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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Auto-hemotreta. Quando simular um derrame é suposto curar.

Os defensores da auto-hemoterapia são poucos mas muito activos. Há então dois ou três, que parece que não fazem mais nada a não ser divulgar essa pseudo-ciência.

Hábeis utilizadores da sempre implacável "evidência anedótica" e com uma capacidade singular de apelar para autoridades desconhecidas ou dubias sem tremer, enchem páginas e páginas - como se escrever sobre o assunto fosse tão simples como fazer copy-paste.


Tentei-lhes explicar que as coisas não são verdadeiras só porque são velhas.
Que doenças que passam sozinhas não servem para avaliar eficácia com casos isolados. (Duh!!).
Expliquei que doenças crónicas tem ciclos na sintomatologia.
Expliquei porque precisamos de estudos duplamente cegos e controlados com placebo.

Tentei chamar a atençao de que aquilo causa inflamação e stress mas não tem um mecanismo plausivel para cura. E que cura é uma coisa e tratamento é outra. Mas nem uma nem outra. Nada.

Como insistiam que se fazia na Europa em animais, contei que sou veterinário na Europa. E um no activo. Choveram insinuações relacionadas com os meus conhecimentos da especialidade.

Hoje, por causa já não sei de quê, fui dar a uma página sobre hepatite. Que tinha uma copia "on-line" de um comunicado da Sociedade Brasileira de Hematologia.
Sobre a auto-hemotreta. E o que eles dizem? Dizem assim (excerto):

"PARECER CIENTÍFICO SOBRE AUTO-HEMOTERAPIA No final do mês de março de 2007, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) \"Frente a inúmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais médicos como não médicos, relacionados à suposta prática denominada \'auto-hemoterapia\' \", divulgou um COMUNICADO contra. A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia- SBHH, frente a inúmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais médicos como não médicos, relacionados à suposta prática hemoterápica denominada \"auto-hemoterapia\", vem a público esclarecer o que se segue: A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia NÃO RECONHECE do ponto de vista científico o procedimento \"auto-hemoterapia\""

Para apelo à autoridade bem feito temos de apelar para as verdadeiras autoridades. Parece-me que é o caso.

Em: http://www.portaldahepatite.com/index2.php?ctg=1&nt=90

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AHT- refutação de mais estudos.

Isto começa a parecer um bocado um jogo daqueles "Whack-a-mole". É ir acertando nas tretas conforme elas saiem da toca. Os defensores da AHT vão atirando supostas provas para o ar e eu vou fazendo o "debunking" .

No ultimo "post" (a) expliquei o que era preciso e porquê. Neste aponto essas falhas nos ultimos artigos avançados pelo Olivares (b)como sendo provas da AHT.

Sei que há mais pontos de critica mas estes chegaram para inutilizar estes artigos como sendo capazes de avançar uma nova area de tratamento médico. Aqui vai, os links estão no fim.

O primeiro estudo apresentado (1) compara a autohemoterapia para a papilose bovina com um tratamento de implante autologo
(tipo auto-contaminação uma vez que para vacinação é tarde).

A doença é uma doença autolimitante na maioria dos casos e não requer usualmente tratamento, sobretudo em animais jovens. Este estudo não é cego e não tem controle com placebo. Não pode por isso dizer se o resultado foi devido ao acaso ou ao tratamento. O estudo sugere que ambos os tratamentos são ineficientes e não que a auto-hemoterapia é eficaz. Não esquecer que isto é uma doença causada por um virus que passa sozinha, normalmente não é tratada. A prevenção é feita com higiene e vacinação. Alguns casos podem evoluir malignamente mas não é referido no estudo. O tratamento usado para comparação não é um tratamento de eficácia estabelecida.

O segundo estudo (2) e outra vez na mesma doença autolimitante do anterior.  Está no entanto mais muito mais bem desenhado que o anterior mas estuda demasiadas variáveis de uma só vez. De qualquer modo ele conclui que: “Os tratamentos não apresentaram diferença significativa
quando usados em papilomas do tipo pedunculado; já o
clorobutanol e a diaminazina foram os mais eficazes no tratamento de animais com papilomas do tipo plano.
” Portanto a auto-hemoterpia não é sustentada nos resultados deste estudo, muito pelo contrário. No grupo da auto-hemoterapia dez animais melhoram e dez não. Nem é preciso matemática para concluir que é devido ao acaso.

