segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Videntes, médiums, bruxas, espíritas... Como eles o fazem.

  A leitura fria.

Introdução.
Desde académicos a militares (seria uma arma bem importante), existe actualmente um conjunto bastante razoável de estudos científicos sobre alegados poderes psíquicos. E o que a ciência encontrou nestas investigações foi, não um conjunto de energias e poderes apenas dominadas por uma elite mas um conjunto de técnicas que permitem simular que se tem esses poderes. Chama-se a esse conjunto de técnicas “leitura fria”.

Aprender a fazer uma leitura psíquica não é uma questão de frequentar cursos para videntes ou para médiums. Em vez disso, é uma questão de elogiar, fazer afirmações com duplo-sentido, fazer comentários vagos e ambíguos, de usar “fishing and forking”, prever o provável e transformar falhanços em sucessos”.
- Prof. Richard Wiseman, Paranormality.

Antes de explicar o que é isto uma nota importante: Nem todos os que a utilizam podem estar conscientes de a estar a utilizar. Um dos enganados pode ser o próprio executante. Entre o conjunto de razões que levam um “leitor frio” a ter sucesso em outras pessoas, estão as mesmas que podem fazer com que o próprio se convença que tem a capacidade de ver para o passado de estranhos, conhecer a sua personalidade e prever o seu futuro. Estas técnicas são “assim tão boas”, por explorar vulnerabilidades conhecidas do pensamento humano, tais como o sentimento de sermos únicos, a tendência para nos lembrarmos apenas dos resultados positivos, a tendência para acreditar no que é ou parece bom, a tendência de procurar significado para as coisas (mesmo quando ele não está lá), etc. Por isso nem todos são aldrabões, alguns podem acreditar que têm mesmo uma capacidade especial.

Como sabemos que é tudo uma questão de leitura fria? Como disse anteriormente existem imensos estudos e eles mostram que (para além destas técnicas estarem a ser usadas sistematicamente), os alegados videntes não são capazes de fazer corresponder uma determinada leitura a uma determinada pessoa. Ou seja, são inespecificos, não estão a dizer nada acerca de uma pessoa em particular (sem que a pessoa forneça essa informação, claro). Por outro lado, a experiência de replicar os resultados dos alegados possuidores de poderes psíquicos recorrendo à aprendisagem e execução destas técnicas de leitura fria tem tido o sucesso esperado. Ou seja, resultados apenas compatíveis com poderes psíquicos não foram encontrados (consegue-se o mesmo com leitura fria), por mais que se tenha procurado. Por isso se verdadeiros médiuns andam para aí, estão muito bem escondidos e no caso de pensar ter um pela frente assegure-se que não está a ser vitima de leitura fria. A evidência acerca de poderes psíquicos ficou reduzida a evidência anedótica.

Um outro aparte ainda antes de explicar as várias técnicas da leitura fria. A investigação no terreno e aquisição de informação através de outros meios físicos que não em frente-a-frente é chamado por brincadeira de “leitura quente”. Existem testemunhos de que a leitura quente e o trafico de informação entre mediuns, videntes e astrólogos existe, mas este “post” não é sobre isso.

Criar um ambiente propício.

Embora não seja indispensável, já que a leitura fria pode ser feita pela rádio, por email, em programas ao vivo, etc., a leitura a frio beneficia muito da colaboração do sujeito a ser "lido", por isso um conjunto de mecanismos de sugestão e capazes de propiciar a colaboração são utilizados se possível. Criar empatia e mostrar simpatia, fazer as pessoas sentirem-se bem recebidas e confortáveis, dizer que muita gente importante recorre a videntes ou astrólogos (ou o que seja) e que já ajudou muita gente a resolver problemas, decorar o ambiente apropriadamente (não esquecendo uns quantos livros sobre o assunto à vista e uns símbolos adequados aqui e ali), etc. são os aspectos a considerar.

Os pontos chaves.


1 - A arte do elogio.

