateful every day for the brief but magnificent opportunity that life provides."-- Carl Sagan, Billions and Billions, page 215

(1) “truth.” Enciclopaedia Britannica. 2008. Enciclopaedia Britannica 2006 CD. 25 Nov 2008

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Haplogrupos. O R1B.





Já que ontem entrei na conversa dos marcadores genéticos ligados ao cromossoma X e Y, vou aproveitar para continuar com outro facto interessante (acho eu).

Haplogrupos são o grupo de haplotipos similares que partilham um antepassado comum numa mutação de apenas um nucleotideo.

Haplotipos são conjuntos de alelos (genes que determinam a mesma coisa mas com características diferentes, como por exemplo o grupo sanguíneo) em múltiplos loci (locais do cromossoma que correspondem à informação sobre determinado aspecto).

Nucleotideo é a molécula mais pequena que faz parte da constituição genética. São precisos vários nucleotideos para compor um gene. O gene é a unidade genética mais simples do ponto de vista funcional.

Existem vários haplogrupos ligados ao cromossoma Y e vários ligados ao cromossoma X, que tem sido usados para estudar as migrações humanas no nosso planeta.

Cromossoma Y
O haplogrupo mais frequente na Europa Ocidental é o R1b. Existem muitos mais. Curiosamente, um dos locais onde tem frequência mais elevada é na Penisula Iberica, o que sugere uma onda de migração a partir daqui. Ou daqui perto.

Ver o gráfico acima tirado da Wikipedia em Inglês.


DNA mitocondrial:
Em relação aos haplogrupos referentes a uma herança matrilinear, na Europa a história é mais confusa porque se encontram muito homogeneamente distribuídos sendo o mais frequente o H.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Adão Y e Eva mitocondrial

Este Adão é o antepassado comum mais recente de todos os seres humanos masculinos actualmente vivos, segundo uma linha patrilinear. Terá vivido em África há cerca de 60.000 a 90.000 anos.

Existe uma parte da sequência de DNA nos cromossomas que passa praticamente intacto, ou quase, de pais para filhos. Escapa ao processo de recombinação, que nos torna de facto únicos como indivíduos, mas não escapa a uma ou outra mutação ocasional. Por isso é possível, procurando onde estão estes blocos de DNA e vendo quem é que tem quais, fazer relações de parentesco e árvores genealógicas populacionais.

O cromossoma Y, que determina o sexo masculino, escapa quase completamente à recombinação com o cromossoma X. Ou seja, transmite-se com muito pouca alteração de pais para filhos. Adicionalmente, SÓ passa de pais para filhos: Os cromossomas andam aos pares e no par de cromossomas sexuais ou temos dois X (XX = feminino) ou um X e um Y (XY= masculino). O cromossoma Y só pode ter origem no pai. Nunca na mãe.

Por isso podemos através de análise estatística, comparando as semelhanças e diferenças entre os cromossomas Y (mais diferentes, mais afastados no tempo) e usando um calculo baseado no chamado relógio molecular para avaliar a passagem do tempo (quanto tempo demora para haver determinado tipo de variação genética), fazer uma história genética desse cromossoma e chegar a um possível antepassado comum de todos os homens vivos actualmente. Patrilinearmente. Ou seja, o pai ancestral comum de todos os homens. A que se convencionou chamar Adão. Ou melhor Adão Y-cromossomal.

O nome gerou um pouco de confusão. Este Adão, não era o único homem vivo. Muitos outros viveram na mesma época. Simplesmente, a sua descendência através de uma linha só de homens não chegou aos dias de hoje. Também havia várias mulheres a viverem na mesma época, e como vou explicar em seguida, nem viveu na época da sua equivalente feminina. A Eva mitocondrial.
Eva é a mais recente ancestral comum de todas as mulheres a que podemos chegar se, como fizemos antes para o homem, seguirmos sempre as mães das mães por aí fora. Terá vivido também em África há cerca de 140.000 anos.

