terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Espiritual e entropia.

O Miguel Oliveira Panão é um investigador cientifico formado em engenharia mecânica e fortemente teísta a quem foi pedido que esclarecesse o que queria dizer com "espiritual", dada a pluralidade de significados que a palavra pode ter.

Escreveu o post intitulado : "Sobre o espiritual" (1) que sendo tão longo e tendo tanto a criticar me deixou sem saber por onde lhe havia de pegar. É um exemplo claro do que é pseudociencia, e considero toda esta situação especialmente perversa.

No "Ktreta" o professor Ludwig Krippahl teve a paciencia de debater apenas e exaustivamente a adequação do uso dos conceitos de termodinâmica para definir espiritual, o que acabou com o Miguel a puxar dos seus galões dizendo que essa é a área da sua especialidade - embora em termos de argumentação não tenha conseguido explicar convenientemente a sua teoria.

Acho que o post do Miguel vale a pena ler, infelizmente não por ser elucidativo. É pseudo-ciência fresquinha e deixo aqui o Link:

http://cienciareligiao.blogspot.com/2009/12/sobre-o-termo-espiritual.html

A minha resposta está lá mas copio-a para aqui. Nas notas deixo os links para a resposta no blog do Ludwig.

"Miguel Oliveira Panão:

Depois de saber que fazes investigação na área da termodinâmica não resisti a vir aqui criticar o teu post. Não porque saiba mais termodinâmica do que tu, mas porque posso apontar os pontos que saltam à vista e que não é preciso saber de termodinâmica para perceber que não têm seguimento lógico.

Partes do pressuposto inicial que existe uma energia espiritual. E usas conceitos físico bem estabelecidos para aplicar a essa teoria para explicar o que é o espiritual.

Convinha por conseguinte explicar primeiro o que é a energia espiritual e de que modo pode ser observada e medida, uma vez que pretendes usar leis cientificas sobre ela.

E não é só aí que usas conceitos que necessitam explicação e evidencia experimental para que se possam tratar com o rigor que depois lhes tentas incutir:

“«as duas energias – da mente e da matéria, distribuídas respectivamente sobre as duas camadas do mundo (o interior e o exterior),(…)”

Objectivamente, o que é a energia da mente e o que é o mundo interior e exterior? Se o mundo interior é a mente, e a energia da mente é o processo mental normal, como é que fazes partes depois para dizer que é a entropia:

“a entropia possui como que um aspecto mental, que Teilhard se refere por vezes como energia espiritual”

Propões que seja porque “«é como se a energia livre de Gibbs pudesse ser dividida numa componente material e outra mental»? É que este tipo de coisas que começam com “é como se” são especulação que não podem passar para o “é”.

Ou que seja sequer a energia livre, ou o trabalho realizado quimicamente por combustão da glicose. Avançando que o Ludwig já esmiuçou bastante esse tema e como propus não vou abordar a termodinâmica em detalhe porque não é preciso.

E depois partes destas especulações mirabolantes para, sem justificação, aparte de uma argumento de autoridade, dizer que o homem TEM de ser diferente do animal e que essa diferença é o espírito:

“lugar único do homem na natureza vai para além da capacidade de escolher e da inteligência. A ele corresponde um novo princípio que transcende aquilo que chamamos “vida” no seu sentido mais geral, e que chama de “espírito”, «um termo que inclui o conceito de razão, mas que, juntamente com o pensamento conceptual, inclui também a intuição das essências e uma classe de actos voluntários e emocionais como a bondade, o amor, o remorso, a reverência, a maravilha, a felicidade, o desespero e o livre arbítrio “

Como é que isto surge? Como sabes que isto é real? Isto é uma afirmação não provada. Até porque se sabe que as emoções são fenómenos mentais. Que emergem do cérebro e da interacção deste com o corpo. Destroi o lobo frontal e ficas sem eles. Ainda que te possas mexer livremente e até ter esta discussão.

E depois ainda dizer que “ (…)ou seja [o espiritual é], aquilo que está para além do espaço e do tempo”. Mas como é que sabemos isso? Isto é apenas mais um postulado.

E continuas com mais um apelo `a autoridade: “[o espiritual] não está mais sujeito aos seus impulsos e ambiente (…) é “livre do ambiente” ou “aberto ao mundo”». Sinceramente, “livre do ambiente”???

E etc, etc, etc…

Não vale a pena sequer estar a falar de termodinâmica ou sequer estruturas dissipativas (o que até faria mais sentido), se queres definir uma coisa que nem existe porque tudo aponta em contrário. Não há nada no conceito de entropia que sugira daí poderes tirar entidades extra-temporais e alheias ao ambiente que apenas existem em humanos!

Não há nada na ciência que sugira isso!

E quem quis misturar ciência com estes conceitos escorregadios foste tu. E a isso se chama pseudociência.

Se queres dizer que isso é filosofia é outra história, mas se bem que eu não seja um filosofo não me parece que seja filosofia andar a colecionar apelos à autoridade, non sequitur, etc.

Se me disseres que é teologia está bem. Mas não mistures com a ciência."

Respostas no "Que treta" e discussão:


http://ktreta.blogspot.com/2009/12/espiritual.html

(1) Sobre o espiritual no blogue "... em direção a um novo paradigma...": http://cienciareligiao.blogspot.com/

Update: O Miguel respondeu a esta crítica diretamente. Claro que não estou de acordo mas fica a nota para quem tiver curiosidade.

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