É por aqui que se deve começar. O poder de dizer às pessoas o que elas querem ouvir vai não só manifestar-se na predisposição certa para o resto da sessão, como causar a percepção de “tiros na mouche” quase garantidos. As qualidades sugeridas a mencionar são: personalidade equilibrada, sentido de ética, honestidade, responsabilidade, educação, simpatia, criatividade e intuição (e que seria capaz até de ser um bom astrólogo/vidente/medium)/etc). São coisas que quase todos achamos que fazem parte de nós e que temos  em doses acima da média. Tal como grande sentido de humor. Não se pode no entanto atirar isto a seco. É preciso ir metendo a coisa no meio do jargão tipico da pseudociência escolhida, para dar credibilidade à cena. Algo como:

“Nasceu sob o signo da balança e posso ver como tem uma personalidade equilibrada, tipico dos balança, mas no seu caso mais marcada ainda por um forte sentido etico e de dever, devido à influencia de jupiter na quinta casa, e blá, blá, blá.”

Não vem na bibliografia consultada mas eu arriscaria ainda a inteligência entre essas qualidades, ja que como Descartes dizia “ a inteligência parece ser a coisa mais bem distribuida do mundo pois ninguém parece queixar-se da pouca que tem”.

Há, e não esquecer fazer um elogio à mente aberta.

2 - Afirmações duplas (e contraditórias) ou como diz o povo, “dar uma no cravo e outra na ferradura”.

Para tirar partido do facto das pessoas notarem mais o que lhes faz sentido do que o resto, é boa tecnica  dizer uma coisa e o seu oposto de uma assentada. É uma das tecnicas mais importantes e mais usadas.

Se por um lado a tendencia das pessoas é só "ouvirem" o que interessa, por outro lado a maioria das caracteristicas da natureza humana podem de facto manifestar-se de maneiras diferentes em diferentes alturas. Desde que não se quantifique e se especifique demasiado, a coisa vai soar bem. Claro que, como sempre, deve ser bem embrulhado no jargão tipico da pseudociência em causa.

Os traços de personalidade a abordar são os “grandes 5”: A abertura, a escrupolusidade, a extroversão, a sociabilidade e o neoroticismo. Como se disse o que se faz é dar uma no cravo e outra na ferradura:

“A mensagem que estou a receber é de que é uma pessoa muito sociável e que preza a amizade mas por vezes prefere dedicar algum tempo a si própria ou passar o tempo na companhia de um bom livro”. Ou “ Apesar de ser uma pessoa criativa e com muita imaginação é bem capaz de ser pragmática e terra-a-terra noutras alturas quando se torna necessário.”

Os anglófonos chamam a isto popularmente “rainbow ruse”. Não há como errar. São “hits” garantidos.

3 - Fazer afirmações vagas e tiros de caçadeira.

Afirmações vagas são afirmações que podem ser interpretadas de diversas maneiras ou são tão abrangentes que provavelmente incluiem uma ponta de verdade algures.

O leitor pode ainda pedir à pessoa que está a ser “lida” que o ajude a fazer sentido com as imagens que está ter e pode depois ir aumentando a especificidade do que diz:

“Estou a ver uma viagem, talvez pessoal ou de alguém próximo, está a ver a me refiro?”

“Tenho aqui alguém que quer falar contigo, parece-me um homem, um familiar, talvez um avô ou um tio, ou um amigo da familia...”

“Estou a ver uma coisa vermelha, talvez um lenço, talvez uma camisa... Estou a ver alguém a mexer nela, isto faz sentido para ti? “

Ou então afirmações completamente abstractas: “estou a ver um circulo a fechar-se, sabes a que se refere?”. Alguns leitores a frio conseguem acertar em coisas que nunca chegam eles próprios a saber o que são! Mas um “hit” é um “hit”.


No "tiro de caçadeira" isto é conseguido com muitas propostas feitas de uma só vez em vez de uma só abrangente. É como se fossem vários tiros de uma vez. Por exemplo, o classico:






“É uma pessoa que se chama algo como Sara, Lara, Luisa, Salomé, Sandra... Sim, Sandra não é? Era uma amiga próxima, da familiar talvez, ou alguém que, sim era a avó, claro que consigo ver claramente que era a avó, é uma pessoa já com alguma idade, mas com um ar muito afável...”