O terceiro caso apresentado é um relatorio de fim de curso onde a Autohemoterapia aparece referida como tratamento possivel e com uma potencial explicação. Nao sao avançadas provas de que seja eficaz. De facto o excerto seguinte é tudo o que aí se encontra sobre auto-hemoterapia neste longo relatório:

“ A auto-hemoterapia promove um estímulo protéico, em casos de doenças
inflamatórias crônicas, leva a uma reativação da imunidade orgânica. Os produtos
da degradação eritrocitária são conhecidos por estimular a eritropoiese e ativar o
sistema imune normal, permitindo a manutenção da homeostasia. A auto-
hemoterapia proporciona um aumento no nível de anticorpos, capazes de ligarem
a produtos provenientes da degradação celular e assim neutraliza-los, resultando
na elevação dos níveis de linfocitotoxicinas na circulação sanguínea (SILVA et al.,
2002b). O método consiste em retirar 10ml de sangue venoso e imediatamente
aplicá-lo por via intramuscular profunda. Isto Provoca um estímulo imunológico
inespecífico, que pode levar à queda das verrugas (MELO e LEITE, 2003).


O que está ali escrito é que há indução de inflamação e que isso aumentaria a imunidade inespecifica. Só que normalmente, no caso de uma doença o corpo ja tem a inflamação e mediadores inflamatórios que precisa até em excesso, sendo muitas vezes necessário recorrer a anti-inflamatórios. Dizer que destruir células e causar inflamação ajuda a combater uma doença corrente requer evidencia clinica. Não é aqui apresentada. Mesmo a alegação de que isto cura é apenas implicita, sendo o texto bastante neutro quanto à sugestão de eficacia. Parece mais uma hipotese cuidadosamente formulada em “ pode levar à queda das verrugas”. Não suporta clinicamente a autohemoterapia como tratamento comprovado.

O quarto caso aqui apresentado pretende comprar o efeito da AHT com controle na cicatrizaçao. Não é um estudo cego e as conclusões são bizarras para dizer o mínimo. Antes de mais notar que o unico parametro objectivo importante não suporta a AHT:

Na observação cicatricial notou-se que o tempo de cicatrização para os dois grupos foi relativamente igual (aproximadamente 20 dias),” - então? Isto não devia ser o mais importante?
 No entanto como “a cicatrização apresentada pelo Grupo Desafiado foi "notoriamente mais plana, de bordas regulares com uma cicatriz final quase imperceptível.” - tudo coisas subjectivas, concluiu-se “dessa forma, a ativação do sistema imune através da aplicação de sangue antólogo intramuscular, que é o efeito proposto dessa técnica.” Mas isto não é de todo uma conclusão normal – é quase de livro para mostrar “confirmation bias”. Tinha que ser cego para estes achados serem sequer dignos de nota. Esta revista tem “peer-review”? Se tem é uma desgraça. Há mais problemas. Os animais controle foram menos manipulados, deveriam ter recebido uma injecção intra-muscular de NaCl no mínimo dos mínimos com a mesma dose usada no grupo de tratamento. Como seria de esperar eles nem dão importância à contagem leucitária na conclusão. Dizem que se aumentou a imunidade mas não falam dela. Porquê? Porque como era de esperar o que aumenta são os neutrófilos e no grupo de tratamento. É esperado. Ha destruição de células – eritrócitos e tecidos – muscular, mesmo que tenham todos os cuidados, e ainda mais stress. Mais injecções e dor o que da origem a mais neutrofilos só por si. Eficácia era ter o mesmo desempenho com menos indicadores de stress psíquico e orgânico.

Quinto estudo (5) conclui que a autohemoterapia não altera a composição do leite. Nem esperava que alterasse. Para que perder mais tempo, vamos em frente.

