terça-feira, 4 de setembro de 2012

Acerca da aversão à crueldade.

A pretexto de alguns comentários que li acerca da defesa da tourada e estando a ler um livro sobre o declinio da violencia, o excelente "The Better Angels of Our Nature" achei apropriado escrever um post sobre  a aversão à crueldade (no ambito dos direitos dos animais), que na realidade é outra face da empatia. Mas como já há para aí um bom com esse nome, decidi dar outro titulo e outra abordagem. A matéria no fundo é a mesma.

A maioria dos defensores dos direitos dos animais reconhecem nos animais caracteristicas semelhantes às nossas  que permitem concluir que são seres capazes de sentir dor, fome, prazer, ansiedade e stress de uma forma muito semelhante à nossa. Devido às semelhanças neurologicas, e sendo de esperar que se as estruturas são as mesmas até ao nivel microscópico é de esperar que a função seja a mesma até um pormenor muito elevado, podemos dizer com alguma segurança que a ciência suporta a sensação de empatia dada por reconhecer um nosso semelhante.

O que nós chamamos, quando vemos um ser a que reconhecemos a capacidade de sentir e de saber que sente, a ser dolorosamente estimulado sem uma justificação extraordinária, é crueldade.

E a especie humana tem vindo a ganhar uma aversão benefica à crueldade. Já foi tão insensivel ao ponto de criar festas de tortura, em várias culturas diferentes, contra proprios seres humanos. Hoje em muitos paises civilizados do 1º mundo nem contra animais para abate isso é toleravel.

Um primeiro aparte: Não parece ser importante se a crueldade é dirigida a seres menos inteligentes. Nós começámos a reconhecer crueldade em acções contra cavalos há muito tempo e ninguém põe em causa que se trate  de crueldade o torturar uma criança pouco capaz de falar sequer. Ou um atrasado mental de 5 anos que tenha a inteligencia de um de 2. O que está em causa é reconhecer a dor e o sofrimento causado pela dor. E do facto de quem sofre saber que está em dor. Em maior ou menor grau. E não é preciso muita inteligencia para isso. A existencia da dor em si ou de se sentir uma emoção relacionada com a dor - a emoção é a resposta organica da qual o cerebro constroi o mapa -  é o fulcro da questão. Estará mais relacionada com a existência de algum grau de consciência.  E se a inteligencia não é a questão, então temos de reconhecer que é errado causar dor a animais só porque serão menos inteligentes. O resto, está lá tudo. Até a inteligência lá está em muitos deles, apenas menos que a nossa.

Dito isto, não penso que todos os animais tenham uma consciencia como a nossa. Existem alguns que sabemos que andam lá muito perto, como o chimpanzé e os golfinhos.

Não é só não conseguirem elaborar sobre ela. Mas provavelmente o mapa da própria mente, que é uma parte de construir a consciência, é muito mais simples, conforme vão tendo sistemas nervosos centrais menos complexos.

E isso embora não tire a dor, dá provavelmente um significado diferente ao facto de se ter dor. Começa por se dar menos valor ao facto de se estar vivo, se nem sequer se tem consciência disso. 

Isso provavelmente resume-se a um menor sofrimento e a crueldade será menor. Pelo menos o mapa mental onde o sofrimento é assinalado é muito minimalista ou inexistente.  Por isso eu não creio que valha a pena ficar a pensar muito na crueldade contra insectos por exemplo. Dos peixes tenho algumas duvidas.

Mas em relação aos mamiferos? Não tenho muitas dúvidas que em geral sentem, que sabem que sentem  e que guardam memórias e gostos das coisas. As respostas à dor são muito parecidas e a tolerância não parece ser muito diferente.

Claro que os filósofos, como não podia deixar de ser,  põem em causa a até a existência de certos zombies, que são seres humanos que fazem tudo como os outros, mas não têm consciencia. Não sabem que existem. Embora respondam até que têm consciencia. Dentro da máquina, sugerem os filosofos, não vai nenhuma alma. A dor seria apenas um ato reflexo.

Isso parece-me um disparate exatamente pela mesma razão que reconheço sofrimento nos animais. E essa é a questão toda. 

Onde quero chegar mesmo é que sentir empatia por reconhecimento de semelhança nos animais é sustentável cientificamente - e mesmo moralmente correcto, se formos honestos e tentarmos ver o que é que consideramos pertinente na aversão à crueldade. Por um lado. Por outro, se tivermos empatia até com animais, tendo em conta o que isso envolve, é quase impossivel não a ter por humanos. O contrário aparentemente pode ser verdade, mas quem tem empatia e aversão à crueldade contra coisas mais diferentes também faz sentido que a tenha para as menos diferentes. E eu penso que isso é bom para a sociedade.

Realmente não conheço nenhum atentado físico violento à saúde de ninguém em nome da defesa dos animais. Um caso recente de pelo menos uma pedra que se vê atirada a um cavaleiro tem outra causa que a defesa dos animais em geral e muito mais relacionada com um acto de retaliação direta a uma ameaça fisica.

Mas adiante. De facto, as primeiras associações de direitos das crianças nasceram a partir de pessoas que eram de associações de direitos dos animais, nestes caso o cavalo. O cão e o gato vieram muito, muito depois. Mas antes disto, a crueldade contra crianças era uma coisa natural. Abandonar crianças, matar bébes, era natural. As casas de órfãos tinham taxas perto dos 90% de mortalidade em alguns casos.

