Cepticismo, naturalismo e divulgação científica. Uma discussão sobre o que é ou não matéria de facto.
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quarta-feira, 13 de abril de 2011
Crianças curadas para cegueira não reconhecem formas aprendidas pelo tacto.
Isto responde a algumas questões acerca do modo como integramos a informação proveniente dos vários sentidos, sobretudo acerca do modo como esse problema deve ser abordado.
É também esclarecedor do modo como construimos ideias abstractas. Nomeadamente que torna muito mais plausível que conceitos relacionados com formas sejam adquiridos e não inatos. Não só são aprendidos pela experiência como se não houver uma boa integração dos sentidos o conceito criado é inútil para novas aplicações.
Isto lança também mais uma pedra no charco lamacento do mundo das ideias de Platão, que apesar de largamente esquecido pela comunidade cientifica, ainda permanece suavemente incrustado nas ideias de muita gente, sob a forma de um essêncialismo crónico.
Os conceitos são mapas, não são as coisas em si. E o conceito de uma forma, digamos de um circulo não é o circulo em si, muito menos o circulo perfeito como dizia Platão. É preciso separar o mapa e o território, pelo menos não esquecermos que o que sabemos é sempre mapa que pode ou não descrever território.
Mas a mim também me surpreende um ou dois aspectos deste estudo. Não pensei que o córtex visual não fosse usado de todo quando se apalpa um objecto e se tenta construir uma abstracção da forma. Por um lado. Por outro esperava que a evolução tivesse deixado algumas formas pré-programadas, inatas, apenas à espera de serem chamadas a uso.
Para saber mais seguir a ligação:
http://news.sciencemag.org/sciencenow/2011/04/formerly-blind-children-shed-lig.html
ou
http://www.nature.com/neuro/journal/vaop/ncurrent/full/nn.2795.html
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Reconhecer vida é inato.
A discussão entre o que é inato e adquirido é um antigo debate filosófico que está a cair a passos largos no domínio da ciência. Processos de imagiologia por ressonância magnética funcional (fMRI) ou a tomografia por emissão de positrões (Pet scan), são capazes de mostrar com relativa precisão que area do cerebro esta a funcionar em cada momento.
Num artigo mais ou menos recente, mas que não vi ainda mencionado na blogosfera em português, investigadores de várias universidades, incluindo Harvard e Cambridge, concluiem que a capacidade para distinguir entre seres vivos e inanimados é inata. Ou seja, não depende de aprendizagem, já nascemos a saber faze-lo.
Press release aqui:
http://www.eurekalert.org/pub_releases/2009-08/cp-ner080709.php
Para além das implicações no já referido debate "inato vs adquirido" -(em que sugere que "haja partes significativas do cérebro humano que estão inatamente estruturadas em volta de nucleos de conhecimento que foram importantes durante o processo evolutivo) - mas há outras coisas onde esta decoberta permite considerações interessantes.
É bem plausível considerar que este sistema neurológico esteja implicado em ilusões de aparições subrenaturais. Coisas que parecem vivas, se despoletarem a resposta positiva deste processo, vão ser indentificadas como tal, sem que qualquer duvida seja colocada nessa interpretação. Sombras, manchas, padrões acidentais, etc. Muito duende e extraterrestre pode ter surgido assim.
Que o cerebro humano funciona identificando padrões, ja tinha aqui escrito. Como o cérebro se pode enganar ao avaliar esses padrões tambem já tinha explicado, sobretudo porque tende a tentar encontra-los (padrões) em todo o lado. E como preenche as falhas da imagem que reconstroi a partir da realidade, (sem que nós tenhamos consciência), acabamos por ver coisas que não existem nas nuvens, nos nós da madeira, nas manchas de muros, etc. Tinha escrito sobre isto quando escrivi sobre o desígnio inteligente.
O que há de novo, e que vem dar ainda mais força a esta explicação, é que existe um mecanismo que serve para identificar como "vivo" certos padrões.
Eu diria, que o argumento do desígnio inteligente se apoia fortemente neste processo antigo do cérebro humano. Leva-nos a crer que, aquilo que sentimos quando vemos vida, a identificação expontanea e imediata do que é vivo, é nada mais que a prova imediata de que estes seres vivos têm um criador inteligente.
Mas talvez também por isso, quando aparecem as comparações de seres vivos com relógios e com outros objectos artificiais, não possamos deixar de considerar que apesar de tudo, nunca confundiriamos uns com os outros. Mesmo sem pensar muito, a diferença é imediata. Sabemos identificar o padrão orgânico em apenas alguns instantes. A tentativa de fazer confundior isso com desígnio inteligente é uma esperteza.
Saloia, claro.
Via Neurologica do Steven Novella:
http://www.theness.com/neurologicablog/?p=768
Sobre o reconhecimento de um padrão orgânico como sendo o argumento de desígnio inteligente tinha escrito isto:
http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/06/designio-inteligente-e-o-cunho-pessoal.html