Sexto caso é o de um professor que diz que se trata uma determinada doença com AHT. Mas não diz em que estudos é que essa afirmação é baseada nem consigo verificar a fonte. Até prova em contrário é evidencia anedótica.

(a) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2011/01/porque-precisamos-de-testes-duplamente.html
(b) http://www.hemoterapia.org/informacoes_e_debate/ver_opiniao/o-pessoal-que-ataca-a-ah-nao-para-nem-eu-kkkkkkk-no-blog.asp


(1)http://64.233.169.104/search?q=cache:AnXB1tVExO4J:www.famev.ufu.br/vetnot/vetnot4/res4-10.htm+auto+hemoterapia+VETERIN%C3%81RIA&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=18&gl=br
(2)http://revistas.ufg.br/index.php/vet/article/viewFile/314/282
(3)www.upis.br/pesquisas/tcc/Andreia%20Pagnussatt.pdf
(4)http://www.unieuro.edu.br/downloads_2009/reeuni_04_004.pdf
(5) http://www.ufpel.edu.br/cic/2008/cd/pages/pdf/CA/CA_01407.pdf
(6)limk fornecido está invalido

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Autohemoterapia - fracas (muito fracas) evidências para tão grandes alegações.

A auto-hemoterapia é a prática supostamente médica de usar o próprio sangue de um paciente para o tratar, tirando 10 a 20ml de uma veia e depois administrando via intra-muscular.

Não só isto não faz sentido como não existem artigos rigorosos e metodologicamente correctos a sugerir que isto funcione mesmo que seja por algum mecanismo mal compreendido. Foi a conclusão a que cheguei (1) quando pesquisei para escrever a primeira vez sobre o assunto no blogue e foi a conclusão a que chegou o Dr Leandro (2) no seu blog.

Em defesa da auto-hemoterapia, o Joel Martini de Campos, que suponho já ter sido aqui comentador também, avança com 2 links. Só li aindacompletamente o primeiro, o que já justifica este post. 

É um artigo de 1940, que diz ter sido publicado na revista Brasil-cirurgico por Jésse Teixeira. É logo mau sinal ser um artigo tão antigo a aparecer numa pequena lista como suporte de uma pratica médica que alega servir para tanta coisa. Normalmente artigos de 1950 para trás so servem para dizer em que ano se descobriu determinada coisa, não para sustentar a sua pratica clínica nos dias de hoje. Mas pelos vistos os auto-hemoterapicos não têm muito melhor para apresentar.

E a leitura do artigo revela logo uma serie de problemas. Nos dias de hoje não seria aceite nem como trabalho de faculdade do primeiro ano.

 - Esta extremamente mal citado. Não há referencias para lá do nome próprio e apelido de quem diz o que.

 - As conclusões que tira estão fora do ambito do tema principal do artigo - o que mostra que não foi desenhado para esse fim.

 - Não é um estudo com controle com placebo.

 - Não é um estudo cego em que nem paciente nem médico sabe o que está a administrar no tratamento. É importante para afastar tentativas de fraude, contornar o efeito placebo além da tendencia natural humana para confirmação positiva (confirmation bias).

Isto seria na melhor das hipoteses um artigo se screening em que a conclusão seria que são precisos mais estudos. Mas estamos em 2011 e ainda é apresentado como prova. Prova de que é treta, só pode.

Faz afirmações como "foi muito mais rápido do que se não se tivesse usado auto-hemoterapia". Mais rápido comparado com que? Placebo? Não. Tratamento normal? Também não sabemos, não há qualquer espécie de controle. Como foi a evolução ao longo dos dias? Também não sabemos. 

O segundo link vai dar aqui (3). E para além da noticia linda de um apresentador de televisão que cura um paciente com cancro. Tem mais uns 10 artigos. Muito pouco. Segui o primeiro (4) porque era de veterinária.

É o artigo sobre um caso único, de uma época em que ainda não se sabia que o tumor venereo transmissivel ou Sarcoma de Sticker era causado por um virus - ou pelo menos o artigo não menciona isso - e em que diz que se fez auto-hemoterapia antes de se aplicar um tratamento que se sabe ser extremamente eficaz.