Nota: Ocasionalmente pode-se avançar com uma afirmação especifica. Se acertar, porreiro, é algo que ninguém esquece tão cedo. Se falhar, é minimizar a coisa, e passar à frente. Não será lembrado. Há ainda uma terceira técnica que consiste em insistir numa afirmação algo especifica e se vai insistindo até a que pessoa seja capaz de encontrar algo na sua vida a que ela se possa referir. O Ian Rowland chama-lhes “Push Statements”, ver tecnica 6,

4 - “Fishing and forking”: Andar à pesca e ramificar.

Andar à pesca é como o tiro de caçadeira mas mais lento. Largar perguntas com mais calma e observar a reação das pessoas. É o atirar a barra à parede a ver se pega.  Depois de pegar não largar e aprofundar. Agir como se se tivesse sempre tido isso em mente.

Enquanto não há nenhum sinal  de se ter acertado muda-se de tema, ramifica-se, e vão-se deitando mais umas hipoteses para o ar.

O sinal de se ter acertado pode vir conscientemente ou não, mas pode-se contar com ele. Toda a gente faz isso normalmente numa conversa se não tiver atenção especifica para não o fazer - e não é preciso pensar em algo complexo como o que se passa no pocker - uma pessoa pode por exemplo ir abanando a cabeça negativamente muito suavemente até  de repente parar e lançar um sorriso quando ouve a coisa certa, ou manter uma expressão tensa e relaxar de repente, etc. O que é certo é que as pessoas reagem quase sempre quando é dito algo com significado. Esta é a razão pela qual muitos videntes preferem estar a segurar a mão da pessoa - ajuda muito. Mas muitas pessoas vão mantendo o diálogo aberto, mesmo verbalmente. E a leitura a frio é isso mesmo. Um diálogo. Mas um que as pessoas não notam que estão a contribuir significativamente.

Esta é uma das técnicas mais importantes da leitura e frio e a usada mais vezes em espectáculos televisivos do género.

Por exemplo, o leitor a frio pode dizer “Ele está a apontar para o peito, talvez pulmões ou talvez mais abaixo, o estômago, ou...” ao que a pessoa interrompe “sim, morreu de ataque cardíaco” e o leitor continua, fazendo sua a resposta dada, como se tivesse sempre sabido de que era assim: “sim, morreu de ataque cardíaco, está a apontar para o coração, e....”


5 - A Ilusão da originalidade. Efeito Forer.

A maior parte de nós não sabe o suficiente sobre uma data de coisas em que afinal somos todos iguais. Ou quase. E sente no seu intimo que ninguém é realmente como si próprio. O tipo de coisas que nos levam a achar que somos excelentes condutores, que temos um sentido de humor acima da média levam-nos a achar que de certo modo somos únicos e especiais. Mas aqui a tecnica em questão não é o elogio para conseguir acertar, mas dizer aquelas coisas que dizem qualquer coisa a quase qualquer pessoa. O dom especial que era admirado quando eramos crianças e que nunca desenvolvemos, a caixa das fotografias desorganisadas, a peça de roupa que se rasgou ou o salto do sapato que se partiu num altura inconveniente, etc. Existe uma lista deste tipo de coisas prontas a usar aí pela Internet. E raios, como é que eles sabiam que eu tinha ainda guardada aquela chave de já nem sei o que é que abre?

E há sempre os dados estatísticos para aumentar as probabilidades de acertar só por saber a idade, o género, as tendências actuais, a classe social, etc.

O efeito Forer, que é o efeito em causa nas “afirmações tipo Barnum”, é então tirar partido deste sentimento de originalidade e da tendência de dar sentido especifico e pessoal a afirmações vagas. É a tendência das pessoas acharem que algo é com elas.

Muitas vezes as afirmações tipo Barnum aparecem numa classe à parte nas tecnicas de leitura fria e em vez da ilusão de originalidade. Eu segui a classificação do Prof. Richard Wiseman. Distingue-se da técnica do tiro de caçadeira porque não é tanto o carácter geral da afirmação que lhe dá o “hit”, mas o facto da pessoa lida percepcionar algo na afirmação como uma coisa única referente a si ou à sua vida.

