quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A partícula de Higgs e Deus.

Quem se questiona ainda para que serve o colisionador de hadrões (LHC) ou porque chamaram "a partícula de Deus" à particula de Higgs, convido-o para continuar a ler. Pois este post é sobre isso.

Quem ja sabe porque o LHC é importante, convido na mesma a ler e a comentar. Este é um post mais pessoal que a maior parte do que tenho escrito, na medida em que é mais opinião que factos.

O colisionador de hadrões, certamente serve para mais que "apenas" procurar a particula de Higgs. Vai procurar tambem sinais de dimensões extra e também... Qualquer outra coisa que apareça. Mas a particula de Higgs é das mais importantes e por si só justificava aquele investimento todo. Porque?

A particula de Higgs é a particula portadora do campo de Higgs. E o campo de Higgs é explicação para grande parte daquilo que nós observamos neste universo se comportar como se comporta. Explica a inércia dos corpos, explica a expansão rápida do Big Bang e explica porque a Luz não tem massa. Esta envolvido na existencia da gravidade e portanto na curvatura do espaço e do tempo.

Porque segundo a teoria, o campo de Higgs está em todo o lado, mesmo no vácuo, e é este campo que dá origem à massa dos corpos.

Mas esta particula nunca foi verificada experimentalmente. A entidade explicadora de uma boa porção da fisica nunca foi observada, é uma entidade puramente teórica. Sabemos que muito provavelmente existe porque matemáticamente as peças encaixam todas com uma grande perfeição, desde o princípio dos tempos até agora.

Estas características e propriedades da particula de Higgs ja são o suficiente para lhe chamar a partícula de Deus. E eu tenho-me lembrado muito da particula de Higgs quando abordo a questão da existencia de Deus - uma vez que eu sou daqueles que acham que se Deus existe, então não há razão postular que isso não seja do ambito da ciencia.

São semelhantes, porque hipoteticamente, explicam muita coisa de uma só vez e nunca foram observadas. Até que ponto é que podemos dizer que uma destas entidades é mais real que a outra?

Os criacionistas consideram que não é possivel explicar a macro evolução sem recorrer a Deus, outros, como muitos católicos, que não podemos explicar a consciência sem recorrer a Deus, outros - quase todos os religiosos - que não podemos explicar porque "existe algo em vez de nada" sem recorrer a Deus.

Todas as alegações são mais ou menos faceis de refutar excepto uma. Porque existe algo em vez de nada? Porque existe algo que não precisou de criador? Será que só é possivel explicar isso recorrendo a Deus?

Agnósticos muito convictos como eu, não consideram util repescar a hipotese Deus sempre que um problema não parece ter solução. Porque ao fazermos isso, estamos constantemente a introduzir mais problemas que os que resolvemos - Deus é insondavel... E a por uma pedra no assunto sem ter acrescentado conhecimento sobre ele.

Ficamos com explicações ad-hoc para cada caso particular, mas que não nos permitem conhecer um problema ou um processo ao ponto de ser capaz de fazer previsões sobre ele. Se chove porque Deus quer, não há maneira de saber se amanha vai chover. É o seja o que Deus quiser.

A questão específica aqui, é que a questão "porque existe algo em vez de nada", parece estar por si só num plano para além daquele que é a explicação do "como" as coisas se passam.

Não é tanto o problema de ter de postular uma entidade que não precisa de ser criada, porque essa tanto pode ser Deus como o Universo, e se Deus não precisa de ser criado, continuamos sem saber porque é que ele tem essa caracteristica. Idem para o universo claro. Caso o universo não precise de criador continuamos, à data, sem resposta para isso.

Mas eu proponho que a ciência actual resolve mais problemas se não tivermos de atribuir a criação a Deus, (que apenas "resolve" recorrendo a um postulado sobre a sua vontade: "Porque Ele assim quis") .