Diz que depois da auto-hemoterapia o tumor diminuiu de tamanho - não diz quanto - e deixou de sangrar. É possivel que tenha deixado de sangrar... Mas isto é quase a definição de "confirmation bias". Pequenas coisas que servem para confirmar algo como positivo. É uma tendencia natural humana. E chama-se a este tipo de estudos evidência anedótica. (um caso, sem controle, não cego, poucas alterações consideradas como sucesso).

Não li mais. Mas suponho que são todos assim. Não servem para provar uma area nova na medicina.

Grandes afirmações requerem grandes provas. É preciso explicar porque? 

PS: O autor original teve de fechar os comentários. Qualquer tentativa de SPAM, sob qualquer aspecto, será como outras vezes, apagada. Para deixar opinião não é preciso escrever 1000 vezes a mesma coisa. Isso não a torna verdade. Quem quiser um "blogue" para escrever sobre os mesmos assuntos que faça um, se quiserem eu até ajudo a começar (conheço o Blogger, não é?), mas na realidade é muito fácil.

(2)http://leonardof.med.br/2010/07/07/auto-hemoterapia-nao-tem-comprovacao-cientifica/
(3)http://www.rnsites.com.br/auto-hemoterapia.htm#TOPO
(4)http://www.rnsites.com.br/Auto-Hemoterapia-cadela.pdf

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Outra vez a auto-hemoterapia.

Tenho escrito sobre diversas praticas pseudocientificas que querem fazer passar-se por medicina, mas nenhuma me deu origem a uma avanlanche de criticas tão grande como o que escrevi sobre a auto-hemoterapia. Gozei com a homeopatia, reuni trabalhos que apontam para a ineficacia da acupunctura, denunciei a atitude ambigua dos proponetes da chiropraxia, etc. Os criacionistas fizeram uma vez um bocado de barulho, ouve outra vez em que fui atacado por um bando de Trolls que pareciam saídos do Xbox live, mas são os defensores da auto-hemoterapia que ganham o prémio pela persistencia.

Decidi publicar todos os comentários que aguardavam moderação e responder sumáriamente em post. Se for responder ponto por ponto, exaustivamente, não faço mais nada e quem quiser saber mais, até pode encontrar aqui neste blogue sob o rotulo medicinas alternativas os fundamentos das criticas que vou fazer.

A auto-hemoterapia consite em tirar 5 a 20ml de sangue circulante para injectar no musculo. Isto para além de dor e inflamação local, se foi feito com os devidos cuidados de assépcia, não deve dar origem a mais nenhuma alteração visivel ou testavel. Se for repetido no tempo, a inflamação muscular torna-se relevante e a perda de sangue dará lugar a sinais de regeneração de sangue. Fantástico. Isto quer dizer que estamos a curar alguma coisa? Sim, que o corpo está a tratar de resolver o problema da inflamação muscular e da perda de sangue (em principio é de esperar destruição de globulos vermelhos durante o processo). Mas em resumo, o corpo esta a resolver o problema que nós estamos a causar. 

O que está no sangue acaba por chegar aos tecidos (duh!) não sendo preciso injectar sangue no musculo para que os antigeneos lá cheguem. Li em qualquer lado que este era um mecanismo proposto de funcionamento. Mas mais ridiculo é saber-se desde há décadas que o que é colocado no sangue é o que tem resposta organica mais rápida. Precisamente porque chega mais depressa a todo o lado. 

Isto não tem plausibilidade cientifica nenhuma. 

Há uns 100 anos atrás, tudo o que passava pela cabeça de um médico, experimentava-se. Às vezes até parecia que funcionava, mas com o tempo, muitas práticas rídiculas desapareceram conforme a medicina se tornou cada vez mais numa ciência. Há no entanto ainda alguns remanescentes de algumas destas coisas, como a acupuntura, a homeopatia, etc, que querem impor-se por insistência num argumento "ad antiquitatem" (argumento pela antiguidade), e na evidencia anedótica, que sabe-se, é a pior maneira de produzir conhecimento.