É a conclusão que se chega se usarmos a mesma técnica mas usando o DNA mitocondrial, que tem a particularidade de só ser herdado das mães, tal como o cromossoma y só pode ser herdado dos pais. Tal como o Adão Y esta Eva não era a única mulher do seu tempo. Muitas outras podem ter havido que tenham tido apenas filhos homens e nenhuma filha, ou não ter tido filhas que só tiveram meninos, e por aí fora.

Não confundir portanto a descoberta da existência deste Adão e Eva peculiares e que suportam uma origem africana para a espécie humana com outro achado muito interessante da genética que é o mais recente antepassado comum da humanidade. Se tirarmos as restrições de seguir apenas o cromossoma Y ou o mitocondrial, portanto seguindo uma linha nem patrilinear nem matrilinear mas mista parece que o mais recente antepassado comum viveu há cerca de 5000 a 3000 anos. Apenas. E parece que se tivermos em conta só a população Europeia ocidental que esse antepassado comum pode ter vivido há tão pouco tempo como 1000 anos. Porque afinal somos todos primos uns dos outros.

Links interessantes relacionados:

1 - Antepassado recente mais comum:
http://en.wikipedia.org/wiki/Most_recent_common_ancestor#MRCA_of_all_living_humans
2 -Genographic Project:
https://www3.nationalgeographic.com/genographic/atlas.html

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Is it Peer-Reviewed?

Num site de divulgação científica em Inglês (1), achei muito interessante a simplicidade com que eles lidaram com uma questão pertinente que qualquer pessoa honesta e interessada se pode debater que é: “Não sei em que acreditar.”

A resposta que eles dão, (e no título de um livro, que infelizmente não li), é simples e satisfatoriamente eficaz. À boa maneira cientifica, eles substituem uma duvida por outra, e propõem que a questão que se deve por é: “Is it peer-reviewed?”

De facto, a questão de se (determinada alegação ou teoria) vem de uma publicação com revisão pelos pares é a pergunta mais pertinente que se pode fazer. Talvez não uma condição suficiente para garantir veracidade e rigor cientificos, como demonstrado pelo caso dos irmão Bogdanov (2) mas sem duvida uma condição necessária.

Quando escrevi sobre o consenso científico e argumentei que esse consenso devia seguir de guia de opinião a todos os que estão fora do meio, não insisti o suficiente na importância desta questão para avaliar exactamente para onde aponta o conhecimento científico quando uns dizem que é para um lado e outros dizem que é para o outro.

Mesmo que não possamos ter acesso ao conteúdo completo dos artigos de melhor qualidade, sem pagar uma assinatura, podemos muitas vezes (quase sempre) ver um resumo (abstract) e saber responder à questão de o que é que diz e se é “Peer-reviewed”. Se pudermos aceder a um artigo de revisão de artigos “peer-reviewed” ainda melhor.

Sobre o “Peer-Review” propriamente dito, falei a propósito do método cientifico na entrada com o mesmo nome, mas resumidamente é processo de avaliação sistemática e correcção por cientistas da mesma área de um trabalho em questão, antes da publicação deste.

(1) http://www.senseaboutscience.org.uk/
(2) http://en.wikipedia.org/wiki/Bogdanov_Affair

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Terraplanísmo

A Terra é Plana.

Quero dar conta do ridículo que neste e outros blogues existem defensores ocultos de que a Terra é redonda e de como eles se comportam na sua defesa. Porque:

1) Recusam aceitar que cientificamente a gravidade puxa as coisas para baixo e não para cima pelo que se prova que se vivesse gente do lado de baixo caía.

2) Argumentam que a sombra na lua mostra que a Terra é redonda como um esfera e não aceitam os estudos científicos feitos com origami sobre sombrasque demonstram que a terra é redonda sim, mas plana como a superfície do Mar.

3) Mostram a sua falta de espírito científico ao deturparem a realidade com aquilo que acreditam só porque nunca andaram de avião. Eu já andei e posso dizer que a Terra é plana até onde a vista chega.

4) Aceitam a existência de entidades supranumerárias, os satélites, que imagine-se, tiram fotografias que provam que a Terra é redonda. É uma fraude demonstrada pelo facto de que a Terra é realmente plana, como se pode ver ao nível do mar e na forma do horizonte. Que é, espante-se, horizontal.