Para além dos exemplos anteriores, posso acrescentar algo como: “estou a ver muita gente preocupada com uma doença ou acidente na sua infância, mas depois estão todos aliviados, foi só susto não foi? Não era assim tão grave mas na altura todos estavam muito aflitos.”

6 - Transformar limões em limonada. A arte de fazer o falhanço se transformar num “hit”.

Conforme se vão dizendo asneiras, é preciso ir reagindo apropriadamente. Falhou, é passar rapidinho à frente:

“Não. Claro que não, não me parecia mesmo, nem era nada o seu género que é uma pessoa tão recatada” ou “Não? Pois, bem me pareceu, mas era para tirar aqui uma coisa a limpo, continuando,”.

Mas existem mais estratégias e nem todas servem para as mesmas coisas. Outra estratégia será ir aumentando a inespecificidade da afirmação, tipo de uma viagem ao Porto passar para uma viagem ao norte até ser apenas uma viagem a uma outra cidade. Outra ainda é dizer que era uma afirmação metafórica, que por exemplo no caso da viagem não queria dizer viagem no sentido físico. Explicar por exemplo que se podia referir a uma alteração no curso da vida ou uma experiência. Há um grande numero de fugas e correcções possíveis.

Como no “push statement”, o executante da leitura a frio pode mesmo manter-se relativamente agarrado ao erro e insistir nele até que a outra pessoa faça sentido dessa frase. Se finalmente a pessoa descobrir qualquer coisa em que essa afirmação possa encaixar é um êxito extra ordinário já que dá a sensação que era algo que nem o próprio estava a compreeder. Como já referi, podemos quase sempre confiar na capacidade das pessoas de verem significados e pormenores pessoais em coisas que não têm nada a ver consigo. Às vezes é só insistir, já que se pedirmos para que percam tempo com isto se fazem verdadeiros milagres. Se não funcionar, pode-se sugerir que pode ter sido com uma pessoa próxima e/ou mandar ir pensar para casa porque alguma coisa deve ser, ja que “estou a ter uma imagem tão forte de...”. Dentro de umas horas será esquecido. Ficará apenas na memória o que estava certo. Como em tudo o resto.

O alegado psíquico pode ainda fazer um sumário da sessão mesmo antes de finalizar relembrando todos os “hits, o que vai fortalecer ainda mais a tendência para memorizar os resultados positivos, passando uma borracha psíquica sobre todas as tentativas que falharam.

O Ian Rowland sugere que em casos extremos de pessoas desconfiadas e quando a coisa começa a entornar se pode fazer uso das falácias conhecidas mas usálas ao contrário: Apelos para a ignorância, para “wishfull thinking” e explicar como “uma mente aberta pode tornar todos muitos mais felizes”. Ele acrescenta que muitos alegados psiquicos quando a coisa começa a complicar ainda mais eles podem dizer algo como “existem muitas coisas a bloquear como isto e aquilo e a leitura não vai funcionar consigo” e devolver o dinheiro prontamente.

Acabamentos extra.

O mesmo Ian Rowland acrescenta uma série de outras técnicas, não mencionadas pelo Richard Weiseman de que eu penso valer a pena a menção de pelo menos três:

1 - Afirmações não falsificáveis, ou seja, que não podem errar por serem do tipo: “deve” ou “deverá” como em “deve ter cuidado com a sua saúde”.
2 - Dizer às pessoas o que elas querem ouvir. Mas sem ser o elogio. Tipo: “vai tudo correr bem”.
3- Profecias que se cumprem a elas próprias (pelo menos enquanto forem lembradas que é o que interessa), por exemplo: “Vai passar a ter mais cuidado com a alimentação”

BIBLIOGRAFIA:

Ian Rowland, The Full Facts of Cold Reading
Richard Wiseman, Paranormality (no qual vem sugerida a leitura do livro de Rowland para saber mais sobre cold reading).
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