Mas eles defendem que tudo o que passa a meia centena de anos ou assim, mesmo que esteja desacreditada por testes sistemáticos e não tenha plausibilidade nenhuma, passa a ser verdade. Se isso fosse assim, então o melhor era para com a investigação cientifica, porque as velhas crenças é que são a tal coisa. Mas indo por aí há um problema. Elas não se entendem umas com as outras, como se ouvessem várias realidades e pior. Não se entendem com a realidade. Postas à prova, não passam. Nem queiram saber o que era o mundo se voltassemos a fazer como vem nos livros antigos. O argumento pela antiguidade é uma falácia conhecida. Que até  já aqui tinha falado (ver etiqueta falácias).

A outra coisa que insistem muito é na evidencia anedótica. Que é mesmo anedótica porque não presta. E pior ainda, é insistir na evidencia anedótica persistentemente para provar algo. Não é pelo diz que disse que se faz ciência.

Depois o argumento das lacunas. Que a ciencia é uma coisa de "verdades provisórias". Não, a ciencia é sobre o melhor que se pode saber a cada momento. Mesmo olhando para as coisas erradas que a ciência disse no passado, a regra é verificar que mesmo com o que se sabe hoje, essa afirmação cientifica era a melhor afirmação que se poderia fazer na epoca para uma dada coisa. E mesmo hoje, significa muitas vezes a segunda melhor afirmação que se pode fazer. Como a Teoria da evolução de Darwin em comparação com o Modelo Evolutivo, ou a mecânica de Newton em compração com a Relatividade, ou como frequentemente sucede na medicina moderna em que são descobertas coisas a cada dia. O argumento das lacunas, tentar arranjar espaço para a treta no meu das lacunas do conhecimento cientifico é trafulhice. E conforme as lacunas se vão fechando pode-se ter uma ideia de onde vai dar este argumento.

E agora  uma nota sobre algo que ainda não tinha tocado neste blog:

Em veterinária também há efeito placebo.

Os animais são sensiveis a uma maior atenção dos donos e sobretudo os cães parece terem uma capacidade especial para compreender o estado de espirito das pessoas. Adicionalmente, coisas paralelas ao placebo mas muitas vezes confundidas com ele são muito importantes. A percepção do dono do animal ou do veterinário (um pouco menos mas tambem real)  sobre a melhoria são muito significativas como causando uma variação face à realidade. Os donos são muito sugestionáveis. E como os proprietários não sabem à priori o curso normal da doença, podem ser induzidos a achar que - ou devia estar melhor ou devia estar pior. E fazem fé nas conclusões tiradas, como infelizmente já vi. Por isso os testes têm de ser tal como nas pessoas, isto é,  duplamente cegos. Donos e veterinário não sabem quem recebe placebo e quem não recebe. E para evitar variações normais do curso das doenças, têm de ser feitos em grande escala. Pelo menos 50 pacientes. Depois, se mesmo assim há erro, então imaginem se for feito só num bicho e narrado pelo visinho debaixo que viu acontecer com o cão do tio? Mas assim é a melhor maneira possivel conhecida. Que eu saiba existe pelo menos um estudo em vacas, sistematico e rigoroso a que a hemoterapia foi sugeita e não deu resultados. Podia estar a inventar e insistir agora que acreditassem na minha palavra. Mas não estou. Posso se quiserem e tiverem a lata de mo pedir de ir buscar a referencia.

Por fim o argumento do teste à força. Têm de testar mais. Mas quem paga? Fazem-se uns testes. A coisa não tem plausibilidade. Os testes são pouco promissores. Face a coisas com resultados promissores e com maior plausibilidade, porque se há de gastar o dinheiro nestas coisas? Tem-se gasto uma fortuna a testar pseudoterapias alternativas para acalmar as vozes populares que pensam ter a revolução da medicina no bolso. Estas crenças custam uma fortuna. 2,5 mil milhões de dolares foi quanto se gastou nos EUA. Não valeu a pena. E se eu disser que tenho a cura para o cancro feita com cabelo e unhas de rato também não vale a penas ir a correr testar. É preciso começar a escolher criteriosamente para onde vão os nossos recursos limitados.