5) Ignoram que a Terra redonda teve origem numa conspiração iniciada por Colombo para justificar os seus passeios de barco. Toda a gente sabe que Colombo não chegou à Índia como prometeu.

6) Basta olhar para um mapa para ver que a Terra é plana. Se fosse redonda tínhamos de ir por baixo do chão para irmos de um ponto distante para outro.

7) A ciência não explica tudo, tal como demonstrado pela existência de baratas no meu microondas.

8) Os próprios cientistas não se entendem. Há uns a dizer que a terra é redonda, e outros a dizer que não, que é achatada nos pólos.

9) Quase todos os ateus, mais de 90%, acredita que a Terra é redonda, donde se conclui que não só o esfericísmo radical é a causa da actual crise financeira como do nascimento de famosos assassinos de massas como Hitler, Ghengis Khan e Estaline.

10) Para que serve a crença que a Terra surgiu redonda por acaso? Que diferença faz isso nas nossas vidas?

11) Basta uma única prova de que a Terra é redonda para eu me calar. Uma única.

PS: Para ver o contexto em que este texto surgiu, (e dar crédito a todos o que deram sugestões), por favor ver a caixa de comentários do seguinte post do "Que Treta" em:
http://ktreta.blogspot.com/2008/11/miscelnea-criacionista-cincia.html

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Opiniões são opiniões, factos são factos.

A preocupação da ciência, aquilo que é o seu objecto são os factos. Sejam eles quais forem. Se acontece, então é passível de ser cientificamente estudado. E como nunca é demais referir, os cientistas são ávidos por factos. Sobretudo se forem novos e trouxerem novas hipóteses a considerar. A crença de que a ciência nega factos à partida é falsa. E tem sido um argumento abusivo por parte de quem defende fenómenos sobrenaturais e outros tipos de bruxaria. Não existem fenómenos sobrenaturais. Se esses fenómenos existirem, sejam quais forem, então são tão naturais como o orvalho matinal ou a evolução das espécies.

Não estou a dizer que não existem anomalias na investigação científica, ou seja resultados que não correram como o esperado e não têm aparente explicação. Mas essas anomalias são quase sempre interpretadas como erros de metodologia e as experiências são repetidas e normalmente a anomalia não. Se se repete, deixa de ser uma anomalia e passa a ser um facto que carece explicação, o que vai deixar a comunidade cientifica excitadíssima e em cerrada competição para encontrar primeiro a explicação. As histórias de cientistas que abdicam em grande parte da vida pessoal em busca de explicações não são fantasia. Einstein era em muitos aspectos um exemplo.

O problema dos alegados fenómenos sobrenaturais ou paranormais, e a razão pela qual continuam a sê-lo (sobrenaturais) é porque não se repetem quando existem condições de os descrever rigorosamente. Nunca passam da narrativa pessoal com apelo incondicional da credulidade do leitor ou ouvinte. E essa narrativa nunca é rigorosa e está sempre marcada por interpretações individuais, em muitos casos até, por pessoas que são elas próprias crédulas, não estando a tentar enganar ninguém conscientemente, mas estando elas próprias enganadas.

Apesar de haver defensores que esses fenómenos se repetem sempre em determinadas condições (se não, não era possível haver consultas espíritas, leituras de aura, energias inteligentes, medicinas “alternativas”, etc.), as tentativas efectuadas para o verificar cientificamente dão sempre para dois lados. Ou fraude ou nada de novo.

