quarta-feira, 29 de maio de 2013

A crença de estar morto.

O Sindrome de Cotard é uma condição raríssima em que a pessoa afectada pensa que está morta.

Os casos descritos - desde sempre - podem contar-se pelos dedos de uma mão. Por isso, também não tem sido possível estudar a doença adequadamente. Mas temos algo de novo e muito interessante.

Um caso recente bem identificado e alta tecnologia que permite "olhar para o funcionamento do cerebro", pela primeira vez mostrou o que se pode passar num cerebro de um doente com sindrome de Cotard.

Não se podem tirar grandes conclusões quando o numero de casos é tão pequeno (n=1!). Mas os achados do PET-Scan são notáveis e parcialmente consistentes com... as próprias afirmações do paciente. Não com o facto de estar morto mas com outra afirmação que o doente fazia: a de que não tinha cerebro.

De facto, o metabolismo cerebral estava em média 22% abaixo do esperado. Valores tão baixos não são vistos sequer em depressões "major".  Morto o cerebro não estava, mas também não estava a funcionar nada de geito.

Mais, algumas zonas afectadas incluiam aquelas consideradas importantes para a formação do "reconhecimento do eu", ou seja, a formação da consciencia.

Não é de estranhar, talvez, que num estado de tão baixa funcionalidade o cerebro não fosse capaz de reunir os processos necessários para formar uma consciencia normal.

Estes individuos podem morrer à fome porque não se alimentam sozinhos - dizem que não é preciso; não têm prazer; não cuidam da higiene pessoal e não têm qualquer proposito em viver. De facto insistem que estão mortos e querem ver-se livres do corpo. Não vivem sem grandes cuidados de terceiros.

O que é notável, digo eu, e talvez seja isso que torne a condição tão rara - já que precisa de ficar sobre uma fina linha de actividade minima - é que sobra o suficiente de auto-reconhecimento para o cerebro se dar a si próprio como "morto". Não creio que sem nenhum mapeamento de si próprio isto pudesse acontecer.

Este caso creio que poderá vir a ser bastante importante no estudo da consciencia e parece-me que encaixa perfeitamente na ideia de que a consciencia emerge da criação do mapa do nosso próprio cerebro integrado num corpo e num ambiente externo.

Aparentemente, aqui temos uma espécie de zombie ao "estilo filosófico". E não, não podemos esperar que se comporte exactamente como se tivesse uma consciencia alargada.

Para finalizar, é de referir que o doente evoluiu muito positivamente e embora ele próprio considere que não está completamente bem, retomou uma vida nomal, autónoma e tira prazer de estar vivo.



Artigo original, cientifico aqui.

Via New Scientist, aqui.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Intestável.

Dizer que é intestável e que ultrapassa os processos de verificação e falsificação sistemática - que são na sua forma moderna o melhor que se sabe sobre testar algo -  é o mesmo que dizer que não podemos saber.

Na ciência o empirismo domina esses testes. A afinidade com a fenomenologia é característica. Na filosofia nem por isso. Mas o mecanismo é, em termos abstractos, o mesmo.

Mesmo só através de experiências de pensamento e raciocínio puro, as ideias têm de passar pelo processo de ver como encaixam com tudo o resto que se sabe e que implicações têm (que levem a novas verificações). Muitas das ferramentas usadas na filosofia neste processo até são de origem directamente empírica como por exemplo a lógica informal. E quando se fala em empirismo já parece ser aceite que o teste é parte do processo.

E se passam por esse teste, passam por teste empírico indirectamente. Estamos a verificar se encaixa na nossa realidade.

E mesmo em ciência quase todos os testes são indirectos. A semelhança não é assim tão fraca. Há uma distancia maior ao teste empírico na filosofia, mas mantem-se uma ponte fenoménica algures.

Adiante.

Se  dissermos que existe um espírito que habita o relógio da praça do comercio mas é um espirito intestável - e querer que isso seja conhecimento (?), filosofia (??) que valor epistemológico pode ter isso? Como sabemos então que ele está lá? Auto-revelação? Aceitamos qualquer ideia que nos ocorra? Ou vamos ver como se sai essa ideia comparando com tudo  o que se sabe e ver o que a justifica? E aceitar que se não encaixa com o que se sabe e não faz previsões significantes então está a precisar mesmo é de provas extraordinárias para não cair no baú das tretas.