A ciencia explica mais coisas porque a partir daí, do momento original, a física desenrola as suas formulas como um reação em cadeia até aos nossos dias, sem precisar de Deuses. E a ciência tem até uma maneira muito especial de dizer que o universo existiu sempre: O proprio tempo surgiu quando surgiu o universo. O espaço idem. Antes não havia um nem outro. A pergunta: "o que havia antes do universo" não tem sentido de ser posta.

Fico com a sensação que Deus só é uma entidade nesseçária para explicar que algo existe, e não o contrário. Mas isso, é se for de facto preciso responder à pergunta, "porque é que existe algo em vez de nada". Talvez não tenha resposta. Porque se recorrermos ao que podemos saber com um grau de certeza elevado, Deus não está lá. Deus é que não existe. Na melhora das hipotese ficariamos com "porque é que existe Deus?". Mas como não sabemos se Seus existe, proponho que não precisemos de ir tão longe. Deus não é matéria de facto. E nada mais parece ser capaz de resolver a questão.

Podemos aceitar a existência de uma entidade que está em todo o lado, participa em tudo, dá origem às propriedades que verificamos no universo e não ter provas diretas dela? É esta a grande comparação entre Deus e a particula de Higgs que me intriga. (E que me admira ainda não me ter sido usada por defensores da hipotese Deus.)

Isto não é equivalente ao problema dos criacionistas de não se "ver" a evolução ou dos dualistas de não aceitar que a consciência seja emergente "apenas" do funcionamento do cerebro. Não é equivalente, por razões que não me interessa agora aprofundar mas que estão ligadas ao facto de a evidencia ser quase direta nestes casos - são as razões que permitem considerar a evolução matéria de facto e no meio da neurologia não se falar de alma. (tipo: não se preocupe que este AVC não lhe afectou a alma...)

A particula de Higgs, aos meus olhos, encaixa melhor nesta questão do que outras questões da ciência. Não é preciso pensar muito para perceber porquê. Porque acreditamos na particula de Higgs e não em Deus da mesma forma? Podemos acreditar que a particula de Higgs é real, se ainda não foi detetada diretamente, só porque, em ultima análise precisamos dela para explicar uma série de coisas?

Porque aceitamos, nós os ateus e agnósticos uma entidade e não a outra?

A minha resposta, é a plausibilidade. E a plausibilidade que é dada de acordo com a força do modelo racional que está por trás.

Se procuro respostas que me satisfaçam racionalemente, tenho de ter a capacidade de distinguir umas das outras por motivos racionais. E se foi um processo racional que me levou a comparar as duas, tenho de aceitar o que me diz a matemárica e a lógica se as aplicarmos ao que podemos saber de facto. E o que elas dizem é que a particula de Higgs existe. Para além da nossa necessidade de a postular para explicar a massa ou o Big Bang.

Se Deus tivesse uma base tão sólida de fundamentos teóricos a suportar a sua existencia, penso que teria de estar no mesmo grau de plausibilidade que a particula de Higgs. Assim penso que tem plausibilidade baixa. E por isso, apesar de considerar sempre a hipotese Deus e até, potencialmente, estar a criar aqui mais uma lacuna para servir de argumento aos crentes, continuo um agnóstico convicto. Convicto que a plausibilidade da hipotese Deus é demasiado baixa para que utilizemos como se fosse real.

Ainda estou a pensar sobre este tema. Talvez ainda volte a ele.

Mas voltando ao princípio, da nessecidade de encontrar experimentalmente a particula de Higgs - é um preceito da ciência. Talvez não seja possivel - o assunto é debatido - mas sem duvida que vale a pena fazer esforços para a encontrar. Porque se ela existe - e parece existir para além do que dá ou não geito - deve haver uma maneira de o verificar. Há e estasse a tentar. Não vamos dizer que é assim e acabou-se, está o assunto arrumado. Porque até prova em contrário, nunca está. E aqui a particula de Higgs e Deus são assuntos completamente diferentes no que proporcionam ao conhecimento humano do universo. Um não é um mistério - sabemos o que faz, como procura-lo, como actua, etc. O outro é o mistério do que "seja o que Deus quiser". Não é só implausivel, também não acrescenta nada.

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