domingo, 16 de setembro de 2012

"Vejam agora os sábios na escritura que segredos são estes da natura."

Em "Os Lusíadas", Luis de Camões descreve dois fenômenos naturais que presenciou durante as viagens por mar e que o marcaram particularmente.

Segundo ele, na altura, eram sobretudo considerados relatos fantasiosos dos marinheiros, de tão incríveis que pareciam. Camões, deixando expressivamente narrado o espanto que lhe causa presenciar tais fenômenos, insiste em dois pontos. Um é que os viu com os próprios olhos - e que "não presume que os olhos o enganem". O outro é que "os sábios" procurem uma explicação. E sugere que o procurem nos livros dos filósofos antigos porque estes também o deviam ter presenciado.

Mas na altura não havia mesmo explicação. Estávamos no limiar da revolução cientifica e muita coisa estava ainda muito longe de ser compreendida.



Se não sabe a que me refiro, aqui tem o texto. Depois identificarei e explicarei esses fenômenos.

 - Canto V
"19
"Os casos vi que os rudos marinheiros,
Que têm por mestra a longa experiência,
Contam por certos sempre e verdadeiros,
Julgando as cousas só pela aparência,
E que os que têm juízos mais inteiros,
Que só por puro engenho e por ciência,
Vêem do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos, ou mal entendidos.

18
"Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e coisa certo de alto espanto,
Ver as nuvens do mar com largo cano
Sorver as altas águas do Oceano.

19
"Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava) levantar-se
No ar um vaporzinho e subtil fumo,
E, do vento trazido, rodear-se:
Daqui levado um cano ao pólo sumo
Se via, tão delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia:
Da matéria das nuvens parecia.

20
"Ia-se pouco e pouco acrescentando
E mais que um largo masto se engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
Os golpes grandes de água em si chupava;
Estava-se coas ondas ondeando:
Em cima dele uma nuvem se espessava,
Fazendo-se maior, mais carregada
Co'o cargo grande d'água em si tomada.

21
"Qual roxa sanguessuga se veria
Nos beiços da alimária (que imprudente,
Bebendo a recolheu na fonte fria)
Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;
Chupando mais e mais se engrossa e cria,
Ali se enche e se alarga grandemente:
Tal a grande coluna, enchendo, aumenta
A si, e a nuvem negra que sustenta.

22
"Mas depois que de todo se fartou,
O pó que tem no mar a si recolhe,
E pelo céu chovendo enfim voou,
Porque coa água a jacente água molhe:
As ondas torna as ondas que tomou,
Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
Vejam agora os sábios na escritura,
Que segredos são estes de Natura. "

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Então é assim:

O primeiro é o fogo de St. Elmo. Aparece durante trovoadas, quando um forte campo eléctrico leva à formação de plasma luminoso à volta de  objectos pontiagudos, ou seja, os mastros. O plasma é feito a partir do ar ionizado com o oxigénio e o nitrogénio a serem os responsáveis pela cor azulada ou violeta. Na realidade é um efeito parecido ao que há nas luzes tipo neon. O fenómeno já vem descrito desde a Grécia Antiga, como pelos vistos Camões sabia, mas só começou a ter um principio de explicação com Benjamin Franklin em 1749. "Os Lusíadas" for concluído em 1556. Até Franklin sugerir tratar-se de um processo eléctrico foi considerado um fenômeno sobrenatural. Como muitos outros.

O segundo é uma tromba-de-água. São correntes de ar em espiral ascendente de modo a formarem uma coluna que vai desde um corpo de água até uma nuvem. O espanto de Camões neste caso, é acentuado pelo facto de que a água que depois cai da nuvem é doce. Isto acontece porque a tromba-de-água não "chupa" água. Na realidade ela aspira vapor de água a partir da superfície do mar ou do rio  que depois condensa na tromba formando gotas. Por isso é que o que depois cai é doce. O processo da formação das correntes  é semelhante ao de um tornado.


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