Alguns defensores do paranormal, cuja honestidade até é de registar, alegam que a ciência não os pode verificar porque eles ocorrem com uma frequência inferior ao acaso. Mas isto é o mesmo que dizer que esses fenómenos são coincidências mal interpretadas. Se eu adivinhar em 50% das vezes de que lado uma moeda vai cair, com que lógica posso argumentar que em essas 50% das vezes o sucesso foi devido a conseguir prever o futuro?
O exemplo que eu dei foi óbvio, mas algumas alegações de médium tiveram de ser submetidas a análise matemática para se explicar a realidade, ou não realidade. Resumidamente, quando se começam a lidar com muitas hipóteses e com muitos factos simultaneamente, a percepção humana é levada a reter as hipóteses correctas e esquecer as falsas. As hipóteses são também formuladas com um fraco grau de especificidade para poderem ser consideradas certas numa variedade de cenários diferentes. Diminuir a especificidade aumenta sempre a sensibilidade, ou seja a probabilidade de ter um positivo (Diz-se que aumenta a quantidade de falsos positivos).

Por exemplo, isto é o que é feito na astrologia e naqueles programas de televisão em que um médium procura na audiência alguém que tenha um familiar que tinha um colar vermelho. E depois o colar passa a pulseira, depois a lenço, depois a relógio. E depois diz que o nome dessa pessoa é algo como Lara. E depois passa a Clara e depois a Mara e finalmente entre as 50 pessoas alguém conhece uma Sara. Em relação à nossa vida pessoal, além do truque de debitar muitas hipóteses inespecíficas por unidade de tempo ainda há a ter em conta aquilo que é chamado na língua Inglesa de “cold reading”. Que resumidamente é a capacidade que algumas pessoas têm de tirar conclusões a partir de pequenos detalhes. E aqui não há nada de sobrenatural. Trata-se de se conhecer bem a espécie humana, o mundo e de se ser um bom observador. As histórias do Sherlock Holmes ilustram esta noção, ainda que com um personagem fictício.

Isso ajuda a debitar menos hipóteses, mas graças à riqueza da nossa vida pessoal o mesmo método de “adivinhação” pode ser usado. Experimente-se, usar um horóscopo da semana anterior e pedir a alguém que o leia, de Janeiro a Dezembro, sem dizer o título, para ver se consegue acertar qual era o correspondente ao seu signo. Se pelo menos metade deles não for razoavelmente adequado, o astrólogo em questão devia ter umas aulas de psicologia.

Isto tudo para dizer que as crenças no paranormal são isso mesmo, apenas crenças, ou na melhor das hipóteses, como eu tenho lido na sua defesa, opiniões. E as opiniões têm de ser respeitadas.

Tudo bem, as opiniões têm de ser respeitadas. Eu respeito quem me diga que a trilogia do Senhor dos Anéis é uma grande obra, mas se me disserem que aquilo tudo aconteceu realmente e eu negar estou a desrespeitar uma opinião? Não. Porque não era uma opinião, era uma afirmação de que algo era factual quando não era. Era uma refutação. E qualquer sistema cognitivo decente tem de ser aberto à refutação. É um garante da qualidade na ciência por assim dizer.

O problema é que esses alegados fenómenos bizarros não são factos. Não acontecem. E começo mesmo a achar que os cientistas mais sérios deviam deixar de gastar dinheiro com isto. Os resultados são sempre os mesmos. Já para não falar que incluem sempre uma serie de pressupostos que também não se verificam.
Por isso digo opiniões são opiniões, factos são factos. Venham eles. E a minha opinião muda. Mas sinceramente, perdi as esperanças há muito tempo.
Continuação sugerida:

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Compreender a Ciência. Selecção de Textos de Blogues Portugueses.

Hoje decidi andar pela net à procura de textos em Português que falem sobre ciência e a compreensão desta, motivado em parte pelos comentarios a um post de Palmira Silva publicado no Rerum Natura durante o fim de semana.

Escolhi estes, de entre outros possiveis:

"As máfias psíquicas" de Palmira Silva, química:
http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/as-mafias-psquicas.html
"Ciência e excepção" de Desidério Murcho, filósofo:
http://dererummundi.blogspot.com/2008/09/cincia-e-excepo.html
"Einsten em cheque", de Nuno Crato, matemático:
http://sorumbatico-longos.blogspot.com/2008/11/einstein-em-xeque.html
"Treta da semana: ao nivel cientifico":
http://ktreta.blogspot.com/2008/09/treta-da-semana-ao-nvel-cientfico.html