Nota: Quando alguem diz que tem curas para muitas coisas... Com o mesmo processo de cura... É mentira. 



sábado, 5 de setembro de 2009

Sobre a Auto-hemoterapia.

Através de uma dica da Fernanda Poleto do Bála Mágica (1), fiquei a conhecer mais uma pseudo-medicina, que por cá não parece ter grande penetração no mercado, mas no Brasil tem uma quantidade enorme de seguidores. Por isso, é uma questão de tempo até haver aí tasquitas a vender o tratamento de tudo e mais alguma coisa através da auto-transfusão. 

O blogue que a Fernanda me indicou, o .42*,  está a receber uma grande quantidade respostas desagradáveis  por ter feito um post a criticar a auto-hemoterapia. Há insultos, ameaças, mas poucos (ou nenhuns) links para artigos decentes. Na realidade já vai em dois post. Do primeiro cito esta parte: (AHT = auto-hemoterapia)

"E essa tal de AHT serve para o quê?
Segundo Luiz Moura, proeminente proponente da precitada prática; para tudo (incluindo câncer e HIV)! 
Segundo a Ciência Médica, para nada!

Entre centenas de anos de melhoria, milhares de estudos e milhões de profissionais pesquisadores e um indivíduo, aposto sempre no primeiro grupo.
Quer revolucionar a medicina? Prove."

E é isso mesmo. A AHT é a prática de tirar 5 a 20ml de sangue circulante e injecta-lo no musculo. Não há suporte cientifico para tal practica para tratar uma unica doença, muito menos ser a panaceia universal que se propõe ser. A lista de doenças para as quais os proponentes dizem que a sua milagrosa terapia tem indicação é enorme. Nem vale a pena começar. 

Segundo, quem faz alegações e afirmações novas é que tem o onús da prova. Porque? Precisamente como ele diz. Se não tinhamos uma revolução cientifica a cada dois dias. Não é demais nunca repetir que afirmações extraordinárias, requerem provas extraordinárias.

Para varias as provas apresentadas pelos comentadores são anedóticas, histórinhas pessoais ou de alguém conhecido que é suposto nós acreditemos pelo valor facial. Nada de amostras grandes, com dupla ocultação. 

É sempre o mesmo padrão. Evidencia anedótica, apelo à credulidade, insulto aos criticos da prática por estes exigirem provas (com normal recurso a teoria da conspiração), e apelo à ignorancia (ao tentar inverter o ónus da prova.

Fiz uma pequena pesquisa sobre hemoterapia onde passei por vários sites de proponentes. Um deles, intitulado "Institute of Cience" (2) apoia as suas afirmações em trabalhos publicados para la dos 50 anos. Os mais recentes são de 88 e 92. O artigo de 88 é publicado pela AAAS pacific division mas é um estudo não randomizado, não controlado e sem ocultação acerca de 40 pacientes com Malária. O artigo de 1992 é publicado numa revista cuja tradução é "Hipoteses Médicas". Certo.

Porque é importante ter o trabalho de escrever sobre estas coisas? Porque quando vamos ao médico não queremos andar a fazer de cobais pois não? É melhor que a nossa saúde seja tratada com a sofisticação que merece, usando o melhor que o conhecimento humano permitiu saber. É que se é para fazer de cobaia, então que avisem. Existem protocolos para isso. E antes de chegar a um ser humano uma nova terapia têm de passar por um filtro muito severo. 

Notas e referências:

(1) http://bala-magica.blogspot.com/Obrigado pela dica.

(2)http://www.angelfire.com/ca/instituteofscience/hebibnew.html - Esta é a pagina da bibliografia, mas tem ligação de volta para o artigo onde eles explicam detalhadamente as suas teorias.

* O Blogue " .42" e o artigo de nome "Auto-hemoterapia e a medicina medieval de mãoes dadas":

http://scienceblogs.com.br/uoleo/2009/08/auto-hemoterapia_e_a_medicina.php

Vale a pena ver o segundo post sobre o assunto também:

http://scienceblogs.com.br/uoleo/2009/09/auto-hemoterapia_e_a_ignoranci.php