quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Lamina de Occam e Crónicas da ciência

Numa primeira abordagem quero apenas esclarecer a minha visão para este blogue e a sua razão de ser. Vivemos numa época em que o conhecimento humano nunca foi tão vasto e aquilo que podemos construir com ele nunca foi tão evidente, e no entanto, sob o pretexto de manter uma mente aberta ou de que a ciência não tem explicação para tudo, cada um de nós é bombardeado com teorias mirabolantes sobre os mais diversos assuntos, desde a saúde à cosmologia e pelo meio, os valores da ciência são menosprezados, por vezes até por quem tem formação científica. São exemplos flagrantes desta agressão à ciência a crescente crença no criacíonismo e no “Desenho Inteligente”, a negação da Teoria da Evolução e Neodarwinismo; a negação do aquecimento global antropogénico; a proliferação de medicinas alternativas sem base nenhuma na evidencia; a utilização indiscriminada do termo “provado cientificamente” e a proliferação da pseudociencia; e por fim o renascer da feitiçaria… Não, não, quero insultar ninguém mas que nome dar às práticas de curas tipo reiki e leituras da alma etc?...

Deixarei a abordagem específica de cada um destes tópicos para mais tarde. Todos estes factos, na minha opinião, reflectem muitas vezes o desconhecimento do que é a ciência e do que ela não é. A ciência tem limitações que começam por ser as nossas próprias limitações mas ainda assim representa o nosso melhor esforço de compreender qualquer assunto e de adquirir conhecimento. A evolução da ciência acompanha a evolução da humanidade. Desde as cavernas até aos dias de hoje passou muito pouco tempo (do ponto de vista da vida sobre a terra) mas muita coisa mudou. Com compreensão do mundo melhorámos muito a nossa qualidade e esperança media de vida. Não é que o conhecimento científico não seja frequentemente mal aplicado, mas isso é outro problema. A questão é que pode e deve ser bem aplicado, e para ser aplicado, esse conhecimento tem de ser criado. (Talvez até seja essa a grande diferença entre nós e os animais: a capacidade de criar ciência). E se for bem aplicada, acredito mesmo que se pode traduzir num mundo melhor.

Por outro lado não creio ser inofensiva a aquisição de “conhecimento” gerado por outro modo*. Quer para a humanidade no seu todo como exemplificada pela inacção frente ao aquecimento global, quer para o individuo como exemplificado nos casos de atraso da procura de cuidados médicos (medicina baseada na evidencia) em favor de alguma “medicina” alternativa. E se as massas acreditam que o modo de resolver os seus problemas é com recurso a pedras magicas ou com as dicas do Prof. Hocuspocus quem é que sai prejudicado?

Por isto espero com este blogue fazer o trabalho da apologia da ciência, por gosto e por crença no método cientifico. Este não é no entanto um blogue cientifico. Pretendo falar sobre descobertas recentes em diversas áreas, mas pretendo igualmente opinar sobre elas. Espero poder faze-lo de uma maneira clara. Espero também que seja fácil ao leitor separar a minha opinião daquilo que é o facto ou noticia. Vi recentemente um jornalista de língua inglesa quase ser crucificado por dar mais opinião que notícia, mas como eu acho que os cientistas (e afins) têm direito a expressar a sua opinião, aqui fica o aviso. (O artigo era de facto de opinião mas tinha sido colocado por engano na secção de noticias).

O que eu não farei é apresentar como ciência aquilo que não é ou tentar misturar factos com opinião de uma maneira difícil de discernir o que é um ou o outro. Se eu o fizer, caro leitor, por favor diga-me.

O objectivo é apresentar factos e comentar sobre eles. Além de falar sobre assuntos actuais, espero também falar muito sobre a ciência propriamente dita. A começar pela navalha ou lamina de Occam.

E porque a navalha de Occam? Guilherme de Ockham era um teólogo, físico e lógico do século XIV e a quem se atribui o princípio com o nome dele e que eu considero ser o gérmen do espírito científico. Cerca de 200 anos antes de Galilieu Galilei, Guilherme de Ockham dizia que a explicação mais simples para algo é a mais correcta. Isto é, devemos tentar explicar uma questão com o menor numero de assumpções possível, sem a criação de novas entidades no processo. Razão pela qual muitas vezes “mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo”, uma vez que as mentiras tendem a ser muito elaboradas. E isto aplica-se quer na investigação criminal, quer no diagnóstico médico, quer no método científico. Por ser tão importante, tão simples e tão produtivo o escolhi como titulo. E porque lançou uma das primeiras pedras do pensamento cientifico. Uma lamina para cortar no que não interessa.
*Nota: Excepção para a Filosofia de um modo geral - e que não interessa explicar agora, pois o texto anterior esclarece a que me refiro. Considerei a Matemática e a Lógica ciências.
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