Esse é o problema da filosofia. É haver quem queira que o que não se pode saber seja parte da filosofia. Deixando assim esta de ser uma forma de conhecimento e passando a misturar conhecimento com qualquer fantasia (a fantasia está cheia de coisas intestáveis, que note-se, não têm maneira de ser distinguidas umas das outras e de qualquer outra coisa intestável. Não há testes para isso! Nem mentais - esse é o espírito da coisa). Mas esta é uma crença de muitos filósofos - que  a maioria da filosofia é intestável -   ainda que quando pegamos em livros de filosofia vemos que muitas das suas mais famosas ideias passam por experiências de pensamento (em que o teste é mentalmente recriado) e são, pelo menos em princípio  testáveis. A própria falibilidade da indução é testável - assim como a sua utilidade. E a aparente infalibilidade da deduçao, idem.

Assim, com esta amizade ao intestável,  é vulgar ver passar todas as afirmações extraordinárias sobre a realidade para o ramo da filosofia. Claro que com a alegação de que são intestáveis. Assim se evitam provas extraordinárias para afirmações extraordinárias.

Mas a filosofia que é intestável, é uma nulidade. É apostar numa roleta epistémica que nem sequer diz quando se acerta. Não é conhecimento. E se não é conhecimento, mesmo se na forma mais especulativa (e afastada do teste empírico mas não de todo sem ligação a qualquer ponte empírica), não devia ser filosofia.

Claro que os filósofos vêm dizer que não sabemos o que é o conhecimento, que o teste não se valida a ele próprio, que a indução não valida a indução, que não somos infalíveis,  que pode haver nova informação que nos leva a corrigir o que sabíamos  etc. Mas isso só é um problema grave se vivermos numa confusão entre mapa e território e pretendermos que existe algo como a realidade feita palavra. Provavelmente tal mapa realista não é possível. Podemos ter mapas melhores e mapas piores, mas isso poderá ser tudo.

O conhecimento é apenas um grau elevado de plausibilidade para uma afirmação e certezas absolutas provavelmente não existem. Como podemos esperar sequer que a palavra seja a realidade? O Verbo? Não podemos. Talvez por isso Godel tenha conseguido mostrar que vão haver sempre falhas no conhecimento.

Por isso procuramos modelos que funcionem e não verdades absolutas. Mas considerar que devemos aceitar como filosofia o intestável porque o teste só nos dá o melhor possivel mas  não a verdade absoluta é um "non sequitur". Temos sempre de fazer testes.

E se não o fazemos directamente no campo, repito, a ideia é que podemos fazê-lo usando as ferramentas racionais que criámos e as abstracções que sabemos (não absolutamente) que funcionam.

Para finalizar, na pratica,  uma afirmação para ser intestável (sem que isso seja uma questão pontual ou tecnológica) tem de ser tão vaga, ambígua que não diga nada que a possa comprometer! Ou então, tão  deslocada de tudo o que se sabe que nem se percebe se pode ser testada. Isto também só por experiência de pensamento devia ser possível ver que não serve para nada. Por isso os exemplos da história, da moral, etc, como sendo intestáveis são treta. São testáveis. Se não faz sentido, se se descobrem provas que refutam, se não funciona para um fim escolhido, etc, perde plausibilidade. E se 1+1 só fossem 2 no papel e por decreto, já não se usava essa abstracção para nada, pois de nada era uma abstração.

Há quem queira que a filosofia seja a tal coisa sem qual tudo fica tal e qual. Eu não estou de acordo. Precisamos de boa especulação racional. Mas essa é, pelo menos em principio, testável.

(A maioria dos filósofos segundo as songagens do Phill Papershttp://philpapers.org/archive/BOUWDP, é empirista, naturalista, realista moral e até não-humeana. Neste contexto a tendência para o teste empirico é solida.)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Energia não nasce do nada.

Se se diz que se produz energia a partir do peso dos automóveis e das pessoas, quer dizer que estamos realmente a tirar essa energia do movimento das massas respectivas. É que se a massa não mexer mais, não há mais produção de energia. Era bom, mas não dá. É preciso levantar e voltar a pousar ou dar lugar ao próximo. Ou seja, é preciso gastar energia.