Estas pessoas que sentem empatia pelos seus semelhantes têm feito muitas coisas boas. Mas na altura não era tão obvio. Como não é hoje para muitos que o touro é um nosso semelhante e também é capaz de sentir dor e até de saber que a sente. O cerebro deles é estupidamente parecido com o nosso. Estarem lá aqueles milhões de neurónios todos a formarem as mesmas estruturas anatómicas sugere o mesmo, como já disse. Isso, ou teremos de considerar sériamente a existencia de zombies filosóficos.

E permitir esse tipo de dor, é crueldade. E nós queremos (eu quero e sei que a maioria também), caminhar no sentido da aversão à crueldade.

Por outro lado, existem também estudos que mostram que o sadismo é aprendido. Mas não penso, e não há estudos que o mostrem, que o sadismo contra animais se estenda a sadismo contra humanos. Penso que muita gente pode pura e simplesmente não sentir a tal empatia e as coisas ficam em caixotes separados  na cabeça e não são mais perigosas para outros seres humanos por torturarem animais como entretenimento. Mas penso que se o sadismo é aprendido, quem não o aprender e não o tolerar em animais mais dificilmente sequer o tolerará em humanos. De facto temos visto que o reconhecimento do "nosso semelhante" tem sido gradual, assim como a aversão à crueldade. Andaram de mãos dadas.

Outro ataque pre-emptivo que tenho ja de fazer é contra o espantalho previsto por: "estás a comparar crianças a touros/cavalos/cães/etc. , não dá para acreditar!". Sim estou. E dá para acreditar. Há muitas semelhanças. Sobre inumeros pontos de vista. E entre mim e quem faz esse comentário hipotético também. O que eu não estou a dizer é que a criança vale o mesmo que o touro. Ao fim e ao cabo se a empatia e o reconhecimento são por semelhança e reconhecimento, a criança vem primeiro. É o que me parece aliás que vale mais de tudo. Mas talvez seja por eu ser pai também -  tenho de reconhecer o bias.

Por isso o que proponho é que evitemos o sofrimento de acordo com o que esperamos que seja a capacidade de sofrer e sentir dor de cada animal.

Mais valor para os mamiferos que para os peixes, muito menos valor para os camarões que para as aves. De preferencia seriamos vegetarianos. Isso parece ser a tendencia actual, já agora. Mas como não é preciso ser-se imaculado para criticar o que está errado, senão ninguem podia criticar nada, aconselho todos os comedores de carne que não tolerem a tourada a falar na mesma. Mas se deixassem de comer mamiferos pelo menos era melhor. E já agora reduzir um pouco a carne até de aves.

Não chega dizer que "se não gostas não vás". Porque há um ser senciente envolvido em tratamentos cruéis. Um ser que não tem a inteligencia para saber sequer o que se está passar ao ponto de poder fazer uma escolha, que de qualquer modo não tem. Mas já vimos que essa não é a questão, a da inteligencia. Tal como noutras coisas em que sabemos melhor, é preciso proteger os mais fracos.

Falam em bravura...  Mas as coisas não estão nem aí.  É que todo o ambiente é controlado previamente para chacinar o touro. É uma emboscada que começa na genética do que ficam cegos para retaliar. Nem um ser humano escaparia a este tipo de emboscada como os documentos que nos falam do circo romano mostram.

Arte? Arte como em musica, pintura, literatura? Seria sempre algo mais semelhante a um desporto, mas se for isso, então usem velcro nas costas do touro ou pontas magnéticas, whatever. Continuam com a mesma arte e menos sofrimento. Se a arte está na crueldade apenas... Isso não deve ser tolerável e trata-se de um equivoco perigoso.

Existe para aí um estudo que pretende dizer que os touros não sofrem assim tanto. Mas o que mostra é que provavelmente a dor é elevadíssima, tal como sugerido pelos elevados niveis de endorfina que nele se encontram. A endorfina é libertada quando ha estimulo dolorso, até por exemplo na picada de uma agulha e serve para moderar as dor. Niveis semelhantes e mais elevados ao encontrado no touro são encontrados em mulheres durante o parto humano. E as mulheres que tiveram partos naturais narram dor a um nivel elevadíssimo. Neste estudo, as hormonas do stress como o cortisol não estão em niveis muito elevados. Mas o stress não é todo o tipo de sofrimento. O sofrimento a partir da dor deve estar lá concerteza e isso o próprio autor sabe que não pode negar.

Uma outra critica que prevejo - estou mesmo a acabar - é a do antropocentrismo. Porque na prática isto resume-se na mesma a uma forma de antropocentrismo, mas é o melhor que podemos fazer. Não temos outro ponto de vista até os animais começarem a falar e a escreve ou dialogar com extraterrestres. Temos é de ver se não estamos a chegar a conclusões porque consideramos o antropocentrismo algo a manter sem recorrer às melhores tecnicas anti-"bias" que temos. O antropocentrismo aqui emerge da analise racional da questão,  elevando alguns animais a criaturas sencientes e não como assumpção inicial cega que estipula uma hierarquia binária. No minimo é um antropocentrismo muito mais informado e aberto.

E depois há o ad antiquitatem - o apelo à tradição. Mas é uma falácia. Tradição já foi muita coisa que não presta, o que conta é o que se está a tentar manter. Evoluimos ou não?


Bibliografia (os tais ombros dos gigantes): 

Damásio - "O sentimento de si", "O livro da consciência" ; nas questões de o que é a consciência.
Pinker - "The Better Angels Of Our Nature" para as questões relacioandas com a diminuição de violencia, a empatia e de o sadismo ser algo que se aprende, e da referencia histórica dos direitos. 

O argumento de a inteligencia - não torturar só porque não é esperto - é originalmente de Singer como muitos defensores dos animais sabem, mas vem referenciado também por Pinker. 


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