No caso das pessoas até pode ser bom gastar umas calorias extra, mas no caso dos veículos, a unica energia desperdiçada é a da travagem (na Formula 1 por exemplo ela é reutilizada no próprio automovel, mas os nossos carros de estrada não estão equipados para isso). O resto vai-se transformar em aumentos do consumo de combustivel, dividido por todos é certo. Se vão vender essa energia à rede já agora então podiam dividir o lucro por todos os que contribuiem. Se vai servir para iluminar cartazes de propaganda tenho dúvidas quanto à legitimidade.

Se é para a iluminação pública da cidade pode ser uma boa ideia, mas dúvido que sirva para alguma coisa que se note muito. O que não  se pense é que esta energia vem sem preço.

É que ao contrário do que diz o titulo da notícia do Público (de resto o meu jornal favorito), a energia não nasce. Nós podemos é transformar uma forma noutra.

Quem conhecer bem a mecanica quantica pode lembrar que pares de matéria e antimatéria estão constantemente a pular dentro e fora da existencia, e que matéria é energia, etc. Mas a verdade é que a soma da energia libertada aquando da aniquilação do par particula-antiparticula é igual àquela que foi usada para o formar. Aliás todo o universo pode ter energia total nula e ter surgido de uma flutuação quantica do genero.

Energia grátis não existe. Pelo menos conhecida. E há ainda muita gente que pensa que sim e que formas de energia infinita são segredos conspiratórios das grandes sei láo quê.

Não é o que se sugere fazer aqui, apesar do titulo.

domingo, 21 de abril de 2013

A queda dos extrovertidos e a ascensão dos neuróticos.

De entre as 5 grandes dimensões de personalidade que os psicologos usam para estudar os sujeitos, duas delas com algum contraste são a extroversão e o neuroticismo.


A extroversão, dando mais nas vistas e promentendo confiança e dinamismo tem sido preferida em diversos cenários. Os mais neuroticos têm sido vistos como demasiado instáveis e péssimistas.

No entanto, estudos  recentes mostram que isso como regra para equipas de trabalho é  errado, já que no longo prazo os mais neuróticos sobem em consideração pelos colegas enquanto os outros descem. É que os extrovertidos procuram ser o centro da atenção como objectivo final, enquanto os neuroticos preocupam-se mesmo é em fazer as coisas bem feitas.

Provavelmente uma mistura dos dois tipos será essencial numa equipa. O que é de notar aqui é que a sobrevalorização da extroversão é um ilusão. Assim como o desprezo face aos mais neuróticos.

Via Forbes, aqui.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Precisamos mesmo de espaços verdes.

É bom para o neurónio e para a sociedade. Além disso é bonito.

Desde algum tempo que há evidência que os espaços verdes, reduzem a criminalidade.  E zonas mal arranjadas e deixadas ao abandono, aumentam.

E agora as máquinas , mais concretamente electroencefalogramas, (porque às vezes estamos demasiado preocupados com a vida para perceber o que é mesmo importante) vêem nos mostrar como passear em espaços verdes e naturais nos melhora a disposição, nos torna mais meditativos, diminui a frustração e outras coisas boas. Zonas urbanas mais "hardcore" parece que têm efeito contrário.

Por isso, se não podemos passar a vida a ir passear no campo, ao menos que hajam espaços verdes nas nossas cidades. Precisamos deles. Sempre soubemos não é? Mas agora vamos sabendo mais sobre o verdadeiro impacto.

Já agora, eu sugiro, o Jardim da Gulbenkian. E o da Estrela. Em Lisboa.

Acreditar não pode ser um ponto de partida.

Tem de ser o ponto de chegada depois de trabalho arduo.

No entanto não faltam pelo mundo apelos a acreditar e gente que diz orgulhosamente acreditar. Em tudo e mais alguma coisa. Como se acreditar só por acreditar fosse uma grande virtude.

Mas em sí apenas, acreditar não tem valor. O que interessa primeiro são as razões e a justificação das nossas crenças.




Por falar em jogar aos dados...



"The God Letter", integralmente aqui.